Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Trapalhadas com o PIB...e seus protagonistas

Ficou ontem a saber-se o que já há bastante tempo se suspeitava: o crescimento económico, no corrente ano será muito inferior ao que havia sido decretado pelo Governo e pelo BP e por ambos mantido ferreamente, sob juramento, até que a realidade os veio desmentir.
Mas há coisas neste episódio da revisão súbita da previsão de crescimento que são muito curiosas.
Ontem, por exemplo, um dos diários “on line” mais devotados à nobre causa oficial, apresentava este delicioso tratamento do tema:
- Com destaque: “Economia portuguesa converge coma Zona Euro ao crescer 0,9% no 1º trimestre” (confundindo, deliberadamente, crescimento em termos homólogos e em cadeia)
- Mais abaixo, em letra envergonhada: “Lituânia e Portugal tiveram o pior desempenho da União Europeia, com um crescimento negativo de -0,2%”
Sem mais comentários...
É extremamente provável que esta tenha sido a primeira revisão do crescimento do PIB para 2008 e que nova revisão ocorra a seguir às férias de Verão, mais concretamente em Setembro, quando forem divulgados dados do 2º trimestre.
E é bastante provável, atentando no andamento da carruagem económica, que a variação anual do PIB não chegue a 1%.
Acresce que não está excluída a possibilidade de uma recessão, agora em termos técnicos e não apenas na tese mais ousada, há dias sustentada pelo Dr. Miguel Cadilhe e que levou as vestais do regime a unirem-se num comovente coro de desagravo.
Se de facto viermos a cair em recessão técnica - o que acontecerá se o crescimento do 2º trimestre, em cadeia, voltar a ser negativo como o do 1º trimestre - Miguel Cadilhe terá motivos para sorrir e as nobres vestais, envergonhadas, procurarão refugio seguro para exercício de sua dolorosa ascese...
Particularmente curiosa a recentíssima profecia do Gov-BP, em plena Comissão de Economia e Finanças da AR, segundo a qual a economia portuguesa iria crescer este ano PROVAVELMENTE acima da média da Zona Euro e SEGURAMENTE o mesmo que a média da Zona - assim se entrando na sonhada convergência...
Os dados do 1º trimestre apontam exactamente o contrário: enquanto na média da Zona Euro o crescimento foi +0,7%, o “nosso” foi -0,2%.
Para que se cumpra essa generosa profecia, seria necessário que a economia portuguesa acelerasse bastante nos próximos trimestres e que a economia dos outros 14 países desacelerasse fortemente – cenário inverosímil.
É caso para dizer que o Gov-BP anda com pouca sorte (será só?): em Novembro do ano passado garantia que a subida dos preços no consumidor era um fenómeno muito passageiro e que estava excluída uma subida dos juros em 2008...foi o que se viu...
Agora, com o crescimento, é o que se vê...
A propósito, onde para a oposição?

As Cantinas dos Grandes Chefes!...

Segundo a edição de amanhã do Expresso, depois de França e Inglaterra terem contratado chefes famosos para reformular os menus das cantinas escolares, os cozinheiros portugueses não quiseram ficar atrás e desafiaram o Ministério da Educação a fazer o mesmo.
Fiz uma ronda pelas cantinas escolares onde os chefes da nova vaga começaram a pontificar, tendo começado por uma escola de Alvalade. O refeitório parecia a sala do Tavares: mesas postas a preceito, talheres de prata, baixela Vista Alegre como o nome do cozinheiro, auxiliares de refeições impecavelmente ataviados. O menu da semana estava afixado numa luxuosa moldura, devidamente iluminado com luzes indirectas, para não ferir a vista.
2ª feira: Carré de borrego desossado, depois rôti com tomate de longa cozedura, em cama de legumes lacados com geleia de limão e sumo de poejo; Sobremesa: Chocolate de Auarany morno, servido fofo, gelado de fava de tonka
3ª feira: Filete de peixe-galo, meunière perfumado com caril, arroz selvagem, milho, tomate, cereja e coentros; Sobremesa: Sopa de chocolate negro e branco com rabanadas, banana flamejada e sorvete de queijo fresco
4ª feira: Bochecas de porco preto alentejano estufadas, espargos verdes, castanhas com erva-doce e presunto estaladiço; Sobremesa: Sopa de frutos tropicais com sorvete de manga e pastelinho de Tentúgal
5ª feira: Lombo de bacalhau com molho de queijo da serra e frutos secos, batatinha a murro e miga crocante de broa de milho com grelos; Sobremesa: Cheese cake de framboesa e balsâmico
6ª feira: Garoupa com polenta cremosa, sucos de trufa; Sobremesa: Jalousie de maçã e pêra, gelado de caramelo com flor de sal
Claro que havia, à discrição, águas, soft drink, cervejas, vinho branco e tinto, café ou chá, digestivos, vinho do Porto, whiskies novos (Scotch, Malt, Bourbon, Irish, Canadian, etc) e aguardentes velhas.
Paradoxalmente, os alunos faziam uma greve de fome, exigindo bife com batatas fritas e peixe frito com açorda!...
Passei a uma escola da Picheleira, onde a ementa semanal era basicamente à volta de arroz com carne assada, caldeirada de cabrito, grão com bacalhau e similares. Os alunos também estavam em greve de fome e, com grandes cartazes, exigiam um Chefe.
Como o almoço era bacalhau, reivindicavam Laminado de bacalhau e seu tártaro com sapateira e mini-legumes com vinagreta de coentros e bâlsamico. Como sobremesa, bolo de chocolate e laranja, gelado Grand-Manier e ainda Carpaccio de abacaxi com anis estrelado e gelado de coco!...

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Para quando a liberdade de escolha?

O CDS/PP apresentou ontem um projecto de diploma sobre a "autonomia das escolas" que foi chumbado pelo Parlamento, o que não surpreende, atentos os preconceitos ideológicos relativamente à concepção de uma escola pública assente na liberdade de escolha dos pais da escola para os seus filhos.
Não conheço o projecto de diploma, mas a ideia de liberdade de escolha da escola é uma ideia que me agrada porque considero que é relevante que a escola tenha qualidade, sendo irrelevante se a escola é propriedade do Estado ou propriedade de privados.
O que deve ser assegurado pelo Estado é uma rede de serviço público de educação à qual podem concorrer escolas públicas e escolas privadas. Importante é a qualidade da educação ministrada por esta rede, devendo o Estado estabelecer requisitos mínimos curriculares e pedagógicos, níveis de propinas a cobrar, estabelecer regimes de avaliação e fiscalizar o seu cumprimento.
Um modelo destes deve assentar num elevado grau de autonomia da escola, desde a escolha do modelo pedagógico e do modelo de funcionamento, passando pela contratação de professores e pela gestão administrativa e financeira dos recursos.
Concordo que a condição económica das famílias não deve condicionar a liberdade de escolha da escola. Porque não sendo assim, como acontece hoje, só as famílias com capacidade económica têm direito ao exercício dessa liberdade. As famílias de menores recursos não têm possibilidade de escolher, ficando-lhes vedada a impossibilidade de os filhos frequentarem as melhores escolas.
Acresece que a liberdade de escolha da escola é um factor que induz maior qualidade porque promove a concorrência entre escolas da rede de serviço público de educação, independentemente de os equipamentos serem públicos ou privados. Por outro lado, a liberdade de escolha contribui para uma maior responsabilização dos pais na vida da escola, constituindo um estímulo para o seu maior envolvimento com reflexos tendencialmente positivos na qualidade da resposta escolar.
Um serviço público de educação com esta concepção é, na sua essência, mais democrático ao permitir a igualdade de oportunidade das famílias, independentemente da sua condição de rendimento, e também mais eficiente porque a liberdade de escolha e a autonomia de gestão favorecem melhores desempenhos. Para quando a liberdade de escolha?

A feira das vaidades

Dizem que é do livro, dos editores, dos livreiros, do público que lá vai ver e comprar livros.
Agora caminha para ser a feira das barraquinhas.
"A minha barraquinha tem que dar mais nas vistas que a tua".
"A tua tem que ser maior que a do outro".
"A do outro não pode ser diferente da minha".
Já consigo imaginar a nova feira do livro em Lisboa.
Uns têm o stand feito pelo Siza. Outros o do Taveira.
O Manuel Salgado também desenhou aquele. Até o Frank Gehry anda por lá.
Os que têm pouco dinheiro e não arranjaram arquitecto, pintaram um caixote de azul às bolinhas cor-de-rosa.
A nova Feira do Livro é uma grande festa. Cada stand sua imagem.
Cada livreiro sua corzinha.
Cada editor sua barraquinha.
Quanto mais dinheiro, mais espalhafato.
Até conseguiram importar a arquitectura dos casinos de Las Vegas.
Os livros esses...
... parece que pouco interessam.
Só não consigo perceber qual é a dificuldade da Câmara Municipal de Lisboa em explicar a estes senhores do livros que as barraquinhas não são para dar espectáculo.

A cabeça e os pés!...

Uma legião de funcionários vem-se entretendo, há anos, a investigar, interrogar, publicitar, acusar ou arquivar matéria futebolística. Provavelmente para atingir objectivos de acusação, alguns processos, já enterrados, foram desenterrados. E seguiram-se novas reinvestigações, reaudições, republicitações, reacusações e ou rearquivações.
Os resultados das investigações e das reinvestigações, das audições e das reaudições, das acusações e das reacusações, das arquivações e das reaquirvações foram enviados à Comissão Disciplinar da Liga, que procedeu a rereaudições, rereinvestigações, rerearquivações, rerepublicitações e rereacusações. E às condenações exigidas pela opinião pública!...
Ouvi hoje que o Ministério Público vai voltar a apreciar alguns processos que mandou arquivar, após as conclusões da Comissão Disciplinar da Liga de Futebol.
O que significa que vai rererecomeçar todo o processo de alguns processos.
Também ouvi que a Comissão Disciplinar da Liga vai rerereapreciar outros processos, na sequência das decisões dos Tribunais comuns.
A justiça, à falta de matéria relevante, encontrou um nicho de mercado, num movimento contínuo sem pausa, nem parança nem fim, para entreter os dias dos seus laboriosos servidores.
Mas está certo.
E eu até concordo. Jogando-se o futebol com os pés, mal seria que a justiça tratasse a matéria com a cabeça!...

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Desconcertante...

Ele há coisas verdadeiramente desconcertantes na política portuguesa.
Ontem o Senhor Procurador-Geral da República foi ao Parlamento transmitir aos deputados da Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias o seu parecer sobre a proposta de lei de nova organização judiciária ou, como também é conhecido, o novo mapa judiciário .
Considerou, se não erro, que a proposta, tal como formulada, é um grave atentado ao Estado de Direito.
Relata a imprensa que esta afirmação baseou-a o senhor PGR em dois aspectos no seu entender "perigosos": o desrespeito pela lei da paridade entre os magistrados judiciais e do ministério público e a atribuição de funções administrativas ao juiz-presidente do tribunal.
Digo já que tenho algumas reservas quanto à bondade das soluções propugnadas pelo Governo nesta matéria e submetidas à AR.
Mas nunca me passou pela cabeça considerá-las um grave atentado ao Estado de Direito, em especial pelas razões invocadas pelo senhor Conselheiro Pinto Monteiro.
É que, não sendo crível que o Senhor Procurador desconheça a Constituição, não se percebe onde é que na Lei Fundamental se encontra dito, ou resulta implícito, que entre os momentos essenciais do Estado de Direito se acha essa tal "lei da paridade" da judicatura com o ministério público.
Como também não entendo que se possa dizer que ofende o Estado de Direito a atribuição ao juiz de poderes de direcção sobre os Serviços e de administração do Tribunal.
Ao longo de duas décadas de vivência da minha profissão de Advogado, sempre ouvi reclamados pelos senhores magistrados os poderes que esta reforma agora lhes quer conceder. E sempre também vi registada nos diagnósticos sobre o funcionamento dos tribunais, a ausência de envolvimento de quem administra a justiça na administração das casas da justiça como um dos factores que explica a ineficiência do sistema (como agora se tornou moda dizer).
Enfim. No discurso político o Estado de Direito é normalmente um chavão, entre muitos. Não me surpreende. Já a tamanha banalização do conceito pelo magistrado prestigiado que é o Procurador-Geral da República, faz-me impressão, confesso.

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Que droga!...

É dito que o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência luta contra o flagelo. Em Novembro de 2006, publicou o seu Relatório, que se revelou um verdadeiro programa de marketing aplicado em prol da difusão e do consumo da droga.
Em bom marketing, proclama a acessibilidade do preço, vincando a sua baixa generalizada, propiciando naturalmente a democratização do produto; em bom marketing ainda, vai avisando que o preço de algumas espécies, como a heroína, poderá subir, o que servirá para estimular, desde já e sem perda de tempo, a aquisição a grosso ou a retalho, como forma de prevenção e de poupança futura.O Relatório pormenoriza os mercados de rua, por produtos e por países, apresentando mesmo uma tabela com o preço por unidade de referência do haxixe, da heroína, da cocaína, do ecstasy e do LSD, em diversos países da Europa, incluindo os preços em países como Portugal, Espanha, França, Alemanha e Inglaterra. Portugal é o país da Europa onde a cannabis é mais barata. Cada grama de haxixe custa 2,3 euros e cada grama de erva 2,7 euros, quando a média dos restantes Estados varia dos cinco aos dez euros, e na Noruega ascende mesmo aos 12. Face aos preços, fica a feito o convite ao abastecimento em Portugal, o que potenciará este país como um entreposto e plataforma do comércio da especialidade, atraindo investimento acrescido. Estudo razoável para as autoridades; publicado, excelente trabalho de promoção.
Muitos dos mais aguerridos na condenação da droga são os que pedem a sua liberalização. Mas liberalização provoca maior oferta, pelo acesso mais fácil, pelos preços acessíveis e pela inexistência de constrangimentos à procura. Logo, um mercado mais vasto, mais negócio para os senhores da droga. Paradoxalmente, é de bom tom combater a droga, promovendo a sua expansão.
O Instituto da Droga e da Toxicodependência visa lutar contra a droga. Como ontem referi, publicou um “dicionário do calão” para jovens a partir dos 11 anos, em que a droga é apresentada em termos entusiásticos, como “cativante e vaporosa” ou como de sedução e atracção irresistíveis e são descritos processos de a obter “pedrinha branca, pronta a snifar”. Ao mesmo tempo, qualquer não consumidor é definido como “conservador, desprezível e desinteressante”.
Exemplos, apenas, entre muitos, mas suficientes para evidenciar como, objectivamente, algumas Instituições oficiais fazem a propaganda do que dizem combater.
Os senhores da droga agradecem comovidamente tal fervor combatente!...

Porque nos contentamos com pouco?

Às vezes penso como é bom viver em Portugal, ter nascido neste jardim à beira mal plantado e ter aqui as minhas raízes culturais e religiosas.
Apesar de todos os nossos problemas económicos e sociais, das nossas dificuldades em encontramos um rumo positivo para a nossa economia e de descobrirmos o caminho do progresso, apesar das desigualdades sociais que encontramos à nossa volta, da pobreza que nos rodeia, da injusta distribuição da riqueza que não temos, da persistência em cometermos os mesmos erros, da teimosia em nos queixarmos da nossa má sorte, da falta de ambição que nos caracteriza, apesar de tudo isto temos sorte em viver aqui, aqui em Portugal.
Envolvidos que estamos nas azáfamas e rotinas diárias e nas lutas do dia-a-dia, esquecemo-nos e tantas vezes não valorizamos que vivemos em liberdade, num país pacífico e de brandos costumes (pelo menos tem sido assim), feito de gente boa, hospitaleira, simpática e sonhadora, aquecidos por um sol radioso e banhados por um mar azul a perder de vista e na companhia de tantas outras coisas boas…
Quando penso nas vítimas das desgraças e tragédias naturais, nos crimes praticados contra a humanidade, na violação dos direitos humanos, na repressão e na violência dos regimes autoritários, na fome e na guerra que ceifam milhares de vidas humanas e nos radicalismos e fundamentalismos “religiosos” que reprimem e oprimem o ser humano, dou-me conta da sorte que tenho.
Bem nos podemos comparar com os nossos vizinhos europeus e ambicionar sermos iguais ou ainda melhores, mas raramente valorizamos as condições superiores de que dispomos e que verdadeiramente não aproveitamos quando ao olharmos mais longe além fronteiras deste velho continente europeu o que encontramos é uma miséria humana incapacitante.
Ao abrir ontem as páginas dos jornais chocou-me impressionantemente o relato da morte de uma rapariga iraquiana de 17 anos assassinada pelo pai por ter cometido o “pecado mortal” de se ter apaixonado por um soldado inglês. O pai matou-a com a ajuda dos filhos e afirmou que se soubesse no que a filha se transformaria a teria morto à nascença. Não bastando, na página ao lado, a notícia de uma rapariga do Curdistão apedrejada na praça pública até à morte por ter fugido com um árabe sunita não me deixou indiferente. E que dizer da junta militar toda poderosa que governa a Birmânia, ou melhor que se governa, que impediu sem dó nem piedade a ajuda humanitária internacional às dezenas de milhares de pessoas devastadas pelo ciclone “Nargis”, recusando-lhes o auxilio de que tanto precisam.
Perante tantas barbaridades, sou levada a reforçar a obrigação que temos, não se tratando apenas de um direito, de cuidar do nosso futuro, trabalhando com vontade de fazermos melhor. Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar a nossa liberdade, a nossa inteligência e os nossos recursos e gastarmos o tempo sem resultados.
Pode ser que olhando seriamente para aqueles que fazem mais e melhor e não esquecendo aqueles que pouco ou nada têm mas que vivem para sobreviver ganhemos ambição e força para vencermos!

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

“Cegueira”...

O meu netito, João António, com 3,5 meses, foi baptizado, recentemente, na magnífica Sé Nova de Coimbra. Fiquei muito agradado por ter participado em tão interessante cerimónia durante a qual o padre conseguiu uma simbiose única ao alternar os rituais com um informalismo amoroso, deixando transparecer uma ternura própria de quem tem uma alma grande.
O miúdo respondia-lhe com constantes sorrisos. Os dois “safados” pareciam que estavam a entender-se às mil maravilhas, ao ponto de aperceber do encanto produzido no sacerdote que não se coibiu, a certa altura, em fazer um pequeno discurso como se fosse a própria criança!
Sempre que fazia um gesto ritual, explicava-o. Ao ungi-lo, explicou que estava a fazer o mesmo sinal que Cristo fazia quando procedia à cura dos cegos. Acto contínuo, naquele belo templo, cheio de luz, de calor e de uma contagiante alegria para a qual contribuiu a inquietude da neta de quatro anos, talvez deslumbrada com o ambiente, recordei-me dos que não vêem.
Um episódio passado com um velho amigo, respeitável conversador da minha terra, há muitos anos, fez-me sentir a felicidade dos que conseguem voltar a ver. O homem, a quem a vida foi madrasta - roubou-lhe o único filho num acidente -, quase ficou cego, tendo acabado por ser operado às cataratas. Num Sábado à tarde entrou no meu consultório. Perguntei-lhe se estava doente. Respondeu que não. Tinha ido ali só para me dizer que tinha estado a chorar quase toda a tarde sentado no viaduto. – A chorar? – Sim! Mas de alegria! - Já não me recordava como o céu era tão azul e tão límpido. Além do mais até consegui ver a velha igreja de Óvoa ao longe! Veja lá! Regressei à minha juventude. Estou tão contente, oh doutor! E saiu cheio de felicidade. Pena foi que, passado muito pouco tempo, os seus olhos acordassem tingidos de amarelo, traduzindo uma grave doença que acabou por o vitimar algumas semanas mais tarde.
Regressando aos gestos curadores de Cristo, que o sacerdote imitava e explicava, e com todo o respeito pelos crentes, presumo que deveriam ser dirigidos mais à cegueira espiritual do que à orgânica. De qualquer modo não deixava de ser um “pequeno” gesto que hoje tem o seu equivalente ao alcance de muitos especialistas capazes de dar visão a quem não a tem. Verdadeiros “milagres” que, infelizmente, estão longe de atingir os mais necessitados que esperam e desesperam. As recentes idas a Cuba, promovidas por alguns autarcas, têm causado muita polémica. No entanto, podem e devem despoletar a actividade dos curadores nacionais e a intervenção dos responsáveis. São mais dispendiosas? Não se justifica ir tão longe quando temos pessoal competente? Não importa! O que interessa é que contribuam para a resolução dos problemas das pessoas de forma a sentirem a tal felicidade que o meu amigo desfrutou, embora por muito pouco tempo.
A primeira vez que vi o quadro de Pieter Brueghel, O Velho, “A Parábola dos Cegos”, ilustrando a passagem de S. Mateus (“quando um cego guia outro cego, ambos caiem no abismo”), fiquei incomodado. Agora, face ao que ocorre por aí, sinto uma estranha sensação de que cegos andam a conduzir outros cegos. Um pequeno gesto seria o suficiente para os por a ver. Falo, naturalmente, de muitos condutores que sofrem de “cataratas intelectuais”.
Escrevo esta pequena nota, porque ao sentar-me na preciosíssima sala dos actos da Faculdade de Ciência Médicas de Lisboa – onde não me canso de ir -, no decurso de mais uma prova académica, fiquei de frente face ao esplendoroso mural de Esculápio ladeado por duas alegorias. A da esquerda, representa Hipócrates a examinar um cego, com duas figuras femininas transportando os meios para o tratar, a da direita o agradecimento ao deus pela vida e saúde de uma criança...

A quadrilha angolana

Lixeira

Não resisti!
Depois de tanto ouvir sobre as reacções à afirmação de Bob Geldof, feita no passado dia 6 de Maio, decidi vasculhar a Web.
E o que encontrei no Jornal de Angola Online é notável.
No dia 7 o título é "O cómico Geldof e a falsa notícia".
No dia seguinte a notícia é titulada pela frase "Crítica de Bob Geldof é um exercício gratuito".
Hoje, atingiram o auge. "A quadrilha dos abusadores" foi o título escolhido para vociferar em todas as direcções. E os alvos são muitos e variados: Belmiro de Azevedo, o Público, Pinto Balsemão, o Eixo do Mal, etc., etc., etc..
Assistimos ao regresso da PIDE, dos colonizadores e dos mercenários.
Mas a afirmação sobre as motivações de Clara Ferreira Alves é de antologia.
A não perder!

Os Barões da droga!...

O Instituto da Droga e da Toxicodependência lançou um produto novo no mercado destinado aos jovens que queiram iniciar-se e descobrir os prazeres da droga e da toxicodependência, fazendo, aliás, jus ao seu nome. Denomina-se o produto “dicionário de calão” e abarca com grande profundidade os temas referentes à matéria em apreço.
Em primeiro lugar, e como qualquer manual de marketing ensina, o consumidor tem que sentir importante.
Assim, um não consumidor de droga é considerado no dicionário como “conservador, desprezível e desinteressante”, isto é, um “careta”. Na melhor das hipóteses, quem não se droga é definido noutro local, para repisar bem a ideia, como “conservador e desinteressante”, isto é, um “betinho”.
O dicionário introduz ainda os processos de alquimia que tornam a droga “ cativante e vaporosa” ou o processo de obter a “pedrinha branca, pronta a snifar”. Determinado produto é ainda classificado, muito propriamente, como de "sedução e atracção irresistíveis".
O Presidente do IDT, que não apoiou o projecto anti-droga da Câmara do Porto, provavelmente para poupar energias para projecto tão pedagógico, explicou que o site teve a colaboração do Ministério da Educação. Claro que o ME responde sempre à chamada e diz sempre presente nestas matérias tão essenciais à formação dos jovens. É esse, aliás, o seu reconhecido papel.
Por mim, bem continuo a pensar que os barões da droga não desdenhariam inspirar, apoiar e financiar tão reluzente e frutuoso marketing. Eficaz, atractivo, gratuito e com a permissão oficial!...
Pois é de pequenino que se endireita o pepino!...

Posturas e imposturas

Apesar do desfile quase diário do Primeiro-Ministro pelas televisões em cermimónias de distribuição do bodo, nem uma das empresas "contratantes" viu um só cêntimo. Notícia de hoje, no JN.

A minha Selecção



Scolari indica hoje os jogadores escolhidos para o Europeu de Futebol.
Aqui fica a minha selecção:

Quim
Bosingwa Pepe R. Carvalho Paulo Ferreira
Paulo Asunção Deco Raul Meireles
Quaresma Hugo Almeida Ronaldo
completada com:
Eduardo/Ricardo
Miguel Meira Bruno Alves Jorge Ribeiro
Petit Miguel Veloso João Moutinho
Simão Nuno Gomes Nani
Bons êxitos!...

Domingo, 11 de Maio de 2008

Da série ´O Princípio da Relatividade´ (2)

A campanha no PSD está a aquecer? Os preços sobem, assusta a perspectiva de uma inflação galopante e a possibilidade de falta de alimentos? O custo da energia pode atingir valores preocupantes? Sócrates está já arrependido da escolha que fez para o Ministério da Saúde, depois da ministra lamentar decisões do seu colega das finanças? Que relevância tem tudo isto em vista desta notícia?

“Pensar em voz alta?”...

Muitas pessoas que são convidadas para ocupar cargos governamentais e públicos são sérias, honestas e com manifesto desejo de servir a causa pública. Alguém tem dúvidas? Eu não tenho. No entanto, muitas, quando são confrontadas com as “rígidas” normas políticas estabelecidas pelos chefes, sentem-se desconfortáveis, porque o que pensam, o que anseiam e o que desejam não são compagináveis com as “regras” superiores. Estas são criadas de acordo com a ideologia, os interesses do momento, as disponibilidades financeiras, as pressões dos lóbis e as expectativas dos ganhos e perdas no futuro, enfim, de um conjunto de forças em que o superior interesse do povo acaba por ser relegado para um nível inferior. Alguém tem dúvidas? Eu não tenho!
Imaginem o que é estar no Parlamento e ser-se confrontado com boas ideias e interessantes propostas da oposição. Habitualmente o que é que acontece? Não são aceites! Por que não prestam? Não! Mas como vêm da oposição ou porque o governo gostaria de as apresentar (a inveja é terrível!) ou porque envolvem despesas não previstas ou atropelam os interesses de determinados grupos ou mesmo por mesquinhez acabam por ser rejeitadas. Mas o governo ou a maioria que o suporta não têm boas ideias? Claro que têm! E o que é que lhes acontece? Nada, a não ser os ataques dos opositores. Com base em argumentos correctos? Duvido! Porque quando chegam ao poder não têm qualquer pudor em assumir como suas as “más” propostas que anteriormente rejeitaram! Chama-se a isto política? Parece que sim! Mas boa é que não é!
Os ditos “bons” políticos têm uma faceta muito interessante, na minha opinião, se optassem pela representação artística seriam os máximos!
O problema prende-se com os que não têm jeito para a representação. Querem participar, querem colaborar, querem dar o seu melhor ao país, mas quando são confrontados com determinadas situações que não se encaixam dentro da sua natureza, valores e humildade política, acabam por sofrer. Também há os que representam muito mal, mas com não têm humildade política tanto lhes faz que digam que são aldrabões ou incoerentes. Ficam-se nas tintas, porque a sua auto-estima e arrogância estão muitos furos acima.
Não conheço pessoalmente a senhor ministra da saúde, Ana Jorge. Mas, pelo que tenho lido e visto, consigo reconhecer uma senhora com postura, simpática, interessada, honesta, humanista e com humildade política. Boas qualidades humanas e técnicas. O episódio relativo ao acordo da entrega da assistência médica dos funcionários do Estado a um hospital privado, efectuado pelo senhor ministro das Finanças, traduzido na palavra “lamentável” revela a tal consciência superior. Quais foram as consequências desta atitude? Vejamos: a senhora ao ser confrontada pela comunicação social foi “ultrapassada” pelos seus secretários de estado, verdadeiros guardiões políticos, ao responderem: “Não, a senhora ministra não vai responder a isso” e “Não, não respondemos a isso” e toca a abalar com a senhora no meio!!!
No dia seguinte, o “patrão”, no Parlamento, no seu estilo habitual, tratou de “interpretar” o que é que a senhora queria dizer e que foi mal interpretado... Julgam que eu acredito que a senhora queria dizer o que o PM disse? Só se fosse parvo!
A senhora deve estar muito incomodada. Não auguro nada de bom. Estou convicto de que não deixará de, em qualquer momento, dizer o que pensa sobre algum assunto mais delicado, pondo em “risco” a política governamental, a não ser que a “policiem” a torto e a direito.
Pensar em voz alta dá direito a ir para a rua...

Festa é festa-V-A primeira multinacional


Os séculos XVII e XVIII são descritos como a Idade de Ouro de Amsterdam, quer pelo crescimento da cidade, quer pelo seu sucesso ultramarino, nomeadamente na Indonésia, base do seu império das especiarias, no Brasil, onde governou vária zonas, e em Manhattam, que denominou mesmo de Nova Amsterdam.
A Companhia das Índias Orientais (VOC) tem sido considerada como a primeira multinacional do mundo. Companhia pública (no sentido inglês, formada por capitais abertos ao público, isto é, privados), foi criada em 1602, tendo como accionistas vários mercadores e burgueses de Amsterdam, tendo obtido o monopólio do comércio a leste do Cabo da Boa Esperança. Foi a VOC que esteve na origem do conceito de “acção”, quando dividiu o capital em quotas iguais e transferíveis.
Durante 200 anos foi o principal veículo das especiarias, pimenta, noz moscada, canela e outras, provindas da China, Japão e Indonésia.
O tráfego era intenso. Nesse período, calcula-se que, em média e por ano, saíam de Amsterdam cerca de 150 naus da Companhia das Índias, entre 2 e 3 naus por semana, com uma tripulação entre 30 e 40 efectivos. Chegou a possuir 40 navios de guerra e um exército privado de 10.000 homens, como protecção e apoio às suas actividades, desenvolvidas por 50.000 funcionários.
O êxito da empresa enriqueceu os accionistas, que chegaram a receber distribuições de dividendos que remuneravam em 40% os capitais investidos e os impostos sobre as mercadorias e as rendas cobradas enriqueceram a cidade de Amsterdam e toda a Holanda. Os armazéns afectos à Companhia das Índias no porto de Amsterdam eram enormes, estendendo-se por 500 metros ao longo do cais.
Num serviço devidamente integrado, as mercadorias eram transaccionadas no Mercado da Bolsa, logo ao lado, na actual DAM, onde também foi criado um Banco de capitais públicos (isto é, privados) que suportava as transacções e financiava os novos empreendimentos. Tal como agora, também no Mercado da Bolsa de Amsterdam dos séculos XVII e XVIII se fizeram e desfizeram fortunas imensas.
No último quartel do século XVIII, a VOC começou a ter problemas financeiros e foi liquidada em 1799.
O Amsterdams Historisch Museum é um repositório desta e de muitas histórias da cidade.

A ASAE, o SIADAP e a essencialidade dos "OBJECTIVOS"

A notícia mais relevante do fim de semana (1), foi a alegada escorregadela do senhor inspector-mor da ASAE sobre a avaliação dos inspectores sob sua direcção e alto comando.
É mais um a juntar-se aos múltiplos casos de dirigentes que gostam da exposição mediática e que acabam vítimas dela. O senhor Inspector já teve, ao longo do seu mandato, bem mais do que os ambicionados 15 minutos de glória. Ou muito me engano ou se aproxima rapidamente a hora da saída de cena...
O caso que veio a lume das orientações dadas para a avaliação do pessoal de inspecção da ASAE não tem, todavia, a ver com este organismo. Tem a ver com o sistema de avaliação da Administração Pública que o Governo concebeu, pagando bem pagas as consultadorias da moda, e a Asssembleia da República aprovou sem fazer grande questão do assunto.
O regime jurídico do SIADAP - assim se chama esse produto, feito lei, da mais apurada investigação sociológica sobre as organizações e sua gestão - consta da Lei nº 66-B/2007, de 28 de Dezembro, para além dos regulamentos de execução.
A avaliação (dos funcionários, dirigentes e dos próprios serviços) faz-se em razão dos "objectivos". "Objectivos". Passou a ser a palavra mágica para políticos e gestores. Sem objectivos não se vive, não se respira. Não se faz, não se empreende, não se realiza. Pode haver mais vida para aquém de tudo o resto. Não há vida para quem fique aquém dos objectivos.
Ou pelo menos, di-lo a lei, não é possível aferir das prestações de cada um. E como vivemos em competição permanente e esse é o pilar essencial do desenvolvimento económico, social e individual, é necessário comparar os funcionários em função dos objectivos. Os objectivos sepraram, pois, os capazes dos incapazes e darão corpo a uma Administração rumo à modernidade!
Ora, que noção dá a lei de "objectivos"? Esta, e cito: "o parâmetro de avaliação que traduz a previsão dos resultados que se pretendem alcançar no tempo, em regra quantificáveis".
Pois bem, a esta luz, não vejo qual o pecado cometido pela ASAE. Ao definir como objectivos um um número mínimo de detenções, apreensões e coimas num prazo de um ano, da ASAE só se pode dizer que cumpriu escrupulosamente a lei da República, tal como o faz quando combate a colher de pau, o chouriço artesanal ou a ginginha no Rossio.
Por isso não alinho na censura ao senhor inspector-mor da ASAE que mais uma vez só cumpre a lei. Tal e qual o fez quando foi visto e fotografado no casino a fumar uma cigarrilha no preciso dia em que entrou em vigor a lei proibicionista. Como se veio a confirmar mais tarde, os casinos estão obviamente livres dos rigores da lei, e a denúncia transformou-se numa torpe calúnia.
Uma nota final. Ao invés do que pode dar a entender o título de primeira página do ´Expresso´, não se julgue que a lei é susceptível de ser censurada pela maioria da opinião publicada. Ao invés, ela alinha pelo sentimento geral de que nesta coisa de avaliar polícias só contam as que caem no chão.
Então como é que se avalia, por exemplo, a PJ? Ou as prestações do Ministério Público?
O que resulta das sucessivas notícias é que estas instituições são inoperantes e quem as serve, incapaz. E isto é assim porque segundo as análises que são fruto das mais refinadas inteligência e saber dos opinadores, das inúmeras denúncias sobre os mais variados crimes - muitas delas anónimas, alimentadas por ódios ou pelos apelos permanentes á bufaria - , a maioria acaba por ser arquivada e ninguém é acusado e muito menos condenado!
Querem prova mais evidente de objectivos bem definidos e não atingidos e, logo, da mais destilada incompetência?
Toda a gente sabe que em matéria de crime, neste cantinho outrora de gente proba e pacífica, não são mais as vozes que as nozes. Não. Nem tão pouco acontece por aqui que alguns media promovem campanhas negras, procurando dar do País uma imagem irreal no que toca ao comportamento individual e colectivo, sem o que ficariam sem o que lhes permitiria vender. Não. Significa, à luz dos bons princípios do SIADAP, que a PJ e o Ministério Público não cumpriram os objectivos. Não prenderam, não acusaram, não arrastaram pela lama tantos cidadãos quantos os objectivos determinavam.
E os inocentes? Alguém por aí falou em inocência? Ora, santa inocência! Se depois viessem a ser julgados inocentes, isso seria pormenor irrelevante face ao essencial que é o de garantir a eficácia e a eficiência de quem serve o omnipresente Estado.
(1) Fui entretanto advertido que esta notícia foi a SEGUNDA mais importante. A primeirissima foi a despedida de um jogador de futebol. Como é que esta me passou...

Sábado, 10 de Maio de 2008

Preços dos cereais sobem...e leviandade política mostra-se

Os preços do milho - para além do trigo, do arroz, da soja e de outras matérias primas alimentares - também estão a bater records.
Ontem, atingiram USD 6,27 por “bushel” (medida igual a 36,4 litros, equivalente a pouco menos de 3 alqueires), registando uma subida de 75% em 12 meses (preço há 12 meses era USD 3,58).
Os analistas admitem a subida para USD 7,0 dentro de alguns meses.
Esta subida do preço do milho está a exercer grande pressão sobre os preços da carne e dos lacticínios em geral, na medida em que o milho é uma base importante da alimentação animal.
Na colheita de milho 2007/8 nos USA, a parcela afecta à produção de etanol foi de 33%, ou 4 mil milhões de “bushels”, quando em 2006/7 essa parcela tinha sido apenas de 22%, ou 3 mil milhões de “bushels”.
Devido à pressão das diferentes procuras, os stocks de milho nos USA estão ao nível mais baixo dos últimos 13 anos.
Perante estes problemas do encarecimento brutal dos bens alimentares (já nem falamos dos combustíveis) e da escassez em várias regiões do Mundo, consequência de um desequilíbrio estrutural entre oferta e procura - que se tem alguma tendência perceptível é no sentido de um agravamento nos próximos anos - o Ministro “responsável” pela pasta da Agricultura em Portugal terá declarado que se trata apenas de “um problema de preços”!
Como se os preços fossem um fenómeno abstracto e autónomo e existisse uma relação meramente acidental entre os preços e esse enorme desequilíbrio dos mercados agrícolas, provocado em boa medida pelo crescimento galopante da procura de bens alimentares nas economias emergentes…e da afectação de quotas crescentes das colheitas de cereais à produção dos biocombustíveis (etanol, biodiesel) que subsidiamos com os nossos impostos…
Como se esse problema dos preços fosse susceptível de solução à revelia do problema fundamental do desequilíbrio dos mercados…
Que bela demonstração de leviandade política! Ou será pior que leviandade?

Chumbar é assim tão mau?

Bem sei que o assunto está estafado, já estamos cansados de ouvir falar nele. O pior é se rapidamente não passamos a falar dele pelas boas razões, com orgulho e satisfação. O assunto é, mais uma vez, a educação.
Ideologia do igualitarismo? Trabalhar para a estatística? Mas qual é afinal a razão porque a ministra da educação é contra os exames? Porque é que é contra o “chumbo”?
Não creio que alguma coisa se resolva, se nada mais for feito pela qualidade do nosso ensino, com afirmações como esta recentemente proferida “Facilitismo é chumbar, rigor e exigência é fazer com que todos aprendam”. A ministra da educação considera que o chumbo é um “mecanismo retrógrado e antigo” e lembra que foi introduzido quando o sistema educativo se organizava para seleccionar e separar. Agora que o ensino é universal, que todos, embora desiguais, têm acesso à escola, todos têm que ser iguais lá dentro e à saída!?
Quando olhamos para as taxas de insucesso registadas no País, quem o diz é a OCDE, não podemos deixar de concluir que a qualidade do ensino não é boa, que ao trabalho se sobrepõe o facilitismo, que aos hábitos de disciplina e exigência se sobrepõe o laxismo, que ao gosto de ensinar e aprender se sobrepõem a rotina e o entretimento e por aí fora!
Segundo a OCDE (citado na imprensa “No More Failures”) a taxa de retenção/desistência no Básico foi de 10% – correspondente a 95.047 casos – enquanto que no Secundário a taxa ascendeu a 24,6%, ou seja, 53.587 estudantes. Números avassaladores, difíceis, é certo, de combater, mas que nos envergonham e que teimamos em não conseguir ultrapassar. Segundo o mesmo relatório, cada aluno (Básico e Secundário) custa 5.000 euros por ano. Feitas as contas a factura directa do insucesso escolar custa aos portugueses a módica quantia de 743 milhões de euros por ano. Se lhe juntarmos os "chumbos" que normalmente se sucedem à primeira experiência e os males associados – défice de qualificações, impreparação e ignorância, cidadãos com capacidade reduzida de gerar riqueza, incapacidade de recuperação e por aí fora - compreendemos que continuamos a comprometer o futuro. Os custos económicos e sociais são exponenciais!
Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência e de bom senso compreende que os “chumbos” deveriam acabar porque prejudicam o presente e o futuro, mas que não devem esconder a falta de aproveitamento. Infelizmente há também muita gente que se habituou ao facilitismo e que fica muito contente quando houve os nossos responsáveis políticos fazerem a apologia de que o “chumbo” traumatiza os “meninos”, que prejudica a sua formação e desenvolvimento.
Enfim, mais do que discursos, o importante mesmo são as políticas prosseguidas para elevar a qualidade do ensino, na qual se incluem os professores, os modelos de gestão e autonomia das escolas, os currículos, as técnicas de trabalho, de estudo e de provas de aproveitamento, os mecanismos de intervenção para ajuda e recuperação dos alunos que têm dificuldades, as alternativas de encaminhamento profissional, etc. "Chumbar" é um mal necessário e nas actuais circunstâncias, em que não é possível de um dia para o outro sermos a Finlândia, que os nossos governantes tanto gostam de citar, o melhor é mesmo fazer exames e só passa quem sabe!

Tributo bem merecido!...

Monumento erguido, em 2007, pela cidade de Amsterdam, homenageando as trabalhadoras da mais velha profissão do mundo!...

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Doença Crónica. Um atributo da vida.

O homem aspirou desde sempre à imortalidade e à saúde total. Não conseguiu nem uma nem outra. E, muito provavelmente, nunca irá conseguir, porque a doença, segundo George Rosen, “é mais antiga que o homem, é tão antiga como a vida, porque é um atributo da própria vida”.
Tudo leva a pensar que uma das razões que está na base das doenças foi permitir o aparecimento da vida. Os programas das células primitivas tinham que aceitar a degenerescência das mesmas a fim de possibilitar a sua sobrevivência. Podemos especular que a degenerescência maligna teve a sua quota parte no sucesso do projecto de vida. Quem diria que o cancro, responsável por tantas mortes e sofrimento, estaria na base da nossa própria existência? Além do mais, é impossível dissociar a saúde da doença, porque ambas são as faces da mesma moeda.
As grandes conquistas que se verificaram no último século e meio foram determinantes para um aumento substancial da esperança de vida que, neste momento, no mundo ocidental, anda pelos 80 anos, contrastando com o que se verificava no início do século XX quando rondava os 40. É certo que ainda estamos longe da duração máxima de vida que, na nossa espécie, deverá andar pelos 120 anos.
É do conhecimento geral que à medida que envelhecemos o risco de adoecer e de morrer aumenta, não de um forma linear, mas de acordo com uma regra exponencial muito bem ilustrada na famosa lei de Gompertz, que nos permite calcular que por cada oito anos de vida o risco de morrer duplica. Se começarmos a fazer as contas a partir dos 10/11 anos, idade em que se “não morre”, é fácil de concluir que aos 18 anos duplica a taxa, aos 26 quadruplica, aos 34 anos octuplica, aos 42 anos a taxa de mortalidade é dezasseis vezes superior, aos 50 anos é trinta e duas vezes mais, aos 56 anos sessenta quatro vezes. O melhor é não continuar...
Se admitirmos que as doenças, na sua grande maioria crónicas, seguem também esta lei, então é fácil de concluir que começam a ser muito prevalentes por dois grandes motivos; vive-se não só cada vez mais como o número de pessoas de idade aumenta de forma assustadora. Sendo assim, compreende-se que as prevalências dos diferentes tipos de doenças atinjam cifras preocupantes. Claro que a par daquelas duas grandes razões, poderíamos enunciar muitas mais, nomeadamente as desigualdades socioeconómicas e certos estilos de vida e comportamentos adoptados pelas populações.
Vários estudos realizados em Portugal apontam, inequivocamente, para prevalências elevadas de doenças reumatismais, doenças cardiovasculares e outras doenças degenerativas, as quais são fontes de perturbações para os portadores, constituindo um enorme peso para a comunidade e famílias.
O controlo e o combate das doenças crónicas exigem: medidas políticas, medidas socioeconómicas, “definição” de doença crónica, cuidados a ter com a “Mongering Disease”, capacitação dos doentes (associações a defender os seus interesses), boa cobertura médica, terapêuticas eficazes e aumento da adesão à terapêutica. As consequências de uma ausência e/ou deficiente controlo e combate das doenças crónicas são muito preocupantes, sobretudo para um país como o nosso, onde a par de pobres recursos se adiciona um nível cultural muito baixo fruto de um atraso crónico que só por si constitui a pior das doenças crónicas.
O panorama das doenças cardiovasculares e dos principais factores de risco e a sua evolução em Portugal são paradigmáticos do muito que há a fazer para que as pessoas possam não só viver mais, mas, sobretudo, com mais saúde, contribuindo para o fenómeno da “contracção da doença e do sofrimento”, de modo a que ocorra nos últimos períodos da nossa existência, de preferência no último mês ou semana! Um bom desejo, face à impossibilidade em evitar a doença...

Festa é festa III


Em tempo de festa, a propensão marginal para a liquidez é lei económica pública e incontrolável!...
E os serviços públicos correspondem!...

Democracia de papel

Há poucos dias o Governo distribuiu pelas autarquias da área de influência do novo aeroporto, um projecto de decreto visando o estabelecimento das necessárias medidas preventivas destinadas a proibir ou condicionar novas ocupações e actividades nessa zona, pedindo-lhes o seu parecer.
Deu como prazo fnal para a sua recolha o dia de hoje, 9 de Maio. Há mesmo um presidente de câmara do PS que jura a pés juntos que o secretário de estado das Obras Públicas lhe prometeu que o prazo seria prorrogado face à complexidade da matéria.
Pois ontem, antes do fim do prazo, o Conselho de Ministros aprovou o decreto.
Não faltará quem, cavalgando a onda politicamente correcta de malhar nos autarcas, virá a terreiro dizer que é muito bem feito, aplaudindo a atitude do Governo porque os autarcas só dão pasto à especulação imobiliária e que por isso a sua opinião nem sequer deveria ser pedida para não ter de ser desprezada. Isto é, neste caso, ao contrário de outros, nem sequer valeria a pena manter as aparências.
Pela minha parte vejo aqui um sinal, mais um sinal, dos tiques autocráticos deste Governo, que nenhuma consideração revela por outro poder que não o que exerce. Mesmo o que tem um legitimidade democrática directa, como é o caso do poder autárquico (e não é o caso do Governo).

Festa é festa II


Não sei se os holandeses gostam ou não da monarquia. Mas festa como a do aniversário da Raínha, celebrada a 30 de Abril, isso nunca vi, nem nada de semelhante.
Centro da cidade cortado ao trânsito, tive que palmilhar, mala atrás, mais de um quilómetro até chegar ao hotel. Mesmo que o táxi pudesse ultrapassar as barreiras, dificilmente passaria a multidão. Dezenas de milhares de pessoas vestidas de cor de laranja da monarquia, aos magotes, nas ruas e nos canais, passeando, saltando ou dançando, música em cada esquina, esplanadas, restaurantes, pubs e bares repletos. E cerveja, muita cerveja, ocupando por vezes ambas as mãos, não fosse o produto esgotar-se. No meio de tanta euforia, um enorme civismo no comportamento pessoal, com a excepção de ser o chão o depósito natural das latas e das garrafas de bebidas, dos pacotes das batatas fritas e de um lixo inimaginável, mesmo para um habitante de Lisboa.
Juntos, o Santo António de Lisboa, com o S. João do Porto e mais os festejos dos títulos europeus do FCPorto seriam manifestação modesta perante a festa que me foi dado ver.
Curiosamente, o aniversário comemorado não é o da Rainha Beatriz, mas o da Rainha-mãe Juliana, já falecida. Por duas razões, uma por sentido de gratidão, pela acção da rainha durante a Guerra, e outra por sentido prático, porque a data calha na primavera e o tempo é mais propício ao festejo.
De qualquer forma, sem feriado os holandeses não passam. No caso do dia 30 de Abril ser um domingo, o feriado é devidamente comemorado na véspera!...

O guru americano e o Senhor Julião


Leio a notícia no Diário Económico de hoje e fico perplexa. O título, “Revolução wikinómica em curso”, é para mim indecifrável, tive que ler tudo para perceber do que se tratava.
Há então um novo guru americano, Don Topscott, cujo livro foi o mais vendido na Amazon.com do ano passado, que veio cá vender o seu produto. E que nos diz ele? Pois profetiza, com base em muitos e atentos estudos, que o futuro próximo, o da geração dos actuais jovens adultos, é a “geração das multidões inteligentes” porque, graças à miraculosa, instântanea e omnipotente tecnologia digital, todo o conhecimento está à distância de um “clic”.
Dominado o meio virtual, na prática os nossos pés deixam de estar na terra, livramo-nos do peso desta matéria que nos limita – ah!, a desmaterialização, esse sonho tornado realidade, até agora só abrangia os papéis mas eis que tudo é desmaterializável – e pronto, eis-nos livres como uns passarinhos! Quando quisermos saber alguma coisa, o meio virtual tem. Quando precisamos de ajuda, pedimos ao meio virtual, outras virtuais criaturas hão-de responder e o problema evapora-se. Não precisamos de chefes para nada, sabemos tanto ou mais que eles, conforme a destreza em navegar no virtual, podemos gastar muito menos tempo a trabalhar porque está tudo escrito algures num ponto do universo ali mesmo à mão de semear. O guru chama-lhes “comunidades colaborativas” e aponta como grande avanço que “o talento pode estar fora da empresa” porque, digo eu, tudo passa a estar disponível em todo o lado…
Deixemos agora de lado a minúcia de o homem querer vender a Portugal essa chave mágica da entrada no seu negócio, a “nGenera Innovation Network” e de, ao que parece, a coisa estar bem encaminhada.
O que me impressionou foi a conclusão entusiástica com que ele repeliu as sensatas reticências de Luís Nazaré e de Vítor Bento quanto ao esplendor dessa anarquia virtual nas empresas e na sociedade.”Acordem”, disse ele, “há sabedoria nas multidões, tudo nesta revolução contribui para a qualidade de vida e para sociedades mais felizes”.
Quem sou eu para duvidar de tanta revolução, de tanta virtualidade e da inevitabilidade do que este visionário nos avança. Mas permito-me ter as maiores dúvidas quanto a essa questão da felicidade.
Um mundo em que ninguém precisa de ver ninguém, em que todos “contactam”com todos mas ninguém precisa em concreto de outras pessoas, qualquer um serve? Uma multidão prestável e anónima a responder ao mail lançado para o etéreo e os talentos espalhados aos sete ventos como uma mercadoria vulgar? Não.Tudo isso será verdade, menos a felicidade que lhe associam. Invoco a meu favor o Senhor Julião, um simples jardineiro que mal teve tempo de me ensinar os rudimentos da jardinagem antes de morrer numa curva da estrada, abalroado, na sua Vespa, por um camião desgovernado.
O Senhor Julião falava das plantas com um carinho estranho, como se fossem seres vivos, dizia que “estavam angustiadas”, que “tinham fome”, que “não lhes posso dar a água que querem para não perderem resistência” e tudo florescia sob as suas mãos grossas e rudes. Eu tentava aprender mas logo concluí que aquilo era matéria vasta, nunca saberia tanto como ele, e um dia disse-lhe que tinha pena de saber tão pouco de um tema de que tanto gostava.
E ele parou de “aconchegar” a terra à raiz da roseira e disse: “A natureza só deixa cada um saber algumas coisas. É para precisarmos uns dos outros, já viu a tristeza que era se todos soubessem de tudo? Éramos muito infelizes, assim sozinhos”.
Que pena o Senhor Julião não ter estado na conferência do guru.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Música sobre Angola

Bob Geldorf
O que Bob Geldof disse sobre a actual situação em Angola merece-me uma única frase:
"Acertou em cheio!"

A ocupação silenciosa

Lembro-me que há já alguns anos - 22 para ser preciso - da primeira vez que estive em Macau, me terem oferecido um livro (de que não recordo o título e que hoje procurei e não encontrei...) no qual se fazia a prognose de que no princípio do século XXI a República Popular da China iria provocar uma alteração radical no jogo dos poderes económico e político à escala mundial.
A previsão confirma-se. A China transformou-se numa potência determinante do rumo do mundo e da economia mundial. E dela depende já a estabilidade de muitos Estados, não por via político-militar, como aconteceu na segunda metade do seculo XX, mas de um poder mais imperceptível.
Cenário improvável, quase de ficção, para a maioria dos dirigentes do mundo ocidental dos anos 80 e 90 do século passado, a verdade é que, no jogo das interdependências, os chineses, silenciosamente, foram dando as cartas. Sem que nesta parte do mundo se tivesse a percepção, que só agora vai ganhando forma, que o baralho é made in china.
A Unica, revista que acompanha o ´Expresso´desta semana traz um trabalho sobre o que chama invasão silenciosa.
Revela, por exemplo, que hoje a China ocupa o segundo lugar na lista dos maiores exportadores do mundo, e arrecada o terceiro quando se fala em países importadores. Só em 2007, o volume de exportações da União Europeia para o gigante asiático chegou aos 48 mil milhões de euros. Em Portugal, a Associação Comercial e Industrial Luso-Chinesa assegura que há 20 mil chineses legalizados, 5 mil estabelecimentos comerciais e 400 restaurantes.
Estes números dizem bem da dimensão do fenómeno, que foi crescendo paciente e silenciosamente como é próprio da personalidade oriental.
Mas porventura tão revelador como estes dados é o ensaio que a Unica revelará sobre como é viver um dia sem produtos chineses.
Julgamos que esses produtos são só os que se encontram nas lojas que um pouco por toda a parte vendem toda a sorte de quinquilharia e servem sobretudo um consumidor de baixo poder aquisitivo atraído pelos baixos preços. Mas é, mais uma vez, uma ilusão, um jogo de sombras em que a realidade está por detrás do biombo.
Despertado pela ideia do ´Expresso´, olho à minha volta e faço o teste. O telemóvel, o computador onde escrevo, o rato, a caixa dos óculos que uso, o polígrafo, a pendrive, o agrafador, enfim, muito do que neste momento me rodeia e faz parte do meu dia-a-dia é feito na China. O que faz parte do meu dia-a-dia e a que eu não posso renunciar...
Quase imperceptivelmente a China ocupa-nos. E faz nascer no Ocidente uma torrente de recursos financeiros que explicam o crescimento económico e a rápida melhoria da qualidade das centenas de milhões de famílias do outro lado do mundo.

Os custos para o Ocidente, esses só agora se estão a fazer sentir. Nos preços dos bens essenciais. Veremos a prazo em que mais...

Os troca-tintas!...

No carro, fui ouvindo o discurso de Jerónimo de Sousa sobre a Lei do Trabalho e a subsequente resposta de Sócrates.
Pensei que Sócrates e o Governo socialista concordassem com Jerónimo, linha por linha, palavra por palavra.
Pela simples, directa e óbvia razão de que esse discurso foi igual, ponto por ponto, aos que o Partido Socialista e Sócrates continuamente debitaram, também na Assembleia da República, aquando da discussão do Código do Trabalho apresentado pelo Governo PSD/CDS.
Afinal, e agora, Sócrates discordou, em tudo, com Jerónimo.
E concordou, agora, com tudo aquilo de que antes discordara!...
Mudei de posto, para não me enjoar!...

Obama a um passo da nomeação...Clinton em stress

Após as últimas directas de Indiana (ganha por Hillary com apenas 2 pontos de vantagem) e Carolina do Norte (ganha por Obama com 14 pontos de vantagem), disputadas na 3.ª feira, Obama surge agora como o quase certo vencedor da disputadíssima nomeação para candidato do Partido Democrático (já a menos de 200 delegados do mínimo para a nomeação), às eleições presidenciais de Novembro próximo.
Hillary está em claras dificuldades para financiar a sua dispendiosíssima campanha, tendo sido forçada a emprestar do seu bolso (ou do bolso do seu bem-amado Bill) USD 11,5 milhões (5M em Janeiro e 6,5M já em Maio), por insuficiência de apoios...
Para manter os níveis de despesa da sua campanha, Hillary necessitaria de qq coisa como mais USD 30 milhões, quantia que a sua equipa de “fund raising” considera impossível granjear...
A campanha de Hillary encara agora a inevitável introdução de cortes drásticos nas despesas de funcionamento, despedindo dezenas de assessores e reduzindo também despesas com publicidade.
Parece-me que Hillary Clinton pode considerar-se sobretudo vítima de si própria – da sua insuportável arrogância e do seu jogo pouco limpo em muitas fases da campanha – encontrando-se agora em clara derrapagem com a fuga de apoiantes importantes para o outro lado como sucedeu ontem com George McGovern, antigo candidato à presidência, conhecido por posições mais “à esquerda” (esquerda caviar, mas esquerda).
Mas Hillary não desiste – creio que ela é movida por um ódio insanável em relação ao seu rival Obama.
Para Hillary ninguém no seu Partido teria o direito de se lhe opor nesta corrida – tratava-se de um direito seu, por legado de Bill, que Obama se atreveu a usurpar...Obama teria de ser punido e triturado pela sua campanha por ter tido a ousadia de se lhe opor...
Foi o que tentou fazer, por vezes com uma ferocidade implacável de que aqui deixei alguns apontamentos.
Felizmente tudo parece indicar que a campanha destrutiva de Hillary+Bill não teve o sucesso que esperavam e que, no final do corrente mês, Obama terá praticamente garantido 2025 delegados necessários para assegurar a sua nomeação na convenção de Denver.
A grande questão vem a seguir: o que fará Hillary quando finalmente tiver de constatar a derrota?
Percebendo que nunca mais terá possibilidade de chegar à Casa Branca, dar-se-á ao luxo de apoiar McCain, só para não suportar o horror de ver Obama presidente?
Parece-me que ainda vamos assistir a grandes acrobacias nesta grande campanha -espectáculo.

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Festa é festa I

A Holanda é um país rico. Contribuinte líquido da CE, tem um PIB per capita bem acima da média da Comunidade e mais que duas vezes superior ao português. Apresenta um crescimento sustentado e as contas públicas estáveis. Pelo que pude verificar nos seis dias que aí passei, é um povo alegre, que sabe viver a vida e usufruir da riqueza que cria.
Diz-se que em Portugal há feriados a mais e isso prejudica a economia. Não creio que tal aconteça na Holanda que, entre 30 de abril e 5 de Maio, descansou seis dias de rajada!...
No dia 30 de Abril, quarta-feira, toda a Holanda, de laranja vestida, celebrou o aniversário da rainha.
No dia 1 de Maio, quinta-feira, embora de forma tão discreta que poucos terão notado, comemorou o dia do trabalhador.
No dia 2 de Maio, sexta-feira, a avaliar pelo ar descontraído de multidões de pessoas nas ruas, festejou um dia de ponte.
Seguiu-se o fim-de-semana, sábado e domingo.
Na segunda-feira, dia 5 de Maio, recordou o dia da libertação da invasão alemã.
Nas cerimónias oficiais, o discurso do “povo” foi feito por uma jovem de uma qualquer minoria étnica, mas já holandesa de corpo, pelo que trajava, e de espírito, pelo que disse (e vi traduzido…).
Salvo alguns acidentes de percurso, a Holanda soube acolher enormes comunidades imigrantes, sendo que só em Amsterdam coexistem pacificamente 75 etnias diferentes.
Nesse seis dias, a Holanda era uma festa. Quem trabalha bem merece festejar condignamente!...

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

“Crianças generosas”...

Muitas mulheres sofrem e vão sofrer de cancro da mama. Apesar de todas as conquistas terapêuticas, que possibilitam muitas vezes a cura e uma longa sobrevivência não previsível alguns anos atrás, não deixa de constituir um drama que não se confina à doente, alastrando-se a todo o agregado familiar. As medidas de rastreio têm dado um contributo importante, assim como o facto de muitas senhoras, ao darem generosamente a cara, possibilitarem o desmistificar da tragédia anunciada.
Esta maleita tem sido alvo de muitos estudos com o objectivo de conhecer os factores de risco subjacentes. São vários, tendo sido já identificados, até ao momento, muitos, tais como o tabaco, o álcool, as terapêuticas hormonais, desvios alimentares, os factores genéticos e a poluição ambiental entre outros. No entanto, há um que merece certo destaque e tem a ver com o facto de as mulheres terem ou não filhos. Desde há muitos anos que se sabe que as mulheres que não têm filhos correm mais riscos de cancro da mama. Recordo com perfeição, quando era estudante, ter discutido um estudo que revelava esse fenómeno. Esse trabalho, que incluía freiras, permitiu concluir que as religiosas apresentavam uma prevalência superior às mulheres que tinham tido filhos. Discutiu-se muito se o facto não poderia ser explicada em termos de amamentação. As mulheres ao amamentarem dão uso ao órgão e, consequentemente, reduziriam o risco. Não esquecer que temos necessidade de encontrar explicações plausíveis para os diferentes fenómenos. Agora, levanta-se uma hipótese muito interessante. Durante a gravidez passam para a mãe células fetais estaminais que perduram durante décadas a fio na pele, fígado, cérebro e baço. Trata-se de um fenómeno denominado microquimerismo. As células em questão são dotadas de propriedades reparadoras. É possível que possam ajudar na luta contra alguns tumores directa ou indirectamente. Este achado tem algum sentido em termos evolucionários. A criança ao contribuir para a saúde da mãe, teria mais probabilidade de sobreviver até chegar à idade reprodutiva. Em termos práticos, e caso se confirme este fenómeno, estaríamos perante uma situação interessante. Ou seja, ter filhos constituiria uma forma natural de prevenir certas doenças e, até, o cancro da mama, porque o organismo da mãe ficaria com células estaminais dos seus filhos durante décadas e décadas. Uma forma natural de prevenção utilizando as famosas células fetais que estão na base de tantas discussões técnicas e éticas. Delicioso.
Quem sabe se nas campanhas de prevenção no futuro não venhamos a ser confrontados com este achado. Rastreio e diagnóstico precoce são importantes? São! É preciso combater o consumo de álcool e do tabaco? Sim. Devem as mulheres evitar a exposição a excessos de hormonas e à poluição ambiental? Claro! Mas quem sabe se o “segredo” não estará em ter filhos e em idades mais jovens! Para isso é necessário que as mulheres possam procriar mais cedo, que haja uma verdadeira e efectiva protecção da maternidade e da paternidade. As medidas que pontuam por aí, aumentos do abono de família, prémios para “fazer” filhos, povoamentos artificiais tipo Vila de Rei, e outras medidas avulsas não resolvem a carência grave de nascimentos, comprometendo o futuro dos mais velhos e desestruturando a sociedade. Uma politica adequada permitiria resolver o grave problema do défice de fertilidade e contribuir para a saúde das mães, já que os filhos deixam nos seus corpos células poderosíssimas capazes de as protegerem de muitos males. Crianças generosas que retribuem com saúde a vida que receberam das mães, e dos pais…

Clarificação necessária

Santana Lopes apresentou hoje oficialmente a sua candidatura a Presidente do PPD, a que também chamou PPD/PSD.
Em Portugal, não existe, nem um nem outro.
Tudo ficaria mais clarificado, se PSL aproveitasse a Campanha para angariar as assinaturas necessárias para fundar esse novo partido.
Porque não é bonito concorrer a Presidente de um Partido a que troca o nome, para o afeiçoar ao seu gosto e medida pessoais.
Nota: O PPD, fundado há 34 anos, só se chamou PPD pelo facto de ter antes sido registada a sigla PSDC-Partido Social Democrata Cristão, e pela confusão que poderia gerar na população. Os auto-denominados herdeiros deveriam ser os primeiros a respeitar o legado.

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Notas soltas sobre a vida, a solidariedade e outras coisas...

As campanhas do Banco Alimentar Contra a Fome têm vindo a mobilizar e a sensibilizar crescentemente as pessoas para a questão da pobreza, da fome e do desperdício. A percepção da crise que o País vive explica a manifestação de solidariedade quando os portugueses são interpelados para ajudarem. É o lado bom de uma realidade socialmente injusta que afecta muitas dezenas de milhares de famílias.
Deparamo-nos hoje com mais pessoas que precisam de ser ajudadas nas coisas mais essenciais da vida. Os alimentos são elementos fundamentais de vida. São a base sem a qual ninguém terá condições e forças para andar para a frente, para integrar e zelar pela unidade e bem estar da família, para procurar trabalho, para se socializar e para tantas outras coisas essenciais a uma existência digna e plena. A situação económica do País está pior. Há muita pobreza silenciosa e assiste-se ao surgimento dos chamados “novos pobres”. São os idosos com as suas magras pensões que entre a saúde e a alimentação, entre os medicamentos e os alimentos escolhem os primeiros, restando muito pouco para fazer face aos segundos. São as famílias assoladas pelo desemprego e pela incapacidade de fazer face aos empréstimos contraídos que não conseguem assegurar as despesas mais básicas do dia a dia.
Se as campanhas do Banco Alimentar Contra a Fome podem ajudar muito muitas pessoas – alimentam uma média diária de cerca de 240.000 pessoas em todo o País – e se a solidariedade tem aqui uma função humanitária inigualável e insubstituível, o Estado não pode “assobiar para o lado”. Ninguém pode ficar descansado ao ouvir o ministro da agricultura dizer que não vai haver racionamento de bens alimentares em Portugal! O que quer isto dizer? Que os bens alimentares não faltarão nas prateleiras dos supermercados? Lá estarão mas certamente com um escoamento mais lento devido ao aumento do preço. É evidente que vai haver racionamento porque, como é óbvio, se o preço dos bens aumentar muitas famílias serão obrigadas a racionar a sua aquisição. Também parece óbvio que o seu orçamento não é elástico. Poderemos estar perante uma “falha” de mercado cuja gravidade exija uma intervenção do Estado.
A situação entre nós não se compara, é claro, com outras regiões do mundo em que a fome tem sido uma permanente ameaça, em que há muito se joga um difícil e ténue equilíbrio entre a sobrevivência e a morte de milhões de pessoas. Mas em Portugal há fome. Não nos iludamos. É um dado adquirido.
A escalada internacional dos preços dos bens agrícolas de primeira necessidade não deixará de nos causar problemas. Temos que estar atentos e minimizar os seus efeitos. A solidariedade fará o seu papel. E os responsáveis políticos terão que fazer o seu!
NOTA: Este texto foi ontem publicado mas inadvertidamente apagado. Volta agora a estar no "ar".

Em terra de cegos...

O problema das listas de espera oftalmológicas não é novo.
Há nove anos atrás, juntamente com alguns familiares, quotizámo-nos para pagar uma intervenção cirúrgica (na privada), a uma senhora amiga que estava à beira da cegueira e que ainda teria que esperar vários anos para realizar a operação no nosso serviço nacional de saúde.
Agora, foi preciso rebentar o escândalo na comunicação social, para vermos o nosso Governo e os vários responsáveis por este dito SNS, virem a correr com soluções.
Será que não sabiam o que se estava a passar? Claro que sabiam!
Então do que estavam à espera?
Esperavam que não houvesse barulho. Que este assunto não se tornasse público.
Que não houvesse bronca.
Agora, já podemos mudar o ditado:
"Em terra de cegos...
... que arma a bronca é rei!"

“Botoxcracia”

A botoxomania está em franca expansão. É raro o dia em que não surjam mais aplicações para este produto. Os efeitos anti-rugas levam algumas e alguns a não se separarem desta substância ao ponto de se tornarem verdadeiros adictos. Pessoalmente não vejo grande piada naquelas fácies inexpressivas. Mas, enfim, há gostos e gostos. Podem ocorrer alguns efeitos nefastos a nível do cérebro quando aplicado nas redondezas capazes de, quem sabe, provocar alguma “paralisia”. Em contrapartida têm sido descritos efeitos positivos, caso de situações neurológicas que vão desde a migraine, à doença de Parkinson, passando pela paralisia cerebral, distonias, nevralgias e, até, na hipertrofia prostática. Neste último caso “enfia-se” o botox na prostáta e, pronto, lá fica resolvido o problema. Mas vai demorar ainda algum tempo para ser utilizado com este fim. Também tem sido utilizado na queda do cabelo. Enfim um rosário de indicações.
Agora, um proprietário de um restaurante turco começou a ministrar aos seus empregados injecções de botox nas axilas para evitar odores desagradáveis depois de ter lido sobre o assunto. A rapaziada está a aderir evitando incomodar os clientes, já que não podem andar a tomar banho de hora a hora e a aplicação de desodorizantes associados ao suor torna-se demasiado intenso.
Se a moda pega, o botóxico não vai fazer outra coisa senão enfiá-lo ao redor dos olhos e da boca, aplicá-lo no couro cabeludo, espetá-lo na próstata, para quem a tem, injectá-lo nas axilas...
E o governo da República também sabe da poda ao injectar-nos o seu “botox” nas cabeçorras, não para tratar das dores de cabeça mas para paralisar qualquer tipo de pensamento mais “malche