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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

“Sepultar a dor” …

De quando em vez, ao acordar, penso na morte. Começa a ser frequente, mas não estremeço e nem sinto medo, apenas uma estranha sensação de paz. Curioso associar a morte à paz ou a paz na morte ao nascer de um novo e belo dia.
Sou depositário de muitas lembranças que arrecadei ao longo da vida. Muitas estão relacionadas com a morte, esse estranho fenómeno com quem comecei a conviver, e até a tocar, desde muito novo. Muito novo mesmo.
Por causa de ter despertado a pensar na morte, recordei uma conversa tida há alguns anos. Já era muito tarde, foi num daqueles dias tristes em que o sol adormece demasiado cedo.
O meu velho amigo, após se sentar com alguma dificuldade, perguntou-me se conhecia fulano. 
- Quem? Não estou a ver.
- Não o conhece?! Ele trabalhou comigo muitos anos na fábrica, e, com um gesto largo, apontou na noite escura como o breu para o lado de lá do rio, como a querer comprovar a sua identidade. Ficou em silêncio durante breves segundos. Depois reiniciou a sua narrativa.
- Vivia na quinta mais a mulher, que estava muito adoentada, coitadita. Eram ambos velhotes.
- Está bem! Mas o que é que aconteceu? Perguntei, antevendo o pior, porque o estilo de linguajar, aliado à idade avançada, só podia ser o prelúdio de um passamento.
- Na véspera do Ano Novo tiveram de chamar o 112. A mulher não se sentia bem e levaram-na para o hospital. Ela andava em cadeira de rodas. Estava muito doente, coitadita. Depois, quando regressaram tiveram de lhe dizer que tinha morrido. Veja lá como são as coisas. O marido, quando ouviu, sentiu-se mal e não é que também acabou por morrer. Como são as coisas, senhor doutor, como são as coisas. Afligiu-se e morreu. Eles davam-se muito bem. Viviam sozinhos, isolados na quinta, mas eram boa gente. Gente de trabalho, de muito trabalho, e honesta, muito honesta. Acabaram por ser enterrados no dia do Ano Novo e na mesma cova. Viveram juntos, morreram no mesmo dia e foram sepultados na mesma cova.
- Sabe, ainda bem, apesar da tristeza da notícia da morte de alguém, fico aliviado. Não sofreram com a separação, e a dor também acabou por ser enterrada com eles, homem, mulher e a dor da separação sepultados ao mesmo tempo. Uma bela forma de começar o novo ano. Viveram juntos, morrem praticamente juntos e vão dormir juntos para a eternidade. Onde foram enterrados? Disse-me o local. 
- Mas não deverão ter tido grande acompanhamento. Praticamente ninguém os conhecia.
- Não faz mal. Eu tenho alguma ideia deles quando era pequeno, mas vou registar este episódio, pode ter a certeza, nunca mais o esquecerei pela emoção que me despertou e por saber até onde pode ir o coração das pessoas que se amam. 
Almas desconhecidas que se libertaram da vida sem serem alvo de grandes atenções. 
Dedico-lhes esta descrição e lembrança. Sempre pode ser considerada com uma forma de oração ao nascer de um belo dia de sol com a morte a bocejar e sem querer fazer mal.

sábado, 27 de agosto de 2022

Lucille…

Uma tarde cinzenta convidando a memórias cinzentas. Tarde sem história. Rotina cinzenta. Tudo hoje me parece cinzento. Perdura o aroma matinal das minhas rosas cheias de cor. Felizmente que não há rosas cinzentas.
- Como se chama? 
- Lucília...
Sorri. Tinha o mesmo nome que a minha mulher. Exame banal, simples, senhora com saúde e simpática. No decurso do exame disse-lhe:
- Lucília é um nome pouco comum.
- Pois é. Respondeu. - Não conheço muitas.
Aproveitei a deixa.
- A minha mulher também se chama Lucília e a minha sogra também se chamava. Sorriu.
- É pouco comum, mesmo. 
- Hum! Então, não é boa pessoa. Aqui o sorriso deu lugar a uma curta gargalhada.
- Eu gosto do nome. Disse. Eu e o B. B. King. Conhece? Não lhe dei tempo para responder. Foi um grande músico. A sua guitarra chamava-se Lucille e fez uma música dedicado a ela. Expliquei-lhe a razão de ser do nome e como é que surgiu. Vi que estava a gostar da história. Fiz o que tinha ainda a fazer, dizendo-lhe ao mesmo tempo:
- Quando acabar a consulta vou-lhe mostrar. Foi o que eu fiz. Assim que ouviu os primeiros acordes disse:
- Ah! Mas eu já ouvi.
- Claro! Quem é que nunca ouviu?
- Mas eu não sabia que a guitarra se chamava Lucille. A guitarra e a música. Obrigado, senhor doutor. Hoje já aprendi alguma coisa. Saiu com um sorriso de agradecimento e polegar levantado.
A ideia é essa mesma. Aprender todos os dias um pouco.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Dignidade de um livro…

Passei parte do dia a trabalhar. Nos intervalos ataquei a leitura. Bebi-a como se fosse uma das minhas bebidas preferidas. Senti um agradável calor. Vivi os sentimentos de pessoas que também conheci. Terminei agora mesmo. O livro, muito velho, uma primeira edição, deixou cair nas mãos a última folha e a contracapa. Nunca tinha terminado um livro desta forma. A meu lado esquerdo o grosso do volume e na minha mão direita a delgada e ambicionada página. Aprendi tanto. A natureza humana seduz-me. Todos os dias surpreende-me, quer ao vivo, quer através da literatura dos nossos, maiores ou esquecidos, ou, então, no mundo da minha imaginação.
Fui buscar uma fita adesiva e restitui ao livro a alegria e a satisfação de um final que nem sempre acontece. A vida continua e sobrevive à morte e ao malfadado sofrimento. 
O livro sorriu e agradeceu o meu cuidado... 
A dignidade é isto mesmo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

“Pormenores da vida” …

Estou atento aos pormenores da vida. Aprendo com eles e acabo por compreender um pouco o que sou. Preciso de explicações, não das sofisticadas, que fazem as delícias dos filósofos ou dos teólogos, já que as dos cientistas são sempre mais humildes e sinceras, mas as dos acontecimentos diários em que os protagonistas são agentes e expressões da vida.

Uma conversa banal na esplanada de um café, um pedido inusitado na rua, uma atenção de respeito no cruzamento patético de entrada ou saída de uma rotunda, uma ajuda espontânea a uma pessoa aflita ou a descrição de experiências pessoais são alguns exemplos.

Sou cuidador, cada vez mais, situação difícil e complicada que é amenizada pelas reações de animais. O meu companheiro é rico e amoroso nas suas expressões. Hoje, tive de tomar conta de uma cadelita de uma filha. Já teve os seus problemas, graves, desde os maus-tratos quando nasceu, é portadora de cicatrizes, até de acidente com fratura e operação aos intestinos. Ajudei-a nessas ocasiões. Não temos convivido, porque raramente a vejo, mas o que é certo é que a cadelita se afeiçoou a mim como se fosse o seu dono desde sempre. Não sei explicar o seu apego. Mas não sei mesmo. Não me larga, pede-me para que a coloque ao meu colo, dorme com felicidade e até suspira, enfim, há coisas que não entendo. Ponho-me a pensar se terá algum sexto sentido ou algo que a leve a ter esta conduta, já que desconfia dos seres humanos e foge deles. Só sei que consegue transmitir algo quente, doce e cheio de paz. Um ser vivo a transmitir o que um humano nem sempre consegue ou conhece.

Esta reflexão foi despertada pelo cantarolar mais estranho que se possa imaginar. Uma muda, munida do carrinho de mão, e acompanhada pelo seu rafeiro, cantava toda feliz ao mesmo tempo que recolhia dos contentores aquilo que pode e lhe serve de sustento. Hoje vinha particularmente feliz. Cantava. Cantava. A muda cantava. Não sabe falar, mas sabe cantar e até avisar com gritos capazes de arrepiar qualquer um em caso de perigo ou se alguém precisa de socorro. Já faz parte da minha paisagem urbana. Tem um belo sorriso, transmite felicidade e está bem com a vida. Uma muda que canta e um animal desejoso de amar, apesar dos maus-tratos que sofreu, dão um significado à vida que os grandes pensadores são incapazes de transmitir…

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Uma extravagante forma de governar

Phineas Barnum, empresário norte-americano do século XIX na área do divertimento, tornou-se o primeiro milionário desse ramo de negócio, muito devido aos métodos originais e extravagantes que utilizava para atrair gente aos seus espectáculos.   

Desconhecido, as pessoas mal acorriam aos shows do primeiro salão que montou em N. York, até ao dia em que encontrou um mendigo à porta do teatro e teve a repentina inspiração de o contratar para um trabalho muito peculiar. Entregou-lhe uma sacola de tijolos e definiu-lhe os locais ao redor do quarteirão onde deveria ir deixando cada um deles. Quando ficasse com apenas um, voltava para trás, depositava esse tijolo no sítio do anterior, apanhando o que lá estava e assim sucessivamente, ficando sempre com um na mão e refazendo o trajecto até chegar ao salão onde deveria entrar. Aí, demorava um pouco e sairia por outra porta, retomando o circuito, o depósito e levantamento dos tijolos.

A cena, de tão repetida, intrigou os moradores, comerciantes e passantes no local que começaram a seguir o mendigo e a tentar saber o que por faria dentro do salão. Aí encontravam Barnum que lhes vendia um bilhete de ingresso. Conta-se que ao fim do primeiro dia largas centenas de pessoas tinham comprado uma entrada.  

Foi a forma criativa e excêntrica de publicitar os seus espectáculos que tornou Barnum o rei do show business.    

Olhando para o país, igualmente me parece que o actual 1º Ministro se tornou um rei, agora do show business político. É que, também ele, vai semeando tijolos, não já para publicitar os seus espectáculos, mas para desviar a atenção das deprimentes performances governamentais.

Se à porta do seu teatro se levantam manifestações perante o doloroso espectáculo das urgências hospitalares, logo planta dois coriscantes tijolos, um Plano de Emergência para o SNS e uma Comissão de Acompanhamento, fantasiando acção e trabalho, mas ironicamente sinal confesso de que não havia qualquer plano e o ministério nada acompanhava.

Nada se alterando, e subindo na rota da ficção, logo lhes junta mais dois vistosos tijolos para distracção pública, um vistoso aumento histórico das pensões (e com ele a ideia de benesse governamental e não de imposição legal devida a uma inflação como há 30 anos não havia), ou um repto aos empresários de aumento dos salários em 20% nos próximos 4 anos, não referindo se em termos reais ou nominais, importante foi a exibição de número tão redondo como virtual.

E se se levanta indignação perante a desobediência ministerial no caso do novo aeroporto, logo deixa mais um esplendoroso tijolo, a aprovação em Conselho de Ministros do Estatuto do SNS, garantia firme de resolução administrativa dos problemas estruturais da saúde, como se um regulamento alterasse o absurdo ideológico da Lei de Bases que visa servir.  

E se nas ruas adjacentes ao teatro se contesta os preços da electricidade, logo encandeia os contestatários com mais dois luminosos tijolos, a vitória no campeonato da descarbonização, forma de encobrir o resultado de uma fundamentalista política energética, e um plafond no preço do gás, mas ficando-se sem saber quem vão ser os últimos suportar o ónus, segredo bem guardado na ambiguidade da resolução.       

E quando o peso dos impostos nos salários atinge o incrível valor de 41,8% e os contribuintes suportam a maior carga fiscal da Europa, mais um cintilante tijolo vem atribuir o facto ao crescimento económico, como se a carga não medisse o peso de todas as componentes da fiscalidade no PIB.

E tão bem treinado e afoito na tarefa, não hesitou em mostrar peito e arremessar mais um tijolo, este bem grosseiro, aos países europeus que tanto nos têm apoiado, o da recusa da solidariedade nas restrições do gás.

Os tijolos de Barnum promoviam os seus espectáculos, os do governo apenas visam controlar as pateadas. Mas foi longe demais, que a arrogância, sobretudo do pedinte, tem um efeito de boomerang que sempre lhe é fatal. Mas certamente já serão outros a apanhar a pancada.

https://ionline.sapo.pt/artigo/778063/uma-forma-extravagante-de-governar?seccao=Opiniao_i

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

“Três de copas” …

 Os homens do mar têm comportamentos interessantes. São mais calmos, introspetivos, possuem olhos profundos, exprimem-se em curtas falas, exceto quando os convidamos a contar histórias, os quais são exímios, quer na forma quer no conteúdo, como se fossem elos de sagas remotas que, conhecedoras das suas fraquezas, se alimentam da sua cortesia para se manterem vivas. Os longos meses passados nas embarcações, trabalho duro, leva-os a adquirir este tipo de conduta, mas também revelam comportamentos nada saudáveis. Quando entram no consultório, logo pela manhã, muitos emitem um bom dia enevoado por uma rouquidão tabágica associada ao característico cheiro. Nem lhes pergunto se fumam, passo para as seguintes, há quanto tempo e quantos cigarros por dia. Outro aspeto muito comum são as tatuagens, de um modo geral são toscas, mal produzidas, com motivos vários, embora outros apresentem imagens bonitas. Presumo que deverão ser feitas nos curtos períodos de descanso entre o silêncio do mar e o ruído ensurdecedor das máquinas.  

Três marítimos, de chofre, o primeiro com a laringe enrugada, não pelo sol, mas pelo tabaco, apresentava um dragão na região do deltoide, um deltoide espesso, duro, a conferir ao animal imaginário uma força descomunal, à espera de um dia transformar-se num dragão decrépito. Nem foi preciso perguntar se era do Futebol Clube do Porto, porque por baixo do bicho lia-se bem, “FCP”. Sorri. Há indivíduos para tudo. Foi feita por um profissional, segundo me disse. Quanto ao tabaco, os conselhos que lhe dei para abandonar deverão ter o mesmo efeito do que pretender apagar a tatuagem com água e sabão. Outro, simpático, mais culto, ocupando um cargo superior, perguntou-me se estava tudo bem, se não havia problemas. Disse-lhe que sim. Olhou-me meio perplexo. - Mas o quê? O que é que se passa? – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? - É verdade, mas diga-me o que é que se passa! – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? Repeti. Sim! Via-se a impaciência a crescer, queria saber o que é que se passava. - É isso mesmo homem de Deus, o senhor fuma, e quem teve um enfarte não deve fumar. Incrédulo, ainda repetiu mais uma vez a pergunta não querendo acreditar que aquilo que eu considerava como grave era para ele uma coisa sem importância, mas, depois de algumas explicações, profusamente detalhadas, ficou convencido da importância do seu problema de saúde e agradeceu-me efusivamente. Nesse momento não consegui ver qual o grau de satisfação e o sorriso da sereia desenhada no seu peito, mas, pela forma como reagiu, adotando a posição de peito inchado, decerto que a sua imaginada amada também terá sorrido e ficado mais tranquila. O terceiro, o mais alto da escala hierárquica, revelou todas as interessantes caraterísticas deste tipo de pessoal. Culto, bom contador de histórias, calmo, como convém a quem tem de tomar decisões, e ainda por cima no mar, revelou-se um bom fornecedor de matéria-prima para quem gosta de conhecer a natureza humana. Não lhe vislumbrei, à primeira vista, nenhuma tatuagem, mas ao auscultá-lo fiquei surpreendido. No peitoral esquerdo também tinha uma! Afinal, este pessoal, mesmo os mais habilitados, também têm os mesmos comportamentos. Não resisti e perguntei-lhe o porquê do "três de copas". - São as minhas três mulheres. Olhei para ele e, atendendo a que era ainda novo, a filha mais nova tinha sete anos, pensei, como é que iria resolver o problema se tivesse ainda mais um amor. Não é que fosse difícil desenhar o "quatro de copas", mas o que é que iria fazer ao "três de copas"? Não lhe perguntei. 

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

"A Guerra do Roque"...

Li em tempos uma história interessante numa obra de John Steinbeck. O capítulo intitulava-se "A Grande Guerra do Roque". Acabei por saber que o "roque" é uma forma complicada do jogo de críquete, que para mim já é suficientemente esquisito. Steinbeck diz que este tipo de jogo desenvolve o carácter. Antecipei de imediato ironia que se veio a comprovar no final do capítulo. Tudo começou numa cidade com graves complicações. Quando foi fundada muitos velhos refugiaram-se ali, sem compreenderem do que é que fugiam. Tornou-se numa cidade "rabugenta" em que tudo corria mal. Foi então que um filantropo decidiu oferecer à cidade dois campos de "roque". Como qualquer desporto tem de haver adeptos, necessidade de competição, de luta, e atribuição de prémios para o vencedor. Os cidadãos tinham mais de setenta anos. Uns pertenciam aos Azuis e outros aos Verdes. A rivalidade começou a crescer de tal forma que deixaram de se falar e ser proibido casamentos entre Azuis e Verdes. Passou-se de imediato para a política, e na igreja os Azuis não se misturavam com os Verdes. Houve quem propusesse a criação de igrejas separadas. Tudo girava à volta da rivalidade clubística, que se transformou em rivalidade política e em segregação religiosa e, claro, com o tempo, os idosos chegaram a incendiar as casas de uns e de outros, a cometer atentados e a provocar mortes. O filantropo via tudo aquilo com muita tristeza. Um dia, encomendou um buldózer e mandou destruir os dois campos de "roque". Em seguida abandonou a cidade para sempre. Foi o que fez de melhor. Os Azuis e os Verdes, desde então, reúnem-se naquele dia e queimam uma esfinge do filantropo depois de o enforcar. Este comportamento fez-me lembrar a queima do Judas. Azuis e Verdes unem-se de forma a exteriorizar a sua violência e intolerância na figura e na lembrança de um filósofo que só queria o bem-estar dos seus concidadãos. Dizem os entendidos que a tal variante de críquete desenvolve o carácter. Pois! Nota-se. Há histórias que não sendo verdadeiras assentam como uma luva à realidade. Mesmo assim, prefiro, de longe, as figuras dos Judas que outrora queimavam na minha terra. Todos se uniam em torno da imagem, gostassem ou não da personagem, mas depressa esqueciam-se desta união. Voltavam aos copos, o que também era uma outra forma de união. Neste país, sem rei e sem roque, embora, aparentemente, nos queiram convencer do contrário, a radicalização começa a surgir com alguma veemência. Um problema dos diabos, ou melhor, um problema típico dos homens (neste conceito, gramaticalmente com tendência para o neutro, homens, estão também incluídas as mulheres) …

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Mondrongo

Gosto de navegar no tempo. Sou um marinheiro de mares da saudade. Adoro partilhar vivências, sentimentos, emoções e, sobretudo, saborear recordações. Navegar no tempo é esquecer as más memórias. Poderão dizer, mas não as esquecemos! Está bem, não faz mal, mas é sempre possível retocá-las com cores menos dolorosas, desenhando traços finos de saudade. Navegar no tempo é transformar a realidade do passado no encanto do mundo da fantasia. São momentos deliciosos quando conseguimos misturar tudo, imagens dinâmicas, coloridas e quentes, com desejos ardentes, sensações estranhas, cheiros deliciosos, emoções perdidas e vontades achadas. O tempo mistura tudo, sem respeito por ele próprio, criando novas realidades que só ele sabe. O tempo faz esquecer a realidade dos momentos do passado, confundindo-nos propositadamente para que a saudade tenha outro sabor e cheiro. O tempo consegue o impossível que é recriar situações temporais distintas como se tivessem ocorrido no mesmo momento. Vale a pena viver a fantasia da realidade, uma fonte de prazer a que não devemos fugir. 

- Então, ainda cá estamos?

- É por pouco tempo, senhor doutor. Deve ser a última vez que nos vimos.

- Ó homem não diga isso.

- Digo, digo, eu é que sei.

- Mas não está a dar a côdea, pois não? O miolo ainda funciona. Um sorriso alargado, com alguma baba a cair do canto da boca a testemunhar o ocorrido há cerca de trinta anos, fez-me recordar o passar do tempo.

- Afinal, envelhecemos juntos. Disse-lhe meio espantado.

- Pois é, mas ainda vai sentir saudades minhas. Vai ver que vai. E bate com o punho no peito, dando a entender a fragilidade crescente do corpo e da alma a querer libertar-se.

- Vá, deixe-se disso, vamos daí. Suba. Subiu com muita dificuldade.

- Estou um mondrongo.

- Qual quê! Vamos conversar um pouco. E assim foi, com alguma provocação à mistura, ou melhor, com muita, as lembranças iam-lhe saindo a uma velocidade razoável, tendo, por vezes, misturado momentos, prazeres e aventuras, algumas mesmo loucas, quase que diria irreais. Uma verdadeira caldeirada de sabores, experiências, vivências e sentimentos que rapidamente despertaram velhas emoções fazendo com que o tempo andasse num corrupio louco, saltando anos, não interessa quantos e nem como, o que interessa foi recordar o passado através de tempos diferentes que eram e são sempre seus, e alguns também meus. Uma alegria efusiva, acompanhada de sonoros risos, inundava-lhe a fácies conseguindo repuxar os beiços descaídos, num interessante rejuvenescer em que o futuro conseguia mergulhar no seu passado.

Uma delícia, um alívio, sentir a vontade louca de recordar o que aconteceu como se o presente necessitasse desse belo e estranho alimento. O tempo da conversa não passou, foi apenas saboreado como se tratasse de um delicado copo de vinho. Mais uma memória construída para ser recordada amanhã. Amanhã? Não, ainda hoje, enquanto é tempo. 

Não sou ainda um mondrongo, mas o meu amigo Pereira tinha razão, sim, tenho muitas saudades dele. Se tenho, meu Deus.

O Estado do Governo

Não é injusto dizer que o governo socialista tem pecado por acção e omissão, privilegiando uma política de um “dolce fare niente” que nem declarações espectaculares, promessa de aumento histórico das pensões, repto aos empresários para um aumento de 20% nos salários ou o aparatoso anúncio de recusar as restrições europeias do gás, indigna falta de solidariedade para países que mais nos têm apoiado, conseguem já disfarçar. Numa soberana indiferença, e quando esses países vão reabrindo as centrais a carvão, o governo português mantém as nossas encerradas, pressionando as importações, 1000 milhões de euros no primeiro semestre do ano, as mais elevadas de sempre. Oxalá o torpor governativo não leve a eventuais apagões no inverno, já que a importação de energia não ficará imune à pressão das necessidades dos países mais dependentes do gás russo. Um torpor tão enraizado que a primeira medida governamental de carácter estruturante, a localização do novo aeroporto, se despenhou logo no take-off, revertida em menos de 24 horas. Em doce sonolência, o Governo não mexeu uma palha quando há muito se anunciavam rupturas graves nas urgências hospitalares; instalada a crise, logo se apressou a anunciar oportunísticas medidas ad-hoc, planos de contingência, sinal de que não tinha nenhum, comissões de acompanhamento, sinal de que não acompanhava nada, abertura a negociações com o sector privado, contrariando a Lei de Bases de Saúde hostil a qualquer colaboração, ou novo Estatuto do SNS, como se um regulamento alterasse o absurdo da Lei que visa servir. O Governo criou o Banco Português de Fomento para promover a modernização das empresas, o apoio ao PRR e o desenvolvimento do país, mas só agora reparou que não encontrava Presidente com perfil adequado, à falta de um estatuto remuneratório similar ao dos bancos equiparáveis. Natural que o Banco não funcione em moldes aceitáveis, é a sua Comissão de Auditoria que o diz. E ao ritmo de cada protesto de degradação dos serviços públicos, aumenta as dotações, enquanto a produtividade baixa, sinal de um governo adormecido que dá dinheiro sem cuidar da gestão. Adormecido, e porventura já sonhando com o anúncio do ensaio da semana de 4 dias, girândola de fogo de vista tão de agrado nas festas de verão. Também lhe chamam fogo de lágrimas… https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/o-estado-do-governo--15059987.html

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Manhã de agosto…

Manhã de agosto. Há muito que não saboreava o prazer de não fazer nada. Sensação estranha e ao mesmo tempo voluptuosa. Alterei as rotinas e acabei por ir até à esplanada de um café de bairro. Café bom, sombra, vida simples, uma ou outra pessoa a entrar e a sair. Um senhor sentado, com um frenesim sem sentido, raspava um boletim à procura da sorte. Suspirou fundo, tinha acabado de ganhar cem euros. Entregou o papelucho. Em seguida, o dono do café enfiou-lhe nas mãos cinco notas de vinte euros. Colocou-as com muito cuidado na carteira, ao mesmo tempo que dizia, “Vou para casa, a sorte do meu dia acabou aqui”. Esfregou o punho direito, o que é perfeitamente natural neste tipo de jogadores, e foi à vida. Fiquei mais um pouco, com o meu cão, a pensar na sorte de poder ter um dia diferente, sem fazer nada de especial. 

Vou dar um passeio após o almoço  com os meus companheiros para saborear o prazer e a alegria do sol, beber a frescura da margem de um rio, inalar a brisa de uma paz desejada e embriagar-me com o aroma da vida espraiando-se sem esforço graças ao “punho do destino”...

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Uma memória...

Li várias obras de Tomás da Fonseca. Recordo ter lido “Na Cova dos Leões - Fátima e Cartas ao Cardeal Cerejeira”. Foi há muitos anos. O meu pai viu o livro e pediu-me para o ler. Chegou a conhecê-lo pessoalmente. Tomás da Fonseca era uma conhecida personalidade antirregime salazarista. A partir daqui contou-me mais uma história. A sua memória era fabulosa, nunca se esquecia de nada, a ponto de a “utilizar” quando tinha necessidade de recordar algum nome ou acontecimento. O meu avô tinha convivido com tão importante figura republicana. Depois foi um salto para contar um episódio que sabia ter ocorrido, embora sem detalhes, porque ninguém na família queria falar sobre ele. Um dia, o meu avô, que tinha um café, foi detido durante mais de setenta e duas horas pela polícia política por causa de um exemplar do jornal Avante que tinha sido retirado de um lote de vinte e cinco deixado no seu estabelecimento. Temeroso das consequências apressou-se a destruir o lote lançando-o no fogo. Quem tirou o exemplar acabou por ser interrogado pela polícia por causa de um acontecimento relacionado com a ida de Salazar à missa na igreja de Santa Comba. À saída vociferou em voz alta, “Alguém sabe quem foi o maior ladrão que Portugal já teve?”. É fácil de ver que quem andava perto (e andavam muitos) acabaram por fazer uma visita à casa do tal senhor. Perguntaram-lhe o que é que ele queria dizer com a tal frase. Quem era o ladrão? - Então não sabem quem foi? Foi o João Brandão. Disse com ironia, como é óbvio. Entretanto, na busca, encontraram o tal exemplar do Avante. Obrigaram-no a dizer onde tinha adquirido. Aqui já não foi irónico, respondeu de imediato. - No café do Manel Cardoso. A seguir apanharam o meu avô e levaram-no, sujeitando-o a torturas durante setenta e duas horas, sempre em pé. O mais curioso é que o chefe da brigada era seu conhecido a quem tinha dado de comer, e à família, na Pampilhosa. Perguntou-lhe se não era o Carvalho. Como seria de esperar não lhe respondeu e de arma em punho foi interrogado. Como encontraram o jornal República, de que era assinante, o massacre continuou. A sua situação em termos profissionais foi por água abaixo. Graças à relação de amizade com o então ministro do interior, natural de Santa Comba, conseguiu evitar males maiores. Acabei por conhecer esta história sobre o meu avô devido à jocosidade de um cidadão que não se coibiu de o denunciar, sabendo que não tinha culpa nenhuma, à primeira investida da polícia política.

Gostava tanto que tivesse sido o meu avô a contar esta história, e logo ele que era um contador exímio. Sei que foi um episódio que o marcou muito. Nunca contou, mas eu conto.