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sábado, 21 de janeiro de 2023

“São Sebastião” …

Presumo que já tive a oportunidade de explicar a razão de gostar do São Sebastião, capitão da guarda pretoriana de Diocleciano, imperador romano. Sendo cristão, Sebastião era benévolo com os crentes, facto que o levou a ser considerado como traidor e condenado à morte por flechas. Lançado ao Tibre acabou por ser resgatado por Irene (nome tão lindo, nome de uma tia querida com voz de anjo) que mais tarde foi elevada aos altares. Novamente presente perante o imperador, acabou por ser executado através de espancamento e o seu corpo lançado nos esgotos de Roma.
Foi objeto de várias obras, uma delas li em pequeno, Fabíola, do cardeal Nicholas Wiseman. Nunca mais esqueci a belíssima capa do livro. Também foi objeto de outros autores de forma sedutora e encantadora. 
Desde pequeno que sou fascinado pela sua imagem, tronco nu, amarrado a um tronco e cravejado de flechas. 
Portugal tem uma característica religiosa que considero única. Em todas as procissões, sejam elas em honra de quem for, aparece sempre um São Sebastião. Vai a todas! Está presente em muitas igrejas, e quanto a capelas, upa, upa, é difícil, penso eu, encontrar um santo com tantas. São Sebastião pode mesmo ser considerado como o campeão das capelas em Portugal. Presumo que o culto a São Sebastião tenha a ver com a peste, a fome e a guerra, a tríade destruidora da humanidade. Na falta de melhor, São Sebastião tornou-se no santo protetor das pestilências humanas. É tão popular que até tivemos um rei chamado Sebastião (por ter nascido neste dia) que tudo fez para o honrar. Lisboa tinha sido assolada em 1569 pela peste. O rei mandou erigir um templo junto à margem do Tejo e até o papa lhe enviou de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.
Muito mais havia a contar a propósito deste cristão que tentou converter Diocleciano.
No seu dia, 20 de janeiro, costumava calcorrear alguns sítios onde lhe prestam homenagem. Lembro-me de um ano ter passado por eles. Fiquei triste, nem uma festa, nem uma procissão, nem uma venda, nem música ao estilo de Quim Barreiros, nem um taberneiro, nada. Ainda pensei: - Ó Sebastião! Será que as pessoas estão a esquecer-te? Não me respondeu.
Na altura “precisava” de dois santos para juntar aos muitos que andam por aqui. Faltavam-me um São Brás e um São Sebastião. Agora já os tenho. O São Brás por causa da minha mãe, e o facto de ter nascido no seu dia! As voltas que dei para ir buscá-lo à Guarda. Tantos anos à minha espera! Quanto ao Sebastião, foi em Frankfurt que o adquiri. O antiquário quase que me o ofereceu. - Sabe? É indo-português. Adquiri-o em Goa. Como o senhor é português é perfeitamente legítimo que o leve para o seu país. Venda simbólica. Presumo que não vou adquirir mais nenhum santo. Este Sebastião, tosco, popular, foi criado pelas mãos de um santeiro de Goa nos finais do século XIX.
Lembrei-me dele. Hoje, à hora do almoço, telefonei para casa e pedi para ir ao jardim ver se havia uma flor. Havia apenas um lindo botão de rosa. Agora está a seus pés no meu quarto. Bom, tenho que agradecer ao São Sebastião. De facto, mais tarde ou mais cedo, acabo sempre por conseguir o que desejo. Estranho? Um pouco. Mas foi sempre assim.
Escrevinhei este texto ao som de uma chuva miudinha e de um largo sorriso cheio de sol que, inesperadamente, surgiu enquanto almoçava na esplanada de um restaurante. Adoro o sorriso de São Sebastião.
Foi hoje, 20 de janeiro de 2023.
Agora, termino a minha refeição bebendo um copo de vinho à sua memória e história.
-  À tua, Sebastião!

sábado, 5 de novembro de 2022

Clara

Adoro escrever. Preciso de sonhar e de dar largas à imaginação mesmo na mais estranha solidão. Vivo sem compreender a vida. Sou um saco de confissões, de desejos, de medos, de terrores, de amores, de ilusões, de doces e de alegrias. Mesmo num dia banal encontro sempre motivos de reflexão. Os seres humanos são verdadeiros exemplos de saber, de emoções, de solidariedade e de esperanças a par de muita dor, do sofrimento da alma e até da morte anunciada.
A senhora, com mais de quarenta anos, pediu-me um esclarecimento. Tinha tido recentemente uma filha e “perdeu” a visão. – Acha que foi da gravidez? – Foi de repente? – Foi. – Mas é só para o perto, não é? – Sim, porque ao longe continuo a ver bem. Sorri. Olhei para os exames e comprovei défice de visão apenas para o perto. Nada de especial. Depois expliquei-lhe que era natural a diminuição da acuidade visual com a idade. Uma mera questão ótica, na medida em que o “formato” do olho se altera com a idade, tal como acontece com o corpo. Tentei explicar que o facto de ter estado grávida, e as alterações decorrentes da mesma, poderão ter tido alguma responsabilidade no assunto, mas que não era sinónimo de gravidade, além de que a diminuição da visão ao perto tem a característica de ser quase abrupta. - A idade explica o assunto. – Mas há pessoas que são muito mais velhas do que eu e continuam a ver sem problemas. – Pois! Cada caso é um caso. Às tantas muitas dessas pessoas não “precisam” dos olhos para ver ao perto e nem dão conta disso. Sorri. – Não é o meu caso. Retornei ao tema da gravidez. – É o primeiro filho? – Sim. Nem imagina o “esforço” que tive para engravidar. Mais de dez anos em tentativas e tratamentos. Sorri e dei-lhe os parabéns. Logo de seguida perguntei o nome. Teve uma menina. – Como se chama a sua menina? – Clara. – Lindo nome. Parabéns. Um nome pouco frequente nos dias de hoje. Antigamente ainda o usavam, depois parece que se “esqueceram”. Digo isto, porque habitualmente pergunto às senhoras os nomes dos filhos. Uma atitude que considero simpática e que é bem vista pelas trabalhadoras. – Ainda há pouco, no decurso de um exame a uma senhora brasileira, que veio para Portugal com a família, disse-me que a sua  menina também se chama Clara. Dei-lhe também os meus parabéns, tanto mais que os brasileiros são useiros em nomes por vezes muito peculiares. Sorriu. – Olhe, senhor doutor. Nomes tínhamos nós há muitos anos, fosse rapaz ou rapariga. O nosso sonho era um dia usá-los. Nomes nunca nos faltaram. 
Felicitei-a novamente. Desejei-lhe saúde, bom trabalho e as maiores felicidades para a Clara. – Olhe. Não sei se sabe, mas Santa Clara, além de ser padroeira da fala, também é padroeira das doenças visuais. – Ai é? – Sim. Não é só a Santa Luzia. Sorriu e saiu embrulhada  num pouco de felicidade. 
Quando saiu, recordei uma conversa tida há muitos anos com a minha avó. Era muito pequeno. Contou-me que o meu pai falava muito pouco ou quase nada até aos cinco anos. Tiveram que fazer uma promessa à Santa Clara para lhe dar a fala. O que é certo é que a partir daquela altura começou a falar quase ininterruptamente durante o resto da vida, até quase aos noventa e um anos! O meu pai nunca estava calado, apenas quando dormia. Às vezes dizia-lhe: -  A avó fez uma grande asneira, nunca devia ter feito a promessa de levar de pedir à Santa Clara a fala para ti. Sorria e voltava a falar como se não ouvisse. 
 
 
 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

“Conserva o teu sorriso” …

Acabei a manhã de trabalho muito cedo. Apesar da agressividade bendita da chuva, que quer fecundar a terra, fui dar uma volta. Entrei na loja de antiguidades/velharias. A senhora deve ter-me reconhecido e apontou logo para a zona dos livros, que estava praticamente inacessível. Fez os possíveis para que eu pudesse tocar-lhes. Não foi nada fácil, mas mesmo assim consegui tocar nalguns e em poucos minutos já tinha coligido cinco. Uma mania como outra qualquer. Achei curioso a explicação. “Muitos destes livros foram dados pelos donos. Como já não tinham espaço, ofertaram-nos. Agora vendemos a um euro”. Pensei que deveriam ser tolos. Descartar livros é como sujar a alma de lama. Posso descartar-me de muitas coisas, menos de arte e de livros. Não disse nada, sorri apenas. Estive tentado a trazer muitos, mas os livros pesam. Neste caso pesam literalmente, mas na carteira não. 

Fui até ao restaurante habitual, muito tempo antes da hora. Sentei-me na esplanada. O dono surgiu. Vinha das compras. - Então, que é que traz aí? - Douradas e estas sardinhas. Mostrou-me. - Opto pelas sardinhas. - Quatro ou cinco? - O senhor é que sabe. Sorrimos em uníssono. Já sabia que ia demorar, obviamente. Entretanto, comecei a folhear os livros. Alguns eram virgens. Há décadas que estavam embrulhados em plástico. Nunca ninguém os tinha aberto. Três eram de autores portugueses, Aquilino, Camilo e Trindade Coelho. Um outro, era uma coletânea brasileira de pequenos contos, cujos autores foram omitidos. O quinto, um livro de Rex Stout, a propósito do famoso Nero Wolfe, detetive que me impressionou desde sempre, fechou o capítulo preliminar antes der “ler” as sardinhas assadas. Calcorreei os cinco. A minha vontade era navegar todos sem respirar. Claro que não vou conseguir. Não por não ter vontade, mas por falta de tempo. Todos foram fonte de inspiração e de saudade. Gosto de livros. São alimentos para uma alma que se sente cada vez mais pobre neste mundo estranho e sem sentido. Desaparecer no seu seio seria uma forma de renascer num mundo belo e sedutor.

Vivam as sardinhas, vivam os livros e, sobretudo, um bom vinho. 

A meu lado almoçavam cinco pessoas, quatro jovens e uma senhora que devia ser a “tutora”. Pela conversa depreendi que seriam estudantes de cinema. Estavam na localidade para um congresso. Dois deles tinham sotaque brasileiro. Falavam alto e não pude de deixar de acompanhar a conversa, desde os tipos de alimentos até aos cursos que frequentavam. Houve um momento em que falaram dos próximos feriados. O facto de a brasileira ter dito que o primeiro de dezembro tinha a ver com a queda da ditadura e a instauração da república obrigou-me instintivamente a entrar na conversa. Pedi licença e fiz as correções necessárias. Ouviram-me com atenção e agradeceram. O que estava mais próximo apontou para um dos livros que tinha em cima da mesa, deve ter-lhe chamado a atenção a encadernação antiga, e perguntou que livro era.  Disse-lhe que era uma coletânea de contos, editado há muitos anos no Brasil. Conversa, puxa conversa. Acabei por lhe oferecer o livro, aconselhando-o, sempre que comprasse um livro antigo a folheá-lo, porque por vezes encontramos coisas belas, como cartas, notas e outras coisas mais. Ficou de boca aberta. Mas para não ficar sozinho, também ofereci o “In illo tempore”, de Trindade Coelho, que já conhecia, à jovem brasileira, porque durante a conversa tinham falado de Coimbra e das suas praxes. Uma das meninas, a de Lamego, foi agraciada com a vida e obra do Marquês de Pombal de Camilo, enquanto a “tutora”, do Instituto Politécnico de Viseu, recebeu o livro de Aquilino que acabou por respirar ar puro ao fim de muitos anos. E assim, sabendo que não iria tempo para ler e reler estas obras, acabei por oferecer livros e divulgar a nossa literatura. Fiquei apenas com o livro policial de Rex Stout.

Ao levantar-se, o jovem luso-brasileiro, folheou o velho livro e encontrou um belo poema manuscrito. Letra feminina. Título? “Conserva o teu sorriso”. Um lindo poema que deve ter visto a luz em muitos anos. 

Ofereceu-me!

 

 

 

Um almoço vulgar…

Gozo alguns minutos da minha existência numa esplanada no alvor do outono. Não sinto frio, não sinto calor, sinto apenas saudade de um tempo que nunca existiu. Vivo mergulhado numa atmosfera simples. Consigo recordar imensas coisas ao mesmo tempo. O anoitecer prematuro, a música tranquilizadora de Glenn Miller, os sonhos de uma criança, os ruídos do sótão, temerosos ou tenebrosos, já não me recordo bem, os lençóis a cheirar a sabão azul, o medo da noite, a esperança do renascer de um novo dia, as orações a um anjo da guarda desconhecido e malandro, como é típico dos anjos, o medo da minha mãe poder descobrir o maço de cigarros, “Sagres”, escondido no armário do meu quarto. Ui! É melhor não avançar mais. São tantas as lembranças que acabam por causar ansiedade num tempo que não era meu, e nem sabia o que me iria acontecer. Mal sabia o que me estava guardado. 

Soube-me bem os filetes panados, embora tivesse de descartar as saborosas capas. Valeu-me o adocicado e saboroso vinho branco e os sorrisos delicados do pessoal.

Um almoço simples e banal para quem é banal e simples, eu.

domingo, 9 de outubro de 2022

“Cansaço” …

Há personalidades que apresentam características comuns. Quando as vejo quase que descortino o que são ou o que foram. 
Mulher magra, de meia idade, voz rouca de tabaco de longa exposição, olhos pintados a risco negro, olhar inquieto, sempre atento, não escondendo a fome de ver tudo em redor, nervosismo à flor da pele, maçãs do rosto salientes, sentou-se. Antes de lhe perguntar o que quer que fosse, debitou de imediato que sofria de um cansaço terrível, o que para ela, mulher que gostava de trabalhar, era uma grande preocupação. Consegui enfiar-me na conversa perguntando-lhe se sofria de alguma doença. Disparou que teve hepatite B e que ficou imune e depois disseram-lhe que também tinha hepatite C. - Já fez tratamento para a hepatite C? - Não! A minha médica já me falou nisso. A forma com expunha dava a entender que não teria assim nada de especial. - Olhe lá.- Atrevi-me ir direito ao assunto. - Foi consumidora de drogas proibidas? - Fui, senhor doutor. Disse com a maior naturalidade. - Mas deixei. Sem ajuda e nem tive que ir ao CAT. - E o que é tomava? - Heroína. - Ai sim? E conseguiu parar sem ajuda? - Claro. Vi que me estava a fazer mal e parei. - Sim senhora! - Quando é que começou? - Devia ter perto de trinta anos. - Então, já foi há muito tempo. Como é que se meteu nisso? - Foi o meu companheiro. Foi ele que me pegou as doenças. Mas também só andei dois a três anos nessa vida. Fazia-me mal. - E o seu companheiro? - Morreu. Mas não morreu da droga, foi morto por um cunhado que lhe espetou uma faca aqui. Apontou para a zona do fígado. - Isso aconteceu há muito tempo? - Foi naquela altura. O filho era pequeno, agora já tem trinta anos. - Claro que o assassino foi preso. - Foi, mas libertaram-no ao fim de doze ou treze anos. Ninguém sabe onde para, e ainda bem. Olhe, são coisas que acontecem. 
Depois continuou com o seu relato de vida pessoal, dizendo que teve outro filho de uma relação mais recente e que teve também de terminar. Era demasiado violento e um bebedolas. - Fartei-me de homens, sabe? Agora estou bem, o pior é este maldito cansaço. Dei cabo da minha vida por causa do amor. Acredita, senhor doutor? - Claro que acredito. - Maldita sorte a minha. Como é que estão as análises?
Tive que lhe dizer que tinha problemas no fígado e que deveria tratar-se como devia ser. Fiquei com a sensação de que desconhecia a gravidade da situação. - Ah! Então, o cansaço vem do fígado! - Sim. Tem que tratar-se como deve ser. Expliquei como deveria fazer. - Vou seguir o seu conselho. Vou mesmo. Eu gosto de trabalhar, mas este cansaço é demais, mata-me. Eu quero viver.
- Força! Viva mesmo.

sábado, 1 de outubro de 2022

Nomes e ferimentos

Conhecemos muitas pessoas através das suas obras, opiniões, conquistas, descobertas, inovações, arte e demais atividades ligadas aos seres humanos. Fabricamos as nossas opiniões acerca dos seus valores, princípios, dignidade, forma de estar e de sentir o mundo, acabando por incorporar na nossa essência parte do que são ou foram. Somos moldados por tudo o que nos rodeia. Os “outros” também fazem parte de nós.  

Conhecer não é apenas conviver ou partilhar, também é ouvir e saber o que fazem ou o que fizeram. Por vezes ficamos incrédulos quando a imagem de alguns fica manchada por algo iníquo ou horrível que fizeram. Além de perderem de imediato o seu valor e o respeito que julgávamos merecedores acabam por nos atingir e até ferir-nos. Também sofremos 

Quase que me apetece dizer que raro é o dia em que não somos confrontados com certos tipos de ferimentos ou insultos às nossas almas. Um eclesiástico, que foi inundado de honrarias ao mais alto nível mundial, passou a ser um iníquo. Um criminoso visivelmente alquebrado e sem a força de outrora, foi humilhado na sua condição humana. Alguns políticos mostram ao fim de algum tempo a qualidade das fibras de que são feitos, falsas e hediondas. Desportistas sem caráter e violadores da solidariedade e do companheirismo destroem a essência dos valores olímpicos. Os seus nomes correm a princípio como doces e felizes rios de água limpa, saciando a nossa sede e alimentando as nossas esperanças, mas alguns transformam-se em enxurradas de águas sujas e extraordinariamente violentas capazes de destruir a vida, as suas e ferindo as de outros. Também somos os que os outros são, porque fazem parte de nós. Os nomes que transportamos, mesmos que sejamos desconhecidos e sem qualquer impacto de maior, sempre transmitem alguma ideia acerca do nosso valor, nem que seja para dar algum alento à nossa autoestima, mas os dos outros, os dos “maiores”, podem causar transtornos muito graves porque roubam muito do que desejaríamos que a humanidade fosse. O quê? Já nem sei. Confesso que não acredito que alguma vez a humanidade seja o que foi prometido. Acredito apenas num breve momento em que o tempo se esquece que existe e me deixa saborear um café em paz na companhia de um cão sossegado e meigo deitado aos meus pés. Temos nomes, o dele também está incorporado na minha essência.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O pneu ...

Na altura não havia brinquedos. Fome de brincar e cabeça para imaginar eram coisas que abundavam.
Quando os eucaliptos davam a pele, retirava uma faixa e com maestria infantil, a que não era alheia a perigosa navalha, sempre escondida dos graúdos, arranjava maneira de criar uma fantástica hélice que girava como se fosse a mais esplendorosa ventoinha. Depois era vê-la a girar à velocidade da minha corrida. Víamos quem corria mais depressa atrás daquelas belezas feitas com a pele descamada dos eucaliptos.
Correr era uma necessidade. O corpo exigia insistentemente como se a vida quisesse andar atrás de um mundo que então via mas não compreendia. Fazia-lhe a vontade correndo com um velho arco ou a jogar à bola feita com meias velhas e trapos, os quais me valeram algumas tareias, porque nem sempre tinha discernimento para distinguir o velho do novo. Coisas da vida.
O que gostava mais era de andar às corridas com os arcos. Não era fácil arranjá-los, logo, o melhor era ficar junto da oficina das bicicletas e, como não quer a coisa, ia perguntando se não havia um pneu velho para brincar.
- Não. Não há. Diziam com vozes tonitruantes, eivadas de cigarros, de algum tinto e de muita berraria.
- Não há? Estão tantos ali.
- Onde?
- Ali! Não são pneus velhos? Podia dar-me um.
- Podem ser precisos. Replicou.
- Podem ser precisos?
- Sim. Podem.
- Mas para quê?
- Olha lá, ó meu rapaz. Não vês que estamos a trabalhar e que conversa não ajuda? Pensei: - Não ajuda uma merda! Estão a sempre a conversar, de futebol, de gajas, de vinhos, de patuscadas e de muitas outras coisas.
- Queres um pneu?
- Quero pois. Disse todo entusiasmado.
- Então, antes de ires buscar um pneu tens que me dizer se já pintas. Eu bem sabia o que ele queria, mas como estava com o olho num belo pneu respondi que não, ainda era muito novo.
- Ah! Então sabes o que é pintar!
- Posso ir buscar um? Perguntei sem responder.
- Espera. Ainda tens de me dizer se já viste a “pintelheira” de alguma miúda. Farto deste tipo de conversa, ainda estive tentado a dizer que sim, que já tinha visto a da filha. O pior era o resto. Respondi:
- Não senhor. Ande lá, deixe-me ir buscar um pneu. À medida que ia falando aproximava-me do montículo sujo de borracha usada. Já tinha o “meu” pneu ao alcance da mão.
- Posso levar este? Apontei.
- Podes, mas antes tens de dizer três asneira seguidas.
- Para quê? Questionei surpreendido.
- Para quê? Para pagares o pneu.
- Pagar com asneiras?
- Sim. Nessa altura já tinha abocanhado o mais bonito de todos.
- Pronto. Está bem. Porra, catano e merda!
- Mas isso são asneiras que se digam? Isso não vale nada. Tens que dizer as de verdade.
- Está bem. Eu digo para a próxima vez. Entretanto, já ia suficientemente longe para não ouvir as gargalhadas do pessoal que assistiram ao diálogo.
Fiz uma inveja do caraças junto dos meus amigos. O pneu “novo” foi alvo de trocas e baldrocas, mas fiquei sempre com ele. Não era fácil pô-lo a andar, tinha que lhe dar muita “porrada” com o pau, mas depois engatava e eu não conseguia acompanhá-lo na descida da inclinada calçada...

sábado, 24 de setembro de 2022

"Mactérias" ...

Nas andanças pelos meus textos tropecei neste que escrevi há alguns anos por causa de uma neta. Os miúdos são uma adorável fonte de inspiração.
“É bom estar atento aos miúdos, porque quando menos se espera aprende-se alguma coisa, pelo menos ficamos a saber, ou a imaginar, como funciona aqueles pequenos cérebros ávidos em compreender o mundo que os cerca.
O primo, um ano mais velho, sofre de cárie. Uma situação muito comum nestas idades. Apesar dos cuidados de higiene oral não conseguiu evitá-la. Tomara! É uma criança como qualquer outra, gosta de se alambazar com produtos altamente cariogénicos, o que pode ter consequências, por vezes dolorosas, como foi o caso desta semana. Antes, já tinha sido sujeito a tentativas de tratamento, mas, como estávamos à espera, opôs-se com determinação, ou seja, com medo, comportamento típico nestas idades, embora as condições atuais não tenham nada a ver com os dignos representantes dos "dentistas-barbeiros" que, no meu tempo de criança, revelavam ainda resquícios de aspirantes a torturadores da Santa Inquisição.
As conversas sobre este tema, cárie, doces, chocolates, lavagem e escovagem dos dentes são uma constante lá em casa, escutadas ou não pelos protagonistas infantis. Mas devem ser ouvidas, porque se não fossem não teria assistido e tido conhecimento das conversas da mais nova. Face às dores do primo, e ao conhecimento do seu comportamento em recusar o tratamento de dois "buracos", a menina acabou por entabular uma conversa com a mãe, dando provas do seu interesse por este assunto. "- Sabes o que são cáries, mamã?

- Hummm... Não. Conta-me lá!

- São "mactérias" que querem construir casinhas dentro dos dentes. Então, escavam, escavam, escavam e depois levam para lá a família toda!

- Ahhh... E cabem lá todas?

- Cabem, são todas amigas! Mas só que às vezes fazem doer a casa...

- Pois! É uma grande chatice..."

Hoje, face ao heroísmo e à aceitação por parte do primo em deixar-se tratar com sucesso, a conversa centrou-se no tema durante o almoço. A Leonor explicou-me o que eram as "mactérias", como é que elas entravam nos dentes e faziam a sua casinha para si e para os filhinhos e depois, quando começavam a ressonar, provocavam dores. 

- Como?! As "mactérias" ressonam?

- Sim. E depois fazem doer.

- E o que é que fazem, quando acordam? Não me digas que começam a pular, a correr e a brincar? Perguntei-lhe.

A miúda esboçou um largo sorriso de admiração, dançou na cadeira, revelando uma manifestação de gozo e de incredulidade, e lançou-me na cara, a rir que nem uma perdida:

- Oh, vovô, mas que pergunta tão "podícula"!

- O quê?!

- "Podícula", vovô! Mas tu não sabes de "mactérias"?

- Bom, um pouquinho.

- Ah. Está bem.

- E agora, o que é que vais fazer?

Com o dedo dá a indicação de esfregar os dentes e diz:

- Vou tirar as "mactérias". 

- Antes que escavem os teus dentinhos, não é?

- Pois. É que depois podem "ressonar" e "darem" dores.

- Muito bem. Vai lavar os dentinhos.

Pelo menos fiquei a saber o que são "mactérias", bactérias más, que gostam de escavar os dentes para terem uma casinha e que ao “ressonarem” provocam dores. Esta do ressonar é que ainda não percebi bem. Mas por hoje chega. Espero nos próximos dias aprender um pouco mais. O pior é que o raio de um molar começou a doer-me. Será que tenho lá dentro "mactérias" a ressonar? Às tantas. Na próxima semana vou acordá-las e mandá-las embora, senão quem não vai ressonar sou eu...

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O meu outono ...

Quando se vive muitos anos somos invadidos por uma estranha sensação, viver sem compreender. Pelo menos está a acontecer comigo. Cada dia que passa sou inundado da esperança de ser atingido pelo esquecimento súbito. Não sei bem o que isso é, mas pressinto-o como algo sublime, ser esquecido e esquecer. Haverá algo mais belo e poderoso? Não. A minha mente é lambida por recordações pontuais, quais flashes de raios e coriscos numa noite de verão. Gosto de as amarrar ao meu coração, mas desaparecem na primeira ocasião. Gente sem nome, olhos húmidos a imitar verdadeiros lagos de felicidade, lágrimas de rios de sofrimento, conversas belas a ofuscar o por de sol no fundo de um mar calmo e sensual, atitudes de coragem mais altas dos que as maiores das montanhas, poetas cheios de caráter mesmo no reino do analfabetismo, ternura tão vasta a querer subjugar o universo. Gente sem nome. Viveram e foram esquecidos. Devem sentir-se felizes na vastidão de um novo mundo. Felizes e livres. Julgo que sim. Até as almas perdidas acabarão por se achar e encontrar os seus Edens, mesmo que não saibam ou nunca tenham desejado. Não importa, o que interessa é ser esquecido e esquecer. Refugio-me atrás da beleza e sensualidade de uma caneta. O seu azul perturba-me, o peso encanta-me e o brilho do seu olhar emociona-me. Preciso, não de viver, nem ainda de esquecer, apenas sentir alegria com a doçura de um aparo de ouro e as lembranças quentes e doiradas a relembrar as areias do rio que acariciavam o meu corpo, libertando-me de forma doce e encantadora nas tardes de setembro do final do verão, prometendo pinturas da beleza colorida do meu outono. Outono, a estação que precede a morte, o sono, mas que encerra por momentos a beleza de uma vida simples e eternamente esquecida.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

“Até eu medrava sem comer” …


No pico do espraiamento do sol tive que calcorrear uns bons metros através de velhas ruelas sempre à procura da tão desejada sombra. 

Quatro gatos alinhavam-se em frente de uma porta modesta demonstrando que ali nasce comida pela qual nunca tiveram de lutar ou de trabalhar. Sabem-na toda estes animais ditos domésticos, embora não totalmente, visto que prezam, de forma ímpar, a independência e a liberdade. Três gatos cercavam um outro, mais pequeno e ranhoso, que não se mexia. Encolhido, e paralisado de medo, devia estar a equacionar a melhor maneira de livrar-se dos três “irmãos”, umas verdadeiras bestas. Todos quietos. Um deles, em jeito de ataque imediato, era o que estava mais perto, enquanto o segundo, negro, com o pelo eriçado e olhar assustador, trancava, um pouco mais longe, a passagem de uma eventual fuga. O terceiro, castanho-amarelado, acabou por desistir daquela parvoíce abandonando o local em passo lento e com um ar verdadeiramente aristocrático. O quadro dos três gatos adquiriu, subitamente, vida, com o mais perto a mostrar dentes aguçados e a bufar à maneira ao mesmo tempo que dava uma valente patada com as garras desnudadas no focinho do pobre animal que, encolhido, quase desapareceu tipo ouriço-cacheiro. Gemeu de dor. Perante o quadro avancei em seu auxílio. Safou-se e agradeceu, miando com ternura e com um olhar enternecido. Avançou uns metros e colocou-se à sombra debaixo de um contentor. Os outros dois viraram-se para mim, mas devem ter reparado que eu tinha uns valentes palmos a mais. Mesmo assim não desarmaram à primeira. Olhares furiosos prontos a atacar. Eu fiz o mesmo e dei-lhes a entender que estava preparado para ripostar à maneira.  

Analisando a questão, não vi que tivesse violado o seu território, não vi nenhuma fêmea a apelar à satisfação do cio e também não me pareceu que fosse por causa dos alimentos. Os agressores estavam bem nutridos, ao passo que a vítima estava doente e visivelmente esfomeada. Quanto à minha pessoa também não me referenciei como alguém que pusesse em causa a etologia felina. 

Ia a pensar neste quadro urbano e despropositado, em que a violência extravasa a sua força, quando uma senhora bem nutrida, sentada na soleira da sua porta, não muito distante do episódio que acabei de contar, manifestava em alta voz o seu desagrado com a menina que lhe queria saltar para o lombo. Traquina, e calada como os gatos, tentava fazer das suas. Uma atitude que tomei como lúdica e carinhosa. Quem não estava a gostar da conversa era a avó, que lhe gritava: - Está quieta meu estupor. Nunca estás queda. Só sabes chatear. Quem me dera que a tua mãe viesse amanhã da Alemanha e te levasse. Até eu medrava sem comer! A pobre da criança deixou-se de brincadeiras e sentou-se na soleira da porta ao lado. Amuada? Sim, ou qualquer coisa parecida. Às tantas pensei, o raio do calor dá cabo dos cornos, quer das pessoas quer dos gatos. Só pode. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Silêncio da escrita

 Silêncio da escrita


Não tenho escrito como é habitual. As palavras, as ideias, os sentimentos, os medos e os desejos estão aprisionados. Nada e ninguém gosta de se sentir preso. Ouço lamentos e até alguma raiva. Tenho que os libertar, de outro modo acabarão por me fazer mal. Tenho lido entrementes. Talvez seja por isso que não escrevo. Fico absorvido pela elegância e inundado pela energia criadora de grandes escritores. Consigo ouvir as suas vozes, o dançar dos seus pensamentos e a profundidade dos seus escritos, elegantes e até, porque não dizer, divinos.  Para quê escrever se há sempre alguém a desenhar e a cantar o mundo com tal perfeição? Prefiro mil vezes confundir-me com alguma das suas personagens, mesmo que não existam ou, então, brinquem como figuras da banda desenhada. 
Mas a força do pensamento é diabólica. Diabólica, ardilosa, frustada ou desejosa de recriar a vida e fazer esquecer a dor e a morte.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Dois momentos…

Um dia vulgar e ao mesmo tempo diferente. Continuo a aguentar as amarguras da vida. Felizmente choveu um pouco. Não cantei durante a viagem, mas fiquei um pouco mais confiante. Pequeninas gotas de água pintaram o meu pára-brisas. As escovas deslizaram com uma voluptuosidade a raiar a sensualidade. Não fizeram barulho. Senti o prazer e o resfolgar da natureza a ser aspergida pela fonte da vida, a água. Fiquei mais tranquilo e esperançoso no futuro imediato. Nada mais me resta do que isso, desfrutar o pouco ou o muito que me aguarda. Tranquilamente fiz o que tinha a fazer, trabalhei, embora um pouco ansioso para desfrutar a meia hora após o almoço. Almoço simples, escolhido a propósito para não sofrer as consequências. Claro que o vinho branco, muito fresco, foi a exceção. Também tenho direito à liberdade de expressão através de uma agradável libação. Comi peixe! Eu que nunca fui adepto de peixe e nem do Benfica. Enfim! 

Agradou-me sobremaneira a forma como o a funcionária do restaurante me olhou. Depois de alguma hesitação disse, “Está muito mais magro. Anda bem de saúde?”. Sorri e, meio confuso, disse-lhe que sim. A sua observação foi interessante. Fiquei na dúvida, “Será que estou mais magro ou é o efeito de ter cortado o cabelo, ter óculos novos e de não me ver há mais de um mês?”. Sorri e fiquei agradado por tamanha simpatia. Adoro este tipo de cuidados e atenções. Logo a seguir, no café ao lado, tomei o segundo café. A menina, que me reconheceu, trouxe de imediato o café com adoçante. Disse-lhe, “Tem boa memória. Muito obrigado”. Respondeu-me com um belo sorriso. 

Sim, momentos banais que são confortantes e que me ajudam a viver.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Três reflexões…

 Chuva

Saboreando um café no resto de uma manhã …


Andava com saudades da chuva. Tenho olhado incessantemente para o céu à procura de nuvens cinzentas, negras e pesadas capazes de refrescar a vida sedenta de água. Nada. Em troca recebo o azul do céu que tanto adoro, mas que agora causa-me ansiedade e até medo. Esta noite acordei com um cantar de alegria. A chuva caía doce e alegremente. É tão belo ouvir esta música. Acalma e transmite a esperança de melhores dias. Seduz e faz esquecer a dor de quem já não a consegue ouvir. A morte pode ser esquecida com o brilho e a alegria de quem pode dar vida, a água. 


Espera

A falta de rotinas  num local novo causa-me sempre ansiedade e até alguma frustração. Cada sítio tem as suas regras e usam-nas como se tivéssemos de as conhecer. Mas isso é o menos, o pior é a falta de cuidado e sobranceria como sou tratado. 

Gosto de ser acarinhado com um sorriso, uma atenção. Nada de complicado. O distanciamento é uma realidade, não falo do imposto recentemente, mas do devido a falta de empatia. Nada de surpreendente, claro, mas que me incomoda, lá isso é verdade. No entanto, faço por ultrapassar estas situações, passando a ir várias vezes ao mesmo local. Ao fim de algum tempo acabo por ser reconhecido. Depois é tudo muito simples, aproxima-se um sorriso e ouço um dialogar doce…

Para que isto possa acontecer tenho que esperar. Demora, mas vale a pena. 




Vícios

Não posso dizer que tenha vícios. Se os tiver não dou conta. Gosto de usufruir o prazer de pequenas coisas. Uma delas tem a ver com os alimentos do espírito. Já analisei e dissertei bastante sobre este assunto. Fui um fumador inveterado durante muitos anos. Fui o que se pode dizer um perfeito louco. Incorrigível? Não! Testei as minhas forças e fiquei a saber que era forte. Deixei de fumar cigarros às 23:55 horas do último dia de 1983. Foi terrível? Ui, se foi! Mas consegui. Desde esse dia guardo com certa voluptuosidade o meu último maço de cigarros. Acompanha-me religiosamente. Por vezes este episódio tem servido de argumentação contra os que se opõem aos meus conselhos. Sorrio quando dizem, “O senhor doutor nunca fumou. Se tivesse fumado não falaria dessa maneira. É a altura de me encostar à cadeira. Suspiro, sorrio e conto a minha história. Fui um verdadeiro Tom Mix.  Andava com dois maços de cigarros, um em cada bolso. Chegava a pagar a contrabandistas para me trazerem o reles tabaco espanhol, o “Fortuna”. Horrível? Sim. Era a única possibilidade de contrariar os grevistas da Tabaqueira no pós vinte e cinco de abril. No entanto, anos depois, passei a “saborear”, muito ocasionalmente, um charuto. Nada de mais e nem de menos. Recordo-me de um colega norte-americano que passou pelo mesmo e me disse um dia, “Salvador. Eu fumo dois charutos por ano em ocasiões especiais. Considero este como um deles. Importas-te que fume um?” Ainda por cima depois de termos feito conferências em que o tabaco foi a nosso “vítima”. Sorri e perguntei-lhe, “Tens um para mim?”. “Tenho pois!”. A partir daí, de quando em vez, ataco um bom cubano. Cuba também tem coisas boas, apesar de Fidel ter acabado um dia por dizer que oferecia com muito gosto charutos aos seus inimigos. Foi na altura em que ficou doente. 

Sabe bem. Os alimentos do espírito são saudáveis quando usados com parcimónia. A alma tem desses desejos. 

Seleciono os melhores entre os melhores a ponto de quando  entro na loja, a menina, sem perguntar o que pretendo, vai buscar logo duas embalagens do dito. Sempre com um belo sorriso. Também alimenta.

Vícios? Sei lá se são ou não…


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

“Sepultar a dor” …

De quando em vez, ao acordar, penso na morte. Começa a ser frequente, mas não estremeço e nem sinto medo, apenas uma estranha sensação de paz. Curioso associar a morte à paz ou a paz na morte ao nascer de um novo e belo dia.
Sou depositário de muitas lembranças que arrecadei ao longo da vida. Muitas estão relacionadas com a morte, esse estranho fenómeno com quem comecei a conviver, e até a tocar, desde muito novo. Muito novo mesmo.
Por causa de ter despertado a pensar na morte, recordei uma conversa tida há alguns anos. Já era muito tarde, foi num daqueles dias tristes em que o sol adormece demasiado cedo.
O meu velho amigo, após se sentar com alguma dificuldade, perguntou-me se conhecia fulano. 
- Quem? Não estou a ver.
- Não o conhece?! Ele trabalhou comigo muitos anos na fábrica, e, com um gesto largo, apontou na noite escura como o breu para o lado de lá do rio, como a querer comprovar a sua identidade. Ficou em silêncio durante breves segundos. Depois reiniciou a sua narrativa.
- Vivia na quinta mais a mulher, que estava muito adoentada, coitadita. Eram ambos velhotes.
- Está bem! Mas o que é que aconteceu? Perguntei, antevendo o pior, porque o estilo de linguajar, aliado à idade avançada, só podia ser o prelúdio de um passamento.
- Na véspera do Ano Novo tiveram de chamar o 112. A mulher não se sentia bem e levaram-na para o hospital. Ela andava em cadeira de rodas. Estava muito doente, coitadita. Depois, quando regressaram tiveram de lhe dizer que tinha morrido. Veja lá como são as coisas. O marido, quando ouviu, sentiu-se mal e não é que também acabou por morrer. Como são as coisas, senhor doutor, como são as coisas. Afligiu-se e morreu. Eles davam-se muito bem. Viviam sozinhos, isolados na quinta, mas eram boa gente. Gente de trabalho, de muito trabalho, e honesta, muito honesta. Acabaram por ser enterrados no dia do Ano Novo e na mesma cova. Viveram juntos, morreram no mesmo dia e foram sepultados na mesma cova.
- Sabe, ainda bem, apesar da tristeza da notícia da morte de alguém, fico aliviado. Não sofreram com a separação, e a dor também acabou por ser enterrada com eles, homem, mulher e a dor da separação sepultados ao mesmo tempo. Uma bela forma de começar o novo ano. Viveram juntos, morrem praticamente juntos e vão dormir juntos para a eternidade. Onde foram enterrados? Disse-me o local. 
- Mas não deverão ter tido grande acompanhamento. Praticamente ninguém os conhecia.
- Não faz mal. Eu tenho alguma ideia deles quando era pequeno, mas vou registar este episódio, pode ter a certeza, nunca mais o esquecerei pela emoção que me despertou e por saber até onde pode ir o coração das pessoas que se amam. 
Almas desconhecidas que se libertaram da vida sem serem alvo de grandes atenções. 
Dedico-lhes esta descrição e lembrança. Sempre pode ser considerada com uma forma de oração ao nascer de um belo dia de sol com a morte a bocejar e sem querer fazer mal.

sábado, 27 de agosto de 2022

Lucille…

Uma tarde cinzenta convidando a memórias cinzentas. Tarde sem história. Rotina cinzenta. Tudo hoje me parece cinzento. Perdura o aroma matinal das minhas rosas cheias de cor. Felizmente que não há rosas cinzentas.
- Como se chama? 
- Lucília...
Sorri. Tinha o mesmo nome que a minha mulher. Exame banal, simples, senhora com saúde e simpática. No decurso do exame disse-lhe:
- Lucília é um nome pouco comum.
- Pois é. Respondeu. - Não conheço muitas.
Aproveitei a deixa.
- A minha mulher também se chama Lucília e a minha sogra também se chamava. Sorriu.
- É pouco comum, mesmo. 
- Hum! Então, não é boa pessoa. Aqui o sorriso deu lugar a uma curta gargalhada.
- Eu gosto do nome. Disse. Eu e o B. B. King. Conhece? Não lhe dei tempo para responder. Foi um grande músico. A sua guitarra chamava-se Lucille e fez uma música dedicado a ela. Expliquei-lhe a razão de ser do nome e como é que surgiu. Vi que estava a gostar da história. Fiz o que tinha ainda a fazer, dizendo-lhe ao mesmo tempo:
- Quando acabar a consulta vou-lhe mostrar. Foi o que eu fiz. Assim que ouviu os primeiros acordes disse:
- Ah! Mas eu já ouvi.
- Claro! Quem é que nunca ouviu?
- Mas eu não sabia que a guitarra se chamava Lucille. A guitarra e a música. Obrigado, senhor doutor. Hoje já aprendi alguma coisa. Saiu com um sorriso de agradecimento e polegar levantado.
A ideia é essa mesma. Aprender todos os dias um pouco.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Dignidade de um livro…

Passei parte do dia a trabalhar. Nos intervalos ataquei a leitura. Bebi-a como se fosse uma das minhas bebidas preferidas. Senti um agradável calor. Vivi os sentimentos de pessoas que também conheci. Terminei agora mesmo. O livro, muito velho, uma primeira edição, deixou cair nas mãos a última folha e a contracapa. Nunca tinha terminado um livro desta forma. A meu lado esquerdo o grosso do volume e na minha mão direita a delgada e ambicionada página. Aprendi tanto. A natureza humana seduz-me. Todos os dias surpreende-me, quer ao vivo, quer através da literatura dos nossos, maiores ou esquecidos, ou, então, no mundo da minha imaginação.
Fui buscar uma fita adesiva e restitui ao livro a alegria e a satisfação de um final que nem sempre acontece. A vida continua e sobrevive à morte e ao malfadado sofrimento. 
O livro sorriu e agradeceu o meu cuidado... 
A dignidade é isto mesmo.