Número total de visualizações de página

sábado, 29 de junho de 2019

Na terra, com a cabeça na lua


O meu artigo de hoje no DN-JN-Dinheiro Vivo

Num exercício da NASA para aspirantes a astronautas, uma alunagem forçada destruiu a nave e todos os seus equipamentos, à exceção de quinze artigos, e impediu o encontro com outra nave a 300 km de distância. A sobrevivência dos tripulantes está na escolha certa dos apetrechos que maximizarão a probabilidade de alcançar a outra nave. O exercício tem sido retomado por várias universidades, nomeadamente Harvard, e visa demonstrar que uma escolha de grupo está sempre mais certa do que uma escolha individual. Já comprovei o facto num curso de Alta Direção.
O último Barómetro da Fiscalidade do 4.o trimestre de 2018 da Ordem dos Economistas, resultado da participação de largas centenas de economistas das várias especialidades – Economia e Gestão Empresariais, Economia Política, Auditoria, Análise Financeira, Gestão de Insolvência e Recuperação de Empresas -, cobrindo todas as faixas etárias, é esclarecedor da perversidade do sistema fiscal.
A enorme maioria de 92% dos inquiridos considera a carga fiscal alta ou muito alta, e 62% consideram que tem um impacto negativo ou muito negativo na economia, no investimento e nas empresas. Sendo uma classe com óbvio conhecimento do exterior face à natureza das suas funções, a maioria, 76%, considera a carga fiscal mais alta e muito mais alta, quando comparada com a dos restantes países da União Europeia. E relativamente à estabilidade fiscal, 80% consideram o sistema instável ou muito instável, dado o volume das alterações que vai sofrendo.
Pois é este sistema que os nossos políticos acarinham como instrumento capaz de nos conduzir a bom porto, um sistema cada vez mais planeado para oprimir cidadãos e empresas com o peso crescente do despesismo de um Estado ineficiente e mal administrado, em prejuízo da atividade económica e da criação de riqueza e emprego. E, assim, um sistema cada vez mais adulterado, à média de duas alterações nos códigos por dia útil, acrescentando ónus e burocracia.
É este o sistema que nos vai perdendo, mas que os nossos atuais políticos, sem ver ou ouvir-se senão a si próprios, mais que todos os outros defendem, ou não os brindasse com a maior receita assente na maior carga fiscal de sempre. Pensar que tal nos leva ao ponto de salvação, só mesmo com a cabeça na lua.
Ou, melhor, talvez mesmo sem cabeça…

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Crime sem castigo

Deixo o meu artigo publicado no jornal i de 26 de Junho de 2019
 
Por alturas do ano 406 a.C. teve lugar a grande batalha naval das Arginusas, entre Atenas e Esparta, assim chamada por se ter dado nas imediações daquelas ilhas, próximas da atual Turquia, mais de 150 trirremes de cada um dos lados beligerantes. Esparta equipou uma forte armada, recrutando centenas de mercenários atenienses, com apoio financeiro dos persas.
A vitória inclinava-se para Esparta quando Calicrátides, o seu comandante, morreu em combate. A notícia foi-se espalhando e os espartanos, enfraquecidos pela falta de chefia, sofreram terrível derrota. Apenas uma pequena parte conseguiu fugir, tentando abrigo na sua base de Mitilene, na costa turca.
Também os atenienses tiveram pesadas baixas e, finda a batalha, centenas de marinheiros flutuavam agarrados ao que restava das suas trirremes.
Reuniram os oito comandantes atenienses liderados por Péricles o Novo, general prestigiado e várias vezes o estratego de Atenas, filho do grande Péricles, para decidir o próximo passo, se perseguir os espartanos em fuga e consumar uma vitória absoluta, ou acudir a salvar os náufragos e enterrar os mortos. Foi longo o debate, e dele saiu como prioridade concentrar forças para perseguir os espartanos, tendo dois capitães sido encarregados de recolher os feridos e sobreviventes com o apoio de algumas trirremes. Levantou-se entretanto forte tempestade e todas as embarcações tiveram de desistir e regressar a Atenas.
Os generais foram recebidos como heróis. Mas quando se foi sabendo que não tinham cuidado dos vivos nem enterrado os mortos, levantou-se grande clamor, exigindo que fossem julgados por tão ignominioso procedimento.
Reunida a Assembleia dos Quinhentos, os generais invocaram os superiores interesses da cidade para justificar a sua conduta e acusaram os capitães de não terem recolhido os náufragos, enquanto os capitães acusaram os generais pela demora das ordens de salvamento e uns e outros se desculparam com a tempestade. No fim de um julgamento agitado, os generais foram condenados à morte e logo executados.
Para a assembleia, assegurada que estava a vitória, a obrigação era cuidar dos feridos, salvar os náufragos e homenagear os mortos, e nem interesses relevantes da cidade na aniquilação do inimigo e numa vitória mais dilatada, todavia sempre incerta, podiam sobrepor-se a esse dever moral.
Lembrei-me da história quando os comandantes do nosso Governo, em nome de um muito discutível objetivo de Estado de alcançar o menor défice orçamental de sempre, não cuidam dos ainda vivos, feridos ou doentes, que acorrem aos hospitais para tratamento. E, por ação direta ou omissão, fazem escassear médicos e enfermeiros, técnicos de saúde e auxiliares, e até medicamentos, ou provocam adiamentos de cirurgias por falta de meios indispensáveis, ou obrigam os náufragos da saúde a esperar dois, três ou quatro anos, ainda agarrados à vida, pelos cuidados de que necessitam.
E também me lembrei da história quando, perante todo este panorama, se perde tempo, sem senso nem conta, a discutir a saúde pública em vez da saúde dos portugueses e a debater uma lei de bases que não se enxerga que traga mais do que despudorada exibição ideológica, porque nenhum dos seus mentores é capaz de dizer em que é que essa nova lei impede cativações e melhora a situação atual.
E assim a ideologia e o défice zero, em nome de uma falaciosa defesa do Estado, se sobrepõem ao dever primário de tratar dos vivos.
Salvaguardadas as distâncias, e passados 2400 anos, castigando a vilania de não tratar dos feridos, Atenas ainda é uma lição. Ou seria, se os atuais governantes, responsáveis pela crueza de falta de assistência aos doentes, mas porventura respaldados, eles próprios, na ADSE e noutros seguros privados, não escapassem a algum firme corretivo. Salvando-se-lhes a cabeça, claro está!...

terça-feira, 25 de junho de 2019

Sensacional!

Agora, e pela voz da Secretária de Estado da Justiça, Anabela Pedroso, os atrasos no atendimento para obter o Cartão do Cidadão está no facto de os interessados irem para a porta dos serviços “antes da abertura do atendimento ao público”... 
Verdadeiramente sensacional! Bom, e se nem fossem, estava tudo resolvido e governo e funcionalismo contentes...

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Economia e Finanças públicas


Falta PIB ao cálculo da carga fiscal, referiu o Ministro das Finanças, em entrevista recente, disfarçando o máximo histórico da carga fiscal em 2018. Mas, encapotando assim a falta num desvio estatístico, acabou por dizer uma grande verdade. É que falta, mesmo, PIB, isto é, falta economia; em contraste, abundam impostos e finanças públicas, mas isso o Ministro não disse.
A economia tornou-se um feudo do Ministro das Finanças. É ele que anuncia a evolução do PIB, do emprego, dos fundos estruturais, do investimento público e privado, dos indicadores económicos e das expectativas dos empresários e consumidores. Como se não houvesse economia para além das finanças do Estado, ministros da economia e sectoriais não passam de figurantes, sem a autoridade que, no mínimo, lhes permita evitar os golpes nas verbas dos investimentos aprovados, ou a transferência das mesmas para despesa ordinária, em desfavor da criação sustentada de riqueza.    
E também não lhes vemos qualquer política pública relevante que favoreça a actividade económica, mas vemos bem uma completa inação, quando seria preciso corrigir intoleráveis boicotes à economia.
Portugal é o único país do mundo em que os ministros das áreas económicas permitem que nem sequer se possa saber se temos petróleo, a energia do presente, enredam a exploração do lítio, a energia do futuro, e amparam deslocalizações florestais e descarbonizações rápidas, esquecendo indústria, emprego e produtividade.
Nem vemos que patrocinem a reforma da justiça ou da administração pública, também responsáveis por um condicionamento industrial burocrático que tolhe iniciativas e faz faltar, realmente, PIB.
A economia real produz e paga; as finanças públicas recebem e desperdiçam. Este sistema desigual de vasos comunicantes constitui factor de entropia, impedindo iniciativa empresarial e crescimento.
A crescente carga fiscal que onera os portugueses só tem prejudicado o todo económico, e a prova é que o país é dos que menos cresce, tombando mais e mais na cauda da EU-28.
Medida relevante seria ultrapassar a heresia e, como outros, estabelecer constitucionalmente um tecto para a carga fiscal, que sirva a economia e, por arrasto, serviços e funções essenciais do Estado.  
Se assim não for, continuarão a sobrar impostos e a faltar PIB. E não se trata de erro estatístico, como diz o Senhor Ministro. 
(Artigo publicado no DN de 27 de Abril)

quarta-feira, 27 de março de 2019

As mil e uma noites lusitanas

As histórias das Mil e Uma Noites tornaram-se tão perenes e indeléveis que vêm sendo contrafeitas em todas as épocas e lugares. E agora, também, em versão caricatural, na Lusitânia.
Quando o Sultão Shariar descobriu a traição da esposa, mandou-a matar e ao amante. E, forma expedita de evitar novas traições, decidiu desposar todas as noites uma nova donzela, que seria executada na manhã seguinte, cometendo ao Grão-Vizir o rigoroso cumprimento destas suas ordens.   
Num acto de enorme coragem, mas convencida de que poderia pôr cobro a tamanha impiedade, a filha do Grão-Vizir, Sherazade, obrigou o Pai a apresentá-la ao Sultão como esposa. Na noite nupcial, instruiu a sua pequena irmã, Dinarzade, para chorar bem alto, logo que a visse entrar na alcova real. Explicou Sherazade ao Sultão que o choro era da irmã, a quem sempre contava uma história para adormecer.
que amanhã estarei morta, peço-lhe que a deixe entrar para que eu a entretenha pela última vez”, pediu Sherazade. Muito contrariado, o Sultão acedeu.
E Sherazade começou uma história, outra e outra lhe encadeando e já chegava o alvorecer e a hora da execução, quando a narrativa atingia o seu clímax. Curioso por saber o fim da história, ordenou o Sultão que Sherazade continuasse na noite seguinte. E assim passaram mil e uma noites, até que…
Bom, se o leitor não sabe, a punição é ir até ao fim do artigo…
Certo é que nas Mil e Uma Noites árabes o contador das histórias era Sherazade, e o Sultão o ouvinte; mais verdadeiro é que, por cá, na originalidade lusitana, os ouvintes são os cidadãos e o contador das histórias é o Sultão. Não para salvar outrem, como Sherazade, mas para se salvar a si próprio.
Começou o Sultão por contar como descobriu a password de Ali Babá, graças ao canudo de marfim de Ali que lhe permitia ver tudo o que desejava, e abriu a caverna dos 40 ladrões...
Segue aqui o meu artigo de hoje no i.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Natal

Para muitos, para mim, o Natal constitui talvez a maior e mais grata memória de criança. Misto de saudade e de nostalgia, de mistério e de claridade. Tempo de ternura, como todo aquele em que se contempla um menino no berço, de mais a mais um menino que, nos era dito, vinha para nos salvar e proteger.
Tempo em que colocar o sapato na chaminé da lareira significava dúvida e esperança, mas certeza, na manhã seguinte, de que o Menino, tão bom e tão terno, se tinha lembrado de nós.
Tempo em que as prendas eram lembranças do Menino Jesus, que nos acompanhava e que gostava que também nos lembrássemos dele. Tempo em que o Pai Natal substituía o Menino em casos de grande cansaço, ou quando o seu braço pequenino não alcançava as altas chaminés.
Tempo de fazer o presépio e de o decorar com o musgo fresco e molhado colhido nos muros que corriam à beira dos caminhos.
Tempo em que a árvore de Natal era um pinheiro e os pinheiros floresciam e cresciam, porque a terra era habitada e o mato e o tojo do pinhal eram colhidos para adubar as próximas colheitas.
Tempo da consoada, mais pobre ou mais rica, mas alegremente vivida por toda a família.
Tempo do caminho para a Missa do Galo, no escuro da noite iluminado pela “pilha” de mão, ou pela luz do luar, e da Igreja gelada, mas cheia de calor humano. Tempo da pequenada inquieta e dos rostos velhos e encarquilhados, mas radiantes da Boa Nova que se anunciava. Porque o homem precisa de esperança e o ritual de Natal a todos irmanava na esperança de dias melhores que o Menino traria para todos.
Tempo de beijar o Menino, sem medo de vírus portadores de novas doenças e calamidades, mas como agradecimento do bem já recebido ou penhor do bem a receber.
Tempo das canções das Janeiras, que entravam dentro de casa e eram momento de convívio e festa, à roda da lareira, do salpicão ou do chouriço assado e do vinho novo que vinha directamente do espicho.
Tempo em que o Natal era todo ele um ritual único que fazia vibrar o mais íntimo das pessoas, tinha forma, e cor e espírito e por isso se recorda.
Esse espírito que os grandes poetas e escritores cantaram em hinos de verso e prosa, o espírito gravado na pedra e na tela por modestos artesãos e insignes artistas, o espírito que nos legou as verdadeiras obras-primas dos presépios italianos e de Machado de Castro, o espírito que inspirou a grande música dos corais da natividade e a sentida e sublime harmonia da Stille Nacht, era o espírito que condensava o simbolismo bem presente no Natal.
Desaparecido o símbolo, por razões do politicamente correcto e em nome de uma estúpida e falsa inclusão que até eliminou o presépio dos postais de Boas Festas, logo o espaço foi ocupado pelo marketing agressivo que tudo vende, mercadoria e preconceitos e reduziu o Natal às renas importadas do norte gelado, aos Pais Natal feitos consumos correntes ou às prendas que se tornaram triviais, hoje recebidas, amanhã abandonadas, senão mesmo criticadas.
Por isso, não vejo que Natal poderão os pequeninos de agora um dia recordar. Faltar-lhes-á para sempre a terna e mágica referência do velho, simples e puro Natal português.
(Texto publicado no 4R em 22 de Dezembro de 2009. Como o tempo passa!...) 

domingo, 18 de novembro de 2018

Rir, chorar, ou chorar a rir?


Segundo notícia do Expresso de ontem, 17 de Novembro, a Agência Internacional de Energia, com sede em Paris, alertou que a procura global de energia vai aumentar mais de 25% até 2040, exigindo mais investimento na produção e petróleo para evitar uma crise de abastecimento.
O aumento da procura virá das economias em desenvolvimento da Ásia, em especial da Índia, que devem ultrapassar os EUA e a EU em 2025 como principais consumidores.  
Pois é. E, por cá, nem queremos saber se temos ou não petróleo. Aliás, não precisamos de petróleo para nada, basta-nos pagar a electricidade ao nível mais caro a Europa, com prejuízo dos cidadãos e da competitividade, em subserviência a uma descabelada, por efeito do vento, política energética, agora até reforçada com um Ministro dito da Transição. 
Mas claro, nós que  nada poluímos em termos mundiais e até europeus, cá estamos para compensar as poluentes economias asiáticas. 
Não sei se é de rir, se de chorar.  Ou de chorar a rir.

sábado, 17 de novembro de 2018

Transição para a Asneira

O Ministro da Transição Energética diz hoje, em entrevista ao Expresso que "é  uma pena o país não ver se tem petróleo...".
Espantoso, verdadeiramente espantoso! Então é o próprio Ministro que tem como função definir e tutelar a política energética que assume que essa política não é definida nem por ele, nem pelo Governo, mas sim por meia dúzia de radicais do ambiente? 
Então que está ele lá a fazer?

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Orçamento em modo de Péradon


Eu explico.
A discussão do Orçamento do Estado para 2019 lembrou-me um episódio insólito, mas verdadeiro, ocorrido por volta dos idos de Maio de 1970. À época, um grupo de quatro ou cinco bons malandros de Lisboa, vistos como gente de cultura, mas longe da clássica comunidade cultural, anunciaram por vários meios e também num prestigiado vespertino a vinda a Portugal de um brilhante filósofo francês, de seu nome A. Péradon, para uma Conferência sobre a sua obra. A Conferência, apresentada sob o título A revolução teórica de A. Péradon, realizou-se numa sala com nobreza à imagem do ilustre orador. Presentes, vultos da cultura, académicos, deputados, profissionais liberais.
Feita a apresentação por um dos promotores da iniciativa, jurista e mais tarde administrador de um grande Banco português (tenho uma cópia da apresentação), que considerou o pensamento de Péradon como uma poderosa e coerente síntese de diversas escolas filosóficas, o convidado discorreu em francês sobre a sua obra. No período de debate, convenientemente limitado porque o Professor tinha que antecipar inesperadamente o regresso, alguns dos presentes ainda puderam expressar o seu apreço pela obra do filósofo, lamentando o relativo desconhecimento da mesma e atribuindo-o às debilidades do ensino e a uma menor atenção das editoras nacionais. A Conferência terminou em beleza.
Eis senão quando, num rápido cocktail final, um amigo dos promotores segreda a alguém que tudo não passara de uma pantomina, o Professor Péradon nunca fora nem francês, nem filósofo, era um português radicado em França desde pequeno, desconhecido em Portugal, e que se prontificou a participar na brincadeira. Num fósforo a informação espalhou-se e os promotores só não passaram um mau bocado, porque já tinham saído com o palestrante. E o vespertino, que tinha caído na esparrela de divulgar a Conferência, não mais falou no assunto. Aliás, não seria admissível divulgar que personalidades importantes da cultura tenham caído no logro de conhecer e comentar um autor e uma obra inexistentes…
O episódio saltou-me à memória ao ouvir os comentários sobre o Orçamento de Estado, uma ficção não menor que a obra de Péradon. É que, a avaliar pelo passado, o Orçamento que tantos solenemente debatem não durará mais do que o tempo da sua aprovação. Depois, será rapidamente golpeado, ferido, cortado, cativado, transferido de rubrica para rubrica, aliviado de despesas de investimento e incrementado por vistosa despesa corrente.    
Continuar a ler artigo no i

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Em transição para as Lavadeiras de Caneças

O Ministro da Transição Energética, bonito nome, propôs a baixa de potência como medida de diminuir os custos com a electricidade. 
Não sei se a medida trará qualquer poupança familiar.
O investimento em lanternas para não se andar aos trambolhões ou o custo advindo do aumento das avarias das máquinas de lavar por efeito da interrupção da laboração de cada vez que o disjuntor disparar não auguram qualquer proveito.
A não ser que, para melhorar o Ambiente que também tutela,o Senhor Ministro veja aí a forma de se voltar a lavar tudo à mão, fazendo assim ressurgir as Lavadeiras de Caneças. Mas como também a estas será necessário pagar...

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Venha ele!

Sim, há na sociedade portuguesa quem defenda a prisão perpétua que a Constituição proíbe. Há quem não aceite políticas de inclusão, quem seja contrário aos novos costumes, quem veja nos direitos fundamentais de nova geração uma heresia, quem entenda que devem ser colocados rígidos limites ao multiculturalismo como forma de afastar o que consideram ser ameaça à civilização. Quem combata a globalização em nome da afirmação de nacionalismos e identidades de raça. Há quem julgue, convictamente, que Portugal não deve ser um país aberto ao acolhimento, que a Europa é a nossa desgraça, quem abnega o parlamentarismo, quem julgue a opinião livre um abuso. Quem gostasse de ver o sistema político transformado num conjunto de instituições de poder musculado. Estão entre nós, fazem parte da sociedade que nos integra, ouvimo-los nos cafés, nas escolas, nos nossos locais de trabalho, às vezes em nossas casas. Poucos? Muitos? Alguns. Mas quase todos sem verdadeira representação no idiossincrático espetro luso de mediação partidária. Esta ausência de grupo representativo que enquadre estes portugueses tem feito mal aos partidos tradicionais do centro e da direita pois têm sido evidentes as tentativas de disseminação no seu seio daquelas ideias, mostrando-se irresistível a tentação de atrair o capital eleitoral gerado pelo descontentamento de gente que não se revê nos sincretismos ideológicos ou nos compromissos pragmáticos em que vai assentando a vida política portuguesa. Não sei se é golpe publicitário para promoção pessoal, mas as parangonas anunciam a intenção de criar partido político defensor de pelo menos algumas daquelas ideias por parte de quem se fez notado por as defender. Estranhamente – ou não! – são muitos os sobressaltos por este anúncio. Eu aplaudo. Aplaudo desde logo porque acredito na força da razão, crendo firmemente que parte daquelas ideias explora descontentamentos e frustrações, exacerba sentimentos de quem não encontra resposta num sistema correto na afirmação dos valores mas falhado na sua vivência. Mas aplaudo também por estar convencido que o surgimento de um partido que reflita outras maneiras de ver o mundo, liberta o centro político das peias e equívocos ideológicos que o têm contaminado. Aplaudo porque contribuirá para mostrar que o equilíbrio e a moderação não dependem de uma esquerda sumamente hipócrita nos valores que afirma mas que não pratica, para mais apoiada no poder por uma extrema-esquerda que neles não acredita, constituída por gente bem instalada, professores de utopias caras cuja preço a pagar será fatalmente cobrado às gerações que aí vêm. Portugal sempre beneficiou da preponderância da moderação e da liderança por gente inteligente, sensata e equilibrada. Para isso importa que se revelem e afirmem os extremos. Que não se entrincheirem. A criação de um partido à direita da direita atual é, por isso, virtuosa. E não há que temê-la. Pelo contrário.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O Palácio do Vento e o Palácio de S. Bento

A fachada rosa do Palácio do Vento, em Jaipur, na Índia, que há uns anos visitei, permite adivinhar um edifício grandioso. Mas não é assim. Trata-se apenas da fachada de cinco andares de varandas rendilhadas de um palácio inexistente, mas que acaba por ser um extraordinário monumento. 
As concubinas do marajá de Jaipur andavam desgostosas por estarem confinadas ao palácio real. Não vendo ninguém a não ser o marajá e os eunucos, e só conversando entre elas, invadiu-as uma grande monotonia. Temendo falta de motivação das damas para as suas nem sempre fáceis tarefas, que a prática do Kama Sutra continha exigências de elevado nível qualitativo, e procurando preservar a sua qualidade de vida, o marajá resolveu oferecer-lhes uma varanda de onde pudessem recriar a vista com os passantes e o movimento da cidade. A fachada constitui um dos símbolos de Jaipur.
Lembrei-me que, rimando com Palácio do Vento, temos cá o Palácio de S. Bento, inicialmente um virtuoso convento beneditino e, depois, um não menos puro Palácio das Cortes, virtude certamente aumentada com o palacete construído nas adjacências traseiras. No entanto, não estou totalmente seguro de que a semelhança entre os dois palácios se fique pela rima e que o Palácio de S. Bento nunca tenha seguido a vocação do Palácio do Vento, metaforicamente falando, claro está... 
Para os leitores interessados, ler mais na edição de hoje do jornal i

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Uma besta humana

Custa-me utilizar a palavra, nunca o fiz, mas só uma besta humana, como Maduro, é que recusa ajuda humanitária internacional, preferindo que o seu povo morra à míngua de alimentos e medicamentos. Diz ele que isso seria uma interferência na soberania da Venezuela, o que significa que a soberania de Maduro se concretiza na fuga, fome e morte dos compatriotas.  
E dizer que tem por cá apoiantes. Institucionais, o que é o mais grave.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O comboio da geringonça

Notícia verdadeiramente sensacional, com direito a extensa reportagem do telejornal da manhã da estação pública de televisão: o comboio passou novamente a parar no apeadeiro da aldeia de Lapa do Lobo, localidade do concelho de Nelas! Acontecimento que teria apenas significado meramente local passou assim a ser acontecimento de relevo nacional.
Ridícula e primária esta forma canhestra de propaganda do governo, que visa contrabalançar todos os enormes problemas da ferrovia nacional: falta de investimento, comboios parados por falta de manutenção, atrasos, anulação de comboios sem pré-aviso, deixando as pessoas penduradas nas estações, mau serviço.
Mas, claro,a geringonça move-se e o governo está atento: o apeadeiro de Lapa do Lobo voltou a ter o seu comboio!

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Salário mínimo aumentado para 39,5 euros, um paraíso socialista

Multidões de homens, mulheres e crianças procuram fugir do paraíso venezuelano, tentando o refúgio nos países vizinhos. É o resultado da criminosa política de Chavez e, agora, de Maduro, uma política atentatória dos mais elementares direitos humanos, mas por cá bem apoiada pela esquerda comunista e bloquista. Os venezuelanos procuram fugir da tirania, da ditadura, da fome e da miséria, de um regime que tudo sacrifica à ideologia, mesmo à custa da fome e do assassinato dos cidadãos.
A inflação galopante provocada pelas políticas económicas do ditador socialista podem bem aferir-se pelo agora decretado aumento do salário mínimo de 5,19 MILHÕES para 180 MILHÕES de bolivares, o que em euros significa um aumento de 1, 14 EUROS para 39,5 EUROS!...
Salário mínimo de 39,5 euros, só num verdadeiro paraíso. Socialista, claro está! 

Congratulations Greece!

|20 agosto 2018| Para mim é claro que alguém da direção nacional do maior partido parlamentar, naturalmente o seu presidente, virá a terreiro durante o dia de hoje comentar o significado da mensagem amplamente difundida de Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, na qual justa e justificadamente se regozija por a Grécia se ter libertado do jugo das condicionalidades, após 3 - três - 3 programas de resgate. E estou certo que Rui Rio não deixará de comentar essa mensagem à luz das repetidas declarações condenatórias proferidas repetidamente por um homónimo do presidente do Eurogrupo, ministro das finanças em Portugal, sobre o árduo caminho trilhado por Portugal para a recuperação conseguida de alguma da sua soberania.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Acuidade policial


Há um ano atrás o senhor diretor da PJ assegurava que tinha descoberto, escassas horas após a tragédia de Pedrogão, a concreta árvore responsável pelo incêndio. Agora já tem debaixo de olho postes da EDP. Ainda dizem que nada funciona neste País...

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A absolvição do SIRESP

No ano passado, o SIRESP foi apontado pelo 1º Ministro como um dos grandes responsáveis, se não o maior, pela desgraça do incêndio de Pedrógão e, em coro, toda a geringonça, governo e apoiantes,  pediam a nacionalização da empresa e culpavam a Altice pelo sucedido. 
O tempo foi passando e agora a Altice, com o acordo dessa mesma geringonça e do mesmo governo, passou  passou a ter a maioria do capital do SIRESP. 
Não podendo acreditar que mesmo um governo irresponsável como este pudesse assim premiar a Altice pelo crime de que a acusava há um ano, só pode concluir-se que o SIRESP foi mais uma desculpa rasteira utilizada por esse mesmo governo e pelo 1º ministro para fugir às suas responsabilidades.
Entretando, e agora sem falhas do SIRESP, o fogo de Monchique que durou 7 dias, foi considerado excepção pelo 1º Ministro, como se regra fosse um fogo durar 7 dias, mesmo no tempo em que tudo era culpa do SIRESP.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Agora, em Monchique...

Ouvi ontem num canal televisivo um especialista muito especialista em fogos florestais dizer que operações de limpeza, construção de caminhos e de pontos de água na Serra de Monchique, tal como proposto por uma associação de produtores florestais, eram meros paliativos, sem importância decisiva no combate ao incêndio que lavrava há já vários dias.Como importância quase nula teriam as espumas que retardariam o fogo e que não constam das aquisições do governo. 
Ficamos então a saber que só um povoamento florestal desenhado de raiz em rigoroso e científico power-point, ignorando tudo o que existe, é que poderá salvar o país do flagelo dos fogos. 
É óptimo termos assim tão meritórios cientistas que definem estratégias contra os fogos numa situação ideal em que esses fogos, dizem eles, não existiriam.
Até lá, pois, é deixar arder, para que tudo recomece e o power-point se cumpra. Agora, em Monchique... 

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Uma roblusta estratégia win-win...

Com a demissão de Ricardo Robles ganhou a política séria e honesta. E a esquerda ganhou um empresário, sem dúvida o melhor dos mundos para um empresário.

domingo, 29 de julho de 2018

Um Bloco cheio de ética

Catarina Martins, defendendo o seu camarada do Bloco, o vereador do Bloco Ricardo Robles e não negando que o prédio deste esteve à venda durante vários meses, só não se realizando por falta de comprador, reafirmou que "não houve especulação imobiliária, porque o prédio não foi vendido...".
Bom, se um indivíduo, durante uma disputa, aponta uma pistola carregada ao adversário e carrega no gatilho, mas a pistola falha, não há má conduta, muito menos crime, porque o homem não morreu... 
A ética do Bloco em todo o seu esplendor!


"Morte e anjos"...

Comecei muito cedo a lidar com a morte. Tão cedo a ponto de não a levar a sério, ou melhor, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E é. Na altura ficava triste quando conhecia as pessoas. Sabia que a morte as levava e que nunca mais iria vê-las. Achava injusto, porque gostava de as ouvir, sobretudo quando contavam histórias. Sou um apaixonado por histórias, ainda hoje me comporto como se fosse uma criança sedenta de ouvir narrativas, Morria um parente, um amigo, um conhecido e eu perdia a fonte de muitas histórias. Agora, que estou a escrever sobre a morte, perpassam-me pela mente flashes de muitas. Sobrepõem-se umas às outras com cor, com som, com risos, com lágrimas, com fantasias e com curiosidades de todas as formas e feitios. São as lembranças dos meus mortos, dos mais velhos, dos que me ensinaram. Também recordo outras mortes, como se fosse hoje, de meninos com a minha idade com os quais brinquei. Neste caso não são histórias, mas peças de teatro, reais, tão reais que levaram comigo parte de mim, ficando eu com a saudade, fragmentos das suas almas. Também convivi com a morte de quem não conhecia, gente sem história e sem nada, alguns respiraram poucos minutos ou horas e outros nem chegaram a saborear o ar que eu respirava. Não contaram histórias, mas eu conto-as em seu nome. Quando as levava à terra, para serem transformadas em anjos de Deus, ficava na dúvida sobre esta forma horrível de as matar assim que nasciam para O poderem servir. Ficava na dúvida sobre a Sua bondade. É verdade, recordo estes pensamentos quando via as pequenas caixas de cartão branco, ou urnas miniaturas, a serem lançadas na cova e ter de deitar, no final, dois ou três torrões de terra sagrada sobre eles. Olhava em redor. Desconfiados do que estaria a pensar, diziam-me: - São anjos que o Senhor escolheu para O servir. Ouvia e ficava num silêncio inquiridor e sofredor. Mas hoje, passado tanto tempo, digo o que sentia, uma enorme tristeza e um sentimento de injustiça que não se adequava ao que me apregoavam a propósito de Deus e suas virtudes. No regresso, com as mãos pintadas de terra, e enfiadas nos bolsos dos calções, punha em causa tudo o que ouvia. Sentia-me cúmplice de atos pouco justos. - Se Deus é tão poderoso e bondoso como dizem, então, porque não "fabricava" anjos de outra forma? Matar crianças à nascença não era correto. As mães que punham os seus filhos nas minhas mãos choravam. Eu vi e ouvi, mais do que uma vez.
Queria falar sobre a morte, essa constante da humanidade. Queria dissertar sobre o medo que encerra e a dor que provoca. Afinal não consegui, porque acabei de contar uma história sobre os que nunca tiveram nome, que mal saborearam o ar da Terra, e que foram condenados a terem de servir no exército do Senhor.
Olho para as mãos. Parece-me vê-las enfeitadas de terra avermelhada e quente...
Doem.

sábado, 28 de julho de 2018

UM PAÍS DE HIPOCRITAS

O caso do vereador Robles e dos seus naturais apetites por uma existência confortável à custa dos proveitos da promoção imobiliária só chama mais a atenção por que se trata de alguém com responsabilidades no Bloco de Esquerda, formação que se afirmou arvorando-se de uma superioridade moral contra todos os que não correspondem ao perfil do que julga ser a sua base social de apoio. Mas de Robles está a política nacional cheia. Ao longo da minha vida, quantas e quantos vi sairem da mediania a que estariam condenados pela ordem natural que o mérito impõe ou pela falta de aptidões e de conhecimentos, só porque souberam empunhar convenientes e oportunas bandeiras. Quantas e quantos conheci que, incapazes de apanhar outro elevador, ascenderam à custa da condenação dos que se esforçam por criar riqueza, primeira condição para a distribuir. Quantas e quantos, do CDS ao BE, fazem na vida o contrário do que apregoam nas tribunas, sabendo que está aí a garantia do seu pontual abono de família e de uma confortável pensão quando as circunstâncias os arredarem da vida pública. São poucos - ou são alguns, mas sem palco mediático - os que ousam apontar para a nudez do rei que desfila, os que se incomodam com um sistema dominado pela hipocrisia e capturado por hipócritas. Mas ainda são muitos os que confiam ou os que, com o seu voto, concedem o benefício da dúvida ao sistema partidário que temos, assente nesta ilusão de justiça e retidão, financiado por parte substancial dos rendimentos de quem tem mérito, de quem trabalha ou tem sucesso no que empreeende. Um País que tal consente é responsável pelo que tem. E merece-o.