sexta-feira, 7 de outubro de 2016

BCE e os enigmas da sua política...


1.     A República Italiana emitiu na última 3ª Feira, pela primeira vez, dívida ao prazo de 50 anos e com grande sucesso: colocou € 5 mil milhões, obtendo uma taxa de juro média de 2,8%, tendo recolhido ordens de subscrição no montante de € 18,5 mil milhões.

2.     O sucesso da operação surpreendeu mesmo os analistas de mercado, que esperavam dificuldades na colocação desta emissão, considerando os riscos associados à precária situação do sistema bancário italiano bem como à incerteza quanto ao resultado do referendo constitucional agendado para Dezembro, susceptível de fragilizar a posição do 1º Ministro reformista.

3.     Este episódio constitui uma boa ilustração dos resultados da política monetária altamente expansionista que tem vindo a ser prosseguida pelo BCE e que tem contribuído para o esmagamento das taxas de rendimento (yields) das dívidas públicas - e não só – facilitando, até ao extremo, o endividamento público.

4.     O BCE argumenta, entre outras razões, que pretende dar tempo aos governos dos países Euro para que adoptem as reformas estruturais necessárias para reforçar as condições de crescimento das economias.

5.     Parece cada vez mais evidente, todavia, que as enormes facilidades no acesso ao mercado de dívida pelos governos, em lugar de estimular as reformas – que envolvem custos políticos, como bem sabemos - está contribuindo para as adiar, sine die (quando não mesmo para as reverter)…

6.     Por outro lado, esta política do BCE tem vindo a esmagar as margens financeiras dos bancos, de uma forma geral, que já quase não cobram juros ás empresas de bom risco (emissões de papel comercial com taxas próximas de zero são hoje correntes), forçando-os  a quase não remunerar os depósitos a prazo e empurrando-os para zonas de risco de crédito cada vez mais elevado na tentativa de salvar a conta de exploração…

7.       …tudo isto, em simultâneo com solenes recomendações aos bancos para que resolvam os graves problemas pendentes das suas carteiras de crédito (Non Performing Loans ou NPL’s,  na gíria do negócio).
        8.   Enigmática, mesmo muito enigmática, a política do BCE.

18 comentários:

  1. Acho que os pouco inteligentes senhores do BCE estão convencidos que, qualquer que sejam as circunstancias a sua burrice poderá ser corrigida. Acontece, porem, que se juntarmos a sua fúria impressora com a fúria reguladora, a verdade é que os bancos estão sem possibilidade de trabalhar. Pior, já há um par de anos que a banca de retalho deixou de ter qualquer interesse.
    Há uma série de novas tecnologias que permitem ultrapassar com facilidade a necessidade de um banco central e, algumas, os substituem com muita vantagem. Pode ser que o Sr, Draghi, quando der por ele, esteja a trabalhar apenas para dentro do banco....

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  2. O enigma desvela-se quando se sabe a apetência tida pelas reengenharias financeiras dominantes na catedratice doutoral. Como Thomas Sowell explicou:

    • «Quando o Sistema de Reserva Federal começou a criar centenas de bilhões de dólares do ar, eles chamaram de 'quantitative easing' da oferta de moeda.
    Quando isso não funcionou, eles criaram mais dinheiro e chamou-lhe 'quantitative easing 2' ou 'QE2'," em vez de dizer: "Vamos imprimir mais dólares - e espero que funcione desta vez". Mas já há muito de dinheiro sentados ao redor ocioso em bancos e empresas...»
    • «A religião econômica keynesiana dos velhos tempos sempre diz que a única razão pela qual a criação de mais dinheiro não funcionou é porque ainda não foi dinheiro suficiente criado. Para eles, se QE2 não funcionou, então precisamos QE3. E se isso não funcionar, então teremos QE4, etc. »

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  3. Caro Dr. Tavares Moreira,
    Obrigado por mais esta interessante análise.
    Apesar de enigmática, parece-me até certo ponto necessário que o BCE adopte uma política de "apoio" aos governos.
    Talvez a necessidade de reforma estrutural deva ter início nas políticas dos bancos, acompanhada pela necessária dos governos.
    Parece-me muito difícil para qualquer governo de qualquer pais europeu, adoptar qualquer tipo de reforma estrutural capaz de o conduzir ao restabelecimento da economia. Estes países economicamente mais débeis e a necessitar de emitir dívida pública, tentam somente manter em funcionamento as suas estruturas estatais e cumprir as suas obrigações financeiras externas. O esforço constante para atrair investimento privado está a demonstrar-se completamente infrutífero. Quanto maior é a dívida pública dos países, mais necessário se torna o aumento dos impostos e menor é o estímulo para que o investimento ocorra na medida das necessidades económicas e financeiras dos países. Estamos num impasse que me parece difícil de ultrapassar e que está entretanto a deixar um rasto de destruição nas economias e a gerar uma impossibilidade de recuperação a curto e médio prazo.

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  4. Anónimo14:12

    Caro Bartolomeu, quando vierem os resultados desta política demencial levada a cabo pelo BCE mas também pelo BoJ e pela Fed não sei se continuará a achar que foi boa ideia. Em 2008 havia duas ou três classes de activos com problemas. Neste momento há múltiplas classes de activos em bolha que pode rebentar a qualquer momento e, em simultâneo, dado os yields tão baixos em tudo, o risco está disseminado por todos os agentes económicos dado todos estarem a correr riscos excessivos em busca dumas míseras décimas de ponto percentual. Isto à escala global! Há várias categorias de activos que podem rebentar a qualquer momento e há risco por todos os lados e mais alguns. Quando rebentar (e qualquer coisa pode ser o catalizador) vai ser o fim do mundo ao pontapé. E isso, meu caro, dever-se-á exclusivamente à política demasiado complacente dos bancos centrais aliada à incapacidade reformista nos países mais frageis. A débacle do sub-prime deveu-se em larga medida à acção da Fed em resposta à crise de 2000. O que aí vem será muito maior. Incomparavelmente maior, mesmo.

    Giro será, porém, que uma vez mais se assacarão os males ao capitalismo e à economia de mercado quando hoje em dia, nos países ocidentais, a base da economia de mercado e do capitalismo, a formação de preços, está totalmente inquinada e nas mãos de burocratas académicos. Capitalismo e economia de mercado muito pouco já.

    Já agora permita-me uma notinha mais. Diz o caro Bartolomeu que "O esforço constante para atrair investimento privado está a demonstrar-se completamente infrutífero.". Perguntinha capciosa minha: em Portugal onde está esse esforço? É que o que vejo é um enorme esforço para afugentar os poucos tarados que ainda se expunham ao risco de investir em Portugal! Esforço esse devidamente reconhecido com a queda desenfreada da República nos rankings de investimento. Os protegidos da corte, esses, continuarão sempre presentes em defesa dos seus previlégios. Agora como sempre no passado.

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  5. Anónimo14:59

    Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Anónimo15:04

    Caro Tavares Moreira, se o que descreve se cingisse apenas aos bancos muito mal não iria a coisa. O grande problema é que seguradoras, fundos de tudo e mais alguma coisa incluindo fundos de pensões, enfim, investidores em geral e pelo mundo todo estão a ser empurrados "para zonas de risco de crédito cada vez mais elevado", como expõe no ponto 6 do seu post. Sendo que os valores a que hoje em dia nos referimos são substancialmente superiores àqueles que existiam em 2008.

    Sobre o início do seu post, no dia 4 último, numa correspondência que mantenho com alguém foi precisamente tocada essa questão de Itália ter emitido bonds a 30 anos com a procura a quadruplicar a oferta. Demência, desde onde vejo tudo isto mas é o novo normal. Se até Portugal e o Sri Lanka conseguiram emitir dívida a 30 anos porque é que a Itália não poderia emitir a 50?

    Vivem-se tempos muito, muito, muito loucos.

    Se nos cingirmos apenas a Portugal e à banca Portuguesa que, claro, dá ideia de estar toda meio de pantanas, aí parece-me haver algo mais em acção e com a história BANIF o meu parecer consolidou-se um pouco mais. Dá-me ideia que há a intenção pensada e deliberada de acabar com bancos Portugueses, isto no âmbito duma grande consolidação bancária Ibérica e Europeia. O que não é de admirar dado os agentes económicos Portugueses estarem todos muito descapitalizados e ninguém ter dinheiro para um banco realmente forte e vencedor ao nível Europeu. Espanha é o comprador natural, primeiro por ter algumas entidades realmente fortes e, segundo, porque o processo de consolidação da banca Espanhola aconteceu há 20-30 anos tendo todo esse processo mais do que amadurecido entretanto.

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  7. Caro Zuricher,
    No meu anterior comentário não afirmei ser boa a politica do BCE, mas sim, necessária.
    Se o é na realidade, talvez a saída da Inglaterra da UE, o vá confirmar.
    De resto, relativamente ás profecias que expõe, nada se me oferece acrescentar.
    Quanto à "perguntinha capciosa" e acentuando a sua própria conclusão; O esforço encontra-se "Agora como sempre no passado." numa politica propagandista, sorealista, denunciada por Ricardo Salgado quando sujeito ás comissões de inquérito parlamentares e referiu com todas as letras que o BES subsidiava as campanhas politicas desde o PSD ao PCP.

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  8. Caro Pires da Cruz,

    O que diz em relação à precária situação dos bancos de retalho, em especial na Europa (zona Euro), pode ser ilustrado pelo baixíssimo valor que o mercado atribui, presentemente, às acções representativas do seu capital.
    De uma forma geral, essas acções cotam a menos de 50% do respectivo valor contabilístico e, em Portugal, há preços abaixo de 25% do valor contabilístico...isto dá que pensar quanto ao que hoje vale o negócio bancário.
    Para isto concorre também a formidável carga regulatória, manifestamente excessiva, excesso curiosamente denunciado num recente (e excelente) trabalho de alguns colaboradores do próprio BdeP, em que se destacou o Dr. Rui Cartaxo.
    Estaremos perante um daqueles casos em que o doente, não tendo morrido da doença - alguns morreram mesmo, como bem sabemos - morrerão por certo da cura...

    Caros Bartolomeu e Zuricher,

    Tenho a percepção de que a intenção do BCE foi a melhor, quando se lançou nesta epopeia monetária, simplesmente os resultados estão a trair essas boas intenções na minha opinião e creio que o BCE vai ter imensa dificuldade em sair da armadilha que criou a si próprio, vamos a ver...
    E os riscos associados à formação de bolhas especulativas, em algumas classes de activos financeiros, como assinala perspicazmente o Zuricher, não é nada despiciendo.
    Um "mundo", como a zona Euro, em que as taxas de rendimento de uma considerável fatia das dívidas que se cotam em mercado, apresentam valores negativos, apresenta riscos enormes.
    E a verdade é que as reformas estruturais marcam passo, as economias continuam pouco mais do que anémicas (com honrosas excepções, como nos casos da Espanha e da Irlanda), e o BCE pode ver-se forçado a prolongar esta política, por tempo indeterminado, face aos efeitos desestabilizadores que um plano de tappering pode desencadear...

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  9. Caro Tavares Moreira,

    Preocupante é o que me apraz dizer em primeiro lugar.

    Em segundo lugar, que quanto mais os estados "mexem" na economia piores os resultados. Para os estudiosos, retiro que a intervenção de uma entidade supra nacional parece ter efeito contraproducente num regime em que os estados "mexem" (e viciam) tanto na economia. Na minha perspectiva, não é nada que não se esperasse.

    Para concluir, só com uma mão muito firme e honesta é que a situação poderá melhorar.

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  10. Caro Alberto Sampaio,

    A expressão preocupante parece bem ajustada a esta infeliz realidade.
    Simplesmente, a preocupação que exprime e que é partilhada por muita gente bem intencionada, nesta fase já de pouco nos pode valer, até porque existe uma grande "constituency, com poder de decisão, a quem convém obviamente que se continue a laborar no erro.
    Confesso-lhe que não estou a entender como vamos sair disto, sem passarmos por uma nova e grande perturbação.

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  11. Excelente post, caro Tavares Moreira.
    Realço a seguinte passagem: "...parece cada vez mais evidente, todavia, que as enormes facilidades no acesso ao mercado de dívida pelos governos, em lugar de estimular as reformas – que envolvem custos políticos, como bem sabemos - está contribuindo para as adiar, sine die (quando não mesmo para as reverter)…".
    Na mouche, no que a Portugal e ao governo da geringonça respeita.

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  12. Pois é. É uma maçada que o BCE não alinhe na estratégia do "bota abaixo" dos PàFiosos do PPD.

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  13. Tal como já foi dito, o bce está a linhas, talvez sem querer, na politica de ruína de certos governos como o que Portugal tem actualmente. Sempre a empurrar os problemas com a barriga.

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  14. "a alinhar" e não "a linhas"

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  15. Caro Pinho Cardão,

    Registo e agradeço o cumprimento.
    É bem visível, no caso em apreço, a contradição em que a política do BCE está mergulhada: facilitando até ao extremo a emissão de dívida pelos países, com a justificação de lhes dar tempo para realizar as decantadas reformas estruturais...quando essa reformas são revertidas, continua a facilitar-lhes a emissão de dívida!
    Não é preciso dizer mais nada, não vamos longe assim.
    A que ponto as boas intenções do BCE estão sendo deturpadas!
    E, mesmo assim, vejamos como têm subido, nas últimas semanas, as yields da dívida lusa...alargando, generosamente, o spread frente à dívida alemã, que se aproxima dos 400 pontos!

    Caro Alberto Sampaio,

    O BCE está, sem intenção, a tornar-se cúmplice de erros graves de política; os riscos reputacionais desta aventura monetária, se não for corrigida em tempo, não são nada despiciendos...

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  16. Caro Tavares Moreira,

    Correndo o risco de estar a ser injusto com o Banco de Portugal e com o relator do Livro Branco (deduzo que fosse este o trabalho de que falava), até porque a leitura que fiz foi longe de ser atenta, a minha humilde opinião ao ler o relatório é: Querem acabar com os bancos centrais? Sim, é esse o caminho.

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  17. Caro Pires da Cruz,

    E exactamente esse o documento citado que, na minha opinião, merece ser lido com boa atenção - se o puder fazer, creio que dará o tempo por bem utilizado.
    Quanto a conclusões, cada qual tirará as suas....

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  18. Não sei qual o espanto. É tudo uma maneira de fazer dinheiro sem fazer a ponta de um chavo.

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