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sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Vontade de escolher o destino"...


Confesso que não me faltam histórias. São tantas que era capaz de passar o que me resta de vida a contá-las. Todas diferentes, e cada uma com o seu encanto. Encanto que tanto pode transformar-se num amplexo de alegria, num momento de tristeza, numa admiração do eterno, ou provocar um breve momento de reflexão.
Quando o vi pela primeira vez senti que era diferente. Educado, culto e aristocrata no mais amplo sentido da palavra. A conversa desviou-se da rotina da consulta. Rapidamente senti que era um ser diferente. Só. Quem vive na solidão da vida é sempre diferente. Nunca o questionei a esse propósito. Não tinha esse direito. Há coisas que devem ser respeitadas. Eu respeito-as como se entrasse num templo dedicado a qualquer deus, não por acreditar neles, mas porque acredito na dor e no amor de qualquer ser humano. O ritual da consulta tinha de ser respeitado. Fiquei preocupado. A situação era muito preocupante. Falo daquilo a que se convencionou chamar fatores de risco cardiovascular. Olhei-o. Questionei se sabia o risco que estava a correr. Não disse nada, apenas sorriu. Expliquei-lhe, “catedraticamente”, a situação e a urgência em ser tratado. Quando dei por mim, já tinha escrito uma carta ao colega de serviço nas urgências para “aliviar” de imediato a situação. Algo muito preocupante. Dissertei como mandam as regras sobre o assunto e expliquei-lhe a minha angústia. Sorriu. Sorria sempre com o máximo de delicadeza. – Vai agora às urgências. O senhor corre risco muito elevado de sofrer um acidente cardiovascular.  Falei sempre num tom baixo, profissional, acrescido da minha posição, que não era estranha ao senhor. Reforcei as minhas opiniões. Fiquei na dúvida se iria acatar ou não as minhas orientações. Quis acreditar que sim, mas, mesmo assim, agendei nova consulta ao fim de alguns meses, mais para saber se as “coisas” estavam ou não a ser controladas. Sorria agradavelmente e comportava-se com a mestria inerente a um verdadeiro aristocrata. Passado o tempo previsto apareceu. Fiz o interrogatório que deveria fazer e fiquei surpreendido com o facto da situação estar praticamente na mesma. – O senhor não está a ser tratado? – Não, senhor doutor. – Não me diga. Estou preocupado. O senhor tem que se tratar imediatamente. Olhei-o e pensei: - O melhor é medicá-lo e pedir ao médico de família para o acompanhar. Nova carta, nova orientação e nova explicação aliada à “velha” preocupação. Sempre delicado, deu-me a sensação de que iria cumprir com as determinações. Gostei daquele sorriso e a forma de estar.
No momento do exame de rotina fiquei convencido de que estava tudo controlado. Conversa de nível superior acompanhada de um sorriso que catalogo de encantador. Abri a boca de surpresa. Estava tudo na mesma. Perguntei-lhe se estava a ser tratado. – Não, senhor doutor. – Não?! Ó meu Deus. Mas porquê? Perguntei. Ofereceu-me o seu belo sorriso embrulhado numa encantadora conversa. Comecei a tremer e, até, a gaguejar, o que não é meu hábito. – Mas tem que se tratar. Tem que se tratar. Se fizer o que eu lhe estou a dizer poderá viver sem problemas e durante muito tempo. Olhei-o cheio de angústia e tive como resposta um belo sorriso. – Senhor doutor, não vale a pena incomodar-se comigo. – Como? Interpelei-o. – Senhor doutor, eu não quero ser tratado. – Como? A minha angústia ia subindo de intensidade acompanhada de uma estranha e profunda dor. O trabalhador, culto, educado e aristocrata, apercebeu-se da minha perturbação. – Senhor doutor, eu sei o risco que corro e agradeço-lhe do fundo do meu coração a sua preocupação, mas não quero ser tratado. Não fique triste e nem aborrecido. Deixe-me viver a vida como eu quero. O raio daquele sorriso, meigo, delicado, simples e muito vivo, perturbou-me. Pela primeira vez na minha vida, tinha à minha frente alguém a consolar-me. Quando saiu fui até à porta. Vi-o a atravessar o longo pátio. Pensei: - Não sei porquê, mas julgo ser a última vez que o vejo.
Hoje, comunicaram-me que teve morte súbita. O Senhor da Boa Morte premiou-o, e roubou-me um dos mais belos e aristocráticos sorrisos que vi até hoje.
Sinto que sei quais foram razões, mas não as quero partilhar...

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A esquerda lava sempre mais branco...

Hoje perguntei a vários amigos se sabiam o nome do actual Ministro das Finanças alemão. Só dois responderam que sabiam e sabiam mesmo.
Interessante, mesmo interessante. Por cá, o anterior Ministro das Finanças  de Merkel, o democrata-cristão da CDU, Wolfgang Schauble, todos os dias aparecia nos jornais e nas televisões, normalmente alvo de críticas severas por tudo e mais alguma coisa, pouco ou nada se lhe reconhecendo de bom. 
Nada tendo mudado na política do Ministério das Finanças alemão com este governo de Merkel, natural seria que as críticas continuassem, já que a política é a mesma. 
Mas não. O Ministro é agora do SPD, social-democrata, e há que preservar o pessoal da esquerda, por mais direitista que seja!...   

"Novelo de vida”...



Esta história tem quatro anos. Foi em 2 de maio, véspera de “Santa Cruz”. Encontrei-a num jardim. Depois, curiosamente, ainda a vi por mais dois anos, por mera causalidade sob o sol da tarde da velha judiaria. No ano passado não a vi, mas nem sempre o destino se lembra de me cruzar com seres que me marcaram. Este ano já passei por lá umas três vezes, e também não a vi. Eu sei que o frio não é convidativo a encontros fortuitos. O pior são as contas, em 13 de junho faz 98 anos. O meu problema é se já não faz...
Sou dado a memórias. Lembro-me sempre dela quando leio “Muito me tarda o meu amigo na Guarda!” Espero encontrá-la numa esquina. Certos lugares obrigam-me a pensar nas pessoas, simples, humildes e esquecidas.
Que hei de fazer? Nada.


“Após o almoço calcorreamos velhas ruelas sob um suave e doce calor, a fazer horas para ver o que não vimos de manhã. O almoço decorreu sob a égide dos produtos da serra, enchidos, carne e vinho. O cansaço, despertado pelo tempo de espera, levou-nos à procura de um banco. Sabia que nas redondezas havia um pequeno jardim. Abalei convicto de encontrar um assento que propiciasse brincar com o relógio e falar sem tempo. Debaixo da árvore estava um pequeno banco. Olhei e vi um novelo cinzento e negro a querer rebolar-se e saltar para o chão. Pequeno, muito pequeno e negro, o novelo humano começou a descer, andando à pato, cabeça pendida e bossa dorida. A minha mulher aproximou-se atraída por tão inusitada figura, e baixou-se. Começaram a falar. Ouvi: - Sim, ando a passear um pouco, mas moro ali em baixo no início da rua. Vou para casa. A fala era excelente e as ideias fluíam-lhe na razão inversa do seu corpo meio mirrado e que deverá ter perdido muitos centímetros à sua estatura inicial. Simpática, e desejosa de dois dedos de conversa, parou e começou a contar muitas coisas. Tinha que ser, pensei. Interrompia-a e perguntei-lhe qual era a sua graça. - Maria dos Anjos. - Posso saber a sua idade? - Sim. Tenho 94 anos. Nasci a 13 de junho, no dia de Santo António. A felicidade de ter nascido num dia tão importante levou-a a uma tentativa de levantar a cabeça, e sorriu, mostrando dois velhinhos caninos a ornamentar um enorme diastema avermelhado. Entretanto, algumas repas de cabelo branco e fino teimavam em mostrar-se fora do velho lenço negro. - O cabelo está a incomodá-la? - Não. Eu tive sempre um cabelo muito comprido, quase que me chegava aos pés. Mas sabe, naquela altura os pais não deixavam cortar os cabelos às filhas. Ainda tenho o cabelo comprido, mas tive que fazer tranças, porque não consigo levantar os braços para trás. Enquanto dizia isto, para provar, tirou o lenço negro para que pudéssemos ver duas tranças entrelaçadas numa espécie de rodilha. - Afinal, a senhora vive com quem? - Com o meu irmão e a minha cunhada. - Que idade tem o seu irmão? - Oitenta e seis anos. Olhe, meu senhor, eu já não consigo fazer o comer. Disse com muita pena. - Mas sempre tem quem o faça para a senhora. - Pois. Sabe uma coisa? Vou-lhe confessar. Não sei o que ando a fazer. Já estou cansada de viver. São muitos anos. - Não diga isso. - Digo, digo. Já tenho muita idade. - Mas ainda se mexe bem e fala com tanta desenvoltura. Tem uma cabeça a trabalhar como deve ser. - Pois! Como quem diz, tens razão, mas por isso mesmo é que ando cansada de viver. Mais uns momentos de conversa, assuntos de outros tempos, uma quinta onde cresceu, viveu e trabalhou e despediu-se. A casa não ficava muito longe, segundo disse. Espero que o seu fim esteja, apesar de tudo, muito mais longe.
No dia de Santo António vou lembrar-me da Maria dos Anjos, um delicado novelo de vida”.

Lembrei-me.


terça-feira, 19 de junho de 2018

"A mão"...

Nas minhas deambulações sem destino deu-me para ir por uma velha estrada atraído pelas cores de um outono a morrer, mas mesmo assim a querer mitigar o negro de uma paisagem indefinida. Ao sair de uma curva vi um carro adornado ao longe numa pequena ravina. Pensei que seria mais uma vítima do maldito incêndio de outubro. Quando me aproximei vi que o carro não estava queimado. Um pisca estava ligado. Achei estranho e pensei que algo teria acontecido. Apesar do local não ser adequado a estacionar, saí do carro e escorreguei pela ravina com alguma dificuldade. Pressenti que teria havido um acidente. Não conseguia ver nada no interior, o para-brisas estava partido e os airbags tinham disparado . De repente vi uma mão. Não se mexia. Toquei-lhe. Estava quente. Perguntei se estava bem. Uma voz determinada disse que sim. Estava bem. Era voz de mulher que correspondia perfeitamente com a pequenina mão sapuda. Senti angústia. Disse-lhe que era médico, como se isso fosse a solução para o problema. O que é certo é que ficou tranquila. Claro que naquelas circunstâncias não podia fazer nada. Estava encarcerada. Comecei a fazer algumas perguntas para saber o seu estado. – Acho que tenho um lenho na testa. Fiquei com a sensação de que o quadro não seria grave. Tomei as providências necessárias, pedindo socorro. O problema é que nestes casos o tempo quase que para de uma forma assustadora. Mantive uma conversa o mais interessante possível. Soube quem era, o que fazia, onde morava, a idade, quem eram os pais, tudo o que se possa imaginar. Em matéria de conversação nunca me faltaram temas! Explicou-me como o acidente tinha ocorrido. Foi uma aranha que andava no carro há algum tempo e que quis afugentar. Distraiu-se e foi pela ravina. Também lhe contei algumas histórias sobre aranhas. Que conversa mais parva, falar de aranhas naquela posição, de joelhos e de mãos dadas. Mãos dadas. Durante algum tempo tive de fazer telefonemas e atender o telefone da jovem. Era a mãe. Expliquei-lhe o que é que se tinha passado, mas acalmei-a com autoridade. Ficou mesmo calma. Subitamente  a jovem sinistrada pediu-me: - Senhor doutor?- Sim, diga. - Dê-me a sua mão se faz favor. Estou nervosa. Dei-lha durante todo o tempo até chegar o socorro. Aguardei que a desencarcerassem. Quando ia a ser transportada para a ambulância aproximei-me e fiz-lhe uma festa na cara. Sorriu em forma de agradecimento e piscou-me o olho. A mãe, que entretanto tinha chegado, e com a qual falei duas vezes, indicando onde estávamos, aproximou-se, deu-me um beijo e agradeceu. 

sábado, 16 de junho de 2018

"A imagem"...

Andar pelo interior de Portugal é muito parecido como me ver ao espelho. Envelhecido, fechado, olhar sem esperança, sentimentos perdidos, desejos escondidos no outro lado do espelho, vida sem sentido e dores desconhecidas. O sorriso tipo “selfie” não existe, embora o mirar do meu olhar se possa considerar como essa forma moderna de registar os acontecimentos da vida.
Andei e  vi tudo o que começo a ver no espelho. O que me incomoda é o respirar, o sonhar, o aromatizar e o chagar de almas desejosas de serem esquecidas por quem nunca as conheceu.
Deitado no banco, dormia. Não sei se sonhava, e caso andasse pelo mundo dos sonhos, gostava de conhecer o filme do seu sono. Deveriam ser imagens simples, pálidas, quentes e um ou outro anjo meio embriagado a prometer-lhe as honras do divino.
Ei-lo. A imagem é uma espécie de porta a convidar a entrar para o outro lado...

sexta-feira, 15 de junho de 2018

"Justiça"...


Em pequeno ensinaram-me a respeitar os outros em todos os sentidos. Fui educado a respeitar a lei, a justiça e o senhor doutor juiz. Um homem de bem nunca deve ter medo da justiça, porque esta é o nosso garante e defesa, dizia o meu avô. É aqui que devemos procurar a justiça, dizia apontando o dedo para o tribunal velho. 
Ao longo da vida tive de ir algumas vezes ao tribunal, não como arguido, felizmente, mas como testemunha. Uma das vezes fui despronunciado por um hipotético crime que afinal não existia e uma outra como queixoso, mas da qual não obtive o reconhecimento devido. Fui atropelado por uma bicicleta, mas os ciclistas, donos das estradas, não são obrigados a terem seguro! 
Participar como testemunha é um dever cívico. Não me importuna, o que me incomoda é aquele conteúdo cheio de ameaças. É a chapa “cinco”. O pior é quando adiam os julgamentos. No último, que acabou por ser repetido, e depois de já ter sido ouvido por duas vezes, fui notificado quatro vezes, o que me obrigou a alterar a minha vida com prejuízos, e incómodos, indiretamente, a muitas dezenas de pessoas. Esperei mais de duas horas até ser, conjuntamente com outras testemunhas, convidado a entrar na sala de audiências. O juiz explicou que a nossa dispensa foi da responsabilidade dos advogados de defesa. Fê-lo formalmente, explicando que a “Justiça” não tinha qualquer culpa. – Está bem. Pensei. O juiz defendeu a sua “Justiça”, mas não explicou o facto de ter adiado por quatro vezes os nossos “silenciosos” depoimentos. 
Será que ele pensa que a "Justiça" está acima de todos? Julgo que sim, e não deve ser o único. Mas não, a Justiça está "abaixo" de todos. É o pilar, é o baluarte, é a terra-mãe em que a sociedade assenta de forma a garantir a nobreza e a honra de quem quer viver em paz e em liberdade. Os cidadãos merecem ser respeitados. 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

"Simples"...

 

Viver é um somatório de inúmeras situações, vivências, emoções, sentimentos, dores, prazeres, desastres, traições, infortúnios e algumas coisas simples. Talvez sejam estas últimas as apaziguadoras da mente, justificando dia que há de renascer. 
Sentei-me na esplanada e conversei com o dono. Coisas triviais, mas profundamente humanas, capazes de solidificar a amizade desejada. Gosto deste tipo de conversa, e se for numa tarde enfeitada com sol, debaixo de música agradável, tanto melhor.  
Encontrei o meu amigo cauteleiro. Ao ver-nos, sorriu e deu-me a impressão de ter deixado de gaguejar. - Os senhores por aqui. Já andava aflito. Não têm aparecido. Eu olho sempre. Pensei que estivessem doentes. Conseguiu exprimir o seu sentir sem gaguejar uma única vez. Sorri. Disse-lhe que não, enquanto ao mesmo tempo ia escolhendo uma cautela. - Anda a pregar para o Santo António, mas o dia dele foi ontem. - Poiiiis foooi! Voltou ao normal. Desejou-nos muita saúde, agarrando as nossas mãos com uma satisfação evidente, dizendo que a gente esquece apenas as pessoas que não são boas. Achei interessante a sua observação. Com a cautela na mão tive de lhe dizer que só "prometia", mas nada de prémios. Calou-se, sorriu, como a dizer, tem razão, mas logo a seguir, num perfeito linguajar de um tartamudo, disse: - Tantas vezes vai o cântaro à fonte que lá fica a asa. - O pior é se fico eu! 
No regresso, não planeado, é assim que gosto de viver um dia de cada de vez, passei por Tibaldinho. Já passei por lá vezes sem conta, mas como a observação à terra foi feita de forma interrogativa, tive de explicar que era a terra de belos bordados. - Até temos um que comprei aqui há alguns anos. Lembras-te? - Não. Já estava à espera. Há alguns anos, no verão, entrámos numa rua muito estreita. Algumas mulheres estavam sentadas nas ombreiras das portas. Uma senhora de idade, vestida de preto, ar muito triste, sentada nas escadas da sua casa, informou-me a meu pedido onde poderia adquirir bordados de Tibaldinho. - Eu tenho alguns. Eu bordo. O senhor quer ver? - Claro. Estacionei o carro num largo e subimos a sua casa, muito modesta e limpa. Minúscula. Abriu uma caixa e retirou vários. A senhora mostrava ansiedade. Apercebi-me das suas dificuldades. Não me foi difícil de concluir que estaria a passar por algum momento complicado. Aprecei os bordados, mas deu-me a entender que não iria comprar nenhum. Explicou-me as horas e as semanas para fazer alguns deles. Adquiri o mais caro. Não regateei e entreguei-lhe o montante em notas. Tremia quando as recebeu. Não queria acreditar. Tive a perfeita sensação de a ter ajudado, porque ouvi um breve e interessante suspiro ao mesmo tempo que fazia, o mais discretamente possível, o sinal da cruz. Hoje, subi a estreita rua, a tarde quente fazia-se sentir, e as mulheres daquele canto estavam sentadas nas ombreiras das suas portas. Descobri as escadas e a casa minúscula. Uma senhora de idade, vestida de preto, cabelo branco, cortado um pouco rente e com olhar feliz, olhou-nos. Vi quem era. Acenámos sem parar. Respondeu na mesma moeda com um sorriso suave. Eu soube quem era, ela, obviamente, não. 
Coisas simples. 

quarta-feira, 13 de junho de 2018

"Vazio"...



Zisi, neto de Confúcio, foi um filósofo interessante. Segundo ele as pessoas sábias deveriam copiar a realidade para dentro de si, princípio patenteado no seu livro, "Doutrina do Meio". Para compreender os acontecimentos da vida é preciso uma mente "vazia", ou seja, é necessário esvaziar as nossas cabeças no dia-a-dia para poder pensar. Um conceito interessante a lembrar um outro, o de Zaratustra de Nietzsche. Sempre que observamos um objeto, ou experimentamos um acontecimento, só o podemos ver sob uma nova luz se a nossa mente estiver "vazia". Mas há um grande problema a ser resolvido. Como esvaziar uma mente cheia de "conhecimentos"? Há duas possibilidades, através da empatia e da justiça social. No primeiro caso, se alguém estiver a sofrer devemos entrar na mente do sofredor, e não ficarmos pela análise e crítica aos sistemas sociais de proteção que garanta o bem-estar social. Se virmos que existe poluição num rio, pudemos utilizar os conhecimentos científicos para a explicar, mas só imergindo nas suas águas é que conseguimos compreender a situação. Não estou a ver um antigo candidato à presidência da câmara de Lisboa a mergulhar nas águas do Tejo na zona de Abrantes ou na Ribeira dos Milagres! A segunda maneira de "esvaziar" a nossa mente é através da justiça social. Face aos inúmeros problemas que nos atingem poucos são os que se interessam pela justiça das coisas, caso das causas da poluição ou das alterações climáticas. Nestas circunstâncias preferem saber quais as vantagens, quase sempre económicas, como é fácil de compreender, em obter dividendos da situação. Pois não, dirão alguns retóricos, são boas oportunidades de negócio.  
Empatia? Dói! Justiça social? Que se lixe! Se aliarmos esta dupla recusa aos preconceitos, aos interesses económicos e ao branqueamento religioso, então, é fácil de concluir que o processo de produzir conhecimento fica arredado da maioria das mentes, permitindo o imperativo egoísta, a pretensão saloia, a explicação política e o determinismo religioso.  
Zisi sabia o que dizia e também que nunca chegaria o "tal" dia. Esvaziar a mente para produzir conhecimento e germinar sabedoria? Mais fácil é esvaziar a bexiga. 
Tenho pena em não ter conhecido Zisi, caso contrário dizia-lhe: - É mais fácil esvaziar a bexiga do que a mente. Sempre é um alívio que até dá prazer. Mas ele também devia saber isso.   

terça-feira, 12 de junho de 2018

"Palavras"...

Não sou astrónomo, mas não me importava de ser, como gostaria de ter sido tantas outras coisas. No fundo, seduz-me o conhecimento e tudo o que se esconde atrás dele. 
Em miúdo enganavam-me frequentemente quando queriam que fizesse as longas caminhadas da estação até à vila. Longas para as pernas de uma criança. À noite era mais complicado. Convenciam-me que na curva seguinte da Via Cova, um caminho estreito e íngreme que serpenteava a encosta, havia um buraco onde se escondia uma raposa. Eu corria e espreitava, dizendo: - Raposa, raposinha, anda cá que eu estou aqui! Mas nada. Repetia uma, duas vezes, mas nada. Lavrava o meu protesto debaixo das inúmeras estrelas que, divertidas, riam-se convulsivamente com o comportamento de uma criança. Até as cigarras deveriam pensar que era estúpido. Mas eu acreditava nas palavras dos adultos. Diziam logo: - Se não está nesse buraco, corre, que mais acima, no muro, deve lá estar. – Mas está mesmo? Perguntava desconfiado. – Está. Às vezes muda de lugar porque não gosta de ser incomodada. Ela também tem medo. – Do escuro? – Não. Tem medo, mas é das pessoas que lhe querem fazer mal. – Mas eu não lhe faço mal. Só quero fazer-lhe festas na cauda. – Corre. Pode ser que ela esteja mais acima. Eu ia e repetia: - Raposa, raposinha, anda cá que eu estou aqui! Mas nada. Nunca a vi.  
Acreditei muito tempo na palavra. Dou como palavra o testemunho de todas as estrelas que eu via no meu universo. Eram muitas. Riam-se de mim conjuntamente com as cigarras. Como não conseguia ver a raposa, passava todo o caminho a olhar para cima, para a beleza do firmamento, fazendo perguntas que eu não conseguia ainda expressar por palavras. Quantos coisas estranhas deveria haver por ali.  
Cansado, caía na cama como uma pedra sonhando com uma bela raposa doirada a saltitar de estrela em estrela. 
O mundo é grande e não há palavras que cheguem para escrever o que esconde. 
- Raposa, raposinha, anda cá que eu estou aqui! 
Acredito que ainda esteja lá. O mais difícil é saber como chegar. Através das palavras, claro. Mas não tenho ainda palavras para isso... 

sábado, 9 de junho de 2018

"SÃO SEBASTIÃO"...

Já tive oportunidade de explicar a razão de gostar do São Sebastião, capitão da guarda pretoriana de Diocleciano, imperador romano. Sendo cristão, era benévolo com os crentes, facto que o levou a ser considerado como traidor e condenado à morte por flechas. Lançado ao Tibre acabou por ser resgatado por Irene, mais tarde elevada aos altares. Novamente presente perante o imperador acabou por ser executado através de espancamento e o seu corpo lançado nos esgotos de Roma. 
Foi alvo de várias obras, uma delas li-a em pequeno, Fabíola, do cardeal Nicholas Wiseman. Nunca mais esqueci a belíssima capa do livro. 
A sua sua imagem fascina-me desde pequeno, tronco nu, amarrado a um tronco e cravejado de flechas.
Portugal tem uma característica religiosa que considero única. Em todas as procissões, sejam elas em honra de quem for, aparece sempre um São Sebastião. Está presente em muitas igrejas e quanto a capelas, upa, upa, é difícil, penso eu, encontrar um santo com tantas. São Sebastião pode mesmo ser considerado como o campeão das capelas em Portugal. Presumo que tenha a ver com a peste, a fome e a guerra, a tríade destruidora da humanidade. Na falta de melhor, São Sebastião tornou-se no santo protetor para as pestilências humanas. É tão popular que até tivemos um rei chamado Sebastião que tudo fez para o honrar. Lisboa tinha sido assolada em 1569 pela peste. O rei mandou erigir um templo junto à margem do Tejo e até o papa lhe enviou de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.
Muito mais havia a contar a propósito deste cristão que tentou converter Diocleciano em vão.
No seu dia, 20 de janeiro, costumo calcorrear alguns sítios onde lhe prestam homenagem. Este ano passei por alguns locais e fiquei triste, nem uma festa, nem uma procissão, nem uma venda, nem música ao estilo de Quim Barreiros, nem um taberneiro, nada. Ainda pensei: - Ó Sebastião! Será que as pessoas estão a esquecer-te? Não me respondeu.
Confesso que me faltam dois santos para juntar aos muitos que andam por aqui. Faltam-me um São Brás e o São Sebastião. Já prometi, caso consiga adquiri-los, que não vou adquirir mais nenhum santo. Uma professa com odor a falso. Só eu é que sei.
Não conto as voltas que já dei a propósito para arranjar um São Sebastião. Queria um com arte e com dignidade. Não queria nenhum que ficasse meio acabrunhado junto aos seus colegas. Nada. No dia do santo, deu-me para procurar um. Encontrei alguns, mas eram muito dispendiosos. A loucura ataca-me com frequência, tenho que confessar, mas na maioria dos casos consigo domesticá-la. De repente vi uma imagem do santo. Uma preciosidade indo-portuguesa que estava nas mãos de um vendedor alemão. Elaborada por santeiros de Goa nos finais do século XIX. Sorri. O preço não era muito elevado, mas mesmo assim era um pouco pesado. Lancei a minha oferta, certo de que não seria atendida. Mas fiz. Passado pouco tempo recebi a resposta, propondo um valor mais baixo, e que era perfeitamente aceitável. Não estava à espera. O que é que eu fiz? Lancei nova proposta só para testar o vendedor, certo de que se não a aceitasse eu aceitaria a dele. Não é que ele aceitou! Nem queria acreditar. Resumindo, já tenho um São Sebastião. Ainda por cima de origem indo-portuguesa!
Bom, tenho que agradecer ao santo. De facto, mais tarde ou mais cedo acabo por conseguir o que desejo. Estranho? Um pouco. Mas foi sempre assim.
A história continua, porque logo a seguir arranjei um São Brás. 
Depois conto-a.