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sábado, 30 de abril de 2011

As "conveniências" de Sócrates

O PS e Sócrates passaram as duas últimas semanas a tentar criar todo o tipo de condicionamentos à iniciativa da oposição e em especial do PSD.
Primeiro foi a conversa do interesse nacional e do consenso.
Depois que não se devia perturbar as negociações com a troika.
De seguida o diálogo e a necessidade de apaziguar os ânimos.
Pelo meio levámos com o slogan "Defender Portugal".
E que não se devia dar "espectáculo".
Até se ouviu falar em "comportamentos de estadista".
Pasmei quando usaram o argumento que a Europa e o Mundo tinham os olhos em nós.
Ao mesmo tempo que Sócrates se passeava pelo País em comícios e inaugurações e se dedicava a zurzir o PSD recorrendo a todo o tipo de falácias e paranóias, a troupe socialista do costume - incluindo os habituais comentadores de serviço - aparecia de seguida, com um ar indignado, para criticar qualquer pessoa que levantasse a voz contra o PS e falasse do estado em que se encontra o País.
O que o PS e Sócrates precisam é que não haja controvérsia.
Que não se fale da sua governação.
Que se omita o facto de terem arruinado Portugal.
E que de qualquer forma, nunca, mas nunca, possam ser responsabilizados pela desgraça que se abateu sobre os portugueses.
Parece que, finalmente, o PSD percebeu a armadilha.
E decidiu partir a loiça.
Fazem muito bem.
As declarações de hoje de Pedro Passos Coelho e de Eduardo Catroga são uma lufada de ar fresco no debate político que é necessário fazer nesta campanha eleitoral.
E a reacção do PS mostra quão acertadas foram estas intervenções.
A expressão usada por Eduardo Catroga - "o fartar vilanagem de Sócrates foi uma tragédia nacional" - é benevolente para com este Primeiro-Ministro.
Deixo um pedido ao PSD - não se calem e não se deixem condicionar!

Até o capital de simpatia nos falta!

Entre negociadores, especuladores, credores e financiadores, Portugal aguarda o veredicto que lhe estará reservado para evitar a bancarrota. Os “outros” fazem-se muito rogados para nos aliviar das angústias em que nos metemos e parecem decididos a deixar-nos cozer no lume brando das decisões que exigem unanimidade e das elaboradas convergências entre políticas nacionais com eleitores atentos e políticas europeias que não podem deixar de fora do redil as ovelhas tresmalhadas.
Numa notícia do Público de ontem, lê-se que a decisão de ajuda a Portugal no próximo dia 16 de Maio depende do acordo da Finlândia, que não tem Governo nem Parlamento em funções e demora as negociações internas para encontrar um Governo de coligação; depende do acordo da Alemanha, que vê crescer o número dos deputados que não aceita este método de ajuda e endurecem o seu discurso em relação aos países pedintes; depende da tolerância geral das instituições europeias para com o grau de urgência que a situação impõe, o que contraria os tempos próprios que os acordos exigem. Nessa notícia, conta-se que o ministro holandês das Finanças, em entrevista a um jornal, não disfarçou a sua impaciência, explicando que “Portugal deveria ter pedido ajuda ao mesmo tempo que a Irlanda, em Novembro” e que “ avisei o meu colega português muitas vezes durante os últimos 12 meses, em termos muito explícitos e firmes, sobre as dificuldades que estavam a aparecer”, tal como teria feito também o seu colega sueco. A pressa que agora lhes é exigida tem como resposta “o castigo de um programa de austeridade extremamente duro”, uma vez que o atraso custou também a Portugal “uma boa parte do capital de simpatia”. Em suma, estamos sem dinheiro, sem crédito, sem tempo e sem boas vontades. Capital? Nem sequer o de simpatia.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Madrugada

Assistir ao espreguiçar da madrugada causa-me imenso prazer mesmo quando a vontade de viver é diminuta. Um estranho delírio que me persegue há muito. Em miúdo revoltava-me contra o despertar prematuro, mas ao fim de alguns minutos a embriaguez embrutecida do sono era substituída pelo delicioso inebriamento matinal. Hoje, ao olhá-la, sinto uma estranha fome de viver que faz esquecer a vontade de morrer. Olho para o relógio e aguardo a chegada do comboio. Recordo outros comboios e outras madrugadas, mas o cheiro, a brisa fresca e o suave calor que se avizinha são os mesmos. Quem sabe se os que morrem a estas horas não as escolhem de propósito, aproveitando os últimos momentos da vida para ondularem no renascer de uma madrugada.
O comboio, elegante, pujante, deslizando silenciosamente, interrompe-me o pensamento. Entro. Olho em redor e vejo muitos figurantes. Evito entrar nas suas intimidades tentando imaginar quem são, o que fazem, o que pensam ou o que sonham. Prefiro ler. Uma viagem de ida e volta é um bom pretexto para ler uma obra. Vejo o número de páginas e concluo que vou ter tempo para a ler e até para dormitar, prazer refrescante que não abdico, filho da cadência hipnótica dos rodados. Eu sabia que a madrugada já tinha desaparecido, sem avisar, como é costume, mas eu fingia que não, prologando-a dentro da minha vontade. Cheguei ao destino e ela partiu. Mudei de plataforma e entrei no suburbano. Sujo. Anárquico. Novos figurantes, suburbanos, sem expressão, fácies a relembrar dentes desvitalizados, escuros e indolores. Atravesso parte da cidade, suja, escondendo tragédias, más vontades, covis de feras loucas e ilhas de gente boa e sofredora. Não consigo encontrar qualquer encanto. Atormenta-me a plasticização dos cumprimentos e atenções, evito fazer quaisquer comentários, porque posso ser mimoseado com exclamações patéticas, que me desagradam sobremaneira. Reunião fingida. Os que falaram, falaram para justificar os seus postos dominantes. Tiveram de fazer esforços para dizer meia dúzia de patacoadas cujo sentido e nexo me escaparam. O que não escapou foi uma vontade mortal para dormir, valeu-me a posição onde me encontrava. Ouvia-os muito longe e ainda fui invadido por um fugaz sonho. Cheguei a recear que me vissem a cabecear e interpretassem o movimento como sinal de aquiescência, pelo que tive de engendrar alternativas que me permitissem aguentar, estoicamente, a reunião. Felizmente acabou. Ao cumprimentar o presidente reparei que estaria à espera de um comentário. Delicadamente elogiei a forma como conduziu os trabalhos. Saí com um indisfarçável alívio. Após uma breve refeição em ambiente controlado, inodoro, frio e distante, acossado por humanos robotizados desejosos em testar a minha paciência, fugi com o meu livro até ao comboio, esperando que me devolvesse com conforto a casa. Sentei-me. Olho em redor e vejo muitos figurantes. Desta vez entrei nas suas intimidades e pus-me a imaginar quem seriam, o que faziam e o que sonhavam. Construi narrativas. Não as registei. Deixei que se esvaecessem, mas soube-me bem. Acabei de ler o livro e ainda dormitei sob o efeito hipnótico dos rodados do comboio. Uma reunião sem história, gente sem interesse, um livro devorado no ventre de um comboio, narrativas voláteis despertadas pelos figurantes da vida e uma vontade de encontrar uma madrugada que nunca desapareça, como se isso fosse possível...

O bálsamo da fantasia...

Um conto de fadas dos livros para a vida real, deixou meio mundo suspenso de animação e fantasia. Um sonho do imaginário colectivo virado realidade. Um acontecimento que mobilizou à escala local e global alegria e felicidade. Felicidades para Kate e William...

Reacção familiar ao primeiro programa eleitoral conhecido

"PSD: ter poder ou ter razão"

Helena Matos, no Publico e no Blasfémias, uma análise tão crua quanto real e clarividente. Uma leitura a não perder neste tempo em que se escreve tanto e com tão pouco interesse.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Noite mágica, mais uma!...



Nas asas de um Falcão, mais uma magia do Dragão!...
E a chama já quase chegou a Dublin!...

Saudades do PEC IV...ou o mergulho no absurdo profundo?

1.O PM, que anda numa correria de declarações banhais (de cobra) quase tão desaustinada quanto as suas propostas de continuação de “bom governo”, teve ontem uma tirada definidora do distanciamento das suas convicções (existem?) em relação à realidade: que iríamos ainda ter saudades do PEC IV.
2.Admito que essa declaração tenha sido feita ao tomar conhecimento de algumas das condições que vai ser obrigado a aceitar na “negociação” com os mandatários dos credores, significando que teria sido muito melhor (para ele, talvez) ter aceitado o PEC IV...
3.Acontece que o PM se esquece (será possível?) que, se tivéssemos aceitado o PEC IV quando ele supostamente o negociou com Bruxelas, há quase dois meses, estaríamos hoje em muito maus lençóis, pois foram entretanto revistos em alta, bem em alta, os números do défice de 2010...
4.A revisão em alta tão significativa do défice de 2010, se tivéssemos acordado um PEC IV de que o PM parece tão saudoso, teria com toda a certeza um efeito devastador sobre a credibilidade do País, obrigar-nos-ia a pedir desculpa a Bruxelas, de corda ao pescoço, sem qualquer solução alternativa para apresentar, estaríamos agora bem pior do que estamos...
5.Estaríamos, concretamente, na situação do incumpridor relapso, que teve a ousadia de negociar um programa de austeridade com base em informações falsas, o que naturalmente iria causar a ira dos nossos parceiros e uma punição dos mercados ainda mais severa do que aquela que nesta altura nos é imposta...
6.Será que o PM não tem a noção destas coisas, apesar de parecerem tão evidentes? Será que não imagina o papel ridículo e lamentável que iríamos fazer se, duas ou três semanas depois de ter negociado o tal PEC IV, fossemos obrigados a reconhecer que a base de partida do programa estava substancialmente alterada, pondo em causa os pressupostos do mesmo?
7.E não há niguém na sua imensa assessoria que seja capaz de lhe explicar esta evidência?
8.Será que ao mais alto nível dos responsáveis políticos nos encontramos já mergulhados num absurdo profundo e ninguém dá por nada?

Estado de inconsciência...

O Programa Eleitoral do PS diz que o défice de 2010 é de aos 6,8% do PIB.
Estamos bem servidos com tal Programa. Não sabem, nem sonham que o défice já vai em 9,1%!...
Vivem num mundo de ilusão e julgo que já nem mentem. Estão até plenamente convencidos do que dizem. Já não têm consciência e perderam a noção do certo e do erro, da verdade e da mentira.

Basta!


Reconheço, e até julgo normal, que o PS reaja por instinto e se defenda; procure fazer das misérias glórias ante as responsabilidades que sabe que lhe cabem pela condução do País ao estado em que ele se encontra.
Reconheço que a fuga à verdade é uma prática comum nas campanhas eleitorais e que os programas eleitorais são normalmente o repositório de afirmações que o tempo se encarrega de demonstrar não terem a minima adesão à realidade. São muitas vezes fruto de congeminações das agências publicitárias que usam e abusam do virtual para convencimento dos mais incautos ou dos menos informados.
Reconheço, até, que da direita à esquerda se explora à exaustão a tendência das massas para preferirem quem lhes vende ilusões, mais do que aqueles que lhes falam a verdade. Sobretudo se a verdade for incómoda, implicar um devir de mais sacrifícios, de mais austeridade, de renúncia à materialidade.
Tudo isto é o fado da nossa vida política, a inevitável produção dos partidos que temos e dos políticos que os dirigem.
O que já toca as raias do inconcebível e do intolerável é o indecente estado de negação em que alguns se mantêm, como disso dá testemunho o passo acima facsimilado do programa eleitoral do Partido Socialista. Já depois de o INE ter corrigido o défice de 2010, trazendo para o perímetro orçamental parte daquilo que foi varrido para baixo do tapete para que o Governo exibisse o troféu de uma irreal consolidação, eis que o PS apresenta os números da mentira como exemplos de boa governação e fundamento para a renovação do seu mandato à frente dos destinos do País.
Eu, que me julgo muito tolerante com os artifícios das campanhas eleitorais, sinto que é tempo de dizer, por uma vez, basta a quem assim revela não estar minimamente preocupado com o presente e o futuro do País.
Por que é, efectivamente, demais!

O “Orgulho” (!?) de Sócrates

No recentemente realizado Congresso do PS, o Secretário-Geral e Primeiro-Ministro José Sócrates referiu, a determinada altura, e entre variadíssimas pérolas, ter “orgulho” naquilo que o Governo por si liderado tinha feito por Portugal.

Deve ser falha minha, mas de facto não consigo perceber como é que alguém se consegue orgulhar de ter sido o primeiro responsável a conduzir o nosso País à gravíssima situação em que nos encontramos, de iminente rotura financeira e que levou ao pedido de ajuda externa à Comissão Europeia e ao FMI (solicitado no início de Abril).

Sim, já sei: para Sócrates, foi o chumbo do chamado “PEC 4” no Parlamento que conduziu a esta situação – tal como foi a crise internacional a responsável pela crise de endividamento que atravessamos. Porém, a verdade é que a sua governação não começou nem a 23 de Março último (quando o PEC 4 foi reprovado), nem em 2009, ano do epicentro da crise internacional. Não: José Sócrates tem liderado o Governado do País desde 12 de Março de 2005. Há mais de 6 anos, portanto. Tempo mais do que suficiente para não atirar para cima de outros, sejam eles quem forem, responsabilidades que lhe pertencem.

Tendo sido marcadas eleições legislativas para o próximo dia 5 de Junho, resolvi fazer o balanço da governação de Sócrates em termos económicos, reunindo numa tabela, que apresento em anexo, um conjunto de 12 indicadores seleccionados. O horizonte vai de 2004 (o ano anterior à entrada em funções do actual Primeiro-Ministro) a 2010, ano que acabou recentemente e para o qual os dados são ainda provisórios (excluí as previsões para 2011 porque nos encontramos ainda numa fase muito inicial do ano); os indicadores vão desde o nível de vida por habitante ao estado das contas públicas, passando pelo endividamento, pela poupança, pelo desemprego e pelo esforço fiscal relativo.

Ora, basta olhar para este quadro para nos interrogarmos: que motivos tem Sócrates para se orgulhar do que fez nos últimos seis anos, isto é, desde 2004-2005?!...

Do empobrecimento consecutivo dos portugueses face à média europeia?...

De um défice externo anual de quase 10% do PIB?...

De o endividamento líquido médio de cada português ao estrangeiro ter praticamente dobrado entre 2004 e 2010 (tendo passado de cerca de EUR 9 mil para quase EUR 17 500), e de o endividamento externo líquido do país ter ultrapassado a riqueza anual gerada desde 2009?...

De o número de desempregados ter aumentado 65%, ultrapassando, pela primeira vez, 600 mil indivíduos em 2010?...

De o esforço fiscal relativo ter crescido ao ponto de ser dos mais elevados da Europa (e de ir subir ainda mais em 2011), tornando o garrote fiscal insuportável para a competitividade e a evolução da economia?...

De a despesa pública total ter atingido, pela primeira vez, mais de metade da riqueza nacional (2010)?... De ser também o recordista da despesa corrente primária (2009)?...

De o défice público ter atingido o valor mais elevado da história da nossa democracia (2009) – e de nenhum défice, de 2005 a 2010, ter sido inferior ao limite de 3% do PIB estabelecido no Pacto de Estabilidade e Crescimento?...

De a dívida pública ter crescido mais de EUR 70 mil milhões, ou 85%, desde 2004, para um máximo histórico superior a 90% do PIB?...

E a lista podia continuar: os rotundos fracassos dos sucessivos PEC (por isso já íamos em 4 no espaço de um ano…); a consecutiva descida de Portugal nos rankings internacionais de competitividade; a subida vertiginosa das taxas de juro exigidas pelos credores do Estado português… E, claro, a cereja no topo do bolo: o pedido de ajuda externa recentemente feito (porque já não há quem esteja disposto a financiar o nosso Estado), com as consequentes (e fortes) medidas de austeridade que, não tenhamos dúvidas, irão chegar.

Será tudo isto motivo de orgulho?!...

E para quem defende que foi devido à crise de 2009 e 2010 que chegámos ao ponto em que hoje estamos, convido a uma olhadela rápida ao quadro, onde pode ser verificado que, até 2008, nem um dos indicadores apresentados estava melhor do que em 2004…

Estranho conceito de orgulho este… Poderá haver confiança em quem se orgulha desta “obra”, para nos continuar a governar?!... É tempo de dizer: basta, não queremos mais.




Nota: Este texto é uma adptação do que foi publicado no Jornal de Negócios em Abril 12, 2011.

Vem aí a boda dos príncipes!






Era o que faltava que não falássemos do casamento do Principe e da Kate Middleton, o suspense aumenta à medida que se aproxima o grande dia! Li num jornal qualquer que a imprensa britânica anda muito zangada com a noiva real porque redobrou a sua discrição, porque não dá respostas parvas, porque não há fugas sobre os detalhes do casamento porque, enfim, não alimenta os jornais como lhe competia, pois claro, esperem pela festa que logo terão muito que noticiar. Entretanto, se não há “informação” sobre os detalhes, deitam-se contas ao casório e sucedem-se os milhões e milhões, tudo laboriosamente avaliado a partir dos feriados, dos bolos e dos metros de tecido do vestido (um?, três, para despistar?, de estilistas ingleses?, feito pela modista do bairro?). Não falta quem acuse a monarquia e quem espicace indignação dos ingleses perante tal despesa, mas o que se sabe de saber seguro é que não há lugares disponíveis nos hotéis, que não há menina que não use uma cópia em fantasia chinesa do anel de noivado, que as bonecas KM/PW se venderam como pipocas e até em casa da minha mãe já apareceu uma caixinha com a gravura do casamento, cuidadosamente colocada ao lado das novidades trazidas pelos netos, em cima da mesa da salinha!
É assim e mais nada, as pessoas precisam de ver coisas bonitas, gostam de festas, de histórias de amor e vestidos bonitos, gostam de sorrisos e de imaginar que são parte da alegria dos outros, convidadas nem que seja pela televisão. Só quem não sabe isto é que faz contas aos “prejuízos” do feriado em que os ingleses vão ficar colados às imagens do casamento, e não só os ingleses, porque conheço várias pessoas que tiraram um dia de férias para não perder pitada. Acho muito bem, também vou ver o que puder, e com muito gosto, até porque depois vou ter que comentar com o grupinho mais velho das mulheres da família cada um dos vestidos que se apresentaram na boda, de preferência por ordem de chegada dos convidados. E vou desejar, como é de tradição, que sejam felizes para sempre.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Já vai sendo tempo de discutir o futuro...

As pessoas já perceberam que o país está numa situação gravíssima, que não há dinheiro, que temos muitas contas para pagar, que precisamos de ajuda financeira externa. Aos poucos e poucos as pessoas estão-se a preparar para enfrentar mais dificuldades e sabem que temos à porta um plano de austeridade que vai impor grandes sacrifícios. Não sabem ao certo que parte lhes vai tocar, mas sabem que os tempos não vão ser de facilidades, já não estão a ser, e que alguma coisa ou muitas coisas vão ter que mudar.

Não admira que as pessoas estejam assustadas e tristes, muitas delas defrontando-se com problemas graves nas suas vidas e sem saída para os resolver, sem uma luz ao fundo do túnel. Ouvem falar todos os dias de cortes em todas as direcções e de muitas reformas, das reformas que foram prometidas anos após anos, mas que agora os mesmos dizem que vão ser finalmente uma realidade.

Mas as pessoas estão cansadas destes discursos. As pessoas precisam de saber como é que com tanta austeridade o país vai crescer, quais são os desafios positivos para ajudar o país a ultrapassar a crise. Esta pergunta fundamental continua por responder. É na sua resposta que se joga o futuro do país. Não basta tratar da crise orçamental, é necessário tratar de resolver a crise estrutural. Como é que o país vai crescer com austeridade? É a resposta que faz falta e que tanta falta faz para haver esperança e confiança.

Os anúncios de Sócrates...

... assemelham-se às proclamações realizadas sobre um monte de escombros.
O slogan que nos apresenta "Defender Portugal" ficará na história como a maior paranóia da 3ª República.
O estado social está transformado num monte de sucata.
A administração pública está paralisada.
O sistema de saúde tornou-se autofágico.
O desemprego é galopante.
A dívida tornou-se assustadora.
A pobreza cresce a olhos vistos.
A economia parou.
Temos que mendigar na Europa para evitar a bancarrota.
Sócrates arruinou Portugal e a melhor forma de o esconder é clamar que está a defender o país.

Tiro ao alvo das "medidas"

A adivinhação sobre o próximo “pacote de medidas” ameaça atingir as raias de uma espécie de desporto de tiro ao alvo. Como se as pessoas não andassem já suficientemente atormentadas e ansiosas quanto ao futuro, nada melhor do que disparar em todas as direcções as mais variadas e imaginativas formas de “resolver” os nossos problemas. Todos os dias abrimos os jornais e lá vem mais uma ideia brilhante, ora de um qualquer grupo de pensadores, ora de uma frase deixada cair num debate, ora, à falta de melhor, de um palpite de algum jornalista mais ligeiro na interpretação do ditos e dos silêncios. Seguem-se, é claro, os desmentidos ou os esclarecimentos, às vezes apenas a negação de que tenha sido dito mas não a de que não venha a ser feito, tudo isto num caldo de cultura doentio, em que a última coisa a ser respeitada são as pessoas, que precisam de saber com o que podem contar em vez de servirem de alvo livre dos que, agora, tão pressurosamente querem contribuir para a resolução da crise.
O que mais me espanta é que muito dos que hoje comentam, criticam e exigem, são precisamente os que ainda há poucos meses desfeiteavam os que falavam dos problemas, dos que alertavam para os números e previam grandes dificuldades. Os mesmos, os mesmíssimos, aparecem hoje com ar grave e sorumbático, a perguntar-se como é que “deixaram”, como é que “não viram” e prontinhos para dar os seus bitaites infalíveis sobre o que “é preciso” fazer. Os chamados meios noticiosos tornaram-se um verdadeiro massacre.

Défice 2010: não será altura de ajustar para 4,6% PIB+ "delta esqueletos"?

1.Já vamos na 2ª revisão do défice do Sector Público Administrativo (SPA) de 2010, dos 7,3% do PIB iniciais (celebrados pelo Governo em tom de vitória, não esquecer) para os 9,1% actuais - e poderemos ainda ter mais revisões - mas já ninguém recorda que o défice de 2010 teve a ampara-lo uma gigantesca “bengala” que foi a transferência dos activos do Fundo de Pensões da PT para a Segurança Social (SS).
2.Essa operação de cosmética contabilística – que em 2011 começa a funcionar ao contrário, gerando um encargo para a SS de € 160 milhões se não estou em erro - rendeu ao Orçamento de 2010 uma receita extraordinária de cerca de 1,6% do PIB, o que quer dizer que sem a sua contribuição o défice do SPA em 2010 teria sido, pelas contas actuais (ainda não definitivas...), de 10,7% do PIB!
3.Este dado é de grande importância, não por qualquer especulação jornalística mas por uma razão bem séria: é a partir desse valor que se deve aferir o grau de esforço exigido para atingir a meta orçamental que o Governo decidiu estabelecer para 2011 que é, como se sabe, de 4,6% do PIB.
4.Com efeito, o esforço de ajustamento do défice não poderá contar este ano com nova nacionalização de fundos de pensões - não só por falta de “matéria-prima” para o efeito mas também porque os mandatários dos nossos credores (vulgo Troika), que vão definir as metas financeiras para os próximos 4 anos (2011-2014) desconsideram esse tipo de soluções cosméticas...
5.Sendo assim, cabe perguntar: será possível passar, de um ano para o outro, de um défice de 10,7% do PIB – pelo menos, falta saber se haverá mais correcções – para um défice de 4,6%?
6.Eu direi que possível é, mas o risco de não cumprir tal meta é quase FATAL.
7.Basta atentar no que se está a passar na Grécia, que no primeiro ano de aplicação do programa de ajustamento orçamental após a ajuda recebida em Maio de 2010 tem uma derrapagem não inferior a 1% do PIB...
8.A Grécia propunha-se reduzir o défice de 15% do PIB em 2009 – depois da descoberta de uma “vala comum” de esqueletos que levaram o défice para o dobro das estimativas iniciais – para 9,4% do PIB em 2010, ou seja uma redução de 37%...e não vai conseguir, o que lhe está a causar um sério transtorno com os juros a 2 anos em 24%.
9.Nós (o Governo, claro está), como somos "valentões" - irresponsáveis, será mais ajustado – propomo-nos reduzir de 10,7% do PIB (pelo menos, resta saber se há mais “esqueletos”) para 4,6% ou seja uma contracção de 57%!
10.Parece-me que, para evitar males maiores, que adviriam de um incumprimento logo no 1º ano de aplicação do programa, seria da mais elementar prudência convencer a Troika a ajustar o objectivo do défice para 2011, passando a usar a expressão 4,6%+”delta esqueletos”...não concordam?

terça-feira, 26 de abril de 2011

“O Estado tem de mentir”

No livro “Ponto Ómega”, de Don DeLillo, há uma passagem, referente a um interessante diálogo, que me chamou a atenção. Confesso que fiquei um pouco perturbado. De acordo com o autor há estrategas que têm como objetivo criar realidades, “A perceção humana é a saga da criação da realidade”. A propósito das guerras e de uma em particular ocorrida nos últimos tempos é possível ler a seguinte afirmação: “Não há nenhuma mentira na guerra ou na preparação na guerra que não seja defensável”, a justificar dois períodos prévios, “Mentir é necessário” e o “Estado tem de mentir”.
Li e reli este capítulo e fiquei convicto de que poderia ser reescrito da seguinte forma: Não há nenhuma mentira na governação ou na preparação para a governação que não seja defensável. O que tenho lido e ouvido nos últimos tempos legitima perfeitamente esta adaptação. Os governantes explicam as razões de certos acontecimentos, por exemplo, aumento do défice, dizendo que são resultantes de novas metodologias, novas maneiras de contar as coisas, que não vão continuar no futuro, considerando-os, inclusive, bons sinais, porque nos próximos anos só iremos obter receitas! Dizem isto pestanejando com uma frequência superior ao habitual, ou, então, inclinando a cabeça para trás, com medo de que a verdade lhes fira as faces sem vergonha. Mentiras facilmente detetáveis pelos mais grosseiros e vulgares polígrafos que estão à nossa disposição: olhos e ouvidos aliados a uma inteligência normal e à experiência de vida.
Quanto a ser necessário mentir não tenho dúvidas, faz parte da natureza humana. Mas há muitos tipos de mentiras; as aceitáveis são as “mentiras brancas”, mas as produzidas no âmbito da política, do social, da religião, da publicidade e dos negócios são perigosíssimas e difíceis de controlar. Sendo assim, o Estado não pode nem deve mentir, e o facto de continuamente nos mentir é a principal razão de termos chegado a esta situação. Quem governa deveria, na tomada de posse, substituir o tradicional juramento por outro, mais adequado; dizer que nunca mentirão e que mostrarão ao povo toda a verdade dos acontecimentos e decisões. Está certo, acredito que mais nenhum seria reeleito, mas pelo menos responsabilizaria o povo a ter de aceitar aquilo que não quer ouvir: a verdade, sim, porque o povo adora quem lhe minta, e quanto mais, melhor...

O notável argumento da (falta de) experiência de governo...

1.Um dos argumentos correntemente utilizados pelos que defendem o “status quo” governativo - e também por alguns (não poucos...) “opinion-makers” - é de que os líderes da oposição, que neste momento disputam eleições e em especial o líder do principal partido da oposição, não tendo experiência governativa colocam um risco de incerteza face à dimensão dos problemas que o País enfrenta...
2.Curiosamente, esse discurso é sempre omisso quanto a um ponto que seria essencial para justificar a avaliação: a qualidade da experiência governativa disponível...
3.Como parece lógico, a falta de experiência governativa só seria um argumento válido se aqueles que tenham experiência a seu crédito a puderem exibir, sem receio, como real trunfo eleitoral – reparem que nós temos uma experiência de 6 anos de Governo (pelo menos) não apresentamos riscos de incerteza, já sabem com o que contam...
4.Colocando a questão nesss termos, o argumento da experiência versus falta dela desfaz-se...pois a qualidade da experiência governativa que pode ser exibida pelos concorrentes às eleições que a têm é de tal modo negativa que a sua simples lembrança é de molde a afugentar o menos prevenido...
5.Se aquilo com que o País pode contar (e o que mais se pode esperar?) é o tipo de experiência governativa destes últimos 6 anos, então mais vale ter alguém sem experiência do que ter a certeza, que é disso que se trata, de uma repetição do “filme de terror” a que assistimos até aqui e que nos conduziu, de SUCESSO em SUCESSO, à situação de penúria completa e de entrega aos credores...
6.Se há argumento eleitoral fraudulento é pois este da experiência de governo...oferecer em troca do RISCO da falta de experiência para governar a CERTEZA de governar mal ou muito mal só pode ser argumento para quem residir noutro planeta...
7.Independentemente do crédito, maior ou menor não vou agora discutir, que possam merecer as propostas de governo alternativas, a invocação da experiência de governo é pois um argumento que só as pode beneficiar...
8.Será que alguém, no seu perfeito juízo e salvo por razões de defesa de interesses particulares, estará disponível para acolher tal argumentação em apoio dos incumbentes?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Páscoa grega



A internacionalização das novas gerações tem destas coisas, leva-nos também a estreitar laços com famílias de outros azimutes, e foi assim que fomos celebrar a Páscoa à Grécia, a convite de uma encantadora família que fez jus à fama da hospitalidade grega.
Atenas estava livre do habitual trânsito caótico, porque a crise é uma coisa e a tradição é outra bem diferente e uma boa parte dos citadinos tinha rumado às suas aldeias de origem para celebrar em conjunto esta importante festa religiosa, para eles aind amais importante que o Natal.
Impressionou-me a intensidade dessas celebrações e o ritual que se segue na Igreja ortodoxa. As centenas de pequenas igrejas espalhadas por toda a cidade estavam a abarrotar de gente, que se espalhava também nos largos e ruas adjacentes, sobretudo ao princípio da noite, altura em que se acendem as velas lisas e castanhas que todos devem levar consigo, na 6ª feira de Paixão. À noite, saem à rua os Epitáfios, elaboradas armações de flores brancas, que variam em dimensão e profusão de flores, que ocupam o centro de cada igreja até os levarem para fora, num andor carregado aos ombros de quatro homens. Simbolizam o túmulo de Cristo e as pessoas que vão em procissão fazem fila para passar por baixo do andor, um processo lento que vai engrossando a multidão que se junta à passagem do andor, ladeado pelos padres ortodoxos, de longas barbas e batinas negras, que espalham incenso e entoam os cânticos monótonos e cadenciados. De todas as ruas sai um Epitáfio, cruzam-se e confundem-se nas praças abertas, e de repente a cidade transforma-se num compacto formigueiro de gente vagarosa e concentrada nas suas rezas, num luto pontilhado por milhares de pequenas chamas trémulas. Dizem que este ano as igrejas encheram como já não se via há muito tempo.
No sábado, depois do jantar, voltam a encher-se e a transbordar largamente as igrejas, para esperar a hora da ressurreição. As velas agora são brancas e muitas delas enfeitadas com fitas e flores, e só se acendem à meia noite, altura em que explode um grito imenso de alegria que ecoa por todos os lados, à mistura com o tocar dos sinos e o estrondo aterrador de foguetes. Todos se cumprimentam calorosamente, dizendo “Kalo Pasca", Feliz Ressureição. Manda a tradição que chegue a casa pelo menos uma vela acesa, e que se desenhe uma cruz na porta com o fumo negro do pavio. É então a altura de preparar tudo para o grande encontro da família, ao almoço do dia seguinte.

Ao almoço juntou-se a família toda, primos, tios e amigos, todos são poucos para se deliciarem com o enorme carneiro que é assado, inteiro, num espeto armado ao ar livre. Uma geringonça estranha faz de motor e o espeto vai rodando desde manhã cedo, espalhando no ar um cheiro intenso ao assado, porque a gordura vai caindo nas brasas, tudo sob o cuidado atento do anfitrião. Num espeto paralelo vai assando um rolo feito com as tripas e recheado de fígado, a primeira iguaria a ser servida, além de variadissmos pasteis e tartes de queijo feta e espinafres.
A animação atinge o auge quando se desarma o espeto e se retira o assado, que é trinchado e apreciado em grande algazarra, numa festa colorida em que convergem também muitas e deliciosas variedades de bolos trazidos por cada uma das famílias. Não falta o vinho grego e, claro, o Ouzo, uma bebida de anis que, diluída com água, serve de refresco mas aumenta muito a animação.

Foram uns dias fantásticos.

Os discursos de Belém

Quatro discursos presidenciais levam para Belém a comemoração do 25 de Abril.

Palpita-me que Sócrates não irá gostar muito do que alguns dirão. Mas está tudo controlado: dezenas de microfones já rondam os passos e as bocas de Silva Pereira, Jorge Lacão, Fernando Medina, Vitalino Canas, Santos Silva e outros para a "conveniente" reacção.

No fim, Sócrates terá sempre o consolo de ouvir um inefável Presidente a explicar o tipo de vida que nos calha para além do défice. Pela qual tanto pugnou e Sócrates de um jacto concretizou.

Consolar-se-ão mutuamente. O pesadelo é dos portugueses.

domingo, 24 de abril de 2011

As contas do Governo: gato escondido com rabo de fora!...

"Não se fizeram mais estradas, não se gastou mais dinheiro, não tivemos mais responsabilidades", referiu Vieira da Silva, ao comentar a nova revisão em alta do défice para 9,1% do PIB.

É verdade. O que aconteceu foi que essa despesa adicional foi ocultada nas contas do Orçamento de Estado. Assim a modos de empurrada para debaixo do tapete.

Acontece que a dívida pública é mais difícil de esconder. E não engana. Em 2010, aumentou mais de 19 mil milhões de euros, repito, mais de 19.000 milhões de euros, equivalente a 11% do PIB!... Enquanto o défice, mesmo nos 9,1%, corresponderá a pouco menos de 16.000 milhões de euros. Onde está a diferença, para além do aumento de capital da Caixa Geral de Depósitos em 500 milhões, considerado, e bem, um investimento que não afecta o défice?

sábado, 23 de abril de 2011

“Manel Português”

Em novo ouvia dizer que cada terra tinha o seu tolinho, uma espécie de brasão animado que a identificava, que lhe dava personalidade e que contribuía para a formação e união dos cidadãos. Um tolo servia para muita coisa, para fazer recados, para ser alvo de troça, para produzir acontecimentos como se fossem tremoços a acompanhar a cerveja ou peixes em molho de escabeche para ensopar o péssimo carrascão e até para justificar o injustificável. Houve alturas em que havia mais do que um, a fazer lembrar uma espécie de casting para a votação do mais tolo.
Alguns eram mesmos tolos, outros eram apenas meio e fico na dúvida se alguns não eram fingidores. Também havia outras espécies que, não sendo tolinhos, caíam nas classes de exóticos e excêntricos.
Começo, lentamente, a enumerá-los e fico surpreendido com a quantidade e qualidade dos ditos. De todos eles tenho as minhas impressões e uma ou outra historieta, mas, decerto, pelo que ainda ouço dos mais velhos, serão às dúzias os eventos que produziram. São tantos, que cada um deles poderia constituir um capítulo de um livro sobre “os tolinhos da minha terra”, e, como sou de Santa Comba Dão, até seria interessante, não digo desalojar o Salazar, mas, fazer-lhe algum contrapeso. Matéria não falta, talvez um dia consigo dar resposta a um velho amigo de escola que, à saída de uma reunião da Assembleia Municipal, me perguntou: - Ouve lá, quando é que escreves sobre as figuras da nossa terra? Não sei o que é que ele entende por figuras da terra, mas para mim são estas, os tolos, os meios tolos, os excêntricos e os exóticos, todos eles verdadeiros contribuintes de uma identificação cultural coletiva e até pessoal.
Dos mais velhos recordo-me vagamente de um ou outro. Um deles pertencia à classe dos excêntricos, pessoa pacífica, de longas barbas brancas, ar intelectual e distante, assustador para mim, que era criança, de chapéu de abas largas, cabeça ligeiramente inclinada, sempre com uma flor na lapela de um casaco mais do que coçado, de bengala e que vagueava na rua onde morava o meu avô, rua comercial, com barbeiros, talhos, sapateiros, latoeiros, mercearias, praça e tavernas. O outro era um dos muitos amantes de Baco que por ali se passeavam de manhã à noite. Quando os vapores etílicos atingiam os limites de poluição comportamental era costume soltarem-se os impropérios seguidos de zaragatas. O sacerdote da taverna, conhecido por Manel Português, apesar de se embriagar até dizer basta, era avesso a este tipo de complicações e afastava-se de imediato tartamudeando: - Eles são brancos! Que que que se entendam-se, que que que se entendam-se.
Esta frase, típica, é ainda utilizada cá em casa sempre que nos deparamos com situações pouco ortodoxas e incompreensíveis: - Como dizia o Manel Português, “que que que se entendam-se, que que que se entendam-se”. O tartamudear, de propósito, faz parte da encenação.
Ante a situação que estamos a viver, um perfeito estado de etilismo político, mais crónico do que agudo, é preciso que conheçam e ouçam as sábias palavras de um bêbado de verdade, o Manel Português. Não o ouçam, não! Não se esqueçam que alguns tolos também conseguem ser sábios...

Agarra...

... que é aldrabão!
Afinal, o défice anunciado em Janeiro em 6,8%, corrigido em Março para 8,6%, chegou agora aos 9,1%.
Será que ainda resta algum crédito para qualquer número anunciado por este Governo ?

O desafio da verdade...

Mário Soares em entrevista ao jornal i: É essencial, por isso, falar a verdade aos portugueses, todos os portugueses. Esclareçam-nos primeiro como é que a situação está. Seria muito desagradável se fosse agora o Fundo Monetário Internacional ou o Fundo Europeu que viessem dizer-nos: "Há este buraco aqui que não estava previsto, ninguém sabia que existia. E há mais este ali." Os portugueses querem a verdade, e não propaganda eleitoral. Querem também conhecer a estratégia para sairmos da crise. Não basta fazerem-nos apertar o cinto, é indispensável dizerem-nos para onde vamos e como. Não basta "simpatizar com um líder e embirrar com o outro". Porque os portugueses, julgo eu, pensam que a situação, e como a resolver, transcende as simpatias e as cores partidárias.

Seria muito importante que a verdade fosse dita. A crise, a austeridade, o resgate financeiro, a delicada situação económica e social em que nos encontramos e o ponto de partida para o saneamento e a reconstrução do país são realidades que não devem ser branqueadas.
Sem a verdade não vamos perceber que temos que mudar de vida, de viver do nosso trabalho e de adequarmos o estilo de vida à riqueza que somos capazes de produzir. Mas não chega. É preciso que os portugueses saibam o que é que têm de mudar, para onde vamos e como podemos lá chegar e qual o papel que cada um pode ter neste processo.
Mas esta mudança implica uma nova moralização social, retomar princípios e valores que há muito deixaram de ser uma referência. Aqui joga-se a diferença. Esta é também uma verdade que precisa de ser dita e demonstrada por quem tem maiores responsabilidades. Omitir os valores do trabalho, do empenho, da exigência, do mérito, da coragem e da honestidade não é falar verdade. E a mudança também exige uma palavra de esperança verdadeira, não a promessa fácil ou a venda de ilusão.
Muitas verdades para serem ditas que deveriam constituir um grande e exigente desafio imediato. Quem lhes conseguir dar “alma” ganhará a confiança dos portugueses. A confiança constitui um incentivo para haver esperança e vontade de avançar. Sem incentivos é difícil mudar…

Novo design para o 4R - Quarta República

Na última Assembleia ajantarada dos Republicanos, o Pinho Cardão desafiou-me a reformular o design e algumas das funcionalidades do 4R.

O problema que se colocava era o de saber como introduzir algumas funcionalidades que os tempos vieram a demonstrar ser de extrema utilidade para uma boa navegação na blogosfera, tornar o ambiente um pouco mais aberto e mais amigável, permitir que os textos fossem mais legíveis e, last but not least, não perder os traços fundamentais da identidade que o 4R criou ao longo dos últimos seis anos e meio.

Eis o resultado do exercício que muito ganhou com os contributos dos autores.

Agora abre-se um período de adptação ao novo ambiente e de crítica aberta a todos os que queiram deixar os seus contributos.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Há 2000 anos...como hoje!




Foi há 2000 anos, mas a história é exemplarmente actual. Desde a hipocrisia de uns, à traição de outros, à cobardia dos amigos, ao beijo da denúncia, à psicologia das multidões, que num dia aclamam e no dia seguinte pedem a morte.
Mas o enredo também releva o gesto de coragem de quem, enfrentando a multidão e os soldados, em contravenção ao politicamente correcto, apoia resolutamente o condenado pela opinião oficial e o ajuda a levar a sua cruz ao Calvário.
E em toda a cena sobressai a impotência dos poderes instituídos perante os grupos de pressão e as corporações. Jesus Cristo andou do tribunal religioso para o civil de Pilatos, que não o quis condenar por não lhe achar crime e por não ser o tribunal competente, já que a “comarca” seria a de Herodes. Com o mesmo tipo de argumentação, passou de Herodes para Pilatos. No fim, este lavou as mãos e a sentença acabou por ser imposta por um tribunal popular manipulado por um Grupo de pressão, em defesa dos seus privilégios.
Aconteceu hoje?

A "paixão" de Teixeira dos Santos

“São convidadas umas centenas de pessoas e muitos milhares não são convidados”, referiu Vieira da Silva, referindo-se ao facto de o PS não ter convidado Teixeira dos Santos para Deputado.
Depois de humilhado até ao limite do abjecto por António Costa, agora é Vieira da Silva e o PS a desconsiderarem Teixeira dos Santos.
A avaliar pelos resultados, Teixeira dos Santos foi o pior Ministro das Finanças, pelo menos pós o 25 de Abril. Se ele era de facto o Ministro das Finanças, foi o pior Ministro pelas políticas erradas que activamente empreendeu, dinamizou e sustentou. Se o Ministro das Finanças era Sócrates, Teixeira dos Santos permitiu e também sustentou as políticas que levaram à maior crise das finanças públicas portuguesas dos últimos 120 anos. Devia então ter-se demitido, por uma questão de honra e dignidade, como fez Campos e Cunha. Teixeira dos Santos serviu mal os portugueses, mas foi leal serventuário do Governo. Por isso, o PS e Sócrates deviam estar-lhe agradecidos.
Todavia, depois dos "serviços" prestados e depois de ter sido o capacho do 1º Ministro, Teixeira dos Santos é agora sacudido e deitado borda fora. Para ser ele, por inteiro, a carregar os pecados de Sócrates. Um fel que provará até à última gota.

Na política pura e dura que o PS sempre seguiu, não há lugar para qualquer reconhecimento, muito menos gratidão. É que, para ilibar Sócrates, o PS não brinca em serviço.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"A alma está no cérebro"

Ao fim de um longo dia de trabalho, pintado de cinzento e muito húmido, senti algo parecido como uma certa raiva a invadir-me. Liguei o rádio. Sintonizei algumas estações e parei numa quando ouvi o entrevistador a falar de Eduardo Punset. Lembrei-me de “A Viagem à Felicidade”, um livro fabuloso que li no ano passado. Como tinha ainda cerca de meia hora de caminho, e receoso de não ouvir toda a conversa, abrandei, cumprindo os limites de velocidade, e passei a ouvir uma voz pausada, propositadamente, suave e rica de ensinamentos. O entrevistador ia alimentando inteligentemente a conversa, substituindo, pontualmente, em português, algumas palavras tipicamente castelhanas que poderiam interromper a compreensão do seu pensamento. Gosto imenso de ouvir um autor depois de o ter lido e não consigo resistir de o ler quando o ouço. Uma combinação perfeita, ouvir e ler um pensador. Punset falou de muitas coisas complexas conferindo-lhes uma simplicidade comovente. A sua capacidade excecional para explicar certos fenómenos ou dar-lhes um significado provocou-me satisfação intelectual, quase que diria de felicidade. A raiva desapareceu como por encanto. Ao falar do seu livro, “A alma está no cérebro”, considerou que ambos são a mesma coisa, sendo assim, disse o interlocutor, então, os animais, também têm alma. Daqui começou a explicar que os monos, macacos, interrompeu o português, são capazes de mudar de opinião quando as circunstâncias o exigem, atitude que os humanos não apreciam muito bem, entre eles, claro está, e que estão na base de muitos conflitos e incompreensões. Os humanos são muito refratários a mudar de opinião e quando ouvem algo que não querem ouvir, não ouvem, as suas opiniões têm de predominar. São muito conservadores, não gostam que os “obriguem” a aceitar novas ideias. Explicou as bases neurológicas e comportamentais do fenómeno. Esta ideia já a tinha abordado há algum tempo a propósito dos debates em que muitas pessoas quando entram com ideias formadas e cristalizadas saem com elas reforçadas, recusando-se a integrar novos conceitos que possam por em causa os seus preconceitos. Uma forma de manter a tal coerência que, na perspetiva humana, é sinal de idoneidade e integridade. Os macacos não entendem assim, e ainda bem.
Recordo um debate em que um dos ouvintes me interpelou afirmando que havia uma contradição entre o que teria dito uns tempos antes a um jornal e as minhas palavras na ocasião. Curioso foi o facto de levar consigo apontamentos ou, até, mesmo a página do diário. Tive de lhe explicar que não havia qualquer contradição e, mesmo que houvesse, não havia qualquer problema, porque os únicos que não entram em contradição são aqueles que não pensam. Na altura não tinha ouvido o comentário de Punset, porque se o tivesse ter-lhe-ia dito que os macacos, afinal, conseguem ser mais espertos que muitos humanos.
Passados uns dias a publicação de alguns comentários num jornal associados a uma carta, que, devido ao conteúdo e forma, não deverá ter tido honra de publicação, mas se tivesse tido até seria um bom exemplo de elegia à estupidez, levam-me a pensar qual a vantagem em debater certos assuntos, sobretudo, quando os que aparecem estão muito mais preocupados com os seus problemas, o que aparentemente até é compreensível, mas só conseguem ouvir o que querem reforçando estereótipos cristalizados. Quanto ao resto, inovação, soluções ou mudanças não admitem porque os seus circuitos neuronais da compreensão estão irremediavelmente bloqueados. O que fazer? Pensei. Debater com macacos? Já não digo nada, às tantas até era capaz de ser mais agradável, e não é porque não conseguem falar...

Sim, talvez não, não, talvez sim...

A tolerância de ponto desta quinta-feira à tarde decretada pelo governo para a administração pública causou polémica. Foi o tema mediático do dia. Antes não fosse, mas o estado gravíssimo em que nos encontramos fez disparar a discussão com vozes a apoiar a medida e outras a criticá-la, uns que a toleram e outros que não. De tudo se ouviu e se leu.

A favor: sempre foi assim, os governos sempre deram tolerância de ponto na tarde de quinta-feira da semana Santa, porque é que este ano haveria ser diferente; somos um país de tradição católica; o custo até nem é muito elevado, são só 20 milhões de euros, que importância tem ao lado dos milhões que devemos ao estrangeiro; não é por causa de meio dia que vamos aumentar a produtividade, temos que ser produtivos todos os dias do ano; já bastam os cortes nos salários, esta tolerância de ponto sempre compensa alguma coisa; os funcionários não pediram nada, foi o governo que quis assim; quem diz que a medida é populista está a fazer demagogia.

E contra: o País tem que trabalhar mais, melhorar a produtividade e a competitividade; estamos num momento em que precisamos de poupar, não podemos esbanjar recursos; estamos sem dinheiro, precisamos de ajuda externa, não nos podemos dar ao luxo destes extras; é um mau exemplo que o governo dá, desvalorizando a situação gravíssima em que nos encontramos; é um sinal errado para dentro e para fora, estamos a ser observados; o FMI fica a trabalhar para nos emprestar dinheiro e nós vamos de férias, o que pensarão de nós; o facto de no passado ter sido sempre assim, não é justificação para continuar a ser, em tempo de guerra não se limpam armas; a administração pública deveria dar o exemplo, o sector privado não se pode dar ao luxo de fazer o mesmo, não é o governo que diz que precisamos de aumentar as exportações; onde é que está a austeridade; é uma medida populista, a pensar nas eleições.

Refere o SOL que a Troika ficou chocada com a tolerância de ponto da função pública. Não me admirava que a notícia corresse o planeta. Estamos na boca do mundo, pelas piores razões. Não podemos ficar satisfeitos. Será que nos compreendem? Quem não gosta de tolerâncias de ponto? Mas o ponto não é este, é de facto a oportunidade e o simbolismo da medida.

Sondagem pascal: como interpretar?

1. A sondagem hoje divulgada pela Marktest, que prevê um empate técnico entre o PS e o PSD – embora com ligeira vantagem para os primeiros – não sendo muito surpreendente pelo menos na minha análise, justifica algumas breves notas.
2.A Iª NOTAé a da confirmação dos efeitos da entrada em acção da máquina de propaganda avassaladora montada pelo Governo e suas adjacências, que passa por cima de tudo e de todos no que aos meios e aos métodos respeita, manifestamente ajudada pela cumplicidade ou complacência de fatia imensa de uma comunicação social alimentada a soro “ eurístico” pela dita máquina de propaganda...
3.A IIª NOTA prende-se com a enorme dificuldade revelada pelo PSD em contrariar essa máquina de propaganda, em particular na fase que se seguiu à declaração aberta de crise financeira do País.
4.O PSD tem exposto demasiadamente o seu Presidente, que aparece sistematicamente isolado a “dar o peito às balas”, enquanto do outro lado aparecem sempre outros porta-vozes bem treinados – obviamente proferindo quase invariavelmente dislates de dimensão apreciável, mas poupando o seu idolatrado líder ao desgaste de opinião.
5.No PSD não aparecem (porque razão, desconheço) segundas figuras, com estatuto e imagem de forte credibilidade, para funcionar como porta-vozes quase permanentes num período tão crítico como este - parece que não há outra pessoa que não seja o Presidente para comentar todos e quaisquer assuntos do momento, o que desgasta consideravelmente a sua imagem aos olhos da opinião pública.
6.A IIIª NOTA é noutro sentido – a da quase irrelevância dos resultados eleitorais (observados certos limites, claro está) neste período de crise profunda que o País vive, pois já se percebeu, quaisquer que sejam esses resultados, que o programa de governo não sempre o mesmo...
7....uma vez que será aquele (e mais nenhum) que tem vindo a ser preparado pelos representantes da U.E., do FMI e do BCE e que deverá mostrar-se concluído durante a próxima semana, aguardando depois a chancela dos dirigentes europeus em meados do próximo mês.
8....e que caberá aos partidos não totalmente lunáticos a aplicação desse programa, sob pena de não haver fundos para pagar aos credores, ou seja de chegarmos a um cenário de “fim-da-picada” que todos desejarão evitar por motivos óbvios...
9.IVª e última NOTA: talvez esta sondagem, sem prejuízo das anteriores considerações, possa ter uma interpretação simples, a partir do velho ditado popular: “Quem as faz que as desfaça...”
10.Ou seja, se foi este Governo, o seu PM em especial, quem arranjou este formidável sarilho em que nos encontramos, então agora que o desfaça – não isolado porque já se percebeu que sem companhia não é capaz de dar conta do recado, mas na companhia daqueles que têm alguma noção da crítica situação do País e que por isso mostram vontade de subscrever o tal programa de governo.

Noite mágica

O bailado azul e branco trouxe noite mágica à Luz. Movimentos de intensa harmonia. Sinfonia heróica e perfeita. Música celestial.

A contrastar com os tempos de bruma e mediocridade que causaram a tristeza do nosso tempo presente.

Tendências...

Divertido o exercício de ler as justificações dos que entram nas listas, dos que nelas não entraram e não se conformam, e dos que não quiseram entrar mas sentem que se devem explicar. Os depoimentos sublinham na primeira pessoa do singular excelsas virtudes finalmente reconhecidas nuns casos depois de penosas esperas, lamentadas e esquecidas nos outros. Todos me trazem à memória o genial quadro de Herman José "Eu é que sou o presidente da junta!"

Em terra de cegos...

"A cegueira que cega cerrando os olhos, não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas" - Padre António Vieira, Sermões.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A figura do "papão"...

Pedro Passos Coelho veio hoje falar do plafonamento das pensões, colocando a questão da fixação de um tecto ao montante de pensões a cargo do Estado. Mas logo caiu o “Carmo e a Trindade” com o governo a acusar o PSD de uma proposta perigosa e irresponsável de privatização da segurança social.
A questão não é nova. Com efeito, não é mais possível ignorar as consequências económicas do envelhecimento da população. O resultado será, como sabemos, um cada vez menor número de contribuintes a financiar, em cada momento, um cada vez maior número de pensionistas. O problema económico advém, portanto, de um duplo efeito negativo: uma redução da receita, por via da redução de contribuintes e um aumento da despesa, por força do aumento de pensionistas e da sua maior longevidade. A persistirem taxas de natalidade muito baixas, deixaremos de ter no futuro trabalhadores que financiem as nossas pensões de amanhã.
Continua, portanto, pertinente a questão sobre a capacidade de o Estado assegurar no futuro o pagamento das pensões aos trabalhadores que hoje no activo pagam as suas contribuições para a segurança social.
Está em causa saber que níveis de pensões é que o Estado pode e deve garantir e que parte das contribuições dos trabalhadores e/ou das empresas podem e devem ser canalizadas para a acumulação de poupança.
Não vale a pena vir com o “papão” da privatização, porque o que está em causa é a capacidade de o Estado pagar quaisquer níveis de pensões, não dispondo dos recursos financeiros necessários para acautelar as pensões mais baixas. Quando há reduções nas pensões, como aconteceu com a reforma da segurança social de 2006, os efeitos atingem todos os níveis de pensões, penalizando obviamente as pensões mais baixas.
O palfonamento permitiria conferir sustentabilidade às obrigações do Estado quanto ao pagamento de pensões, fixando um tecto a partir do qual o Estado se desoneraria dessa obrigação.
A fixação deste tecto permitiria um novo modelo de relacionamento entre o Estado e os cidadãos, assente numa partilha de responsabilidades e riscos na reforma, incentivando os futuros pensionistas a pouparem no presente para complementarem a pensão pública a cargo do Estado.
Mas o plafonamento possibilitaria ainda baixar o nível das contribuições das empresas (taxa social única) para a segurança social, reduzindo assim os custos com o factor trabalho, aspecto de enorme relevância num contexto em que é necessário criar emprego e tornar competitivas as exportações.
O preconceito ideológico de que o plafonamento é mau e o não plafonamento é bom não joga com a necessidade de um "Estado Social" sustentável, capaz de proteger os cidadãos com menores rendimentos.

Esta República que somos

Tenho acompanhado no blogue Caged Albateross uma interessante série de crónicas dedicadas à Terceira República e à perspectiva do seu fim anunciado. É hoje cada vez mais frequente ouvirmos falar no "fim do regime", na desistência de mudarmos pouco a pouco o que temos na tentativa de acompanhar o ritmo que nos impõem de acordo com as ambições que acalentámos e quase pensámos poder alcançar. Fala-se em "regeneração", em mudança de atitudes, em reformismo, enfim, fala-se na Quarta República, que esta tertúlia foi ensaiando antecipar através de comentários e análises do muito de bom e de mau que se foi desenrolando nos dias que já correram desde que aqui se invocou a utopia. Mas quantos dos nossos defeitos e fraquezas conseguiremos corrigir, quantas das nossas qualidades e forças poderemos expandir para voltarmos a ter orgulho e confiança no que realizamos como colectivo? Como organizar a capacidade de mudar para evitarmos os erros que, uma e outra vez, fomos cometendo, apesar das oportunidades, apesar dos esforços e da ambição, apesar do que entretanto pudemos de facto evoluir? O que é curioso é que estes balanços mostram como somos disparatados mas também mostram que somos um povo extraordinário quando nos vemos forçados a sobreviver.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O Costa do Intendente

"Ainda cheira a tinta fresca", reportava a jornalista, ao mesmo tempo que nos mostrava o novo gabinete do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Estávamos perante uma medida de grande alcance político.
António Costa, decidiu mudar o seu gabinete da Praça do Município para o Intendente.
Tentei perceber a ideia.
Mas não consigo.
Só a entendo como mais uma operação de marketing em que o PS se especializou.
Afinal em que é que a proximidade do gabinete do Presidente da Câmara Municipal, resolve um problema?
Espanta as pegas?
Enxota os vagabundos?
Assusta os chulos?
Recupera os prédios?
Requalifica um conjunto urbano?
Melhora o desempenho dos serviços municipais?
Não! Nada disto.
Mas mostra que o Sr. Presidente da Câmara está preocupado. Muito preocupado.
De tal forma preocupado que já estou a imaginar os Vereadores a seguirem-lhe o exemplo.
Cada um ruma ao seu recanto lisboeta.
Já consigo imaginar o Sá Fernandes instalado num aterro sanitário, a Helena Roseta na Zona J de Chelas, o Manuel Salgado na antiga Feira Popular e o Nunes da Silva no meio da Calçada de Carriche a contemplar mais um engarrafamento...
Resolvem alguma coisa.
Obviamente, nada.
Mas mostram que estão preocupados.
Mesmo muito preocupados.

Uma declaração sensata e realista, à revelia da dominante "banha de cobra"

1.O presidente do PSD terá declarado hoje que o programa de governo do seu Partido não poderá ser diferente do que vier a ser acordado com a União Europeia e o FMI, não ficando praticamente nenhuma margem de manobra para medidas autónomas, em sede de política económica, para quem vier a assumir as responsabilidades de governo.
2.Finalmente ouve-se uma declaração carregada de sensatez e de realismo, da parte de um dos principais protagonistas da cena política e candidato a 1º Ministro - já não era sem tempo.
3.Seria bom que os restantes protagonistas assumissem uma postura semelhante - ganharíamos todos com isso, são cada vez mais dispensáveis os que pretendem vender falsas ilusões aos portugueses...
4.Esta postura contrasta, sonoramente, com a de um recente congresso em que prevaleceu, por maioria arrasadora, a teoria da venda de banha de cobra, desta vez representada em promessas de defesa do Serviço Nacional de Saúde, do Ensino Público, do Sector Público Empresarial,do Estado Social etc,etc, tudo orientado na patriótica defesa das ilusões perdidas (ou dos cargos ameaçados, quem sabe)...
5.E contrasta também com uma afirmação do principal dirigente da UGT, que hoje opinou, sem qualquer explicação perceptível, que esta ajuda externa era dispensável...
6.A menos que a UGT dispusesse de um fundo especial, formado por contribuições dos seus associados, para se substituir aos mercados no investimento em dívida pública portuguesa, é difícil imaginar um nível de negação da realidade tão alavancado...
7.Estas eleições vão decorrer, como já se percebeu, num ambiente político sem precedentes, em que aos políticos concorrentes está vedado prometer políticas distintas das que vierem a ser consagradas nas contrapartidas da ajuda financeira – os que o fizerem estarão, muito simplesmente, a enganar deliberadamente os eleitores...
8.Por este motivo entendo que a declaração de hoje do presidente do PSD é de relevar, pelo realismo e sensatez que evidencia...oxalá possa manter este registo sem tergiversações, admito que os eleitores, desta vez, não se deixem iludir com a “banha de cobra”...como aconteceu ainda há pouco tempo...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Avó de "aluguer"!

Vale a pena ler. Avó, de 61 anos, deu à luz o seu neto.
Belo! Belíssimo.

O paradoxo

Tenho acompanhado a torrente de comentários sobre a escolha de Fernando Nobre para cabeça da lista de candidatos a deputados pelo círculo de Lisboa, apresentada pelo PSD. No fundamental as análises e sentimentos recaem sobre a coerência do candidato e sobre a soberba de quem o candidata. Confesso que pouco me interessa o caso sobre qualquer um destes pontos de vista. O que verdadeiramente ele convoca – pelo menos o que mais me chamou a atenção – é o chocante paradoxo entre o que o exercício da função parlamentar pressupõe e exige, e aquilo que - por menos desastrados ou convincentes que sejam os desmentidos - realmente motiva Fernando Nobre e quem o escolheu.
Explico.
Nobre candidata-se em nome da “liberdade” e da “independência”. Chega mesmo a dizer (entre outras coisas dificilmente imagináveis) que elegê-lo para presidente da AR significa escolher pela primeira vez alguém verdadeiramente livre e independente para exercer as funções que o cargo exige. Mas observo que quem o convidou não só alinha neste discurso como acrescenta que candidata Nobre para o lugar cimeiro da lista por Lisboa e proporá para presidente do Parlamento, porque tem a seu crédito um passado de luta pela cidadania.
Este discurso transmite a inaceitável ideia de que os demais eleitos, filiados nos partidos políticos, não são livres e independentes. Nem apóstolos da cidadania. É esta sensação de desprezo pela liberdade e independência do cidadão filiado num partido, eleito deputado (que a Constituição expressamente consagra no artigo 155º/1), que não é tolerável quando o partido agita, como valor seguro de um cabeça de lista, exactamente a facilidade com que ele se desliga do interesse partidário para dar prevalência à autonomia da sua vontade ou à sua consciência, ao mesmo tempo que anuncia a pré-decisão de o fazer eleger presidente da AR. O paradoxo, é, pois, uma desconsoladora evidência.

Mas mais importante do que isso, este discurso, para além de perigoso para os próprios partidos, ignora que é à consciência e à autonomia da vontade de cada deputado que se apela quando se elege, inter pares, o presidente da Assembleia da República. Por isso é que, com a garantia do segredo de cada voto, a Lei Fundamental faz repousar na consciência dos deputados a decisão sobre quem é mais apto para o desempenho da função de presidir ao parlamento.

Tudo o mais que sobre o assunto se vai dizendo é folclore comum nestas épocas.

domingo, 17 de abril de 2011

A táctica do pesadelo


Nós, os portugueses, temos um jeito muito especial de encarar as desgraças, depois do choque inicial lá vem quase sempre o “podia ser pior”, ou então “ainda tiveste sorte, olha se…” , é uma forma humilde de suportar a adversidade e, ao mesmo tempo, de impedir que a comiseração exceda o adequado. Mas esta tendência para testarmos a nossa própria resistência, imaginando ainda pior do que o que aconteceu para relativizar o drama real, está a ser alvo de um abuso intolerável, que explora até ao absurdo os medos possíveis e impossíveis, no que parece ser uma tentativa para nos enlouquecer ou, em alternativa, para nos anestesiar com dose letal. É assim que, perante uma catástrofe sucedida em qualquer ponto do globo, logo se desenvolvem estudos e teorias sobre “e se fosse cá?”. Foi assim com o terramoto e tsunami no Haiti, foi assim com a hipotética praga da gripe A – em que todos os hospitais ficavam paralisados e os empregos desertos e se estimavam milhares de mortos, lembram-se? – voltou a ser assim com o terramoto no Japão, em que invariavelmente se concluía que as casas em Portugal estão todos fora da regra de segurança e, claro, não podia faltar a ameaça do nuclear. Hoje, num pacífico e soalheiro domingo em que muitos portugueses aproveitaram para espairecer das agruras da vida, o Público não achou melhor do que propor logo na capa, e com grande desenvolvimento nas primeiras páginas, que imaginássemos o drama de Fukushima em Portugal. Nada mais nada menos, toca de descrever com requintes de terror o que seria, quanto morriam, quantos estropiados, enfim, um delírio hipotético porque, claro, nem sequer temos centrais nucleares, um pequeno detalhe para a nossa prodigiosa imaginação tenebrosa. E vulcões, se explodisse aqui um vulcão como o da Islândia, já pensaram?, ou desabasse uma monção como na Índia, estaremos preparados para monções no Alentejo? E um icebergue a bloquear o Porto de Sines? Ou a areia a irromper nos campos de golfe depois de inundações bíblicas, como na Austrália?

É a táctica dos pesadelos, quando acordamos sentimo-nos tão felizes porque afinal não aconteceu nada. Deve ser esta a estratégia, está visto, é para nosso bem, se ainda conseguirmos chegar à página das notícias nacionais tudo nos parecerá uma maravilha, uf!, que direito temos de nos queixar quando há tantos cataclismos hipotéticos a que, para já, fomos poupados? Obrigada jornais, aguardo ansiosamente os próximos estudos sobre os índices de felicidade dos portugueses.

sábado, 16 de abril de 2011

Que se passa?

Passa das 22 horas. Longe de casa, mantenho-me atento aos noticiários à espera que os dirigentes do PSD lamentem o equívoco da escolha de Fernando Nobre para cabeça da lista de deputados pelo círculo de Lisboa e retirem o convite que lhe dirigiram ante a inacreditável entrevista concedida ao "Expresso" de hoje.
Demoram a ler? Tardam a entender? Ou passa-se algo que não chega aqui a terras de beira-douro?

Adenda: Anunciam para amanhã uma entrevista com Fernando Nobre na RTP 1. Só pode ser para esclarecer que tudo o que li no "Expresso" foi um mal entendido, não corresponde ao que o senhor efectivamente disse ao semanário, mas sobretudo nada tem que ver com o que pensa. É uma explicação para o silêncio da direcção do PSD. Aguardemos então.

Humildade política

Nunca apreciei as pessoas que se autointitulam independentes. Independentes de quê e de quem? Nem os livres-pensadores podem considerar-se como tais, já que à medida que aprofundam o pensamento acabam por concluir que estão longe, muito longe da utópica pretensão. Não há ninguém independente. Até quando se invoca Deus, por dá aquela palha, se pode ver o conceito de independência. “Foi graças a Deus que ganhámos o desafio”. Se Deus quiser vamos ganhar as eleições, o jogo, o campeonato, a batalha, o totoloto, e sei lá que mais!
Não pertencer a um partido é uma coisa, mas autoproclamar-se como independente é uma treta. Não vejo problema nenhum, antes pelo contrário, que uma pessoa se identifique com uma determinada ideologia, uma doutrina ou corrente filosófica e atue em conformidade, desde que respeite princípios éticos. Quanto maior a diversidade ideológica e doutrinária mais fácil se consegue resolver os problemas, encontrar soluções, crescer e humanizar. O problema não está nos partidos, o problema está, sempre esteve, e continuará a estar dentro das pessoas, na conduta ética. Conquistar o espaço do poder pelos mais capazes é um imperativo. Em termos práticos, o problema é mais de ecologia política do que outra coisa.
Há espécies daninhas, há espécies belas, mas com tendência a tomar conta do espaço, eliminando outras, há espécies que prometem beleza, mas emitem cheiros desagraveis, e outras, simples, belas e capazes de emitirem notáveis fragrâncias. São frágeis, sem dúvida.
Ando muito confuso. Sei que sou um pretensioso livre-pensador, que tem consciência de que é impossível ser-se livre, mas, por favor, não me roubem o pouco que me resta de esperança. Digo isto, porque tenho dificuldade em compreender muitas coisas, por mais que as tentem justificar, tal como a seguinte frase: “Se não for eleito presidente da AR renuncio de imediato”.
Já fui deputado. Considero este período como a mais importante experiência da minha vida. Empenhei-me ao máximo, porque sentia um estranho e confortante orgulho de que estava a contribuir para o bem-estar da nação portuguesa. Talvez não tenha sido um retórico brilhante, ou tenha tomado iniciativas de vulto, mas respeitei, fui respeitado e trabalhei com satisfação para a causa pública. Não consigo entender a “exigência” do ex-candidato à Presidência da República. O que posso afirmar é o seguinte: se fizesse parte de uma lista de deputados à Assembleia da República, pelo PSD, claro, e fosse eleito, não votaria em Fernando Nobre para Presidente. O voto é secreto, o meu, neste caso virtual, está dado. Os eleitos têm de respeitar quem os elege e praticar a humildade política. Eu sei que esta última não deverá soar muito bem, mas é o meu entendimento.

Uma desvairada RTP

A reboque das suas concorrentes privadas, a RTP, estação pública, vai lançar um reality show: 13 pessoas, 24 câmaras, 90 dias, 24 horas.

Segundo o CM citando fonte da RTP, o programa "terá uma forte componente multiplataforma e interactiva ". Muito bem, admirável justificação.


Treze pessoas, espiolhadas por 24 câmaras, durante 24 horas por dia, e durante noventa dias pode ser tudo, menos exemplo de serviço público. Como estação de serviço público, a programação da RTP deveria ser referência de qualidade para as privadas. Afinal, e ao contrário, é a RTP que tem andado a reboque das privadas, nada exibindo de diferente. E agora traz para o serviço público o que de pior essas televisões têm exibido. Não exercendo a função que lhe compete, só há um caminho a seguir: privatize-se. Já!...

Sempre nos poupam 370 milhões de euros ( 235 milhões de apoios estatais e 135 milhões de taxas). Caro, muito caro, para termos mais do mesmo. Um perfeito desvario.

Uma pérola

Numa das edições do "Expresso" que mais deprimido me deixou, encontrei esta pérola:
"Cada vez que a CGTP convoca uma manifestação, eu fico satisfeito. Vêm com galinhas, sentam-se no Parque Eduardo VII, comem uma galinha, descem a avenida, ouvem o Carvalho da Silva e vão para casa. E há descompressão. A nossa sociedade precisa disso". - Medina Carreira.

Notável!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma mensagem de esperança...

Uma mensagem de esperança, mas muito exigente...

A Dívida Soberana - Sete mandamentos para atrevessarmos a crise

1º - A primeira de todas as dívidas soberanas, e certamente a mais fundamental, é aquela que cada um de nós mantém para com a Vida. Essa dívida nunca a pagaremos, nem ela pretende ser cobrada. Reconhecer isso em todos os momentos, sobretudo naqueles mais exigentes e confusos, é o primeiro dos mandamentos.

2º - Se a maior de todas as dívidas soberanas é para com um dom sem preço como a vida, cada pessoa nasce (e cresce, e ama, luta, sonha e morre) hipotecada ao infinito e criativo da gratidão. A dívida soberana que a vida é jamais se transforma em ameaça. Ela é, sim, ponto de partida para a descoberta de que viemos do dom e só seremos felizes caminhando para ele. É o segundo mandamento.

3º - O terceiro mandamento lembra-nos aquilo que cada um sabe já, no fundo da sua alma. Isto de que não somos apenas o recetáculo estático da Vida, mas cúmplices, veículos e protagonistas da sua transmissão.

4º - O quarto mandamento compromete-nos na construção. Aquilo que une a diversidade das profissões e as amplas modalidades do viver só pode ser o seguinte: sentimo-nos honrados por poder servir a Vida. Que cada um a sirva, então, investindo aí toda a lealdade, toda a capacidade de entrega, toda a energia da sua criatividade.

5º - A imagem mais poderosa da Vida é uma roda fraterna, e é nela que todos estamos, dadas as nossas mãos. A inclusão representa, por isso, não apenas um valor, mas a condição necessária. O quinto mandamento desafia-nos à consciência e à prática permanente da inclusão.

6º - As mãos parecem quase florescer quando se abrem. Os braços como que se alongam quando partem para um abraço. O pão multiplica-se quando aceita ser repartido. A gramática da Vida é a condivisão. Esse é o mandamento sexto.

7º - O sétimo mandamento resume todos os outros, pois lembra-nos o dever (ou melhor, o poder) da esperança. A esperança reanima e revitaliza. A esperança vence o descrédito que se abate sobre o Homem. A esperança insufla de Espírito o presente da história. Só a esperança, e uma Esperança Maior, faz justiça à Vida.

José Tolentino Mendonça

“Eco do Céu”

Não tenho hábito de fazer incursões na literatura oriental, mas, de vez em quando, atrevo-me a beber as emoções e sentimentos de povos muito afastados de nós, geográfica e culturalmente. Foi o que aconteceu no ano passado. Não me recordo se foi o título, a imagem da capa ou o nome do autor que me chamou a atenção, mas também não interessa, o que eu sei é que me embriaguei com a leitura, “Eco do Céu”, de Kenzaburo Oe. A história de uma mulher, rebelde, inconformada, sofredora, à procura da razão de viver e que acabou por transformar-se ela própria na razão de vida de outros.
Lembrei-me de Oe, quando assisti à tragédia do tsunami que se abateu há semanas sobre o Japão. Na altura noticiaram que uma central nuclear tinha sido afetada. A forma como foi dita, suave, discreta, não augurava nada de bom. É sempre assim, o anunciar das grandes tragédias começam, habitualmente, por parcas e discretas palavras. Com o passar dos dias ficámos a saber o que se temia, uma desgraça anunciada de consequências imprevisíveis.
Os que vivem no ocidente concluem que, estando longe, estão a salvo de quaisquer efeitos, conclusão essa reforçada pelos peritos, cientistas e políticos que afiançam não haver qualquer perigo. Entretanto, as radiações que já foram detetadas no ocidente, provenientes do Japão, “são coisas sem importância e sem risco para a saúde pública”. Não há nada melhor do que a “sabedoria” de tais individualidades para tranquilizar e impedir qualquer tipo de angústia!
Esbarrei novamente com Oe numa pequena nota do New Yorker. Um pequeno texto que define a natureza humana. O único povo do mundo que sofreu as consequências dramáticas do uso da bomba atómica, acaba por beber do fel da fonte da energia nuclear. O escritor descreve as tomadas de posição do Japão no pós guerra, que renunciou ao uso da força e constitucionalizou os Três Princípios Não Nucleares, com base na trágica experiência vivida. Com o tempo, a memória do homem modifica-se e os princípios têm tendência para se apagarem. O Japão, entretanto, militarizou-se, as armas nucleares foram introduzidas, secretamente, apesar de tentarem manter um aparente pacifismo. Kenzaburo Oe dá a entender que uma nação que vive permanentemente sob a ameaça de cataclismos naturais não tem o direito de construir centrais nucleares, as quais constituem fontes de tragédias humanas. É preciso fazer a ponte para Hiroshima e Nagasáqui e respeitar as vítimas. Um eco do passado que é preciso ouvir. Oe vai mais longe, ao citar um livro escrito há mil anos por uma mulher, Sei Shonagon, “O Livro de Cabeceira”, transcrevendo a seguinte frase: “Tudo aquilo que parece estar longe, não está, está muito perto”. E é esta frase que me leva a equacionar se aquilo que se apresenta em doses muito baixas poderá ser considerado como seguro. É difícil provar os efeitos de pequenas doses, porque exigem trabalhos muito dispendiosos e com efetivos praticamente impossíveis de obter. Deste modo, os verdadeiros efeitos de uma exposição a baixos níveis de radiações são desconhecidos. O facto de não existirem trabalhos não significa que sejam inócuos. “Don´t worry! OK, worry a little..."
Por que será que a Comissão de Proteção de Radiações recomendou que, temporariamente, o Japão pode aumentar o nível de exposição anual de 0,001 sieverts para 0,2 sieverts? Qual a razão para que a Tokyo Electric Power Company tenha aumentado o nível de exposição dos seus trabalhadores para 0,15 sieverts/ano? Pois é, parece-me que andamos a navegar mais na área da “transciência” do que qualquer outra coisa, “explicar cientificamente o que a ciência não pode explicar ou provar”. É certo que vivemos num mundo de incertezas, e devemos abraçá-las sem receio, o que me incomoda são as certezas que nos farpam a toda a hora e instante. Certezas dos efeitos das pequenas doses? Alvin Weinberg, físico nuclear e autor da famosa expressão, enunciada em 1945, “A força atómica tanto pode curar quanto matar”, afirmou que a única substância que tem a certeza de ser eficaz em concentrações ínfimas é a humildade! Aqui está uma substância que devia fazer eco em todos os céus.

Crise da zona Euro e sucesso das exportações portuguesas: como entender?

1.Uma das tónicas do esfarrapado discurso oficial de desculpabilização pela lamentável situação de penúria financeira em que nos encontramos tem sido apontar o dedo a uma suposta crise do Euro e da zona Euro...
2.No uso dessa técnica de sofismar, chega-se ao desplante extremo de o PM, numa das suas últimas aparições em Bruxelas, vestido na pele de bombeiro – no combate a um incêndio de que terá sido o mais proficiente ateador – ter declarado “estou aqui também em defesa do Euro”!
3.Confesso que quando ouvi (e vi) tal declaração não consegui reprimir um sorriso (contido, apesar da dimensão planetária do dislate), tão caricata me pareceu a situação.
4.Como se sabe, o Euro (hoje em queda ligeira, só para ajudar à "crise") tem vindo a reforçar a sua posição nos mercados internacionais, encontrando-se nesta altura bastante valorizado em relação às demais divisas internacionais, em especial contra o USD, cotando em torno de 1,45 USD...
5.Por outro lado, a crise da zona Euro continua a ser uma situação desconhecida para a maioria dos países membros, com algumas excepções - sendo Portugal nesta altura a excepção mais em foco, graças à excepcional perícia e patriotismo dos seus dirigentes que têm tido o talento, agora com amplo e justo reconhecimento internacional, de conduzir o País em contra-mão...
6.A propósito da “crise” na zona Euro, vale a pena referir a evolução das exportações portuguesas de mercadorias para os países dessa zona em “crise”, nos dois primeiros meses deste ano: Espanha + 12%; Alemanha + 28,3%; França +21,3%; Holanda +29,6%; Itália +20,7%; Bélgica +24,3%; Finlândia +90,2%; Áustria + 8,4%; Grécia(essa pobre infeliz, lançada nas trevas)+ 10,1%, etc, etc, etc
7.Curiosamente, o mesmo PM, já em plena campanha eleitoral, paga por nós, festeja animadamente o sucesso das exportações nacionais – assumindo o papel de grande promotor das mesmas - tendo todavia o cuidado de nunca mencionar os países de destino, obviamente para não estragar o discurso da desculpabilização...
8.Zona Euro em “crise”,uma das grandes "causas" da situação de extrema dificuldade e penúria em que Portugal se encontra...mas, curiosamente, a mesma zona Euro explica o sucesso das nossas exportações – como entender isto?

Consumiram? Não consumissem. Pouparam? Não poupassem.

Ontem os jornais davam conta de que o índice de poupança em Portugal tem vindo a cair sucessivamente o que, na verdade, não deve admirar ninguém nem exigir estudos especialmente complicados para concluir quais as razões. Depois de muitos anos a ser estimulados até à demência para aproveitarmos as baixas taxas de juro, “compre agora e pague depois”, “se o seu vizinho já tem você está à espera de quê?”, tudo recorrendo ao crédito e aos cartões dourados, prateados e arrendados que nos chegam a casa sem os pedirmos, os portugueses sentiram de repente o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. Desde a aceitação oficial da “crise” que os crédulos e confiantes cidadãos viram a mão que lhes estendiam transformar-se num dedo acusador e, depois, ameaçador. Então endividaram-se loucamente? Então compraram casinhas e automóveis, viajaram para as Caraíbas e deixaram os meninos comprar roupas de marca? Grandes tolos, onde está a poupança, não sabiam que no poupar é que está o ganho? E agora, que as famílias estão endividadas até à raiz dos cabelos, desempregadas e com salários a minguar, para além da necessidade crescente de ajudar os mais novos e os mais velhos da família, ficam muito preocupados a olhar os números da poupança, como se fosse um fenómeno surpreendente.

Mas esquecem-se também de que os mais prudentes que ainda mantinham os seus Certificados de Aforro, e que eram sobretudo os que não gostam de arriscar na roleta da bolsa ou que já não tinham idade para contar com aumentos de salários no futuro, foram brutalmente desenganados com a mudança das regras aplicáveis às suas poupanças. Podemos dizer que foi um esforço glorioso para convencer os últimos resistentes a deixar de poupar. Criaram-se depois a correr os Certificados do Tesouro, apresentado como um novo pote de mel se ficasse fechado durante 5 a 10 anos, e lá foram os simpáticos portugueses conservadores, essa raça em extinção, depositar os proventos subtraídos à voragem do crédito e do consumo.

Com a crise já assumida, não têm faltado choro e ranger de dentes sobre a magra dívida interna, ah!, se não fossemos um povo de pobres novos-ricos teríamos comprado a dívida em vez de ficarmos nas mãos dos credores de fora, como fizeram os japoneses e os italianos, o melhor, o que é mesmo patriótico, é sermos nós a emprestar ao Estado e a conversa fica só entre nós. Pois é. Mas como sempre acontece entre nós, dá-se uma no cravo e outra na ferradura. Ao mesmo tempo que sobem os decibéis de apelo à poupança, abrem-se os jornais e o que é que se lê? Adivinharam. “Certificados de Aforro sob ameaça em caso de default” porque, “num cenário de renegociação da dívida, os instrumentos de poupança popular (…)serão tratados da mesma forma que os outros credores”. Mas escusamos de entrar em pânico, porque “a Constituição e os Tratados internacionais impõem que não possa haver confisco sem justa indemnização”, lê-se na mesma notícia. Que alívio, com esta garantia vai de certeza haver uma corrida à compra dos Certificados do Tesouro…

- Então já não se pergunta se uma pessoa fuma ou não?

A consulta decorreu com normalidade. Não houve nada a apontar ou a aconselhar. O exame, a que o trabalhador está, por lei, obrigado, tinha terminado. Cumprimentei a senhora, que não tinha revelado muitas falas, e desejei-lhe as maiores felicidades, colocando-me à sua disposição para o que fosse necessário. Um hábito que fui construindo ao longo do tempo e que agrada, pelo que me é dado ver, à maioria dos trabalhadores. Digo isto, porque, sendo um exame obrigatório, eu sou “imposto” e não escolhido, o que pode ser fonte de desentendimentos e até de alguma antipatia pela minha pessoa. Conheço demasiado bem a natureza humana para fazer certas afirmações. No final, algumas palavras simpáticas são suficientes para produzir um bom efeito, não por uma questão de cortesia, mas pelo respeito que devo às pessoas. Basta olhar as suas faces; os músculos da antipatia relaxam e os simpáticos contraem-se numa oposição visível e quantificável. Resultado: sorrisos amáveis e brilho no olhar. Numa breve fração de segundo consigo o efeito desejado. Neste caso, o efeito não se fez sentir. Fiquei meio surpreendido. Então, inesperadamente a senhora dispara: - Já não se pergunta se uma pessoa fuma ou não? – Como?! – Estou a perguntar ao senhor doutor se já não fazem perguntas sobre se uma pessoa fuma ou não. Nunca me tinha acontecido nada semelhante. – Tentei sair da situação, dizendo-lhe que, sendo uma consulta de rotina, as perguntas sobre hábitos pessoais constavam da ficha clínica, aquando do exame inicial, e se uma pessoa diz que é fumador, habitualmente, o médico, como é o meu caso, aconselha a que se deixe de fumar. Depois, olhe, só uma mínima fração é que desconhece que o tabaco faz mal. Presumo que a senhora, felizmente, não pertença a esse grupo. Deixou-me falar, até explicar que já não fumava. Tinha deixado e não foi nada complicado. Esteve há alguns meses hospitalizada durante uma semana. Durante esse período não fumou, logo, quando saiu, pensou: se eu consegui estar uma semana sem fumar, então, posso continuar. Não me custou nada! Ouvi as suas explicações com muita atenção, sem a interromper. Vi que tinha chegado o momento. – Minha senhora, permita-me que a felicite vivamente pela sua atitude. Considero um grande feito ter deixado de fumar. Não posso deixar de lhe dizer que é muito mais complicado e difícil abandonar este hábito nas mulheres do que nos homens. Reiterei os meus cumprimentos e felicitações e só abrandei quando comecei a notar que o seu rosto deixava transparecer uma sensação de orgulho. Uf! Até que enfim, pensei. Levantou-se, orgulhosa dos seus feitos, ter deixado de fumar e ter chamado a atenção para um pormenor que os médicos andam sempre a apregoar. Então, ela que conseguiu um feito destes, não merecia mais respeito? Que raio de médicos são estes que já nem perguntam se uma pessoa fuma ou não! Deverá ter pensado.
Agora tenho de ter mais cuidado, e perguntar, sempre que não sinta o cheiro do tabaco a agredir o meu ultrassensível bolbo olfativo, se já deixou de fumar, aquando dos cumprimentos finais. – Se já deixei de fumar? Oh senhor doutor, mas eu nunca fumei! E, claro, os músculos faciais da indignação e surpresa darão cabo da expressão de alegria, mantendo-se apenas o brilho do olhar, só que passará a ser um brilho de desconfiança a traduzir a seguinte opinião: O pobre do doutor não deve estar bom da cabeça!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Manigâncias orçamentais atingem nívies impensáveis...

1.Foi esta semana amplamente noticiada a situação absolutamente insólita em que se encontra o Ministério da Administração Interna, ao dar patrocínio a uma prática ilegal - que envolve responsabilidade criminal quando é adoptada por empresas privadas - de não entregar ao Fisco e à Segurança Social os valores de IRS e dos descontos retidos ao pessoal da PSP.
2.Esta prática, ao que refere a notícia, deve-se à insuficiência da verba orçamentada para o pagamento de salários, que “obriga” a que aquelas retenções sejam utilizadas no pagamento “ongoing” dos salários...
3.Sendo certo, como já se referiu, que no caso da adopção por empresas privadas essa prática implica procedimento criminal, aqui tal não irá suceder, obviamente, uma vez que existe um nobre, um “patriótico” motivo ou fim que justifica o meio utilizado para o realizar: o encobrimento de uma situação de desorçamentação ou de sub-orçamentação de despesa pública em 2011...
4.Já hoje é também notícia que os três ramos das Forças Armadas não terão dinheiro para pagar os salários do seu pessoal, havendo uma insuficiência de bastante mais de € 200 milhões...
5.Provavelmente irão utilizar o mesmo “estratagema” do Ministério da Administração Interna, “metendo na gaveta” as retenções do IRS e da Seguranças Social para assegurar os salários dos meses que se seguem.
6.Mais extraordinário parece ser o patrocínio que o Ministério das Finanças terá oferecido a esta prática (que remédio, está na origem da mesma...), embora oficialmente o negue...
7.Já ninguém se lembra, certamente, mas em 2010 o Estado contabilizou cerca de € 300 milhões de receita orçamental com venda de património efectuada pela Direcção Geral do Património à Estamo, empresa imobiliária detida a 100% pela Parpública por sua vez detida a 100% pelo Estado...
8.Ou seja, neste último caso, o Estado/Governo contabilizou receita, vendendo património a si próprio, utilizando crédito bancário concedido à Estamo para obter os fundos necessários...
9.Crédito bancário que, com tão desmedida utilização e absorção pelo Estado e suas ramificações, acabou praticamente para as empresas verdadeiramente produtivas, ou tem de ser pago a preços exorbitantes...
10.Por estes exemplos apercebemo-nos melhor do estado brilhante das contas públicas em Portugal que, segundo um Ministro com funções de grande destaque político, são “transparentes” e sujeitas a auditoria “independente”...

A trilogia da redenção

“É possível cometer erros e perdoar mas é preciso ver também a vontade de mudar”, diz Estela Barbot, hoje,na Sic Notícias. “A falta de credibilidade lá fora é assustadora”.
Fala-se agora muito em culpa ou não culpa (infelizmente não em desculpa) e fala-se também abundantemente em vergonha e humilhação. Quanto à culpa, esse sentimento judaico-cristão que nos ensinaram a sentir desde pequeninos, aprendemos em casa – quando há muitos irmãos então aprende-se mal se nasce – e no convívio na escola, aquela pesada trilogia assumir/arrepender-se/aceitar o justo castigo. Assumir era uma questão de honra, o acto que devia mostrar uma consciência apurada a distinguir o bem e o mal. Arrepender-se era importante para recuperar a estima e a consideração, pois garantia que não havia intenção de voltar a praticar a asneira. E o castigo, claro, dissuasor de novas tentações era, sobretudo, o preço do resgate ou aquilo a que se chamava redimir o erro. Mas também havia os casos em que todos, de uma forma ou de outra, tinham a consciência pesada, lá sabiam que sem a sua colaboração a asneira não tinha sido feita, e então fazia-se um pacto e ninguém denunciava ninguém. O resultado, claro, era o castigo ser distribuído pelo grupo e, mesmo que não fosse inteiramente justo, pagavam todos pela mesma bitola, as discussões seriam inúteis e só agravariam a ira dos ofendidos. Quanto à vergonha, há repentes patrióticos contra os credores/financiadores que ousam fazer comentários menos diplomáticos sobre a situação e turbulência interna que vivemos. E é verdade que todos sentimos o peso da exposição internacional e a retranca que põem à porta os possíveis financiadores, é verdade que os nossos emigrantes, sobretudo os tais jovens qualificados que preferiram e puderam tentar a sorte como cidadãos europeus, sentem a dor até agora desconhecida do tratamento com laivos de desprezo, logo eles, que quase acreditaram pertencer às “elites” globais do futuro. Essa vergonha é mais dura, porque é isolada, os portugueses sentem o silêncio nos grupos onde até agora eram recebidos alegremente e ouvem piadas pesadas a reparar nos gastos que fazem. Mas acontece que a vergonha não começou agora, tal como uma doença não começa quando o médico faz o diagnóstico e a anuncia com crueza. Vergonha devíamos ter tido quando nos deixámos andar desleixados, ignorando avisos e evidências, fazendo orelhas moucas ou mesmo desclassificando as “cassandras” (lembram-se?) que, essas sim, tiveram vergonha na altura certa. Agora, o que temos é que reunir o orgulho que ainda temos e encarar com coragem o remédio que nos há-de tratar. Podemos exorcizar a culpa, enfrentar a vergonha e dispor-nos a suportar o preço para recuperar a nossa credibilidade, fazendo fé na velha trilogia da redenção.