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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Pulseira do equilíbrio

Como o país anda desequilibrado, nada melhor do que uma pequena história para esquecer as amarguras da existência, uma espécie de "pulseira do equilíbrio", versão blog.


Uma jovem de 26 anos, obrigada pela legislação a fazer exame médico, chamou-me a atenção pela jovialidade, simpatia e por usar no pulso esquerdo dois relógios. - Este pessoal passa-se da cabeça. Dois relógios! Após este breve pensamento passei ao interrogatório e exame físico. Ao proceder à medição da pressão arterial aproveitei o ato para analisar os dois relógios. Não eram dois relógios, mas sim um e uma pulseira cor-de-rosa com dois hologramas. – Que raio de pulseira! No final, perguntei-lhe se me podia dizer o que era aquilo, porque nunca tinha visto nada de semelhante. Olhou-me com uma expressiva exclamação facial e, ao mesmo tempo que me dava a oportunidade de a ver mais de perto, disse: - Não sabe o que é? – Não! – É a pulseira do equilíbrio! – Como? – Pulseira do equilíbrio. – E serve para quê? – Para mantermos o equilíbrio, o bem-estar, para termos mais energia; não vê estes hologramas? Um é o polo positivo e o outro é o negativo. Olhei para a pulseira, reles, de plástico, com dois hologramas a dizer qualquer coisa em inglês, apalpei-a e não achei nada de especial, a não ser o seu uso por uma jovem que tinha um nível cultural, aparentemente, elevado, e uma experiência de vida rica para a idade. – E funciona? Perguntei-lhe. Riu-se, embaraçada, e rematou: - Não tem evitado alguns tropeções!
- Sabe? A sua pulseira fez-me recordar uma velha tia e uma história que lhe vou contar quando era pequeno. Aconteceu há meio século. A minha tia Custódia, solteira, que conheci sempre velha, de voz tonitruante e com duas manápulas capazes de dobrar o cachaço a um boi, tinha o hábito de contar histórias, inicialmente agradáveis, acabando sempre por as terminar de forma a chatear-me, - um estupor. Um dia comprou uma pulseira magnética na feira. Não lhe ficou barata. Ouvi-a dizer à minha avó. Mas como lhe disseram que era o melhor que havia para o reumático, não hesitou. A pulseira comportava vários elos, quadrados, feitos de latão, e dentro de cada um devia haver qualquer coisa, porque se ouvia quando a chocalhava. Feia, fascinou-me de imediato por causa da atração entre os elos. Abria a pulseira e depois, lentamente, aproximava-os até sentir uma força de atração e zás! Colapsava-se. – Mas como é possível uma coisa destas? Parecia um milagre. Intrigado com o interior dos elos, aproveitei uma distração da minha tia. A pulseira estava sobre a cómoda do quarto. Entrei, peguei no “antirreumático” magnético, e com a ajuda de uma chave de fendas consegui retirar do interior pequenos cubos negros com os quais comecei a fazer comboios e vê-los a chocar sozinhos entre eles. Uma delícia. O pior foi a seguir. Ao ver o estado em que se encontrava o remédio para as suas dores, não lhe foi difícil saber quem teria sido o autor. Sem dizer uma palavra, e com o resto da pulseira na mão esquerda, pregou-me um estalo de tal ordem que caí desequilibrado no chão. Vi estrelas, como se tivesse sido atropelado pelas enormes máquinas a vapor que puxavam o comboio-correio. Umas bestas. A minha tia também não lhes ficava atrás.
Sorriu. Antes de se levantar informou-me do preço, como adquiri-la e as cores disponíveis. Ao sair, disse-lhe em jeito de desabafo: - Se a minha tia Custódia na altura usasse uma coisa destas, não teria levado na cara e nem perdido o equilíbrio...
Cinquenta anos depois, tudo na mesma, ou pior! Bom, pior não digo. Pelo menos desta vez não estraguei a frágil pulseira...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Vigaristas "quânticos"!

Parece que já descobriram mais uma maneira de chular os papalvos, agora estão a usar um colar "quântico", "que contém uma célula de ressonância que está programada com as frequências saudáveis do corpo". Dizem, os vigaristas, que quando se coloca junto do coração "reforça e equilibra o sistema energético". As explicações pseudo científicas não ficam por aqui multiplicam-se no arrazoado habitual. Mas vende e bem! Às tantas vai destronar a "pulseira do equilíbrio" usada por tantas pessoas, algumas das quais ditas "eminentes". Tenho algumas dúvidas se estas personalidades, bem conhecidas do grande público, acreditam nessas balelas, estou seguro de que não, deve ser uma forma de publicidade encapotada. O papalvo, ao ver aquele adorno no pulso do seu ídolo, vai a correr comprar uma pulseira. Se ele usa é porque deve ter propriedades medicinais. Agora, é só esperar para ver os pescoços compostos pelos colares quânticos. Sim, porque quando se fala de "quântica", uma palavra sagrada e cheia de mistérios, que só alguns cientistas são capazes de compreender, é sinal de máxima respeitabilidade cientifica. Pobre ciência que anda nas ruas da amargura, ao redor do punho, à volta do pescoço, no interior de um iogurte ou de uma garrafa de água mineral. Pobre ciência que é utilizada, e cada vez mais, para fins não científicos. Pobre ciência que acaba por ter lugar de destaque em certos programas, alimentando pessoas pouco escrupulosas. Pobre ciência que preenche o espaço publicitário ao ser abusada, digo mesmo violada, através de um Malato, de um Marco Paulo, de carrinhas larocas, sobejamente conhecidas do grande público, quando fazem publicidade a águas, a alimentos e outras coisas. Pobre ciência que não consegue penetrar nos neurónios de alguns, que arvoram, como alarves, as suas soberanas incapacidades para a matemática, como se dissessem: essa merda não nos serviu para nada e, como vêem, somos mesmos bons e conhecidos de todos. Arrepio-me perante esta arrogância "artística". Arrepio-me perante certos programas conduzidos por profissionais do entretenimento promovendo determinadas figuras de uma forma descarada, não revelando qualquer sentido ético, não obstante a tremenda facilidade com que conseguem arrancar um suspiro ou uma lágrima na primeira oportunidade, o que lhes confere uma aura de filantropos e de pessoas de bem. Mais valia que não se deixassem sucumbir ao compadrio estéril ou enveredassem pela via do engano do pobre ouvinte.
Vivem e exploram, até dizer basta, a ignorância do próximo.
Que é que eu tenho a ver com isto? Ou melhor, o que é que eu ganho com esta reflexão? Nada de especial. Vai tudo continuar na mesma ou ainda pior, mas se puder evitar que alguém seja enganado por alguns artistas e certas individualidades que conseguiram o "estrelato" através de alguns programas televisivos, e que não se importam de "alugar" ou "vender" a imagem, enganando os seus semelhantes, então, já fiz alguma coisa de útil.
A estupidez humana é infinita e o universo também. As duas únicas coisas que possuem esta caraterística, mas o autor desta ideia, Einstein, não tinha tanta certeza quanto ao universo, mas não duvidava quanto à primeira. Não é preciso qualquer demonstração para provar este comentário, basta ver os que andam por aí a abusar do próximo, enganando-os, "quanticamente"? Dizem eles que não sabem, nem nunca souberam matemática! Foi a "sorte" deles e o azar de muitos outros...