Sou economista e tenho do português, não uma visão especializada, mas a visão de um cidadão que preza a sua língua e a considera um dos grandes activos do povo português.
Por isso me confrange a impreparação na língua portuguesa dos que, com grau universitário ou não, entram na vida activa e no mercado de trabalho.
É nesse contexto que deixo a seguinte história da minha vida profissional.
Durante 12 anos da minha actividade profissional de economista e gestor, fui membro da chamada “Alta Direcção” de um grande Grupo Bancário nacional e administrador do Banco de Investimentos e de outros Bancos do Grupo.
Nessas funções, aí 3 ou 4 vezes por ano, competia-me fazer a entrevista final aos candidatos a colaboradores que já tinham ultrapassado as fases anteriores do processo de selecção.
Durante a entrevista, interessava-me sobretudo saber quais os conhecimentos gerais, a cultura do candidato, o seu grau de preparação, a sua apetência profissional.
Na "cultura do Banco", a formação e o dia a dia se encarregariam do resto...
Dos conhecimentos especializados interessava-me apreender aqueles que o poderiam recomendar para uma área específica do Banco, quando para tal surgisse oportunidade.
Nesse contexto, procurava saber qual o “relacionamento” do candidato com a literatura, a história, a filosofia, a música, as artes e, em geral, com a cultura.
Confesso que a experiência foi desastrosa.
Das centenas de entrevistas feitas, poucos, mas muitíssimo poucos, candidatos eram capazes de indicar, de imediato, o nome de dois escritores portugueses.
Quando Saramago ganhou o Nobel, foi a sorte grande: quase todos o indicavam, por obra de ouvirem na televisão.
E nomes de livros? Uma verdadeira desgraça!
Conheciam algum livro de Herculano, ou de Camilo, ou de Namora, ou de Torga?
Era o zero quase absoluto!...
Aliás, a grande maioria nunca tinha lido um livro completo.
Perguntados se não havia livros de leitura obrigatória na Escola, respondiam que liam os resumos, de modo a poderem responder alguma coisa aos professores.
Aprendi então que havia resumos no ensino secundário, os quais substituíam os livros recomendados!...
Confesso também que uma vez fiquei embaraçado, quando uma candidata me referiu, depois de uma ligeira pausa, o nome de Paulo Coelho. De facto, eu não conhecia o escritor. Procurei que ela me dissesse algo mais, mas, para além do nome, nada mais sabia, a não ser que era o livro que uma prima que viera do Brasil andava a ler.
Muitos candidatos eram licenciados, alguns muitíssimo bem preparados em matérias específicas.
Raramente ficava nada tranquilo com os pareceres que dava.
Se eram negativos, estava a vedar a entrada do candidato numa profissão.
Se eram positivos, estava a fazer admitir futuros tecnocratas, sem cultura ou qualquer visão minimamente global do homem: não estava certamente a fazer admitir bons colaboradores.
Da experiência ganhei uma coisa: fiquei a saber quem era o Paulo Coelho!...
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sexta-feira, 20 de maio de 2005
quinta-feira, 19 de maio de 2005
Os maus resultados de Matemática e de Português
Com os exames em curso, lá volta o tema.
Fui, já lá vão bastantes anos, professor de cálculo financeiro, disciplina que exige uma sólida preparação matemática.
Verificando as dificuldades dos alunos, procurei saber as causas.
A Matemática, na sua formulação algébrica, é uma linguagem simbólica: traduz-se em transformar a linguagem corrente em símbolos e, depois, operar com eles.
A transformação em símbolos algébricos da linguagem corrente, oral ou escrita, por exemplo, na equacionação de um problema, não é possível, se o aluno não compreender essa mesma linguagem, isto é, se não a souber decompor e distinguir nos seus diversos elementos.
Sem isso, nunca conseguirá navegar na matemática.
Concluí assim que a principal dificuldade dos alunos advinha, pasme-se, de não saberem ou dominarem mal o português!...
Por isso, ao propor, oralmente ou por escrito, qualquer exercício, a primeira coisa que passei a exigir aos alunos era aquilo que, no tempo em que aprendi, se chamava divisão das orações.(Agora, se esta prática não for ainda anti-pedagógica, terá, pela certa, nome bem mais complexo!...)
Dividida a oração, obrigava os alunos a saberem onde estava o sujeito, o predicado, os complementos, etc, etc. (Julgo que a esses conceitos correspondem agora outras palavras, como sintagma verbal para o predicado, entre muitas igualmente eruditas!...)
Chegados a este ponto, mandava traduzir em símbolos matemáticos as diversas orações, ligando os elementos conhecidos com aqueles que se pretendia conhecer, as incógnitas.
A colocação de um problema em equação, por exemplo, tornava-se assim razoavelmente simples.
Às regras da operativa matemática dava semelhante tratamento.
Confesso que os resultados me espantaram!...
O problema não estava na Matemática, mas no Português.
Por isso, não me causa qualquer espanto que os maus resultados de matemática andem associados aos de português.
Sendo inevitável que assim seja, aqui deixo uma leve sugestão: aponte-se para o que é básico e ensine-se bem português, para que os alunos comecem por saber e compreender português, para poderem compreender e saber matemática!...
Fui, já lá vão bastantes anos, professor de cálculo financeiro, disciplina que exige uma sólida preparação matemática.
Verificando as dificuldades dos alunos, procurei saber as causas.
A Matemática, na sua formulação algébrica, é uma linguagem simbólica: traduz-se em transformar a linguagem corrente em símbolos e, depois, operar com eles.
A transformação em símbolos algébricos da linguagem corrente, oral ou escrita, por exemplo, na equacionação de um problema, não é possível, se o aluno não compreender essa mesma linguagem, isto é, se não a souber decompor e distinguir nos seus diversos elementos.
Sem isso, nunca conseguirá navegar na matemática.
Concluí assim que a principal dificuldade dos alunos advinha, pasme-se, de não saberem ou dominarem mal o português!...
Por isso, ao propor, oralmente ou por escrito, qualquer exercício, a primeira coisa que passei a exigir aos alunos era aquilo que, no tempo em que aprendi, se chamava divisão das orações.(Agora, se esta prática não for ainda anti-pedagógica, terá, pela certa, nome bem mais complexo!...)
Dividida a oração, obrigava os alunos a saberem onde estava o sujeito, o predicado, os complementos, etc, etc. (Julgo que a esses conceitos correspondem agora outras palavras, como sintagma verbal para o predicado, entre muitas igualmente eruditas!...)
Chegados a este ponto, mandava traduzir em símbolos matemáticos as diversas orações, ligando os elementos conhecidos com aqueles que se pretendia conhecer, as incógnitas.
A colocação de um problema em equação, por exemplo, tornava-se assim razoavelmente simples.
Às regras da operativa matemática dava semelhante tratamento.
Confesso que os resultados me espantaram!...
O problema não estava na Matemática, mas no Português.
Por isso, não me causa qualquer espanto que os maus resultados de matemática andem associados aos de português.
Sendo inevitável que assim seja, aqui deixo uma leve sugestão: aponte-se para o que é básico e ensine-se bem português, para que os alunos comecem por saber e compreender português, para poderem compreender e saber matemática!...
"Pecado"
Vida:
Pequei por não te ter amado?
(Mas a Vida também me não amou!...)
— Ó pecador! Qual foi o teu pecado,
Se a Vida é que pecou?!
Pedro Zargo
Instabilidade e desperdício
Passada a euforia das eleições, a novidade dos nomes que seriam escolhidos para esta ou aquela pasta, a denúncia mais ou menos escandalosa deste ou daquele acto do anterior governo, eis que a dura realidade volta a abater-se sobre o País.
Descemos nos últimos 5 anos 13 lugares no "ranking" da competitividade; o desemprego aumenta assustadoramente e não se vislumbra como voltar a inverter a situação; o défice, essa "maníaca preocupação" por tantos desdenhada, aí está com redobrada violência...
Julgariam as pessoas que os males desaparecem só por não os querermos encarar? Que misteriosa força deveria intervir para nos evitar o esforço, o trabalho e a persistência que aos outros foi indispensável? Não há optimismo nem esperança que valha a quem cruza os braços ou persiste em manter comportamentos que conduziram a tão mau porto.
Um dos factores identificados como muito negativo é a instabilidade das políticas e a interferência política nos serviços públicos. A Administração Pública, esse inevitável bode espiatório das nossas desgraças - e com bastante razão - é permanentemente sujeita às flutuações de orientação e a mudanças dos quadros dirigentes. Que empresa resistiria a esse ritmo de sobressaltos?
Sendo este um facto de mediana evidência e talvez um dos problemas de mais fácil resolução, seria de esperar que se pusesse termo à prática sistemática de escolher como primeiro alvo de actuação política a mudança mais ou menos generalizada dos dirigentes de topo, procurando preservar alguma estabilidade e permitir a continuação do trabalho realizado. No mínimo, seria de elementar sensatez avaliar o desempenho dos responsáveis e só em caso de ele ser insatisfatório se proceder àsubstituição.
Mas não.A que assistimos agora, uma vez mais? À fase das demissões e das nomeações, listas e listas de novos gestores, dúvidas ameaçadoras sobre a permanência dos que ainda não terminaram as suas comissões de serviço, enfim, uma instabilidade generalizada e uma desautorização em todas as frentes.
Fala-se dos objectivos que estavam previstos e do que não foi realizado? Fazem-se balanços das actividades e pontos de situação dos institutos e direcções gerais? Não fala. Fala-se de nomes, de perfis, de curricula dos indigitados, alguns apresentados como evidentes porque já tinham estado nos mesmos cargos, outros porque despontaram entretanto para a política e já ganharam notoriedade suficiente para serem "indigitáveis".
Fazemos de conta que os lugares são apenas isso - lugares, espaços a ocupar. O pior é que não são, é suposto corresponderem a uma actividade com sentido útil para os cidadãos, é suposto terem assegurado funções concretas e - o mais importante - é de admitir que houvesse a preocupação em garantir que essa função fosse desempenhada com a máxima competência.
Sempre considerei lamentável e politicamente condenável esta falta de respeito pelas instituições (e já em falo das pessoas em causa) e pelos cidadãos que julgavam que os "seus" serviços públicos estavam bem entregues.
É que, das duas, uma: ou estavam lá as pessoas certas, a cumprir bem a sua missão, e então é uma irresponsabilidade grave mudá-las só para satisfazer clientelas políticas do momento; ou quem tinha assumido o cargo não estava a ter os resultados que se exigiam, e por isso são substituidos.
Em qualquer dos casos, era essencial que se fizesse e desse a conhecer essa avaliação para fundamentar as decisões e dignificar os cargos dirigentes e a função dos serviços.
Assim, nesta dança de cadeiras e neste turbilhão de nomes, ficamos todos a perder - os que sairam, porque não se fez justiça ao seu trabalho; os que entram, porque sabem que o que vão fazer não será valorizado. E o País porque continua a ver degradar-se a qualidade dos serviços e a assistir impotente e de certa forma conformado ao desbaratar de tanto trabalho pago com o dinheiro dos contribuintes.
Descemos nos últimos 5 anos 13 lugares no "ranking" da competitividade; o desemprego aumenta assustadoramente e não se vislumbra como voltar a inverter a situação; o défice, essa "maníaca preocupação" por tantos desdenhada, aí está com redobrada violência...
Julgariam as pessoas que os males desaparecem só por não os querermos encarar? Que misteriosa força deveria intervir para nos evitar o esforço, o trabalho e a persistência que aos outros foi indispensável? Não há optimismo nem esperança que valha a quem cruza os braços ou persiste em manter comportamentos que conduziram a tão mau porto.
Um dos factores identificados como muito negativo é a instabilidade das políticas e a interferência política nos serviços públicos. A Administração Pública, esse inevitável bode espiatório das nossas desgraças - e com bastante razão - é permanentemente sujeita às flutuações de orientação e a mudanças dos quadros dirigentes. Que empresa resistiria a esse ritmo de sobressaltos?
Sendo este um facto de mediana evidência e talvez um dos problemas de mais fácil resolução, seria de esperar que se pusesse termo à prática sistemática de escolher como primeiro alvo de actuação política a mudança mais ou menos generalizada dos dirigentes de topo, procurando preservar alguma estabilidade e permitir a continuação do trabalho realizado. No mínimo, seria de elementar sensatez avaliar o desempenho dos responsáveis e só em caso de ele ser insatisfatório se proceder àsubstituição.
Mas não.A que assistimos agora, uma vez mais? À fase das demissões e das nomeações, listas e listas de novos gestores, dúvidas ameaçadoras sobre a permanência dos que ainda não terminaram as suas comissões de serviço, enfim, uma instabilidade generalizada e uma desautorização em todas as frentes.
Fala-se dos objectivos que estavam previstos e do que não foi realizado? Fazem-se balanços das actividades e pontos de situação dos institutos e direcções gerais? Não fala. Fala-se de nomes, de perfis, de curricula dos indigitados, alguns apresentados como evidentes porque já tinham estado nos mesmos cargos, outros porque despontaram entretanto para a política e já ganharam notoriedade suficiente para serem "indigitáveis".
Fazemos de conta que os lugares são apenas isso - lugares, espaços a ocupar. O pior é que não são, é suposto corresponderem a uma actividade com sentido útil para os cidadãos, é suposto terem assegurado funções concretas e - o mais importante - é de admitir que houvesse a preocupação em garantir que essa função fosse desempenhada com a máxima competência.
Sempre considerei lamentável e politicamente condenável esta falta de respeito pelas instituições (e já em falo das pessoas em causa) e pelos cidadãos que julgavam que os "seus" serviços públicos estavam bem entregues.
É que, das duas, uma: ou estavam lá as pessoas certas, a cumprir bem a sua missão, e então é uma irresponsabilidade grave mudá-las só para satisfazer clientelas políticas do momento; ou quem tinha assumido o cargo não estava a ter os resultados que se exigiam, e por isso são substituidos.
Em qualquer dos casos, era essencial que se fizesse e desse a conhecer essa avaliação para fundamentar as decisões e dignificar os cargos dirigentes e a função dos serviços.
Assim, nesta dança de cadeiras e neste turbilhão de nomes, ficamos todos a perder - os que sairam, porque não se fez justiça ao seu trabalho; os que entram, porque sabem que o que vão fazer não será valorizado. E o País porque continua a ver degradar-se a qualidade dos serviços e a assistir impotente e de certa forma conformado ao desbaratar de tanto trabalho pago com o dinheiro dos contribuintes.
“O Senhor Doutor Juiz”
O meu avô ensinou-me coisas muito importantes. Uma delas diz respeito à justiça. Quando era pequeno passávamos muitas vezes em frente do Tribunal Velho. Afirmava que era naquela casa que um homem honrado sentia o verdadeiro significado do respeito. Lá me explicou que, quando alguém sentisse que tinha sido injustiçado, era ali que encontrava a reparação, enquanto os maus apanhavam os castigos. Para mim o juiz passou a ser a pessoa mais importante. Nem o médico, nem o padre, nem o professor, nem o chefe da estação, nem os guardas chegavam ao calcanhar daquele homem. Não tinha medo e gostava de o ver. Parecia-me diferente de todos os outros. Afinal, havia alguém que nos protegia e eu conhecia-o. Se houvesse algum problema o juiz resolvia-o. Até cheguei a pensar dizer-lhe que andava aborrecido, porque já me tinham roubado mais do que uma vez os meus queridos piões. Mas havia sempre um familiar que me comprava um novo. Mas não era a mesma coisa, porque não tinha ainda uso e sem uso é diferente.
Estas memórias emergiram quando li a notícia do inválido Joaquim Seco condenado a uma pena de prisão de 30 dias por não ter pago uma multa de uma centena de euros. Chocou-me. Mas o choque ainda foi maior quando a juíza (julgo que era uma senhora) não permitiu o pagamento em mais do que duas prestações, porque isso “descaracterizava a pena”. Será que a juíza não conhecia a situação do doente? Será que a justiça tem de ser mesmo “cega”? O melhor seria abrir os olhos.
Um par de dias depois é noticiado o arquivamento (por prescrição) do caso das mulheres intoxicadas com hormonas de emagrecimento. Algumas estiveram em coma e ficaram com lesões irreversíveis. Neste caso, as Ordens dos Médicos e dos Farmacêuticos actuaram e aplicaram penas disciplinares, ao passo que a justiça deixou impunes os responsáveis.
Quando penso nestes casos, e em muitos outros, sinto uma saudade do Senhor Doutor Juiz dos meus tempos de criança. Com ele nunca aconteceria atitudes destas. O senhor Joaquim Seco não seria condenado e os médicos e farmacêuticos que prescreveram e prepararam os medicamentos teriam sido punidos….
Estas memórias emergiram quando li a notícia do inválido Joaquim Seco condenado a uma pena de prisão de 30 dias por não ter pago uma multa de uma centena de euros. Chocou-me. Mas o choque ainda foi maior quando a juíza (julgo que era uma senhora) não permitiu o pagamento em mais do que duas prestações, porque isso “descaracterizava a pena”. Será que a juíza não conhecia a situação do doente? Será que a justiça tem de ser mesmo “cega”? O melhor seria abrir os olhos.
Um par de dias depois é noticiado o arquivamento (por prescrição) do caso das mulheres intoxicadas com hormonas de emagrecimento. Algumas estiveram em coma e ficaram com lesões irreversíveis. Neste caso, as Ordens dos Médicos e dos Farmacêuticos actuaram e aplicaram penas disciplinares, ao passo que a justiça deixou impunes os responsáveis.
Quando penso nestes casos, e em muitos outros, sinto uma saudade do Senhor Doutor Juiz dos meus tempos de criança. Com ele nunca aconteceria atitudes destas. O senhor Joaquim Seco não seria condenado e os médicos e farmacêuticos que prescreveram e prepararam os medicamentos teriam sido punidos….
“Abaixo o Reitor, abaixo as propinas, abaixo Bolonha, abaixo o Governo, o actual e qualquer um que venha a surgir no futuro…”
A comunicação social tem relatado que, hoje, iria decorrer uma manifestação dos estudantes de Coimbra na Reitoria pedindo a demissão do Senhor Reitor.
Como o meu gabinete goza da particularidade de dar para a Porta Férrea, estava atento às movimentações e à algazarra que é habitual nestas andanças. Às 16:10 minutos comecei a ouvir o barulho e debruço-me de uma das janelas a ver o que se passa. Algumas dezenas de turistas, com as suas máquinas e câmaras, ficaram surpresos com as faixas e gritos de ordem dos manifestantes. Deve ter sido um bónus extra ver aquele espectáculo. De futuro, nos seus locais deverão explicar como é uma manifestação de estudantes em Coimbra a pedir a demissão do reitor. Não deve abundar por esse mundo académico fora manifestações a pedir o abandono do dirigente máximo do seu cargo. Faixas e palavras de ordem contra as propinas, contra a actual acção social, contra Bolonha, contra o Reitor, contra o actual governo (não sei se contra o próximo também!) eram os alvos da dita cuja. Lá foram pela Couraça de Lisboa, dirigindo-se ao Governo Civil, a protestar, a protestar, a protestar, com as câmaras de televisão e fotógrafos jornalistas atentos à procissão dos devotos académicos. Ah! Esquecia-me de dizer que foi muito breve a manifestação. Pudera. Não sei se atingia uma centena de manifestantes e isto numa Universidade com 25.000 estudantes…
Como o meu gabinete goza da particularidade de dar para a Porta Férrea, estava atento às movimentações e à algazarra que é habitual nestas andanças. Às 16:10 minutos comecei a ouvir o barulho e debruço-me de uma das janelas a ver o que se passa. Algumas dezenas de turistas, com as suas máquinas e câmaras, ficaram surpresos com as faixas e gritos de ordem dos manifestantes. Deve ter sido um bónus extra ver aquele espectáculo. De futuro, nos seus locais deverão explicar como é uma manifestação de estudantes em Coimbra a pedir a demissão do reitor. Não deve abundar por esse mundo académico fora manifestações a pedir o abandono do dirigente máximo do seu cargo. Faixas e palavras de ordem contra as propinas, contra a actual acção social, contra Bolonha, contra o Reitor, contra o actual governo (não sei se contra o próximo também!) eram os alvos da dita cuja. Lá foram pela Couraça de Lisboa, dirigindo-se ao Governo Civil, a protestar, a protestar, a protestar, com as câmaras de televisão e fotógrafos jornalistas atentos à procissão dos devotos académicos. Ah! Esquecia-me de dizer que foi muito breve a manifestação. Pudera. Não sei se atingia uma centena de manifestantes e isto numa Universidade com 25.000 estudantes…
O drama anunciado
Poucos poderão falar sem alguma resignação dos números do desemprego, ontem anunciados pelo INE : 412,6 mil indivíduos correspondentes a 7,5% da população activa. Já o havíamos previsto aqui denunciando, ao mesmo tempo, a irresponsabilidade das propostas do PS. Mesmo que se registasse uma recuperação forte da actividade económica, diz a história das últimas décadas, que o desemprego só abrandaria dois a três anos após a retoma. Imaginem agora o que nos espera nos próximos tempos.
O drama do deficit
Sem escrever um único número, Pacheco Pereira conta a história do deficit como poucos o sabem fazer. A não perder, na edição impressa do Público.
Vetos autárquicos
Parece confirmar-se a decisão da Comissão Política Nacional do PSD em vetar alguns candidatos autárquicos propostos, no respeito pelos estatutos, pelas secções concelhias e aprovados pelas Distritais respectivas. O problema agora está do lado dos candidatos alternativos, aqueles que têm a confiança política do líder: querem ser candidatos, mesmo sabendo que vão perder e sem disporem do apoio das bases. Chama-se a isto perder a qualquer custo.
quarta-feira, 18 de maio de 2005
A História repete-se - continuação
“…Trocadas as descomposturas preliminares, sobre a questão da fazenda, decide-se que é indispensável, ainda mais uma vez, recorrer ao crédito, e faz-se novo empréstimo. No dia seguinte averigua-se, por cálculos cheios de engenho aritmético que para pagar os encargos do empréstimo do ano anterior não há outro remédio senão recorrer ainda mais uma vez ao país e cria-se um novo imposto.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit-por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência- aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste, por não haver mais quem pague...”
Ramalho Ortigão- Farpas-1882
Depois disto, ainda há economistas e políticos que continuam a sustentar que mais despesa pública promove o desenvolvimento, sem criar outros constrangimentos que o impedem!...Deveríamos estar desenvolvidíssimos!...
Ah! Mas houve o "salazarismo", que o impediu!...
Manda a verdade, no entanto, dizer que foi, nesse período de equilíbrio das contas públicas, que o País mais cresceu.Não é um julgamento político, mas estatística.
Tal facto em nada defende ou branqueia esse regime, tanto que estou convencido que um regime democrático, com preocupações de boa gestão da coisa pública, obteria, certamente, melhores resultados.
Fazem-se empréstimos para suprir o imposto, criam-se impostos para pagar os empréstimos, tornam-se a fazer empréstimos para atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e neste interessante círculo vicioso, mas ingénuo, o deficit-por uma estranha birra, admissível num ser teimoso, mas inexplicável num mero saldo negativo, em uma não-existência- aumenta sempre através das contribuições intermitentes com que se destinam a extingui-lo, já o empréstimo contraído, já o imposto cobrado…
Pela parte que lhe respeita, o país espera. O quê? O momento em que pela boa razão de não haver mais coisa que se colecte, porque está colectado tudo, deixe de haver quem empreste, por não haver mais quem pague...”
Ramalho Ortigão- Farpas-1882
Depois disto, ainda há economistas e políticos que continuam a sustentar que mais despesa pública promove o desenvolvimento, sem criar outros constrangimentos que o impedem!...Deveríamos estar desenvolvidíssimos!...
Ah! Mas houve o "salazarismo", que o impediu!...
Manda a verdade, no entanto, dizer que foi, nesse período de equilíbrio das contas públicas, que o País mais cresceu.Não é um julgamento político, mas estatística.
Tal facto em nada defende ou branqueia esse regime, tanto que estou convencido que um regime democrático, com preocupações de boa gestão da coisa pública, obteria, certamente, melhores resultados.
terça-feira, 17 de maio de 2005
Palavras, Palavras….
Segundo o Diário de Notícias de hoje, dia 17 de Maio, o Governo “ao contrário do que tinha garantido, já está a proceder a substituições de dirigentes em diversos organismos”, quando as novas regras só serão discutidas no Parlamento na próxima semana.
Tem que se ver o aspecto positivo da coisa.
O actual Governo legisla para o próximo, que nessa matéria terá a vida facilitada: limitar-se-á a revogar as regras e fará como o presente.
O outro aspecto positivo, nos tempos que correm, é que o Governo,não sendo sério, parecê-lo-á.
E como mais vale uma imagem do que mil palavras!...
Tem que se ver o aspecto positivo da coisa.
O actual Governo legisla para o próximo, que nessa matéria terá a vida facilitada: limitar-se-á a revogar as regras e fará como o presente.
O outro aspecto positivo, nos tempos que correm, é que o Governo,não sendo sério, parecê-lo-á.
E como mais vale uma imagem do que mil palavras!...
Pirilampo mágico
O programa que está a decorrer no Coliseu de Recreios é um exemplo de satisfação e de alegria para todos.
É incrível ver como os deficientes são capazes de ultrapassar as suas limitações. Exemplos para todos os portugueses que, não sofrendo de limitações físicas ou mentais, deveriam ser capazes de se ultrapassarem a si próprios, contribuindo para o desenvolvimento do país.
Chamo a particular atenção do actor que, sofrendo de trissomia 21, mostrou qualidades intelectuais e humanas fora de série.
Um programa destes permite-nos concluir que todas as tramas, irresponsabilidades, incongruências e intolerâncias poderiam ser ultrapassadas. Bastava que tivéssemos a energia e a determinação dos nossos compatriotas deficientes.
É bom aprendermos todos os dias uma lição.
É incrível ver como os deficientes são capazes de ultrapassar as suas limitações. Exemplos para todos os portugueses que, não sofrendo de limitações físicas ou mentais, deveriam ser capazes de se ultrapassarem a si próprios, contribuindo para o desenvolvimento do país.
Chamo a particular atenção do actor que, sofrendo de trissomia 21, mostrou qualidades intelectuais e humanas fora de série.
Um programa destes permite-nos concluir que todas as tramas, irresponsabilidades, incongruências e intolerâncias poderiam ser ultrapassadas. Bastava que tivéssemos a energia e a determinação dos nossos compatriotas deficientes.
É bom aprendermos todos os dias uma lição.
A História repete-se
“…Reunidas as Câmaras e aberto perante elas o OE, começa-se invariavelmente por constatar, num trémulo elegíaco de sinfonia fúnebre, que continua a existir o deficit.
Cada um dos três Governos, a quem a Coroa alternativamente adjudica a mamadeira do sistema, encarrega-se de explicar aos taquígrafos essa ocorrência- aliás desagradável, cumpre dizê-lo- a que ele, Governo em exercício, não tem culpa. A responsabilidade cabe ao Governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incúria.
Para cada um desses três Governos sucessivamente encarregados de trazer o deficit ao regaço da representação nacional, o Governo que imediatamente o precedeu nesse mesmo encargo é o último dos imbecis.
Tal é o conceito formidável em que cada um dos três Governos tem os outros dois!...
A Coroa, pela sua parte - e este é o mais augusto de todos os seus privilégios -é sucessivamente da opinião de todos os três ministérios; e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos imbecis do grupo nº 1, nº 2 e nº 3, a Coroa torna a restituir a citada confiança, com uma efusão de júbilo tão sincero como o nojo anterior, a cada um dos grupos imbecis já referidos, mas colocados cronologicamente em sentido inverso daquele em que estavam, ou sejam, por sua ordem, os imbecis nº 3, nº 2 e nº 1.
Ramalho Ortigão- Farpas-1882
Cada um dos três Governos, a quem a Coroa alternativamente adjudica a mamadeira do sistema, encarrega-se de explicar aos taquígrafos essa ocorrência- aliás desagradável, cumpre dizê-lo- a que ele, Governo em exercício, não tem culpa. A responsabilidade cabe ao Governo transacto, bem conhecido pelos seus esbanjamentos e pela sua incúria.
Para cada um desses três Governos sucessivamente encarregados de trazer o deficit ao regaço da representação nacional, o Governo que imediatamente o precedeu nesse mesmo encargo é o último dos imbecis.
Tal é o conceito formidável em que cada um dos três Governos tem os outros dois!...
A Coroa, pela sua parte - e este é o mais augusto de todos os seus privilégios -é sucessivamente da opinião de todos os três ministérios; e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos imbecis do grupo nº 1, nº 2 e nº 3, a Coroa torna a restituir a citada confiança, com uma efusão de júbilo tão sincero como o nojo anterior, a cada um dos grupos imbecis já referidos, mas colocados cronologicamente em sentido inverso daquele em que estavam, ou sejam, por sua ordem, os imbecis nº 3, nº 2 e nº 1.
Ramalho Ortigão- Farpas-1882
Olha para o que faço, não olhes para o que disse...
...parece ser o novo paradigma dos partidos do arco governamental.
Afinal parece que este Governo, supreendido com o espanto do Governador do Banco de Portugal sobre o estado do Estado, mas também da economia segundo entendi, já admite decretar o pagamento pela utilização das chamadas SCUT´s.
Eu sei que foi há muito tempo - foi em Janeiro de 2005 - mas vale a pena recordar palavras do porta-voz do PS para estas coisas das SCUT. Dizia o senhor deputado José Junqueiro, insurgindo-se contra a medida que o governo de então (quão longe no tempo vai!) estas palavras fruto da mais inabalável convicção e por certo profunda análise e estudo sobre situação financeira, que as SCUT´s "não podem ser consideradas uma hipoteca para as gerações futuras. Uma hipoteca é não dar às populações uma oportunidade que no passado não tiveram".
Catedrático, a receita de Junqueiro em nome do PS para manter o regime das SCUT´s era muito simples: "basta afectar um terço dessas receitas (do IA e do ISP) ano a ano, ao IEP para que seja possível pagar os encargos com as Scut e deixar livres, para outros investimentos rodoviários, uma verba superior em mais de 40 por cento ao actual orçamento do IEP".
O governo de então, que não entendeu a beleza da simplicidade, logo declarou que tal manobra era verdadeiro passe de mágica. Afinal, revela-se agora que era puro ilusionismo.
Aguardemos para ver se são só as SCUT´s do litoral que serão "fechadas", ou se cai por terra a tal preocupação pela discriminação positiva a favor das regiões do interior que justifica manter o regime actual como estímulo ao desenvolvimento, à fixação de população, quadros e actividades.
E estou para ver, depois da imediata reacção de Macário Correia ao anúncio, a verdeira resistência do governo aos "localismos" e a coerência do PSD sobre esta matéria...
Afinal parece que este Governo, supreendido com o espanto do Governador do Banco de Portugal sobre o estado do Estado, mas também da economia segundo entendi, já admite decretar o pagamento pela utilização das chamadas SCUT´s.
Eu sei que foi há muito tempo - foi em Janeiro de 2005 - mas vale a pena recordar palavras do porta-voz do PS para estas coisas das SCUT. Dizia o senhor deputado José Junqueiro, insurgindo-se contra a medida que o governo de então (quão longe no tempo vai!) estas palavras fruto da mais inabalável convicção e por certo profunda análise e estudo sobre situação financeira, que as SCUT´s "não podem ser consideradas uma hipoteca para as gerações futuras. Uma hipoteca é não dar às populações uma oportunidade que no passado não tiveram".
Catedrático, a receita de Junqueiro em nome do PS para manter o regime das SCUT´s era muito simples: "basta afectar um terço dessas receitas (do IA e do ISP) ano a ano, ao IEP para que seja possível pagar os encargos com as Scut e deixar livres, para outros investimentos rodoviários, uma verba superior em mais de 40 por cento ao actual orçamento do IEP".
O governo de então, que não entendeu a beleza da simplicidade, logo declarou que tal manobra era verdadeiro passe de mágica. Afinal, revela-se agora que era puro ilusionismo.
Aguardemos para ver se são só as SCUT´s do litoral que serão "fechadas", ou se cai por terra a tal preocupação pela discriminação positiva a favor das regiões do interior que justifica manter o regime actual como estímulo ao desenvolvimento, à fixação de população, quadros e actividades.
E estou para ver, depois da imediata reacção de Macário Correia ao anúncio, a verdeira resistência do governo aos "localismos" e a coerência do PSD sobre esta matéria...
Um doutor que não era médico, mas sim advogado!
A história de um jovem de 12 anos com leucemia aguda contada pelo meio-irmão, acompanhado de um advogado num programa televisivo, obriga-me a uma pequena reflexão. O jovem adoeceu em Outubro e só em Janeiro é que foi feito o diagnóstico definitivo, depois de várias interpretações, face aos sintomas e resultados das análises. Um segundo médico, do sector privado, acabou por fazer o diagnóstico. Por vezes, não se consegue de imediato fazer diagnósticos correctos. Com o tempo a possibilidade de diagnóstico exacto aumenta exponencialmente. Já fiz muitos diagnósticos a doentes depois de terem sido previamente consultados por colegas. Não considero que tenha tido mais capacidade do que eles, simplesmente usufrui de uma vantagem fornecida pela própria evolução da doença.
O drama do jovem é mesmo sério, mas a forma como foi apresentado o caso, face ao comportamento da médica, entristece-me. Não vejo, pelo menos através da forma como foram relatados os acontecimentos (mãe, irmão e própria médica), que tenha havido negligência médica. Sei que, por vezes, acontecem casos de negligência, infelizmente. Mas, na grande maioria dos casos não podem ser considerados como tal. Não podemos esquecer que navegamos num complexo mar probabilístico em que o contexto clínico deve sobrepor-se, mesmo com o risco de errar, o que não é sinónimo de desleixo. Apresentar-se na televisão para apelar à solidariedade de eventuais dadores de medula é de louvar. Fiquei surpreendido, quando o doutor que acompanhava o familiar (pensava que era médico a fim explicar alguns aspectos clínicos-terapêuticos da leucemia) era um advogado. Falou de cátedra e a senhora doutora médica terá de se explicar, em sede própria, a conduta. Ressalvou que os médicos não fazem isto de propósito. Claro que não!
Assusta-me, cada vez mais, a possibilidade de um dia ser acusado por “negligência”, confesso. Temos uma forma de reduzir os tais casos de “negligência” que é tratar os doentes de uma forma mecânica, super-defensiva, pedindo os mais complexos exames e, consequentemente, retirar o calor humano e o senso clínico que fizeram a história e a dignidade da mais bela profissão do mundo. Não consigo privar os doentes do calor humano e do bom senso clínico que, às vezes, são capazes de nos trair. Paciência! Prefiro correr o risco.
Espero que o jovem venha a recuperar totalmente da sua doença. São os meus votos.
O drama do jovem é mesmo sério, mas a forma como foi apresentado o caso, face ao comportamento da médica, entristece-me. Não vejo, pelo menos através da forma como foram relatados os acontecimentos (mãe, irmão e própria médica), que tenha havido negligência médica. Sei que, por vezes, acontecem casos de negligência, infelizmente. Mas, na grande maioria dos casos não podem ser considerados como tal. Não podemos esquecer que navegamos num complexo mar probabilístico em que o contexto clínico deve sobrepor-se, mesmo com o risco de errar, o que não é sinónimo de desleixo. Apresentar-se na televisão para apelar à solidariedade de eventuais dadores de medula é de louvar. Fiquei surpreendido, quando o doutor que acompanhava o familiar (pensava que era médico a fim explicar alguns aspectos clínicos-terapêuticos da leucemia) era um advogado. Falou de cátedra e a senhora doutora médica terá de se explicar, em sede própria, a conduta. Ressalvou que os médicos não fazem isto de propósito. Claro que não!
Assusta-me, cada vez mais, a possibilidade de um dia ser acusado por “negligência”, confesso. Temos uma forma de reduzir os tais casos de “negligência” que é tratar os doentes de uma forma mecânica, super-defensiva, pedindo os mais complexos exames e, consequentemente, retirar o calor humano e o senso clínico que fizeram a história e a dignidade da mais bela profissão do mundo. Não consigo privar os doentes do calor humano e do bom senso clínico que, às vezes, são capazes de nos trair. Paciência! Prefiro correr o risco.
Espero que o jovem venha a recuperar totalmente da sua doença. São os meus votos.
A cenoura e o pau
As declarações do Governador do Banco de Portugal sobre a grave crise orçamental em que estamos mergulhados não poderão ser dissociadas das notícias sobre o choque sentido pelos Ministros face às propostas apresentadas pelo Ministro das Finanças.
Vamos por partes. As declarações de Vítor Constâncio surpreendem pela sua surpresa. A situação é mais grave do que ele próprio esperava. Vindo do Governador do BP, estas declarações colocam duas hipóteses de interpretação: ou andava distraído, ou o anterior Governo ocultou informação ao BP, à Assembleia e ao País. Uma e outra são graves e requerem rigoroso escrutínio político. É possível, entretanto, descortinar uma terceira: os pressupostos (conjuntura internacional, projecção de receitas e de despesas, previsões de crescimento económico) que presidiram à elaboração do OE2005 estão desfasados da realidade, pelo que a sua revisão obriga a uma reavaliação do deficit.
O Governo já conhece as principais conclusões da Comissão encarregada de avaliar as contas públicas. Só assim se entende as declarações do Primeiro-ministro e a notícia do Expresso sobre o “choque” provocado pelo Ministro das Finanças. O Governo já sabe que vai ter de tomar medidas impopulares para superar o problema criado.
A questão que se impõe é simples: mas já não sabia, mesmo antes de formar Governo? Já não sabia quando decidiu apresentar o seu programa eleitoral e quando mais tarde o transformou em programa de Governo? Respigando as muitas declarações feitas por responsáveis do PS nos últimos 8 meses, todos conheciam bem o quadro conjuntural que agora se pretende destacar.
O que nós estamos a assistir só tem um nome: dramatização! É o “discurso da tanga” sem falar da “tanga”. Mas é também o assumir que os pressupostos eleitoralistas do PS têm de ser postos de lado, porque inconcretizáveis. O drama do Governo é este: criou expectativas optimistas e não tem como as satisfazer. O que é mais grave é que muitos dos Ministros continuam a pensar o contrário. Ainda não perceberam o problema que têm em mãos e não querem ver o que todos já viram: não há alternativa a cortes radicais na despesa. Não há benesses para distribuir. Como dizia um amigo meu, “ a cenoura foi-se, só nos resta o pau!”
É este o drama. Não vale a pena inventar outros porque este já nos chega.
Vamos por partes. As declarações de Vítor Constâncio surpreendem pela sua surpresa. A situação é mais grave do que ele próprio esperava. Vindo do Governador do BP, estas declarações colocam duas hipóteses de interpretação: ou andava distraído, ou o anterior Governo ocultou informação ao BP, à Assembleia e ao País. Uma e outra são graves e requerem rigoroso escrutínio político. É possível, entretanto, descortinar uma terceira: os pressupostos (conjuntura internacional, projecção de receitas e de despesas, previsões de crescimento económico) que presidiram à elaboração do OE2005 estão desfasados da realidade, pelo que a sua revisão obriga a uma reavaliação do deficit.
O Governo já conhece as principais conclusões da Comissão encarregada de avaliar as contas públicas. Só assim se entende as declarações do Primeiro-ministro e a notícia do Expresso sobre o “choque” provocado pelo Ministro das Finanças. O Governo já sabe que vai ter de tomar medidas impopulares para superar o problema criado.
A questão que se impõe é simples: mas já não sabia, mesmo antes de formar Governo? Já não sabia quando decidiu apresentar o seu programa eleitoral e quando mais tarde o transformou em programa de Governo? Respigando as muitas declarações feitas por responsáveis do PS nos últimos 8 meses, todos conheciam bem o quadro conjuntural que agora se pretende destacar.
O que nós estamos a assistir só tem um nome: dramatização! É o “discurso da tanga” sem falar da “tanga”. Mas é também o assumir que os pressupostos eleitoralistas do PS têm de ser postos de lado, porque inconcretizáveis. O drama do Governo é este: criou expectativas optimistas e não tem como as satisfazer. O que é mais grave é que muitos dos Ministros continuam a pensar o contrário. Ainda não perceberam o problema que têm em mãos e não querem ver o que todos já viram: não há alternativa a cortes radicais na despesa. Não há benesses para distribuir. Como dizia um amigo meu, “ a cenoura foi-se, só nos resta o pau!”
É este o drama. Não vale a pena inventar outros porque este já nos chega.
Ruínas de Balsa
Em comentário ao post sobre o Parque Natural da Ria Formosa, um dos leitores deixou a informação sobre a importância arqueológica do território nele abrangido que me era totalmente desconhecida. Pelo interesse manifesto transcreve-se o comentário, aproveitando para agradecer o contributo.
"Está pouco divulgado que dentro do Parque Natural da Ria Formosa se situam as ruínas de Balsa, uma grande cidade romana.
Conhecida desde a Antiguidade, o seu sítio foi redescoberto em 1866. Os seus vestígios enterrados permaneceram virtualmente intactos até 1978, altura em que começaram a sofrer destruições radicais, que se têm prolongado até hoje.
Para além das destruições agrícolas, que já eliminaram mais de 20 ha de alicerces romanos, recai hoje sobre o lugar a ameaça da urbanização, multiplicando-se nos últimos anos os casos de construção em área arqueológica e protegida, incluindo as em área de domínio público marítimo.
O site do Campo Arqueológico de Tavira, publica uma monografia de divulgação (ainda sem editor) e um estudo de restituição topográfica da forma urbana de Balsa".
Conhecida desde a Antiguidade, o seu sítio foi redescoberto em 1866. Os seus vestígios enterrados permaneceram virtualmente intactos até 1978, altura em que começaram a sofrer destruições radicais, que se têm prolongado até hoje.
Para além das destruições agrícolas, que já eliminaram mais de 20 ha de alicerces romanos, recai hoje sobre o lugar a ameaça da urbanização, multiplicando-se nos últimos anos os casos de construção em área arqueológica e protegida, incluindo as em área de domínio público marítimo.
O site do Campo Arqueológico de Tavira, publica uma monografia de divulgação (ainda sem editor) e um estudo de restituição topográfica da forma urbana de Balsa".
Impressão Digital
Os meus olhos são uns olhos,
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão (Movimento Perpétuo,1956)
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão (Movimento Perpétuo,1956)
segunda-feira, 16 de maio de 2005
“De médico e de louco todos temos um pouco”…

Portrait of Doctor Gachet
Vincent van Gogh
O adágio, “de médico e de louco todos temos um pouco”, nunca perdeu, nem perderá a sua actualidade. Quanto à loucura, é tanta que nada se pode fazer, se bem que por vezes até pode ser útil e, quanto a ser médico, todos se comportam como tal. Fazem-se diagnósticos, estabelecem-se as terapêuticas mais mirabolantes, os prognósticos são frequentemente estabelecidos, curiosamente, de uma forma positiva, quando são instituídas as medidas de cada um.
Os temas de conversa mais comuns são os referentes ao tempo e à saúde. Mas mesmo assim a saúde leva a primazia. Basta ver que quando duas pessoas se encontram a pergunta da praxe é: “então, como vai a sua saúde”? E as pessoas respondem mesmo, às vezes até exageradamente.
A queda para actos terapêuticos da população é um fenómeno interessante. A auto-medicação foi sempre uma constante desde os primórdios e, não obstante a evolução técnica e o progresso científico verificados, continua a manifestar-se em toda a sua plenitude. Ainda bem. É reconhecida a capacidade das pessoas em resolverem os seus problemas de uma forma correcta, se bem que muitas vezes extravasam as suas competências e capacidades com consequências nada agradáveis. Mas mesmo assim, os benefícios ultrapassam de longe os prejuízos. Quem não se recorda dos nossos pais e avós que com as suas mezinhas, xaropes, rezas e quejandos lá iam, umas vezes mais, outras vezes menos, resolvendo os problemas. Eram as cabeças de alho à volta do pescoço para afugentar as “bichas”, o calor mal cheiroso e peganhento da enxúndia de galinha aquecida na papeira, os chás mais horrorosos para as diversas maleitas, as violentas purgas capazes de até eliminar a própria alma, as malvas para as infecções, o hipericão para o fígado, a casca de cebola para a inflamação da garganta, as rodelas de batata para as dores de cabeça, as sanguessugas para as nódoas negras e para purificar o sangue, as rezas para o quebranto e para o cobrão, e muitas outras.
Iam à farmácia natural e utilizavam o que havia. Hoje, dispõem de novos produtos susceptíveis de resolver muitos dos seus problemas, e o facto de não terem formação em farmacologia não impede que, através dos contactos com os profissionais da saúde, órgãos de comunicação social e vizinhos, aliado à uma curiosidade intrínseca, obtenham conhecimentos capazes de solucionar muitos problemas de saúde sem terem de socorrer dos serviços de saúde.
Brevemente, vai ser possível a venda de alguns medicamentos fora das farmácias. Argumenta-se que poderão correr riscos devido a uma auto-medicação excessiva e/ou incorrecta, tais como hemorragias graves, intoxicação hepática, alergias, interacção com terapêuticas prescritas pelos médicos, além de minimizarem ou ocultarem sinais e sintomas de doenças graves, enfim, um rosário de situações. É verdade, esses riscos existem e depois? A aprendizagem também se faz numa base de tentativa e erro, e, perante a “loucura natural de praticarmos a auto-medicação” não há nada a fazer, a não ser cultivar a prática, ensinando e disponibilizando os fármacos necessários. Se a minha avó fosse viva, decerto não saía do supermercado arrebatando tudo para poder praticar nos netos. Sempre era melhor do que a estopada daquela horrorosa enxúndia de galinha, ou do mal cheiroso alho a queimar o nariz…
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