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terça-feira, 2 de junho de 2020

O "apoio à Banca"

A transferência de 850 milhões de euros para o Novo Banco inflamou a polémica do “apoio à Banca”, já antes excitada por quem, face às dificuldades que o COVID 19 trouxe a particulares e empresas, vem exigindo, em contrapartida, que os Bancos retribuam à economia os apoios recebidos. 
“Apoio à Banca” é todavia uma expressão enganadora, porque engloba na mesma designação os casos do BPN, BANIF E BES-Novo Banco, não os distinguindo dos outros Bancos, e porque sugere apoio a banqueiros e accionistas.
Ora, no primeiro caso, os banqueiros foram afastados e alguns já condenados, os accionistas descapitalizados e credores prejudicados. Nos outros Bancos, os accionistas, incluindo o banqueiro Estado, suportaram a desvalorização das acções a par de recapitalizações forçadas e reembolsaram com juros especulativos os apoios recebidos. Trabalhadores tiveram salários diminuídos ou foram dispensados.
O ardil da expressão faz esquecer que esse apoio se traduziu, sim, num suporte aos depositantes e à economia. É certo que muitas imparidades resultaram de crédito mal concedido por ineptidão, razões políticas ou fraude, ou das transferências para o NB, por incertas razões contratuais. Mas também é certo que muitas imparidades nasceram de crédito bem concedido nas condições do momento, mas cuja recuperação se tornou inviável face à crise vivida por particulares e empresas. O apoio aos Bancos foi o dual desse suporte à economia e sem o qual muitas boas empresas teriam desaparecido. E outras se perderiam, caso os depósitos fossem na voragem.
Esquecendo que os Bancos são os primeiros interessados em concretizar operações, essa exigida contrapartida acaba por ser um convite a uma distribuição de crédito sem regras ou condições. E grande prejudicado seria também o Estado, quer dizer, o contribuinte, face às garantias do Estado às linhas de crédito do COVID.
Esta exigência sobre a Banca serve o objectivo de quem não consente a Banca privada, visando, sob a capa de um apoio ético e até com spreads zero, que os Bancos afundem em dificuldades de solvabilidade e tesouraria, momento em que tal exigência se transformaria em acusação de gestão danosa e fraudulenta, propiciando a intervenção estatal.
À Banca deve exigir-se competência e rigor, não contrapartidas que dão sempre mau resultado. 
(meu artigo publicado no DN/JN/Dinheiro Vivo de 30 Maio de 2020
  https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/1448947/

2 comentários:

amf disse...

Meu Caro APC,
Não posso estar mais de acordo!
Continua a fazer-me confusão que nunca a Associação Portuguesa de Bancos tenha reagido com uma linha de argumentação semelhante à do teu artigo que é clara, simples e, mais importante, rigorosa!
Abraço
antónio m fernandes

Pinho Cardão disse...

Bem aparecido neste Blog que vou procurar reanimar. Obrigado por isso, e pelo simpático comentário. Quanto à APB, acho que o meu amigo tem toda a razão. Com esta ou outra argumentação devia rebater muita contra-informação que sistematicamente corre.
Na próxima 6ª fera publicarei outro artigo nos Diários de Coimbra, Viseu, Aveiro e Leiria sobre os fundos europeus e a aplicação que deles fazemos e que trarei a este Blog.