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segunda-feira, 16 de julho de 2018

"Histórias"...

Escrever uma história é o mesmo que entrar num templo para orar, não a um deus ou seu representante, mas sim à essência da natureza humana.
Somos filhos de histórias, alimentamo-nos delas a todo o momento, adormecemos sob o seu cantar e sonhamos com elas ao acordar.
O passado é a principal arca. Ficam guardadas na memória, escondidas nas gavetas do tempo, à espera de acordar. Quando acontece, misturam-se umas com as outras, correndo à procura do sol. Acordam estremunhadas e desejosas de voltarem a sentir os mesmos perfumes e emoções, adocicando as dolorosas e tristes e fantasiando as amorosas e doces. A memória tem essa propriedade.
Escrever uma história, e dá-la a ler, é como se fosse uma varinha mágica. Desperta de imediato recordações e vivências muito semelhantes. Emergem no coração do leitor, libertando as mais diversas sensações, forma muito pessoal de rezar. Uma história pode comparar-se ao bastão de Moisés, que fez brotar água na travessia do deserto, mata a sede, alivia o sofrimento, desperta o amor e brinca às escondidas com a esperança do novo dia.

domingo, 15 de julho de 2018

"Cegueira, miséria e morte"...

Domingo de manhã. Movimento adequado a um dia sem trabalho. Hora do almoço. No regresso reparei numa rapariga, jovem, limpa e vestida de cor, a descer a íngreme ladeira com a sua bengala. Procurava obstáculos a fim de saber se podia andar. A bengala tinha um movimento próprio ao mesmo tempo que a sua cabeça oscilava em sentido contrário à procura de sons. Subitamente, começou a apalpar a parede até encontrar duas cavidades. Enfiou a mão na primeira. Foi suficiente para, em ângulo reto, rodar para a direita. Tinha as suas referências, as quais foram postas à prova na travessia da rua e na subida para o passeio. Andou sempre, auscultando os obstáculos ou os pontos já conhecidos, como os postos de iluminação. Encontrou a pequena escadaria, em forma de L, descendo-a com imenso cuidado e segurança. A jovem vestida de cor, revelava elegância e dignidade, desafiando com sabedoria quaisquer obstáculos que se lhe atravessavam no caminho. Presenciei esta cena até a perder de vista. Cega, mas digna. Cega, mas com vontade de ultrapassar as barreiras da vida.
Ao descer com o carro, deparei-me com um sem-abrigo deitado de bruços numa escadaria. Momentos antes, a cega passou ao seu lado com toda a clarividência e vontade de vencer, mas não o viu. O sem-abrigo também não deu conta da sua passagem. Eu sim, vi-os.
Os dois surpreenderam-me. Enquanto a jovem cega, vestida de cor, ilustrava a vontade de viver e de ver o que a vida tem para lhe oferecer, o miserável, descalço, deitado nas escadas ao sol do meio-dia, oferecia a faceta chocante e indigna da vida.
Dois seres da minha espécie, num perfeito contraste, de um lado a dignidade, do outro a miséria. E eu no meio dos dois, sem ser visto, a pensar na morte de um velho amigo e sem entender nada da vida. Cegueira, miséria e morte.
Vejo e não sou visto. Mas não sou só eu...

quinta-feira, 12 de julho de 2018

"Dois grãos de areia"...

Podia escrever muitas histórias. O pior é escolher entre os grãos de areia que se escapam da mão. Ficam sempre alguns agarrados à palma, colados pelo suor ou pelo medo de deixarem de existir. Olho. Ficaram dois, um, de cor indefinida, a tombar para o cinzento, forma irregular, provocou-me mal-estar e revolta. Fez-me lembrar a atitude da trabalhadora quando lhe perguntei se no último ano tinha tido algum problema de saúde. Respondeu-me de forma agressiva e humilhante. Não teve nada e nem tinha nada a dizer. Via-se perfeitamente que houve algo. Repeti a pergunta com serenidade e o máximo de diplomacia. Os seus olhos lançaram faíscas de desprezo. Comecei a sentir uma dor na alma e a boca a ficar seca. Não me respondeu, mas perguntou com uma soberba que nunca tinha visto: - Como é que estão as análises? Disse com frieza os resultados. O exame continuou sem palavras, apenas com os gestos inerentes ao exame físico. No final, tomou conhecimento do resultado, apta para trabalhar. Assinou a ficha de aptidão e saiu sem se despedir, manifestando um patético desprezo. Já vi, ouvi e vivi muitas coisas ao longo da minha vida profissional, mas tamanho desprezo e falta de educação foi a primeira vez.
Alguns membros da minha espécie são singulares e imprevisíveis. Esta senhora é um caso desses.
O outro grão de areia era diferente, suave, brilhante, parecia um círculo de ouro a querer aquecer a minha alma. Fez-me lembrar o pelo do meu cão. O pelo e o coração! Sorri. O meu cão é meigo, gosta de brincar e, sobretudo, de agradecer. Também adoece, ou tem algum transtorno de quando em vez. Quando acontece, aproxima-se e começa a lamber-me sem parar. Olha-me e volta a lamber como se estivesse a pedir ajuda. Quando a situação passa, suspira, aninha-se e faz as suas habituais lambidelas, mais espaçadas e mais lentas. Sabe quem lhe faz bem e agradece à sua maneira.
Que diferença entre estes dois seres, a querer recordar os dois pequenos grãos, um dourado e o outro cinzento, que ficaram agarrados na palma da minha mão.
Prefiro o primeiro, prefiro o meu cão.

Teatro da Geringonça- Pantomina de rua em dez episódios

1.Até Junho, a redução da área ardida é de 71% da média dos últimos dez anos,referiu o Ministro Eduardo Cabrita no Parlamento. Tem toda a razão na empáfia: uma primavera fresca e chuvosa era uma das políticas definidas para o combate aos incêndios. Ter concretizado tal medida é obra! Aplausos da geral.
2. Fixou o Governo para 2018 um aumento significativo do investimento público. Mas a execução orçamental, diz a UTAO, tem sido tão baixa que, excluindo a despesa com concessões, mero pagamento de obra já feita, o investimento realizado até Maio desceu, em vez de subir, com a agravante de, no período homólogo passado, ter sido insignificativo.
Erro,por certo, da UTAO, que palavra orçamentada é palavra honrada. Com intermitência, claro está: a honra governamental vai sofrendo cortes e cativações ao ritmo das que faz no orçamento. Aclamação da plateia para uma honra assim volátil, símbolo do novo tempo.
3. Mas, ao contrário do investimento, a carga fiscal e a dívida pública portuguesa subiram às maiores alturas de sempre. Palmas para o Governo que a subir dívida e impostos é mesmo bom, e melhor ainda a negar que tal aconteça. 
Os outros sete episódios podem ser vistos no meu artigo no i, O Bananal, Pantomina de rua em dez episódios 

terça-feira, 10 de julho de 2018

Pela nossa rica saúde...



Ouve-se o senhor ministro da saúde e sente-se que estamos perante um homem desorientado. Está ministro mas é médico. Em especial por causa dessa condição, não fora o comprovado excesso de lealdade política para com quem o ministeriou e porventura já teria confessado publicamente o arrependimento por aquele momento infeliz em que, perante o País, se considerou Centeno.
Fazia bem à saúde, também à sua, se cedesse o lugar a quem possuísse condições para acudir ao descalabro que dia a dia se acentua.

“Pensamento “...

Ouvi uma jovem adolescente, de olhar atormentado por causa da morte anunciada da mãe, a questionar: - Porque é que as pessoas nascem e morrem? Uma pergunta que muitos fizeram e continuam a fazer. Há quem responda, "não sei", e há quem diga que é "vontade de Deus". A mãe entrou, ouviu e disse-lhe: - Nascemos para semear pensamentos. Somos feitos de tempo, a terra ideal para semear o pensamento...

segunda-feira, 9 de julho de 2018

"Salvem todos"...

Tenho que confessar, não consigo deixar de pensar nos jovens aprisionados na caverna tailandesa. Estou permanentemente à procura de notícias e evolução dos acontecimentos. Tantas pessoas preocupadas com os jovens. Uma perfeita manifestação de humanidade. O envolvimento e a necessidade de ajudar os nossos semelhantes, independentemente de tudo, constitui a única e gratificante medida da nossa condição humana. Estas atitudes, e exemplos, são uma garantia que me obriga a acreditar na minha espécie.
Eu preciso de acreditar. Não invoco Deus por motivos óbvios. Invoco e imploro que os representantes da minha espécie façam o que tenham a fazer para honrar e dignificar a nossa condição.
Salvem todos, porque ao salvá-los também ajudam a salvar cada um de nós.

domingo, 8 de julho de 2018

"Insultos"....


O anúncio da morte de pessoas conhecidas, e chegadas, perturba-me como a qualquer um. Torna-se mais doloroso porque houve, e há, partilhas de dias, de momentos, cruzamentos de vidas e intimidades. Não fico surpreendido com os efeitos, devastadores e diabólicos. Emergem sempre as mesmas imagens, as mais relevantes, as que nos definem e a que nos "siamesam".
Por mais voltas que o mudo dê nunca conseguirei entender muitos fenómenos da vida, embora os aceite com a mais natural das fatalidades. Dói e exige grande esforço para as viver. Nunca sabemos o que nos espera, mas o que acontece aos outros também acontece a nós. A vida tem um enorme defeito, ofende qualquer um, a todo o momento, com agressividade e "maldade". Maldade está entre aspas, porque não podemos atribuir à natureza tal atributo. Não devemos esquecer que a natureza ignora completamente os seres humanos. Sendo assim, todos os acontecimentos que nos marcam, e que envolvem sofrimento e morte de seres humanos, são mais do que perturbadores, são uma "ofensa" à nossa pretensiosa "origem divina". Eu, que não me pauto por esta corrente, fico tolhido no pensamento e ferido na alma.
Desapareceu um familiar, mais nova do que eu, sorriso lindo, mulher cheia de fé e de esperança. Quando soube do seu mal, antevi o que iria acontecer. Recordo o dia em que ao entrar no quarto da minha mãe, gravemente doente e alheia do mundo, a vi debruçada sobre ela. Fazia-lhe festas e sussurrava-lhe algo aos ouvidos de uma mente surda. Não disse nada. Não interrompi aquele estranho diálogo. Há diálogos em que não devemos intrometer-nos. De repente olhou para a porta e viu-me. Sorriu à sua maneira. Momento inesquecível. Mal sabíamos que menos de meia dúzia de anos depois iria por acabar de "beber" as dores do sofrimento e a humilhação de uma morte precoce.
Mais novo do que eu, também. Chegou ao país era ainda bebé, cinco, seis meses. Grande, cabeçudo e praticamente sem cabelo. No quarto do hotel, a mãe deu-me um biberão de leite para as mãos. - Podes dar-lhe o leitinho? Perguntou. Nunca tinha pegado num biberão. Do alto dos meus onze anos, espigadote, fiz o que tinha a fazer, como se tivesse feito tal coisa toda a vida. Coloquei-o em posição e enfiei-lhe na boca a tetina. Fiz os cálculos à inclinação do biberão em relação ao corpo e, depois, zás! O puto mamou com uma sofreguidão típica de quem estava esfomeado. - Ó tia. Já bebeu tudo. Parece que ainda bebia mais. Preparou mais um que seguiu o caminho do primeiro. Em seguida, arrotou que nem um abade, bolsando. Esta parte não foi muito agradável, quanto ao arroto assustei-me. Não estava à espera de tamanho ruído. Depois, ao longo da vida fui sempre à frente. Acompanhei o seu crescimento com as peripécias inerentes a qualquer ser humano, algo de pessoal e intransmissível. Agora, aguardo o desfecho da natureza, fria, cruel e indiferente à condição humana,
Dói. O que ainda dói mais é que não vai parar por aqui, até que um dia passe a ser eu a provocar sofrimento nos outros, e despedir-me da indiferença de uma natureza cheia de "atributos".
Atributos? Não, insultos...

quinta-feira, 5 de julho de 2018

"Géiseres da vida"...



Todos os dias morrem pessoas. Desconheço a maioria, ou, para ser mais rigoroso, a quase totalidade. Conheço um ou outro, por motivos diferentes. Convivi com alguns de forma direta e intensa. De qualquer forma, foram suficientemente marcantes para provocar efeitos na minha maneira de ser e de estar. Assim que tenho conhecimento do único denominador comum da humanidade, a morte, explode de imediato as lembranças. A explosão reduz-se a um, dois, ou, no máximo, três apontamentos. Marcas que são ao mesmo tempo uma forma de homenagear quem participou na minha formação.
Poderia citar inúmeros casos, verdadeiros géiseres da vida despertados pela morte. 

Era estudante quando o senhor deu uma aula a convite do professor da cadeira. Recordo muito bem, foi sobre a importância da genética na patologia humana. Sorria, comentava, gesticulava e lançava apartes que ajudaram a sedimentar os conhecimentos. Um pouco sui generis, diga-se de passagem. Nesse ano, após o café no bar da velha faculdade, comentou alguns acontecimentos que tinha vivido em França. No corredor, as aulas iam recomeçar, continuou a falar sobre a verticalidade do caráter do ser humano. Utilizou como exemplo um primeiro-ministro francês (por duas vezes), George Clemenceau. O seu sentido de honra levou-o a pedir que quando morresse fosse enterrado de "pé". "Um ser vertical em todos os sentidos", comentou. Ainda não tinha nascido o "Dia da Liberdade". Fiquei de boca aberta. Interiormente, pensei, faz sentido. Estes dois apontamentos surgiram ato contínuo logo que tive conhecimento do seu passamento.
Outro géiser foi despertado por um colega mais velho. Simples, meigo, nunca o vi irritado, respeitador, trabalhador, sem ambições de carreira, exceto fazer o trabalho bem feito com dedicação, ternura, profissionalismo e respeito pelo próximo. Um dia, ao sairmos do velho hospital, reparei que ia com um cigarro a bailar na mão, ao mesmo tempo que também dançava. Fiquei na dúvida se era ele que dançava com o cigarro ou se era este que marcava o ritmo. Uma dança cheia de alegria e de imenso prazer. Sorri. Mais tarde, já tinha abandonado a carreira hospitalar, telefonou-me para comunicar a morte de uma tia. Fomos, os dois, ao velório. Tinha esta característica, partilhar todos os momentos dos doentes, inclusive a própria morte. Médico do corpo e da alma. Aprendi muito com ele, sobretudo a humildade que é a melhor expressão de ascender na carreira da vida. O maldito cigarro que tanto apreciava, e eu também, levou-o à certa. Eu tinha parado nessa altura, mas ele não. Quando li a notícia do seu óbito veio à minha mente aquela dança cheia de prazer e de alegria, entre ele e o cigarro, e a forma como sempre encarou a vida dos doentes e a morte, com muito respeito.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

"Gente simples e mortal"...

Escreve-se imenso sobre as ditas figuras públicas. Penso que é excessivo, não porque não mereçam, mas por provocar conflitualidades e indisposições. Para os próprios isso não deve ser coisa de maior, preferem dar pouca importância, ou, até, ignorar as “atenções”, a relembrar aquele estranho princípio com o qual nunca concordei, “não interessa que falem mal de mim, desde que falem”. Não sei se esta afirmação terá algum valor.
Compreendo que temos de falar dos outros, sobretudo os que têm responsabilidades. Há quem aceite tudo o que fazem e dizem, e há os que nem os podem ver nem mesmo com “molho de tomate”. Aqui está outra criação nacional. “O molho de tomate” é utilizado para confecionar muitos alimentos. Deve ser verdade atendendo às carradas de frascos e mais frascos que a minha empregada compra todas as semanas.
Voltando à vaca fria, mais um dito precioso tipo gastronómico, e logo eu que não aprecio carnes frias, existe entre aqueles dois extremos, os aduladores e os predadores, um vastíssimo conjunto de pessoas com sentimentos e opiniões diversas para todos os gostos.
Algumas pessoas babam-se, é o termo correto, para tocar noutras ou para tirar fotografias, as quais irão ser a “prova provada” da sua importância, nestes casos por contágio direto ou por terem respirado os mesmos miasmas. Pessoalmente admiro mais os putos que colecionam cromos da bola.
As pessoas têm necessidade de ser reconhecidas e/ou admiradas. Acho muito bem, assim como é positivo que os seus admiradores ou adeptos possam apreender comportamentos, princípios ou estilos de vida que lhes permitam ser melhores e mais “humanos”… Nesta base, considero útil que os “toquem”, que “recolham” as suas assinaturas ou “tirem” as famigeradas “selfies”. No entanto, reparo que muitas dessas individualidades não preenchem muitos dos requisitos e têm comportamentos ou maneiras que não sei se serão ou não adequados à formação das pessoas. Sinceramente, nunca tive esta espécie de apetite, prefiro pessoas pouco conhecidas ou mesmo visceralmente desconhecidas, mas que encerram tesouros do tamanho do mundo. Não sei se é por isto ou não que sou amiúde “atacado pelo bichinho” de contar histórias, a maioria das quais tiveram, ou têm, como protagonistas “gente simples e mortal”…

domingo, 1 de julho de 2018

"Os dias"...

Os dias são como os voos das borboletas, simples, belos, desajeitados, sem sentido, voando como se transportassem a sina da vida. São uma espécie de piscar de olhos involuntário, simples, rápido e impercetível. Os olhos sentem-se protegidos evitando o incómodo de ver e de sentir o que se faz e o que corre em redor. 
O café era saboroso. O despertar do gozo dos sentidos empurrou-me para a visão do mundo que se perfilava em frente. Conversas triviais, expressões de espanto, trocas de confidências, e trejeitos educados de insultos, emergiam num ambiente cultural. O ritmo de lazer, e do deixar fazer, imperavam graciosa e cinicamente na pequena esfera envolvente. O tempo fazia o seu papel, bocejava, indiferente, perante o trivial espetáculo, à espera de os ver partir para outras andanças, para a missa, para o passeio matinal, para o exercício ou para o almoço que se avizinhava. O tempo aborrecia-se, mas eu não. Via, fingia que ouvia, e pensava na vulgaridade humana. Tão vulgar como um candeeiros de petróleo vazio. A vaidade, enxertada em sensaboria, parecia querer vingar-se do desprezo e da inutilidade de mais um dia. A chávena esvaziou-se, os sentidos despertaram e as leituras dos jornais tonificaram e amplificaram a miséria e a inutilidade de muitas vidas, perdidas, escondidas ou achadas por esse mundo fora. O melhor da vida, além dos desajeitados voos das borboletas, é o esquecimento temperado com adoçante. Uma mania como qualquer outra.
A imagem matinal de um vulgar dia desperta coisas. Coisas banais.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

"Aqui ao lado"...

Roubar bebés às mães, num conluio ideológico, e até com interesses financeiros, informando as mães de que os filhos morreram à nascença, constitui um crime de lesa-majestade. Iniciado no período pós-guerra civil espanholacontinuou durante o franquismo e até depois, em plena democracia. Calcula-se que foram mais de 300.000 as crianças roubadas às mães com a ajuda de médicos, de enfermeiras e de muitas pessoas ligadas a ordens religiosas. Uma aliança contranatura, que não só ofende os princípios sagrados das profissões da saúde, mas chega a humilhar de forma obscena os "princípios" divinos por parte de quem fez votos de consagração a Deus. 
Nunca consegui entender as razões deste tipo de comportamento. Entender, talvez consiga, mas não consigo aceitá-las. Roubar um filho é matar a alma de qualquer mãe.  
Neste momento, um médico espanhol, de oitenta e cinco anos, Eduardo Vela, está a ser julgado por um caso ocorrido há cinquenta anos em que foi protagonista de um roubo de uma menina. Arrisca onze anos de prisão, segundo li. Que seja condenado, Não merece perdão ou compaixão. Nem ele nem ninguém, os que foram capazes de violar as almas de tantas e tantas mães.  
Mataram o Filho a Maria, mas a estas mães roubaram os seus bebés, sem nunca terem sentido o cheiro, choro, o calor e o amor de um filho. 
Melhor sorte teve a mãe de Cristo... 

"São João"...

Consigo recordar com facilidade algumas histórias e historietas da noite de São João. Não sei qual a que devo escolher, se a do meu tio Manel, a quem ajudei a construir um balão durante a tarde em casa da minha avó, e que à noite, na ponte da praça, ardeu a pouco mais de três metros do solo – chorei ranho e baba -, se os saltos que um dia dei sobre uma fogueira em que tropecei e me chamusquei. Nada de especial. 
A noite para as minhas bandas esteve “solenemente” silenciosa. Consegui ouvir ao longe um latido ou outro, talvez algum cão saudoso do São João.
Fui a uma vitrina e tirei o único São João que anda por aqui. Gosto deste São João. Tosco, foi feito por um pintor de construção civil que conheci e cheguei a tratar há muitos anos. Gostava de fazer santos. Este foi-me oferecido pelos familiares. Tenho muito apreço e admiração pelos santeiros. Este São João tem algo de especial. Deve ter sido feito com muito amor e devoção. Foi o “Borrabotas” que o executou. Os apodos na minha terra não são considerados como um insulto e nem sinónimo de humilhação, talvez alguma forma de “consagração”.
Conta-se a história de que um dia, no decurso de uma procissão, em que todos se ajoelhavam à passagem dos santos, o “Borrabotas” não se ajoelhou perante um. Foi o único. Ficaram a olhar surpreendidos para a situação. Depois da passagem perguntaram-lhe por que razão não se ajoelhou à passagem daquele santo. – Era o que mais faltava! Fui eu que o fiz. Ajoelhar-me ao gajo? Era o que mais me faltava. Claro que não foi este. De qualquer modo coloco aqui a sua imagem, significado, beleza e o sentimento de um criador apreciador do São João.
Este é o meu São João que me faz recordar o passado com alguma emoção.

“A sopa”...

A noite quente convida-me a procurar algo de fresco. Uma bebida? Não. Janela aberta? Não ajuda grande coisa. Ventoinha? Não gosto de correntes de ar. Então, como fazer? Simples. Viajar no tempo, montado na crista do calor, e ver imagens de um passado que me marcou. Coisas simples. Tão simples que é quase impossível reproduzi-las. Mas vou tentar, nem que seja para acalmar o ardor de uma alma que se sente febril. Não deve ser do calor de uma noite de verão, apenas a antevisão do futuro que me coube em sorte. Não o culpo, não posso e nem me atrevo. Aceito tudo, ou quase tudo, menos o infortúnio dos desgraçados sem sorte. Conheci imensos, tantos e todos desconhecidos. Seres ignorados pelos deuses e desprezados pelos semelhantes. Recordo um caso, talvez por envolver cães. O meu é um sortudo do caraças e desconhece o significado de "vida de cão!". Ainda bem. Já disse em tom de brincadeira, mesmo que considerem ser uma blasfémia ou parvoíce, que se tivesse de voltar a este mundo gostaria de ser como o meu cão. Julgo não ser único e muito menos original. Li ou ouvi, também não interessa, que o nosso nobel da literatura teria dito algo semelhante.
Voltando à viagem no tempo, e à necessidade de me refrescar das queimaduras da vida, recordo uma velha pedinte. Magra, alta, encurvada, vestida de trapos, com um lenço na cabeça, que teria sido branco à nascença, cambaleante, com dificuldades em exprimir-se, babando-se profusamente, deixando ver a saliva espessa e branca a cair pelos cantos da boca. Batia inexoravelmente à porta da minha casa, pela hora do almoço, todas as quartas-feiras. Coincidia com o intervalo que tinha para almoçar quando andava na primária. Batia com os nós dos dedos. O som era diferente, pausado e doloroso. Digo doloroso, porque um corpo esfomeado e repleto de ossos a quererem furar a pele deveria provocar dores. Parava de comer e esperava pelo segundo toque. Levantava-me em seguida, sem pedir autorização, o que era uma falta de educação, e abria a porta. Nunca entendi o que dizia, mas ficava impressionado com o aspeto andrajoso, a magreza e a baba. Corria logo para a cozinha avisando a minha mãe que a "pobre das quartas" já estava à porta. Sem dizer nada levava-lhe a sopa bem avantajada, numa espécie de caçoila, e um bom naco de pão devidamente recheado. Comia no pequeno pátio coberto que havia à entrada. Vi-a a comer a sopa com enorme satisfação. Eu, que na altura não apreciava sopa, ficava admirado. Nunca fiz perguntas, mas estava repleto delas. Agradecia sempre sem perceber o que dizia. Os olhos brilhavam imenso, tanto que até hoje não consegui ver algo semelhante. Mas não era só a baba, a magreza ou os olhos que me marcaram, eram sobretudo os cães. Havia imensos na rua e nas redondezas. Muitos, para não dizer quase todos, andavam esfomeados, ladravam e até chegavam a ser ameaçadores. Tinha muito medo deles. Às quartas-feiras ocorria um dos mais estranhos fenómenos que presenciei até hoje. À passagem da mendiga da baba, os cães metiam o rabo entre as pernas, baixavam os focinhos e deixavam de ladrar. Parecia que a respeitavam. A pedinte passava entre eles sem qualquer receio. Àquela hora, os miseráveis e tinhosos cães deixavam de ladrar perante a miséria humana.
Todas as quartas-feiras a cena repetia-se. Depois desapareceu. Esperei muito tempo desejoso de ouvir aquele toque estranho de ossos na porta da minha casa sem ter de ouvir os latidos dos cães.
Recordo este episódio ao saborear a sopa.
Gosto de sopa.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Buscas e mais buscas...

Buscas e mais buscas, todos os dias e a toda a hora. Houvesse acusações e justiça rápida e desnecessário se tornaria perder tempo em tanto buscar. Até para demonstrar que o objectivo da justiça não se fica pelo buscar. 
Assim, todos os buscados vão prosseguindo o seu caminho, sempre, sempre, colaborando com a justiça.  Como naturalmente  lhes convém.

terça-feira, 26 de junho de 2018

"Humilhação"...

Posso suportar imensas coisas, mas não consigo ficar indiferente à humilhação da condição humana. Acredito na justiça porque fui educado nesse sentido desde menino. Não consigo compreender a justiça quando se torna no braço armado da antítese do que deveria ser, arma de arremesso, de ofensa, de morte e de humilhação do meu semelhante. Escorrem lágrimas no meu rosto quando vejo o que a "justiça" pode fazer a um vulgar ser humano, tão vulgar e banal como eu. Sinto emergir uma revolta envolta num uivar capaz de assustar a mais perfeita e temerosa alcateia. Não aceito, não compreendo, e ofende-me quando a "justiça" se torna no símbolo de um cruel crime. 
Passei o dia a ruminar com dor uma notícia a somar a muitas semelhantes que venho "colecionando" ao longo da vida. Em El Salvador "libertaram uma mulher condenada a 25 anos de prisão pelo crime de homicídio qualificado, depois de sofrer um aborto espontâneo em 2000". Sei que há países que se pautam por condutas horríveis, mais do que anti-humanas, mesmo antidivinas para quem acredita nesses seres invisíveis que deveriam ser fonte de amor e de caridade. Mas não, "transformam" os homens em seres cruéis e indignos da verdadeira condição humana. Tantos exemplos, tantas tragédias, tanta humilhação a ofender o que de mais nobre possa existir em qualquer um de nós. Sinto dores nas minhas entranhas e revolta no meu coração. Apetece-me uivar, não à lua, mas aos criminosos que se escondem atrás de uma falsa justiça para perpetuar a sua forma de ver, que não é nem divina e nem humana, apenas a face mais desprezível de que se reveste grande parte da humanidade. 
Malditos sejam, porque são mesmo seres desprezíveis. Nunca hão de conquistar o mundo, apenas ajudam a destruí-lo. 
Não os esqueço. Não consigo. Não consigo. 

"Pouco tempo"...


Tão pouco tempo para descansar das tempestades da vida e logo receber mensagens das finanças para pagar IMI e IUC. Até o próprio café não se safou. Soube mal, miseravelmente, mas o preço não, paguei com um falso ar aristocrático. Bebi metade. Restou-me olhar para as pessoas, seguir os seus pensamentos e sentir o cheiro das ervas acabadas de despertar.
Não há nada como desfrutar da brisa suave a querer imitar a liberdade.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Uff!

Já devia ter juízo. Este jogo ia dando cabo de mim. Mas quem me manda ver os jogos? Ninguém. Pronto. Já posso ir descansar. Mas as minhas coronárias ficaram abaladas, ai isso ficaram.

domingo, 24 de junho de 2018

"Cascata"...

Era muito pequeno quando vi as primeiras cascatas. Não percebia bem o que se passava, só sei que os rapazes mais velhos andavam numa correria a fazer uma espécie de presépio. Amontoavam pedras e cobriam-nas de musgo. No topo colocavam um santo de barro. Já sabia os nomes dos santos populares. 
Na minha rua havia muitas cascatas. Depois, quando as pessoas passavam, apregoavam, “Um tostãozinho para o São João. Um tostãozinho para o São João”. Algumas pessoas punham na cascata uma moedinha. Achei piada àquilo, sobretudo às moedas. Lembrei-me também de fazer uma. Pedras e pedrinhas não faltavam e musgo também não. Fiz uma cascata tosca com três andares. Arranjei uma lata velha de engraxar os sapatos, que estava praticamente vazia, como quem diz, retirei a pasta castanha com um pau, o que não foi nada fácil, colocando a parte de baixo da lata no segundo andar com água e na parte térrea a tampa devidamente tapada com musgo para porem as moedas. Faltava-me um santo. Não tinha santos. Sabia que no missal da minha mãe havia santinhos. Escolhi um, o que achei mais interessante e coloquei-o no altar, mas não era com toda a certeza nenhum dos “três rapazes”. Os mais velhos fartaram-se de gozar comigo. Aquilo não era cascata nenhuma. Tinha de ter um santo e outras figuras de barro, como cordeirinhos. Naquela manhã cheia de sol, muito transparente, em que o azul e o amarelo pareciam cantar, “um tostãozinho para o São João”, via as moedas a cair nas cascatas dos outros, e não eram só tostões ou dois tostões, também havia cinco e dez tostões. Na minha tosca e improvisada cascata, nada. À hora do almoço perguntaram-me o que tinha. Disse que tinha feito uma cascata mas não tinha um santo de barro. - Nem uma moeda me deram. Mandaram-me a casa da minha avó porque ela deveria ter um. Assim que acabei de comer corri para ver se arranjava um São João. Mas a minha avó não tinha nenhum, havia Nossas Senhoras, o Padre Cruz, alguns crucifixos e um Santo António. - Leva o Santo António. - Também serve? - Serve pois. Vais ver que ainda és capaz de ter sorte. Agarrei no santo e coloquei-o no topo da minha cascata. - Um Santo António? Perguntaram os outros. Tem que ser um São João. Isso não é nenhuma cascata. O que é certo é que era o único da rua que não tinha um único tostão na lata. Os outros tinham, e andavam a ver quem é conseguia mais tostões. Larguei a cascata, fui à minha vida, triste, por não ter conseguido imitar os mais velhos. Quando cheguei a casa, vindo do quintal da minha avó, fui buscar o Santo António. Olhei para a lata e fiquei de boca aberta, havia moedas de cinco e de dez tostões e duas de prata de vinte e cinco tostões. Lindas, novinhas em folha, brilhavam sob o sol. Corri em direção ao grupo das cascatas, que deviam estar a fazer a contabilidade do dia, e mostrei-lhe as moedas. - Estão a ver? Estão a ver? A minha avó tinha razão quando me deu o Santo António. Ninguém disse nada. E mesmo se dissessem também não os ouvia, já tinha subido as escadas para contar o sucedido à minha mãe.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Vontade de escolher o destino"...


Confesso que não me faltam histórias. São tantas que era capaz de passar o que me resta de vida a contá-las. Todas diferentes, e cada uma com o seu encanto. Encanto que tanto pode transformar-se num amplexo de alegria, num momento de tristeza, numa admiração do eterno, ou provocar um breve momento de reflexão.
Quando o vi pela primeira vez senti que era diferente. Educado, culto e aristocrata no mais amplo sentido da palavra. A conversa desviou-se da rotina da consulta. Rapidamente senti que era um ser diferente. Só. Quem vive na solidão da vida é sempre diferente. Nunca o questionei a esse propósito. Não tinha esse direito. Há coisas que devem ser respeitadas. Eu respeito-as como se entrasse num templo dedicado a qualquer deus, não por acreditar neles, mas porque acredito na dor e no amor de qualquer ser humano. O ritual da consulta tinha de ser respeitado. Fiquei preocupado. A situação era muito preocupante. Falo daquilo a que se convencionou chamar fatores de risco cardiovascular. Olhei-o. Questionei se sabia o risco que estava a correr. Não disse nada, apenas sorriu. Expliquei-lhe, “catedraticamente”, a situação e a urgência em ser tratado. Quando dei por mim, já tinha escrito uma carta ao colega de serviço nas urgências para “aliviar” de imediato a situação. Algo muito preocupante. Dissertei como mandam as regras sobre o assunto e expliquei-lhe a minha angústia. Sorriu. Sorria sempre com o máximo de delicadeza. – Vai agora às urgências. O senhor corre risco muito elevado de sofrer um acidente cardiovascular.  Falei sempre num tom baixo, profissional, acrescido da minha posição, que não era estranha ao senhor. Reforcei as minhas opiniões. Fiquei na dúvida se iria acatar ou não as minhas orientações. Quis acreditar que sim, mas, mesmo assim, agendei nova consulta ao fim de alguns meses, mais para saber se as “coisas” estavam ou não a ser controladas. Sorria agradavelmente e comportava-se com a mestria inerente a um verdadeiro aristocrata. Passado o tempo previsto apareceu. Fiz o interrogatório que deveria fazer e fiquei surpreendido com o facto da situação estar praticamente na mesma. – O senhor não está a ser tratado? – Não, senhor doutor. – Não me diga. Estou preocupado. O senhor tem que se tratar imediatamente. Olhei-o e pensei: - O melhor é medicá-lo e pedir ao médico de família para o acompanhar. Nova carta, nova orientação e nova explicação aliada à “velha” preocupação. Sempre delicado, deu-me a sensação de que iria cumprir com as determinações. Gostei daquele sorriso e a forma de estar.
No momento do exame de rotina fiquei convencido de que estava tudo controlado. Conversa de nível superior acompanhada de um sorriso que catalogo de encantador. Abri a boca de surpresa. Estava tudo na mesma. Perguntei-lhe se estava a ser tratado. – Não, senhor doutor. – Não?! Ó meu Deus. Mas porquê? Perguntei. Ofereceu-me o seu belo sorriso embrulhado numa encantadora conversa. Comecei a tremer e, até, a gaguejar, o que não é meu hábito. – Mas tem que se tratar. Tem que se tratar. Se fizer o que eu lhe estou a dizer poderá viver sem problemas e durante muito tempo. Olhei-o cheio de angústia e tive como resposta um belo sorriso. – Senhor doutor, não vale a pena incomodar-se comigo. – Como? Interpelei-o. – Senhor doutor, eu não quero ser tratado. – Como? A minha angústia ia subindo de intensidade acompanhada de uma estranha e profunda dor. O trabalhador, culto, educado e aristocrata, apercebeu-se da minha perturbação. – Senhor doutor, eu sei o risco que corro e agradeço-lhe do fundo do meu coração a sua preocupação, mas não quero ser tratado. Não fique triste e nem aborrecido. Deixe-me viver a vida como eu quero. O raio daquele sorriso, meigo, delicado, simples e muito vivo, perturbou-me. Pela primeira vez na minha vida, tinha à minha frente alguém a consolar-me. Quando saiu fui até à porta. Vi-o a atravessar o longo pátio. Pensei: - Não sei porquê, mas julgo ser a última vez que o vejo.
Hoje, comunicaram-me que teve morte súbita. O Senhor da Boa Morte premiou-o, e roubou-me um dos mais belos e aristocráticos sorrisos que vi até hoje.
Sinto que sei quais foram razões, mas não as quero partilhar...

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A esquerda lava sempre mais branco...

Hoje perguntei a vários amigos se sabiam o nome do actual Ministro das Finanças alemão. Só dois responderam que sabiam e sabiam mesmo.
Interessante, mesmo interessante. Por cá, o anterior Ministro das Finanças  de Merkel, o democrata-cristão da CDU, Wolfgang Schauble, todos os dias aparecia nos jornais e nas televisões, normalmente alvo de críticas severas por tudo e mais alguma coisa, pouco ou nada se lhe reconhecendo de bom. 
Nada tendo mudado na política do Ministério das Finanças alemão com este governo de Merkel, natural seria que as críticas continuassem, já que a política é a mesma. 
Mas não. O Ministro é agora do SPD, social-democrata, e há que preservar o pessoal da esquerda, por mais direitista que seja!...   

"Novelo de vida”...



Esta história tem quatro anos. Foi em 2 de maio, véspera de “Santa Cruz”. Encontrei-a num jardim. Depois, curiosamente, ainda a vi por mais dois anos, por mera causalidade sob o sol da tarde da velha judiaria. No ano passado não a vi, mas nem sempre o destino se lembra de me cruzar com seres que me marcaram. Este ano já passei por lá umas três vezes, e também não a vi. Eu sei que o frio não é convidativo a encontros fortuitos. O pior são as contas, em 13 de junho faz 98 anos. O meu problema é se já não faz...
Sou dado a memórias. Lembro-me sempre dela quando leio “Muito me tarda o meu amigo na Guarda!” Espero encontrá-la numa esquina. Certos lugares obrigam-me a pensar nas pessoas, simples, humildes e esquecidas.
Que hei de fazer? Nada.


“Após o almoço calcorreamos velhas ruelas sob um suave e doce calor, a fazer horas para ver o que não vimos de manhã. O almoço decorreu sob a égide dos produtos da serra, enchidos, carne e vinho. O cansaço, despertado pelo tempo de espera, levou-nos à procura de um banco. Sabia que nas redondezas havia um pequeno jardim. Abalei convicto de encontrar um assento que propiciasse brincar com o relógio e falar sem tempo. Debaixo da árvore estava um pequeno banco. Olhei e vi um novelo cinzento e negro a querer rebolar-se e saltar para o chão. Pequeno, muito pequeno e negro, o novelo humano começou a descer, andando à pato, cabeça pendida e bossa dorida. A minha mulher aproximou-se atraída por tão inusitada figura, e baixou-se. Começaram a falar. Ouvi: - Sim, ando a passear um pouco, mas moro ali em baixo no início da rua. Vou para casa. A fala era excelente e as ideias fluíam-lhe na razão inversa do seu corpo meio mirrado e que deverá ter perdido muitos centímetros à sua estatura inicial. Simpática, e desejosa de dois dedos de conversa, parou e começou a contar muitas coisas. Tinha que ser, pensei. Interrompia-a e perguntei-lhe qual era a sua graça. - Maria dos Anjos. - Posso saber a sua idade? - Sim. Tenho 94 anos. Nasci a 13 de junho, no dia de Santo António. A felicidade de ter nascido num dia tão importante levou-a a uma tentativa de levantar a cabeça, e sorriu, mostrando dois velhinhos caninos a ornamentar um enorme diastema avermelhado. Entretanto, algumas repas de cabelo branco e fino teimavam em mostrar-se fora do velho lenço negro. - O cabelo está a incomodá-la? - Não. Eu tive sempre um cabelo muito comprido, quase que me chegava aos pés. Mas sabe, naquela altura os pais não deixavam cortar os cabelos às filhas. Ainda tenho o cabelo comprido, mas tive que fazer tranças, porque não consigo levantar os braços para trás. Enquanto dizia isto, para provar, tirou o lenço negro para que pudéssemos ver duas tranças entrelaçadas numa espécie de rodilha. - Afinal, a senhora vive com quem? - Com o meu irmão e a minha cunhada. - Que idade tem o seu irmão? - Oitenta e seis anos. Olhe, meu senhor, eu já não consigo fazer o comer. Disse com muita pena. - Mas sempre tem quem o faça para a senhora. - Pois. Sabe uma coisa? Vou-lhe confessar. Não sei o que ando a fazer. Já estou cansada de viver. São muitos anos. - Não diga isso. - Digo, digo. Já tenho muita idade. - Mas ainda se mexe bem e fala com tanta desenvoltura. Tem uma cabeça a trabalhar como deve ser. - Pois! Como quem diz, tens razão, mas por isso mesmo é que ando cansada de viver. Mais uns momentos de conversa, assuntos de outros tempos, uma quinta onde cresceu, viveu e trabalhou e despediu-se. A casa não ficava muito longe, segundo disse. Espero que o seu fim esteja, apesar de tudo, muito mais longe.
No dia de Santo António vou lembrar-me da Maria dos Anjos, um delicado novelo de vida”.

Lembrei-me.