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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

“Seja o que Deus quiser”...

A expressão “Seja o que Deus quiser” é frequentemente utilizada quando somos confrontados com a incerteza do futuro. De facto, o porvir pode agraciar-nos com alegrias e martirizar-nos com infelicidades. Não sabemos quais os critérios que presidem a este tipo de sorteio. Mas que existe, existe! Se é por vontade de Deus ou por uma mera questão probabilística, cujas finalidades desconhecemos, é de somenos importância. Na prática, as pessoas, temerosas do que lhes pode vir a acontecer, lançam para a vontade divina os seus destinos.
Quando uma mulher engravida, desejamos as maiores felicidades para que tudo corra bem e que a criança a nascer seja sã e escorreita. Mas, às vezes, o infortúnio, e a infelicidade, batem à porta dos pais. Ansiosos por acolher no seu seio o supremo fruto da existência humana, deparam-se com um ser doente ou malformado, não compreendendo porque é que a vida os traiu. Apesar de não diminuir a intensidade do amor, muito pelo contrário, devotam-se de alma e coração ao ser com dificuldades e limitações, o sofrimento está sempre presente, despertado amiúde por pequenos gestos ou actos quotidianos. Mergulham, frequentemente, numa tristeza domesticada, emergindo para respirar forças que os mantenham vivos, e lhes permitam cuidar dos seus filhos.
Hoje, graças às conquistas da medicina, é possível prevenir, diagnosticar, impedir e até tratar muitos males e malformações que a natureza, ou quem a supervisiona, produz com alguma finalidade, capricho ou intenção desconhecida. O que é certo é que muitos são alvos de atenções que bem dispensavam. Confrontados com a realidade dolorosa pedem ajuda e, até, milagres. Quanto a estes, quase me convenço –no caso de existirem, claro está-, de verdadeira discriminação divina e de selectividade duvidosa. Face à atitude divina, seja qual for o Deus, o homem procura substitui-Lo, propiciando os “milagres” para muitos males. Lentamente, mas de um a forma cada vez mais consistente, vai conseguindo maravilhas. Tocar num embrião, fruto da conjugação de dois gâmetas, para saber se é ou não portador de uma grave anomalia genética, evitando desta forma que o novo ser sofra uma grave doença, é um feito notável e digno de admiração. À atitude descrita, selecção de um embrião normal, é possível que o novo ser seleccionado possa, ainda, ajudar um outro, neste caso um irmão sofredor que espera desesperado por células compatíveis com o seu corpo para obter a cura. Graças ao diagnóstico genético pré-implantatório é possível resolver casos muito graves. Foi o que aconteceu, na Andaluzia, com o nascimento de Xavier. Criança normal, seleccionado de forma a ser compatível com o seu irmãozito que sofre de uma grave anomalia sanguínea. Os pais devem estar muito felizes por terem tido um filho normal que irá solucionar o grave problema do mais velho. É difícil imaginar a alegria da família.
Este caso, que não é o primeiro, levanta, em muitas individualidades, preocupações sobre os limites da intervenção humana. Há quem considere que estamos perante “excessos” perigosos de manipulação genética, eticamente não muito recomendável. Podem apresentar muitos argumentos, disso não tenho quaisquer dúvidas, balizados em princípios e orientações bem estruturados. De qualquer modo, as conquistas médicas são extraordinárias e conseguem fazer aquilo que Deus não faz, por esquecimento, por excesso de trabalho ou com intenções que só Ele sabe. Quem sabe se um dia, a frase “Seja o que Deus quiser” não correrá o risco de ser substituída por uma em que a vontade desça dos Céus para a Terra.

A "pen" vazia, mas muito oportuna

Naquele supremo instante das 16 horas em que a entrega do OE para 2009 era aguardada em ânsias pelo pelotão chefiado pelo Dr. Jaime Gama e composto pelos Grupos Parlamentares e jornalistas, foi anunciado que a parada devia destroçar. Uma crise violenta das poderosas novas tecnologias ao serviço do Ministério das Finanças, amaciada para incidente técnico, foi a explicação.
Com o relato do sucedido, os telejornais e rádios foram aproveitando para divulgar, não se sabe se por divina inspiração, as principais linhas de rumo do Orçamento virtual, por ainda não existente: apoio à famílias, aumentos reais para a função pública, criação de fundo de investimentos para a aquisição de casas.
Mercê de um esforço hercúleo, o arsenal tecnológico do Ministério logrou, por fim, três horas depois, facultar uma “pen” oca e semi-vazia com uns fragmentos do Orçamento ao pelotão mais uma vez reunido na parada do Parlamento..
Ainda na ignorância de qualquer letra orçamental impressa, os telejornais e rádios mais uma vez difundiram outras grandes luzernas do orçamento virtual: aumento do investimento público, diminuição do desemprego e da inflação.
Pela 20 horas, o Ministro das Finanças, em luzidia conferência de imprensa, apresentou publicamente o Orçamento, explicitando algumas vagas grandezas, porventura já incluídas em pen privada, laboriosamente preparada para o efeito. Os telejornais e rádios mais uma vez difundiram o apoio à famílias, aumentos reais para a função pública, criação de fundo de investimentos para a aquisição de casas, o aumento do investimento público, a diminuição do desemprego e da inflação, o crescimento do PIB e alguns outros dados ou valores que o Ministro ainda não tinha a certeza se já constariam ou não da pen ou como dela iriam constar.
Função meritíssima esta de serviço público e informação objectiva que os telejornais continuaram, em enorme afã, a exercer ao longo desta manhã!...
Com tudo isto, concluo que Sócrates é um homem de sorte, e como precisamos de homens de sorte!... E um homem sabedor, que soube transformar gloriosamente a crise tecnológica do Ministério das Finanças numa oportunidade única de propaganda exclusiva e sem direito a contradição.
Porque não posso crer que a oportunidade tenha sido ela a provocar a crise. Não, a oportunidade nunca seria a causa da crise. Isso nunca seria eu capaz de pensar de Sócrates!...

Entrega do OE’2009: Uma verdadeira trapalhada!...

A entrega do Orçamento do Estado para 2009 (OE’2009) foi uma verdadeira farsa, algo a que não me lembro de assistir desde que acompanho estas matérias. Diria mesmo mais: tratou-se, da parte do Governo, de uma total falta de respeito e de consideração quer para com a Assembleia da República, quer para com os Portugueses em geral. Uma vergonhosa trapalhada.

Recordemos os factos.

A entrega do OE’2009 estava prevista para o dia 14 de Outubro às 16:30. A essa hora, surgiu a informação que, devido a problemas informáticos, seria adiada para as 19:30. A essa hora, o Ministro das Finanças deslocou-se ao Parlamento e, supostamente, terá entregue uma “pen” que continha a informação relativa ao OE’2009 ao Presidente da Assembleia da República.

Mais tarde surgiu a confirmação de que essa pen só continha a proposta de Lei do OE’2009 – o Relatório e os Mapas Orçamentais não tinham sido entregues. Mas quis-se fazer acreditar que tinham sido. Ou seja, uma verdadeira farsa. Confirmada pelo facto de, ontem, dia 14, só o articulado da Proposta de Lei do OE’2009 ter sido disponibilizado.

Pouco depois dessa hora, o Ministro das Finanças concedeu uma conferência de imprensa no Ministério (que estava, anteriormente, agendada para as 18h), em que não deu nenhuma informação nem documento à comunicação social sobre o OE’2009, e falou apenas sobre os grandes números: crescimento económico, desemprego, inflação, proposta de aumentos salariais, investimento público, valor do défice, preço do petróleo… E via-se perfeitamente que o Ministro não estava seguro das informações que ia prestando. Ao ser entrevistado na televisão, mais tarde, Teixeira dos Santos nem sequer foi capaz de referir com exactidão o preço do barril de petróleo tomado como referência para 2009. “Creio que se situa abaixo de 100 dólares, próximo de 97, creio…”. Não me recordo de um tal número enm de tais hesitações por parte de um Ministro das Finanças que comentava o "seu" OE. Lamentável.

Mas o pior foi que nos últimos dois ou três dias já tínhamos sido bombardeados com informações que supostamente estariam no OE’2009… Pelo que ontem, assistimos, com a cobertura da comunicação social, ao triste espectáculo de muitos analistas, especialistas, economistas, etc. terem comentado... aquilo que ainda não existia.

Eu próprio fui convidado a comentar a manutenção do défice orçamental em 2.2% do PIB em 2009. Convite que, claro, declinei. Pois como podia eu comentar algo a que nem sequer sabia como se tinha chegado?... Com que despesas? Com que receitas?... Qual a composição de umas e outras?!...

Enfim, hoje de manhã, dia 15, chegou finalmente o Relatório, por volta das 10 horas. Mas os Mapas do OE continuam incompletos...

Em toda esta verdadeira trapalhada, bastava, afinal, que ontem o Ministro das Finanças tivesse pedido desculpas pela falha e tivesse explicado o que sucedera… Mas não, tentou-se atirar poeira para os olhos de toda a gente, e avançar com uma farsa inqualificável.

Aqui vão algumas perguntas que gostava de ver esclarecidas:

1. Se a data limite do OE’2009 era 15 de Outubro, por que razão foi a data de entrega antecipada para 14?...

2. Por que razão foi levada a cabo uma verdadeira encenação quanto à entrega do OE’2009 no Parlamento, numa pen que ou não continha nada, ou continha apenas o articulado da Proposta de Lei, num acto de falta de consideração para com a instituição e todos os Portugueses?...

3. Por que razão deu a Comunicação Social cobertura a esta situação?...

4. O que teria acontecido se uma situação deste género tivesse ocorrido, por exemplo, durante o Governo liderado por Pedro Santana Lopes?...

Enfim, talvez tudo isto tenha ocorrido para... desviar as atenções do essencial: o OE’2009, e os seus números e opções, que agora vou analisar. E em relação à qual emitirei depois a minha opinião. Mas não deixa de ser intrigante que, em matéria orçamental, este Governo termine o seu mandato como o começou: com uma verdadeira trapalhada.

Porque convém não nos esquecermos do sucedido aquando da entrega do OE rectificativo para 2005, que continha erros crassos nos quadros mais importantes do OE, algo nunca antes visto.

E agora foi este lamentável número… Trapalhadas a abrir e a fechar uma legislatura que, ou muito me engano, ou configurará, em matéria orçamental, 4 anos literalmente perdidos.

Crescimento económico: Governo "cola-se" ao 4R...quem diria?

Ao ajustar ontem em baixa , para 0,8%, a sua “previsão/desejo” de crescimento do PIB para 2008, o Governo vem finalmente – já não era sem tempo - "colar-se" às previsões económicas avançadas em 24 de Julho no 4R…
Recordemos alguns factos (F.i) e formulemos uma hipótese (H):

F.1) Outubro de 2007 – Governo avança previsão de crescimento do PIB de 2,2% para o corrente ano, com explícito e quase entusiástico apoio do BdeP...

F.2) Novembro 2007: Associação Comercial de Lisboa, Gov/BP avança a libidinosa previsão de que as taxas de juro não vão aumentar em 2008 uma vez que a subida da inflação, cujos primeiros sinais eram então visíveis, era na sua opinião um fenómeno muito passageiro...
Notável demonstração de optimismo que o decorrer dos acontecimentos viria a desmentir por completo!

F.3) Previsão inicial do Governo é mantida estoicamente até Maio último, quando o Governo, pressionado pelos mais sombrios cenários dos organismos internacionais, resolve efectuar uma primeira correcção em baixa para 1,5%...

F.4) Também em Maio, nova exibição de optimismo militante do Gov/BP, declarando, na Comissão de Economia e Finanças da AR, que a economia portuguesa iria crescer em 2008 provavelmente mais que a média da Zona Euro e seguramente pelo menos o mesmo que a Zona Euro...
Mais uma previsão falhada!

F.5) 24 Julho de 2008 - No 4R avança-se, com a proverbial falta de senso e insanável pessimismo, uma previsão herética para crescimento do PIB não superior a 0,7% - com o mesmo estoicismo o Governo defendia a anterior a previsão de 1,5%...

F.6) 3 Outubro 2008 – FMI "adere" à tese do 4R e revê para 0,7% a sua anterior previsão que era de 1,3%…

F.7) 10 Outubro 2008 - FMI adiciona uma ligeira correcção à previsão do dia 3: o PIB em Portugal crescerá apenas 0,6% no corrente ano, em 2009 crescerá 0,1% ou 50% da Zona Euro...

H) Lá para o início de 2009, admitimos que o Governo venha a aderir em pleno às teses do 4R - a revisão ontem anunciada não será provavelmente a última, deverá ser a última antes da próxima…

Temos de reconhecer, não obstante, que o Governo mostrou um grande “fair-play” ao conceder-nos esta aproximação/colagem…foi um sinal de muito boa vontade, não era lícito pedir mais! Quem diria?!

Agora que se percebe o que vai ser 2009 e se iniciou a campanha eleitoral...

... importa que se responda:

- Está o País e estão os portugueses melhores hoje do que o estavam em 2005?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pensar o pós-crise...

A intervenção concertada dos governos europeus da zona UE para fazer face à crise financeira revelou-se fundamental para evitar a falência dos bancos - fornecendo recursos financeiros suficientes aos bancos e procedendo à recapitalização de bancos em dificuldades - e para devolver confiança ao sistema financeiro e à economia.
As bolsas e os mercados monetários reagiram bem a este plano de salvamento dos bancos.
Impunha-se com efeito uma intervenção de fundo à altura da gravíssima crise instalada, alavancada a uma velocidade incontrolável para patamares perigosíssimos.
Perante o colapso do sistema financeiro, compreende-se que o tempo seja de gerir a crise e de restabelecer a confiança. Entende-se que neste momento sejam estas as principais preocupações.
Reposta a confiança nos mercados financeiros, nas bolsas, nos mercados monetários e reconquistada a confiança dos cidadãos e dos investidores será inevitável fazer um esforço também ele concertado, de questionar e equacionar um conjunto de procedimentos e comportamentos que sendo práticas enraizadas no sistema financeiro terão contribuído para a espiral de perdas financeiras nos activos dos bancos que culminaram no colapso a que estamos a assistir, arrastando perdas devastadoras, ainda por quantificar, nas economias.
O que se espera depois de passada a tempestade é que os governos retirem as devidas ilações sobre o que se passou, que sejam apuradas responsabilidades e tomadas medidas refundadoras do sistema financeiro.
Questiono-me sobre que conclusões retirar do trabalho dos auditores externos responsáveis pela auditoria às contas financeiras dos bancos e aos seus sistemas internos de controlo? E o que dizer do trabalho das agências de rating, responsáveis pelas notações de rating, designadamente, sobre a solidez financeira, a capacidade de solver compromissos ou sobre a qualidade do crédito concedido? E o que dizer sobre a opacidade dos produtos estruturados, agora designados de produtos “tóxicos”, envelopados em papel cor-de-rosa, contendo sofisticadas engenharias financeiras, colocados no mercado para fazer face a estratégias de cobertura de risco, prometendo elevadas rendibilidades sem cuidar de avisar dos riscos de perdas inerentes? E o que pensar da “ética”, ou falta dela, corporizada em “cenouras” de prémios sedutores e imediatos colocadas pelos accionistas à frente dos gestores bancários, incentivados a cavalgarem depressa e “bem” no lucro fácil?
Enfim, muitas outras questões devem ser colocadas, designadamente nos planos da supervisão financeira e da responsabilização.
Se é verdade que “em tempo de guerra não se limpam armas”, não é menos verdade que para evitar a "guerra" há que cuidar da "limpeza das armas". Esperemos pois que os governos europeus e os responsáveis políticos mundiais estejam à altura do desafio. Esperemos que ocorram profundas mudanças no sentido de fundar uma nova “ordem” financeira capaz de conferir segurança ao sistema financeiro e sustentabilidade à economia.
Agora que o “casino” está a arder, percebemos, ainda não totalmente, a “roleta” em que se transformou o sistema financeiro!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Uma boa medida!...

Muitas vezes tenho criticado o Governo. Também, todavia muito menos do que seria desejável, o tenho elogiado. Agora, face às razões aduzidas, sou dos que concordam com a decisão de avalizar, até 20 mil milhões de euros, operações de empréstimos da Banca Nacional junto de Bancos estrangeiros.
E concordo, porque, face aos elementos conhecidos, e parecendo eles fidedignos, sou dos que pensam que, apesar de alguns grandes desvarios na concessão de crédito ao consumo, do crédito à habitação, do imobiliário ou do industrial, os problemas que se colocam aos Bancos portugueses não são predominantemente de solidez económica, mas apenas de tesouraria. O que, aliás, não é problema menor para um Banco.
Nos últimos anos, o crédito concedido tem vindo a crescer significativamente, e o prazo dos empréstimos tem-se vindo a alargar, por força da natureza dos activos financiados (grandes obras públicas, geradoras de recursos a longo prazo, por exemplo, as SCUTS ou o crédito à habitação), ou por força da concorrência, ou até por alguma menor prudência na escolha do instrumento financeiro adequado (contas correntes a 90 ou 180 dias, que se transformam em verdadeiras operações de médio e longo prazo).
Neste contexto, alguns Bancos terão descurado o equilíbrio de prazos entre os passivos que assumem e os activos que financiam, isto é, têm tomado fundos a um prazo inferior ao prazo pelo qual emprestam esses mesmos fundos. Do que resulta uma óbvia pressão sobre a tesouraria, pressão esta aumentada exponencialmente em tempos de crise. Porque todos os Bancos se resguardam nas operações entre si e porque muitos cidadãos correm a levantar os seus depósitos.
Destinando-se essencialmente, como parece, a resolver um problema de liquidez, a medida tomada pelo Governo afigura-se correcta. Incorrecto seria, nestas circunstâncias, adoptar as medidas propostas pelo PCP e pelo BE, no sentido de o Estado vir a tomar os aumentos de capital necessários para restabelecer o equilíbrio. Por um lado, porque os rácios estruturais não o exigirão; por outro, porque tal incremento da despesa pública seria economicamente injustificada, servindo apenas fins políticos; e ainda, porque a medida implicaria mais impostos.
Uma boa medida, pois, a do Governo. Racional e criteriosa. Esperemos que os mercados a compreendam. O que nem sempre acontece. Talvez, porque, no fundo, acabam sempre por ter razão!...

Temos muito que aprender...

Por uns minutos façamos uma pausa na inquietação do nosso espírito perante as “engenharias” financeiras que levaram ao “colapso” do sistema financeiro mundial!

Observemos, ao som da música também ela tranquila, os inteligentes golfinhos que com a sua maravilhosa “criatividade” nos transmitem momentos de calmaria e beleza e a esperança que no mundo dos homens é possível viver a inovação sem a ganância do vale tudo!

A autofagia laranja


Um fenómeno que se instalou no laranjal, a autofagia.

Consultada a Wikipédia fica a saber-se que "a autofagia pode ser estimulada em determinadas situações, como, por exemplo, durante o jejum prolongado, aparecendo numerosos autofagossomos nos hepatócitos com o objetivo de converter os componentes da célula em alimento para prolongar a sobrevivência do organismo".

Bem me parecia...

A despedida dos despedidos


Li algures num jornal este fim de semana uma notícia escandalizada sobre um almoço de um grupo de quadros de uma grande empresa agora nacionalizada no furacão da crise. O almoço terá sido num local de luxo e custou uns milhares de euros, ou dólares, já não sei bem, destoando de modo cru do ambiente geral de colapso e das súbitas dificuldades da empresa onde trabalharam até agora.
A notícia e o modo sibilino como era apresentada, como se fosse uma teima descarada dos desvarios que conduziram a este estado de coisas, deu-me que pensar. Essas pessoas, provavelmente técnicos qualificados a quem a empresa pagava muito bem porque rendiam o suficiente para isso, viram-se de um dia para o outro sem emprego, sem glória, sem futuro. Devem ter ouvido desde que aprenderam a juntar duas letras que o trabalho garante o sucesso, que os melhores se conheciam pelos seus resultados, devem ter aceite e se calhar proposto objectivos cada vez mais ambiciosos. Devem também ter sentido olhares críticos e ameaçadores quando, porventura, alertaram para a impossibilidade de os atingir. Devem ter gasto milhares de dias e horas a fazer formação, a ser treinados em equipas de sucesso, a acreditar nos resultados prósperos da companhia, devem ter participado em acções de “team building” para criar espírito de grupo e aprenderem a lutar todos pelo êxito da sua empresa Devem, talvez, ter-se esquecido de passar por casa a tempo de ver os miúdos ou mesmo de ter guardado um tempo fora do trabalho para conhecer a pessoa dos seus sonhos. Eis que, de um dia para o outro, lhes dizem que estava tudo errado, que os objectivos eram imorais, que a empresa era predadora, especulativa sei lá mais o quê, e que tudo o que lhes gastou as energias valia zero, ou menos que isso. Devem ter olhado as instalações em open space, os computadores cheios de informação partilhada, de cálculos e relatórios para a administração, para os auditores e para as entidades supervisoras, muito melhores do que os dos anos anteriores. Devem ter vistos lucros fabulosos que foram entregues ao accionistas nos últimos anos, à medida que a empresa subia vertiginosamente nos rankings do sucesso empresarial.
E decidiram ir jantar todos juntos, uma última vez, já que em milhões e milhões de dólares que a eventual sobrevivência da empresa exige não há-de fazer grande diferença um momento de despedida em honra dos velhos de tempos de ontem. Chocante? Talvez, mas não deixa de ser um sinal de protesto perante a injustiça que cada um deles deve ter sentido ao verem desaparecer como fumo a vida de desafogo e sucesso que acreditaram poder conquistar.

domingo, 12 de outubro de 2008

À sombra do “templo de Dionísio”

Por vezes, ao ler certas passagens de um livro, vêm-nos à memória imagens e vivências há muito adormecidas. Foi o que me aconteceu quando lia a bela e singular prosa de Teixeira de Pascoaes, “A Beira (num relâmpago)”. Nesta obra, publicada nos princípios do século passado, o autor relata uma experiência notável para a época: uma viagem de automóvel entre Amarante e Arganil. “Cinquenta léguas percorridas em vinte horas”.
No dia 15 de Agosto de 1915, pelas duas horas da madrugada, o autor e os seus amigos iniciaram a viagem alvo de atenção literária. Até aqui nada de novo, a não ser as vivências e as análises profundas de quem é portador de uma alma poética.
Eis que, de repente, já depois de terem saído de Viseu, o amarantino tece curtas considerações sobre Tondela, abrindo-me a esperança de que falasse, também, de Santa Comba Dão, porque teria, forçosamente, de passar na minha terra. Sobressaltei-me quando o autor começa o seguinte parágrafo: “Súbito, abre-se um vale encantador: escaleiras de vinhedos descendo para o cristal extático do rio. Além, a arte humana quebra-lhe o sonho verde que se revolta, branqueja, pára, num sono escuro e profundo. É um pego torvo, contradizendo o alegre humor esmeraldino daquelas águas. Não há céu sem nuvens...”. Esta frase ilustra o que o autor deverá ter sentido quando se aproximou da ponte sobre o Dão.
Quando havia rio, agora afogado na albufeira, causava-me impressão como é que o Dão tinha personalidades tão distintas. Ao atravessar a ponte, saltava, invariavelmente, de um lado para o outro tentando compreender o mistério. A montante da ponte, e um pouco afastado desta, o rio era ternurento, social, amoroso, convidativo a mergulharmos no seu seio. Inspirava confiança, destilava alegria, prometia traquinices, oferecia prazer e sorria através da superfície azulada. Ao afunilar, já perto dos arcos da ponte, começava a dar sinais de mau humor, revelando um azedume e agressividade preocupantes. Então, quando passava para o outro lado as águas acalmavam-se e mudavam de cor ficando verdes escuras, denunciando um abismo que deveria esconder terríveis segredos. Ficava assustado, não obstante reconhecer uma certa beleza lúgubre. Presumo que esta parte do rio deveria ser o tal “pego torvo” descrito por Pascoaes. A tal faceta de um Dão muito misterioso. Em oposição às águas verdes escuras do pego torvo, as águas de tonalidade verde esmeralda, e por vezes azulada, quase que diziam: aqui podes vir, aqui podes desfrutar o prazer de te banhares e deliciares com as minha belas ninfas. Do outro lado, a mensagem era oposta. Imaginava uma prisão de velhos espíritos celtas agrilhoados às longas escarpas que penetravam na profundidade do rio para que não invadissem o pequeno paraíso situado a montante.
Não há céu sem nuvens...”, dizia o poeta saudosista. Pois não! As nuvens ficavam a jusante da ponte e o céu a montante.
Curioso! Ao fim de muitos anos, alguém nascido antes de mim acabou por me ajudar a interpretar o que sentia e o que via em pequeno.
Mas, o autor da “Arte de ser português” não fica por aqui. Logo a seguir podemos ler: “Santa Comba, apinhada num outeiro marginal, é como um templo de Dionísio no meio dum arraial de vides: romeiras vestidas de folhas e cachos de uvas, negras e doiradas. E o delicioso vinho, que o rio baptiza em nome de espírito, claro, faz-me sede de o conhecer. Mas, ai, só a nossa imaginação mergulha os lábios quiméricos nesse rubi translúcido”.
Pois bem, Pascoaes. Nem sabes o que perdeste! Tiveste que utilizar a imaginação para mergulhares os “lábios quiméricos” na maciez da bebida que seduziu os sentidos de Dionísio. Eu não! Neste momento, em que acabo de escrever esta despretensiosa crónica, mergulho os meus lábios num suave rubi translúcido em tua honra, pelo bem que me fizeste sentir. Que outros possam sentir o mesmo prazer.
À tua memória!

sábado, 11 de outubro de 2008

Recordar as crises e castigar os crimes

Faz agora 91 anos, em Outubro de 1917, a Revolução russa estabeleceu a vitória do comunismo e a inevitabilidade histórica do colapso da economia de mercado. Seria apenas uma questão de breve prazo.
Com a crise de 1929, o comunismo decretou mesmo o fim do regime capitalista.
Desde então, o capitalismo e a economia de mercado, melhor ou pior, conseguiram o maior período de liberdade, respeito pelos direitos humanos, prosperidade e progresso económico e social da história.
Ao contrário, os regimes comunistas acabaram por cair, desmantelados pela opressão das liberdades e pelas penosas condições de vida que criaram aos seus cidadãos.
Aproveitando o forte estremecimento da actividade económica, voltam os ideólogos de antanho a anunciar o estertor da economia de mercado e os amanhãs de novas e gloriosas economias de direcção central.
Desconhecem a história e os ciclos económicos. E nunca aprenderam que a criatividade, o voluntarismo, o engenho e a própria necessidade dos agentes da economia de mercado arranjam sempre soluções e forças para transformar as crises em novos tempos de prosperidade.
Esta é mais uma crise séria. E quem cometeu crimes de mercado, que ajudaram a ampliá-la, e muitos foram, tem que ser exemplarmente castigado. A fraude não pode passar impune.

Ribeira das Hortas

Tenho participado em várias reuniões por esse mundo fora, mas uma delas provocou-me sensações muito agradáveis. Recordei-me da pequena cidade francesa, Divonne-les-Bains, junto da fronteira suíça, por causa da ribeira das Hortas.
Princípio de Outono. Uma cidade encantadora, pequena e rica em jardins, com uma frondosa floresta multicolor, banhada por um sol morno a meio da tarde que, rapidamente, era substituído por um anoitecer frio mas confortável. Hospedaram-me, amavelmente, num castelo transformado em hotel, afastado do centro, no meio da floresta. Confesso que senti um certo desconforto, devido à distância, que foi ultrapassado pelo prazer de caminhar por veredas e pela margem de uma pequena ribeira. Apaixonei-me por ela. Durante o percurso, que chegava a durar uns bons três quartos de hora, admirava e falava com o correr alegre e suave de uma água cristalina que umas vezes saltitava, outras quase que parava, escondendo-se de súbito, para logo à frente surgir com um olhar malandro como se estivesse a jogar às escondidas. Quando começava a rasgar a pequena cidade, envaidecia-se com as atenções que lhe davam; pequenos e belos pontões, luzes devidamente colocadas nas margens para realçar a sua beleza nocturna, pequeninas e bem conseguidas cascatas que a obrigavam a emitir sons deliciosos, margens bem cuidadas, numa perpétua homenagem da flora local, como que agradecendo o bem que lhe passava aos pés e que nunca se entristecia mesmo quando os ataques de raiva caudalosa a submergia. A ribeira era amada, até pelos seres humanos. Ao longo do trajecto, durante aqueles dias, nunca vi nada que a conspurcasse, nem um saco de plástico, uma garrafa, uma embalagem de pastas dos dentes. Nada. A água limpa era uma constante com um cheiro suave e fresco que contrastava com a tepidez do sol e o frio da noite. Uma ribeira com personalidade e muito respeitada. Uma ribeira alegre. Quando a percorria recordava-me da ribeira da Hortas que, naquele local, deveria sentir-se a ribeira mais feliz do mundo, não lhe ficando atrás em beleza, pena os maus tratos que recebe ao longo do seu trajecto.
Quando percorro as margens da ribeira das Hortas, recordo-me sempre da outra: bela, alegre, bem cuidada, amada pelos habitantes, vaidosa e com razão. Quando penetro na intimidade da ribeira das Hortas vejo uma beleza triste, não cuidada, não respeitada, suja, não amada, humilhada e que só as raivas das invernias, gritando alto e em bom som, lhe permitem limpar as ofensas que lhe fazem, provando que pode ser tão bela e até muito mais do que a sua irmã de Divonne-les-Bains.
Agora, começa a ser objecto de algumas atenções que lhe permitem restaurar, pelo menos em parte, a sua velha auto-estima, mas é preciso muito mais, sobretudo respeito por parte daqueles que não são capazes de desfrutar e de amar uma das mais belas veias que a Natureza nos dotou. Lançar objectos e lixos é o mesmo que tentar cortar as veias do pulso num arremedo suicida.
Tenho grande dificuldade em compreender o desprezo a que votam um património tão belo. É fácil invocar a falta de sentido cívico e de respeito que não se esgota na agressão à ribeira, passando mesmo pela barbárie da destruição. É preciso educar os mais jovens, que, sendo, em princípio, mais receptivos, poderão no futuro fazer a diferença. Mas também sou adepto de castigos exemplares. Quem fosse apanhado a conspurcar a ribeira deveria ser punido com coima respeitável ou com a obrigatoriedade de a limpar. E, com toda a sinceridade, a ribeira bem merece que a respeitemos. Tão fácil...

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Uma entrevista doméstica!...


Faz dez anos que Saramago recebeu o Nobel da Literatura. O Expresso publica amanhã uma entrevista ao escritor feita pela própria mulher: uma entrevista objectivamente doméstica, portanto.
Saramago tem legiões de leitores em Portugal e no mundo; embora não apreciando o estilo, respeito quem o admira, e até admito, sem dificuldade, que o defeito possa ser meu. O mundo, de facto, é diverso.
Mas já não respeito, mesmo nada, o cidadão Saramago que, nos tempos do pós-25 de Abril, desempenhou funções de Subdirector e censor no próprio interior da redacção do Diário de Notícias. Censurou textos e jornalistas. E, mais do que censurar e cortar textos, cortou a vida profissional e saneou vários jornalistas que não se submetiam à voragem das orientações do Partido Comunista de que era o "controleiro" no jornal. De uma só vez, foram, creio, que vinte ou vinte e quatro jornalistas compulsivamente demitidos.
Pois agora, na entrevista doméstica ao Expresso, o mesmo censor Saramago queixa-se que «há um filtro» na comunicação social que trava tudo o que venha do Partido Comunista Português...”
Tal como o PCP quando fala de democracia, também Saramago tem plena autoridade para o dizer!...
Vem actualmente o Expresso, e bem, dando nota, nas suas edições, da vergonha da censura de Salazar e de Marcelo, a "má" censura.
Da “boa”, a de Saramago, não se fala nela.
Porque, também em matéria de censura, nem toda é igual: há a "boa" de Saramago e a " "de uns quantos outros…

Droga de país...

Vivemos numa droga de país em que não faltam drogados nem drogas, mas parece que vai haver falta pessoal qualificado para os tratar.
A notícia segundo a qual dezenas de médicos estão a pedir para sair do Instituto da Droga e da Toxicologia, através da “mobilidade voluntária”, é muito preocupante. As principais razões invocadas; “insatisfação com o desinvestimento e indefinição de politicas”, são pertinentes. Alguns clínicos queixam-se do “predomínio da componente de drogas de substituição como uma das causas de insatisfação profissional”. Acredito. É muito mais fácil, mais económico e mais cómodo controlar os toxicodependentes fornecendo-lhes drogas de substituição do que fazer tudo aquilo que se deveria fazer. A própria sociedade é culpada, na medida em que, por aquele meio, entretém os viciados, evitando ou minimizando os efeitos decorrentes das suas actividades paralelas em que a violência tem um papel preponderante.
Droga de país!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Mais frases sem conteúdo!...

Ao declarar no debate de ontem, e olhando para as bancadas do PSD e do CDS, que “nesta conjuntura quem sai derrotado são os apóstolos do Estado mínimo e do mercado desregulado”, Sócrates não se estava a referir, certamente, a Portugal.
Porque, entre nós, o Estado é máximo.
E porque, também entre nós, o mercado financeiro é altamente regulado pelo Banco de Portugal, pela Comissão do Mercado dos Valores Mobiliários, pelo Instituto de Seguros, pelo Ministério das Finanças e pela própria Assembleia da República que, até aqui, tem achado boa a actual disciplina regulatória.
Portanto, mais uma frase oca e sem sentido, para contentar esquerdista...
Admirável é que o PSD tenha encaixado a directa, que nem lhe assenta, sem tugir nem mugir!...

Memória olfactiva

Se a memória é um dos maiores bens, o esquecimento, muitas vezes, é fonte de felicidade. O pior é quando deixamos de recordar belas coisas e passamos a não esquecer outras, más ou menos agradáveis. Gerir conflitos de lembranças e recordações não é muito fácil, sobretudo quando a idade teima em apagar muitas delas.
Temos muitos tipos de memória. Curiosamente, a mais poderosa, a mais persistente, a mais arcaica tem a ver com a memória olfactiva. O nariz, um dos mais poderosos órgãos sensoriais, ao canalizar directamente para o cérebro os diversos aromas, "cheiros" e essências, acaba por desempenhar importantes e diversificadas funções. Funções que se estendem desde a atracção sexual, passando pela salvaguarda da saúde e segurança de cada um, até à degustação do prazer da beleza ambiental sem esquecer o excelso reforço do sentido gastronómico de muitos.
Claro que para tudo isto ocorra é preciso ter o nariz em boas condições! Há quem não o tenha, infelizmente, e há os que apresentam capacidades tipo canino. Obviamente, está posto de parte desta reflexão os que “estragam” o nariz ao metê-lo onde não devem...
O simples odor de uma substância pode fazer-nos recuar no tempo, provocando sensações únicas ao despertar a memória. Olvidamos, frequentemente, nomes, acontecimentos, rostos, mas dificilmente os odores. Recordo que em pequeno, por exemplo, sentia que cada estação tinha um cheiro próprio. "Já cheira a Primavera", e ainda as andorinhas não tinham chegado! No fundo, traduzia a explosão da vida em toda a plenitude com milhares de fragrâncias a inundar a atmosfera. Também o Verão tinha o seu odor; forte, impregnado de terra aquecida, ar irrespirável, aliviado, voluptuosamente, com a brisa fresca das margens do rio. O Outono também sabe produzir fragrâncias únicas, tais como as que senti na última campanha eleitoral, no final de uma tarde. Cansado, e ainda sob os efeitos de um calor tardio, os aromas do vinho que se libertavam das adegas e das lojas misturavam-se com o odor forte e estimulante do bagaço, amontoado nas veredas, provocando o emergir de velhas recordações. De repente, a estranha mistura dos aromas do vinho e do bagaço foi substituída, graças ao suspiro fresco de um pobre riacho, com as emanações suaves da erva doce. Curioso efeito. Tantas lembranças associadas a uma imensa tranquilidade. O Inverno também não fica atrás, e o nariz comprova-o, ao saborear odores refrigerados e mesclados de uma natureza meio adormecida e do engenho humano.
Se quisermos verificar quais os efeitos na memória, bastaria percorrer os belos recantos de Santa Comba e fazer os mesmos percursos ao longo do ano, “aspirando” a Natureza. Não é preciso explicar que, para o efeito, necessitamos de narizes funcionais e bem cuidados. No entanto, presumo que, em certos locais, os detentores deste apêndice facial não consigam ter boas memórias e nem vão ter no futuro. Pelo contrário! Para as bandas de algumas freguesias do concelho, a existência de vacarias e de pocilgas, que são altamente poluidoras dos solos e das águas, não respeitam as normas ambientais, agredindo os habitantes dessas zonas, impedindo-os de desfrutar aromas salutares e hedonísticos, porque não é possível despertar boas recordações cheirando os excrementos daqueles animais. As autoridades, e as populações locais, deverão desencadear os mecanismos legais e exercer os seus direitos de forma a poderem preservar uma boa memória olfactiva. Caso não o façam, no futuro, os habitantes desses locais talvez possam recriar o passado quando se confrontarem com excrementos. Mas o despertar das recordações, por este meio, não deverão ser agradáveis, antes pelo contrário. O que interessa são as boas e agradáveis lembranças de um passado mais ou menos longínquo transportado para a realidade quotidiana...

Os pretextos e a demagogia

Como medida para fazer face à crise, disse Sócrates, o Governo vai baixar o IRC respeitante aos lucros de 2009 e a pagar em 2010.
Só que, lamentavelmente, Sócrates se esqueceu de explicar que essa medida se destinava, não à crise actual, mas à de 2010!...
Revelando muito pouca fé nas medidas enunciadas para já...
Nota: Qualquer descida dos impostos é virtuosa para a economia. Impõe-se por si e o que menos precisa é de pretextos, aliás falsos, como o apresentado. Infelizmente, até nos pretextos campeia a demagogia barata!...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Uma Nova Ordem Mundial?...

Como a História bem mostra, depois da tempestade segue-se sempre a bonança – isto é, depois de tempos difíceis, períodos de dinamismo e prosperidade têm sempre lugar. Também agora assim sucederá, ainda que estejamos a viver a pior crise financeira desde a que originou a Grande Depressão de 1929-33, e cujos efeitos (negativos) na economia real ainda estão para ser sentidos na sua grande maioria – podendo admitir-se, face à informação hoje existente, que a situação só melhorará, provavelmente, para lá de 2009.

Assim sendo, ao contrário do Ministro da Economia, Manuel Pinho, não consigo descobrir razões para que o mundo da prosperidade, que marcou os últimos 10 a 15 anos, tenha terminado (céus!...).

Contudo, já consigo encontrar motivos que podem levar a que, sobretudo em termos de poderio económico e financeiro, o mundo a que estamos habituados possa levar uma grande reviravolta. Explico porquê a seguir.

Apesar da crise que estamos a viver estar a afectar todo o globo, os efeitos são bem mais devastadores nos EUA e na Europa. De facto, as perdas assumidas pelo sistema financeiro mundial até ao fim de Setembro, atingem quase USD 600 mil milhões – mais de EUR 420 mil milhões, ou cerca de 2 vezes e meia o valor do PIB português em 2008 (!) – dos quais cerca de 57% tiveram lugar nos EUA, 39% na Europa e apenas 4% na Ásia.

A vulnerabilidade do “Ocidente Industrializado” é, assim, evidente – como notória é a baixa fragilização do Continente Asiático, muito menos exposto ao subprime.

Ora, em minha opinião, esta situação não é alheia ao facto de os aumentos de capital e as entradas de novos accionistas nas instituições financeiras mais afectadas pela crise estarem a ser protagonizados, maioritariamente, por países do Extremo Oriente, como Singapura, China ou Japão, e por estados árabes, como Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos (destacando-se, entre estes, o Emirato Abu Dhabi), Qatar ou Kuwait (e isto excluindo, claro, as “nacionalizações” e salvamentos levadas a cabo pelos Governos dos EUA e de diversos países europeus).
De facto, ao todo, ao longo do último ano, já entraram mais de USD 47.5 mil milhões (ou cerca de EUR 35 mil milhões) provenientes do Extremo Oriente – a partir, nomeadamente, de fundos soberanos, mas também de instituições financeiras – em bancos como UBS, Citigroup, Morgan Stanley, Merrill Lynch, Blackstone, Fortis, Barclays, ou mesmo do Bear Sterns (absorvido pelo JP Morgan Chase) e do Lehman Brothers (este depois da falência, com a venda de várias das suas unidades de negócio); no mesmo período de tempo, os países árabes acima citados, também através de fundos soberanos, entraram em bancos como UBS, Citigroup, Merrill Lynch ou Barclays, disponibilizando para o efeito pouco menos de USD 25 mil milhões (ou quase EUR 18 mil milhões) – e compraram verdadeiros símbolos ocidentais como o Edifício Chrysler em Nova Iorque, ou o Manchester City, clube desportivo inglês que todos conhecemos.

Está, pois, a assistir-se a uma verdadeira transposição do poder económico e financeiro do Ocidente para a Ásia, em consequência quer do dinamismo do Extremo Oriente (do qual a China tem sido, nos últimos anos, o expoente máximo), quer das receitas provenientes do petróleo (no caso dos países árabes). Ironias da globalização: os outrora países considerados pobres estão a socorrer os “ricos” e as nações emergentes estão a converter-se em credores do mundo “dito” industrializado!...

E então aí sim, aí encontro razões mais do que suficientes para poder pensar que o Mundo que conhecemos e a que estamos habituados, com preponderância dos EUA e da Europa, esteja a dar lugar a outro, bastante mais equilibrado, e em que a Ásia deixará de desempenhar um papel secundário.

Uma nova ordem mundial pode estar a despontar.


Nota: Este texto foi publicado no Jornal de Negócios em Outubro 07, 2008.

Os olhares da história

À procura de uns textos que precisei de consultar, deparei-me com um livro que li há uns anos e que me chamou de novo a atenção, “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, de David S. Landes.
No epílogo, escrito já em 1999, o autor refere que, entretanto, os “pequenos tigres asiáticos”, a Tailândia, Indonésia e Malásia, tinham entrado em crise, arrastando o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e outros países regionais “que acabaram por sucumbir às dúvidas e receios dos investidores. No Japão, houve um forte abalo e estagnação de sectores da economia como a banca e o imobiliário."
Sobre as razões desta grave crise, o autor diz o seguinte:
“Como os historiadores muito bem sabem, quanto mais nos aproximamos do presente, mais incerto e falível é o nosso olhar sobre a história. (…) De certo modo, o problema residia no excessivo sucesso. Estas economias tinham crescido com demasiada rapidez, levando a inebriantes taxas de lucro e espectaculares aumentos de capital (…). Mas os lucros elevados acarretam riscos elevados e um homem de negócios que se preze deve desconfiar dos lucros espectaculares tanto quanto teme os grandes prejuízos. A regra básica da economia, bem como da física, é a lei da conservação da massa e energia: nada é de graça. Outra lei fundamental, toda e qualquer acção dá origem a uma reacção, não há ascensão sem queda. O fracasso esconde-se na sombra do sucesso, na inevitável cupidez humana.”
Segue-se o relato do que então foi feito para enfrentar a crise. Enquanto o “FMI aconselhou a Malásia a abrandar o ritmo acelerado da sua economia e aos outros apelava à prudência (…) em 1997, o Banco central da Tailândia declarou insolventes dez empresas financeiras, o que implicava uma pequena multidão de devedores em apuros.(…)Assim que a comunidade empresarial tomou consciência dos riscos, o infindável fluxo de fundos enfraqueceu, os especuladores estrangeiros abandonaram o navio e os empresários nacionais transferiram os fundos para porto mais seguro e adiaram compromissos, criando desemprego, descontentamento e instabilidade política. (…)As autoridades locais tentaram suavizar as tensões expulsando os trabalhadores indonésios. (…) De início, os tigres mais velhos sentiram-se superiores à situação e limitaram-se a criticar os novos-ricos, mas por fim também eles sentiram o apertão. A Coreia, em especial, sofreu o síndroma do crédito fácil e as empresas que tinham estado a funcionar à custa de empréstimos em breve viram os recursos financeiros à beira da exaustão. O pânico converteu-se em recessão, com as empresas a fechar e o drama do desemprego. Em Dezembro de 1997, um banco de investimento americano reconhecia que as empresas estavam paralisadas, limitando-se a tentar obter liquidez.”
O autor conta ainda como se reagiu. O FMI acudiu com muitos milhões e muitas condições para a sua utilização, algumas consideradas inaceitáveis. Na década de 90, outros países tiveram que ser socorridos, como o México e o Brasil, e “o Japão atolou-se num pântano estrutural(…)".
O autor conclui que “a intrepidez económica nunca isentou ninguém dos altos e baixos do ciclo económico, o sucesso é o pior inimigo de si próprio, um convite à cupidez e à ganância. A rectificação de um erro é sempre dolorosa.”
Este brevíssimo olhar sobre a história recente só reforça a perplexidade perante a aparente surpresa com o estalar da crise actual. Suponho que estes acontecimentos da década de 90 devem ter dado origem a milhares de análises, estudos e teses de doutoramento e teriam servido de lição a muitas instituições que governam o mundo económico e financeiro.
Então, como foram apanhadas de surpresa? Será que, também aqui, num mundo global, na era da informação, da electrónica e do trabalho em rede, o pior cego é o que não quer ver?

Porque tombam os mercados...

Notícias hoje divulgadas pela respectiva Associação, dão conta de uma impressionante perda na carteira de activos geridos pelos Fundos de Investimento Mobiliários:

- Só em Setembro último, o saldo negativo (resgates - subscrições) foi de 7,4%, equivalente a € 842,2 milhões;
- Desde o início do ano, a quebra é de 30,7%, equivalendo a um saldo negativo (resgates – subscrições) de € 6,2 mil milhões;
- Desde Setembro de 2007 a quebra é de 36,3%

Perante o cenário de subscrições negativas, em que as saídas excedem bastante as entradas, que fazem os Fundos (abertos)?
São forçados a vender activos (acções, obrigações, outros títulos) para realizar liquidez e pagar os resgates...
Mas ao fazerem isso, provocam uma queda maior nos preços dos títulos, levando os investidores a aumentar os pedidos de resgate...
Aumentando os pedidos de resgate, os investidores obrigam os Fundos a vender mais activos, forçando uma queda ainda maior das cotações...
Essa queda das cotações induz os investidores a aumentar ainda mais os resgates...
E assim sucessivamente...
Eis aqui uma das grandes causas da queda dos mercados: os Fundos abertos, que garantem liquidez aos titulares das unidades de participação...quando o mercado sobe, é uma delícia...quando desce, é o que se vê...

Já agora e ao contrário do “common-sense”, não creio que os maus da fita fossem os “short-sellers”, “naked” ou “dressed”...
Proibido o “short-selling” há mais de 8 dias, que aconteceu aos mercados
Sugiro-lhes sobre este tema a leitura de um interessante texto publicado no F. Times de 6 do corrente (pag. 9) intitulado "Short shrift"...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

As focas do Mar Cáspio e deste mundo...

Esta é uma foca do Mar Cáspio. Está a querer dizer-nos alguma coisa importante! Não precisamos de perder tempo a imaginar o que será. Esta foca é uma das espécies que constam da lista de espécies do planeta em perigo crítico de extinção. Em cinco anos a população de focas do Mar Cáspio reduziu-se 90%, vítima de caçadores.
O mundo não se encontra numa direcção sustentável e nós precisamos de um novo paradigma sustentável”. Uma verdade que tem um campo de aplicação vastíssimo. Aplica-se à crise financeira mundial, mas a afirmação foi proferida por um responsável da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICM) para alertar que há muitas espécies animais a morrer às nossas próprias mãos.
Segundo o estudo divulgado no Congresso Mundial da Natureza que decorre em Barcelona, as principais ameaças que afectam a vida dos mamíferos terrestres são a destruição, com destaque para a caça, e a perda de habitat natural, enquanto que os mamíferos marinhos se debatem com a contaminação, com destaque para a poluição, e as alterações climáticas.
Os dados da “Lista Vermelha” da UICN revelam que 50% dos mamíferos do mundo estão em situação de declínio, enquanto 25% estão já no “corredor da morte”.
Portugal aparece na “Lista Vermelha” com 159 espécies em risco de extinção. A maior parte refere-se a 67 espécies de caracóis da Madeira e dos Açores. A seguir vêm 38 espécies de peixes e um total de onze mamíferos, onde está incluído o lince ibérico.
O retrato trazido por este estudo não poderia ser mais cruel. É o resultado da acção do homem, que se não alterar os contornos do modelo de desenvolvimento em que está “loucamente” envolvido deixará aos seus filhos e netos um mundo mais pobre.
Este cenário desolador só poderá ser alterado com uma vontade grande de querer preservar a riqueza animal, e não só, que a natureza tão generosamente nos ofereceu. Será sem dúvida um problema difícil de resolver, que nos deveria obrigar a ser capazes de reclassificar princípios e reequacionar prioridades. Será que somos capazes de o fazer? É que a situação a que chegámos não é uma novidade, não é nada que não tivéssemos consciência que estaria a acontecer. A pergunta que fica é a de saber porque é que havemos de seguir “cegamente” por caminhos que podem acabar no abismo? Será que o desenvolvimento é incompatível com a preservação da natureza? Ou será que temos de alterar o conceito de desenvolvimento?
São questões para as quais é difícil uma resposta positiva, num mundo globalizado em que a competição desenfreada aliada à necessidade de sobrevivência económica e de ambição política parece que não olha a meios!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Éramos felizes e não sabíamos

De repente o mundo mergulhou numa absoluta incerteza. As ameaças que antes nos atormentavam parecem agora meros episódios de rotina perante a enormidade da confusão que se instalou e, antes de se instalar o pânico, ainda estamos perante o estupor da perplexidade, como se um dique considerado absolutamente firme e inexpugnável tivesse subitamente começado a desabar por todos os lados, como se a sua estrutura de aço estivesse afinal corroída, assente numa matéria viscosa que escapa por entre os dedos que lhe querem restituir a firmeza perdida.
À medida a que assistimos a mais e mais notícias sobre o que nos pode acontecer, apercebemo-nos, com igual estupefacção, de como afinal éramos felizes. Ao que agora nos dizem, vivemos até agora tempos de prosperidade em que dispúnhamos da matérias primas baratas, de petróleo ao preço da chuva, de liquidez financeira, de acesso fácil ao crédito, de casas ao alcance de (quase) todos, de automóveis em permanente renovação, de viagens ao virar da esquina, enfim, podíamos confiar no futuro que só nos desafiava a ter mais e mais. A banca era o exemplo do sucesso das reestruturações, as políticas de recursos humanos eliminavam os menos produtivos em cada momento, quase não havia oportunidade para falhar, tudo girava perto da eficácia absoluta. A tecnologia garantia transparência, rapidez, informação a tudo e a todos.
As crises do passado que ainda era há uns meses, afinal eram só uma questão de velocidade, a maior ou menos capacidade de andar mais depressa, de progredir ainda mais, de ter o que ainda não tínhamos.
Ao que hoje sabemos, vivíamos tempos gloriosos de prosperidade e não nos deixaram descansar nisso, o mundo viveu numa velocidade vertiginosa e parece que se despistou.
Aturdidos pelo impulso da ganância e pelo deslumbramento do progresso meteórico e da riqueza fácil, nem reparámos no muito que já possuíamos.
Se recuperarmos os jornais da última década, a palavra crise repete-se a todo o tempo, as ameaças do terrorismo, da pirataria informática, do desemprego, da competitividade impiedosa, eram sistemáticas, não havia quase espaço para a esperança e para a confiança no futuro. De repente, sentimo-nos a perder tudo o que nem sequer chegámos a valorizar, o mundo avançou e a sua alma ficou para trás.
Éramos felizes e não sabíamos.

E agora, BCE?

Usei a expressão “tiro no pé” em POST editado na última 6ª Feira, 3 do corrente, para caricaturar a decisão do BCE de manter a sua principal taxa de juro activa inalterada, em 4,25% – num momento em que eram perfeitamente visíveis os sinais de desaceleração dos preços no consumidor e também os sinais de abrandamento da actividade económica.
Fiquei com a convicção de que o BCE perdeu uma excelente oportunidade de se antecipar aos acontecimentos, baixando a sua taxa em pelo menos 0,5%, dando uma resposta clara ao sentimento económico fortemente negativo que se instalou na Europa.
Se foi só para ganhar o braço-de-ferro com os Sindicatos alemães, não posso estar menos de acordo...
Não sou adivinho para dizer hoje, mesmo ao fim do dia, o que vai acontecer esta semana nos mercados de capitais.
Estamos numa fase de enorme volatilidade, de terrível dificuldade de previsão – mas a queda muito acentuada das bolsas hoje verificada, se tiver continuidade ainda que mais moderada ao longo da semana (Deus nos livre que assim não seja), vai seguramente exigir outro tipo de reposta dos Bancos Centrais...
Se assim for, não correremos o risco de ver o BCE agindo ao sabor dos acontecimentos, ajudando ao sentimento negativo em vez de o prevenir ou combater?
É caso então para dizer – e agora, BCE?

"Ainda não invertemos a insustentável tendência do endividamento externo"

1. Este título é uma citação do discurso do Presidente da República, proferido ontem, em acto comemorativo de mais um aniversário da implantação da República.
É curioso como ainda se admite entre nós, ao mais alto nível, a possibilidade de travar o aumento de endividamento ao exterior…

2. Esta afirmação é particularmente interessante numa altura em que o ritmo de endividamento ao exterior se encontra em forte aceleração.
Segundo os últimos dados das contas com o exterior, referentes ao período Jan-Julho, o défice corrente com o exterior aumentou quase 40% em relação a 2007...e entrando em conta com as transferências de capital da EU, o aumento é de 34%...
Preparamo-nos este ano para um défice externo corrente da ordem de 12 a 13% do PIB, talvez o maior da nossa história recente...

3. É também muito interessante comparar estes dados com os do ano “horribilis” 2004 (S. Lopes) - classificado pelos nossos clarividentes media como “benchmark” de má governação – essa comparação dá um agravamento do endividamento ao exterior em 2008 da ordem de 150%...
E isto, note-se bem, depois de 3 anos de proclamada e não contestada “consolidação orçamental” e de uma política económica que tem sido assumida como de “rigor”…E para mais num ano em que a actividade económica se mostra praticamente estagnada…

4. Limito-me a perguntar, na minha ignorância – desculpável julgo num cidadão que é estranho ao sistema/poder e por isso não tem obrigação de conhecer todos os dados - como é possível falar-se em “…inverter a insustentável tendência de endividamento…” no contexto em que a política económica tem sido conduzida e tendo em conta que utilizamos uma moeda cujo valor externo não podemos gerir…

5 Tal afirmação, cuja bondade “teórica” não se disputa, encontra-se ferida duma impossibilidade prática e, como tal, assume a natureza de voto piedoso...
Como cidadão mal informado, é certo, estou persuadido de que a “insustentável tendência do endividamento ao exterior” vai prosseguir firmemente…até que o mercado nos aplique um “garrote” técnico, sob a forma de custos insuportáveis dos empréstimos obtidos…
Esse “garrote” está em fase embrionária, alguns dos seus efeitos começaram a fazer-se sentir…mas ainda longe do enorme “sufoco” a que nos estamos a candidatar - se não invertermos o tipo de opções económico-políticas que tem sido privilegiado e que o discurso oficial não deixa quaisquer dúvidas que vai continuar!

6. Resta acrescentar que esta passagem do discurso presidencial terá sido das menos comentadas...pudera!

Quem de vinte sete tira, ficam 4



Qual destas fotos retrata melhor a realidade da União Europeia?
A de cima, da suposta família integral?
Ou a segunda, a do toque a rebate por causa da crise do sistema financeiro?
Para lá das profissões de fé na igualdade e na unidade política da Europa, a verdade é que, nos momentos de maior aperto ou dificuldade, patenteiam-se as divisões e revelam-se os verdadeiros poderes. Tem sido assim quando a Europa é colocada perante os grandes conflitos, sendo disso manifestação evidente o abandono da ideia de uma política de defesa ou de relações exteriores comum.
A reunião do passado dia 4 dos chefes dos governos de França, Inglaterra, Alemanha e Itália mostra bem em que sedes efectivas repousa o poder europeu.
Hoje reunem-se os ministros das finanças de todos os Estados-membros. Alguém acredita que depois do que foi decidido entre os quatro grandes, o que dali sairá não passará de um simples acto colectivo de pura ratificação?

domingo, 5 de outubro de 2008

Crise e hipocrisia

É inaceitável esta desresponsabilização que o governo vem tentando em relação a tudo quanto tem que ver com a crise. Só o estado de torpor que o País atravessa pode explicar que o Engº Sócrates continue a atribuir aos governos anteriores responsabilidades pelos insucessos da sua governação de mais de 3 anos.
Também se torna difícil entender que não haja quem denuncie, alto e bom som, esta tentativa do governo censurar acções e omissões de terceiros no que ao controlo do sistema financeiro respeita, como se não fossem suas as políticas que as favoreceram, animado por uma estúpida certeza de que a crise passara...há dois anos atrás!
Ouvindo o primeiro-ministro, o ministro da economia e o das finanças criticando a cupidez de gestores bancários e as fraquezas dos sistemas regulatórios, fica-se com a ideia de que não conviveram de perto com essas realidades nem foram chamados a atenção para elas a propósito, por exemplo, do caso BCP. Ou não foram eles quem até aqui defendeu, sem que se conhecesse reparo, o actual modelo de regulação que em Portugal não é muito diferente da matriz agora fortemente vergastada? Ou não foram eles quem apoiou os principais actores das entidades reguladoras, que só não prestavam quando não eram prestáveis às políticas governamentais?
Esta alteridade de si próprio tentada pelo governo, que não cora de vergonha perante a monobra de criticar as políticas neo-liberais quando as que praticou e que constam do breviário que seguiu (leiam-se as intervenções de Mário Soares ou perguntem a Manuel Alegre...), leva-o a aproveitar tudo para se colar a quem agora avisa para os perigos de um aprofundamento da crise, como foi o caso da pressurosa adesão do Engº Sócrates ao discurso do Presidente da República proferido hoje, por ocasião das comemorações da implantação da República. Estou convencido que se o Chefe do Estado tivesse criticado abertamente o governo, viria o governo concordar, dizendo contudo que não era ele que estava a ser criticado, mas o governo ... americano!
Não, este discurso do governo tem pouco de combate ao derrotismo como quer fazer crer o senhor Primeiro-Ministro. Tem muito de hipocrisia, feita de calculismo e de oportunismo, acentuada pelas eleições à vista.
Por aqui, no 4R, há muito se chama a atenção para os perigos desta estratégia de desdramatização, que cria a falsa e perigosa sensação de que tudo pode continuar na mesma, que estamos protegidos por um escudo invisível. Tudo, incluindo os investimentos num programa de obras públicas de duvidosa reprodutividade, de custos acrescidos e de exequibilidade posta em causa pelas novas condições do mercado; um estímulo ao consumo e não à poupança, a par da continuação impune e desregulada dos incentivos pouco escrupulosos a um maior endividamento das famílias; a imprudência de operações financeiras como a compra de participações pela Parpública em empresas em situação aparentemente sólida (o caso da REN) à custa de financiamentos da CGD, diminuindo assim a capacidade de reacção do Estado em estado de necessidade, para reequilíbrio do sistema financeiro.
Tudo, é certo, facilitado pelo adormecimento que parece ser geral, se exceptuarmos o folclore da esquerda, animada pela ressurreição de Marx.

A Lei e a Ética…

A atribuição discricionária de casas pela CML foi alvo de múltiplos comentários e opiniões de altos responsáveis e ex-responsáveis do Município que de um modo geral deixaram na opinião pública a ideia de que nada de especial aconteceu, que as decisões no seu tempo foram correctamente tomadas sem favor ou preferência. Confrontados com situações concretas de duvidosa e questionável aceitação, as explicações e justificações não se fizeram esperar em tom de total respeito pela legalidade.
A gestão discricionária de bens públicos é do meu ponto de vista totalmente inadmissível por não respeitar o princípio básico da transparência. Um sistema sem regras e critérios potencia a manipulação da decisão, não garante a correcta afectação e utilização desses bens e pode ser, mais do que tudo, gerador de injustiças quando estão em causa bens com vocação simultaneamente económica e social.
Um outro plano de análise é o da ética política. No exercício da função política, como em muitas outras funções na vida, a exigência ética é um dever. A ética, ao contrário de muitas vozes que se fizeram ouvir no caso das casas da CML, não é uma questão de estilo, é uma questão de princípios e valores, assim como a ética não se confunde com a lei, isto é, a ética não se esgota na lei. A ética vai para além da lei. Lei e ética não são a mesma coisa. Justificar uma atitude ou um comportamento sob a capa de que não houve uma ilegalidade pode não ser suficiente. Também não é suficiente invocar a seriedade da pessoa do decisor. Na vida política, como em muitas outras facetas da vida, não basta ser, é preciso parecer. Muitas vezes a lei não proíbe e, contudo, a responsabilidade e o exemplo políticos recomendam que não se pratique um determinado acto. As razões podem ser de natureza ética. Assim como a inexistência de lei ou a falta de uma disposição legal em concreto que trate uma situação em particular não podem justificar que haja campo aberto para certos comportamentos e atitudes. Nestas circunstâncias o que seria normal esperar seria um acrescido sentido de exigência e responsabilidade políticas.
No caso das casas da CML a inexistência de um quadro legal ou regulamentar de estabelecimento de regras e critérios de atribuição e de controlo e, inclusive, de delimitação de situações de incompatibilidade associadas a conflitos de interesses lesivos de decisões eticamente reprováveis, não deveria servir ao poder discricionário para decidir arbitrariamente. Se o faz abre espaço para uma responsabilidade ética criticável, susceptível de gerar a maior desconfiança. E sem confiança, como todos sabemos, desaparece uma das condições absolutamente necessária ao normal exercício da função política.
Não é, portanto, difícil concluir que a falta de ética política que pauta certos comportamentos e decisões afecta a credibilização da política. E, com ela, a autoridade. Tão grave quanto o incumprimento da lei, é a falta de ética. Embora censurável política e socialmente, a falta de ética não se submete ao crivo judicial, ficando assim mais à vontade para se manifestar se for essa a vontade do decisor político. Quando a censura deixa de estar activa porque os comportamentos desviantes se transformam de excepção em regra ou adquirem o estatuto de normalidade chegamos à vergonhosa situação da CML em que o sistema de atribuição de casas tal como foi denunciado está instalado há trinta anos e com vontade de ficar. É que parece que não foi cometida qualquer ilegalidade!

sábado, 4 de outubro de 2008

“Artistas portugueses”...

Fico, cada vez mais, surpreendido com a facilidade com que certas pessoas vendem as suas ideias e produtos. No caso dos políticos o uso e abuso do populismo não falha. Chegam a repetir as suas campanhas e ideias várias vezes usando os mesmos tiques, lugares comuns e mensagens e, mesmo levando com adjectivações menos agradáveis, conseguem que as pessoas acabem por votar neles! Como é possível?
Aproxima-se um novo ciclo eleitoral, os "candidatos", para variar, claro, vão ser os mesmos e as conversas políticas irão ser fotocópias das anteriores, os insultos pouco evoluirão, e, no final, acabam por votar nos mesmos. Impressionante esta capacidade de análise por parte da maioria dos eleitores! Mas não é só na política que se verifica este fenómeno. A publicidade a certos produtos leva as pessoas a adquirirem sem necessidade os mesmos. Caiem que nem uns patinhos, mesmo que sejam avisados. O conto de vigário, nas suas múltiplas facetas, que vai desde o golpe do Paco, até aquelas “invenções” de certos produtos financeiros, passando pelo jogo da vermelhinha, tem no terreno lusíada sucesso garantido.
Como explicar estes fenómenos? Numa primeira análise quase que poderia afirmar que os portugueses não gostam ou não conseguem raciocinar.
Ando, há muito tempo, a pensar como explicar certos fenómenos. Foi preciso ler uma obra de Teixeira de Pascoaes, "Arte de ser português", para compreender um pouco melhor. Às páginas tantas, Pascoaes explica que "o génio lusíada é mais emotivo do que intelectual". O português prova a sua verdade "sendo e não raciocinando". "Comove-se com uma ideia mas despreza a dialéctica". "A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora".
Os portugueses não usam os olhos para ver, mas sim para alumiar. São fantásticos em matéria de solidariedade, capazes de se unirem para ajudar um povo, uma comunidade ou um simples cidadão necessitado. Basta para o efeito que a ideia apele à emoção. Mas não lhe peçam que filosofe ou pense sobre os problemas, porque tem horror e custa muito. O português, na perspectiva do escritor amarantino, "Não quer interpretar o mundo nem a vida, contenta-se em vivê-la exteriormente; e tem, por isso, um verdadeiro horror à Filosofia, imaginando encontrá-la em tudo o que não entende".
Revela desta forma uma incapacidade em construir novas verdades fonte do progresso.
Agora, compreendo o porquê de certas posturas e atitudes de responsáveis nacionais que sabem, no momento próprio, apelar à emoção, usando formas primárias de populismo, não se importando que estejam a contribuir para impedir o uso da razão, limitando o crescimento e o desenvolvimento do país. Bons manipuladores que se distribuem pelas diferentes áreas, sociais, desportivas, bancárias, políticas e religiosas.
Se o factor emotivo é de uma utilidade inquestionável face às inúmeras tragédias, pensar, raciocinar, analisar e criticar são vitais para a construção de novas verdades capazes de estimular o progresso. Mas, pelo andar da carruagem, vão continuar a cair no conto do vigário dos colchões, a comprar o livro da saúde, a ser espoliados pelos "bispos" negociantes, a ir aos astrólogos, a pagar os doutos conselhos dos "professores" feiticeiros, a votar em figuras que, pensava eu, já tinham mostrado as suas incapacidade, enfim, vão continuar a ser emotivos, "desprezando" o pensamento. Afinal, esta conduta é apenas uma das muitas facetas da "arte de ser português"...

Uns artistas, estes artistas!... I

Carlos Amado é um artista.
A exemplo de muitos outros, a Câmara de Lisboa cedeu-lhe um ateliê com direito a "espaço de descanso", isto é, apartamento e ateliê, pelo qual paga pouco mais de 30 euros.
Como verdadeiro artista, "não concebe a ideia de trabalhar num espaço que não lhe seja cedido pela autarquia", diz o Expresso.
E se a Câmara precisar do espaço, terá que lhe arranjar outro, também diz...
"Estamos aqui, porque somos artistas"!... resume Carlos Amado...
Concordo totalmente!...
Pois se o homem só tem inspiração e apenas admite trabalhar caso esteja devidamente instalado num apartamento da Câmara dotado de ateliê e a 30 euros...que se há-de fazer?

Alcateia

As notícias sobre violência constituem o pão nosso de cada dia. Somos alimentados, constantemente, com acontecimentos reveladores de comportamentos impróprios da condição humana. Será que podemos, de um momento para outro, correr o risco de ficarmos “vacinados”? É muito provável que não, porque, apesar de haver matrizes bem definidas, há sempre uma ou outra nuance que trás algo de novo e de inesperado ao acontecimento.
Segundo uma notícia, em Beja, seis mulheres, com idades compreendidas entre os 20 e os 30 anos, entraram à força num estabelecimento de ensino e agrediram a avó de uma aluna que tinha ido à escola participar uma agressão de que foi vítima a sua neta. A investida violenta praticada pela alcateia de seis mulheres deixa-me surpreendido. Como é possível invadir o espaço sagrado da educação e da cultura e ter um comportamento selvático e premeditado desta natureza? O que motiva os seres humanos para se associarem e darem uma “carga de porrada” a um outro ser humano? Chamei-lhe alcateia, mas estou arrependido. Os lobos atacam, normalmente, em grupo, numa estratégia calculista e bem definida com o objectivo de aumentar a eficiência da sua acção que visa a sobrevivência. Estratégias de ataque em grupo são comuns a outros animais sempre com o propósito de defesa e de obtenção de alimentos. Agora seres humanos que se agrupam, cobardemente, para garantir uma maior eficiência num ataque visando a destruição do seu semelhante, parece-me uma ofensa à chamada “crueldade animal”. Crueldade humana. Ponho-me a imaginar os olhares de ódio, os salivares de raiva, os gritos de provocação, os suores da agressão, o fervilhar de sangues malditos e os prazeres despertados pela humilhação e terror da vítima. Serão mães? Muito provavelmente. Como educam os filhos? À pancada? Com insultos? Promovendo a falta de respeito pelos outros? Será que sabem o que é uma escola?
Quando uma alcateia de mães invade a escola, manifestando agressividade e intolerância, não podemos esperar que os seus “lobinhos” possam ser “domesticados”...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A lista

O Parlamento inventou uma lei (de seu número 67-B/2007), que estabelece a obrigatoriedade de publicação anual das dívidas que sejam certas, líquidas e exigíveis, de órgãos e serviços que integram a administração central do Estado, de natureza tributária ou não tributária.
A lei estabelece a obrigação. Mas essa obrigação não é de cumprimento espontâneo. A inclusão das dívidas referidas na lista a publicar depende de requerimento prévio apresentado pelo respectivo credor, junto do Ministério das Finanças e da Administração Pública.
A lista foi publicada há dias. E - para surpresa de alguns mais ingénuos - dela só constam TRÊS credores TRÊS.
Não foi dado ao assunto grande relevância. Mas o assunto tem relevância.
Tal como já tinha opinado quando se levou a debate este gesto magnânime de o Estado estar disposto a desnudar-se, a lei, assente numa intenção aparentemente honesta e nobre, confirma agora de pleno a sua enorme preversidade. Se as dívidas não envergonham o Estado, porque só tem vergonha quem tem cara e o Estado não a tem, a verdade é que a lista serve sobretudo para aliviar a consciência dos responsáveis pelo inadiplemento recorrente das entidades públicas. Para os gestores da coisa pública, a partir de agora o que é devido não é pagar a tempo e horas. O que passa a ser pecado grave é não publicar a lista!
Para além deste efeito branqueador do calote, creio que a lei gera outra preversidade. É que, sendo sabido que são milhares as vítimas de inaceitáveis moras do Estado, o registo de somente três credores na lista revela bem o tipo de relação que os agentes económicos têm com o poder.
Não vá a represália fazer-se sentir no próximo concurso ou na próxima encomenda, reclama-se baixinho, junto daquele que conhece a prima do chefe de divisão financeira do departamento recém criado no âmbito do PRACE, rogando ao senhor doutor que compreenda as dificuldades por que está a passar a empresa e ponha as facturas, entregues há muitos meses e das quais se pagou já o IVA ao Estado, no cesto dos processamentos. Os gerentes ficar-lhe-ão gratos pelo favor.
É assim que os responsáveis das nossas empresas pensam e agem perante os poderes. Os que gerem as médias e pequenas que vivem quase exclusivamente do que lhes cai dos orçamentos públicos. Mas também e sobretudo das grandes, que não querem correr o risco de pertencer à lista negra (*) dos sempre preteridos dos concursos, dos esquecidos das consultas e dos ignorados nos ajustes directos.
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(*) Como é amplamente conhecido, listas negras de empresas não gratas ao Estado não existem. São uma ficção que serviu para a composição deste post também ele uma ficção (mero exercício de entretenimento do seu autor que pouco tem que fazer). Mas se porventura existirem - no que, repete-se, não se crê! -, não terão mais inscritos do que a dos credores do Estado. Não terão não senhor! Digo-o eu que sou dado a ficções...

Previsões do FMI ou do BdeP, para quê?

Em 24 de Julho ultimo, foi editado um POST no 4R com o seguinte título “Variação do PIB em 2008 chegará a 0,7%?”.
Nesse POST apontavam-se diversos factores que permitiam estimar – com risco expressamente confessado, é natural – uma taxa de crescimento do PIB no corrente ano não acima de 0,7%...

Hoje, 3 de Outubro, o FMI apresenta uma nova estimativa do crescimento PIB para 2008 em Portugal, que é de...0,7% - corrigindo uma anterior previsão de 1,3%.
Para 2009 apresenta um cenário menos favorável: crescimento de 0,6%.

Aqui chegados, caberá perguntar: previsões do FMI ou do BdeP (então estas valha-nos Deus...) para quê se temos as do 4R - mais avançadas, fiáveis e independentes?!

O paradoxo da crise económica e financeira...

1. A moda dos discursos políticos na Europa – talvez com a honrosa excepção de Gordon Brown - é agora apontar o dedo aos USA pelo eclodir da crise financeira e pela eventual recessão económica que a mesma possa vir a desencadear.
No nosso caso, como é evidente, estar na moda é absolutamente obrigatório: o discurso oficial tem visado, com algumas cambiantes mais divertidas (caso do Apocalipse de M. Pinho), responsabilizar os USA e a especulação financeira por todos os inconvenientes e desconfortos da actual situação.
2.Todos os dias se sentencia que os USA se encontram à beira do abismo, que o seu sistema de economia de mercado livre – ultraliberal para alguns dos nossos comentadores mais inspirados - está em profunda crise ou próximo do colapso, que a recessão vai finalmente arrasar a economia americana, que a hegemonia económica dos USA chegou ao fim, etc, etc.
3. Em contraponto e embora reconhecendo que a Europa não está imune à crise, exaltam-se as virtudes da maior contenção que os europeus souberam manter, a maior resistência da economia europeia e do seu sistema financeiro – apesar de alguns problemas pontuais, especialmente no UK...exactamente por estar mais próximo do modelo americano.
4. No nosso caso passou-se a usar a expressão “robustez”– bem bonita para consumo interno e muito do agrado do establishment - na caracterização da capacidade do sistema financeiro doméstico para resistir à crise, esclarecendo os cidadãos de que tudo vai bem por aqui, que podem fazer seus depósitos bancários em absoluta tranquilidade sem pensar no risco relativo...
5. Neste discurso que procura exaltar a superioridade europeia sobre o desmando americano, haveria mesmo motivo para voltar a usar, com orgulho, a expressão “fortress europe” - simbolizando esta capacidade de resistência da “velha Europa” à vaga de destruição de valor que provem do continente americano...
6.Até o BCE, num gesto de alta inspiração, quem sabe se para mostrar a sua distância do desvairado parceiro americano, resolveu dar um “tiro no pé”...mantendo as taxas de juro quando os sinais de abrandamento das pressões inflacionistas são mais do que evidentes tal como são muito evidentes os sinais de abrandamento da actividade económica...
7. Chegados aqui, falta apreciar um aspecto fundamental – e as moedas como estão a comportar-se?
Face ao cenário que nos é vendido, o USD deveria estar em mergulho acentuado, arrasado por um Euro pujante, “robusto”, reflectindo a melhor saúde e resistência da economia e do sistema financeiro europeus...
8. Todavia, quando atentamos nas taxas do mercado, verificamos que o USD valorizou mais de 13% em relação ao Euro nos últimos 2,5 meses e, nesta última semana, em que o sistema de mercado americano pareceu rolar pelo abismo abaixo, o USD valorizou mais de 7%...
Como explicar este paradoxo? Será que o mercado de câmbios ensandeceu?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A Família Romanov e os bolcheviques...

O Supremo Tribunal russo reconheceu ontem, numa sentença histórica, há muito esperada, que Nicolau II, último czar da Rússia, a sua mulher e os seus cinco filhos foram vítimas do regime político bolchevique. Com esta decisão a justiça russa reabilitou Nicolau II e a sua família.
No regime da União Soviética Nicolau II foi considerado um tirano, personificava tudo o que os comunistas tentaram destruir com a revolução.
Nicolau II e a sua família são hoje em dia venerados pela Rússia, tidos como mártires da revolução bolchevique que levaria Estaline ao poder em 1924.
Os Romanov foram brutalmente assassinados em 1918 por um comando revolucionário bolchevique, sumariamente fuzilados.
O partido comunista russo recusou o veredicto da justiça russa. É espantosa e tenebrosa a reacção dos comunistas:
Dizer que os nossos antepassados estavam errados é, no mínimo, falta de respeito. Não foram os bolcheviques que mataram o czar e a sua família, mas todo o povo trabalhador ”.
A história acaba algumas vezes por fazer justiça aos Homens. Quando assim acontece a Humanidade fica mais rica, mais serena, mais reconciliada. Mas os homens nem sempre reconhecem a História. São fracos, fazê-lo seria superior às suas forças!

“Espermatozóides de má qualidade”...

Acaba de ser publicado um interessante trabalho sobre a qualidade dos espermatozóides nos jovens espanhóis. Mais de metade apresentam alterações, sendo os jovens da Galiza, Andaluzia e Madrid os que apresentam melhor qualidade. Em contrapartida, os que vivem na Catalunha, Comunidade Valenciana e País Basco apresentam os piores.
Desde há já algum tempo que têm vindo a ser relatados diminuições significativas do número de espermatozóides, e da qualidade dos mesmos, relacionados com a exposição a determinados compostos químicos provenientes da poluição. A situação é muito mais grave do que poderíamos supor, porque as ditas substâncias, designadas como disruptores endócrinos, actuam, sobretudo, durante o desenvolvimento fetal, comprometendo o futuro dos rapazes. Face à falta de medidas adequadas é de prever que as consequências serão ainda muito mais gravosas, no futuro, contribuindo para o fenómeno de infertilidade que está num crescendo impressionante.
A situação em Portugal não deverá ser muito diferente. Os responsáveis políticos têm de actuar de forma a evitar que a exposição aos diferentes disruptores endócrinos, que têm a sua origem em múltiplas fontes, desde incineradoras, passando pelos pesticidas e determinados componentes que entram na composição dos plásticos, só para falar de alguns, possa agravar este fenómeno e inclusive outros, caso das neoplasias.
Não esquecer que certos produtos, sobretudo os produzidos no Oriente, não respeitam minimamente determinadas regras. A sua importação e comercialização entre nós pode constituir um factor de risco muito grave para a saúde e bem-estar. As notícias vindo a público de acontecimentos, cuja recorrência parece ser a regra, com efeitos negativos na saúde, são muito preocupantes.
Numa altura em que as autoridades fiscalizam da maneira que todos sabemos, melhor seria se apontassem as suas “metralhadoras” para determinadas substâncias perniciosas que entram na composição de diferentes produtos, assim como no uso indiscriminado de substâncias químicas e nas diversas fontes de poluição.
Os espermatozóides nacionais agradeceriam, sem sombra de dúvida, contribuindo para a diminuição da infertilidade.

"Arte médica"


Vale a pena dar uma olhadela à "arte médica". Gravatas originais...

A Wall Street da Mouraria!...

A Tasca Central da Mouraria tinha como objecto social a venda de tintol a uma vasta clientela do bairro, mas que também se espalhava da Rua da Palma ao Intendente. Para aumentar as vendas, e depois de uma reunião com o seus Directores Comercial e Financeiro, o Administrador Executivo da Tasca decidiu criar um novo produto que consistia em vender copos a fiado aos seus mais leais e fiéis fregueses. Os resultados adviriam de um pequeno spread que incidiria nas vendas do tintol e da branquinha a crédito. Certa tarde, depois de uma visita a Clientes, o Administrador Executivo do Banco Marginal do Socorro, onde a Tasca Central tinha conta, passou pela Tasca da Mouraria em visita de rotina e para bebericar uns copos. Tendo visto o livrinho dos fiados, verificou que estava aí um activo realizável, e propôs-se adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o "fiado" como garantia. E, caso a iniciativa da securitização tivesse êxito, até admitiu adquirir a pronto as vendas a fiado do próximo ano.
Encantado, o Administrador da Tasca logo aceitou, tanto mais que deixou de ter qualquer risco nas vendas a crédito, pois recebia do Banco a contado. E logo ali assinaram o contrato, tendo mesmo brindado com uma ginginha.
Logo que chegado ao Banco Marginal, o Administrador Executivo encarregou os serviços competentes de criar produtos estruturados com base nos recebíveis presentes e futuros da Tasca. Não tiveram os técnicos encarregados grande dificuldade em criar o Fundo Vinícola, garantido pelos créditos sobre os fiéis Clientes da Tasca. As Unidades de Participação, sob a forma de diversas denominações, Tintol Garantido, Vintage Barril, TCM Premium, BMS Platinium e outros acrónimos financeiros que ninguém sabia exactamente o que queriam dizer, foram de imediato postas à disposição dos Clientes do Banco Marginal e todas colocadas.
Com tanto êxito, que estes inovadores instrumentos financeiros passaram a ser cotados no mercado de capitais. Vendo aí uma rara oportunidade de negócio, o Banco de Investimento da Madragoa encarregou o seu Departamento de Derivativos de criar um produto financeiro mais complexo utilizando como base os produtos do Banco Marginal. E aí nasceu o BIM Estruturado, derivativo que começou a ser a ser negociado nas principais praças financeiras dos bairros lisboetas, aí intervindo os Bancos de Alfama, do Bairro Alto, do Alto do Pina, de Marvila, Poço do Bispo e Madragoa. Devido ao forte substracto de garantias que os acompanhavam e constavam dos prospectos de venda, nomeadamente a fidelização da vasta clientela que ia da Mouraria ao Intendente, não havia qualquer dificuldade em escoar o produto. Os títulos eram disputados quer pela clientela de particulares, quer por diversos Fundos de Investimento, e também pelos próprios bancos para formar a sua carteira. Entretanto, o Administrador da Tasca Central da Mouraria foi naturalmente investindo nesses títulos e tornou-se um homem rico.
Devido a um desentendimento fortuito com o Administrador da Tasca, um Cliente pôs a correr o boato de que a clientela fiel da Tasca Central da Mouraria era formada predominantemente por bêbados e desempregados que bebiam a fiado, não tendo dinheiro nem a mais leve intenção de pagar as contas dos copos consumidos. O rumor começou a crescer, o que levou o Jornal do Socorro a investigar os factos e a divulgar a notícia. O pânico invadido o mercado, toda a gente correu a vender os títulos, e iniciou-se uma cadeia das falências dos vários investidores. E aqui começou o nosso sub-prime. Com o tintol da Mouraria.
(Adapatado, com alguma inovação e valor acrescentado, de um texto que corre em e. mails)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Desertificação do Interior

Os Blogs constituem uma saudável forma de expressão da sociedade civil; como tal, vêm assumindo uma relevância crescente na apresentação e discussão pública de temas que interessam a todos os cidadãos.
Para além de oferecerem diariamente os seus textos, as suas opiniões e pontos de vista, alguns Blogs começam a ter outro tipo de interessantes iniciativas.
É o caso do Praça da República, em Beja, que vai organizar, no próximo dia 3 de Outubro, no Instituto Politécnico de Beja, um Colóquio subordinado ao tema A Desertificação do Interior.
Tema de plena actualidade, tanto mais que se vêm agravando as disparidades regionais, tanto em termos de participação no PIB nacional, como em relação à União Europeia.
A propósito, que é feito do PRASD- Programa de Recuperação das Áreas e Sectores Deprimidos, lançado pelo Governo de Durão Barroso?
Os parabéns ao João Espinho, autor da Praça da República, pelo arrojo, vanguardismo e oportunidade da iniciativa.

“Temos Antípodas na Cidade”

Conjugar os dados científicos recentes com as opiniões e sentenças de outros tempos obriga-nos a reflectir sobre as capacidades dos seres humanos na identificação e resolução de certos problemas.
Os seres humanos desrespeitam muitas regras, nomeadamente os relógios biológicos. Não se deitam e nem se levantam como as galinhas, à excepção de alguns, considerando ser perfeitamente normal entrar pela noite. Mas será? Tudo aponta que não. Há riscos, e não são pequenos, que vão desde problemas em dormir, passando por várias doenças que afectam o coração e o aparelho digestivo até a certas formas de cancro.
Têm sido realizadas várias investigações sobre o trabalho por turnos e o risco de cancro. Agora, pela primeira vez, foi objecto de atenção e promoção de medidas por parte de um governo, o de Israel. Durante o debate, destinado a instalar nos edifícios públicos iluminação de baixo custo, foram apresentados dados que permitem concluir por um risco acrescido de cancro devido à exposição de luz artificial. Neste momento, o governo israelita está a estudar formas para minimizar os efeitos na saúde dos trabalhadores.
A exposição à luz durante a noite constitui um factor susceptível de ter um efeito muito importante na saúde humana ao impedir que se forme uma substância dotada de propriedades anti-stress e estimulante do sistema imunológico, a melatonina.
Há cerca de trezentos anos, um professor da Universidade de Modena, Bernardino Ramazzini, escreveu um livro muito interessante que foi traduzido para português, em 1753, por Luiz Paulino da Silva e Azevedo, intitulado “Arte de Conservar a Saúde dos Príncipes e das Pessoas da Primeira Qualidade, como também das nossas Religiosas”. No capítulo VII de tão interessante obra, podemos ler: “...se há alguma coisa boa nesta desordem de não dormir de noite, e de dormir de dia, tão oposta às leis da natureza, o deixo inteiramente ao juízo dos mesmos Príncipes; e quanto a mim, creio que é assaz evidente, que a noite é destinada ao sossego, e ao sono, e o dia para o trabalho. De facto, quando queremos dormir não fechamos as janelas, e as portas, porque nos não penetre a luz? É sem dúvida; porque a claridade da sua natureza atrai os espíritos de dentro para fora, e os conserva acordados, e a falta de luz excita o sono, recolhendo outra vez os espíritos”. Ramazzini continua na sua descrição, citando Hipócrates, Hesíodo, Galeno e Séneca, chamando a atenção para o facto dos “Príncipes, e as pessoas de qualidade dormirem ordinariamente quando o resto dos homens está acordado; e estão despertos, quando não somente os homens, mas também os animais da terra, e os peixes estão sepultados em um profundo sono”. Séneca, numa inventiva contra este mau costume, afirmou: “Temos Antípodas na Cidade”.
Se as consequências para os “Príncipes” são perigosas, também não deixam de ser para os “súbditos”, se tomarmos em linha de conta os efeitos da má disposição provocada por sonos trocados no tomar das decisões...

“Emparedar”

Na semana passada, no decurso da mesa-redonda sobre “Ética e envelhecimento”, uma das quatro que integraram o seminário sobre os seniores, em Conímbriga, o moderador fez uma introdução lendo uma bela e comovente crónica intitulada “Janelar”. O autor, que só no fim foi identificado - o próprio moderador -, descreve uma situação que o impressionou. Uma senhora de idade tinha sido encontrada morta, sentada à janela, ao fim de alguns dias, sem que ninguém se apercebesse. Expressão da solidão tão comum em pessoas de idade.
A escolha do título, “Janelar”, segundo o autor, “é daquelas que poucos conhecem e raros utilizam, mas significa algo que muitos praticam: passar a vida à janela.” Vale a pena ler esta crónica, porque revela um dos graves problemas que afligem os idosos: a solidão.
Hoje, "Dia Mundial do Idoso”, leio também uma pequena notícia sobre uma idosa encontrada 40 dias após a morte na sua casa. Ninguém se apercebeu. A juntar à palavra “janelar” poderíamos acrescentar uma outra, “emparedar”, para ilustrar a solidão.
Idosos que passam o seu tempo à janela, aguardando solitariamente a morte, a par de outros que nem janelas têm para podermos olhar a sua própria morte.