terça-feira, 22 de Abril de 2014

Muito bem, Snr. Presidente!

1. Não sei em que circunstância estas declarações foram proferidas, mas li hoje que o PR terá declarado o seguinte, creio que a propósito da evolução recente da economia portuguesa: “ As empresas são o grande pilar de recuperação, tudo o resto são “falt-divers”...

2. ...e acrescentou “os insultos entre agentes políticos não promovem o crescimento”...

3. Não posso estar mais de acordo com estas declarações, que aliás parece terem em consideração teses com alguma frequência expendidas em Posts divulgados neste BLOG (presunção e água benta...)...

4. Então nos últimos dias, a propósito e a despropósito da data festiva que a velocidade estonteante se aproxima, o nível dos dislates proferidos na praça pública por agentes políticos activos, semi-activos, reformados ou ultra-reformados tem aumentado de intensidade a um ponto que perderam já todo o significado...

5. ...parece quererem celebrar esta data histórica de forma peculiar, sob um formato de campeonato da falta de senso, com a particularidade de ser muito difícil encontrar um vencedor...

6. Há que ter paciência, sem dúvida...a surdez de que me vou queixando, nesta circunstância deixa de ser um “handicap”, para se converter num valioso “asset” !

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Uma estufa fria...

"...Penso pela minha cabeça. E não conheço nenhuma prova de que a acção do Homem tenha efeitos no clima. Nem eu nem muita gente que pensa também pela sua cabeça. 
Obviamente, as emissões de dióxido de carbono, resultantes da queima de combustíveis fósseis, não obstante serem diminutas em relação à massa total de dióxido de carbono já existente na atmosfera, poderão dar algum contributo ao efeito de estufa global da mesma atmosfera, mas nada que justifique ondas de calor, vagas de frio, cheias, secas, tufões, tornados e toda a parafernália de desgraças com que os alarmistas amedrontam as pessoas. E sobretudo tentam amedrontar os governos, para que estes lhes ponham nas mãos os saborosos subsídios com que eles, por artes mágicas, acabariam com as terríficas ameaças. Mas só daqui a cem anos, claro... 
Tudo isto é uma charlatanice de vendilhão de feira. Até porque existe uma verdadezinha inconveniente que os alarmistas procuram esconder: o principal gás com efeito de estufa é o vapor de água e não o dióxido de carbono, nem nenhum outro gás. 
E não porque a molécula H2O tenha maior potencial de absorção da contra-radiação infravermelha (a emitida pela superfície que foi aquecida pela radiação solar incidente) do que a molécula CO2. Pelo contrário, numa perspectiva molecular, a molécula CO2 tem um potencial de absorção superior ao da molécula H2O. 
Acontece no entanto que, em média, na atmosfera existe uma massa total de vapor de água entre quatro a cinco vezes a massa de dióxido de carbono. Daí que a maior responsabilidade, em termos de efeito de estufa, seja do vapor de água e não do dióxido de carbono. É claro que depois há uns “detalhes” que têm a ver com a sobreposição das bandas de radiação absorvidas, mas isso já é demasiado técnico. 
Portanto, se alguém, à cautela, quer fazer um seguro contra o efeito de estufa, que o faça contra o vapor de água e não contra o dióxido de carbono, o magnífico fertilizante atmosférico que oferece às plantas o carbono que elas integram nas suas moléculas e que depois os animais aproveitam. E nós também...".
Jorge Oliveira
(Jorge Oliveira é um ilustre engenheiro, brilhante aluno do Técnico, depois, assistente, e detentor de um sólido e reconhecido curriculum profissional que, aliás, o obrigou a abandonar a docência). 

Justo, com luz e sem rega!...

Duplos parabéns ao Benfica.
-Por ganhar o Campeonato Nacional de Futebol. Triunfo justo. 
-Pelo desportivismo manifestado de festejar a vitória com a luz acesa e sem regar os vencedores. 
Um abraço azul e branco forte para todos os benfiquistas autores, comentadores e adeptos do 4R. 

domingo, 20 de Abril de 2014

Um domingo de Páscoa

Lembro-me de um domingo de Páscoa. O sol brilhava intensamente na manhã do novo dia. O silêncio imperava, as andorinhas brincavam, os comboios passavam e o som da campainha ouvia-se à distância a anunciar a chegada do compasso. Nervoso, corri a avisar que não tardaria a sua chegada. Tudo preparado para receber a Cruz no final daquela manhã, porque à tarde a história iria repetir-se na vila, mais agitada e agigantada. - Já lá vêm, já lá vêm. Vinham pela velha linha estreita com o miúdo à frente a tocar incessantemente o pequeno sino. As portas estavam atapetadas à maneira, verduras e carqueja. Entraram em casa e com solenidade beijámos a Cruz e cumprimentámos o senhor prior que aspergiu tudo e todos com água benta. O odor a frescura, muito doce e suave, que competia com as deliciosas amêndoas, causou-me uma agradável sensação. Até o calor do sol arrefeceu perante esta cerimónia. A excitação continuou após a saída, porque tinha de ir almoçar a casa dos meus avós à vila. Sempre ansioso perguntava se não era horas de irmos. Fomos a pé, como era habitual, sob um sol quente e um bocado duro. À passagem pela ponte senti novamente a frescura doce e suave do rio que nesse dia emanava as sensações que tinha sentido em casa. Lembro-me de lhe ter perguntado se já tinha beijado a Cruz. Claro que tinha, pensei. A mesma frescura, igualzinha à que tinha sentido aquando da benzedura. Olhei para as águas azuis e imaginei a natureza a ser aspergida pela corrente de água benta. Só pode, pensei. As acácias espreguiçaram-se e dançaram ao ritmo da brisa, enfeitando os caminhos dando-lhes a merecida beleza. 
Após o almoço a azáfama continuou. Uma loucura saber por onde andariam e a que horas é que chegariam. Entrava e saía a dar conhecimento do trajeto, alertando para que estivessem preparados, não queria faltas, queria tudo e todos nos seus lugares. Uma espécie de vigilante. Vivi aquela tarde de forma ímpar. A meio da tarde, por volta das cinco horas, a campainha começou a fazer-se ouvir ao fim da rua e, passado pouco tempo, subiu de tom e as escadas. Corremos todos para a sala onde nos perfilámos à espera da visita. Naquele dia o sol tinha feito das suas, os membros do compasso tresandavam a suor a que não era alheio o sol das uvas fermentadas. Uma hora pouco recomendável porque as vozes já se arrastavam e, até, a Cruz chegou a baloiçar perigosamente ficando o Cristo de cabeça para baixo, dificultando o acesso, tendo de me contentar em beijar os pés. Que raio de maneiras em transportar o Senhor, pensei, mas olhando para aquelas faces não seria esperar outra coisa. O rebuliço foi enorme, meu Deus, ataques à mesa, desapareceram as amêndoas, os copinhos de licor esvaziaram-se e o envelope com o dinheiro foi devidamente guardado na pasta do "tesoureiro", que deveria estar tão cheia como o seu bandulho estaria de vinho fino. Não senti a doce e suave frescura da água benta da visita da manhã. Nada que se parecesse. Andou tudo aos trambolhões, a começar pela Cruz. Ainda olhei para o meu Cristo de marfim, majestoso, digno de um rei, que, no meio da mesa, silenciosamente, assistia a toda aquela confusão e ao que andavam a fazer ao seu irmão. Ninguém lhe ligou, nunca ninguém lhe ligou, apenas eu, mas também nunca se importou. Eu sim, fiquei triste por não ter continuado a respirar a suave e doce frescura que a manhã e o rio me tinham oferecido. Que pena, pensei.

sábado, 19 de Abril de 2014

A Páscoa de um tempo já passado

Era dia de gloriosa primavera. O Sr. Abade, de sobrepeliz e estola, e os mordomos, capa vermelha, um com a cruz, outro com a caldeirinha da água benta, outro com a campainha, que anunciava a comitiva, calcorreavam a freguesia, povo a povo, caminho a caminho, casa a casa, da mais rica à mais pobre, da mais perdida no monte à mais central, junto à fonte ou à igreja.
E havia ainda o homem do cesto, o membro hierarquicamente mais baixo da procissão, cuja função era guardar os ovos, presente dos mais pobres ao Senhor Abade.
A profusão das flores da primavera e o perfume das glicínias junto aos muros apareciam realçadas pelo sol brilhante da estação e davam um ar de incontida festa, que os tapetes de rosmaninho, junto às portas, mais acentuavam. E as escadas, decoradas a alfazema e a alecrim, anunciavam a alegria da visita. As casas, sujeitas à lavagem anual, mostravam o ar limpo e fresco do chão esfregado com sabão amarelo.
Na melhor sala da casa juntava-se a família: pais, filhos, avós e netos. Boa Páscoa, Boa Páscoa, saudemos o Senhor que nos vem visitar, dizia o Senhor Abade. As pessoas ajoelhavam e a cruz passava de boca em boca para o beijo pascal. Por vezes o crucifixo era mesmo beijocado com grande profusão e intensidade, nada escapando, desde a cara, aos joelhos e aos pés de Jesus Cristo. Nos casos mais extremos, o mordomo tirava um pano branco do bolso e limpava o crucifixo para a próxima devoção.
Mesmo as casas mais humildes, em cima de uma mesa mais ou menos tosca, tinham sempre uma cruz, um folar, uma garrafa de vinho e ovos. Vai alguma coisa, Sr. Abade? Não, que temos caminho a andar. E tem aí os seus filhos; olhe que eles estão com apetite!...Ao sinal discreto do Senhor Abade, o homem do cesto retirava ou não os ovos da oferta.
As casas mais ricas caprichavam na recepção.Na melhor toalha de linho, sempre o folar, mais uma profusão de bolos e doces e vinho fino, para acompanhar. Mas aí não havia ovos. Normalmente, um envelope com dinheiro. Vamos lá fazer as honras da casa, dizia o Senhor Abade!... E então alguns dos mordomos tiravam mais uma vez a barriga de miséria, dado que os pitéus expostos e o vinho do porto não eram manjar habituado a passar por aquelas gargantas.
O que o Senhor Abade sempre fazia era ir junto à cama dos doentes. E se era recebido com queixumes, na despedida sentiam-se sempre mais reconfortados.
Por vezes, o mordomo da cruz hesitava entrar numa ou noutra casa. E cochichava com o Sr. Abade. Que lhe dava ordem de entrar. Ao que eu me sujeito, ter que levar a cruz a gente amancebada...
A Páscoa era um dia festivo. Os tempos mudam e fica a nostalgia. Hoje, na minha terra, continua a haver visita pascal, mas sem o Senhor Abade. Saem diversas cruzes para despachar serviço e tudo acaba mais depressa, logo de manhã.
Já não é o mesmo, dizem! É verdade. Mas coisas melhores virão, diz-nos a esperança.
Nesta boa esperança, uma Boa Páscoa para todos!...


"Aleluia" da Páscoa...



Votos de uma Santa Páscoa!
Para a celebrar aqui fica o “Aleluia” da obra “O Messias” de Georg Friedrich Handel.

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Neo liberalismo...Neosocialismo...

Manuel Valls, 1º Ministro francês do governo socialista,  reafirmou a necessidade e, assim, a decisão do Governo de poupar 50 mil milhões de euros na despesa pública, como forma de reduzir o défice para 3% do PIB e, cito,  "recuperar a nossa soberania" . Congelamento das pensões, diminuição de funcionários, congelamento de salários  (em vigor desde 2010), diminuição de transferências para as entidades locais são exemplos da incidência  das medidas.
De imediato, a reacção de camaradas deputados socialistas: " não fomos eleitos para organizar a perda do poder de compra".  
Lá, como cá, não se lembram que se trata de atalhar males maiores (independente do acerto ou desacerto de algumas medidas...). 
Mas, com uma diferença. Por cá, é neoliberalismo; por lá, não pode deixar de ser neosocialismo... 

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Portugal país rico em misérias

Ouvir os outros é bom para compreendermos melhor o que nos rodeia. O jovem enfermeiro, que esteve de baixa devido a acidente, voltou ao serviço. Está muito melhor. Tudo normal. Começamos a conversar, ou melhor dei o mote para que pudesse falar. - Tem tido muito trabalho? - Conforme, mas de noite é pior. Ter de andar por aquelas aldeias de gente envelhecida e muito pobre transtorna-me. Imagine o que é ouvir, por favor faça o que puder mas não me leve para o hospital, eu não posso pagar a taxa moderadora, os quinze euros fazem-me muita falta. Eu assino tudo o que for necessário, por amor de Deus não me leve. A conversa continuou e o jovem, muito incomodado, disse, olhe senhor doutor que não foi nem uma ou duas mas bastaria que fosse apenas uma vez para ficar chocado com a nossa realidade, gente pobre e desprezada no interior de Portugal.
Alguém esperaria que uma coisa destas acontecesse depois de tantas "conquistas" e "promessas"?
Afinal, a miséria dos dias atuais não é muito diferente da miséria de antigamente. 
Portugal é um país rico em misérias. Sempre foi.

Primaverar

Guardei este texto que o Padre José Tolentino Mendonça publicou recentemente. É um daqueles textos que ficam na memória, que de vez em quando sabe bem reler. Primaverar é uma expressão cheia de força e de vida. A Primavera repete-se sem cansar, as flores e os prados renovam-se, sempre bonitos, como se da primeira vez se tratasse. Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Cada um saberá entender este sobressalto primaveril...

Esquecemo-nos que as estações se conjugam com um verbo e que, por isso, a primavera não é apenas um fenómeno exterior, um substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa vista, mas é uma realidade que posso dizer de mim “eu primavero”, “eu (re)começo a primaverar”. Por um lado, a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por incrível processo de rejuvenescimento. A vida parece uma rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. O seu espectáculo desassombrado enche-nos os olhos. Por outro lado, porém, esse ver não basta. Não somos testemunhas, mas protagonistas. A par das árvores com que nos cruzamos rua fora ou das flores bravias que pontilham qualquer nesga de chão, somos chamados a primaverar. 
Uma das formas de conjugar a primavera é a descoberta que cada um de nós vai fazendo, a tempo e fora do tempo, da aliança entre a existência e o inacabado. Quando, de repente, tínhamos tudo para nos pensarmos completos, gastos ou acabados, descobrimos que a vida é o aberto. Verdadeira sabedoria, aquela que nos faz tocar o coração da vida, é a sabedoria do inicial, do verde tenro, do primaveril, do incessante. Tem toda a razão a sentença de Lao Tsé: “Quando ingressam na vida/os homens são tenros e fracos/quando morrem/ são secos e duros/. Por isso, os duros e fortes/ são companheiros da morte/ e os tenros e frágeis/ são companheiros da vida”. 
O nosso juízo de arrumação e remate e as idealizações que projetamos a esse respeito) é enganador; mais não seja porque a vida é vida, florescente, é uma sucessão infinda de começos. Desde que nascemos estamos não só prontos para morrer, mas estamos sobretudo preparados para nascer, as vezes que forem precisas. 
Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível que precisamos aprender a acolher. Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos. 
Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos na verdade, de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos. Há quanto tempo não caminhamos assobiando, ou não seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais, sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas com o peso e a leveza da própria marcha? Quando vamos de um lado para o outro estamos, normalmente, presos aos motivos que justificam a deslocação. 
Mas – temos de reconhecê-lo – uma viagem assim é demasiado curta. E não é isso primaverar. Há uma outra viagem que só começa quando as perguntas sobre o que fazemos ali deixam de interessar. Estamos, ponto final. Viemos. Não é o saber ou a utilidade que a definem, mas o próprio ser, a expressão profunda de si. A sabedoria dos que primaveram não consiste, assim, num conhecimento prévio, mas em alguma coisa que se descobre na habitação do próprio caminho.

quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Economia pode crescer 2% (ou mais) este ano?!

1. Foi hoje divulgada pelo Centro de Estudos da UCP, uma primeira previsão para o desempenho do PIB no 1º trimestre de 2014, apontando para uma variação homóloga de + 2,2%.

2. A confirmar-se esta previsão – por enquanto não passa disso – ficarão lançados os dados para mais uma boa surpresa por parte da economia portuguesa: já em 2013 as previsões iniciais apontavam uma queda do PIB de 2,3%, o resultado final foi uma queda de 1,4% mas com variações positivas em cadeia a partir do 2º trimestre e mesmo uma variação homóloga positiva, de 1,7%, no último trimestre do ano.

3. E a boa surpresa em 2014 pode bem consistir numa taxa de crescimento anual de 2% ou mesmo acima, quando a previsão oficial – do Governo, do BdeP e do FMI – aponta para 1,2%...que, a verificar-se, não seria um desvio mais significativo do que o de 2013...

4. E devo confessar que não me espantará nada que tal venha a acontecer, tendo presentes indicadores parciais que vão surgindo, nomeadamente o muito rápido crescimento das vendas de veículos, tanto ligeiros de passageiros como comerciais, ligeiros e pesados, bem como a situação de elevada ocupação que se vem registando na actividade hoteleira e na restauração...

5. O grande e justificado espanto residirá na possibilidade de tal cenário face à persistência das políticas neo-liberais: segundo a velha cartilha crescimentista, JAMAIS seria possível qualquer vislumbre de crescimento, muito menos desta ordem de grandeza, enquanto tais políticas estiverem em vigor, com a cumplicidade das agências de rating e dos especuladores do mercado de capitais...

6. E o “pior” ainda pode estar para vir: uma nova descida do nível de desemprego, bem como um desempenho orçamental melhor que o previsto, graças, mais uma vez, à evolução da receita fiscal...

7. Admito que este cenário cause justificado horror nas hostes crescimentistas; convém por isso que se preparem sem demora para tal eventualidade, sofisticando até ao limite do (im)possível a técnica oratória de combate à realidade...

Austeridade ou Disciplina Financeira (Orçamental, em 1º lugar)?

1. Há algumas semanas o Presidente da República (PR) emitiu uma opinião que parece ter chocado profundamente o “establishment” político, nomeadamente o mais sensível a tudo quanto possa colocar em crise as esperanças num amanhã Crescimentista...

2. Disse o PR mais ou menos isto (não estou a citar): que o País teria de se habituar à ideia de viver em regime de Austeridade durante os próximos 20 anos, em ordem a repor os equilíbrios fundamentais, especialmente em sede de finanças públicas.

3. Esta declaração foi recebida com alguma estupefacção e algum choro, não raro de tipo convulso, por parte de inúmeros “opinion-makers” e de uma boa parte dos “media” que vivem na permanente expectativa de um retorno, logo que possível, a um regime em que o Estado (Administrações Públicas) possa, de novo, “abrir os cordões à bolsa”...

4. ...alguns situam mesmo essa expectativa num cenário de curto prazo, só estão à espera que a Troika volte as costas para poderem reviver tempos felizes...

5. Pois bem, embora julgando compreender o sentido e o alcance da opinião emitida pelo PR, e esteja basicamente de acordo com a mesma, só entendo que o PR teria com vantagem utilizado a expressão “Disciplina Financeira”, em lugar da expressão “Austeridade”...

6. Pois me parece que aquilo de que nós verdadeiramente carecemos é de uma prática permanente de disciplina financeira, a todos os níveis, a começar naturalmente no Estado (Administrações Públicas e Sectores Empresariais Públicos), estendendo-se depois aos demais sectores institucionais.

7. Em Portugal instalou-se, nas últimas décadas, uma cultura de indisciplina financeira, que no caso do Estado tem revestido um carácter verdadeiramente endémico, a qual é manifestamente incompatível com uma convivência normal dentro de uma União Monetária como é o caso do Euro...

8. Essa cultura leva a apelidar de “Austeridade” – com sentido notoriamente pejorativo - o que não é mais do que uma diferente cultura, de “Disciplina Financeira”, necessária, para além do mais, para que a própria economia possa crescer de forma sustentada, sem os frequentes solavancos que nos atormentam, e para que os impostos, especialmente sobre o rendimento das Famílias e sobre os resultados das Empresas, possam ser menos gravosos do que são actualmente...

9. Assim, Senhor PR, aqui fica a modesta sugestão, para quando voltar ao tema: refira-se mais à necessidade de Disciplina Financeira, de uma cultura de disciplina, generalizada, assumida por todos...e refira-se menos à Austeridade, que supõe ser a indisciplina o estado normal de vida. Com a devida vénia, não esqueço...

terça-feira, 15 de Abril de 2014

Pela coragem de remar contra a maré, vale a pena ler..

Convém colocar as coisas nas devidas proporções, não vá a ironia do texto de HM confundir: nem os movimentos das marés são tsunamis, nem a legitimidade aparente é regra em democracia. Mas é um facto que a opinião publicada, dominada por uma fação da esquerda, ela sim burguesa e conservadora, cria a ideia de que se formou uma onda de insatisfação e até repúdio por algumas figuras políticas, a quem não se desculpam os erros ou os momentos menos felizes (antes se ampliam) e se não reconhecem virtudes, mesmo algumas que costumam ser bandeiras dos críticos.
Aníbal Cavaco Silva é uma dessas figuras permanentemente fustigada pelo pessoal que gostaria de mudar de situação. No exercício dos seus mandatos o PR cometeu erros, terá até frustado expetativas de alguns. As minhas, ao dar posse ao Governo minoritário de Sócrates quando a gravidade da situação tornava evidente a necessidade de uma solução política distinta, que teria poupado muita dor e sacrifício. Mas tem-se revelado o Chefe do Estado que o País necessita, repondo equilíbrios quando se decretam exageros, gerindo a oportunidade da palavra com a prudência exigida pelos momentos difíceis que atravessámos (e que não passaram).
Aos que provaram do poder e não se conformam com a dieta forçada, ou aos aspirantes a um lugar no palco, a postura do atual PR não pode agradar. À volta deles estão comentaristas de esquerda e de direita, analistas e cientistas, nos jornais, rádios, TV e redes sociais.
Ser contra os poderes instituídos é o que rende, mesmo que nada tenha mudado no plano da legitimidade democrática e a ação de quem está legitimado se paute por critérios de inegável ponderação e equilíbrio, como se exige aquele a quem a Constituição atribui o papel de garante das instituições. Todavia, este ruído próprio das sociedades fortemente mediatizadas, não traduz qualquer perda de legitimidade como com ironia o texto de Helena Matos inteligentemente demonstra. Nem acrescenta autoridade ou valor à palavra daqueles que, em eleições livres perderam rotundamente, mas veem o seu discurso (se demagógico tanto melhor) ampliado à exaustão. É, na verdade, o sucedâneo, para esses, de um abono de família perdido. Mas só isso...

domingo, 13 de Abril de 2014

O sorteio fiscal e...outras rifas urgentes!...

O português bate recordes no totoloto e euromilhões, joga nas apostas on-line, adere aos sorteios dos bombeiros, dos cegos, da cruz-vermelha, das comissões fabriqueiras, compra rifas de que nunca saberá o resultado, entusiasma-se na lotaria instantânea. O português gosta de jogar em tudo, mas, ao que se ouve, só não gosta das rifas dos carros promovidas pelo Fisco. Melhor dito, os media dizem que não gosta, o que é coisa radicalmente diferente. Por exemplo, na RTP, dito serviço público, os jornalistas de serviço e ao serviço, certamente da verdade, nunca conseguiram encontrar um só cidadão que concorde com a rifa. Pelo contrário, pivôs, entrevistadores e entrevistados rivalizam nos argumentos mais boçalmente inteligentes contra a medida, como o custo do combustível ou da manutenção do carro, como se não fosse possível ao infeliz contemplado vender o objecto tão odiado que teve o azar de lhe calhar em sorte e assim arrecadar um bom pecúlio. E, ao que também vou ouvindo, a rifa de um carro de gama alta é considerada abominável afronta, coisa natural num país de pequenos e médios, agora até mais pequenos que médios. 
Também os senhores deputados e comentadores da esquerda muito esquerda e da esquerda menos esquerda, como da direita da esquerda não gostam da rifa fiscal. E dizem que o governo deveria era preocupar-se em acabar com a economia paralela.
Ora eu também não gosto da economia paralela. Mas é precisamente por isso que não engalinho com o sorteio. É que ele pode mesmo contribuir para mitigar tal economia.
Pois o que eu estou é contra os impostos que deixaram de o ser para ser confisco. E contra o estado excessivo que tal permite, pior ainda, que a tal obriga. E, neste caso, contra o governo, que não fez o que devia fazer. Mas estou também contra aqueles que querem ainda mais estado, que obriga a mais impostos que, automaticamente, geram mais economia paralela.
Ao fim e ao cabo é do que gostam. Por isso, odeiam a rifa.Como sempre nestas coisas com o inegável apoio da comunicação social. Alguma dessa, sim, a necessitar de uma enorme rifa!...

Véspera de domingo de ramos

Sábado de manhã com sol fresco e juvenil. Ondulam os pensamentos e as recordações despertadas pelo anunciar do domingo de ramos. Penso e sonho com brincadeiras e liberdades de outros tempos em que a frescura da idade comungava com a alegria das férias e os gostos próprios da altura.
Não vejo nada, nem ramos, nem azáfama, nem alegria, nem esperança, apenas algumas pessoas de idade que se esqueceram do que já viveram. Filhos do tempo morrem aos poucos com o passar do tempo. Eu não. Fujo e viajo à procura do que fui, quando gostava e acreditava no que via e sentia. Neste dia o sol aparecia também fresco e juvenil, porque tinha a minha idade e gostava do que via e sentia. Íamos os dois numa azáfama sentida à procura de belos e frescos ramos para o dia seguinte. O meu primeiro ramo não era grande, mas era bonito, um pequeno arco cheio de folhas verdes, frescas e brilhantes, ornamentado por belas flores. Mas encontrar as flores não foi fácil, tive de as roubar, logo me avisaram do pecado em que caíra. Deixá-lo, pensei, pelo menos irei entrar com um doce e belo arco na igreja, não é que eu quisesse fazer inveja aos demais, apenas queria que Ele me visse. Disseram-me logo, roubaste as flores, estás em pecado. Deixá-lo, pensei. No dia seguinte, depois de calcorrear o longo trajeto de terra batida, acompanhado pelo meu colega de brincadeira, o sol, que nunca se fez rogado nem preocupado com os roubos que efetuei, entrei na igreja. Que odor a frescura e a verdura. Cheia de gente, até parecia que o campo se tinha deslocado para ali. Muitos ramos e arcos tapavam-me as vistas. Quando chegou a hora de benzer os ramos consegui furar com destreza e coloquei-me num local onde o meu ramo foi aspergido pela água benta, algumas gotas trespassaram-no e molharam os meus olhos. Não sei se eram lágrimas ou se eram as gotas da benzedura, o que eu sei é que fiquei tão feliz que deixei de estar preocupado com as flores que tinha roubado no dia anterior. À saída da igreja os meus amigos começaram a brincar e quase que destruíam os seus ramos, mas eu, lesto, corri pela estrada fora sozinho acompanhado do meu amigo sol. À medida que passava pela varanda, canteiro, quintal e jardim de onde tinha retirado as folhas e flores do dia anterior, lançava-as sem pudor, com alegria e amor. Algumas pessoas ficavam admiradas com o meu gesto. Já estou perdoado, pensei. Assim abençoei cada uma das pessoas a quem as tinha roubado. Cheguei a casa feliz e leve. - Estou perdoado, gritei.

Revistas cor-de-rosa

Não tenho por hábito ler as revistas cor-de-rosa, mas quando encontro uma não resisto a dar uma vista de olhos. Sinto curiosidade em ver e ler o que fazem certas "personalidades". Ao fim de meia dúzia ficamos a saber quem é realmente importante em Portugal. Sorrio, divirto-me e não posso deixar de emitir algumas opiniões. O ridículo é uma constante e a publicitação de algumas pessoas um supremo desejo, enquanto a fofoquice e a parvoíce alimentam a pobreza de muitos, que, na sua solidão e tristeza existencial, conseguem alguma compensação e vontade de imitação. Nada de especial, apenas a tradução em formato nacional do comportamento natural e popular, que é saber o que acontece aos outros, sobretudo as suas misérias. Não conheço bem a dinâmica da escolha e da entrada das "personalidades" nas ditas bíblias da coscuvilhice nacional. Mas tem de haver compensações para os autores e cronistas. Não acredito que se banqueteiem apenas com o preço da capa, mas se for tenho de os felicitar, e dar aos "criadores" os meus parabéns. 
Por vezes assusta-me e inquieta-me algumas notícias e relatos, sobretudo quando navegam pela intimidade mais central. É evidente que se não fizessem incursões na intimidade dos que se expõem não teriam o mínimo de interesse por parte da população. Ver alguém com aspeto doentio, típico de quem tem um cancro numa fase aparentemente avançada e com a chamada de atenção e descrição despudorada da realidade clínica da pessoa perturba-me e até me ofende. Não creio que seja necessário chegar a este ponto. Também me questiono até que ponto o visado aceitou e autorizou a publicação e exposição do seu estado. Não sei, o que eu sei é que há princípios éticos que mereciam ser respeitados. Não sendo, a conduta transmite-se aos demais, os leitores, que acabam por ver "legitimadas" as suas ações e omissões com a leitura deste tipo de notícias. Assim, o mundo irá continuar na mesma, mesquinho, pobre, desrespeitador de valores e de princípios que são indispensáveis ao desenvolvimento e maturidade das pessoas.
Ler certas revistas com sentido crítico é útil e importante para compreender certos comportamentos e atitudes que andam por aí. 

Em suma, o ridículo anda de braço dado com a miséria.

sábado, 12 de Abril de 2014

"Topo de gama" fiscal...


Afinal os portugueses não são favoráveis ao sorteio de automóveis. Nesta sondagem, a maioria dos inquiridos respondeu que a ideia é má. Porque será?
O SE dos Assuntos Fiscais prevê arrecadar mais 600 a 800 milhões de receita fiscal. Resta saber como será gasta... 

A tentação de impor o direito de dispor

Por ironia do destino,é na altura em que se comemoram 40 anos de democracia em Portugal que se inscreve na ordem do dia a questão da obrigatoriedade do voto. Não me lembro quem é que a agendou mas o facto é que a discussão vai animada e parece até que se descobriu uma espécie de ovo de Colombo para combater a temida abstenção e contrariar os efeitos maléficos de um eventual dia de sol e praia. Ai não votam? Pois obrigue-se! E já vi até defender que se podem "converter" os votos brancos numa aritmética qualquer de modo a que no fim as contas batam todas muito certinhas. O que é mais curioso é que a polémica se instala numa altura em que todos os dias se ouve insistentemente que não há grandes opções para o futuro, a tal automatização das decisões vai de vento em popa na Europa, tudo será decidido como tiver que ser, assiste-se, entre a chacota e a estupefacção, ao falhanço de quem ousa arriscar uma tese diferente, abraçam-se os inimigos e revela-se em surdina que mais vale assim porque de outra forma vai dar ao mesmo. Mas é preciso que se vote, disso não tenho dúvidas, é preciso que se vote porque se acredita e se faz acreditar que assim se pode contribuir para alguma mudança, não é impondo a obrigação de votar que se consegue convencer as pessoas da importância das suas escolhas. Em democracia a substância conta, conta tudo, aliás, ou a Europa não teria que temer, como teme, a abstenção de uns e a militância activa dos que advogam soluções radicais. Ao mesmo tempo é desconcertante a confiança que os defensores de um Estado pouco interveniente têm na eficácia das leis intrusivas... 

quinta-feira, 10 de Abril de 2014

O filho pródigo

Os misteriosos mercados acolheram o regresso da Grécia com a generosidade bíblica dedicada ao filho pródigo. A Grécia, essa rebelde ingovernável, trapalhona, incumpridora, várias vezes ameaçada de expulsão do clube dos trabalhadores e dos culpados redimidos, a Grécia que nem queriam deixar assumir a presidéncia da UE e que viu sair zangados os zeladores do cumprimento na última reunião de acompanhamento enfim, a Grécia que afinal ia negociar em breve um terceiro resgate, essa mesma, foi recebida em triunfo pelos mercados. Procuraram a sua dívida tão duvidosa sete, sete!vezes mais interessados do que a oferta e os juros baratos, menos que nós, o Primeiro Ministro impante não se coibiu de o assinalar. E esta,  hein?

Grécia: bem regressada ao mercado da dívida!

1. A notícia financeira de maior destaque, hoje, é certamente a do regresso da Grécia ao mercado primário da dívida pública, com uma emissão de € 3 mil milhões, ao prazo de 5 anos: esta emissão teve o melhor acolhimento pelo mercado, traduzido numa procura que terá excedido € 20 mil milhões (quase 7 vezes o montante proposto), e numa taxa média de colocação ligeiramente inferior a 5%.


2. É curiosa esta recepção calorosa dispensada à Grécia, depois de uma ausência de cerca de 3,5 anos e de dois turbulentos resgates, o segundo dos quais em Fevereiro/Março de 2012, envolvendo uma dura reestruturação da dívida pública, que impôs aos credores privados elevadas perdas (forçados a um “hair-cut” de cerca de 50%)…

3. … cumprindo recordar os prejuízos elevados de alguns bancos portugueses que tinham investido em dívida helénica na convicção de que nunca deixaria de ser paga integralmente…

4. Este acolhimento quase caloroso dos mercados deverá constituir um estímulo para que a Grécia, apesar das imensas dificuldades com que se tem deparado para implementar as necessárias reformas - designadamente eliminando excessos quase obscenos de um “Estado Social”, com benesses totalmente incomportáveis (como os 16 salários a funcionários públicos) - prossiga o programa de reformas que já lhe permite apresentar um saldo orçamental primário positivo.

5. Este estímulo poderá ser importante, numa altura em que a dívida pública grega, embora detida em mais de 80% por credores oficiais, atinge a elevada fasquia de 175% do PIB (compara a 130% para Portugal e Itália), e a economia carece ainda de reformas ao nível dos mercados de factores e de produtos que lhe facultem maior agilidade e um crescimento sustentado.

6. Por cá o “mood” é outro, prossegue a ofensiva primaveril dos 74 ou + proponentes da reestruturação, os quais ainda ontem fizeram deslocar à AR uma respeitável delegação para depositar a sua mensagem de esperança no Parlamento.

7. O exemplo da reestruturação da dívida grega, que levou as taxas de juro implícitas na cotação da dívida (yields), no prazo de 10 anos, para níveis superiores a 30%, constituirá certamente um forte estímulo para que em Portugal se dê finalmente ouvidos a esta oportuna e patriótica proposta.



Diálogo tridimensional, internacional, intergeracional e, claro, virtual

-"Queridas europeias, aqui vai foto do vosso velho carro que aqui deixaram à espera das feriazinhas que tardam, acabado de chegar a casa, todo pintado, desamolgado, mecanicamente revisto e, o que foi mais difícil, sem nódoas nos estofos (:-( ).Para que o aproveitem bem, vindo cá mais vezes e não vos falte nada, sobretudo  que não inventem mais pretextos para pedir o carro do pai emprestado!, parece saído do stand!!

-Wow! Vais vendê-lo? Não acredito!

- Essa agora! É para durar mais 10 anos! O próximo serão vocês a comprá-lo!

-VENDER O NOSSO QUERIDO CARRO?!?!?!!? JAMAIS! Está maravilhoso! Não o deixem à chuva. Nem mal estacionado. Nem sem gasolina. Nem debaixo do poste onde há pombos. Nem estacionado ao lado de carros velhos. Nem ao lado de Jeeps. Nem..
Ohhh, que saudades do meu carrinho, aqui dava-me um jeitão!Obrigada pai, obrigada papás:)))"

quarta-feira, 9 de Abril de 2014

Reduzir horas de trabalho para poupar...

Gostamos muito de nos socorrer dos países nórdicos pelo seu exemplo de sucesso nas mais variadas áreas para justificar as nossas escolhas. Surgem invariavelmente como boas referências. 
A Suécia vai fazer uma experiência interessante: reduzir as horas de trabalho dos funcionários públicos para poupar dinheiro, mantendo as suas remunerações inalteradas. O que a cidade de Gohtenburg espera é que a produtividade destes trabalhadores aumente. Estranho? Nem por isso. Por cá ainda estamos na fase de aumentar as horas de trabalho...

20 anos depois do genocídio no Ruanda

A propósito da Guerra Civil e do genocídio no Ruanda, de que se assinala agora o 20º aniversário com as atrozes memórias dessas chacinas mas também com notícias sobre a recuperação do país  - agora até é apelidado de Singapura de África ! - recomendo vivamente o notável texto no Malomil aqui. Aliás, recomendo todos os textos no Malomil, são sempre surpreendentes e muito bons, há alturas em que é preciso reconhecer todo o mérito e qualidade à concorrência :))

terça-feira, 8 de Abril de 2014

A marquesa

Setembro era um mês especial. Os dias começavam a minguar, o calor deixava de suar e sentia o reinício das aulas a ameaçar. Mesmo assim gostava do setembro, ainda ia ao rio e saboreava os finais de tarde com sentido prazer. Nessa altura, em que se avizinhava o rebuliço das vindimas, via gente nova que procuravam beber a beleza da época. Atraídos pelo ouro do outono vinham de longe para se misturarem com as pessoas que aqui viviam, mas não se confundiam, eram diferentes, estranhos, bem cuidados e bem vestidos. Recordo de uma senhora, nada nova, vestida com cuidado, que usava toilletes que não se adaptavam ao local e aos costumes. Pintava-se com vermelhos vivos, usava chapéu, cada dia um diferente, mas sempre ridículo como convém a este tipo de gente. Tinha tiques estranhos. Todos paravam e comentavam, quem seria. Um dia "descobriram" que era uma marquesa. Todos a cumprimentavam com educação e, até, com alguma flexão. A senhora retribuía apenas com o olhar e um sorriso descorado não obstante os lábios de vermelho pintado. Caminhava com elegância e alguma tremulação empunhando um distinto e prateado bordão. Construiu os seus rituais. Saia e entrava na pensão à mesma hora, para descansar e para alguma reflexão. Nunca me aproximei da senhora, mas seduzia-me o seu comportamento e houve quem afirmasse que vinha para a Estação para ver ou se encontrar com o então "chefão". Não sei se é verdade ou não, o que sei é que destoava do ambiente de então. Via-a passear inúmeras vezes e a retirar da sua mala, um pequeno caderno onde escrevia com uma caneta grossa e dourada. Segui algumas vezes a "marquesa". Gostava de ver o seu andar e o rodopiar das belas sombrinhas que trazia. Todas diferentes, coloridas, com flores, arabescos, laços, rendinhas e outras coisas mais que me confundiam, se chovesse, pensei, deveriam desfazer-se à primeira escanevada. Identificava-a facilmente graças à cor e ao voltejar da sombrinha. Ia várias vezes até à quinta do presidente, parava, olhava, encostava-se ao muro, tirava o caderno e escrevia. Fechava o caderno e escondia-o na sua mala colorida. Era tudo colorido, espampanante e discordante de tudo o que via naqueles lugares e instantes. Passava em frente da casa do presidente, e a sombrinha rodopiava com tal velocidade criando figuras capazes de invejar o meu adorado caleidoscópio. Ia até à ponte do rio Dão, encostava-se, tirava o caderno da mala e escrevia com a sua grossa e bela caneta dourada. Depois regressava à pensão e aí ficava o resto do dia em reflexão. Havia um dia em que desaparecia e eu ficava triste. O mês de setembro chegava ao fim. No ano seguinte, quando os dias começavam a minguar, e o calor deixava de suar, e eu sentia o reinício das aulas a ameaçar, olhava para a pensão à espera de ver se a "marquesa" já tinha chegado ou não. Ficava contente quando a via a descer a calçada vestida à maneira, muito colorida, pintada de vermelho, sombrinha e mala na mão à procura do rio Dão, como se andasse à procura de alguma solução. Corria e avisava, a "marquesa" já veio, pois então. Sentia uma enorme satisfação, e a senhora, cujo nome nunca soube, fazia o mesmo que no ano anterior. Passeava, encostava-se à parede, tirava o seu caderno e escrevia com uma bela caneta grossa e dourada. Abria a sombrinha, colocava-a ao ombro, rodopiava-a e andava pelos mesmos sítios. Depois acabava o setembro, e o verão e a marquesa desapareciam para aparecerem no ano seguinte. Corria e avisava, a "marquesa" já veio, pois então. E assim aconteceu, até que um dia só apareceram setembro e o fim do verão.

Almoço de domingo

As rotinas de almoçar aos domingos foram alteradas este ano. Durante muito tempo fui a uma espécie de "caverna" sociológica onde comiam pessoas de outras eras e épocas transplantadas para o nosso tempo, era uma espécie de "portal" onde podia ver, falar e conviver com almas que traziam consigo o passado para o meu presente. Tantas conversas ouvi, tantas crónicas escrevi e quanto aprendi. Depois acabou. Fiquei triste e andei à procura de um local para substituir a minha "caverna". Acabei por encontrar um espaço, agradável, simpático e com boa comida. Agora, que se já se passaram várias semanas desde o início do ano, estou a adaptar-me ao meu novo espaço. Já não é a minha velha "caverna", agora é uma área muito mais moderna. Mesmo assim, começo a registar instantes que me ajudam a digerir os meus momentos de almoço de domingo. Olho-os e analiso-os com discrição e muita atenção.
Hoje, o farfalhudo e sombrio "bigodes", atacava com desespero esfomeado o pobre cabrito. Revirava as peças do jovem animal e, calado, mastigava-o com prazer. O seu companheiro, que estava de costas, não me permitiu ver o que sentia ou fazia. Ao lado, um casal popular e meio pretensioso falava e comungava o repasto. Dali tem de sair qualquer coisa, pensei.
O almoço decorreu com naturalidade e satisfação. No final, o "bigodes" sombrio comentou qualquer coisa com a empregada. Vi que se sentiu um pouco incomodada. Liguei as antenas e ouvi-o a dizer que faltava qualquer coisa. A empregada respondeu que tinha, não sei o quê, então era pouco, disse o "bigodes", que rematou, sobranceira e parolamente, "não estava grande espingarda". Bacoco, pensei, então o gajo mamou o cabrito com um desejo voluptuoso e agora vem dizer que não estava grande espingarda. Bacoco, pensei.
Ao lado, o casal popular e meio pretensioso tinha pedido a conta. - Com fatura? Perguntou a empregada. - Se for com fatura ainda pode ganhar um Mercedes. - Não preciso, já tenho dois, disse o pretensioso. - Fatura! Fatura para quê? Disse a mulher. - O que eles querem é saber quem come fora de casa, porque se comem fora é porque têm dinheiro e depois aplicam mais impostos. São uns sabidos esses gajos das finanças. Não queremos faturas, porque não queremos que "eles" saibam que andamos a comer fora. Não queriam mais nada!
Enfim, afinal pode ser que arranje matéria para viajar, não no passado, mas num presente diferente do meu. De qualquer modo, posso afiançar que o grelhado estava mesmo muito bom. Delicioso e as conversas também.

Lembranças no futuro

Enfiei-me pela montanha e fui dar à aldeia de xisto perdida entre aqueles montes belos e sensuais enfeitados de envergonhadas urzes. Não estava previsto a visita, mas o dia convidava a isso, o sol tinha aparecido e aquecido a vontade de espairecer.
- Vamos lá abaixo beber uma água fresca?
- Vamos.
- No ano passado compraste um cesto naquela venda em que o dono assobiava e cantava sem cessar.
- Comprei. Está na cozinha. Vou ver se compro outro, não igual, ficam bem na cozinha.
De facto, está apetrechada de artigos típicos e populares do país dando-lhe cor, alegria, realçando a simplicidade de outros tempos. A conversa continuou enquanto a descida durou, relembrando o seu hábito que é adquirir qualquer coisa que obrigue a recordar os locais, as gentes e os costumes por onde passou. Relembrou um engenheiro francês que nunca conheceu, mas do qual herdou pequenas e grandes coisas a testemunhar os inúmeros locais por onde viajou. Curioso, pensei, herdar objetos, formas de estar e imitar alguém é dar vida e significado quem anda pelo além. Pequenas coisas ou objetos simples são suficientes para alegrar e dar vida à imaginação. A alimentação dos espíritos faz-se à custa de lembranças no futuro.
-Então vamos à venda do castiço. Fomos direitinho. Estava sentado da parte de fora ao lado de um estendal de artesanato variado. Estava a assobiar. Da outra vez estava a cantar. Saudei-o e entrei na venda. As mesmas coisas, desarrumadas, com o mesmo cheiro, algum pó e materiais velhos e decadentes. Não consegui encontrar nada que me atraísse. Da parte de fora, agora a cantar, a pedinchar e a lamentar-se, usando as mesmas frases do ano passado, a minha mulher entregou-lhe uma pequena cesta e perguntou o preço. Pegou na cesta e depois de três ou quatro hum! avançou:- Vinte, vinte, bem posso fazer-lhe por trinta. Sorriu e continuou a revirar e a passar para dezasseis, até que lhe a entregou e disse: - Fica por doze e ainda perco! Mas se quiser uma mais pequena. Olhe aquela é mais pequena. Peguei nela e vi que era do mesmo tamanho. Peguei noutra ao lado, que era do mesmo tamanho, e tinha uma pequena etiqueta a dizer dez euros. - Afinal esta é de dez euros e do mesmo tamanho. Calou-se e fez a pergunta do ano passado: - De onde são os senhores? - De Coimbra. - Ah! Coimbra, Coimbra. Uma filha minha trabalhou numa loja na baixa e tenho lá uma irmã há sessenta anos, que é freira, e fiz milhares de quilómetros até lá, era taxista e levava pessoas doentes. Sim senhor, pensei, o homem é coerente, conta as coisas da mesma maneira. Desta vez não disse que tinha guardado as suas aventuras e experiências em cadernos que davam para um filme e um bom livro. Com a cesta na mão e uma nota de dez euros na outra continuamos a conversar, até lhe a passar para a mão. Aceitou como se não tivesse dado por nada, desejou-me boa viagem e até à próxima. Sentou-se e começou a cantarolar canções antigas da montanha, divertidas, na sua voz esganiçada. Um verdadeiro cigano das serranias de Portugal.
Valeu a pena a viagem, o pequeno cesto de palha entrelaçada, a conversa, a história e a lembrança que irá habitar a velha cozinha para um dia ser recordada.

Neosocialismo

Michel Sapin, Ministro das Finanças do Governo francês, intitula-se, a si próprio, como o Schauble francês. E, fazendo jus ao nome, mal foi empossado, de imediato correu a visitar o seu mestre e, agora, homólogo alemão, acompanhado do Ministro da Eonomia, André Montbourg.
E logo em Berlim, para não perder tempo, prometeu colocar as finanças públicas francesas em ordem. 
Neoliberal, Michel Sapin? Nada disso, que horror!...Neosocialista é que é!...
(notícia e declarações recolhidas no DN de hoje, 8 de Abril, de que não foi possível obter link) 
PS: E o mesmo acontecerá a alguém que por cá gosta de ser visto como muito seguro, caso o acaso o envie algum dia a Berlim. Palpita-me.

O telemóvel

A fila na caixa do supermercado já tinha várias pessoas que esperavam pacientemente que a mulher que estava a ser atendida resolvesse as suas dúvidas sobre a política de descontos de cada produto. Pessoa de aspecto humilde mas citadina, devia pertencer àquela classe pouco média em acentuado declínio, que passou a escrutinar severamente o preço de cada produto e a seleccionar os que lhe valiam ou não a despesa. O facto é que, pergunta atrás de pergunta, confirmava que afinal o bodo aos pobres dos descontos não era assim tão evidente, algumas coisas só teriam baixa se levasse dois, a embalagem em saldo não era a azul mas a verde, enfim, a empregada atendia-a pacientemente, mandava confirmar, disposta a correr aquele calvário que preenche as suas horas de trabalho. Entra então no supermercado um jovem casal com ar aflito, dirigem-se os dois àquela caixa e perguntam em voz alta, não ficou aqui um telemóvel, estivemos aqui agora mesmo a pagar e quando chegámos ao carro demos por falta dele, deve ter ficado aqui quando arrumávamos as compras nos sacos...
A caixeira disse, quase indiferente, que não tinha dado por nada mas a tal cliente que ainda não tinha encerrado a sua lista de compras largou num desatino a tirar as coisas dos seus sacos, arrastou com a mão as que ainda estavam no espaço da caixa, dizia alvoraçada, eu não vi nenhum telemóvel, se ficou aqui, aqui está, podem ver, mas como não estava lá telefone nenhum e o casal não se dava por achado, a mulher começou a abrir a mala num gesto de pânico, mostrando o conteúdo aos dois e depois à empregada da caixa e depois virando-se para a fila, quase em lágrimas, podem ver, eu não tenho aqui telemóvel nenhum, o meu ficou em casa, não tenho dinheiro para o carregar, mas não tenho inveja de quem tem, Deus me livre se fiquei com alguma coisa que não me pertença, podem ver, vejam, não está aqui nada, e escancarava a mala para que fiscalizassem, submetendo-se àquilo como se estivesse habituada a suspeitas injustas. A cena era tão constrangedora que alguns viravam a cara, para nem sequer olhar, outros saíram da fila e mudaram de caixa, o casal ficou parado, em silêncio pasmado, por fim, consolaram a mulher, deixe estar, deixe estar, que ideia a sua, ninguém a está a acusar de nada. 
Por fim, lá pegou nos seus sacos de compras e saíu, a olhar rancorosa à sua volta, não fosse alguém ainda duvidar do paradeiro do telemóvel do casal, posso ser pobre mas nunca roubei nada a ninguém, graças a Deus.

domingo, 6 de Abril de 2014

O que o Papa Francisco nos traz de volta

"Não há esforço de 'pacificação' duradouro com uma sociedade que abandona parte de si mesma.

"[A crise financeira mundial tem origem] numa profunda crise antropológica com a criação de ídolos novos, o culto do dinheiro e a ditadura de uma economia sem rosto, nem objetivo verdadeiramente humano." 

"Aquilo que domina são as dinâmicas de uma economia e de finanças carentes de ética: assim, homens e mulheres são sacrificados aos ídolos do lucro e do consumo, é a cultura do descartável." 

"Um povo que não escuta os seus avós é um povo morto."

Estas e outras frases e temas das suas intervenções públicas fizeram do Papa Francisco um fenómeno de popularidade e de sabedoria, um Papa do povo que todos invocam e repetem. No entanto, se lermos bem tudo o que diz e o modo como o diz, ficamos desconcertados, tal a simplicidade e até a evidência das verdades e das preocupações que traz a público, aquilo a que há não muitos anos chamaríamos banalidades e princípios comuns de conduta em qualquer sociedade com pretensões de civilização. Precisamente o que mais me impressiona é que seja preciso hoje invocar a autoridade e o carisma papal para se pronunciarem como válidas e importantes muitas das formas de pensar e de viver que noutras épocas bem próximas estariam na agenda das democracias e dos políticos com pretensões de ser eleitos, sendo consideradas elementares para o progresso da Humanidade. Cuidar dos mais velhos e dos mais fracos, o dinheiro não pode governar o mundo, as pessoas não são descartáveis, enfim, é bem um sinal dos tempos que seja preciso ser o Papa a falar para se reparar como tais princípios e valores foram ficando...descartados da nossa realidade. O Papa Francisco usa a sua autoridade e o seu ministério para as agendar de novo, para insistir, pode ser que, depois de acolhidas com surpresa e espanto, sirvam para repararmos como afinal são essenciais e nos escandalizarmos sobre quando e como foi possível esquecermo-nos delas.

Como é bonita a Primavera!


Como é bonita a Primavera! Apaixonante, tudo ganha vida, cor, energia, forma, magia. Aqui do meu jardim, chama-se "little prince"...

sábado, 5 de Abril de 2014

Poupar sim, mas é preciso mais...

É uma boa notícia. Tardia, parece, é caso para perguntarmos porque só agora esta decisão. Não me impressiona particularmente o valor adiantado da poupança. Se há poupança de despesa pública com a redução de despesas com pessoal e funcionamento, pela transformação de três em um, tão ou mais importante é a eficácia da gestão da nova agência. Não basta cortar, é preciso "reformar". É necessário que as organizações disponham das competências necessárias, de um modelo de gestão e dos instrumentos adequados, de um modelo institucional que garanta que são seguidas as melhores práticas. Sem estes ingredientes não há bons resultados. Sobre este assunto não fomos informados. Tratando-se do QREN aqueles princípios são ainda mais exigentes…

Rotação de funções e saneamento

Deu grossos títulos nos jornais a notícia da atribuição de novas funções à magistrada do ministério público que dirigia a unidade de combate ao crime violento. Ela própria se declarou vítima de saneamento. 
Não quero comentar o caso específico, por óbvio e natural desconhecimento dos factos. Mas, abstraindo do caso concreto, a situação ilustra o que de pior existe na função pública, que é a cultura de os funcionários se considerarem donos do seu posto de trabalho. Se um funcionário é convidado ou obrigado a mudar de função, aqui d`el-rei, que é saneamento. E tem, de imediato, acolhimento na arcaica comunicação social que persistimos em ter. 
Ora a mudança de posto de trabalho traz novas experiências, enriquecimento pessoal e profissional, uma visão mais alargada da área de actuação, e uma melhor compreensão do todo onde se insere. A polivalência de funções é um activo e uma mais-valia quer para o funcionário, quer para o serviço. Mas não, o funcionário entende que uma rotação para outro serviço é saneamento. Enquanto persistir esta cultura do lugar inamovível, não há, nem pode haver, gestão de pessoal. E, não havendo gestão, o bom funcionário é sempre a primeira vítima da mediania instalada. Com prejuízo para todos. Mas é o estado que temos. E que tantos adoram, embora lhe sofram as consequências. Masoquismo, pois. 

7.201.226 €uros!

Segundo a DECO é este o montante que traduz o locupletamento do Estado em IMI cobrado a mais até ao dia de hoje, apurado - creio eu - com base nos dados recolhidos pelo simulador que pôs à disposição na sua página da Internet. Um montante que traduz um bocadinho da realidade. O Fisco arrecada receitas de um novo imposto, oculto, resultante da não atualização deliberada dos fatores que permitem apurar o valor patrimonial dos bens imobiliários, em especial o preço por metro quadrado no concelho em que se localiza o prédio e a idade do imóvel (índice de vetustez). Um imposto que é filho de uma conveniente mas nem por isso decente omissão da administração tributária. Mas também de uma incompreensível ausência de indignação geral.
Existirão poucos países no mundo onde esta situação não atingirá foros de escândalo. Portugal é um destes. Denunciada a situação num momento onde a carga fiscal ultrapassou tudo o que é razoável, a denúncia da DECO não levantou qualquer onda de protesto. Uma indiferença que, pese embora deixar tranquilos os responsáveis governamentais, deveria preocupar quem tem da democracia a ideia de um sistema em que o escrutínio público se faz justamente nestes casos de desprezo pelos direitos dos cidadãos. Mais: a necessidade de uma reação firme da sociedade civil era tanto mais esperada quando é evidente a deserção, neste como noutros casos de atropelo a direitos,  de quem representa os cidadãos nos fora políticos.
A esta inércia só escapou a DECO que não só denunciou mais esta situação de agressão fiscal, como também colocou à disposição dos cidadãos, no seu site, um simulador para cálculo do valor legal de IMI e instruções simples e claras para requerer a atualização do valor patrimonial dos prédios e consequente correção dos valores a pagar. Uma iniciativa que merece o louvor à DECO que aqui deixo publicamente registado, mas que deveria ser secundada pela onda de indignação que infelizmente não foi capaz de levantar.
Enquanto isto, o Fisco oferece "prémios à cidadania fiscal" garantindo automóveis em troca de faturas, sem que falte a parolice da exibição televisiva do triste espetáculo. Pena é que só se exijam bons exemplos e bons comportamentos aos cidadãos, e nunca a quem os deveria servir...

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

Um Hollande realista

Depois do devaneio à l`Hollande, depressa ultrapassado, a França deixou-se dos sonhos socialistas e começa seriamente a voltar à realidade. 
O novo 1º Ministro, Manuel Valls, não foi de modas nem politicamente correcto em relação ao passado. Logo na sua primeira intervenção pública, no Telejornal da TF1, afirmou que "não há outra opção se não reduzir os défices públicos", pois "é uma questão de credibilidade para a França"
É que Valls sabe bem que a França vem perdendo competitividade, e que a carga fiscal suga os meios necessários à reorganização empresarial,ao investimento, à adopção de novas tecnologias, à inovação. 
E sabe que, sem isso, não há economia forte, nem emprego, nem rendimento para distribuir.
E Valls também sabe que estados endividados, défices elevados e fiscalidade excessiva não são de molde a aplicar políticas keynesianas, tão defendidas pelo seu partido. 
Que Hollande, seja dito, logo abandonou, no dia seguinte a ser eleito. Mas que o discípulo Seguro ainda teima em defender para Portugal. Com renegociações de dívida, de modo a criar uma folga que permita a tal "aposta no crescimento". Com mais despesa pública, geradora de mais dívida, uma receita segura para o descalabro.


PERIFÉRICOS deixaram de ser "PERIFÉRICOS"?

1. As obrigações do Tesouro Português, ao prazo de 10 anos, estão a transaccionar-se hoje a um preço que tem implícita uma taxa rendimento (yield) de 3,93% (já muito abaixo da famosa taxa “Machete”)...

2. Este será o nível de juro (yield) mais baixo desde Dezembro de 2009, ou seja 15 meses antes da derrocada financeira que culminou mais de 15 anos de vida fácil e indisciplinada, sobretudo no capítulo das finanças públicas, e que, como sabemos, na recta final assumiu características de autêntico delírio financeiro.

3. Ontem o Tesouro de Espanha colocou dívida no mercado a 5, 10 e 12 anos, arrecadando €5.583 milhões e obtendo taxas de juro das mais baixas de sempre:

- A 5 anos, 1,86%

- A 10 anos, 3,29%

- A 12 anos, 3,55% (mínimo histórico).

4. Há dois dias foi notícia o facto de as yields da dívida pública portuguesa se encontrarem a nível inferior ao de dívidas comparáveis de 36% dos países com ratings melhores do que o atribuído à dívida portuguesa...

5. Também há dois dias o F. Times noticiava que empresas sediadas em países da periferia do Euro estarem a conseguir emitir dívida no mercado a taxas de juro inferiores às conseguidas por empresas sediadas em alguns dos países considerados da sub-zona “core” do Euro...e Portugal seria um dos casos assinalados (recordo as condições excepcionalmente favoráveis de uma emissão de obrigações da BRISA, ao prazo de 7 anos, há cerca de 2 semanas).

6. Aqui chegados cabe perguntar: então os PERIFÉRICOS já perderam o estatuto de “PERIFÉRICOS”, agora só conservam o nome?  E passaram, como que por encanto, a merece todas as atenções e a preferência dos mercados?

7. E os mercados deixaram cair a sua perversidade, depois de, durante mais de três anos, terem sido acusados de pecaminosa cumplicidade com as políticas neo-liberais? O que terão a dizer sobre esta nova realidade os muitos e ilustres Comentadores domésticos, políticos e não-políticos, Crescimentistas na sua maioria, que acusaram os mercados de todas as malfeitorias contra os pobres países PERIFÉRICOS?

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Os Lusíadas

Cheguei cedo. Conheço bem a cidade e o local. Ao descer a avenida lembrei-me de pessoas da minha idade, quis recordar os seus nomes mas não consegui. Não interessa, do passado fica pouca coisa, apenas algumas recordações, sentimentos e saudosas emoções.
O esqueleto da zona não sofreu grandes alterações, apenas as carnes, tendões e músculos é que são diferentes, contrariando a velhice, rejuvenesceu, mas com tristeza e saudade de vidas de outrora.  
Cheguei cedo. Fui dar uma volta e beber um café. Na esquina encontrei um. Ainda lá está. Entrei e sentei-me. Olhei por uma janela agora voltada para a enorme rotunda. Em tempos permitia ver a estação, agora não. Olhei para a parede e vi uma enorme fotografia de uma velha locomotiva a vapor. Pensei, deve ser a mesma que daqui me levou para casa há quase meio século. Nesse dia fiz algo que nunca esqueci. Tive de ir a Viseu comprar Os Lusíadas. Ia para o quinto ano e na minha terra não se vendiam livros. Comprar Os Lusíadas foi um verdadeiro ato iniciático. Senti-me muito importante. A partir de agora sou alguém, vou ler e estudar Os Lusíadas. Ouvia, incessantemente, que era muito confuso e extraordinariamente complicado, sobretudo na divisão das orações. Deixá-lo, pensei. Na ânsia de o começar a ler, deu-me para decorar os primeiros versos. Entendia que passaria à condição de erudito assim que chegasse a casa. Assim fiz. Sentado naquele local, junto à janela de um dia belo e quente de setembro, comecei a memorizar, depois de beber um "nescafé". Que estilo! Aos 15 anos, sentado num café a ler Os Lusíadas, um momento inesquecível.

"As armas e os Barões assinalados 
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana, 
Em perigos e guerras esforçados 
Mais do que prometia a força humana, 
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram"

Não foi fácil. Recordo, sobretudo quando tropeçava na Taprobana, que não sabia dizer como devia ser e trocava por Trabopana e coisas semelhantes. Era uma inquietação. Mesmo durante a viagem de comboio, provavelmente puxada pela máquina que estava na foto da parede, memorizei várias vezes, até suspirar de alívio quando consegui dizer Taprobana, os primeiros versos. Que raio de nome o Luís de Camões escolheu. Mas onde ficava a dita Taprobana? Devia ser para os lados da África, adiantei. Ao chegar a casa, no "rápido" que devia andar a pouco mais do que 25Km/ hora, mostrei triunfantemente o primeiro livro que comprei sozinho. - Já sei os primeiros versos. Decorei-os. - Ai sim? Então diz lá. Comecei, mas ao chegar à dita cuja, meti as mãos pelos pés, engasguei-me e disse: - Que chatice. - Espera aí, engano-me sempre. Li novamente e disse: -...Taprobana... Em perigos e guerras esforçados... 
E foi assim que comecei a ler Os Lusíadas há quase cinquenta anos...

O poder das palavras...


Assisti ontem a uma palestra sobre Filosofia da Hermenêutica, dedicada às palavras: objectivos do uso da palavra, o seu significado, poder dos veículos de comunicação da palavra, os efeitos perversos da palavra, os signos, entre outros aspectos importantes para compreender a importância das palavras na vida, no conhecimento do mundo e na interpretação das coisas.
Um dos efeitos perversos do uso das palavras é que as mesmas são utilizadas para se dizer o que não se quer, para omitir o que deveria ser dito. A semântica ganha grande intensidade quando o poder da palavra é pervertido ao entrar num jogo de linguagem que visa ocultar a realidade das coisas.
Lembrei-me como este efeito tem vindo a ganhar peso no discurso político. A proliferação de palavras e expressões que são usadas para classificar uma acção, ideia ou facto é um fenómeno que tomou conta da linguagem política no espaço público, tendo como resultado - obejctivo ou consequência - a geração de um clima de confusão, incerteza e desconfiança. Lançam-se hipóteses mais ou menos verosímeis, criam-se expectativas mais ou menos elevadas e avançam-se não soluções com contornos possíveis de soluções, tudo a bem de uma vitoriosa contabilidade político-partidária.
Veja-se por exemplo a saída do programa de ajustamento da Troika que entrou no dia-a-dia mediático. A especulação tem sido alimentada pelo jogo de palavras, jogo este que serve também o objectivo da especulação. Há que alimentar o tema, as palavras aí estão para o fazer. Não faltam palavras ora para dizerem a mesma coisa, ora para dizer o seu contrário, ora para deixar no ar uma adivinhação do que pode vir a ser ou não ser, ora para justificar a coisa que tiver que ser: resgate, saída limpa, saída menos limpa, programa cautelar, programa cautelar soft, seguro, carta de conforto. Um outro caso bem ilustrativo. Não faltam palavras para categorizar as medidas políticas sobre os salários e as pensões: ora são cortes, ora são reduções, mas também são ajustamentos e substituições, são retroactivos mas também retrospectivos, dizem-se temporários e permanentes, mas são definitivos, têm adicionais mas sem agravamentos.
A quem serve tanta semântica? Aí estão os efeitos perversos do uso das palavras, quem as usa sabe ou deveria saber o que com elas quer ou não fazer, porque muitas delas dizem demais ou nada querem dizer…

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Repartição à l`Hollandaise

Pode-se criticar Hollande por muita coisa, mas nunca pelo carinho que ele devota às mães dos seus filhos. 
Ségolène, mãe de quatro, entrou agora para o Governo, com a pasta da Ecologia, Desenvolvimento e Energia. E Anne Hidalgo, mãe de um, contemporâneo de um segolenezinho, ao que vem sendo publicado sem desmentido, foi encaminhada para Presidente da Câmara de Paris. 
Homem com um enorme portfollio, mas administrador previdente e generoso. Um socialista que sabe repartir. Que nunca lhe falte a gratidão dos seus!...

Emoção

Levantei-me cedo. Esta noite sonhei que nem um perdido, vi e vivi aquilo que julgava ser real, mas não, afinal era tudo uma fantasia. Toca o alarme e toca a levantar. Fiquei aborrecido, não porque os sonhos fossem grande coisa, belos, prazenteiros ou coloridos, foram depressa esquecidos, mas por ter de viver um novo dia atormentado pelo dever. Cheguei à estação, senti o incómodo do frio e o calor de uma pequena conversa. A estação é o melhor sítio para encontrar quem não encontramos no dia-a-dia. Antes que dissesse qualquer coisa, adiantei, hoje vou em sentido contrário, vou para o Porto, vou argumentar uma tese. Riu-se, não sei se da minha espontaneidade ou com inveja, porque ter de ir todas as semanas a Lisboa cansa e enjoa. Ainda falámos de algumas coisas. O resto fica para outro dia, ocasiões não irão faltar. Boa viagem, boa viagem, repliquei.
Chego cedo, chego sempre cedo e parto sempre cedo, não gosto de entrar em conflito com o tempo, causa-me angústia e medo, sendo assim prefiro chegar e partir mais cedo. 
A candidata foi minha aluna, reconheceu-me e disse logo de chofre, foi meu professor há vinte e três anos. Credo, pensei eu, há tanto tempo. Ainda ontem, à noite, escura e fria, uma senhora simpática, no final de uma audição em que a minha neta atuou, e que me convidou a assistir, aproximou-se com suavidade e elegância e disse, não resisto a cumprimentá-lo, foi meu professor há vinte e três anos. Beijou-me. Fiquei satisfeito com o beijo, com a recordação e a sensação de ter contribuído para despertar uma agradável emoção.
As provas correram bem. Fiz uma pequena intervenção, realçando alguns aspectos que provocaram alguma emoção na candidata e nos restantes membros, como tive oportunidade de sentir no final. Longe mim saber que era capaz de provocar alguma emoção. A palavra, quando dita no seu verdadeiro lugar, na mina de ouro da argumentação, tem esse condão, que é transformar o trivial em emoção. No final cumprimentei-a e felicitei-a dentro do espaço e das conveniências da ocasião. Ao sair, via-a ainda mais uma vez na sala. Cumprimentou-me novamente e obrigou-me ir ter com ela. Abraçou-me e agradeceu com tão sentida emoção a ponto de ouvir o acelerar do coração. É curioso despertar e sentir o verdadeiro sentido de uma emoção. Foi o que fiz e foi o que senti. Fiquei feliz. Ainda me perguntou se não ia almoçar. Vontade não me faltou, mas estava desejoso de ir ao restaurante da estação para comer algo que é tradição, tripas à moda do Porto. Disse-lhe que ficava para uma outra oportunidade. Estou crente de que há sempre uma nova oportunidade. O taxista quis que fosse para as Devesas. Não quero, quero ir para Campanhã. Mas é mais barato. Não importa, quero ir para Campanhã. Eu faço o que o cliente mandar. Obrigado. Cheguei, entrei no restaurante e não tinha lugar. Indicaram-me um, mas já estava ocupado. Não faz mal, o senhor vai sair. Sentei-me, olhei para o senhor, e aquelas faces fizeram-me recordar a última visita a um santuário da gastronomia. Faces vermelhuscas, com um copo de uísque, a testemunhar que deveria ser o mesmo que vi da última vez. Com um sinal sorridente obrigou-me a sentar. A lista caiu-me nas mãos e não encontrei as tripas. Carago! E agora? Optei por um cozido à portuguesa. E que cozido! Travessa bem abastecida. Comi mais do que devia, mas teve que ser porque não tinha ninguém por companhia. Soube-me bem o ambiente da "tasca", as conversas dos demais e a simpatia do pessoal. Fiz um pequeno historial do dia, e ainda não passou muito tempo depois do meio-dia. Agora, sentado numa estação fria, dou azo a um desejo, descrevo a sensação de um novo dia transformado numa fonte de emoção.

As políticas automáticas que "mecanismos" exigirão?

Vi hoje, na RTP 2, um excelente e muito impressionante documentário sobre o Banco Goldman Sachs, que nos leva aos primórdios da crise financeira exportada para a Europa e hoje transformada na crise da dívida, na crise do Estado Social e no desenho de uma nova ordem europeia. Enquanto por cá se discute acaloradamente a eficácia do detergente que há-de fazer a saída do Programa de Ajustamento mais ou menos branca, as manobras militares da NATO com a Ucrânia aparecem nas notícias e sabe-se que a Polónia e seus vizinhos querem o reforço da presença da Nato no seu território, assim como parte do processo natural de integração. Toda esta profunda evolução à nossa volta nos obriga a ler, a tentar compreender para além das deixas dos telejornais ou das opiniões de uns e de outros. Interessantíssimo é o último livro de Medeiros Ferreira, "Não Há Mapa Cor-de-Rosa. A História (Mal)Dita da Integração Europeia", um ensaio sobre o processo político e economico que esteve na origem desta União, desde as suas raízes profundas no rescaldo da 1ª Guerra e da evolução muitas vezes mitificada que nos trouxe até onde estamos. Sobre o ponto onde estamos, deparei com a entrevista que o ex-ministro Vitor Gaspar deu a Teresa de Sousa, de que destaco o seguinte diálogo:
(...) Há um pequeno ensaio de Tony Judt, escrito em 1996, no qual ele diz que “a Europa ou será alemã ou não será”. Uma ideia simples que agora começamos a pensar que faz algum sentido. Neste modelo que estamos a construir para a zona euro, parece que temos todos de ser um pouco mais alemães. Ora, a integração europeia sempre assentou no respeito pela diversidade dos seus países, obrigando ao compromisso permanente entre interesses e culturas distintas. Como se restaura esse equilíbrio? (...) 
Eu leria essa observação à luz de Friederich Hayek. Não sei se leu um artigo do Hayeke de 1939, que se chama Economic Interstate Federalism…(...)
O ponto que Hayek faz é parecido com o que está a dizer. A Europa é e deve ser muito diversa. Ele usa esse aspecto da diversidade política e cultural da Europa como um dos factos básicos do seu artigo, sendo que o outro é o seguinte: se a federação for muito integrada do ponto de vista do comércio de bens e serviços e do ponto de vista financeiro, então haverá uma série de políticas que não podem ser exercidas a nível nacional porque não seriam eficazes ou arriscariam a fragmentação do espaço interestadual da União. A conclusão que tira é que muitas das competências que são exercidas a nível nacional não serão exercidas a nível da União, não porque conceptualmente não o possam ser, mas porque a diversidade cultural e política significará que não haverá consenso para o fazer. Concluía, em 1939, que o sistema, para assegurar a coesão de um espaço interestadual, teria de ser baseado em regras e no funcionamento quase automático de políticas. Ora, esse funcionamento..
... Que é o nosso… 
É precisamente o caminho que estamos a seguir na Europa."

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Rituais

Gosto de ler, mas não tenho muito tempo, cada vez tenho menos. À medida que o meu tempo avança, e o fim se aproxima, tudo se acelera, tudo se agiganta, como se assistisse a uma estranha dilatação do espaço onde me sinto meio perdido e meio achado. Consigo, mesmo assim, escrevinhar alguma coisa entre duas gotas de tempo que caem à minha frente. Escrevo para não sentir o frio incómodo da triste chuva da vida que sombreia e arrefece quase tudo o que me aparece. Vivo cada livro que leio, entro nas páginas, sejam quais forem, sento-me junto dos protagonistas, olho-os, ouço-os e desfruto as suas dores, angústias, prazeres e amores sem que me vejam, sem que sintam a minha presença. Não interfiro em nada do que fazem, dizem ou pensam, o único que muda sou eu. 
Na semana passada telefonaram-me a dizer que tinham entregado na faculdade um pequeno volume vindo de Inglaterra. Fiquei intrigado, não tinha encomendado nada e quando faço uso a minha morada. O que será, pensei. Entretanto dei ordens para que o colocassem na minha secretária. Fiquei com curiosidade. Hoje, depois de ter dado a minha primeira aula, fui ao gabinete e vi o embrulho. Peguei e senti que deveria ser um livro. Como recebo livros de várias organizações, pensei que fosse mais um, mas estava manuscrito e fugia ao habitual. Abri o pacote e deparei-me com um livro, "Burial Rites" de Hannah Kent. Estranho! Eu não encomendei o livro. Abro-o e ao começar a lê-lo lembrei-me de há algumas semanas ter visto uma fotografia de uma rua onde numa livraria estava exposto o livro. As ideias começaram a associar-se à procura de um corpo comum, pronto para contar uma história. Foi então que li a dedicatória, letra cuidada, desenhada, traço inequivocamente feminino e, sobretudo, encantadora, "Outros rituais... I hope you like it... Gratidão/reconhecimento, belos momentos de evasão proporcionados pelas escritas de vexa no 4r... MM". Sorri. Nunca esperei que um dia pudesse receber um livro em "paga" do que tenho escrito. Um gesto doce que inebria os sentidos de quem anda à procura de algo que nem sabe o quê. Levei-o para a segunda aula. Assistiu à mesma, enquanto eu olhava-o com desejo de entrar nas suas páginas e viver aquele passado, drama, enredo e vida numa época e num local que sempre me fascinou, terras e gentes de sagas surpreendentes. 
Gosto de rituais, gosto de jogar e falar com símbolos, uma língua muito diferente, mas que tranquiliza a minha mente. Agora vou lê-lo, vou entrar dentro das suas páginas para ver, ouvir, sentir e dormir com aquela gente, sabendo que posso fazer amigos ao longe, pessoas que pensam em mim, e que se sentem bem com aquilo que digo, penso, sinto e escrevo. Afinal é simples viver, basta escrever e, também, ler.

domingo, 30 de Março de 2014

Gosto do que faço...

Confesso que gosto do que faço, mesmo que me dê muito trabalho e algumas preocupações. Gosto. Gosto de ouvir as pessoas, gosto de as ajudar, gosto de conversar, gosto de aprender, gosto de ser um entre muitos, gente simples, gente dotada, gente sofredora, gente à espera de um sorriso, gente desejosa de ser compreendida, gente como eu, porque eu sou como o resto da gente. Partilho tragédias, dramas, alegrias e sou confessor, mentor e aparo qualquer dor. Converso de muitas maneiras, com palavras, com tiradas, com sorrisos e com silêncios. Não há dia que não aprenda, não há dia em que não saiba o que a vida é capaz de fazer. Amar, afrontar, ameaçar, matar, fazer rir e por outros a chorar é o quadro de um dia vulgar. Tudo anda num estranho pandemónio, nada para, nem o sol, nem as nuvens, nem as almas, nem os desejos, nem a esperança de um dia melhor.
senhora, vestida de negro, mais velha do que parecia, não disse de imediato o que sentia, algo de estranho no seu doce olhar me dizia que tinha cicatrizes de sofrida. Explicou a sua situação com a morte de um filho ocorrido há três meses, a mesma idade da minha filha mais velha. Estremeci. Mas não ficou por aqui, um outro, deve ir a seguir, com doença. Fiquei por aqui. Tenho que me defender. A senhora, simples, humilde, nunca perdeu o sorriso, delicado, estranho, uma espécie de mistura de ignorância e de esperança. Agredeci-lhe. Não compreendeu ou fingiu que não compreendeu. Saiu, meia alma, meio humana. Eu fiquei dorido da alma e atormentado no corpo. Fui para outra freguesia. Vi gente. Aprendi com o que ouvi. Deliciei-me com histórias, risos, medos, sustos e outras coisas com pessoas diferentes, pessoas que são capazes de ensinar quando estão à minha frente penetrando estranhamente na minha mente. Agradeço à minha gente. Surgiu o gago, não o via há um ano. Castiço. O bigode ombreava com o seu doce sorriso e bailava com o seu tartamudear. Perguntei-lhe pelo cinto com a fivela da Harley. Abriu os olhos e colocou de imediato as mãos no cinto, dizendo, não o trouxe. Como é que o senhor doutor se lembra do meu cinto? Como é que poderia esquecê-lo? Achei tão interessante a sua história. Como está a sua máquina? Está com problemas, queimou-se a bomba de água, e uma outra coisa qualquer, está no mecânico e tenho que pagar mais de quatrocentos euros! Fora isso, adoro a minha moto. Vou deitado a conduzir. Faz o gesto sempre a sorrir. Depois foi tempo para histórias, devaneios, manifestações de alegria, de felicidade, de risos e sei lá o que mais. A consulta foi residual. Estava bem, embora não se esquecesse do maldito desastre em que ia a mais de cento e oitenta a hora quando bateu na traseira de um carro. Ficou maltratado, perdeu parte de um pé e passou mais de dois meses no hospital, mas foi útil, senhor doutor, como não podia fumar deixei o vício. E um longo sorriso fez bailar novamente o seu olhar e o seu bigode. A conversa continuou, com ele, com outros, com outras e acabei por me enriquecer. Tanto meu Deus! Estou cada vez mais rico em histórias, em esperanças, em dores, em alegrias, em tudo que diga respeito à vida. Não posso deixar de agradecer ter vivido mais um dia e de o partilhar para ajudar quem queira saber qual o sentido da vida...

Hora velha, hora nova...


Mudou a hora, uma prática comum justificada por várias razões. Algumas nunca me convenceram, nem sei se alguma vez convenceram quem quer que seja, falo da "poupança energética", por exemplo, mas há outras mais simpáticas e, até, em certa medida, justificáveis, caso de o dia começar com luz em vez de noite, para quem tem de se levantar cedo é mais agradável. O que é certo é que a alteração de uma hora a mais, ou a menos, tem impacto, durante alguns dias, no comportamento das pessoas e de outros animais, recordo que as vacas ficam também chateadas com a mudança da hora, têm de adaptar-se à hora da ordenha, parece que tem alguma influência na produção do leite. As vacas não me interessam, o que eu sei é que durante uns três dias fico aborrecido com a alteração, mas devo fazer parte das pessoas sensíveis. Uma chatice temporária.
Hoje, toda a gente sabe ver as horas e tem relógio. Mas há alguns decénios não era bem assim. Recordo ter recebido o meu primeiro relógio quando andava na escola primária, um "Hércules", tinha que ser mesmo um hércules para aguentar com as tropelias de uma criança. O relógio aguentava, mas quem não se aguentava era o vidro, que se riscava com muita facilidade chegando mesmo a partir-se o que motivava uma raspadela e uma ida ao relojoeiro para substituí-lo. Tinha de ter o máximo de cuidado. Usava-o com orgulho no meu pulso. As pessoas viam-no, naturalmente, e ficavam surpreendidos como é que uma criança usava um artefacto daquela natureza. Por este motivo era interpelado a toda a hora e instante para responder à pergunta: - Pode dizer-me as horas, se faz favor, menino? Elevava o braço esquerdo, perscrutava com cuidado onde estavam os dois ponteiros, segurando o rebordo do relógio com os dedos da mão direita, e, passado um curto momento, tinha de ter a certeza de que não iria dizer as horas erradas, comentava: - São... Ouvia de seguida um agradecimento sincero e iam à vida, homens, mulheres, velhos, novos, calçados ou descalços, mais estes do que os outros. 
Uma vez perguntaram-me as horas. Depois de analisar bem os ponteiros do relógio, disse à senhora as horas. - Obrigado, menino, mas é hora velha ou hora nova? Olhei a mulher, cesto à cabeça, saia rodada e coberta com um avental colorido, descalça, pés encardidos, com sola grossa e gretada, e não soube responder, porque para mim eram as horas que o relógio marcava. - Então, menino, hora nova ou hora velha? Recordei que alguns dias antes o meu pai explicou-me que tinha de mudar a hora ao relógio. Foi então, que, depois de alguma hesitação, respondi: - Hora nova! Se tinha alterado a hora do relógio recentemente, para mim era uma "hora nova". A mulher, sem pressa, agradeceu, voltou a colocar o cesto à cabeça, virou as costas e, saracoteando-se, subiu a velha calçada romana que ia da ponte até à estação.

Foi a primeira vez que ouvi que havia uma "hora velha" e uma "hora nova"...

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