quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

As pielas do peão!...


A propósito do texto de há pouco do Prof. Massano Cardoso "Sangrar o álcool das veias nacionais" , acabo de ler no DN que "30% dos peões atropelados em 2006 estavam alcoolizados"!...

O que me leva a propôr que também a Assembleia da República passe a tomar conta da ocorrência e legisle sobre a taxa de alcoolemia permitida a um peão. E também sobre a protecção dos interesses de terceiros que possam sair lesados por uma titubeante conduta pedonal. Naturalmente que um peão alcoolizado que provoque acidente deverá ter responder pelos estragos feitos nos automóveis atingidos, pelo que será exigível a todo o peão um seguro de responsabilidade civil. E, antes disso, carta de peão!... Mas, ante de tudo, e como norma prudencial, caso a polícia detecte umas faces mais rosadas, um nariz mais vermelhusco ou qualquer zizguezaguear indefinido, deve logo medir o grau alcoólico do sujeito!...

Tenho é dúvidas que os Deputados saibam legislar sobre peões, entretidos que andam em grandes viagens mundo fora!... Ainda hoje também li que a robusta rubrica viagens do orçamento da Assembleia da República é normalmente ultrapassada e que só três deputados saíram para o estrangeiro 43 vezes no decorrer do ano!...Certamente bem transportados pois, a pé, ainda cá não estariam, com toda a certeza.

Cá por mim, depois de ler o que li, e enquanto não há uma lei de disciplina pedonal, vou infringir uma norma vital de um estado de direito: qualquer peão que se atravesse à minha frente é um presumível alcoolizado e só se não me atingir é que o considero abstémio!...

Pontualidade ou falta dela?

Assisti aqui há tempos a uma conferência, bem interessante, sobre a pontualidade e tenho convivido ao longo da minha vida, diria com muita frequência, como certamente muitas pessoas, com a falta de pontualidade. Diria, mesmo, que sofro com a atitude de indisciplina no cumprimento de horas.
Hoje decidi contabilizar os diversos atrasos que me ocorreram ao longo do dia. Foi tanto o desgaste provocado que decidi falar um pouco da pontualidade e da falta dela e relembrar algumas das coisas que ouvi naquela conferência.
No seu conjunto, a pontualidade de todos os indivíduos compõe a imagem cultural da sociedade e o modo como é feita a gestão do tempo e a importância dada aos compromissos assumidos. A pontualidade é um hábito, uma forma habitual de viver as referências temporais do quotidiano e, portanto, uma forma de expressão própria para gerir prioridades na relação consigo próprio e com as outras pessoas.
Portugal integra-se nas chamadas culturas policrónicas, isto é, em que não é mal visto falhar os compromissos, sendo frequente a sobreposição de reuniões e preenchimento simultâneo das agendas, aparentando, por vezes, uma eficácia e produtividade que, na realidade, não se verificam. A obsessão pelo relógio, não é, com efeito, o nosso forte.
Foi recentemente divulgado um estudo levado a efeito pela AESE sobre a “Pontualidade em Portugal”, que vem confirmar, o que já não é novidade para ninguém, que os portugueses não são pontuais.
O estudo conclui por um panorama desolador e afirma que o défice nacional de atitude pontual é uma característica que condiciona negativamente a eficiência e a competitividade da sociedade e economia portuguesas, para concluir que existe uma relação intimista entre pontualidade e performance.
O estudo não demonstra de um ponto de vista económico a evidência daquela relação, mas refere que estamos perante uma enorme irresponsabilidade social e profissional com impactos marcantes na produtividade.
A falta de pontualidade é, sobretudo, uma séria falta de respeito e desconsideração pelo próximo. É uma falta de educação. Uma pessoa que chega atrasada a um encontro está a fazer troça da outra, porquanto acaba de lhe roubar tempo.
A falta de pontualidade está tão enraizada em Portugal que me atrevo a dizer que assume contornos quase “genéticos”. Mas não é um problema que não possa ter solução. Por ser um problema cultural, estou em crer que a educação – na Família e na Escola – poderia desempenhar um papel importante na melhoria comportamental. Publicamente deveria ser afirmado, por responsáveis, que é uma vergonha não cumprir com horas combinadas ou chegar atrasado a um encontro, de qualquer natureza. Quando se trata de trabalho, é ainda mais grave e, decididamente, um péssimo costume, odiado na maioria dos países civilizados.
Cruzar os braços, como fazemos em tantas outras coisas, não me parece realmente ser a atitude mais inteligente.

“Sangrar o álcool das veias nacionais”...

A história do álcool confunde-se com a história do próprio homem. Desconhece-se o momento em que se materializou este encontro de uma forma consciente e hedonística. Cedo, descobriu as virtudes e o prazer veiculados sob diferentes formas de bebida.
Praticamente, nenhuma civilização, povo ou tribo deixou de produzir e desenvolver as suas variantes de bebidas alcoólicas, mesmo os que hoje as proíbem.
Desde cedo, foi possível verificar que o uso excessivo se acompanhava de graves problemas de saúde.
No livro “Arte de Conservar a Saúde dos Príncipes e das Pessoas de Primeira Qualidade como também das nossas Religiosas”, publicado por Ramazzini no início do século XVIII, é visível a preocupação em termos de prevenção e de moderação devido aos efeitos do álcool. Além de interessantes referências a autores da antiguidade, este brilhante médico de Modena afirma a certo passo: “Porém não há cousa, que tão clara, ou ocultamente seja mais contrária à saúde dos Príncipes, ou outros grandes, como é o uso do vinho imoderadamente; e o que mais é, que não só padece a sua saúde, senão a sua reputação, e glória.
É certo que o vinho em pequena quantidade, e com moderação, fortifica o corpo; mas da mesma sorte é certamente sem ela muito nocivo e prejudicial”.
Palavras que actualmente poderão ser subscritas por qualquer um, agora alargadas, não só aos príncipes e às pessoas de primeira qualidade, mas a qualquer cidadão. Palavras cheias de modernidade. O que nos distingue e separa, nestes três séculos, são os conhecimentos de natureza fisiológica, patológica e metabólica, entretanto desenvolvidos.
A massificação do consumo de bebidas alcoólicas varia de povo para povo, e cada um tem o seu próprio perfil. Os portugueses são considerados como um dos principais povos consumidores de álcool, a nível mundial. Facto que não nos orgulha, além de constituir fonte de doença, de morte, de violência, de conflitos laborais e de pobreza nacional, a todos os níveis. Curiosamente, nem sempre fomos assim. A análise dos relatos de viajantes estrangeiros no século XVIII, revela facetas pouco agradáveis dos nossos antepassados, mas, no que toca ao consumo do álcool, são positivos. Os relatos apontam para a seguinte conclusão: “Na Europa do século XVII e meados do século XVIII, não há povo que menos se entregue ao vício indesculpável da bebida”. Saussure chega a afirmar que “em geral o português é sóbrio, quer na bebida quer na comida. Um inglês, à sua conta, come mais carne de açougue e bebe mais vinho que quatro ou cinco portugueses juntos…
Algo se passou, entretanto. A partir dos finais do século XVIII observou-se uma viragem completa dos nossos hábitos: influência estrangeira, novos interesses económicos emergentes, condições sociais desfavoráveis, mal-estar colectivo, são alguns factores que, facilmente, promovem a união entre o homem e a bebida.
As causas subjacentes aos excessos do consumo de álcool são variadas e bem conhecidas. No entanto, na prática não se tem observado mudanças significativas, facto que nos deve preocupar.
A notícia segundo a qual o álcool é responsável por 36% das mortes ocorridas nas nossas estradas não abona nada a nosso favor. A informação e a formação são necessárias mas não são suficientes. Medidas de carácter legislativo, mais “apertadas”, são imperiosas.
Só é preciso coragem....

Salários da China?

Cerca da hora do almoço de hoje fui interpelado por um jornalista da Antena 1, solicitando-me que comentasse uma declaração muito recente (desta manhã, suponho) do Ministro Manuel Pinho que na visita à República da China terá acenado a empresários – presumo que chineses pois não vejo a que outros se poderia dirigir – com a suposta vantagem, para os investidores, dos baixos salários que se praticam em Portugal.
Ao que me foi referido pelo jornalista de serviço, a declaração do Ministro teria já provocado reacções de desagrado por parte de algumas centrais sindicais – UGT e CGTP, pelo menos - cujos porta-vozes mostraram alguma indignação (oficiosa, provavelmente) face a tais declarações, classificando de “anacrónica” a argumentação do Ministro.
Achei curioso que quisessem registar a minha opinião, agora que me encontro tão (cada vez mais) afastado do comentário político.
Limitei-me por isso a dizer que me parecia que tal declaração tinha sido feita no sítio errado: ao que se sabe, o salário médio de um operário chinês, na industria transformadora, andará por 1 USD. Ao câmbio de hoje, temos a módica quantia de € 0,77 por hora.
Uma mulher a dias em Portugal ganhará hoje 7 a 9 vezes essa quantia...
Resta acrescentar que em matéria de regalias sociais, a situação na China é de simples inexistência.
Será pensável, em tais condições, acenar com a competitividade dos níveis salariais que se praticam em Portugal?
Apesar da insistência do jornalista de serviço, não quis adicionar qualquer outro comentário pois me pareceu que o mais importante estava dito, o resto seriam mais observações de natureza política que não me dizem respeito.
Mas pareceu-me curioso este episódio, que revela pelo menos a dificuldade em que nos encontramos para oferecer aos investidores estrangeiros bons argumentos para investir em Portugal.

P.S. Jantar na Adega do Saraiva/Nafarros/Sintra fica para dia 15 de Fevereiro, depois de ouvido o oráculo Pinho Cardão e de percebida, mais ou menos, a disponibilidade ou indisponibilidade dos restantes interessados. Não podemos adiar mais, aparecerá quem quiser e puder – sei que pelo menos Pinho Cardão, Ferreira de Almeida, Tonibler, eu próprio e espero também que o Prof. Massano por si e em representação de Rui Vasco (mas sem o ónus de perdente da aposta...), temos a intenção de estar presentes. O jantar promete muita conversa e, quem sabe, inspirar algum post...

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Claridade

É sabido que o poder entorpece os partidos que conjunturalmente o exercem. A clarividência no pensamento e na atitude dá lugar à acção inconsequente ou à omissão conveniente. Mas de vez em quando aparece quem põe a inteligência à frente. Como se prova pela claridade deste escrito do Dr. Medeiros Ferreira.

O debate público do ( 2º ) referendo sobre o aborto

Começou hoje esta campanha!
Mais uns larguíssimos milhares do nosso "parco baú financeiro" vão ser atirados ao vento, à chuva e ao frio, em cartazes, encontros, manifestações...mediatismos vários!

Não tencionava, sequer, abordar este tema no blog.
Deu-me algum impulso, hoje, o post da minha Amiga Susana: ela é jurista, eu não sou.
Estou, assim, mais liberta deste rigor da ciência jurídica!
Em contrapartida, estou mais comprometida com outra ciência que dá pelo nome de saúde pública.

Leis incumpríveis ou não cumpridas, penso eu, são um desrespeito pelo Estado.
A que o Estado deve por termo: ou tornando-as cumpríveis ou fazendo-as cumprir.
Serviços básicos de saúde pública, com os diversos componentes que a englobam, são obrigação que compete o Estado garantir.
A que o Estado tem que responder: ou tornando-os atempadamente informativos e profilácticos ou fazendo-os cumprir com regras de boa prática.

O alarido está aí, compreendo que tem de se fazer debate...pelo menos para convencer que a abstenção não pode, de novo, vencer!
Mas entristece-me que, dez anos passados, nada de realçável, nem na implementação nem nos resultados, se possa apresentar como obra ou ao menos preocupação de qualquer dos dois partidos que foram governo.
Entre os dois referendos o que mudou? Em educação para a saúde nas escolas, em planeamento familiar feito de forma sustentada e com garantias de continuidade, em apoio psicológico dirigido às adolescentes (por forma a deixarmos o 2º lugar europeu de gravidez na adolescência), em suporte sanitário formativo e informativo nos bairros das famílias mais carenciadas....

Sinto alguma culpa em tudo isto que não foi feito...estive 3 anos no Parlamento...deixo aqui este "sentimento" que me acompanha!
Penso que só o Prof. Massano me vai compreender...tanto que falámos,ambos, nestes temas.

Portanto, pelo que disse mas, sobretudo, pelo muito que não disse...estou de alma e coração com Pacheco Pereira que escreveu ( o melhor artigo que eu li ) sobre o referendo do dia 11, no Público" na passada 5ª feira e onde dizia: "...desejaria que este referendo fosse silencioso, que este debate fosse quase inaudível, que ele pudesse ser feito quase por telepatia, por gestos subtis, sem voz, nem escrita, nem imagem..."

Por isso "desliguei" ontem o "Pròs e Contras", por isso não aceitei integrar qualquer movimento, nem participar em qualquer debate, nem sequer assistir em qualquer plateia...
Estarei demitida, enquanto cidadã?
Não creio!
Só que, como Pacheco Pereira, esta questão é tão "intimamente silenciosa"...que qualquer ruído me incomoda.

A insustentável leveza do gás!...

Maria José Morgado recomeçou o Apito Dourado com todo o gás, ao ponto de mandar reavaliar as cavernas em que o produto encontrado se tinha revelado de fraco teor energético. Depois disso, a exploração tem continuado a céu aberto e todas as obras são minuciosamente relatadas na comunicação social. Ainda ontem, no Porto, à saída do Laboratório, depois da análise a que foi sujeito, dezenas de microfones procuravam revelações sobre a verdadeira contribuição de um dos elementos mais importantes da mistura.
Acontece que o gás, a céu aberto, vai-se desvanecendo pela atmosfera, pelo que, ou me engano muito, ou nunca chegará a produzir a energia necessária a um ligeiro silvo, ou mesmo a uma suave apitadela!...

“Affluenza”

Em Hamlet, a frase, “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, proferida por um dos oficiais de guarda, aquando da aparição do fantasma, traduz a existência de um mistério que ameaça a sobrevivência do Reino. Hoje, podemos afirmar que “Há algo de podre fora do Reino da Dinamarca”! Enquanto a organização social na Dinamarca é mais equilibrada, menos desigual e, consequentemente, mais feliz, noutros povos é precisamente o contrário. Um novo e terrível “vírus”, denominado “affluenza”, está a atingir as pessoas de muitos países ricos. A sua virulência não se compara, em termos de mortalidade, com a “futura” variante humana do vírus de influenza H5N1, mas, em contrapartida, é altamente contagioso, levando as pessoas a um consumo patológico. Nesses povos, as pessoas são convidadas “a ganhar mais, a gastar mais, a querer mais”. Querem ser mais ricos que os vizinhos. Olham permanentemente sobre o ombro para saberem se já foram ultrapassados. Começam a sofrer doenças do foro comportamental cada vez mais graves, entre as quais se conta a depressão. Inicialmente surgem o descontentamento e a inveja. Depois emerge a patologia social e, nas situações mais graves, explodem graves patologias mentais.
Nos países desenvolvidos, há uma nítida correlação entre as doenças mentais e as elevadas disparidades dos rendimentos económicos. Quando aumenta o gradiente socioeconómico, aumenta a patologia mental. Os mais jovens são mais sensíveis ao “vírus da affluenza”. Em contrapartida, as comunidades rurais são menos propensas que as urbanas, assim como as comunidades não industrializadas versus as industrializadas.
Muito provavelmente, o vírus provoca desequilíbrio entre o “Ter” e o “Ser”, a favor do primeiro, confundindo o querer com as necessidades.
O endividamento patológico das famílias portuguesas é uma realidade, denunciando que o “vírus da affluenza” está de pedra e cal na nossa sociedade. Os comportamentos de muitos responsáveis, apelando ao consumo desenfreado numa perspectiva hedonística e ao criar estereótipos sociais, favorecem o propagar desta pandemia.
As preocupações com a prevenção de várias doenças constituem uma realidade, embora muitas vezes sem aplicação prática, ficando-se pela simples retórica.
A vacinação contra o vírus da influenza – falando apenas da gripe “banal” – é uma forma muito eficaz de prevenção. As autoridades promovem-na e ainda bem! Agora, gostaria de ver um bocadinho de mais atenção para a vacinação contra o “vírus da affluenza” por parte dos nossos responsáveis. Não deve ser muito difícil encontrar vacinas eficazes. O mais complicado é desenvolvê-las, ou melhor, ter vontade nesse sentido.
O desenvolvimento cultural, o combate ao abandono escolar, o estabelecimento de novos valores sociais, o combate aos novos preconceitos consumistas e a manutenção de velhos-novos valores éticos e comportamentais são urgentes, são vitais para evitar que este nosso pobre reino apodreça ainda mais...

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Ser ou não ser, eis a questão...

Não é especialmente difícil assumir princípios ou afirmar convicções. As dificuldades começam quando é preciso tirar daí todas as consequências.
O debate sobre o aborto tem mostrado bem essa diferença. O que está em causa e justifica o referendo não é o plano moral, esse é do foro íntimo de cada um, não é referendável, e não é uma lei mais ou menos permissiva que pode justificar qualquer desvio ao comportamento que se tem como moralmente certo.
O que está em causa é o plano legal ou seja, se cada um de nós fosse legislador, como ditaria a lei? Penalizava com prisão quem o pratica ou não? Até onde iria?E a resposta tem que ser ditada pelo modo como queremos ver organizada a sociedade em que vivemos, fazendo leis que são para cumprir porque têm um sentido útil e que defendemos, ou sem leis que violentam o nosso modo de encarar a realidade.
A única coisa que não se pode tolerar neste debate é o tipo de argumentos que se vê destacado na revista “Sábado” em artigo de Maria João Avillez:"- Só não sabe quem não quer saber porque nunca houve –nem há, e haverá algum dia?- mulheres presas por praticarem aborto”. O pior é que isto não é dito com sentido crítico, constatando uma lei que é ignorada, mas com a confiança de quem acha que há leis indicativas, (mesmo de carácter penal!) que, com sorte e bom senso, nunca chegarão a fazer sentir o facto de existirem.
Vamos admitir, por uma vez, que se assumem as consequências, seja qual for a posição que se defenda –se SIM, há a responsabilidade moral, que deve ser reafirmada e fortalecida, uma vez que deixa de contar com a ajuda do braço da lei. Se NÃO, conta-se que a lei puna quem praticar o que ela proíbe, com convicção ou sem ela. Defender a lei, ou recusá-la, como se a seguir o assunto ficasse encerrado e sem consequências, é que não é coisa nenhuma.
Excelente o Prós e Contras que está agora mesmo a decorrer.

Prometido é devido

Este post tem destinatários especiais: os bloguistas JMF Almeida e P Cardão, os comentadores Tonibler, Rui Vasco e C. Monteiro.
Trata-se de acertar a data de um jantar na Adega do Saraiva, em Nafarros/Sintra, prometido e devido desde que ficou conhecido o resultado das apostas na decisão "sabia" do BCE quanto à ultima revisão das suas taxas de juro.
Vicissitudes diversas, de ordem profissional, impediram até agora a concretização deste grande desígnio.
Aqui vão as sugestões, já ouvido P. Cardão - o que se revelou bem difícil dado que se entregou a uma quase reclusão desde 6ª Feira à noite, após o sismo com epicentro em Leiria:
- Próxima 6ª Feira, 2 de Fevereiro;
- Próxima 5ª Feira, 8 de Fevereiro;
- Próxima 5ª Feira, 15 de Fevereiro.
Esclarecido que as despesas do repasto correm por conta dos perdentes da aposta (todos sabemos quem são, especial responsabilidade deste bloguista).
Aguardam-se sugestões, sendo decisiva a palavra do bloguista P. Cardão (tem mesmo direito de veto).

Tal pai…tal filho!...

Segundo o Público de ontem, João Soares declarou na Secção do PS de Alvalade que Santana Lopes “sonha voltar a ser candidato à Câmara de Lisboa”. E também que "podemos voltar a ter aquele artista pela frente, Santana Lopes… paradigma do trampolim e dos trampolineiros...”.
Todos sabemos que Santana sonha isso e muito mais, como voltar a ser Líder parlamentar, Presidente do PSD, Presidente da Assembleia da República, 1º Ministro, Presidente da República, advogado ilustre, banqueiro, público ou privado. É com ele, é legítimo, ninguém, nem João Soares, lhe pode tirar os sonhos. Excepto os militantes do PSD ou os portugueses.
Todavia, parece que o sonho é mau, mas só se for Santana a sonhar! É que o mesmíssimo Soares, Vereador em Sintra, em declarações ao Sol, desde já se declarou “disponível para encabeçar o combate eleitoral” a Lisboa…abandonando Sintra, claro!.... Soares sonha, pois, o mesmo que Santana. Mas o seu sonho, pelos vistos, é de outra qualidade, é mesmo um sonho do melhor que há!...
Mas, segundo o próprio, o sonho de Soares defronta-se com um enorme pesadelo, a Comissão Política Concelhia de Lisboa, "um aparelho instalado há dez anos" e que constituiria "uma bola de chumbo amarrada à perna". A mesma Comissão Política que tem como Presidente Miguel Coelho, um soarista de sempre. Em contraponto, e pelos vistos, Soares considera-se um recém-chegado à política e que nunca precisou de Coelho para nada!...
Na campanha presidencial, Mário Soares insultou forte e feio Cavaco Silva e na sua vida política também foi desprezando os amigos que já não lhe convinham. Zenha é apenas um exemplo.
João Soares vai exactamente pelo mesmo caminho.
Tal pai, tal filho!...

domingo, 28 de janeiro de 2007

Gordura é formosura...

Li ontem uma notícia segundo a qual a “Espanha via adaptar tamanhos de roupa à mulher real”.
O Governo espanhol preocupado com a saúde das mulheres com excesso de peso – que perante a impossibilidade de vestirem no seu corpo os números de calças ou vestidos das mulheres magras podem desenvolver transtornos de saúde graves – decidiu avançar com um projecto que tem por objectivo criar um tamanho médio para uniformizar de forma realista os tamanhos de roupa vendida a mulheres.
A ideia é trazer realismo aos tamanhos de roupa, que têm como padrão um modelo de beleza que privilegia as mais magras e que não é alcançável pela maioria das mulheres.
A intenção é ajustar os números da roupa à realidade, medida que visa prevenir a baixa auto-estima e o descontentamento face à auto-imagem corporal.
Deste modo, as medidas grandes – o número 46, que corresponde a uma mulher "muito forte" – perdem o estatuto de tamanho especial e passam a normal e os manequins de montra passam a não poder vestir abaixo do número 38, considerado um tamanho baixo.
Com esta iniciativa - creio que inédita e a bem dizer algo vanguardista - o Governo espanhol espera contribuir para aumentar a prevenção de problemas de saúde ligados à beleza corporal e ajudar ao crescimento da auto estima das mulheres obesas e com excesso de peso. Será que vai funcionar?
Os homens não são por agora contemplados, mas lá chegará a sua vez.
Acho que os homens também estão muito necessitados. Esta coisa de associar a beleza às mulheres é uma desactualização, mais do que uma descriminação. Com semelhante tratamento, os homens gordos terão uma ajuda para se sentirem mais confortáveis, para melhorar a sua auto-imagem corporal. Tenho duvidas é que convençam…
Enfim, beleza e saúde estão - não há dúvida - cada vez mais unidas!
E pelos vistos gordura é mesmo formosura…

Reescrever a história!...

Pois é. No intervalo dos conflitos com Israel, os grupos palestinianos estão sempre atentos e, para não perderem a mão, vão-se matando entre si. Segundo o DN de hoje, um clima de guerra civil está instalado na Palestina, com os combates entre a Fatah e o Hamas a causarem dezenas de mortos, dezenas de feridos e reféns.
Também no Líbano tem grassado a violência. Sunitas e Xiitas vêm-se envolvendo em tumultos, com armas, tiros e mortes.
A culpa é novamente do imperialismo americano e da sua insaciável gula pelo petróleo palestiniano e libanês!...
De facto, as guerras naquela região de líderes tão pacíficos só começaram depois de haver americanos e de se ter descoberto o petróleo!...
O que me leva a pensar que os americanos já existiam desde há vários séculos antes de Cristo, época em que a história refere e a própria Bíblia dá conta de guerras violentas entre os Reinos da zona, incluindo o território de Gaza!...E que foram eles que obliteraram os genes pacíficos daquela gente!...
A história tem, pois, que ser reescrita e a descoberta e "colonização" da América que recuar vinte séculos!...

sábado, 27 de janeiro de 2007

A lama!

A propósito da situação na Câmara de Lisboa, escreve Paulo Gorjão no Bloguítica:
"...A lama, em política, não distingue raça ou origem étnica, religião ou credo, deficiência, idade ou orientação sexual. Fiel à sua natureza democrática, tanto suja quem leva com ela como quem a atira..."
Não posso estar mais de acordo!...

Mumbai (Bombaim)


O hotel, imponente, ficava mesmo em frente à Baía, com a Porta da Índia do lado esquerdo. Os barcos alinhados em grandes grupos esperavam a sua vez de ir buscar ou levar as multidões que se juntam a cada momento.
Mesmo no andar alto onde estava, chegava o ruído da rua, um bulício inquietante que dá a sensação de estar sempre a acontecer qualquer coisa de extraordinário. Mas não, é aquele o ritmo fervilhante da cidade gigantesca onde tudo cabe e tudo transborda, como se as coisas e as pessoas chocassem sem se ver umas às outras. Talvez seja esta a forma de coexistirem naquele movimento permanente.
O trânsito quase grotesco da Índia atinge aqui as raias da paranóia. No meio da balbúrdia ensurdecedora as pessoas saltam, correm, desviam-se por um triz ou seguem com indiferença mole como se o perigo de morte fosse uma ilusão de óptica. Enquanto estive uns largos minutos a ganhar coragem para a atravessar uma rua estreita perguntei-me mil vezes como é que eles fazem para sair ilesos…
Nos passeios encontra-se de tudo, incluindo barbeiros ao ar livre, mercadores de água e de velharias, pessoas a dormir, cordas com roupa, enfim, o que se lembrarem. Contorna-se e segue-se em frente, se conseguirmos romper a multidão e afastar as nuvens de pedintes..
Bombaim, agora Mumbai, capital do estado de Maharashtra, é a cidade mais populosa da Índia, com 13 milhões de habitantes e 25 milhões na área metropolitana. É o centro financeiro, comercial e cultural do País por isso apenas posso dizer que “passei” por lá, à justa para perceber como existe um mundo impossível.
Ao atravessar a cidade, ao longo do rio empastado de lixo e prisioneiro de milhões de tugúrios peçonhentos, que formam uma imensa chaga negra que não se sabe onde começa nem onde acaba, foi preciso tapar o nariz porque o cheiro é nauseabundo. Uns quarteirões mais à frente, há arranha-céus, parques silenciosos, templos e monumentos fabulosos, avenidas largas e limpas onde as lojas têm as melhores griffe do mercado.
Em Mumbai conheci Issouf, um rapazinho de 8 anos, ar limpo na sua magreza, uns olhos enormes e inteligentes. Meteu conversa como se nos conhecesse, explicou que falava 7 línguas, que não vai à escola porque não tem dinheiro e que vive nas ruas. Quando quis dar-lhe umas rupias, respondeu aflito: “Não, não sou um pedinte. Eu vendo flores”. Abriu um saquito de plástico que trazia, tirou uma pulseira de pétalas brancas, com o cheiro forte do nardo, e pôs-ma à volta do pulso. Insisti em pagar-lhe, ficou ofendido. “Não posso receber o teu dinheiro. Agora somos amigos.” E estendeu a mão, selando a amizade. Tive saudades quando o vi sumir-se na multidão, para ir ver a festa que se organizava no largo. “É a festa anual de Bombaim”, disse, a acenar.

“Que brutos!”

Os momentos de lazer são cada vez mais raros. Sempre que posso, consumo cada momento livre como se tratasse de uma laranja, ou seja, espremo-o ao máximo para lhe retirar o sumo, fonte prazer e de forças para os inúmeros embates que a idade e a responsabilidade acarretam.
Aos Sábados de manhã refugio-me no pequeno café-esplanada da Ponte da Praça de Santa Comba. Hoje, cumpri o ritual. Agasalhado, como um autêntico diabo a viajar pelos pólos, entrei dentro do estabelecimento, já que era impossível ficar cá fora. Sentei-me diante de uma das duas janelas panorâmicas e comecei a bisbilhotar as notícias dos jornais. O café é pequeno e quando entrei só estava a jovem empregada. Passado algum tempo, entraram duas senhoras bem vistosas, uma na casa dos quarenta, a outra acabada de entrar na dos trinta, transportando um "cestinho" com um bebé de poucas semanas, não por tê-lo visto, já que vinha cortinado por uma pequenina manta, mas pelo ar meio parido da mais nova. Sentaram-se à minha frente e colocaram a criancinha junto da janela para se “aquecer”. Passado dois minutos, se tanto, ambas raparam um cigarro sem qualquer cerimónia. Fiquei abismado. O miúdo (vim a saber depois o sexo, no decurso da conversa) começou a ser acarinhado pelo fumo. Entretanto três cavalheiros entraram e dirigiram-se à mesa. O mais velho, olhando para o quadro, disparou: - A fumarem! E com o bebé ao lado! Resposta, não da mãe, mas, da outra senhora: - Não há problema. O menino tem a mantinha a cobri-lo! O senhor de mais idade olhou-me e deve ter reparado na minha concordância com a sua observação.
Alguns minutos depois, entra uma jovem mãe, ainda na casa dos vinte, com outro “cestinho” de bebé, também coberto com uma pequena mantinha. Pensei: - E vão dois. O que pensará esta mãe ao ver que os vizinhos ao lado estão a fumar! Rapidamente deu-me uma resposta esclarecedora. Também começou a fumar. Incrível. Mais uma. Já não conseguia ler as notícias. Entretanto, dois dos cavalheiros que acompanhavam as senhoras sentadas à minha frente começaram a fumar. Um deles devia ser o pai. Eis que repente o jovem marido da mãe mais jovem que se tinha sentado na mesa à minha esquerda entrou no café e zás: puxou também de um cigarro. Logo a seguir entrou uma senhora sem “cestinho”, bem cuidada que se senta na mesa entre as das duas mamãs e catrapus: puxou também de um cigarro. Ou seja, num curto espaço de tempo, o ambiente agradável do café foi atacado por sete pessoas em nove com boa dose de fumo de tabaco. O ar do pequeno café tornou-se desagradável, obrigando-me a sair e ir para casa a resmungar. Como é possível que ocorram casos desta natureza, mães e pais que não têm respeito pelos outros e, sobretudo, pelos próprios filhos de tenra idade.
Mais uma forma de violência! Violência contra os direitos dos outros e da saúde e bem-estar dos próprios filhos!
Que brutos! E o ministro da saúde é outro! Já teve tempo mais do que suficiente para “botar” cá para fora a tal lei... É o “botas”!

Critérios editoriais!...


Com a sua transferência para um dos clubes da 2ª circular, Derlei ocupou nos jornais desportivos, só no dia de hoje, tanto espaço como em todos os anos em que esteve no Porto e foi determinante para a conquista de Taça UEFA e da Liga dos Campeões. E só não ocupou mais, porque também foi preciso celebrar a derrota do Porto em Leiria!...
Os votos de felicidades e êxitos pessoais para o Derlei na sua estadia em Lisboa. Só pessoais, claro está!...

Goa II - Velha Goa




A Velha Goa tem uma magia que não há máquina de filmar capaz de captar.
Imaginem-se num ponto muito alto, onde está a Igreja Nossa Senhora do Monte, um pináculo branco debruado a arabescos vermelhos que parecem um azulejo de renda. Lá dentro, uma voz de mulher entoava cânticos religiosos com uma voz límpida e firme mas com a suavidade de um recolhimento.
Esse som maravilhoso espalhva-se até ao adro, rodeado de um muro de pedra que limita um abismo de verde denso que se estende por ali fora até onde o mar permite. Aqui e acolá, espreitando na folhagem como se brincassem às escondidas, cúpulas brancas ou torres afiladas denunciam a profusão de igrejas com que os portugueses marcaram o seu território. Dizem-nos que são 200 no Estado de Goa.
Descemos à Basílica do Bom Jesus, onde a missa teve a força de um cerimonial de fé.
Parecia que a liturgia estava a ser feita ali, naquele momento, que o coro e o padre falavam português porque essa era a língua da sua emoção contida. Com fé ou sem ela, a verdade é que passou uma corrente que não conhecia gentes nem lugar e que nada parecia poder perturbar.
O coro calava-se e as notas ficavam suspensas no ar, saindo devagarinho em bicos dos pés. Kátia Guerreiro cantou (ou rezou?) o fado Nossa Sra.das Dores e os acordes soaram como se aquele ângulo da igreja fosse deles e eles ali estivessem desde sempre.
Ninguém estranhou o cântico em língua doce e indecifrável que se seguiu, como uma desgarrada de contrastes que se ajustam sem esforço, conduzindo-nos ao abismo da nossa alma maravilhada.
À noite, houve a recepção no aldeamento onde ficámos alojados, com os coqueiros iluminados e as mesas espalhadas pelo relvado imenso. No palco, a saia vermelha com bordados prateados da fadista fez empalidecer os saris de seda e a elegância esmerada das indianas.
O fado encheu a noite quente de emoção e evocação, num tempo suspenso.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

A mais pura das boatarias!...

Ana Gomes foi hoje recebida pelo Procurador Geral a quem diz ter entregue “indícios relevantes” de conivência do Estado português com “ilegalidades e graves violações dos direitos humanos” no transporte ilegal de prisioneiros. Estas informações serão remetidas para o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).
Certamente que virá aí uma nova grande investigação, com grande afectação de meios pronta a descobrir o que o Governo e Organismos Oficiais não conseguiram.
Também com grande cópia de meios e violações diárias do segredo de justiça, prossegue a investigação do Apito Dourado.
Tenho ouvido falar da falta de recursos com que a Judiciária e a Procuradoria se debatem e também tenho ouvido falar de alta criminalidade, tráfego de droga e corrupção em Portugal.
Como a primeira daquelas investigações já foi mais que feita pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e nem nos diz directamente respeito e a segunda é só futebol, concluo que não há criminalidade em Portugal e o que é preciso é ocupar o pessoal!...
Pelo que o que se diz é pura boataria!... Antes assim!...

A memória é como as cerejas, ou melhor, como os figos


Num dia frio como o de hoje, nada melhor do que lembrar os belos dias de Verão!
A figueira ficava no terreno da quinta vizinha, mas os ramos mais frondosos estendiam-se para o lado de cá do muro, cheios de figos suculentos e tentadores.
Eles chegavam de comboio para visitar os netos na casa de férias dos outros avós, ela com o seu ar roliço e tranquilo, ele com os bolsos recheados de caramelos e o chapéu de feltro preto enterrado na cabeça, para lhe tapar a careca.
Seguia pachorrenta a tarde de domingo de Verão quando ele se levantava, olhava para os figos, e lançava a bisca: “-Não há por aí um escadote? Aqueles figos a apodrecerem é uma dor de alma!”
A garotada ia a correr e em breve lá estava ele empoleirado, já sem casaco, com o chapéu às três pancadas, a deitar a mão aos figos. Os netos esperavam cá em baixo, com cestinhos, à espera que ele os atirasse com pontaria.
Mas era sempre a mesma coisa.
Apanhava um, avaliava-o e, se lhe agradava, abria-o com o canivete e comia-o sem cerimónias.
“-Então, avô Ahah, não atira o figo?”
“-Ná, este estava muito maduro, quando aí chegasse estava em papas!” e lambia-se, deliciado.
Quando eram os pequeninos e meio verdes, lá vinha um ou outro, mas os pingados de mel, apetitosos, era como ele dizia: “Chamei-lhes um figo!” E ria às gargalhadas, fazendo tremer o escadote.
A cena acabava sempre em gritaria, os cestinhos à míngua dos frutos e a implicância do compadre:
- Bonito serviço, sim senhor! Sempre quero ver se aparece aí o dono dos figos, como é que descalça a bota!
- Deixe-o vir, deixe-o vir, que eu conto-lhe um conto...
E estendia-se na cadeira de lona, debaixo dos cedros, a dormir regalado o resto da tarde.

Critérios editoriais!...

Hoje ouvi várias notícias sobre Fidel Castro, creio que a propósito de uma reunião magna do Partido Comunista Cubano.
O homem é apelidado de Mítico Comandante, Comandante, Revolucionário, Grande Revolucionário, Responsável Máximo de Cuba, e epítetos quejandos.
Ditadura e Ditadores é coisa que para a generalidade da nossa comunicação social só existe noutros sítios!...Critérios editoriais!...

"O mundo é dos "brutos"...

As notícias sobre a violência são uma constante do nosso quotidiano. Abrimos um jornal ou escutamos o noticiário e aparece, inexoravelmente, a violência.
"Violência" nas escolas.
"Violência" desportiva.
"Violência" da polícia.
"Violência" sobre a polícia.
"Violência" dos tribunais.
"Violência" política.
"Violência" religiosa.
"Violência" económica.
"Violência" cultural.
"Violência" publicitária.
"Violência" sexual.
"Violência" rodoviária.
"Violência" moral.
"Violência" jornalística.
"Violência" sobre as crianças.
"Violência" sobre as mulheres.
"Violência" doméstica.
"Violência" racial.
"Violência" laboral.
"Violência" científica.
Enfim, violência!
Faz parte da nossa natureza. É um facto. Mas os diferentes mecanismos criados e desenvolvidos ao longo da nossa existência, enquanto espécie, não têm conseguido domesticá-la. Bem pelo contrário, a criação de novas áreas, quase diria novas arenas, alarga a expressão da violência inata. No fundo, comportamo-nos ao velho estilo paleolítico, com a inevitável moca ou fémur de mamute a esborrachar o crânio do parceiro.
A palavra, as atitudes e o comportamento de alguns responsáveis são brutalmente lesivas da integridade de muitos seres humanos, provocando estupefacção e sentimento de revolta, alimentando mal-estar e, nalguns, desencadeando mesmo reacções de brutalidade.
O mundo é dos "brutos"...


Lisboa

Lisboa é hoje, objectivamente, uma cidade sem projecto.
Nos últimos meses foi notícia, pasme-se, por ter instalado uns banais radares de controlo de velocidade! Este facto diz tudo sobre a dinâmica da Capital...
Após os últimos acontecimentos será certamente um município em regime de mera gestão, tal o manto de suspeição que foi lançado sobre a actividade camarária.
Ninguém se atreverá a propor uma medida de rasgo.
Passar-se-á o tempo a discutir as acusações do vereador do BE, ampliadas pela comunicação social, como já é hábito.
Será essa a sina da administração camarária até ao fim do mandato
Perante este cenário, que me recuso a acreditar que não seja intuído pela maioria, que sentido faz a conclusão saída da reunião entre o senhor presidente da câmara e os senhores vereadores, segundo a qual ainda existem condições para continuar a trabalhar?
Adenda:
Este post de Vital Moreira só não merecerá o prémio Nobel da perspicácia porque é óbvia a explicação para a conduta da oposição à esquerda.

Consumidores de electricidade, protejam-se!

Com alguma fanfarra, a EDP anunciou esta semana o seu “plano estratégico” para o
quadriénio 2007-2010.
Desse plano destaca-se o grande aumento da produção de energia eólica, que deverá passar de 952MW em 2005 para 4.200MW em 2010, justificando 40% do “capex” (como agora se usa) previsto pela Empresa para o período em causa.
Então, a EDP espera ser um dos 5 maiores produtores mundiais de energia eólica.
O principal objectivo é chegar a 2010 com uma produção de energia de fontes renováveis igual a 46% do total de energia produzida pela empresa (35% em 2006).
O “capex” total previsto para o período é de € 7,6 mil milhões (equivalente 5% do PIB de 2006), essencialmente em projectos de expansão da capacidade produtiva.
Outro aspecto relevante da estratégia da EDP é o tratamento favorável prometido aos accionistas: está previsto um crescimento anual de 14% nos lucros por acção (“earnings per share” usa-se mais, é mais bonito) e um crescimento médio de 11% nos dividendos a distribuir.
Para os analistas, este “plano estratégico” foi recebido como música celestial. Apareceram logo revisões dos “price-targets” reflectindo o optimismo que os vendedores do “stock” sempre gostam de transmitir ao mercado.
Mas há um ponto importante que passou em branco: os consumidores. Tenho a noção de que os consumidores vão ser a parte fraca em todo este arranjo estratégico, serão eles a pagar a factura deste projectado aumento da energia produzida de fontes renováveis e do magnífico tratamento prometido aos investidores/accionistas.
Daí que me tenha ocorrido recomendar aos leitores deste BLOG, todos consumidores de electricidade, para comprarem acções da EDP: talvez 1.000, 2.000, 5.000, 10.000 ou se possível mais acções da eléctrica nacional, dependendo da dimensão da vossa factura mensal.
Esclareço que não tenho qualquer interesse no assunto a não ser uma pequena carteira de acções da eléctrica, pelo que este conselho é dado com total independência.
Se seguirem este conselho, terão a possibilidade de ganhar dum lado o que vão pagar a mais do outro. A vossa factura de energia aumentará mas isso será compensado, no todo ou em parte, pelo aumento dos resultados e dos dividendos.
É uma forma natural de “cobrirem” o risco da posição (“edging”, que tb é mais bonito) de consumidor, cada vez mais vulnerável.
É um conselho de amigo, somente.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

O seu a seu dono!...

Ouvi hoje, ia no carro, a parte do debate com o 1º Ministro na Assembleia da República, em que José Sócrates respondia às questões de um Deputado do CDS sobre o inquérito do Instituto da Droga e Toxicodependência (em que se perguntava a miúdos de 11 anos nomeadamente “sobre se o pai, ou o substituto insultava, agredia ou obrigava a mãe a fazer vida sexual com ele e contra a sua vontade”) e a que hoje mesmo se referiu num post o Prof. Massano, e sobre o pacote de João Cravinho contra a corrupção.
As respostas do 1º Ministro foram, a meu ver, exemplares.
Considerou o inquérito um erro grosseiro e afirmou que não concorda com as propostas de Cravinho, pelo óbvio facto de não se dever inverter o princípio básico em que assenta a nossa ordem jurídica, em que um sujeito se presume inocente até ser julgado como culpado.
Tenho criticado Sócrates e o Governo, nomeadamente no que respeita à política económica e à gestão das finanças públicas, à política de saúde e à justiça e pela utilização de um marketing enganoso que procura por todos os meios dar uma imagem falaciosa das medidas e dos resultados da acção governativa. Mas, em algumas iniciativas, também tenho reconhecido ao 1º Ministro mérito e coragem.
Também hoje, pelas duas respostas que ouvi, lhe tirava o meu chapéu, se o usasse. Como não uso, aqui deixo a presente nota.
Não se trata de um grande passo na governação, mas deixa subjacente a ideia de que ainda há no Governo quem tenha uma ponta de senso.
E muito me penaliza que o PSD, à falta de trabalho de casa e melhor proposta, tenha sido justamente acusado, por Sócrates, de oportunista, por ter feito seu o projecto de Cravinho, inaceitável ao que parece, por estar ferido de graves ilegalidades e mesmo inconstitucionalidades.

“A violência da pergunta…”

O inquérito que o IDT pretendia realizar sobre os hábitos de consumo de droga, no universo estudantil do 3º ciclo até final do secundário, comportava perguntas que não se podem ou não se devem fazer a jovens.
Presumo que é do conhecimento geral a polémica levantada acerca deste caso. As perguntas “sancionadas” questionavam os alunos “sobre se o pai, ou o substituto insultava, agredia ou obrigava a mãe a fazer vida sexual com ele e contra a sua vontade”.
Parece que este inquérito é a repetição de um outro efectuado em 2001! Agora, o responsável máximo do IDT admite que as perguntas sobre a violência doméstica tinham uma formulação infeliz e que em última análise a responsabilidade é sua. Pode dizer o que lhe apetece, mas há uma coisa que não pode ser escamoteada, quem fez o inquérito ou quem o idealizou deve ser mesmo incompetente ou manifesta novas formas de violência! De facto, não podemos esquecer que a estrutura de um inquérito tem de obedecer a regras e princípios bem definidos.
Como é possível que uma entidade tão importante legitime e envereda por certas áreas tipo “elefante em loja de cristais”?
Quem faz investigação, elabora e aplica inquéritos, sabe muito bem que o facto de desejar conhecer certos aspectos, que podem ser muito importantes, não legitima que se pergunte tudo e de qualquer maneira, muito menos da forma “agressiva” como é o caso presente.
Hoje, existem medidas de controlo e de fiscalização para a realização de diferentes tipos de estudo. Questiono-me como foi possível este inquérito ter conseguido “furar” a comissão de ética? Partindo do pressuposto de que tenha sido submetido.
A submissão às Comissões de Ética e à Comissão Nacional de Protecção dos dados, assim como as necessárias declarações de consentimento dos inquiridos ou dos seus tutores, são indispensáveis à prossecução de estudos, salvaguardando os direitos dos cidadãos.
A este propósito, recordo-me de um colega, em tempos, ter sido multado pela Comissão de Protecção de Dados, na sequência de uma denúncia, segundo a qual havia perigo de não confidencialidade. O inquérito era correcto, não continha perguntas anómalas ou agressivas, foi apreciado e aprovado por uma comissão de ética, mas o simples facto de poder ocorrer perda de confidencialidade levou à tal penalização e à destruição dos inquéritos.
Voltando à vaca fria, modo de questionar os problemas, um colega, presidente de uma comissão de ética de um grande hospital do país, informou-me que anda preocupado com o crescente pedido de inquéritos por parte de pessoal não médico e até mesmo de estudantes. A forma como apresentam os inquéritos é “chocante”, como se fosse permitido perguntar tudo e de qualquer maneira. Um dos últimos pedidos era oriundo de uma escola secundária em que alunos do 11º ou 12º anos queriam fazer um inquérito no hospital aos doentes com cancro para saberem o que sentem!!!...
Enfim, há qualquer coisa que não bate certo, traduzindo não só um défice cultural como, também, uma insensibilização a certos valores.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Oásis!...


Os cinco grandes assuntos do país, e que há semanas consecutivas ocupam os media, são:
1. Os aviões da CIA
2. O livro de Carolina Salgado
3. O Processo Apito Dourado
4. O Pacote Legislativo Cravinho, mistério que ninguém conhece
5. A “recondução” do Director Geral dos Impostos
E, mais um, de bónus: os reforços do Benfica!

Podia elencar mais vinte de igual conteúdo e importância para a vida de todos nós.
O que significa que o país vai muito bem, o quarto poder recomenda-se e acabou o emprego para a Oposição!...

Codigo da Contratação Publica: para quê?

Há cerca de 2 ou 3 semanas o Ministro das Obras Publicas (MOP), entrevistado no programa “Diga lá, Excelência” da RR, afirmou como grande novidade e iniciativa da maior relevância a próxima aprovação pelo Governo de um “Código da Contratação Publica”.
Os ilustres entrevistadores mostraram curiosidade e nada questionaram o Ministro quanto à necessidade da obra, procurando antes esclarecer os seus objectivos: transparência, rigor, acabar com suspeitas e derrapagens de custos nos grandes contratos de aquisição de bens, de empreitada ou outros em que uma parte (adquirente ou dono de obra) seja uma entidade pública.
Em suma, corrigir a situação actual em que supostamente “não existem” condições para assegurar tão nobres objectivos.
Não foi nesse programa que pela primeira vez o assunto foi mencionado. Recordo-me de que já uns dias antes um Secretário de Estado, pelo menos, ter anunciado esse grande projecto legislativo.
Conhecendo razoavelmente o enquadramento legal e regulamentar deste assunto, confesso a minha perplexidade com tais anúncios.
A matéria da contratação pública encontra-se tratada no nosso ordenamento jurídico, basicamente em dois diplomas:
- O DL nº197/99, de 8 de Junho, que transpôs para a ordem jurídica nacional a Directiva 97/52/CE de 13 Outubro, regulando a aquisição e locação de bens e serviços por entidades públicas;
- O DL nº59/99, de 2 de Março, que transpôs a Directiva 93/37/CE, de 14 de Julho, regulando as empreitadas de obras públicas e também as concessões de obras públicas.

Qualquer um destes diplomas regula de forma extremamente detalhada e rigorosa toda a matéria da contratação pública.
O primeiro, contem nada menos de 209 artigos (mais uma boa dúzia de anexos) onde todas as etapas dos processos de aquisição de bens ou serviços se encontram minuciosamente tratadas, começando pela explanação dos princípios aplicáveis, a saber: (i) legalidade e prossecução do interesse público, (ii) transparência e publicidade, (iii) igualdade, (iv) concorrência, (v) imparcialidade, (vi) proporcionalidade, (vii) boa fé, (viii) estabilidade e (ix) responsabilidade.
Quanto ao segundo, são “apenas” 278 artigos, mais uma extensa lista de anexos, com uma apertadíssima malha de normas em que tudo é minuciosamente regulado.
Face a esta realidade legislativa, espantou-me o facto de nem o MOP nem os entrevistadores lhe terem dado a menor importância, não a referindo tampouco.
Será que nenhum deles tem a noção desta realidade? Custa-me a crer...
Mas se algum deles tem essa noção, seria absolutamente lógico que explicassem o que está mal ou obsoleto na mesma (duvido muito), merecendo mudança radical com o tal Código da Contratação Colectiva.
Este episódio ilustra a meu ver o ponto a que chegamos em matéria de marketing político: vale tudo menos “tirar olhos” como se dizia no meu tempo do liceu...
Será para justificar o projecto da Ota, fazendo crer que agora, com o novo Código, é que vamos ter transparência e rigor a valer? Tudo é possível...

Your country needs you!

“What’s matter with you Portuguese guys?? Your country needs you!” Foi esta a reacção de um holandês que assistia à conversa entre vários jovens portugueses, todos com formação universitária, que faziam planos para sair do país como primeira opção. Macau, Holanda, Itália, Espanha, Alemanha, por aí fora, aqui é que não tencionam ficar.
Para lhe responderem, cada um contou a sua curta experiência no mercado de trabalho: pouco estimulante, crítica à criatividade, pouco reconhecimento, baixos salários, assédio, algumas vezes experiências humilhantes. Que não querem vender a alma por dois patacos, resumiam eles. Conheço alguns dos intervenientes e acho que fariam um óptimo lugar em muitas empresas ou trariam a necessária renovação a alguns serviços públicos que bem precisam de alargar as mentalidades. Mas estão a mandar os currículos para todos os azimutes. Aqui, na expressão deles, ficam “atrofiados”. Terão razão?

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

"Entre a lei e o coração"

Está de parabéns Fátima Campos Ferreira pelos Prós e Contras desta noite, dedicado à ADOPÇÃO "Entre a lei e o coração", no qual foi tratado abundantemente o interesse superior da criança da Sertã.
Neste caso extraordinariamente infeliz e dramático, registaram-se ao longo da existência desta criança – já lá vão perto de cinco anos – vicissitudes de vida, comportamentos desviantes, inúmeras falhas e morosidades processuais, contradições judicias e legais, interpretações distintas sobre o superior interesse da criança, vários processos judiciais e a intervenção de diferentes tribunais, morosidade no processo de adopção, etc.
No meio de tanta complexidade, existe uma criança que na sua inocência não sabe, não imagina, a luta que é travada pela sua tutela, mas que conhece e ama os seus Pais, que sente o seu amor e carinho e encontra neles o seu ninho.
Muitas coisas foram ditas esta noite, mas aquela que mais me chamou a atenção e que me reconfortou naquilo que é a minha sensibilidade para julgar o que é o superior interesse desta criança foi a seguinte declaração: o princípio da afectividade deve prevalecer sobre a identidade biológica.
Só assim será possível que não ocorra a ruptura dos laços afectivos da criança com os seus Pais adoptivos, de que depende a sua estabilidade e segurança emocionais.
A propósito deste caso escrevi em 19 de Janeiro um post intitulado: O "flagelo" da adopção...

Política de finanças públicas: um perfeito desconchavo!...

Segundo o Boletim Informativo de Dezembro da Direcção Geral do Orçamento, a Despesa Pública do Sector Estado, em 2006, teve um aumento homólogo de 2,4%. Como as receitas fiscais tiveram um acréscimo de 7,2%, o défice apresenta uma melhoria.
Mais uma vez o défice melhorou devido ao aumento das Receitas, não à diminuição da Despesa Pública. O que, por mais que o Governo diga, deita por terra a propaganda da diminuição dos gastos do Estado.
Aliás, o facto vem mais uma vez provar o erro total da política de finanças públicas.
O défice não se combate, antes se fortalece, com mais impostos. Porque mais impostos acabam por permitir maior despesa, que vai ganhando terreno a níveis cada vez mais elevados, exigindo obviamente novos impostos.
Até quando se manterá este mito, alimentado por políticos e economistas bem pensantes, de que a diminuição dos impostos só é possível após a diminuição do défice?
De facto, só baixando os impostos é possível disciplinar a Despesa Pública.
Mas esta é uma teoria ainda longe da nossa cultura económica, carregada de keynesianismos mal assimilados por governantes e políticos. Mesmo no PSD, salvo poucas mas honrosas excepções.
Nada tendo mudado, nada há a esperar deste completo desconchavo em que nos encontramos.

- “Vovô! É para brincar? – Não! É mesmo a sério…”

Foi noticiado que a oferta de cheques superiores a 500 euros tem de ser declarada ao fisco e, inclusive, nos casos previstos, pagar 10% do seu valor. Estou preocupado, e muito!
Tenho uma netita que acabou de fazer três anos e passei-lhe um cheque para a sua conta-poupança. Nada de especial. O pior é que segundo a lei em vigor, a menina, apesar de estar isenta do pagamento, tem que preencher uma declaração chamada de “modelo 1 do imposto do selo”.
Hoje chamei-a e disse-lhe: - Mariana, faz o favor de ires lá baixo, às Finanças, e preencher o “modelo 1 do imposto do selo” da doação que te fiz na altura do aniversário. Ouviste? Olha que eu não quero chatices com aqueles senhores. O problema é teu!
A miúda, com um olhar meio esbugalhado face a tão solene e inesperada interpelação, perguntou-me: - Vovô! É para brincar? – Não! É mesmo a sério…

Sabe sempre bem!...

O 4R é um espaço de que os autores do 4R muito gostam e vão desenvolvendo por puro prazer intelectual.
E naturalmente ficamos satisfeitos se outros demonstram apreço pelo 4R, como acontece com os comentadores que insistem em visitar-nos ou quando somos citados noutros blogs.
Ontem, um dos blogs de referência, O Insurgente, através de André Azevedo Alves, publicou um texto sobre o Quarta República que nos deixa lisonjeados.
Embora não nos tomemos muito a sério, somos sérios no que escrevemos e seriamente agradecemos o apreço demonstrado.
E no que pessoalmente me toca, digo, com muito gosto, que o Insurgente é uma das minhas visitas diárias.

1º Aniversário!...

Faz hoje um ano que Cavaco Silva foi eleito Presidente da República.
Um verdadeiro Presidente que sente as suas funções como uma missão importante para os portugueses. Que procura acentuar cooperações, visando a alterar profundamente visões e mentalidades corporativas, em prol do interesse comum.
Não lhe interessa a imagem, mas é exigente no conteúdo; não trabalha para a corte, mas para os portugueses.
Estamos todos de parabéns pela escolha acertada que fizemos!...

Goa I




O que dizer de Goa? O que dizer para expressar uma pura sensação, qualquer coisa que passa muito para além do que os nossos olhos abarcam, uma estranheza por nos sentirmos em casa sem podermos reconhecer as nossas coisas?
Em Goa, recuamos umas décadas nas nossas referências, mas elas estão lá. É como se nos encontrássemos, feitos adultos, dentro de um desses filmes em que aparecíamos ainda crianças.
A aproximação à cidade é decepcionante, pelo ar de pobreza e abandono que encontramos pelo caminho. Parece que a natureza domina tudo e as pessoas se encontram salpicadas ao acaso no meio do capim e dos coqueiros, vindas não se sabe de onde.
A sensação começa a ganhar forma quando se passa pelas povoações. As casas coloniais, muitas decrépitas, surgem cada vez com mais frequência, paredes meias com casebres de zinco, tábuas e vasos de flores. Miúdos por todo o lado, como coelhos a espreitar das tocas, e a estrada bordejada de tendas, quitandas, lojas, lugares de fruta, num colorido que desmente a indolência caprichosa das gentes. Estas, sorriem e acenam para os carros que passam, perturbando a azáfama morna e húmida.
Azáfama, disse bem. Porque há como que uma energia contida naquela orgia de coisas exibidas, colchas, lenços, comida, mobílias, bugigangas e os vendedores espojados por perto, como nada os pudesse perturbar. As vacas à solta, com a soberba dos incontestados, pisam sem ver, atravessam sem pedir, seguindo sempre, como se vigiassem tudo sob a capa da sua indiferença petulante.
Passamos uma ponte, o rio alarga-se num sorriso radioso que nos entra no coração. Depois, some-se. De novo a estrada sinuosa, a vegetação densa, e logo outra ponte, as praias brancas, as traineiras azuis. O condutor aponta os lugares, desfia os nomes, larga o volante e dá guinadas assassinas enquanto procura palavras portuguesas na poeira da sua memória.

O perfume da tecnologia

A propósito dos cheiros da Índia, não resisto a contar um episódio caricato que ficou associado à viagem.
O hotel em Delhi era muito agradável, bem à medida do que o corpo pedia depois da viagem tão longa e da forte impressão que aquela Babilónia causa ao mais avisado.
Mal pisei o chão do quarto, assalta-me uma música melosa, uma voz feminina tipo sereia encantadora que anunciava repetidamente um perfume qualquer paradisíaco. Passado o relâmpago em que pensei ter entrado no quarto errado, vi o écran gigante pregado na parede, com imagens dengosas em fundo de mar ondulante, onde pairavam uns cabelos lustrosos como se quisessem espalhar o dito perfume por todo o lado. O refrão era curto e insistente: “Your essence is your soooouullll...!”.
Primeiro, não descobria de onde vinha o som. Depois, não vi nenhum botão suspeito no écran. Finalmente, não dava com o maldito comando que me pudesse livrar daquela dormência. Cansada como estava, deixei-me dormir antes de conseguir abafar a criatura e aquele som actuou como uma droga de efeito rápido.
A verdade é que me ficou o diabo da música no ouvido. Sobretudo porque não servia de nada carregar no comando. O salto tecnológico estava ali bem à vista, porque de cada vez que saía do quarto e voltava a entrar, logo o automatismo infernal começava a implicar com os meus ouvidos. Se apagava a luz e voltava a acender, acendia-se o écran e a mulher despertava com o perfume. Era sempre mais rápida que eu, mesmo depois de ter o cuidado de deixar o comando à mão de semear… Não sei quantas vezes ouvi aquilo, de modo que, quando penso em Delhi, logo me ocorre aquele vozeirão e o perfume enjoativo que apelava à alma!

Delhi


Delhi tem um cheiro diferente, é logo a primeira coisa que se nota ao descer do avião.
Um cheiro adocicado, um perfume indefinido que se apodera de nós e nos integra na distância.
Vêem-se hordas de gente, magotes de homens todos iguais no aspecto pobre, nos gestos lentos, no olhar distraído de quem acha que nada o pode afectar. São centenas a fazer ou desfazer passeios e ruas, num labor interminável e impotente. Veio-me à memória Sto António a tentar levar o mar numa concha para uma covinha na areia…
Ali a confusão fervilhante não parece ter fim nem objectivo, as ruas nunca são largas demais, os jardins extensos parece que se vão sumir porque não podem impor-se ao caos que tudo invade e domina.
O trânsito é uma amálgama de carros, autocarros apinhados que parecem ter saído da sucata, bicicletas, animais e pessoas transportando fardos impossíveis. Os riquexós pretos e amarelos, com as suas três rodas bamboleantes, são um verdadeiro prodígio de imaginação e destreza. Parecem abelhas depois de um combate de boxe, saem de todos os lados e em todas as direcções, com uns trapos imundos a esvoaçar à laia de cortinas. Mas as suas buzinas estridentes, que apitam sem tréguas, emprestam-lhes o arcaboiço de um carro de combate.
Buzinar é um desporto nacional. A barulheira faz o trânsito parecer ainda pior, mas se não se morrer de medo habituamo-nos depressa àquela estridência constante.
As pessoas são muito simpáticas e gentis e as mulheres correspondem sempre saudando levemente, numa cumplicidade feminina que deve ser universal.
Os comerciantes são temíveis, com aquele tom melífluo que nos acolhe como se fossemos o primeiro cliente da sua vida e é virtualmente impossível sair de uma loja, ou o que lhe queiram chamar, sem ter comprado nada. Ao mínimo sinal de fraqueza estendem a mão, dizendo o seu nome e tratando-nos por “friend”, desarmando qualquer tentativa de prolongar a negociação.
Os edifícios oficiais são todos coloniais, grandiosos e austeros, em pedra rosa, com linhas amplas e espaços frescos. Nas salas nobres há pinturas nos tectos, com profusão de dourado e coloridos quentes.
Há cães e macacos à solta e esquilinhos às riscas a subir os troncos das árvores imensas.
A diversidade é surpreendente, nos edifícios, nos monumentos, nas avenidas e nas ruelas, nos trajes e nas lojas. Tive muita pena de não ir a Old Delhi mas muitas mais coisas ficaram por ver. Será para a próxima.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Seguindo os conselhos do Prof. Massano!...


O Professor Massano citou há dias e também no post anterior uma passagem da Bíblia que é um verdadeiro hino à alegria.
“Por isso, louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do Sol, do que comer, beber e divertir-se; é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe conceder debaixo do Sol”.
A Bíblia é para ser seguida e eu esmerei-me em cumprir com todo o rigor aquela passagem, durante este fim-de-semana. De sexta a domingo transmudei-me para Trás-os-Montes, a propósito da Feira do Fumeiro, em Montalegre, com passagem, à ida, por Chaves e, à vinda, por Matosinhos.
Em Chaves, o jantar no Restaurante Carvalho fica para recordar. Excelente cozinha, pratos variados, ambiente agradável. Para além das carnes transmontanas, um bacalhau assado como há poucos neste mundo!...
O cozido à portuguesa, em Montalegre, com vinte amigos, em casa de um amigo ilustre homem do Barroso confirmou a tradição das boas carnes barrosãs, dos excelentes enchidos, das sobremesas magnificentes. Horas à mesa, num convívio que todos os anos deixa saudades.
Por afazeres no estrangeiro, o nosso companheiro Tavares Moreira, grande dinamizador da iniciativa, não pôde comparecer. Mas foi vivamente recordado nos discursos. Que almoços destes propiciam retórica de suprema qualidade...tanta que leva o anfitrião a nunca ter esmorecido nos convites que, ao longo dos anos, nos vem fazendo!...
Para lavar o estômago, o almoço de domingo só podia ser uma dieta de peixe fresco em Matosinhos, com outro grupo, este de uma viagem no ano passado à Índia e que, na véspera, resolvera fazer uma comemoração no Porto!…
“Por isso, louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do Sol, do que comer, beber e divertir-se; é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe conceder debaixo do Sol”.

“Deus e o sentido de humor…”

De vez em quando socorremo-nos da Bíblia, transcrevendo breves passagens, para reforçar alguns conceitos ou ilustrar certas posições. É um exercício interessante. As reacções ou comentários às mesmas não se fazem esperar devido à profundidade das mesmas. Com um pouco de atenção até somos capazes de detectar um certo humor divino.
Quando escrevi a nota “Come, bebe e diverte-te!...”, citei uma passagem do Eclesiastes (8.15). Vou repeti-la: “Por isso, louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do Sol, do que comer, beber e divertir-se; é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe conceder debaixo do Sol”.
O meu amigo Pinho Cardão, profundo conhecedor do Livro, apressou-se a perguntar: - “E quantos versos da Bíblia cantam o amor livre de preconceitos e os prazeres da vida”? Vai daí e transcreve um cântico do Livro de Salomão:

Ah! Beija-me com os beijos de tua boca!
Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho
e suave é a fragrância de teus perfumes;
o teu nome é como um perfume derramado: por isto amam-te as jovens.
Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!
...
meu bem-amado é para mim um saquitel de mirra, que repousa entre os meus seios;
meu bem-amado é para mim um cacho de uvas nas vinhas de Engadi.
Como és formosa, amiga minha! Como és bela! Teus olhos são como pombas.
- Como é belo, meu amor! Como és encantador! Nosso leito é um leito verdejante...

Tonibler, um dos nossos habituais comentadores, entra ao serviço, assim como Ferreira de Almeida. É fácil perceber o que perpassou por estas mentes “tenebrosas” rematadas pelas tiradas ruivascanas!
Agora, quem diria que uma simples (como quem diz!) crise de hemorróides, tenha descambado para o Velho Testamento! Quando me informaram de que no primeiro livro de Samuel havia referências a este problema, pus-me a caminho e, realmente, lá está! Quando os filisteus roubaram a Arca, o Senhor não gostou, o que é natural, e pregou-lhes uma praga de ratos acompanhada de crises de hemorróides (temperadas, pudicamente (?), nalgumas versões como tumores) que não pouparam ninguém e cujas queixas devem ter chegado ao céu. Nem mais, nem menos. Perante a situação, os larápios trataram de entregar a Arca no Templo acompanhada de cinco estatuetas de ratos e outras tantas de “hemorróidas” em ouro.
Aqui está um bom exemplo de que Deus tem sentido de humor. É pena que não aplique a muitas das actuais situações, porque permitiria resolver muitos e sérios problemas. Ah! Já agora! Podia dispensar os ratos, claro!

Segredo de justiça: para quando?

Desculpem-me os aficionados do futebol e de alguns clubes em particular, mas não morro de amores por este desporto.
Este facto não impede que acompanhe desde há muito as histórias escandalosas que se passam no mundo do futebol, mais precisamente no mundo dos negócios do futebol, que em nada dignificam a actividade desportiva e mais não são que o reflexo da imoralidade e da impunidade que se vive a muitos níveis neste País.
Vem isto a propósito da notícia vinda hoje a público através do DN sobre a divulgação – na Net – de um documento em segredo de justiça, concretamente um despacho da Procuradora Geral Adjunta Maria José Morgado no âmbito do processo "Apito Dourado", sobre o Senhor Pinto da Costa.
Este despacho tornado público – assim reza a notícia do DN – revela um escandaloso incumprimento do segredo de justiça. Não é preciso trabalhar no foro da justiça para se entender a vergonha a que se chegou. Segundo a notícia, face à divulgação, a Procuradoria Geral da República vai agora, pelos vistos, abrir um inquérito para averiguar o que aconteceu.
O que aconteceu? Parece ser pertinente colocar-se a seguinte questão: o que é que já foi feito para pôr cobro a este fenómeno? O que cada vez se afigura mais óbvio é a necessidade de se criarem os mecanismos que impeçam esta prática insustentável, que viola e prejudica a administração da justiça e contribui para a sua já elevada descredibilização.
Vamos então ter mais um inquérito para averiguar o que se passou. E depois? Vão continuar as violações do segredo de justiça e a abertura de mais averiguações?
Já agora convinha que oportunamente dessem conhecimento público dos resultados do dito inquérito.
Face a tudo isto, começo a ter pena do Senhor Procurador Geral da República Dr. Pinto Monteiro, ao que consta possuidor de uma honestidade profissional invejável, por ter tomado posse há tão pouco tempo e já estar a braços com uma série de "pares de brócolos".

Sinais preocupantes


Mais um cidadão de Odemira faleceu após 4 horas de espera por ajuda médica numa situação que, tanto quanto se diz, era de emergência.

Não sei se - como ouvi de um dos responsáveis pela gestão da emergência médica - a pessoa acabaria por morrer ainda que vivesse em Lisboa e fosse rapidamente assistida. O que sei, perante dois casos em que cidadãos faleceram depois de aguardarem por assistência adequada que objectivamente não chegou a tempo, é que não é mais possível ao Governo, e em especial ao senhor Ministro da Saúde, ignorar que estes são sinais preocupantes que devem fazer repensar a política traçada e levada à prática, para uns com coragem, para outros com irracional teimosia.

Não ouvi até agora ninguém recordá-lo, mas é importante não perder de vista que a política de encerramento de estabelecimentos de saúde, o abandono do programa de localização de novos hospitais nas cidades do interior, o fecho de maternidades, bem como a reestruturação das urgências que tem sido levada a cabo e que atinge sobretudo essas terras menos relevantes na geografia eleitoral, tem sempre como fundamento, no discurso do senhor Ministro, o facto de termos hoje um país onde o tempo para percorrer as distâncias se encurtou, mercê da melhoria das infraestruturas rodoviárias.

Ora, apesar de não ser esta uma verdade absoluta uma vez que o senhor Ministro sabe bem quantas horas demora a percorrer 100 km nalgumas paragens do interior transmontano ou da beira interior, o argumento torna então mais graves e preocupantes os casos de Odemira. Porque, para além da ausência de qualquer condições de assistência para casos graves naquele concelho, poderão ter-se perdido duas vidas exactamente porque o tempo para vencer a distância não se revelou suficiente, nem é, a qualquer luz, razoável num país do primeiro mundo.

Serão suficientes estes casos (que, não sendo certamente os únicos, foram os mais mediatizados) para convencer o Governo de que a sua política está errada? Oxalá.

A escala


Fizemos escala nos Emiratos Árabes Unidos era já dia claro.
Num passe de mágica, o mar sumiu-se e ficou só a areia, a trair a memória das águas nas suas formas ondulantes e fugidias.
Ali não há chão firme. Uma cobra de asfalto dorme comprida no amarelo das areias, poisa nelas como numa cama emprestada, a firmeza do betão parece uma bolacha quebradiça quando se abarca a imensidão do deserto que atravessa.
Um braçado de palmeiras aqui e ali, só para lembrar que o verde existe mas não pertence àquele cenário. Besouros pretos feitos homens agitam-se à volta de uns cactos de metal quando o avião se aproxima da miragem com a forma de plataforma de abastecimento, onde os pássaros atrevidos que cruzam aqueles ermos pagam o tributo da sua pequenez sorvendo largos golos de combustível.
Fico contente quando retomamos a rota da Índia.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Visto do céu


A viagem fez-se de noite. Confirmei o meu gosto em andar de avião, apesar do formigueiro nas pernas a reclamar das quase 13 horas de imobilidade.
A meio da noite entra-se naquele limbo em que os sonhos se misturam com as vozes dos resistentes ao sono e foi nessa altura que olhei pela janela à espera do escuro de breu que teimava em nos seguir.
Dei com uma paisagem feérica.
Uma faixa vermelho vivo de sol nascente separava o céu e a terra. Em cima, um azul escuro límpido, a querer romper de cor. Em baixo, uma massa de picos irregulares, envolta em bruma densa, estendia-se a perder de vista como se estivesse a flutuar. Não estranharia ver de repente o castelo enfeitiçado pela bruxa má, as serpentes enroscadas nas torres medonhas, os penedos intransponíveis a desafiar a coragem dos deuses.
As montanhas do Irão foram ganhando nitidez aos meus olhos fixos de puro pasmo.
Á medida que o céu clareava surgia uma imagem lunar, mil e mil agulhas viradas para cima, brancas escarpas afiadas numa imensidão de deserto gelado que desafiava a razão. Julguei estar a sonhar, fiz como nos filmes, esfreguei os olhos, procurei nos outros o mesmo assombro. Mas, no aconchego do avião, tudo parecia tranquilo.
Via agora umas luzinhas de quando em quando, uns círculos minúsculos escondidos numa ou outra dobra das lâminas temíveis. Quem poderá viver num sítio destes? Saberão como é aquele mar branco encapelado visto do céu, o infinito com forma e feitio?
O avião parecia imóvel, como que preso pela força daquele abismo. Mas não, ele progredia, as montanhas é que corriam sob as suas asas, desdobrando-se, multiplicando-se como se nunca mais a paisagem pudesse ser outra e o branco, o cinzento e o vermelho se combinassem para sempre.
Fechei os olhos para não ter medo e a paisagem foi-se afastando pela calada.

Índia

Índia

De regresso desta fantástica viagem, aqui estou a saudar os 4republicanos de quem tive tantas saudades! Sei que o site da PR foi dando notícias actualizadas e em tempo real do que se ia passando nas longínquas paragens, mas quem lá estava sentia-se mesmo longe!
O programa era muito exigente e o tempo preenchido ao milímetro. Graças a essa tirania, não cheguei a sentir a falta da mala suplementar que aqui me aconselharam, uma vez que boa parte das maravilhas cobiçadas acabaram por ficar onde as vi… Enfim, esta é uma versão das coisas, receio bem que a família não pense da mesma maneira, mas isso é porque não puderam sofrer essa rude prova que é ver uma coisa fantástica e logo a seguir outra ainda melhor, e outra, e outra, fazendo-nos arrepender de ter cedido à primeira tentação… Ainda assim, trago algumas recordações, só para me lembrar que tenho que lá voltar! E julguei ter aprendido a regatear preços, para logo descobrir que não aprendi quase nada. O principal segredo é o tempo, aquela languidez que acompanha a apreensão do outro, não é em breves minutos que se oculta a vontade de comprar, num jogo de aproximações sucessivas que têm que ser cegas à simpatia e à descarada envolvência dos vendedores que nos estendem a ratoeira com um ar prazenteiro de quem sabe que não vamos resistir…
Adorei a viagem, que correu sem incidentes e sempre com acolhimento caloroso e digno. Gostei das pessoas, dos rituais, da paisagem ora brutal ora paradisíaca, fiquei a lamentar não ter tempo para sair pelas ruas, entrar nos mercados insensatos de confusão, conhecer as Índias que se ocultam umas atrás das outras, como mundos que se desvendam sem parar, desafiando as leis da natureza e mostrando a infinita pequenez do homem que tenta por ordem (???) no caos. Dá ideia que tudo se some na voragem da natureza, na imensidão das multidões, nos cheiros ásperos, na opulência e na miséria.
Não há olhos que cheguem para ver a Índia.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

O "flagelo" da adopção...

O caso de Torres Novas suscita-me uma breve reflexão, aqui, sobre a adopção.
O vínculo da adopção constitui-se por sentença judicial, acto através do qual se estabelece uma relação legal de filiação. Filiação que nasce de uma realidade social e afectiva na intenção e motivação dos adoptantes e dos objectivos da lei em concretizar o direito fundamental de toda a criança a desenvolver-se numa família. A lei é particularmente exigente, pois na adopção a criança passará a integrar-se como filho na família adoptante extinguindo-se para futuro o parentesco com a sua família biológica.
Conciliar o rigor com a celeridade do processo é um princípio fundamental a que todas as instâncias envolvidas, designadamente da segurança social e os tribunais, deveriam ter presente na defesa do superior interesse da criança.
Mas a realidade é bem mais dura, continuam os bloqueios e as dificuldades à celeridade da adopção.
Os dados mais completos de que disponho – de um estudo da Segurança Social de 2003 – são assustadores e inquietantes: 11.330 crianças institucionalizadas, das quais 715 identificadas para adopção – ou seja, apenas 6% daquele universo; 44% das crianças situam-se na faixa etária dos 13 aos 18 anos; período médio de duração de um processo de adopção de 39 meses e período de selecção de uma criança para adopção de 20 meses!
Estes números desumanos demonstram que não está garantida a urgência na resolução da situação das crianças para adopção e assinalam que na sua maioria é inviabilizada a possibilidade de um projecto de adopção.
O quadro descrito não sofreu, infelizmente, uma melhoria digna de registo, apesar de algumas mudanças legislativas.
Para além de um quadro legal que se afigura desajustado em lidar com o primado da defesa do superior interesse da criança e do seu direito a uma solução familiar alternativa, há problemas graves ao nível dos serviços da Segurança Social que continuam a não estar devidamente estruturados para uma intervenção mais eficaz – com competências exclusivas ao nível da intervenção na adopção – e as suas equipas não são suficientemente dotadas dos meios humanos e logísticos para uma acção célere.
Reduzir o tempo de intervenção de todas as instâncias num quadro de garantia de direitos da criança é um objectivo que deveria ser persistentemente prosseguido e perseguido, para que as nossas crianças possam viver e crescer com amor e segurança no seio da família, em lugar do infortúnio de uma vida institucionalizada ou em ambiente familiar de risco que ponha em causa a sua própria vida.

“Linhagens”…

Em 2004, aquando da discussão sobre procriação medicamente assistida, tive oportunidade de elaborar um parecer sobre um dos vários projectos de lei admitidos e nunca discutidos. A presente legislatura já resolveu o assunto (Lei nº 32/2006 de 26 de Julho). Recordei-me desse parecer e fui lê-lo. As razões prendem-se com uma notícia segundo a qual um casal isrealita ganhou na Justiça o direito de usar espermatozóides do seu filho, morto em 2002, para inseminar uma mulher que nunca conheceu. Fiquei abismado com a autorização. Em primeiro lugar o filho não tinha deixado nada nesse sentido, nem um testamento. Os pais retiraram os espermatozóides depois de morto a fim de os utilizar mais tarde, porque o filho manifestou, desde sempre, que queria ser pai. O desejo de ser pai e ser mãe é natural, e perfeitamente legítimo, desde que estejam vivos!
Os Cohen procuraram mulheres que aceitassem ser inseminadas e acabaram por escolher uma, entre mais de 200, com 25 anos.
O advogado explicou que a partir de agora “as linhagens familiares podem sobreviver mesmo sem o prévio consentimento do homem falecido em questão”.
Na altura, a propósito do projecto de lei que me foi atribuído, foquei vários aspectos, nomeadamente a importância das técnicas de procriação medicamente assistida, quais das técnicas utilizadas e aceites não suscitavam grandes preocupações, quais as que levantavam graves problemas éticos e quais as que exigiam debate e reflexão mais aprofundada. Além destes aspectos, comentei e analisei outros relacionados com o embrião e as respectivas implicações na investigação científica.
Um dos pontos do projecto admitia a inseminação e fertilização post-mortem das mulheres. O sémen seria recolhido até ao termo das 24 horas após o falecimento, mesmo que não existisse consentimento por escrito. O documento encerrava, inequivocamente, um excesso de autoridade da parte da mulher como se fosse herdeira natural dos espermatozóides do homem com quem vivia. Até que ponto é eticamente aceitável a mulher ser herdeira de material biológico do companheiro? O material biológico não é susceptível de ser herdado. Pode ser doado, mas não herdado. É eticamente aceitável que se proceda à implantação de embriões post-mortem, dando sequência a um projecto de vida, caso a mulher assim o deseje.
O argumento, israelita, de manter “linhagens” é patético. Cerca de 90% da população, em qualquer momento deixa de ter linhagem. Basta olhar para trás e “ver” quantas e quantas linhagens desapareceram. Pela amostra das que cá andam, ainda bem…

A justiça da Sertã

A avaliar pelo que vem sendo publicado, o desfecho do julgamento de Torres Novas referente aos pais adoptivos da Sertã parece-me a última calamidade pública da justiça. Um homem que praticou o bem, criando um recém-nascido entregue pela mãe em estado de necessidade, pelas suas condições de vida e porque o pai não o reconheceu, nem fez qualquer esforço para tal, é condenado a 6 anos de prisão, imagine-se, por prática de sequestro!...
Justiça burocrática, que adopta a primeira disposição legal que encontra. Justiça livresca, que não faz esforço para ir além da matéria escrita. Justiça que qualquer empregado administrativo judicial destituído de senso seria capaz de praticar com idêntica eficácia, similar qualidade, mas menores custos.
Seis anos de prisão!...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

“Come, bebe e diverte-te!...

The Gospel of Food: Everything You Think You Know About Food Is Wrong”, de Barry Glassner, é um livro polémico que tem desencadeado várias reacções. Já tive conhecimento de algumas, mas o melhor é lê-lo. Para o efeito também me aguçou o apetite uma citação retirada do Eclesiastes (8.15), que desconhecia completamente, e que não resisto a transcrevê-la, enquanto aguardo a obra.
Vejam bem esta preciosidade: “Por isso, louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do Sol, do que comer, beber e divertir-se; é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe conceder debaixo do Sol”.

“Cinco minutos para a meia-noite e meia-noite e cinco”…

Acabou de ser anunciado que o simbólico relógio, criado em 1947, nos escritórios da BAS (Boletim de Cientistas Atómicos), para “medir” o tempo que falta para que a Humanidade desapareça, foi adiantado em mais dois minutos, resultante das novas ameaças que pendem sobre as nossas cabeças, sobretudo as recentes alterações climáticas.
Inicialmente, o relógio só tomava em linha de conta as ameaças nucleares, “magistralmente” materializadas em Hiroshima e Nagasaqui, e a hora foi fixada nas 23h:53 m. Depois, ao longo do tempo sofreu 18 “acertos”, frutos dos diversos acontecimentos mundiais, tendo sido “estabilizada”, em 2003, nas 23h:55m. Agora, acrescentaram mais dois minutos, passando para as 23h:57m. Já falta pouco para acabarmos com isto tudo, porque adiantar é fácil, atrasá-lo é que é muito mais difícil! Mas pode ser que haja ainda esperança, porque, em 1953, o Mundo chegou às 23h:57m:30s, quando as grandes potências faziam testes termonucleares, uns atrás dos outros.
Tragédias ao redor da meia-noite parecem ser comuns. Uma delas foi em Bhopal, passava cinco minutos depois da meia-noite. Dominique Lapierre e Javier Moro escreveram um livro notável sobre a tragédia que se abateu sobre aquela comunidade indiana, na sequência da explosão de uma fábrica de pesticidas. A nuvem tóxica varreu e matou por onde passava, animais, homens, mulheres, jovens, velhos, ricos e pobres. Hoje, passados mais de 22 anos, as consequências ainda se fazem sentir, sobretudo nas mulheres, e até nas filhas entretanto nascidas que, apesar de não terem estado expostas, são atormentadas por graves problemas de saúde.
Fui à estante e retirei o livro “Il était minuit cinc a Bhopal”. Ao passar os olhos por esta obra recordei o seu conteúdo e os dramas que viveram tantas pessoas. A falta de respeito pelas regras de segurança, pelos valores e dignidade dos seres humanos estão bem patenteados neste romance ao descrever que, para muitos, o fim do mundo pode ocorrer não à meia-noite, mas cinco minutos depois…

Os grandes portugueses


Para o concurso dos Grandes Portugueses a minha escolha hesita entre D. João II e o Infante D.Henrique.
Eliminando à partida Álvaro Cunhal, “fait-divers” que apenas por complexos mal explicados integra a lista, também deixo de lado os indigitados do século XX, Salazar, Fernando Pessoa e Aristides de Sousa Mendes, pelo facto de ainda não haver distanciamento que permita o assentar da poeira e verificar do seu efectivo lugar na história de Portugal. Sousa Mendes, no entanto, merece uma palavra especial, pelo exercício das mais altas virtudes humanas do altruísmo, da solidariedade e da compaixão, mesmo com sacrifício pessoal, pois conhecia as consequências, bem evidenciadas na pobreza em que morreu.
D. Afonso Henriques fundou Portugal e deixou-nos esse legado, mas “praticava violência familiar” e não cumpria a palavra dada; o Marquês de Pombal reconstruiu Lisboa, mas foi um déspota e cometeu atrocidades de toda a ordem.
Restam o Infante D. Henrique, D. João II, Camões e Vasco da Gama.
Camões e Vasco da Gama foram grandes, entre os maiores da humanidade. Mas não haveria descoberta do caminho marítimo para a Índia nem Os Lusíadas sem o Infante D. Henrique e sem D. João II.
Ambos foram visionários, ambos tiveram um projecto para Portugal, ambos lutaram por ele, ambos foram “profissionais”, criando as condições para o seu desenvolvimento. Ambos morreram sem verem plenamente concretizados os seus desígnios.
Mas D. João II mostrou compreender muito bem as consequências das “descobertas” e a importância do “domínio” da Índia. Para o efeito, gizou o "Plano da Índia". Rodeou-se do melhor “conhecimento” científico da época, dos melhores geógrafos, dos melhores cartógrafos, dos melhores cientistas, dos melhores pilotos, dos melhores financeiros. Conseguiu assim o conhecimento e as certezas para negociar Tordesilhas, deixando aos espanhóis a possibilidade de descobrir as “índias”. Foi um português com um projecto ousado, mas firme e determinado. Pela liderança que imprimiu, conseguiu reunir os meios científicos, humanos, organizativos e financeiros para o atingir. Como nunca mais alguém fez na história de Portugal. Um grande português e uma grande figura da humanidade, a quem rasgou fronteiras como nunca antes. A quem Portugal deve toda a importância que ainda possa ter no mundo!...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Nostalgia

Recordo-me que, em tempos, numa conversa com um professor da Universidade de Santiago acabámos por falar de casos de morte por saudade ocorrida nos galegos que viviam longe da sua terra natal; morte cantada por poetas, morte provocada pela nostalgia.
A palavra nostalgia foi criada pelo médico suíço Johannes Hofer a propósito da sua obra Dissertatio curiosa-medica De Nostalgia, vulgo Heimweh oder Heimvehsuct, em 1678. Construída a partir de nostos, que significa viagem, retorno ao seu país, e algos (dor, sofrimento), permitiu construir uma nova doença.
Os primeiros casos descritos são de facto interessantes. Um jovem de Basileia que estudava em Berna, longe da sua terra, começou a ficar agitado, ansioso e febril. Dia após dia agravava-se o seu estado e as medidas terapêuticas instituídas na altura (clisteres, purgas, sangrias) não faziam prever um final feliz. Deste modo, o boticário aconselhou que o melhor era enviá-lo para casa, já que tudo apontava para um desfecho fatal. À medida que o momento da partida chegava, a respiração do jovem tornava-se mais calma. Quando se iniciou a viagem a agitação começou a abrandar e as melhoras emergiam a olhos vistos, de tal forma que à chegada à cidade natal estava perfeitamente curado.
Hofer começou a analisar esta situação tendo concluído que os suíços mercenários, que participavam em acções noutros países, apresentavam com relativa frequência esta morbidez capaz de matar, não obstante a sua profissão!
O afastamento voluntário ou não, devido às mais diversas causas (guerras, exílios forçados, migração), da terra natal, provocava reacções graves em muitas pessoas, podendo ser fatais. A nostalgia continuou a provocar mortes, mesmo nos tempos mais recentes. Desconhece-se se continua a provocar este inusitado desfecho nos nossos dias, mas é muito provável que sim, porque apesar de termos encurtado as distâncias, e criado uma grande aldeia, mesmo assim, muitos indivíduos são obrigados a deslocarem-se dos seus locais e não têm meios de "matar saudades".
Um povo como o nosso que calcorreou o mundo "sabe' muito bem o que é ter saudades e até podemos questionar-nos quantos terão sido vitimados pela nostalgia? Provavelmente muitos.
Pode ser uma doença relativamente comum, mas tem uma particularidade: é perfeitamente curável...