terça-feira, 31 de julho de 2012

Ora...

A tarde não ia mal, até que surgiu a jovem rechonchuda cheia de tatuagens mal feitas e sem gosto. A certa altura do exame comunicou-me que estava grávida. Na semana passada fui à médica que disse que estava de quinze semanas, então, agora está com dezasseis. Hum, pois, deve ser. Ao levantar-me para a examinar passo pela cadeira onde se tinha sentado e vejo um pequena carteira, um telemóvel e um maço de cigarros preto, John Player Special. Desculpe-me, mas a senhora não fuma, pois não? Fumo. Fuma? Grávida? Mas isso não é aconselhável. Eu sempre fumei, ripostou. Foi então que tive de argumentar, tentando proteger a saúde da criança, explicando-lhe os riscos e a falta de respeito pelo filho. Quanto a si não tenho nada a dizer, fume ou não fume o problema é seu, mas quanto à criança tenho o dever de a proteger. Devo ter ficado com cara de poucos amigos e tinha razão para isso. Fiquei visivelmente incomodado e a jovem não deve ter gostado nada da conversa. Que se lixe, pensei. Saiu e continuei a minha atividade consultando outra pessoa, no final lembrei-me que não tinha pedido a assinatura de um documento à jovem grávida. Pedi à secretária para ver se a senhora ainda estava, não, já saiu, mas pode ser que esteja lá fora. Foi ver. Passados poucos segundos entrou e disse-me, está ali, senhor doutor. Por que é que não lhe disse para voltar, a fim de assinar a ficha? Eu disse-lhe, mas está a fumar um cigarro, depois de acabar eu vou lá. Ela disse isso? Disse. Ora porra! As restantes pessoas que estavam na sala entreolharam-se perante a minha exclamação. Não expliquei a razão e nem tinha que explicar.
Ora porra!

Subida do desemprego: um drama inevitável?

1. Drama e inevitabilidade de mãos dadas - assim se pode qualificar o fenómeno de desemprego crescente, oficialmente registado, em Portugal e noutros países periféricos da precocemente gerada zona Euro...
2. O Eurostat acaba de anunciar os números de Junho, mantendo-se o nível “record”, de 11,2% da população activa, em média, que a taxa de desemprego tinha atingido já em Maio.
3. Em grande evidência estão os chamados países periféricos, com a Espanha e a Grécia muito destacadas – 24,8% e 22,4%, respectivamente – vindo a seguir Portugal com 15,4% e a Irlanda com 14,8%...
4. O que dizer deste lamentável fenómeno? A muita gente não ocorrerá que o que está a acontecer estivesse desde há muito escrito nas “estrelas”...já aqui referi uma intervenção que fiz em plenário da AR, aí por 2003/2004, na qual afirmei que a não ser prosseguida uma política de rigor na gestão das finanças públicas com o objectivo de corrigir os desequilíbrios económicos já então muito acentuados, acabaríamos por chegar a uma taxa de desemprego de 2 dígitos...
5. ...intervenção que foi recebida com reacções jocosas de uma parte do hemiciclo, chegando um conhecido deputado, mais tarde membro de um dos governos socráticos, num à parte bastante sonoro, a apelidar essa intervenção de “discurso do passado”...estávamos nessa altura com uma taxa de desemprego em torno de 6% da população activa...
6. A verdade é que o excesso de despesa em que a economia portuguesa viveu anos a fio, desde pelo menos 1997, em boa parte alimentado por gastos excessivos do sector público, ajudou a criar e expandir toda uma série de actividades, sobretudo no domínio dos serviços e do comércio – restauração, cafetarias, serviços de saúde e beleza, de limpeza, comércio a retalho, etc, etc – todas de mão-de-obra intensiva, que, quando a crise financeira se abateu sobre a economia, começaram a desaparecer como espuma batida pelo vento.
7. Acrescentemos a isso o sobredimensionamento do sector da construção e obras públicas, este alimentado por uma política de crédito bancário inacreditavelmente generosa, que o elevou a um nível de endividamento absurdo, o qual tem sofrido quebras acentuadíssimas da produção devido à semi-paralisia do mercado de habitação e à redução drástica das obras públicas – e também ele mão-de-obra intensivo.
8. Os sectores citados em 6 e 7 têm sido os grandes alimentadores do desemprego, a que se somam muitas indústrias situadas a montante do sector da construção civil e obras publicas que viram o seu nível de actividade entrar em queda abrupta, arrastadas pelo colapso daquele sector...
9. O desemprego é, sem dúvida, uma chaga social que urge combater...mas o combate mais eficaz teria sido não incorrer nos imensos disparates de política económica e financeira cometidos ao longo de anos a fio, tendo atingido quase o delírio nos 6 anos que antecederam o terrível acordo com a Troika...
10. Tendo abdicado desse combate, o desemprego tornou-se agora tão dramático quanto inevitável...

Dívida pública: resumindo e concluindo I

Resumindo e concluindo:
A crise portuguesa deve-se aos especuladores internacionais. Por isso, não lhes devemos dar tréguas; pelo contrário, devemos atacá-los e feri-los de morte. Com mais despesa pública, base de uma poderosa Agenda para o Crescimento. Não nos financiam? Mas, então, como irão sobreviver sem Portugal?

AUSTER IDADE

Mal ou bem, cresci no seio de uma família em que a austeridade era um valor superior, uma qualidade, um princípio de vida em comum que não se confundia nem com a avareza, nem com a ostentação. Por isso, é com alguma incomodidade que vejo transformado o termo num sinónimo de punição, de empobrecimento, de asfixia do crescimento, de quase retrocesso civilizacional. Esta inversão semântica diz muito da profunda e consolidada alteração do sistema de valores nas sociedade ocidentais que parecem ter sucumbido perante o materialismo consumista que uma mal entendida modernidade promoveu. A fé iluminista do século XVIII num progresso incessante, inevitável e irreversível moldou essa ideia de modernidade em que as crises económicas tenderiam a desaparecer pela planificação ou pela acção reguladora do Estado, em que à sociedade assente no trabalho, se sucederia a "sociedade do ócio e dos lazeres", em que as desigualdades sociais seriam progressivamente atenuadas e convergentes numa omnipresente classe média. Foi essa ilusão do progresso que nos fez esquecer e abdicar de alguns valores sociais estruturantes da vida em comum. Isso retirou-nos capacidade de lidar com a adversidade e de compreender que a riqueza colectiva e o bem-estar não são conquistas irreversíveis, principalmente quando esquecemos os seus fundamentos. Já há quem anuncie uma nova "Era da Austeridade". Não sendo tão pessimista, subscrevo a preocupação do articulista do NYT, quando fala da necessidade de encontrarmos alternativas inovadoras ao catastrofismo conservador.

Relatório das PPP's e Concessões

Ainda que um pouco atrasado na sua publicação, aqui fica a ligação para o Relatório das PPP's. Especialmente dedicado aos defensores da "despesa virtuosa".

Dúvidas (nata)físicas

Enchi-me de complexos a ver hoje as provas de natação nos jogos olímpicos, logo agora que estava tão orgulhosa de conseguir fazer 40 piscinas de 25 m em menos de uma hora (com muita persistência, reconheço), mas fiquei com a dúvida se era justo um matulão com 2,03 metros de altura competir com outros de estatura normal, claro que ganhou, apesar de tudo cada braçada dele vale por dois! Cá em casa dizem-me que não, que também tem que arrastar mais peso, talvez a física explique a justiça da questão, mas assim só de olhar acho que devia haver um escalão só para gigantes!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O peso das medalhas...

Não é a primeira vez, nem será, por certo, a última. Colocar as expectativas demasiado elevadas, fazendo da vitória uma tábua de salvação não pode dar bom resultado. A ambição é necessária, mas a sua gestão sobre quem lhe pode dar rosto não é indiferente. Há toda uma questão de imagem, inclusive do país, que não escapa ao compromisso e entusiasmo. Talvez seja demasiada a carga que é colocada num atleta ou numa equipa, em particular quando a equipa é reduzida e os bons resultados estão centrados em poucos atletas. É o nosso caso. O stress provocado pela responsabilidade pode ter um efeito contraproducente. Não sabemos o que correu mal. Questiono-me se os nossos atletas para além da preparação física e técnica recebem também preparação psicológica para disporem de mecanismos de defesa que lhes permitam lidar equilibradamente com as dificuldades que a alta competição coloca. Certo é que Telma Monteiro, uma das melhores judocas do mundo, foi eliminada no primeiro combate. Em Pequim, não conseguiu também chegar ao pódio das medalhas. Fez naturalmente o seu melhor, esforçou-se, não correu bem, desiludiu, mas não ganhamos nada em exagerar…

O medalhão!

No dia 19 de julho escrevi um texto sobre Bernardo Torres. Hoje, depois de ter visto passar o meu companheiro de loucura, que ia estranhamente calmo, fui ver se o belo medalhão de cerâmica com a sua figura ainda estava deitada no chão. Estava. Ninguém o tinha levado.
Contei esta história a uma colega que me disse, por que é que não a trouxeste? Quem sabe se não seria a sua alma a querer que ficasses com a imagem, já que a sua memória foi votada ao desprezo. Com estas palavras na cabeça, fiquei tentado a ir novamente ao cemitério e retirar o pequeno e belo medalhão. Acabei de almoçar. Fui até lá. O cemitério estava às moscas, e o medalhão, desprezado no chão, sem a dignidade que merece, ali à minha inteira disposição. Percorri o cemitério e vi um funcionário a descansar. Boa tarde, boa tarde,respondeu-me o senhor, revelando uma nítida tartamudez. O senhor é capaz de vir comigo, gostava de lhe mostrar uma coisa. Com certeza. Levantou-se e seguiu-me. Está a ver isto ? É a fotografia do senhor. Sabe quem foi o senhor? Olhe eu também não sabia, mas agora já sei e expliquei-lhe quem era. Uma pessoa importante. Sim e que merece respeito. O senhor pode voltar a colocá-la no memorial? Para reforçar o pedido uma nota de dez euros voou-me das mãos sem dar conta. É para a cola, disse-lhe. Volto na quarta-feira e gostava de a ver no sítio. Tartamudeando, respondeu, pode ter a certeza que assim que chegar ao portão já está a ver a imagem no seu sítio. Assim o espero. Vou já tratar disso.
Assim o espero. Não fico com o medalhão desprezado, mas fico com uma bela história para contar.
A propósito, perguntei-lhe, qual é a sua graça? PPau...lo. Muito bem Paulo, até quarta-feira.

Será que o pior já passou? Aguardemos...

1. Segundo dados hoje divulgados pelo INE, a confiança dos consumidores melhorou em Portugal, pelo 6º mês consecutivo, depois de ter atingido um mínimo em Janeiro do corrente ano: o valor do indicador, ainda bastante negativo naturalmente, passou de -57,1 em Janeiro para -50,4 em Julho.
2. Segundo o INE, a recuperação da confiança dos consumidores resultou de um contributo positivo de todas as componentes, mais expressivo no caso das perspectivas sobre a evolução da situação financeira das famílias.
3. E acrescenta o INE: “as expectativas sobre a evolução financeira das famílias têm vindo a recuperar desde Fevereiro, invertendo a trajectória negativa observada desde o final de 2009 e registando em Julho o contributo positivo mais acentuado para o comportamento do indicador de confiança”...
4. Refira-se ainda o saldo das perspectivas relativas à situação económica do País que tem vindo a aumentar desde o início do ano, invertendo a tendência descendente anterior.
5. O comportamento deste indicador de confiança e em particular das expectativas sobre a situação financeira das famílias e sobre a situação económica do País não deixará certamente de surpreender aqueles que diariamente assistem à torrente de comentários, em geral catastrofistas, debitados por N comentadores que, com solenidade variável, vão desfilando pelos órgãos de comunicação social, nomeadamente pelas TV’s que tanto apreciam relatar e pressagiar desgraças económicas e sociais...
6. ...para não falar nos discursos dos políticos que fazem oposição oficiosamente, os quais alegam com extremo denodo que tudo vai mal, que não há esperança possível...discursos que parecem estar a cair em terreno estéril...
7. Uma explicação de índole psico-social para este fenómeno de recuperação da confiança pode residir na diluição do “efeito de surpresa/susto” que os portugueses sofreram com o anúncio da aplicação do PAEF (não o anuncio inicial, absolutamente patético, do ex-PM, em que nada acontecia...) e, sobretudo, das medidas adoptadas no OE/2012...
8. ...o susto terá sido grande, mas os portugueses já se terão habituado ao novo cenário de austeridade, terão digerido os seus impactos mais adversos, adoptado medidas de ajustamento pessoais e começam agora a encarar o futuro com mais confiança, talvez admitindo que “o pior já passou”...
9. Só esperamos – e esperamos sinceramente – que tal susto não seja reaquecido pela proposta de OE/2013...aguardemos.

IRRACIONAL IDADE

Voltei a ler recentemente a tese da "irracionalidade dos mercados" a propósito da situação financeira espanhola com a mesma recorrência e intensidade que já constatara quando a Grécia, Portugal e a Irlanda evidenciaram o descontrolo e insustentabilidade das suas contas. Não sendo daqueles que defendem a tese de que os mercados são sempre racionais, considero o argumento da irracionalidade uma patetice ideológica que me tira do sério. Por acaso os que agora se queixam da irracionalidade dos mercados alguma vez vociferaram com a mesma indignação contra a irracionalidade da despesa pública, a irracionalidade do endividamento excessivo, a irracionalidade de quem gasta sabendo que não consegue pagar, ou da irracionalidade ostentatória de quem imita a riqueza alheia não tendo como a justificar. Chamem-me liberal que eu gosto. Mas não me venham com a treta da irracionalidade dos mercados. O que se torna evidente é que uma parte dos países europeus se endividou muito para além do que seria racional, considerando o seu limitado potencial de crescimento económico. Se a tudo isso acrescentarmos o recurso indisciplinado às engenharias financeiras e às práticas recorrentes de ocultação ou disfarce da despesa e da dívida, fica à vista de todos onde está a irracionalidade.

domingo, 29 de julho de 2012

Silêncios

A tarde de domingo já vai a meio. Chega o momento do ritual. Subo a encosta, palmilho velhas calçadas e não me cruzo com ninguém exceto com os meus pensamentos, cada vez mais silenciosos, cada vez mais tristes. Um silêncio debaixo do sol não é habitual, o silêncio só gosta de se manifestar sob o calor da lua, mas há momentos, a meio da tarde de domingo em que a lua e o sol se confundem. Momentos de silêncio. Sento-me a seu lado e só oiço o seu silêncio, um silêncio que perturba quem ouve e sente o estrebuchar de vidas. Hoje, naquele quarto mais pessoas foram visitar os seus, numa obrigação ou devoção, chamem-lhe o que quiserem, porque o rei e o senhor daqueles espaços é o silêncio, silêncio de almas que há muito abandonaram o corpo e o silêncio dos que sabem que ainda têm alma. Calados, todos. Um ou outro bocejo, como se o silêncio de corpos sem alma ainda fossem capazes de contagiar os sobreviventes. Olhar para um ponto distante e imaginário à espera de não sei o quê, algo que quebrasse o silêncio. Coçar a face como se os pelos crescessem mais depressa provocando prurido silencioso. Cabeças cabisbaixas, como se quisessem manifestar algum respeito pelo silêncio divino. Tanto silêncio. Não aguentei tanto silêncio e saí. Procurei um banco num espaço cheio de silêncios. Procurei sons. Ouvi o vento, um pardal e um cão a ladrar ao longe. O resto só o silêncio consegue ouvir. Eu não consigo, mas gostava de ouvir, talvez porque não tenha chegado a hora do meu silêncio.

Tratado da exploração pura (em dez medidas...)

Numa das mais demagógicas, desonestas e brutais (no sentido literal, por desprovidadas de qualquer base de racionalidade) propostas jamais efectuadas, a Intersindical apresentou dez medidas urgentes para salvar o emprego, anunciando marchas de protesto contra o desemprego, a começar em Braga, a 5 de Outubro, e a terminar em Lisboa, em 13 de Outubro. Entre elas:
a) No que respeita às empresas: implantação do horário de 35 horas semanais sem redução do salário, criação de um imposto extraordinário, gestão preventiva dos despedimentos (porventura a sua proibição por decreto), efectivação dos recibos verdes, aumento do salário mínimo e das prestações sociais. 
b) No que respeita ao funcionalismo: contratação de novos funcionários públicos e abandono da intenção de reduzir o seu número, efectivação de todos os recibos vedes.
c) No que respeita ao rendimento mínimo: impedimento do voluntariado aos destinatários
Claro que a Intersindical sabe que a implantação destas medidas só pode agravar o desemprego, pelo efeito devastador que teria sobre as empresas, em termos de produtividade e, consequentemente, de redução de vendas por efeito do preço, e de carga fiscal, com repercussão sobre o investimento. E sobre o Estado nem é bom falar, se para pagar ordenados está a recorrer ao apoio externo e à Troyca. A Intersindical sabe que o resultado destas medidas é empresas falidas, Estado em bancarrota, um número infindável de empregados sem salário, uma exploração em duplicado.
Mas é isso mesmo. A Intersindical alimenta-se disso mesmo. Quanto pior, melhor, para manter a dialética da exploração.
Ah, e a acção começa em Braga e termina em Lisboa. A Inter sabe o que faz.
PS: Claro que sou a favor de Sindicatos fortes, baluartes de defesa dos trabalhadores. Mas com ideias de futuro, não do passado e, sobretudo, do passado soviético.

É demais

Javier Esparza, neurocirurgião infantil, relata num editorial, no El País, a sua experiência de quarenta anos a tratar crianças com graves problemas, nomeadamente malformações do sistema nervoso central. A sua descrição da espinha bífida é dramática para todos, nomeadamente para as crianças, a ponto de perguntar se é ético obrigar um ser humano a sofrer tão violentamente. Esparza conclui que não, que não é ético, não é minimamente aceitável impor a alguém tamanho sofrimento. Ele sabe muito bem o que diz. O seu editorial prende-se com o facto de a corrente governamental pretender alterar a lei de aborto por motivos doutrinários. Nessa mesma edição, pode-se ler o relato de Gloria Muñoz a propósito da morte da sua filha que sofria de atrofia espinhal muscular tipo 1, que, aos setes meses de idade, após um sofrimento terrível, deixou de pertencer à humanidade. Gloria quer ter mais filhos. Sabe que corre riscos de lhe poder acontecer novamente, vinte e cinco por cento de probabilidade, mas admite que não tem pejo em abortar caso o filho sofra desta patologia.
Há dias, numa consulta vi uma jovem para efeitos de admissão ao trabalho. Das muitas perguntas que lhe fiz, recordo ter-lhe perguntado quantas vezes esteve grávida. Duas. Duas? Interrompi por momentos o interrogatório clínico e dirigi a conversa para os filhos. Era jovem e já com duas gravidezes. Perguntei-lhe, como é meu hábito, os nomes dos filhos, as senhoras gostam muito de falar sobre os seus rebentos, o que é normal, é motivo de justificado orgulho. Olha para mim e respondeu com visível tristeza: a primeira vez que estive grávida abortei e da segunda vez nasceu uma menina que morreu aos sete meses de idade. Engoli em seco. Não estava à espera. Calei-me, dando a entender que tinha ficado mudo de alma, a jovem compreendeu e continuou, chamava-se Mariana. Ao pronunciar este nome, senti um estranho e incómodo peso a cair-me em cima, a minha neta mais velha também se chama Mariana, o que fez com que uma série de associações e de lembranças adensassem ainda mais a atmosfera que eu próprio tinha criado com o objetivo de dar azo a protagonismo à jovem que se tinha deslocado à consulta. A senhora, com muita calma, começou a relatar a história da menina, que veio a falecer, tal como a filha de Gloria Muñoz, aos sete meses de idade, por atrofia espinhal medular tipo 1, a forma mais grave. Dia e noite foi o seu percurso junto da menina, até que a noite se abateu definitivamente sobre as duas. Tive o cuidado de prosseguir o exame, com algum tato e respeito pelo seu sofrimento. No final, julgando que estava a proceder bem, perguntei-lhe quando é que tentaria ter um novo filho. Respondeu-me a chorar: Foi ainda há muito pouco tempo, senhor doutor. É muito cedo. Fiquei embasbacado, não estava a conseguir fazer as coisas como devia ser, pensei que tudo se teria passado há algum tempo. A jovem apercebeu-se da minha perturbação e antes que pudesse pedir-lhe desculpa deu-me um abraço, como que a querer agradecer o meu cuidado, e disse, é a vida, senhor doutor, é a vida, mas não queria sofrer o que já sofri, é demais. Acredito que é demais.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Francisco Lázaro



Ouvi desde pequeno, vezes sem conta, a história de Francisco Lázaro contada pelo meu pai e pelo meu avó. Ficou gravada na minha memória. Impressionou-me de forma muito particular.

Hoje, vi um curto vídeo a comemorar os cem anos da sua morte, ostentando o interessante título, "Corajoso, louco ou apaixonado?" Apeteceu-me responder: as três coisas! A tríade que os portugueses deviam adotar, Coragem, Loucura e Paixão.

Muitos anos depois, em Estocolmo, aproveitei uma tarde livre, tarde de canícula infernal, atípica para aqueles lados, e fui ver o velho estádio olímpico de onde partiu e nunca chegou.

Convém recordar alguém!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia de São Joaquim e de Santa Ana

A senhora entra no consultório, um sorriso muito simpático, e dispara: Parabéns! Fiquei de boca aberta, e pensei, parabéns porquê? Não faço anos e também não estava a ver outro motivo. Viu a minha perplexidade e adiantou: Hoje é o dia dos avós! Agradeci e retribui-lhe os parabéns, embora tivesse notado uma sombra de tristeza a percorrer-lhe os olhos. Tem razões para isso.
"Dia dos Avós", lembro-me tão bem da aprovação da resolução nesse sentido, na Assembleia da República, na qual participei, e agora, passados todos estes anos, já não me recordava. O que é que eu fiz de imediato? Telefonei às minhas filhas avisando que hoje era o dia dos avós e não tinha recebido nenhuma "prendinha", entendendo por prendinha um doce beijo. Agora tenho de aguardar pelo final do dia para receber a minha recompensa. "Não tens uma surpresa para mim" perguntam frequentemente os netos, hoje digo-lhes, não, não tenho, mas eu quero a minha!
E não é que os três safados me apareceram com supresas, para mim e para a avó?
É verdade. Três pequenas maravilhas.

"Sobrevivente"

Começo a ter alguma dificuldade em compreender, e até aceitar, certas designações, como "sobreviventes do cancro", uma nova classe de pessoas que passa a ter "personalidade" grupal. De acordo com os promotores da ideia, ou melhor, da designação, o "sobrevivente do cancro" é todo aquele que ao fim de cinco anos não apresenta manifestações clínicas do dito. Até aqui nada de mal, trata-se de um critério clássico para referenciar os que têm grandes hipóteses de estarem curados do mal. Mas a designação "sobrevivente do cancro" incomoda-me. Ao ouvi-la, penso de imediato nos "sobreviventes do Holocausto", mas quem diz Holocausto diz todas as tragédias em que a maldade humana consegue manifestar-se com todo o esplendor diabólico, sobreviventes de massacres, sobreviventes de guerras, sobreviventes de perseguições políticas e religiosas, sobreviventes dos gulags, enfim, são inúmeras as pessoas que conseguiram e conseguem sobreviver a uma determinada ação intencionalmente destruidora e de causa humana. A par destas devemos incluir outros tipos de sobreviventes, caso dos terramotos, outros acidentes naturais e os diversos tipos de desastres.
Falar de "sobreviventes do cancro" terá objetivos próprios, ao identificar pessoas que lutaram e sobreviveram a um cancro, o que é positivo, mas também para poderem obter alguns benefícios, como é o caso da proposta, que está em discussão, da isenção de taxas moderadoras. Perante esta análise sou obrigado a questionar, o que fazer relativamente aos "sobreviventes dos acidentes vasculares cerebrais", aos "sobreviventes de enfarte do miocárdio" e aos sobreviventes de qualquer situação clínica que, não sendo tratada, causaria inexoravelmente a morte? São muitas as situações que a podem provocar. Sendo assim, pergunto, não terão esses "sobreviventes" os mesmos direitos que agora querem dar aos "sobreviventes do cancro"?
Falar de "sobrevivência" é um lugar-comum. O ser humano não faz outra coisa, desde que nasce, senão tentar sobreviver.
A par das situações clínicas há outras igualmente importantes, representadas pelos sobreviventes dos maus-tratos, do terrorismo, da violência doméstica, da intolerância religiosa, da miséria social e económica, enfim, um dia destes teremos de perguntar às pessoas a que classe ou grupo de sobreviventes pertence. Não me admiraria nada que obtivéssemos todo o tipo de respostas, inclusive alguns poderem dizer, "sou um sobrevivente da estupidez humana".

Não esquecer que, de um modo ou outro, somos todos "sobreviventes" de qualquer coisa, e não me venham falar de que "sobrevivente de cancro" é uma forma de discriminação positiva, porque não é, já que muitos dos que sofrem de cancro sabem de antemão que nunca irão pertencer a este grupo. Imagino a angústia ao pensarem que não poderão vir a pertencer a esta “casta”.

Um dia destes, o médico ainda acaba por perguntar: Quem é que está na sala? Utente, doente ou sobrevivente? Resposta: um ser humano, senhor doutor. Ah, está bem, mande-o entrar, se faz favor.

Que se lixe quem faz de conta!

Se algum dia tiver de perder umas eleições para salvar o País, que se lixem as eleições. O que interessa é Portugal", disse Passos Coelho.
Que aconteceu? Um glosar rasteiro do tema e uma barragem de críticas, da Intersindical ao PS, passando por comentadores, bloguistas, intelectuais piadéticos.
Grotescas as interpretações: mandatário de massa falida, diz Jerónimo; desprezo pelos eleitores, diz o Bloco; não quer eleições, dizem outros; quem se está a lixar para as eleições está-se a lixar para os eleitores, diz o PS.
A interpretação mais benigna é que essa gente não sabe ler, e a capacidade de interpretar anda pelo nível anterior à pré-primária.
Mas, sendo justos, o PS é, por uma vez, coerente consigo próprio. Pois quem não se esteve a lixar para as eleições foi de facto o Partido Socialista. E deu no que deu. E que estamos a pagar. Melhor, a dever. Mas querem fazer de conta que não, teimando em persistir no erro. Que se lixem, apetece dizer! 

Professores de manifestações

Na televisão, logo de manhã, uns tantos professores ou aspirantes a professores numa das actividades que melhor sabem fazer: manifestações. Aliás, manifestações itinerantes, a nova moda da Intersindical para mostrar músculo rijo. Entendi, destas e doutras, que basta alguém autodenominar-se professor para exigir o direito a emprego vitalício no Estado. Quer haja alunos ou não, que isto de escola não é coisa de alunos, mas de professores. Claro que se compreende a frustração de quem não consegue emprego a dar aulas. Mas, perante a crise da natalidade, por que escolhem tal actividade? Ter as habilitações próprias de professor confere uma qualidade, mas não um direito. Aliás, se a moda pega, não tarda a termos por aí gente com todas as habilitações próprias de engenheiros de minas, técnicos aeronáuticos, pilotos, administrativos, técnicos aduaneiros ou bancários ou de um qualquer curso ou percurso a reivindicar emprego público. É mais cómodo, que procurar emprego fora de manifestações, onde se canta e dança a imitar a cigarra, é trabalho cansativo e para os outros.

Declínio no valor do Euro poderá salvar a zona ?

1. “A fall in the Euro can save Spain from collapse” é o título de um interessante artigo publicado na edição de ontem do F. Times, da autoria de Martin Feldstein, bem conhecido economista americano, professor em Harvard, no qual sustenta a tese de que a queda do câmbio do Euro, em especial contra o USD, pode ser decisiva para a ultrapassagem da crise que aflige a zona monetária europeia.
2. É curioso que Feldstein, um consagrado euro-céptico, argumentando desde há muito – e com toda a razão, percebe-se agora – que a zona Euro foi criada sobre bases muito frágeis e imperfeitas, apareça nesta altura com uma mensagem de esperança na sobrevivência desta zona e graças ao funcionamento de mecanismos de mercado.
3. Feldstein nota que o Euro depreciou cerca de 15% em relação ao USD nos últimos 12 meses (mais ainda em relação a outras divisas internacionais) e que poderá ajustar outro tanto nos próximos meses, a caminho da paridade Euro/USD = 1.
4. Este forte declínio do valor externo do Euro reflecte, na sua opinião, a percepção dos mercados de que para o Euro subsistir o seu valor externo tem necessariamente de cair.
5. Um valor bastante mais baixo do Euro estimulará fortemente as exportações dos países economicamente mais desequilibrados, que precisam de desvalorização como “de pão para a boca” – afirmando Feldstein que cerca de 50% das exportações (de bens+ serviços) desses países são dirigidas a mercados não Euro - o que será talvez verdade em termos médios mas não é (ainda) o caso de Portugal (em que essa % será pouco superior a 30, embora em crescimento) e sobretudo da Grécia.
6. Para além desse benefício directo aos países em maiores dificuldades, o declínio do Euro também estimulará as exportações da Alemanha e dos seus “satélites” do Euro, os quais poderão assim importar mais dos periféricos, reduzindo os desequilíbrios comerciais internos da zona Euro. Este processo deverá ajudar ainda de forma decisiva o cumprimento de programas de ajustamento/resgate a que os periféricos estão vinculados.
7. Nota curiosa: embora o título confira especial destaque à Espanha, no texto do artigo a Espanha só é mencionada no 1º parágrafo e a propósito da crise recente da sua dívida. A receita salvífica de Feldstein aplica-se indistintamente a todos os países em dificuldades – sobretudo à Irlanda, permito-me acrescentar.
8. Oxalá Feldstein tenha razão e possamos assistir até ao final do ano à continuação da convergência do rácio Euro/USD para a unidade...salvando a zona Euro do colapso (não apenas a Espanha)!

Focos desencontrados...

Todos os anos no Verão já sabemos que vamos ter cenários de destruição provocados pelos incêndios. Não esperamos que seja diferente. Porque será? E todos os anos as discussões sobre os incêndios são as mesmas, com toda a gente a queixar-se que faltam meios, que a culpa é do vizinho. Este ano não foi diferente e ainda a época vai a meio.
Depois da destruição apuram-se os prejuízos, a falta de consenso é a regra, toda a gente debita números e quer ter razão, lançam-se inquéritos, estudos e análises, discutem-se novos planos de combate aos incêndios. Invariavelmente, os partidos da oposição culpam os governos em funções, um déjà vú.
O que não faltam são diagnósticos sobre os problemas e as falhas do combate aos incêndios e propostas com recomendações para melhorar a eficácia da intervenção. E a febre mediática não ajuda. Constituem-se comissões e grupos de trabalho com a missão urgente de apresentarem supostamente mais e novas conclusões.
Passada a época quente, depois de muitas acusações e reivindicações e agitação política, os fogos vão-se embora e o tema dos incêndios apaga-se porque no resto do ano há outros “fogos” a que dar atenção.
E é também emblemático que a discussão seja concentrada nos meios de combate, que evidentemente são necessários, deixando a prevenção para segundo plano e a intervenção curativa ou reparadora para terceiro ou quarto planos.
Estamos perante mais um assunto em que, a meu ver, falha a estratégia e a capacidade de gestão e organização. Não creio que a questão central seja a falta de meios financeiros. Nada que seja uma surpresa, embora seja surpreendente que um país persistentemente massacrado pelo fogo insista em não retirar lições e mudar de vida. Tem sido uma fatalidade, mas não tinha que ser assim.

O talho do sr. Luís também tem direito a uma lista negra oficial dos seus devedores?

Uma das noticias do dia revela-nos a intenção governamental de criar uma assim chamada "lista negra" dos portugueses que devem mais de 75 euros de electricidade ou gás. Nunca alcancei bem a utilidade destas "listas negras". Neste caso percebo menos pois se trata de dívidas a entidades privadas que têm meios de cobrança coerciva ao seu dispor, que de resto utilizam as mais das vezes sem tento nem piedade.
Leio a explicação de que estas listas servem para prevenir o endividamento excessivo, mas esta ideia só pode ter saído da cabeça de quem quer gozar com o pagode...
Seja como for, um Estado e uma Administração que são dos relapsos os maiores, não têm um pingo de autoridade moral para patrocionar, seja lá por que motivo for, quaisquer listas de devedores!  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Um amigo"

Confesso que adoro ler Jorge Luís Borges. Seduz-me a sua escrita. Fico embevecido com o seu pensamento, simples, profundo e cheio de beleza.

Em dezembro de 2008, há quase quatro anos, li uma notícia sobre a descrição do memorial inaugurado em Lisboa, ao Arco do Cego, a Jorge Luís Borges. Não vinha acompanhado da fotografia do monumento, mas concluí que deveria ser belo.

Poeta de pensamento simples, profundo e cheio de beleza. Um poeta cego, mas que via mais do que os que veem e que continua a ensinar-nos a ver a vida. Fiquei feliz por ter um monumento entre nós. Um encantador. Um mágico da alma. Nesse pequeno escrito prometi o seguinte: “Na próxima vez que for a Lisboa tenho que ir dar uma mirada ao monumento do autor do “Poema aos amigos”. Prometi que o faria. E o que é que fiz entretanto? Fui inúmeras vezes a Lisboa, dezenas de vezes, e não cumpri a minha promessa. As promessas, dizem na minha terra, têm de ser cumpridas, caso contrário, quando morremos, a nossa alma erra sem sossego. Esqueci-me. Entretanto, li muitas coisas sobre ele e dele, também, mas nunca mais me lembrei de ir “vê-lo”.

Hoje, ao fim da manhã, depois de ter cumprido os meus deveres académicos, caminhei em direção ao metro. O sol aquecia o corpo, mas o ar de Lisboa refrigerava a alma, o que me permitia pensar em tudo, em nada e em outras coisas. Tranquilo, o meu estado preferido, causa-me uma sensação de leveza única. Como é tão raro, faço todos os possíveis para o saborear e prolongar no tempo. Ao chegar perto do Arco do Cego vislumbro o jardim. Pensei, uma obra simples e agradável. Olho e vejo um memorial. Aproximo-me e vejo que era o memorial dedicado a Jorge Luís Borges. Senti um baque, a minha tranquilidade deu lugar a um sentimento de espanto e até de vergonha. Meu Deus, aqui está o memorial. Belo. Fiquei durante alguns instantes a mirá-lo. Belo. Pus-me a pensar se o “acaso”, porque não tenho a pretensão de poder ser alvo de atenção do grande poeta, não me levou ao final de uma bela manhã de verão ver o memorial. Quem sabe se o “acaso” não quis evitar que, um dia, a minha alma se tornasse errante por não ter cumprido uma promessa, ou, então, tenho de concluir que Borges é mesmo um amigo. É! Basta ler a sua oração, “Poema aos amigos”.

Contrastes do tempo que passa

Disse-me uma vez um amigo que só ficará seriamente preocupado com a idade quando tiver a idade de um Papa. Como referência achei piada, temos assim um largo tempo para vivermos descansados. Mas o facto é que isso da idade relativa tem muito que se lhe diga e hoje lembrei-me disso por causa de, no mesmo dia, me ter confrontado com os dois extremos, a lentidão da velhice e a exuberância da infância. Acontece que tenho que me ocupar por uns dias da minha mãe, pessoa já da idade do Papa e que tem imensas dificuldades de mobilidade. O resultado é que os gestos mais simples, que normalmente nos ocupam por uns momentos, como entrar e sair do carro, atravessar uma ruazita ou subir dois degraus para a pastelaria, leva um tempo incrível. É preciso aprender a moderar a “velocidade” que imprimimos à nossa vida, programar uma manhã ou preencher a tarde com várias coisas, nem pensar. E esta lentidão é para ela natural, pára no meio do caminho por qualquer coisa, porque é que paraste, mãe, e tu, porque é que andas sempre a correr? mas tens que fazer isso tudo hoje? não te sentas um minuto? E, por contraste, uma pessoa sente-se uma jovem dinâmica onde o cansaço não chega, onde o tempo ainda quase não tem dimensão, passa sem darmos por isso, o convívio com os idosos leva-nos a pesar cada momento, meu Deus, como o tempo deve custar a passar para eles, mas não é bem assim, o tempo divide-se em fracções diferentes e o desejo de fazer mil coisas e andar à pressa pura e simplesmente desapareceu. Em contrapartida, a importância que tem um pouco de tempo a conversar, um passeio é apreciado pelo que se vê com calma e não pelo muito que se vê porque o cansaço esbate tudo ao fim de pouco tempo.
Mas este meu contentamento por me sentir ainda jovem ao ponto de ter que moderar a minha energia foi confrontado com a visita de uns primos que trouxeram a neta de 4 anos. Uma menina encantadora que ficou doida de entusiasmo com o meu jardim, com cada planta, com o cãozito de uma amiga que também cá estava, quis ir ver o burro ao cimo da rua, depois voltou a correr pela rua abaixo, tive que a convencer a não desarvorar outra vez rua acima, subiu e desceu as escadas mil vezes, quis ir buscar a bonecada que ainda para aí tenho nos armários, transportámos tudo para a relva e voltámos a trazer para dentro, enfim, tenho que confessar que cheguei ao fim da tarde esbaforida, já nem tinha braços para lhe pegar ao colo e a baloiçar, como o meu pai nos fazia e eu fazia às minhas filhas, ela pedia, mais uma vez, mais uma vez, e eu morta, será falta de treino, quero acreditar que sim, mas que já não tinha mais forças, isso não tinha.
Depois de sairem arrumei a casa e a cozinha com a lentidão saborosa dos mais velhos, a minha mãe olhava-me da sua cadeira a dizer-me, mas ainda vais arrumar tudo, não sei como aguentas!, e eu a pensar que não, que já não aguento assim tanto, quando me sentei ao pé dela e ela me disse, está na hora de me ires deitar, levantei-me a custo, copiando-lhe o gesto de apoiar as mãos nos braços da cadeira a ganhar balanço para firmar os pés, os meus passos acertaram com os dela sem dificuldade, devagarinho, um degrau, pára, outro degrau, pára, e soube-me bem deixar escoar assim o tempo, lentamente, como se nada fosse importante senão cada gesto que se cumpre em cada momento que passa.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Amo-te Lisboa!



Amo-te Lisboa. Confesso que estou apaixonado por ti, sempre estive e estarei, é difícil explicar porquê. Há muito que não repouso no teu seio. Vou e regresso num ápice e não consigo desfrutar um encontro amoroso. Amo-te Lisboa. És a mais bela cidade do universo. Não sei como consegues encantar-me desta maneira. Deves ser a única sereia a quem Ulisses não se importa de se deixar enganar. Eu também não. Sabe-me bem. Obrigaste-me, mais uma vez, a vir ter contigo. És obsessiva, dominadora, castigadora, castradora, e eu tenho de obedecer aos teus caprichos centralizadores. Levantei-me de véspera e fui ter contigo. Trabalhei horas seguidas e consegui aquilo que nunca fiz a nenhum automóvel, por o miserável cérebro a aquecer como se fosse um velho motor. Ia gripando e antes que acontecesse fui refrigerá-lo nas tuas ruas e vielas. Amo-te Lisboa. És única. Mas reparo que sofres. Apagastes velhas livrarias que tanto admirava, transformastes vigaristas de antiguidades em humildes pedintes, não ligue aos preços, a crise está a matar-nos, interessa-lhe esse contador, não sei qual o preço, talvez três mil euros, mas com mil e duzentos pode levá-lo. E levava-o com muito gosto, porque nunca vi nada semelhante. Para por em que sítio? Sei lá, mas com arte e imaginação sempre se consegue uma solução, e sei, também, quem ficaria satisfeita. Mas como levá-lo? Toca o telefone. Interrompo as minhas lucubrações. Indicativo de Lisboa? Já o cheiro à distância. Hum, do banco? Querem ver que é por causa do seguro do carro. Era mesmo. Uma voz feminina, doce, a imitar os sons de Lisboa, queria saber a razão do cancelamento. A chamada vai ser gravada, importa-se, não. Ri-me com este pormenor. Expliquei-lhe, educadamente, que a razão tinha a ver com o facto de outra companhia ter feito um preço mais baixo. Mas por que razão não falou antes connosco? Porque não me apetece regatear. Já fiz uma vez convosco e, nos anos seguintes, voltou tudo à mesma ou ainda pior. A senhora tem de compreender que o mundo está a mudar. Como estava em Lisboa e amo esta cidade fui muito cortês. Lisboa merece, o indicativo era de Lisboa.
Fui a um dos alfarrabistas conhecidos e adquiri duas obras, baratas, não trouxe outras duas porque eram muito dispendiosas. Em Lisboa é comum pedir este e o outro mundo por coisas meio mixuruca. Desta feita declinei a oferta, porque tinha a certeza de ler Cosme o Manhoso por tuta e meia, poupando oitenta euros por meia dúzia de páginas mesmo que fossem do fim do século XVIII. Muito obrigado, levo estas duas pequenas brochuras por cinco euros, sempre era mais em conta. Deambulei e paguei joaninamente uma imperial muito fresca servida por um resquício brasileiro que um dos joões se lembrou de importar. Nada que me impeça de amar a baixa pombalina. Tinha fome, da real, e fui à cata de qualquer coisa para comer. Eram horas, as pernas tremelicavam. Assediado até dizer basta, entrei numa casa de pasto transformada em restaurante parisiense. São cada vez mais as putas gastronómicas a oferecerem os seus serviços. Entrei numa e pedi algo adaptado às condições ambientais, não fosse o diabo tecê-las. Vantagem de ser, também, uma "puta" velha. Para beber? Vinho da casa. Só jarra de meio litro. Meio litro? É muito. Arranje uma garrafa pequena. Vinho alentejano? Pode ser. Não lhe perguntei o preço. Nem ele disse. Já sabia que ia ser levado. E fui. A garrafa foi mais cara que o prato. Sorri. Lisboa é mesmo assim, se puder engana-nos com o maior descaramento, mas não importa, ela merece. Não há cidade mais bela. Não bebi a meia garrafa toda, o fígado não merece ser castigado dessa forma. Pensei, o melhor é andar. Tracei o azimute para o Terreiro do Paço, assim sempre podia "desmoer" o alentejano. Ao aproximar-me, o cheiro inconfundível do mijo lisboeta e da maresia do Tejo deram-me as boas vindas. Um dos mais característicos cheiros de Lisboa que nenhum postal ilustrado consegue reproduzir. Passei pelo D. José. Olhei-o e disse-lhe, boa tarde. Ele, moita carrasco, típico dos gajos que se julgam importantes ou, então, continua a passar as tardes a beber jarras de tinto, como é seu costume. Sentei-me junto ao cais da colunas e fiquei até este momento a escrevinhar, deixando que a Lua em crescendo me saudasse, ouvindo as águas do Tejo e saboreando a mais saborosa das brisas. O vento fala, eu termino, sei o que ele diz. Eu também te amo Lisboa.

Coisas simples...

Dizia-me um amigo que  faz hoje anos, a quem telefonei para felicitar pelo dia especial, que à medida que vamos percorrendo a estrada da vida, vamos tendo a sensação que o tempo para apostar em novos caminhos se vai estreitando, o passado acumulado condiciona em muito novas escolhas, restringe as opções, porque nos prende ao que temos e conhecemos. No fundo queremos aprofundar o que somos num meio mais restrito que dá sentido à nossa vida. Há como que uma aceitação do que está para trás no presente e no futuro, a família a que pertencemos e os amigos que conhecemos ao longo do tempo vão sendo cada vez mais acarinhados e deixando cada vez menos espaço para novas conquistas. Acho que tem razão, embora tenhamos sempre tempo de nos cruzarmos e conhecermos novas pessoas, o tempo e o espaço para o fazer vai escasseando. Esta dificuldade tem o reverso de valorizarmos a família e os amigos que temos e de renovarmos estas ligações que nos dão segurança, bem-estar, conforto, compreensão, uma certa certeza de que estamos acompanhados. A amizade constrói-se, o tempo e o espaço são realmente fundamentais nesta construção.

Objectivo orçamental: como entender?

1. Para que prolongar o prazo de vigência do PAEF, como diversos comentadores, mais ou menos credenciados, vem sugerindo?
2. Tenho aqui manifestado opinião contrária a do prolongamento do PAEF, por sempre me ter parecido que um Programa tão exigente em sede de contenção/redução da despesa pública e de redução das necessidades de financiamento do Estado (em sentido amplo), para ser eficaz deve ser executado em prazo não muito longo (3 anos já me parece bastante longo)...
3. ...sob pena de começar a perder força, entrando numa fase de ponto-morto, de “faz que anda mas não anda”, entravado por inúmeras e crescentes resistências em defesa de interesses corporativos e outros, que nunca desarmam e que a pouco e pouco vão corroendo a eficácia da política...
4. A proposta de prolongamento do PAEF tem implícita a ideia de que para o Programa ficar cumprido se torna imprescindíve cumprir, ao milimetro, as metas de 4,5% (2012) e de 3% (2013) do PIB sem o que seria necessario agravar a intensidade das medidas de austeridade, o que se tornaria insuportável sob vários aspectos...
5. Mas qual será o grande e ultimo objectivo do PAEF: o cumprimento dos objectivos orçamentais tal como quantificados no ponto anterior ou a correcção dos desequilíbrios da economia portuguesa que a conduziram a situação de sobre-endividamento que tanto nos atormenta?
6. Não tenho grandes dúvidas que o objectivo fundamental do PAEF consiste na restauração dos equilíbrios fundamentais da economia, em criar condições para que esta possa voltar a crescer de forma sustentável, sem ter se endividar excessivamente como sucedeu ao longo dos últimos 15 anos...a enorme ênfase que o PAEF coloca nas medidas estruturais não significa outra coisa, de resto...
7. E evidente que a politica de redução dos défices públicos ocupa um lugar central na estratégia de reposição dos equilíbrios fundamentais da economia, atenta a imensa fatia dos recursos económicos que o sector público absorve...temos pois de concordar que sem uma forte redução dos défices públicos nunca seria possível corrigir os desequilíbrios económicos.
8. Mas sendo de grande importância, a redução dos défices públicos não deixa de ser um objectivo instrumental do objectivo primacial de reequilíbrio global da economia.
9. Assim, cabe perguntar: se chegarmos a 2013 com um défice público de por hipótese 3,6% ou de 3,8% do PIB, mas a economia mostrar que conseguiu corrigir, de forma sustentada, os desequilíbrios que a afectaram, o PAEF deve ou não ser considerado cumprido?
10. Não tenho grande dúvida em responder positivamente...e de acrescentar: em tal cenário, de que serviria um prolongamento do PAEF?
11. E certo que nesse mesmo cenário será crucial manter uma firme disciplina na gestão das finanças públicas e não embarcar em despesismos que possam por em causa o tão difícil objectivo de equilibrar a economia, o que seria uma verdadeira tragédia...mas para assegurar essa condição não e indispensável que o PAEF continue a vigorar, bastara uma boa dose de bom-senso...
12. ...ou será que consideramos este atributo definitivamente arredado da vida nacional, na ausência de uma tutela internacional?

Em cima do joelho

Leio sem surpresa que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa pediu ao senhor Presidente da República que vete o decreto da AR que reformula o mapa das freguesias da capital. Motivo, este que vem anunciado na imprensa: "O Parlamento aprovou a 1 de junho a criação da freguesia do Parque das Nações, que pertencerá a Lisboa, transferindo não só para a capital parte do território de Loures, mas passando também erradamente parte de território actualmente pertencente a Lisboa para o concelho de Loures. Se o diploma for promulgado pelo Presidente da República tal como está, entre outras consequências, a empresa municipal que gere os bairros municipais de Lisboa, a Gebalis, passaria a ter sede em Loures. O município que faz fronteira com a capital tem protestado contra a perspectiva de ficar sem a sua parcela do Parque das Nações, sendo que também está prevista a transferência de infra-estruturas que estão nesta autarquia".

Aposto que para além dos deputados à AR (230) este mapa foi aprovado assim pelos membros do Executivo camarário (17) e pelos da Assembleia Municipal (107). Ou seja, intervieram diretamente nas deliberações nada mais nada menos do que 354 pessoas (isto para além de inúmeros técnicos e incontáveis sábios e consultores).
Um exemplo de como funcionam as instituições públicas...

Adenda:
Acaba de ser anunciado o veto político a este decreto. Na mensagem dirigida pelo PR à AR fica-se a perceber que afinal o erro, ou pelo menos a eventualidade de existir erro, já tinha sido suscitada em pleno procedimento legislativo. O que torna mais chocante a situação uma vez que o parlamento preferiu sacrificar o rigor a uma qualquer conveniência. Parte da mensagem do PR merece especial atenção:

"5. Face a esta situação, está-se perante a singular circunstância de ser enviado ao Presidente da República para promulgação um texto legislativo em relação ao qual o seu próprio autor expressa, previamente, dúvidas quanto à exatidão do mesmo.
6. Neste contexto, o Presidente da República não pode deixar de notar, como já fez em anteriores ocasiões, que a qualidade e o rigor na produção das leis são um imperativo da maior importância para a segurança jurídica e para o estabelecimento de uma relação de confiança e de respeito dos cidadãos perante o Estado. O rigor deve ser uma condição sine qua non em todas as fases do processo legislativo.
7. Também importa acautelar que o poder de veto político do Presidente da República, consagrado constitucionalmente, não seja utilizado para dirimir dúvidas desta natureza".

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A abnegação de uns torna outros ridículos


Bem basta o sofrimento de quem vê perdido o pouco que acumulou na vida, impiedosamente levado pelas chamas dos incêndios que todos os anos percorrem o País. Bastam as imagens das labaredas repetidas ad nauseam nas TV para gaúdio, prazer e estímulo dos loucos incendiários como há muito se sabe. Os relatos inflamados dos repórteres que procuram explorar comoções e desgraças para encher os noticiários e assim aumentar audiências e com elas a venda de mais publicidade. Tudo isto é demais para nos habituarmos. Isto e a crónica discussão sobre a falta de coordenação e de meios entre responsáveis técnicos. Um passa-culpas insuportável. No meio de tudo estão aqueles que arriscam a vida para defender pessoas e bens sem que se lhes ouça um queixume. Não são comandantes, presidentes, coordenadores. São mulheres e homens bombeiros, socorristas e muita, muita gente anónima e abnegada que tornam rídiculas as figurinhas do costume e a cobertura mediática que se lhes dá.
  

domingo, 22 de julho de 2012

Tempo...

Sai ladeado do tempo, assusta-me a sua companhia. Ainda bem que me ignora. Prepotente. Insensível aos desejos, surdo aos pedidos, não precisa de esperar ou de adiar o que quer que seja. Não necessita vangloriar-se do seu poder, isso sabe ele muito bem. Mesmo assim deixei que me acompanhasse. Paro. Descanso na subida, ele também para, não para descansar, não precisa, ele é dono de tudo. A brisa suave da tarde obriga-o a esvoaçar mesmo à minha frente e as andorinhas põem-se em cima às cavalitas. Ao fundo, as duas serras embrulhadas em névoa adormecem, escapando aos seus efeitos.
Curioso, pensa-se no tempo e ele obedece, fica mais lento, mais dócil, não sei se ele sente isso, mas eu sim. Somos feitos da mesma substância, mas eu penso, ele não, penso nele e na vida. É a mesma coisa, tempo e vida, não os compreendo, mas sinto-os. Eis aqui, a meu lado, uma vida que foi feita de tempo, tempo que não respeita a sua vida. Mas eu obriguei-o a parar. Por momentos? Sim. E agora? Agora libertei-o, não é fácil mantê-lo preso, mas só até ao momento em que um dia da vida de um ser humano se transforme na eternidade. Nessa altura desaparece o tempo. Ainda bem que não é eterno.

"Tonel das Danaides"

Por esta altura, época de exames, recordo ter assumido uma nova responsabilidade acompanhada de angústia incontrolável, própria do momento de definição do futuro de um adolescente. Revisões e mais revisões das matérias. A geografia não me preocupava e a história muito menos. Considerava ambas como formas de viajar, no tempo e no espaço. Nesses momentos surgiram algumas perguntas, por que razões alguns países não tinham fronteiras estáveis. Que chatice, se fossem como os portugueses, que as tem praticamente inalteráveis há séculos, as coisas seriam mais simples. Ao sobrepor a história de alguns países com os seus territórios, caso da Alemanha, as coisas pareciam-me inexplicáveis. Como é que um povo daqueles só recentemente teve a sua própria limitação geográfica, embora dividida em duas partes? Pensei, ninguém me vai fazer perguntas sobre isto. Perguntam-me as capitais, quais as principais produções, um ou outro rio mais importante e pouco mais. Mas as perguntas ficaram numa gaveta lá ao fundo tapada com teias da memória da aranha. Agora, um pequeno artigo veio dar-me algumas explicações sobre esse fenómeno, e muitos outros, que nos atormentam.
Diz o entendido, Heinz Wismann, que no princípio do século XIX dois modelos dominavam a Europa, Roma e Atenas. Os franceses optaram por Roma e os Alemães por Atenas. Roma significava a centralidade, o direito romano, a racionalidade e a construção da realidade, que se tornou uma obsessão, definindo a forma de pensar, de ver o mundo e, sobretudo, justificava a ascensão social do herói que tem de encontrar o seu lugar num mundo já constituído. Para que tudo isto tenha acontecido deverá ter contribuído a limitação muito cedo das suas fronteiras naturais, uma “realidade” estado-nação com fronteiras. Em contrapartida, a Alemanha era uma manta de retalhos de principados, a relembrar as cidades estado gregas e as suas ilhas. Para os alemães os gregos eram o povo da cultura que não tinham verdadeiramente um estado e com os quais se identificavam. Para os alemães a realidade não era uma coisa circunscrita, mas sim “agir ou produzir um efeito”, algo que exerce uma ação. Na literatura alemã verifica-se amiúde que o que interessa é o desenvolvimento da personalidade do indivíduo e não a ascensão social como acontece no romance francês. Dizem que os filósofos só podem pensar em grego e em alemão e não em latim ou francês. Curiosa observação, de origem alemã, claro.
Há uma certa identidade entre a Grécia e a Alemanha. São muito mais parecidas do que parecem. A intransigência alemã face a Atenas é explicada pelo facto de os gregos re-enviarem aos alemães a imagem da sua própria história, não terem tido durante muito tempo um estado territorial. “Os gregos incarnam hoje o que os alemães historicamente foram”. Os alemães saltam sobre os gregos não por causa da dívida astronómica, mas pelo facto de não terem os meios capazes para se salvarem. Para isso é preciso “estado”. Os alemães devem lembrar-se bem do que foram entre 1914 e 1945. O que é que aconteceu durante a crise económica do segundo decénio do século XX? Inflação terrível, não conseguiam ver o fruto do seu trabalho que esvoaçava durante o dia. Diz o autor que tudo isto foi consequência do conceito da fragilidade do estado que passou a dominar as mentes germânicas, e o resto que aconteceu. No fundo, a intransigência dos alemães deve-se ao facto de se identificarem desde sempre com os gregos e não quererem rever-se no que está a acontecer. A análise do autor vai mais longe, a Grécia está muito longe de ser um estado. Tudo aponta que os gregos são insensíveis a estas ideias, prezam muito o seu pluralismo. Socorrer os gregos é um verdadeiro tonel das Danaides, não socorrendo é o fim da Europa.
Depois de ler e analisar tão interessante texto fico mais satisfeito por só agora ter conhecido assuntos que há mais de quarenta anos tinha colocado, mas não fico esperançado no futuro. Afinal, certos fenómenos e acontecimentos têm especificidades próprias cujas causas mergulham nas profundezas do tempo e da história.
Vale a pena ler “Grèce-Allemagne – Un conflit mimétique” de Heinz Wismann.

O ensino da indisciplina

Dezenas de professores e sindicalistas tiveram que ser expulsos da Sala do Senado da Assembleia da República, em virtude de uma manifestação que fez interromper os trabalhos da Comissão de Ciência e Cultura, onde estava presente, numa audição, o Ministro Nuno Crato. Segundo relata a imprensa, houve necessidade de intervenção das forças policiais.
Não se pode tomar a parte pelo todo, nem a nuvem por Juno. Mas se os alunos lhes seguirem o exemplo, replicando na sala de aulas a professoral actividade manifestativa e indisciplinar, não há educação que se promova, disciplina que se crie, escola que resista. Os alunos aviltarão o professor e desobedecerão até chegar a polícia. E, se ficarem por aí, já será uma sorte.  

sábado, 21 de julho de 2012

Oito linhas fazem um grande texto

Julio Machado Vaz escreve na sua página do Facebook uma das melhores análises do que representou José Hermano Saraiva:
"Amigos meus dizem que nem sempre José Hermano Saraiva e o rigor histórico andavam de mãos dadas. Quem sou para duvidar deles? Mas o psi arrisca uma opinião - ele partia da História e desatava a contar histórias sobre ela. E as histórias pedem capitel ali, vidro transformado em vitral aqui, invasão por traços da personalidade do narrador que as torne mais amadas por si e pelos ouvintes. E por isso ele influenciou gerações, que sorriam perante a sua enorme e expressiva paixão narrativa. E as paixões não primam pelo rigor:)".

A história não se reescreve

Num comentário desprimoroso, talvez mesmo rancoroso, a edição de hoje do Expresso refere a morte de José Hermano Saraiva.
Para o comentador, José Hermano Saraiva construiu uma forte imagem pública devido…a programas televisivos …merecedores de grandes reservas por parte de sectores importantes da comunidade académica”. Menos do que um historiador, José Hermano Saraiva foi um mero divulgador de episódios históricos, já que se terá limitado a encontrar na história, através de uma metodologia com frequência polémica,  um meio de projectar… pequenos e grandes episódios da história de Portugal. E por certo penaliza ao comentador o facto de, já em pleno regime democrático se ter transformado numa figura popular, apesar de um discurso com a história comprometido com o Estado Novo”.
No fim, a estocada final: Nesse período (em que foi Ministro da Educação),  explodiu a crise académica de 1969, que resultou na prisão e envio para a guerra colonial de dezenas de estudantes…”.
De facto, algumas dezenas de estudantes foram presos. Mas nenhum foi para a guerra pelo facto de ter sido preso. Alguns foram para a guerra, como tantos e tantos da sua geração, por terem sido incorporados no serviço militar. Depois disso, o mais certo era Angola, Guiné ou Moçambique. Acontecia com estudantes e não estudantes, contestatários, alinhados ou neutros.
A história não reescreve, embora muitos tentem fazê-lo. Mesmo à custa da exploração da morte de um historiador ilustre.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

José Hermano Saraiva, o Professor

"Olhe, qualquer que seja, continuará a haver noites de luar, Serra de Sintra e o Tejo a correr para o mar".

Morreu José Hermano Saraiva, um homem que nos contagiou com a sua paixão pela História, pela leitura do Património, nos ensinou a desvendar os mistérios de uma linguagem oculta na pedra, nas casas, na geometria das ladeias, mas também nos costumes, nos cantares, nas tradições dos povos e na cultura dos mais simples. Como todos os bons professores, ensinou a gostar, a gostar de saber e a querer saber mais do que ele ensinava. De certa forma, com ele e as suas palestras, aprendemos a ler de uma maneira diferente.Podia também ser recordado por muitas outras coisas, pela sua vida intensa de político, de advogado de defesa (foi assim que ele disse, de defesa), como um extraordinário comunicador, alguém que tinha um genuíno prazer em chegar aos outros através da sua fala. Se calhava abrirmos a televisão quando ele estava a falar, era praticamente impossível não ficar ali presa, a ouvir, mesmo quando a conversa já ia a meio. Era um dom, o dom de ensinar.
Estive a ouvir uma entrevista que deu à Sic, já bastante quebrado fisicamente, mas ainda pujante na sua inteligência e sensibilidade. Falou como as pessoas são as suas circunstâncias, que a vida marca a cara e as feições, sobretudo o ódio e rancor, “é por isso que os santos são bonitos”, e nós, de repente, a ver com outros olhos o desfilar das imagens que nos habituámos a olhar sem reparar, é por isso, pois claro, transmitem serenidade mas não só, também bondade.
Falou da família como a “fundação de uma cidade”, “creio que é com essa unidade que as cidades nascem”, disse, hesitou quando lhe perguntaram se os filhos eram a sua riqueza, que sim, claro que sim,”mas a minha mulher está à frente deles” e além deles os amigos, as pessoas que estimou ao longo da vida. Uma grande cidade, a que ele fundou, via-se bem pela maneira como se lhe referiu. Num excerto de um discurso ouvia-se o Prof. Hermano Saraiva a dizer que Deus o tinha levado pela mão nas “ladeiras da vida” e que por vezes essas ladeiras “tinham custado muito a descer”, “o futuro não é sempre melhor, pode não ser”, quando se esperaria deste homem que falasse dos seus sucessos, do que lhe tinha custado ter êxito, eis que nos surpreende chamando a atenção para a descida, isso sim, é que é difícil, nada está adquirido, e ele destaca essa realidade numa simples frase, como se não tivesse importância nenhuma.
Gostei quando lhe perguntaram “acredita na vida depois da morte?”, primeiro um silêncio, a hesitação de um crente, depois a humildade de um sábio, “acredito que há problemas que escapam à nossa compreensão".
A entrevista incluiu algumas perguntas a sua mulher, Maria de Lourdes Sá Nogueira, quase tímida menos na afirmação categórica, apaixonada, da imensa admiração pelo marido. “Admirei-o nas atitudes que teve em todas as situações da vida, admiro-o e sempre o admirei desde que o conheci”. Quanto à memória que a História guardará de seu marido, teve uma hesitação triste:” Resta saber se o nosso futuro dará lugar a que as pessoas pensem muito na nossa História”.
Esperemos que sim. O Prof. Hermano Saraiva fez tudo o que pode para que aprendêssemos a valorizar a nossa História e, através dela, a gostarmos do nosso País. Bem merece ficar na História, e que “esta gente, que é muito boa gente” não esqueça o que nos ensinou.

Mistério público

Extraordinário Ministério Público!
Levou a Tribunal Charles Smith e Manuel Pedro, por ter apurado (e provado) indícios de extorsão.
E pediu a absolvição, por não terem sido provados os indícios de extorsão.
Ora aí está um processo bem apurado para deitar ao lixo tempo e dinheiro nosso.
No fim, apurou a comunicação social, que se pela por julgamentos populares, para preencher tempo e fazer dinheiro. Durante anos.
Mistério público é que tudo fica como dantes. No Ministério Público.
PS: Não é a absolvição que está em causa: aqui a justiça funcionou. O que está em causa é uma acusação ter sido produzida com tão frágeis indícios. Justiça, para o Ministério Público, não pode ser tirar água do capote. Aliás, segundo o Público de 26.02.10, dos 64 processos instruídos pelo DCIAP apenas 19 resultaram em condenações pelos Tribunais.O que prova que uma grande parte deles devia acabar logo na fase de instrução.

Presidente nao subscreve prolongamento do PAEF: ainda bem...

1. Em entrevista hoje divulgada, o PR manifesta o seu desacordo em relação as teses de eventual prolongamento do PAEF para além de 2014 que, como sabemos, têm vindo a ser avançadas por sectores de tonalidades diversas, a partir da ideia originalmente avançada pelo SG/PS para “mais um aninho”...
2. O PR mostra assim não subscrever a ideia da austeridade a conta-gotas, que em última analise decorre das sugestões de prolongamento do PAEF: face as dificuldades (inegáveis) de cumprimento, negoceia-se mais um ano, depois outro, e assim sucessivamente ate se atingir o valor mítico de 3% do PIB para o défice orçamental...
3. Saliento duas breves passagens da entrevista do PR, que me parecem elucidativas do seu pensamento. A primeira: “Mais prazo para realizar as reformas estruturais que aumentem a competitividade da economia portuguesa? Mas mais prazo aqui significa mais desemprego”. E eu permito-me acrescentar: e mais prazo agrava o risco de o desemprego conjuntural se converter em desemprego estrutural, bem mais difícil de corrigir.
4. Noutra passagem, diz o PR ser “ mais correcto olhar para as politicas em vez de concentrar a atenção (exclusivamente) no défice – uma variável que os Governos não controlam directamente – procurando encontrar políticas que, garantindo a sustentabilidade das finanças públicas, sejam equitativas e minimizem o efeito recessivo sobre a economia”.
5. Ora ainda bem que o PR vem juntar a sua voz aos que, tambem aqui no 4R, vêem denunciando a ilusão do prolongamento do prazo do PAEF como panaceia para as dificuldades na sua aplicação.
6. Reitero a opinião aqui ja expressa de que um Programa de Ajustamento como aquele que adoptamos semi-voluntariamente em Maio de 2011, envolvendo uma dose de austeridade significativa mas incontornável, não pode ser estendido por muito tempo sob pena de perder toda a sua eficácia, ficando posto definitivamente em causa o seu objectivo fundamental que, não esqueçamos, consiste em reequilibrar a economia, refazendo as condições de crescimento sem endividamento excessivo.
7. Ora ainda bem que o PR vem reforçar as hostes anti-prolongamento...Tenho a noção de que mesmo os 3 anos que foram negociados poderão ser tempo excessivo – não estão a sentir?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"Hammerstein ou a intransigência"

Um amigo meu despertou-me o interesse por certo tipo de leituras. Vou começar. E para o efeito transcrevo o que escreveu,

"Hammerstein ou a intransigência"

"Quando alguém perguntou ao General Hammerstein (1878-1943, opositor de Hitler) como avaliava os seus oficiais, respondeu: "Eu distingo quatro espécies. Há os oficiais inteligentes, os trabalhadores, os idiotas e os preguiçosos. Geralmente essas qualidades aparecem aos pares. Uns são inteligentes e trabalhadores e devem ir para o estado-maior. Os seguintes são idiotas e preguiçosos; constituem 90% de todo o exército e são aptos para as tarefas de rotina. Aquele que for inteligente e ao mesmo tempo preguiçoso qualifica-se para as mais altas funções de comando, pois ele trará a clareza intelectual e a força nervosa para tomar as decisões difíceis. É preciso tomar cuidado com quem seja idiota e trabalhador, pois ele nunca provocará senão desastres." (Em "Hammerstein ou a intransigência" de Hans Magnus Enzensberger)

Perigo maior só quando os inteligentes preguiçosos se alheiam da acção, como no livro. "


A vida é feita de pequenas coisas, mas é preciso agarrá-las e saboreá-las. Num belo domingo, para as bandas de Mafra, tive a oportunidade de conviver com pessoas simpáticas e conhecedoras. Hospitalidade impecável, excelente comida, vinhos capazes de transformar um deus num ser humano, histórias, muitos assuntos, conversas ricas, profundas e divertidas a metamorfosearem-se conhecimento. É preciso agarrar em certos assuntos, um deles tem a ver com esta despretensiosa nota, fiquei de olho atento. Agora vou ter de aprofundá-lo.

O Bloco já é pelo mercado livre. Mas que droga!...

Sempre na vanguarda do elitismo, o Bloco de Esquerda propõe-se criar um novo clube social, melhor, vários clubes sociais, de consumidores de cannabis. Uma coisa a sério, com o elevado propósito de “estudar, investigar e debater a cannabis”, bem como “o cultivo ou cedência aos seus associados de plantas, substâncias ou preparações…”.  Porque uma coisa é consumir e outra, muito diferente, é consumir conhecendo bem o que se consome.  
Claro que se deverá tratar de clubes elitistas, onde o cartão de iniciado emérito terá que ser apresentado à entrada. Naturalmente certificado pelos fornecedores do produto, com assinatura devidamente reconhecida pelo notário.
Paralelamente, e certamente como forma de democratizar o acesso à matéria-prima a quem, por falta de atestado de assiduidade no consumo, não seja facultada a entrada nos clubes sociais, será legalizado o cultivo de cannabis para utilização pessoal.
No entanto, penaliza-me dizer que na introdução ao diploma não fica claro se a matéria-prima utilizada nos clubes sociais é adquirida por grosso, agora no mercado livre, ou transportada em lancheiras do produtor individual para o consumidor clubístico. E se cada qual consome da lancheira própria ou esta se torna bem colectivo.
Tudo isto, segundo a proposta, para deixar de se alimentar um mercado clandestino, que atirou para a marginalidade e para o sistema prisional milhares e milhares de jovens. O Bloco, por uma vez, prefere o mercado livre. Com ele, acabam-se os marginais e esvaziam-se as prisões. Quem adivinharia este avanço do Bloco?

A senhora Reitora!

A Jurista e Professora Catedrática de Direito, Maria da Glória Garcia, foi indicada como reitora da Universidade Católica.
Foi noticiado que seria a primeira mulher a ocupar tal cargo numa Universidade portuguesa.
Parabéns à nomeada. Facto tanto mais de enaltecer quanto não precisou de quotas para o efeito. E parabéns também à Universidade Católica pelo pioneirismo da escolha. 
PS: Referi que foi noticiado que seria a primeira Reitora de uma Universidade. Não é assim. Um leitor informou-me que uma senhora, a Prof. Doutora Maria Helena Vaz de Carvalho Nazaré, foi Reitora da Universidade de Aveiro.

Emissao de divida publica e...lança-chamas em "panne"?

1. A Republica Portuguesa (através do IGTCP) realizou ontem uma emissão de bilhetes do Tesouro, a 6 e a 12 meses, tendo colocado um total de € 2 mil milhões: a 6 meses colocou € 750 milhões, com taxa média de 2,292% (anterior de 2,653% no leilão anterior); a 12 meses colocou € 1.250 milhões, taxa média de 3,505% (3,843% no leilão anterior). Regista-se, em especial, o facto de a taxa média da colocação a 12 meses ter sido significativamente inferior a registada no último leilão de divida pública espanhola para o mesmo prazo, realizado na 2ª Feira, que foi 3,918%.
2. Curiosamente, poucas horas antes desta operação, registara-se a entrada em cena, mais uma vez, do conhecido lança-chamas MS, conhecido pela sua acção destruidora de qualquer vestigio  de neo-liberalismo, desta vez disparando com toda a violência na direcção do Governo, que acusou de estar quase agonizante, de já não servir, sendo por isso urgente a sua substituição...
3. ...não se sabe por que forma essa substituição poderia agora ser feita a não ser por insurreição armada, mas isso para o lança-chamas em apreço trata-se de pormenores que não interessam muito ou mesmo nada, tudo será perfeitamente democrático desde que sirva para o derrube de quem não gosta...
4. Não deixa de ser sintomático do estado de eficácia do dito lança-chamas, a total indiferença do mercado em relação ao ataque que desferiu, reagindo exactamente ao contrario do que seria justificado face ao alarmismo que o mesmo seria suposto causar...
5. A conclusão parece apontar para a necessidade de uma urgente reparação do lança-chamas em questão, possivelmente danificado por excesso de uso nos últimos tempos, não se podendo esquecer que estes equipamentos muito sofisticados exigem uma manutenção frequente e rigorosa...
6. Se necessário, como e evidente, serão mobilizados fundos públicos para a reparação do lança-chamas, operação considerada de interesse publico...e, mesmo que o não fosse, os fundos públicos devem estar sempre ao dispor de causas nobres.

Bernardo Torres


Na semana passada escrevi um pequeno texto intitulado "Dois loucos" que coloquei no "O Quarto da República". Um pequeno episódio, um entre muitos que vou colecionando com enorme prazer. Hoje sentei-me no mesmo sítio, um pouco mais cedo do que é habitual. Pensei, o meu colega louco ainda não chegou, às tantas não vai aparecer. Desliguei-me desta ideia e pus-me a ler, gozando a saborosa brisa. Eis que, silenciosamente, ao contrário da semana passada, apareceu o meu colega de escrita, transportando a sua velha pasta de cabedal, boné e uma gravata muito garrida. Entrou no cemitério. Fui atrás dele para ver o que ia fazer. Espirrou alto e em bom som acompanhado de um sonoro porra! estou constipado ou quê? Para em frente de uma campa cheia de flores, testemunha de um funeral recente. Olha, torna a olhar, cheira, torna a cheirar, sai mais um espirro valente e remata, hum, aqui houve funeral, pois houve, sim senhor. Calado, olha com muita atenção e eu não consegui descortinar o que é que se estaria a passar naquela mente. Começa a andar em passo acelerado, e aí vai ele ao longo dos corredores mortuários como se fosse um fiscal dos mortos. Sem parar, cabeça baixa, ia-se tornando cada vez mais pequeno naquela imensidão do vazio Fiquei a olhá-lo à distância. Fiz os cálculos, ainda vai demorar um bocado, vou-me embora, são quase horas de retomar a minha atividade. Passei por um talhão de antigos combatentes, olhei para as campas aquecidas pelo sol, ornamentadas por diferentes tipos de cruzes, até que me chamou a atenção um túmulo encimado por uma chama. Aproximei-me e comecei a examinar aquele pequeno monumento erigido à memória de Bernardo Torres. Desconhecia na altura quem teria sido, mas, pelos dizeres desenhados, "impoluto caráter, liberal convicto e republicano indefectível", conclui estar perante um pensador livre com atuação cívica importante na cidade. Falecido a 21 de julho de 1921. Na coluna há um espaço para um medalhão, mas estava vazio. Olhei para o chão e descortinei na base uma interessante figura em cerâmica praticamente intacta, embora nos bordos houvesse alguma perda de substância. Teria caído sem se fragmentar. Estava ali à minha disposição. Peguei no medalhão e contemplei-o. Belo, sem dúvida. A figura impressionou-me, e fiquei com curiosidade em saber quem teria sido esta personalidade. Fiz umas breves pesquisas e concluí que foi uma notável figura de Aveiro, presidente da câmara, administrador de jornais, filantropo, em suma, alguém que em tempos terá contribuído para a sociedade. Imagino quantas palavras, quantos discursos e quantos elogios lhe foram dirigidos, para não falar das juras em perpetuar a sua memória como exemplo aos futuros cidadãos. Coloquei novamente o medalhão no chão, embora me apetecesse recolocá-lo no sítio devido.
Olhei em redor e não vi ninguém, nem mesmo o meu companheiro louco, que deveria andar ainda a deambular no seu ritual passeio entre os mortos.
“Mors ultima ratio” (A morte é a razão final de tudo). Está bem, pode ser, mas não era preciso exagerar tanto...