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sábado, 27 de junho de 2020

Uma bomba de hidrogénio

O projecto do hidrogénio, visando a descarbonização e a dinamização da economia na próxima década e cuja estratégia o governo aprovou no mês de Maio, integrará certamente o Plano de Recuperação Económica em preparação.  
Trata-se do maior projecto alguma vez pensado em Portugal e que poderá ir, na formulação base, de valores de 5,6 mil milhões a 15 mil milhões de euros, ou mesmo 20 mil milhões em fase ulterior, em investimento na produção de hidrogénio, em infraestruturas de armazenamento e distribuição e ainda em fábrica de eletrolisadores, laboratórios e infraestruturas para a exportação.  
Tecnologia à parte, a defesa oficial do projecto suscita grandes dúvidas e interrogações.
A primeira é a compatibilidade de um empreendimento que vai consumir grande parte dos fundos europeus com a necessidade de atrair projectos bem dimensionados que promovam a modernização e dinamização da estrutura produtiva do país ou nela facilmente se integrem, repartindo simultaneamente os riscos envolvidos.        
A segunda é que a valia interna do projecto não é justificada, aparecendo como meramente instrumental em relação aos objectivos da descarbonização e da transição energética, acentuados de forma obsessiva em quase todos os parágrafos do documento. O projecto é de alto risco, as renováveis já representam uma quota elevada e cara e também aqui os fins não justificam os meios.
A terceira é que o projecto não é viável por si, necessitando de incentivos, públicos via OGE ou privados, em sobrepreços no consumo, em todas os seus segmentos: na produção do hidrogénio, no seu armazenamento, distribuição e uso nos transportes e indústria, ou na produção de electricidade e de combustíveis e nas várias acções transversais ao projecto. E também não dispensa incentivos à internacionalização e à exportação de hidrogénio, o que significa apoios nacionais a consumos externos.  
A quarta é que o projecto tem todos os sobrecustos e riscos de uma tecnologia nova e não dominada, para mais concentrados na fase virada para o mercado interno, obrigado a suportá-los por inteiro.
A transição energética tem que ser interpretada à luz da realidade nacional. De contrário, corremos o risco de desenvolver um projecto que se pode tornar uma autêntica bomba de hidrogénio a deflagrar sobre a economia do país.  
( meu artigo publicado em 27.06.2020 no DN/JN/Dinheiro Vivo

sábado, 20 de junho de 2020

Matéria proibida

Devido às limitações impostas pelo Covid-19, os jogos de futebol da Champions, a partir dos quartos de final, vão disputar-se em Lisboa, uma boa iniciativa, coroada de êxito, da Federação Portuguesa de Futebol, pensava eu.
Mas parece que não, o mérito todo será do Governo, a que se associaram os supremos magistrados desta nossa nação, Presidente da República, 1º Ministro, Presidente da AR, Presidente da Câmara de Lisboa que apareceram perfilados a anunciar o evento.  E o 1º Ministro continua diariamente, e em todos os telejornais, a enaltecer o feito e as vantagens que traz para o país.
Para fazer o balanço, também gostaria de saber se temos que suportar alguns custos, que a UEFA não costuma dar ponto sem nó. E, se sim, quem os paga, a Federação ou o Governo. Estranho é que, em todos estes dias, nem uma perguntazinha dos jornalistas se tenha ouvido sobre a matéria. 
Será que se trata de matéria proibida? E os subsídios a falarem?

sábado, 13 de junho de 2020

A Parceria


No livro de Eça de Queiroz, A Ilustre Casa de Ramires, o fidalgo Gonçalo Ramires explica Portugal a um grupo de amigos: “Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda possuída por uma parceria. Como vocês sabem, há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma parceria política que governa a herdade chamada Portugal. Nós, os Portugueses, pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar, como o Barrolo (seu cunhado), e que pagam, e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a “parceria” que recebem e que governam. Mas, para entrar na parceria política, o cidadão precisa de uma habilitação, ser deputado. Exactamente como, quando pretende entrar na magistratura, necessita de ser bacharel. E um dos seus amigos, João Gouveia, concordava: Sim…na Arcada (Terreiro do Paço), também cresce cacau e há mais sombra!...” 
Passados 120 anos, a situação não difere, os sócios da parceria, Regeneradores, Progressistas, Reformistas ou Republicanos mantêm-se, agora com denominações igualmente postiças e alguns filhotes, legítimos ou bastardos, e só a população cresceu um pouco.
E também os sócios se equivalem na má gestão: se em 1892 levaram a quinta à bancarrota, em 2011 à falência a levaram, e às intervenções do FMI de 1975 e 1983, convém lembrar.
Apoio de parcerias amigas é o que não tem faltado, sucedendo-se as doações de frugais fazendas europeias, condoídas pela aridez das terras e pela escassa produção interna, visando novas e acrescidas colheitas.
Só nos últimos 25 anos, um número redondo, as doações atingiram 119 mil milhões de euros que gerências inaptas e desleixadas em nada rentabilizaram, contrariando os 10 anos anteriores de boas safras e gestão rigorosa. No período, sucederam-se meia dúzia de feitores, nomeados pelas duas principais tendências da parceria, predominando durante 18 anos quem não poupava nas promessas e garantia ao povo o grosso da fatia no acréscimo da lavra. Compromisso nunca cumprido, o acréscimo de produção da quinta não reproduziu mais que o valor das oferendas e os trabalhadores viram regredir fortemente o seu quinhão de rendimento em relação à média das fazendas europeias.    
De 1995 a 2001 um feitor tão propenso ao diálogo como falho de acção útil deixou a fazenda num pântano, segundo as próprias palavras, ou em modo de tanga, no dizer de outros, e ameaçada pelas fazendas amigas com sanções por défices excessivos. E o novo feitor nomeado para aguentar a herdade não pôde livrar-se de sujeitar, durante 3 anos, os trabalhadores a acrescidos ónus e sacrifícios.  
Um novo intendente pastoreou a quinta de 2005 a 2011. O acréscimo das colheitas nem sequer igualou as doações recebidas, o rendimento dos trabalhadores tornou a baixar em relação à média das granjas amigas, e gastos exorbitantes levaram a herdade à falência. O intendente viu-se obrigado a pedir urgente socorro externo e a aceitar um pacote de severas condições de austeridade. E um novo feitor foi chamado a concretizar as medidas de renúncia e sofrimento, tábua última de salvação da fazenda. 
Novo gerente tomou conta da herdade em 2015. Em esmerada obra de aparências, conseguiu feitos notáveis, como o de convencer o povo da recuperação dos rendimentos, mesmo que dissolvidos em anestesiante tributação indirecta e na maior carga fiscal de sempre, ou da convergência com as outras fazendas, mesmo que os níveis de rendimento só mostrem divergência.   
Em contrapartida, e tal como no passado, os fartos proventos e, porventura, o enriquecimento sem causa de muitos rendeiros, caseiros e outros acólitos comprovam que, como no tempo do Eça, continua a crescer cacau no Terreiro do Paço.
Oxalá os estimados 5000 milhões do projecto hidrogénio não o transformem numa roça!... 
(meu artigo no i de 12 de Junho)
https://ionline.sapo.pt/artigo/699601/-a-parceria?seccao=Opiniao_i

terça-feira, 9 de junho de 2020

José Alberto Vasconcelos Tavares Moreira

Faleceu ontem o nosso amigo José Alberto, um dos autores deste Blog.
Economista brilhante e também licenciado em Direito, teve uma vida profissional intensa e foi um dos principais responsáveis pela modernização do sistema financeiro português, no plano legislativo, como Secretário de Estado do Tesouro, com Cavaco Silva  e, depois, Secretário de Estado Adjunto, com Miguel Cadilhe, e no plano da acção, como fundador e Presidente da CISF, Companhia de Investimentos e Serviços Financeiros, que se veio a distinguir na dinamização do mercado de capitais e no apoio à criação de empresas, como verdadeiro Banco de Investimento. 
Numa carreira ascendente, em que a competência, o mérito, o rigor e a seriedade eram os pilares fundamentais, Foi Administrador do Banco Pinto & Sotto Mayor, Presidente da Caixa Geral de Depósitos e Governador do Banco de Portugal. 
Militante do PSD por convicção, e não porque esperasse o que quer que fosse do partido, foi Vice-Presidente da Comissão Política e Deputado de 2002 a 2005.
Exerceu depois funções como Presidente da Caixa de Crédito Agrícola, onde foi injustiçado, até pela própria Justiça que deixou prescrever um processo em que reclamava completa inocência, e como Presidente do BAI-Europa, Banco Angolano de Investimentos. 
Foi ainda Professor e Pró-Reitor da Universitário Católica.
Sempre dispensou assessores de imagem que o projectassem na comunicação social, bastava-lhe a consciência de que sempre dava o seu melhor. E tanto deu que, ainda hoje, muitos colaboradores do Banco de Portugal o lembram como o melhor governador que conheceram.
Portugal perdeu um dos seus melhores, exemplo de competência e profissionalismo que dispensavam mediatizações.
Para mim, o José Alberto foi um amigo de vida, um grande amigo da minha vida.
Os pêsames à mulher, Carmen e aos irmãos, também bons amigos, e Paz à sua alma.  


domingo, 7 de junho de 2020

Fundos europeus...desperdício português

Ainda sem regras definitivamente fixadas, Portugal deverá ter acesso a mais de vinte e seis mil milhões de euros do Fundo de Recuperação da União Europeia, no âmbito do Covid-19, dos quais 15,5 mil milhões de euros a fundo perdido e 10,8 mil milhões de euros de empréstimos em condições favoráveis. A estes montantes poderão ainda somar-se 14 mil milhões de euros, ao abrigo do pacote de emergência e de outros fundos europeus. Como apenas uma parte das verbas será a fundo perdido, haverá um aumento da dívida pública e, com ela, a pressão sobre os juros, pese a intervenção que o BCE possa fazer na compra de dívida a emitir. E nem baixas taxas de juro, prazos longos ou até a emissão de dívida perpétua impedirão que os portugueses sejam chamados, para além do que já sofrem com o COVID, a suportar um novo esforço fiscal.
Resta-nos esperar que os fundos assim disponibilizados sejam bem aplicados, o que não tem sido a regra em Portugal. É que, sem um bom trabalho de casa, não há apoio europeu que funcione e Portugal é disso exemplo, já que os fundos de que Portugal vem beneficiando têm sido mal aplicados, não trazendo uma melhoria do nível de vida dos portugueses face à Europa. Ao contrário, ele até vem regredindo.
Em 2018 o nosso PIB per capita em termos de paridade de poder de compra era apenas de 77% da média da UE-28, quando em 2004, altura do alargamento da EU de 15 para 25 países (Roménia, Bulgária e Croácia entraram depois), representava 83% da média da futura Europa a 28. Neste entretanto, fomos ultrapassados pelo Chipre, Eslováquia, Estónia, Lituânia, Malta e República Checa, e seremos em breve pela Polónia. E de penúltimos da Europa a 15 passámos à cauda da Europa a 28.
O que não é para espantar, já que no decorrer desses anos, o PIB português aumentou apenas cerca de 66 mil milhões de euros, valor praticamente igual aos 65 mil milhões de que Portugal beneficiou de Fundos de Reestruturação Europeus.  
É mais um fracasso a juntar aos que a política portuguesa tem sido pródiga. Em 2019 atingimos a maior dívida de sempre, apesar da maior carga fiscal de sempre, o que mostra com evidência o desperdício e má aplicação de fundos internos, para além de fundos europeus.    
Tudo num tempo em que o Tesouro português, beneficiando da política do BCE, conseguiu endividar-se a taxas negativas em vários prazos, baixando substancialmente os juros.
Neste quadro, não mudando governantes ou política, não podemos estar confiantes numa boa aplicação dos fundos do COVID.   
(meu artigo, publicado nos Diário de Coimbra, D. Viseu, D. Leiria e D. Aveiro de 5 de Junho de 2020)  

terça-feira, 2 de junho de 2020

O "apoio à Banca"

A transferência de 850 milhões de euros para o Novo Banco inflamou a polémica do “apoio à Banca”, já antes excitada por quem, face às dificuldades que o COVID 19 trouxe a particulares e empresas, vem exigindo, em contrapartida, que os Bancos retribuam à economia os apoios recebidos. 
“Apoio à Banca” é todavia uma expressão enganadora, porque engloba na mesma designação os casos do BPN, BANIF E BES-Novo Banco, não os distinguindo dos outros Bancos, e porque sugere apoio a banqueiros e accionistas.
Ora, no primeiro caso, os banqueiros foram afastados e alguns já condenados, os accionistas descapitalizados e credores prejudicados. Nos outros Bancos, os accionistas, incluindo o banqueiro Estado, suportaram a desvalorização das acções a par de recapitalizações forçadas e reembolsaram com juros especulativos os apoios recebidos. Trabalhadores tiveram salários diminuídos ou foram dispensados.
O ardil da expressão faz esquecer que esse apoio se traduziu, sim, num suporte aos depositantes e à economia. É certo que muitas imparidades resultaram de crédito mal concedido por ineptidão, razões políticas ou fraude, ou das transferências para o NB, por incertas razões contratuais. Mas também é certo que muitas imparidades nasceram de crédito bem concedido nas condições do momento, mas cuja recuperação se tornou inviável face à crise vivida por particulares e empresas. O apoio aos Bancos foi o dual desse suporte à economia e sem o qual muitas boas empresas teriam desaparecido. E outras se perderiam, caso os depósitos fossem na voragem.
Esquecendo que os Bancos são os primeiros interessados em concretizar operações, essa exigida contrapartida acaba por ser um convite a uma distribuição de crédito sem regras ou condições. E grande prejudicado seria também o Estado, quer dizer, o contribuinte, face às garantias do Estado às linhas de crédito do COVID.
Esta exigência sobre a Banca serve o objectivo de quem não consente a Banca privada, visando, sob a capa de um apoio ético e até com spreads zero, que os Bancos afundem em dificuldades de solvabilidade e tesouraria, momento em que tal exigência se transformaria em acusação de gestão danosa e fraudulenta, propiciando a intervenção estatal.
À Banca deve exigir-se competência e rigor, não contrapartidas que dão sempre mau resultado. 
(meu artigo publicado no DN/JN/Dinheiro Vivo de 30 Maio de 2020
  https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/1448947/

sábado, 25 de abril de 2020

A solidariedade deve ter dois sentidos

Artigo que publiquei no DN/JN/Dinheiro Vivo de 25 de Abril de 2020

Este artigo não é politicamente correcto. Mas é verdadeiro.
Desde a adesão à Europa, Portugal beneficiou de cerca de 135 mil milhões de euros ao abrigo dos diversos programas de apoio, um valor equivalente a 65% do actual PIB português. E desde 1995 recebeu 119 mil milhões, tanto como o PIB cresceu desde esse ano, o que evidencia, pese assimetrias de comparação, um grave desperdício na sua aplicação. Salvou-se, até 1995, a boa utilização dos fundos em programas estratégicos, como o PEDIP, indutores de crescimento. Para provar o desperdício, o PIB per capita, em termos de paridade de poder de compra, regrediu, passando de 80,8% em 1995 para 77,3% em 2017. 
São assim excessivas e infundamentadas as críticas à falta de solidariedade da UE e às reticências de países, Holanda, Alemanha, Áustria e Finlândia, à emissão de eurobonds, ao ponto de se dizer “ou a UE faz o que tem de fazer (emitir eurobonds…) ou acabará”. Até porque esses países têm ainda 14 regiões com um PIB per capita inferior à média da União Europeia, em termos ppc, regiões onde vivem cerca de 20,7 milhões de habitantes (14,9 milhões de alemães e 5,8 milhões de finlandeses, holandeses e austríacos) que esperam maior apoio dos seus governos.   
Todos eles são contribuintes líquidos da UE, a Alemanha com 17,2 mil milhões de euros, a Holanda com 4,9 mil milhões de euros, a Áustria com 1,5 mil milhões de euros e a Finlândia com 700 milhões de euros (números de 2018). E Portugal é o quarto maior beneficiário líquido, com 3,1 mil milhões de euros.
Os fundos europeus de que Portugal vem beneficiando são provenientes, no grosso, daqueles países e também do Reino Unido, que conta com 30 zonas deprimidas entre as 41 em que se divide, o que pode ter constituído uma razão para a sua saída da EU. Muitos britânicos terão pensado que a contribuição dos cerca de 10.000 milhões de euros anuais deveriam ser preferencialmente aplicados no seu país.
Com três resgates e tanto desperdício, mal nos fica falar em falta de solidariedade e censurar quem nos apoia.  
A EU tem sido uma âncora para Portugal. É pois tempo de Portugal procurar o caminho de melhor governação e disciplina que os povos mais “frugais” percorreram, não delapidando os recursos suplementares de que vamos poder dispor. A solidariedade deve ter dois sentidos.

sábado, 18 de abril de 2020

Vírus, Mentiras e Televisão

Num dos seus livros, As Leis, Platão discorre sobre o papel do legislador, que deve ser "um verdadeiro educador dos cidadãos” e cuja missão principal é prevenir as transgressões, em vez de castigar quem as pratica. E como a prevenção se deve antepor ao castigo, o legislador deve criar normas que ajudem o cidadão a praticar voluntariamente o que for justo.
E embora Platão pensasse que “a verdade é bela e durável e não se pode educar com mentiras…”, também admitia que, para boa governação, se pudessem conceber “mentiras úteis que persuadissem espontaneamente as pessoas a ter uma boa conduta, em benefício da “cidade”.
Todavia, logo esclarecia que a mentira apenas se justifica como excepção, quando é “útil aos homens…para os proteger deles próprios ou dos seus inimigos…”, e que só pode ser usada pelo governante, sendo o seu uso estritamente vedado aos restantes cidadãos. Apenas os chefes têm a prerrogativa de usar a “nobre mentira” como forma de manter a “pólis” unida e serena.
Antecipou assim Platão o princípio depois definido por Aristóteles de que a virtude está no meio de dois extremos, colocando a “mentira nobre” entre nunca mentir e mentir a qualquer preço.   
Claro que todos os governos usam a mentira, justificando-a pelo bem do cidadão.
Também agora o COVID-19 vem legitimando um rol diário de fingimentos sob a capa de mensagens de serenidade, as tais “mentiras nobres” para benefício da “cidade”, mas porventura apenas forma de auto-defesa dos próprios governantes. 
Logo a começar pela afirmação de que não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal e a continuar pela palavra primo-ministerial de que “até agora não faltou nada no SNS e não é previsível que venha a faltar". Mentiras logo desfeitas pela observação comum e confirmadas pela generalidade dos profissionais da saúde e suas Ordens representativas que reclamavam por aquisições essencias, retardadas mesmo em relação aos já serôdios avisos da OMS. 
Ler mais meu artigo no i de 17 de Abril no link





quinta-feira, 9 de abril de 2020

O Quarta República há 10 anos

Pois que morram, mas viva a ideologia!...

O PSD propôs e o Parlamento discute hoje o Projecto de Lei que cria a Rede Nacional de Cuidados Oncológicos.
Esta Rede visa articular as instituições prestadoras de cuidados de saúde públicas e privadas, de modo a melhorar a qualidade dos cuidados prestados aos doentes oncológicos, optimizando simultaneamente a utilização dos recursos e da capacidade hospitalar disponíveis.
Um mínimo bom senso, para não dizer já um mínimo respeito pelos cidadãos que sofrem de cancro, levaria a que o Projecto fosse, de mediato, aprovado, e subsequentemente se encontrassem as melhores formas da sua concretização.
Mas, lamentavelmente, e pelas notícias de ontem e de hoje, não é o que vai suceder. Os argumentos são mesmo de um primarismo ideológico ou de uma grosseria inqualificável.
O PCP e o Bloco colocam a ideologia acima da saúde.
“É mais um passo para a privatização e abrir mais uma área de negócio ao nível da Saúde”, diz o PCP.
“Se esta assembleia aprovasse esse projecto, um modelo em que é indistinto o que é público e privado, o que teríamos era cada vez mais doentes a serem tratados no sector privado”, diz o Bloco.
O PS, mais envergonhado, recorre a estratagemas como os da frase seguinte: “todos sabemos que o tempo de consulta e o tempo de espera diminuiu mais de 50 por cento nos últimos cinco anos”. Como se não houvesse mais de 20.000 doentes oncológicos em espera, mais de 10.000 doentes tenham sido operados fora do prazo e umas centenas tenham morrido sem conseguir uma cirurgia.
Entre morrerem pessoas e serem tratadas em hospitais privados, pois que morram, em nome da ideologia.

domingo, 5 de abril de 2020

Tomando a cicuta


O meu artigo no jornal i  de 28 de fevereiro de 2020:
https://ionline.sapo.pt/artigo/687515/-tomando-a-cicuta?seccao=Opini%C3%A3o
Deslumbrado pela sabedoria de Sócrates, o filósofo, um dos seus discípulos, Querofonte, deslocou-se a Delfos a questionar o oráculo se havia alguém mais sábio que Sócrates. Pítia, a sacerdotisa de Apolo, disse que não.
Uma resposta tão clara contrariava o perfil das sentenças de Pítia, normalmente vagas e ambíguas, num difícil equilíbrio entre a tradução fiel da voz dos deuses e a satisfação dos desejos dos clientes cujas doações alimentavam o templo. E se uma resposta tão evidente agradou aos fiéis, ao contrário suscitou nos seus detractores a certeza de que essa aparente evidência seria a sua maior ambiguidade, e assim, se Sócrates era o mais sábio, então não havia sabedoria entre os homens.
Segundo Platão, Sócrates encontrou-se perante um dilema: ou aceitava a interpretação literal do veredicto dos deuses, o que ia contra a sua maneira de pensar, ou desmentia o oráculo, o que significava desprezar os deuses e considerá-los mentirosos. E reconhecer que não havia sabedoria entre os humanos seria redutor.  
Para resolver o conflito, Sócrates procurou os mais sábios dos atenienses, tentando encontrar alguém mais sábio que pudesse levar ao oráculo e respeitosamente mostrar que estava errado, mas cedo concluiu que não eram tão sábios como muitos os julgavam e eles próprios se pensavam. E fechou o dilema pela negativa, considerando que ele era o mais sábio, porque os outros não sabiam, mas pensavam que sabiam, enquanto ele nem sabia, nem pensava que sabia.  
De Sócrates à actualidade vão 2500 anos, mas da Grécia antiga ao Portugal dito moderno não vai distância tamanha. Os oráculos continuam, agora bem implantados nos templos sagrados fautores da opinião pública, em que analistas, jornalistas e comentaristas vestem a pele de novos e devotados sacerdotes. E, tal como Pítia, sensíveis aos desejos dos clientes que procuram a criação da imagem pública que sirva os seus desígnios.  
E assim houve quem fosse consagrado por verdade dogmática revelada nos oráculos mediáticos como o mais sábio economista e ministro das finanças do país. E logo, ao contrário de Sócrates, se tenha assumido como tal.     
E assim, mais sábio que organismos nacionais e internacionais, contraria INE e Eurostat e sustenta que a carga fiscal não aumentou em Portugal, argumentando em seu favor o registo de patente de inovadora de exclusiva definição daquela grandeza.   
Mais sábio que o Conselho das Finanças Públicas, desvaloriza as recomendações e críticas que esta entidade faz, pedindo mesmo que cresça em sabedoria e possa “amadurecer” as suas análises.
Mais sábio que a UTAO, acusa essa Unidade Técnica de Apoio Orçamental de suscitar dúvidas ilegítimas e difundir cálculos arbitrários.   
Mais sábio que o líder da Oposição, atesta e certifica que este “não sabe nada de Economia, muito menos de Finanças Públicas, ou nunca viu fazer um Orçamento do Estado”.  
Mais sábio que o BCE, reduz a ciscos a política monetária dessa instituição e afiança que a redução das taxas de juro se deve à credibilidade do governo e das suas políticas; e classifica de meros "detalhes" as críticas ao novo modelo de supervisão financeira que quis pôr em prática.
E, mais sábio do que o sábio ministro das finanças que também é, jura aumentos de investimento e diminuição de carga fiscal, contestando quadros do Orçamento que subscreve e exibem o seu contrário.
Mais um orçamento que o oráculo aplaude, mas que, debaixo do brilho tão fugaz e virtual com que é exaltado, esconde o rasto de políticas artificiosas e efémeras, sementeiras de cicuta que vêm envenenando serviços públicos, iniciativa e economia.
Não foi apenas Sócrates que tomou a cicuta. Também a vai tomando quem fica anestesiado por uma sabedoria tão mediaticamente composta e a ela se rende por inteiro.