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terça-feira, 31 de março de 2020

O Quarta República há 10 anos

quarta-feira, 31 de março de 2010

O país não está perdido!...

Sócrates disse que o Governo saiu reforçado das últimas eleições. Não importa: já poucos acreditam na matemática de Sócrates.
O Governo diz que a economia portuguesa foi a que mais cedo recuperou. Não importa: já poucos acreditam nos delírios do Governo.
O Parlamento diz que tem duas Comissões a apurar se Sócrates falou verdade ou mentiu. Não importa: já poucos acreditam que haja conclusões fidedignas.
O Banco de Portugal diz que o PIB vai crescer menos do que o Governo prevê. Não importa: já poucos acreditam nos oráculos do Governo ou do Banco de Portugal.
Pinto da Costa, na RTP1, Luís Filipe Vieira, na SIC e Ricardo Costa, na SIC Notícias foram ontem entrevistados no horário mais nobre das televisões. Isso é o que importa.
O país não está perdido, pois ainda acredita em alguma coisa. E uma bola aos saltos, nos tempos que correm, é a coisa mais altamente credível!... 
 
E agora, passados 10 anos, que nem bola há?

segunda-feira, 30 de março de 2020

Corona Vírus- Acção e Televisão

Deixo o meu artigo publicado no DN/JN/ Dinheiro Vivo de 28 de Março de 2020
(https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/acao-e-televisao/)
Pensava dedicar hoje esta coluna à análise das causas do peso desproporcionado no PIB e da dependência externa de alguns sectores da nossa economia, a começar pelo turismo, em que pequenas oscilações na procura agravadas por fenómenos de perturbação globais, como agora acontece com o corona vírus, podem, só por si, levar o país à recessão. Mas falar das causas é criticar políticas e o tempo de guerra que vivemos, como nos é dito, exige mais união no presente e menos censura ao passado, mesmo que justificada.
Estamos, de facto, em plena guerra e nunca os cidadãos e governos terão passado por tantas dificuldades e temores desde que a pneumónica, há um século, matou muitas dezenas de milhares de pessoas em Portugal e dezenas de milhões em todo o mundo. 
O governo tem-se desdobrado em esforços para assegurar a resistência e a vitória futura, minimizando perdas humanas e materiais. Mas numa guerra tem que haver um Comandante com o seu Estado-Maior que defina estratégias e recursos tecnológicos, produtivos e logísticos, e uma cadeia de comando com oficiais, sargentos e soldados que assegure no terreno as operações, a logística, a intendência, equipamentos, fardamentos, alimentação, transporte, hospitais de campanha, de forma rápida, coordenada e eficaz. É isto também o que deveria acontecer na guerra contra o corona vírus. Se o 1º Ministro será o comandante, ignora-se qual o seu Estado-Maior e sobretudo não se sente uma cadeia coerente de comando, apenas múltiplas acções desgarradas, logo menos eficazes. Aliás, os reduzidos postos de vigia, testes, e as falhas na linha de saúde 24 impedem mesmo saber o número e a localização do inimigo.
Em guerra, o comando tem que ser único, as operações concertadas e a informação precisa e verdadeira, objectivo que a exibição a esmo de ministros nas televisões a mostrar novas iniciativas de forma parcelar e vaga não favorece e, pior, quando os anúncios feitos são logo desmentidos pelas tropas no terreno. Só acreditando na informação, e conhecendo carências e dificuldades, os cidadãos se mobilizam para a luta.
Um comando forte, um estado-maior competente e uma acção coordenada e rápida é o que se exige. E uma informação correcta, com menos ministros nas televisões, para que o tempo de governar não se extinga num constante aparecer.

Ideologia cega

O corona vírus que nos atingiu de forma tão violenta deveria lembrar os agentes políticos que a protecção da saúde e o apoio à doença não podem ser tratados como uma questão ideológica, bem patente na Lei de Bases da Saúde recentemente aprovada, mas, ao contrário, como a concretização plena de um direito dos cidadãos legalmente reconhecido. Competindo ao Estado assegurar esse direito, já a sua prestação concreta tanto pode ser assegurada por serviços do próprio Estado como por outras entidades e nomeadamente quando o Estado, só por si, não o consegue garantir de forma eficaz. É irracional que a lei o impossibilite ou dificulte essa prestação, em vez de a facilitar, quando são tantas as carências dos hospitais e serviços de saúde públicos, em organização, pessoal, instalações, equipamentos, material hospitalar e que têm a sua tradução visível nas filas de espera de meses para tratamentos de doenças graves, nas dificuldades de atendimento ou mesmo no encerramento de urgências, na demissão de corpos clínicos, etc, etc.
E assim é incompreensível que, por razões puramente ideológicas não se aproveite a capacidade disponível, quer no sector privado como no social, para suprir essas carências. Aliás, qualquer colaboração do SNS com estabelecimentos privados é radicalmente combatida por forças políticas que sobrepõem a ideologia aos direitos dos cidadãos.    
É esta mesma ideologia cega que presidiu à aprovação pelo Parlamento de norma que estabelece mesmo que nem a própria gestão de unidades hospitalares públicas possa ser efectivada por entidades privadas (as ditas PPPs da saúde), a não ser em circunstâncias excepcionais.
No entanto, os Relatórios oficiais de avaliação recomendaram a continuação do modelo, já que os hospitais em PPPs, Braga, Vila Franca, Loures e Cascais cumpriram os "princípios de economia, eficiência e eficácia" que levaram à sua criação, lideraram na qualidade de serviço e a um preço que permitiu uma poupança superior a 300 milhões de euros considerando os custos de hospitais similares.  
A situação de pandemia que vivemos, no quadro de uma economia em que os recursos são escassos, deveria impor uma alteração da Lei de Bases da Saúde, propiciando uma boa colaboração do SNS com o sector privado e social, protocolando a prestação de serviços e utilizando a capacidade instalada disponível, servindo melhor o seu objectivo, a protecção da saúde.  Temos agora essa oportunidade. Possa o governo aproveitá-la para que o SNS sirva melhor os portugueses. 
(meu artigo publicado no Díário de Coinmbra, Diário de Viseu, Diário de Aveiro e Diário de Leirisa em 27 de Março de 2020)- link 
https://mail.google.com/mail/u/0?ui=2&ik=baa3db6ee2&attid=0.1&permmsgid=msg-f:1662068222378708490&th=1710da3e03590e0a&view=att&disp=safe&realattid=1710da2de803b8b2e2d2