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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Uma Visão sem Plano e um Plano sem Visão

Nos próximos 10 anos Portugal poderá dispor de cerca de 60 mil milhões de euros de apoios europeus, dos quais 13 mil milhões de subsídios do Fundo de Recuperação e o restante advindo de empréstimos ligados a este Fundo, do orçamento comunitário e do que ainda falta do PT2020.   
Trata-se de uma média mensal de 500 milhões de euros, bem superior aos 331 milhões de que Portugal beneficiou desde a adesão à UE. 
E se de 1986 a 1995 esses apoios fizeram multiplicar a riqueza mercê de uma boa utilização em programas estratégicos como o PEDIP, já de 1995 até ao momento o PIB não cresceu mais do que os apoios recebidos e o PIB per capita em termos de paridade de poder de compra regrediu relativamente à média europeia, sinais de gestão incapaz e má aplicação. Poderia assim perguntar-se para onde afundaria o PIB se não fossem tais apoios. 
Porventura ciente deste quadro, António Costa já referiu que é uma responsabilidade para todos, incluindo administração pública, “gerir bem estes novos recursos e não desperdiçar esta oportunidade", e para o efeito encomendou um Plano de Reestruturação da Economia ao Professor Costa Silva. 
O documento apresentado como um verdadeiro Plano, não o é, de facto, aliás como o próprio nome, “Visão estratégica para o plano de recuperação económica”, logo o indicia. 
Tarefa da governação seria passar da Visão Estratégica, que elenca um catálogo de princípios e projectos, ao Plano, e fixar objectivos específicos, definidos no tempo, coerentes e hierarquizáveis. E enunciar as acções necessárias para os atingir, o custo de cada qual, comprovar a sua coerência mútua, determinar qual a hierarquização face à sua valia interna e aos recursos sempre escassos. E obter um consenso sobre eles. 
Pelo que até agora se conhece, não o fez, tão vago que é o Plano de Resiliência agora apresentado na AR, ademais com o vício fatal de atribuir ao Estado o grosso das verbas, deixando para a área empresarial produtiva e exportadora, que cria riqueza, a parte residual.    
E assim se persiste em ministrar à economia a cicuta que a definha, em vez de remédio que a erga e fortaleça.  
Em manifesta ironia, este Plano de mais Estado em vez de mais e melhor economia é o caminho certo para desperdiçar não só a tal oportunidade de que o 1º Ministro falou, mas a ocasião de salvar o país. 
(meu artigo no DN/JN/Dinheiro Vivo de 26 de Setembro de 2020)  
 https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/uma-visao-sem-plano-e-um-plano-sem-visao-12896646.html