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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Conversas...

 Recordo de tempos idos. A memória alimenta-se de recordações. Obriga-me mesmo a reviver velhas histórias como se acabasse de as viver.

Adorava visitar velhos locais, próximos no espaço e remotos no tempo. Aos domingos mergulhava numa casa de pasto onde convergiam pessoas do povo; talvez fosse a sua extravagância semanal. Para mim não era extravagância, era mesmo uma necessidade, beber e comer num meio rico, popular, onde podia ainda auscultar o sentido das pessoas, deliciar-me com as suas conversas cruzadas e aprender a ver o mundo de forma diferente. Adorava o período em que os emigrantes regressavam às origens. Muitos deles, tendo vivido mais de quarenta anos em França, não perderam a forma de falar das suas terras, embora entremeada pelo hipotético ganho cultural adquirido lá fora, com o qual se convencem que sabem mais e têm soluções para tudo.

O “franciú” comia e bebia que nem um alarve. Meteu conversa com um casal, também, de emigrantes.

- Donde são?

- Ah! Eu conheço. Conhecem fulano e sicrano?

O casal disse que sim. A partir daqui, entre duas garfadas e um copo de vinho avidamente emborcado de uma só vez, começaram a desfilar histórias atrás de histórias e formas de solucionar os problemas do país, da décima, dos carros, das portagens, como legalizar e não legalizar carros, um longo e interessante arrazoado em que ouvi de tudo.

- Vejam lá agora como são as coisas. O melhor é não ter nada. Então não é que agora a décima é para triplicar a pagar!

- Pois é, "intigamente" era melhor. Dizia o vizinho.

- É como os carros, custa-me mais "pró" legalizar do que aquilo que pagam.

- Sabe minha senhora. - Minha senhora não! A senhora é do seu marido, não é minha.

- Peço-lhe desculpa, mas são uns chulos de merda, com licença da palavra. A conversa continuou à volta de inúmeros assuntos, em que a forma de pronunciar certas palavras passaram a ser rainhas e senhoras, onde "buber, abaxou, câmbra, ós pois, ar congelado" e muitas outras eram pronunciadas da forma mais natural.

O casal despediu-se e o alarve continuou a mastigar e a beber. Em frente, à distância de duas mesas, um senhor de idade aproveitou o silêncio da sala de pasto para entrar na conversa.

- Olha lá, não me estás a conhecer? Sou o Zé Manel tipógrafo que andava sempre a assobiar e tinha os queixos afiados. Não te estás a lembrar de mim? Eu fazia os bailes pelas aldeias. Eu quando entrei disse para mim, eu "conheci" esta cara.

O outro olhava-o e acenou com a cabeça. Depois a conversa reiniciou-se com o parceiro, explicando que esteve em Lisboa 48 anos, enquanto o outro dizia que já andava há mais de quarenta em França.

- Estás com ar diferente.

- A idade muda muito as pessoas. Há dias nem reconheci o filho do "condogueiro" e, ainda há pouco, vi uma senhora que julgava que era a mulher do gago. Pus-me a reinar com ela e tive de lhe pedir desculpa.

- Comigo passou-se uma coisa parecida. Foi na Amadora. Vi um gajo de bicicleta e pensei que era um conhecido, um tipo muito vaidoso. Deixei-o ir ao "ralenti" e "amandei-lhe" um murro nas costas. - É pá! Não era o gajo. Disse ao tipo: - Desculpe, julgava que era o Manel Marques. - Não faz mal. Depois conversámos um pouco. E não é que ele também conhecia o Manel Marques? - Segunda-feira vou estar com ele e devolvo-lhe o murro. - Ah, Ah! Coisas. Ria-se abundantemente e sem o estorvo da placa.

O outro ouvia-o, mas não falava porque empanturrava a boca de comida.

- Comi que nem uma maravilha. Comi à bruta!

Entretanto o outro rematava:

- Padre sou eu que comi uma sardinha!

Aproveitou o arroto para mudar de conversa e dar seguimento à conversa.

- A gente está sem rei e sem roque. Dizem que fizeram uma democracia, mas não, o que fizeram foi uma anarquia. E para explicar a sua opinião socorreu-se de vários exemplos entre os quais um, que nunca passou pela minha cabeça.

- Vê lá que até para as filhas conhecerem o corpo de um homem tinham de tomar banho com o pai. Isto é que uma liberdade! A liberdade tem limites.

Era hora do almoço, os copos que ia contando não era por aí além, mas prometia.

A tarde daquele domingo foi de ócio, as adegas abriram as portas para arejar o mofo, as tascas de convívio engalanaram-se com boas buchas, e, até ao jantar, pelo menos, aqueles fígados devem ter tido um trabalho do caraças, enquanto os seus cérebros divagavam pelos acontecimentos do país, pondo toda a sua criatividade ao dispor da gente.

Tascas! Santuários da vida do português genuíno. Eu julgo que continuo a ser…

sábado, 18 de fevereiro de 2023

O tolo

Boné na cabeça, mãos atrás das costas, cabeça de lado, em constante movimento e sempre a olhar para a rua como se estivesse à espera de alguém. O tolo, que não via há alguns anos, estava no mesmo sítio, em frente da porta do cemitério. Viu-me e comentou sem olhar: - A Marisa não me vem buscar. E são horas do almoço. O relógio está a trabalhar. Às tantas só vou almoçar à noite. Mas hoje é dia de Natal ou quê? Entre as múltiplas frases olhava para o pulso como a querer confirmar o tempo.  

- Esteve a trabalhar? Perguntei. – Estive. Estive à espera da Marisa. Nunca mais me vem buscar para comer. – E quem é a Marisa? – É a minha colega. Trabalha neste escritório aqui. – Muito bem. Já agora pode dizer-me o que é que o senhor faz? – Eu sou chefe. – Chefe de quê? – Chefe de primeira. Ainda cuspo muito para comer. A que horas se almoça hoje? São horas. Ia respondendo às minhas perguntas sempre de costas voltadas, olhando para o lado esquerdo à espera de que alguém chegasse. Sentado à sombra de uma delicada árvore deixei-me ir naquele estranho diálogo. – O senhor trabalha aqui há muito tempo? – Quinze dias, só! – E já é chefe? – Para o ordenado que tenho ainda é pouco. – Mas diga-me lá uma coisa. O senhor é chefe dos coveiros? Não respondeu. Talvez não tivesse ouvido, - Há muitos coveiros? – Há. – Quantos? – Quatro. – Afinal há quanto tempo está aqui? – Há muito. Há vinte anos. Sorri e comecei a recordar a conversa que tivemos há alguns anos em que o tempo era a coisa mais elástica e volúvel que alguma vez vi. Tinha aspeto limpo e cuidado. Quem o trata fá-lo com carinho e atenção. Continuei a conversar com ele através das suas costas. Nunca me olhou de frente. Sempre à coca da chegada da Marisa. – Já trabalhou hoje? – Estou à espera da Marisa para comer. Eu tenho de comer. Se uma pessoa não come morre. Vai para debaixo da terra. E não é que a gaja demora! Com catano. São quase duas horas e ela não vem. Para a próxima não a deixo ir a lugar nenhum. Primeiro come-se, depois trabalha-se. – Ela foi fazer o quê? -  Se calhar foi às compras. – A esta hora está quase tudo fechado. São horas de almoço. – Ela já devia cá estar. Eu como às três horas. Depois as horas fazem-se tarde de mais. – A que horas é que sai? – Saio às duas. – Mas são uma e meia. Olhou para o relógio e ripostou: - São duas e meia, são. – Como é que se chama? – José Manuel da S. R. – Mora aqui perto? – Moro na Presa, antes de chegar à capela do Morais, lá para cima. Eu nem sei se a mulher dele já morreu ou não. Ainda há tempo a vi. 

A conversa continuou sempre em redor da vinda ou não da Marisa. – Ela esqueceu-se de que tenho de comer. São três horas e daqui a pouco são três e vinte e ela sem vir. Olhava constantemente para o relógio cujos ponteiros, se trabalhassem melhor do que a sua cabeça, deveriam estar na uma e quarenta. – Ora, a gaja já cá devia estar. Ela e a outra. Eu como às duas horas, duas e meia, três horas, as horas que eu quiser. E ela demora-se. – Onde é que vai comer? – Aqui, no depósito. – Onde?! – O Nélson já comeu e há muito tempo. Eu é que não. – Quem é o Nélson? – É o coveiro cá disto. – Já agora o senhor quanto ganha por mês? – Dois contos e tal. Mas isso é pouco! – Já pediu aumento? – Há quanto tempo! Pedi à Marisa. Mas a Marisa hoje está demorada. Entretanto, rapa do bolso um longo desdobrável e pôs-se a lê-lo. – Que lista tão grande! O que é isso? – São as horas extraordinárias que ela me deve. – Desde quando? – Desde fevereiro. – Ela já não volta. Disse-lhe. Não respondeu. Permanecendo sempre de costas olhava atentamente à espera do que não tem que aparecer. O tolo, no seu discurso enigmático, ia construindo o seu mundo virtual, uma espécie de Pokémon desejoso de ser apanhado por alguém que pudesse ajudar a treinar a sua pobre mente. Repeti: - Ela hoje não vem. – Vem, mas só às quatro horas, quatro e meia. Já são quase. – Mas que horas são? Olhou para o relógio e disse: - São quase três horas. – Três ou duas? – Duas. – Pois são. Foi então que me recordei da frase do tolo com a qual definiu, e bem, o trabalho, “cuspir muito para comer”.  

Foi o que eu fiz!  

Aprendemos sempre com alguém, até com um tolo.

“Biscoitos, pijamas e petingada” …

Manhã nublada e um pouco adocicada. O cheiro do mar leva-me sempre para o mundo da fantasia, mas o dever obrigou-me a cumprir o horário. Portões abertos. Uma senhora de idade, a sorrir, aproximou-se. Perguntei-lhe se me podia ajudar. Sorriu. A meu pedido identificou-se como a diretora da instituição. Fiquei um pouco envergonhado. Não reconheci a irmã. Pedi-lhe desculpa. Muito delicadamente perguntou-me se não queria tomar um café. – Claro que sim, irmã. Levou-me até uma pequena sala onde tirou um café ao mesmo tempo que destapava uma caixa cheia de biscoitos. – Senhor doutor, coma se faz favor. Fiz ontem à noite. Não disse que eram para mim, mas eu entendi perfeitamente que foi essa a intenção. Tirei apenas um bocado, dizendo ao mesmo tempo que a minha condição não permitia comer mais. Sorriu. Confesso que me soube bem, a ponto de lhe dizer: - Irmã. Posso roubar um para levar? – Senhor doutor. Roubar, não! No final das consultas vai levar biscoitos.

As consultas correram muito bem, mas de uma forma original. A primeira funcionária, sorridente, apresentou-se vestida com uma indumentária inusitada. Pijama quente e vistoso. Viu que fiquei intrigado com a vestimenta. Foi então que me explicou que era o “dia do pijama”. Todas as funcionárias apareceram na consulta vestidas com confortáveis pijamas de todas as cores e feitios. Quase que me apeteceu usar também um. No final da manhã, a irmã veio despedir-se e entregou-me um saco com todos os biscoitos que estavam na caixa. Senti logo que ia sair asneira. E saiu. Enfim, também tenho direito a fazer algumas, neste caso foi “abençoada”.

Terminei cedo, o que me permitiu passear um pouco pela cidade, relembrando velhos tempos.
A minha intenção não foi recordar, embora sentisse a presença do passado a meu lado. Um estranho silêncio envolvia o presente. Não quis ouvi-lo. Apenas quis fazer horas para o almoço num restaurante conhecido. Sentei-me e olhei para o mar. Estava um pouco enraivecido. Assim que se aproximou o meio-dia desloquei-me até o velho espaço de restauração. Será que está aberto? Pensei. Sim, estava. Ao entrar, duas senhoras, uma delas a dona, cavaqueavam. Olhou-me e reconheceu-me através de um suave sorriso. Indicou-me a mesa. A funcionária, uma jovem, nomeou os dois pratos. Escolhi a “petingada”. Fui generosamente servido. Não apareceu mais ninguém. No final a dona aproximou-se. Foi então que lhe disse: - Tinha-lhe dito que quando viesse passaria por aqui.  

A história é simples de contar. O dono, que era o seu pai, um bom conversador, tratou-me sempre com enorme simpatia. Na última vez perguntei pelo patrão. A jovem empregada estremeceu bruscamente. Ficou tensa. Após uns breves segundos, em que demorou a dissipar a surpresa, disse: - Mas o senhor Zé faleceu! Como se eu tivesse de saber. Depois contou-me tudo o que se tinha passado. A minha curiosidade levou-me a perguntar-lhe o que iria acontecer ao restaurante. “A filha vai tomar conta”. Pedi-lhe para a chamar. Manifestei-lhe as minhas condolências e contei algumas peripécias passadas com o pai. No final disse-lhe que sempre que fosse à cidade iria almoçar ali, não só porque a comida era boa, mas em homenagem ao pai. O único sítio, onde nunca escolhia a refeição. – Então, veio almoçar, não é verdade? Faça o favor de se sentar. Vou arranjar algo de especial. O senhor não vai arrepender-se. No final, dizia sempre: - Tinha ou não razão? Claro que tinha. Sempre. - Está a ver? Prometi e aqui estou. Sorriu, abraçou-me e deixou cair duas lágrimas.

 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Não me recordo do seu nome…

Vivi na estação de comboios, quase que no meio das linhas e paredes meias com a fábrica de serração. Lembro-me de muitos carregadores. Eram homens muito duros que utilizavam o corpo para mudar o mundo e ganhar algum dinheiro para comer, beber e viver. Viver? Fingiam. Vestiam de azul-sujo e frio, longe do belo azul do céu sob o qual trabalhavam desde a aurora invadindo a noite sem dar conta da negridão que sobre eles caía. Brutos, capazes de levar no lombo cargas impensáveis, subindo e descendo estrados que chiavam ao peso dos seus pés, muitas vezes desnudados. Os sacos de serapilheira eram a única armadura dos seus dorsos e cabeça. Mal falavam. Nos pobres e raros intervalos faziam as suas refeições. Navalha, boroas, chouriças e vinho. Muito vinho complementado com vários copos de três aviados na tasca à laia de sobremesa. O suor e o odor do vinho encharcavam a atmosfera misturando-se com os aromas da serradura, do trigo, do querosene, do cheiro dos animais, do carbureto e do tabaco mais ordinário que já fumei até hoje, os Kentucky. Estranha e complexa mistura que à noite era engolida pelo fumo das fogueiras, à volta das quais descansavam os corpos, libertando as suas almas cheias de medos, pecados e tentações. A embriaguez reinava. Era o único prazer a que tinham direito. Se é que poderia ser considerado como tal. Gente simples, dura e bruta na sua mais genuína expressão. Conheci alguns. Muitos, mesmo. Nos dias de folga iam ter com a família ou descansavam. Alguns dormiam no dormitório em camas móveis que se abriam como se fossem triângulos acabados de desenhar. Um deles tinha uma barca lá para as bandas de Treixedo. Fiz algumas vezes, com o meu pai, o percurso de comboio entre as duas estações. Uma viagem de cerca de seis quilómetros, se tanto. Até poderíamos ir à pé. Depois levava-nos na sua barca usando uma longa vara. Conhecia as profundezas do rio. Não usava remos. Passeei algumas vezes naquele troço aos domingos com enorme satisfação. Tinha um sorriso delicado. Muito suave para a brutalidade típica dos carregadores. O nosso lanche era sempre partilhado e ajudava-me a molhar os pés no belo rio Dão nas tardes quentes de verão. Não me recordo do seu nome. Se o meu pai fosse vivo dispararia logo como se chamava e obrigava-me a passar pela vergonha, dizendo, “Esqueceste do seu nome? Era teu amigo e cuidava tão bem de ti!”. Um dia, durante a realização de manobras na estação, morreu debaixo da máquina a vapor muito perto da minha casa. Nunca mais andei na sua bela barca ancorada no rio Dão perto da estação de Treixedo. 

Não me recordo do seu nome, mas não esqueço o seu sorriso, cuidados, a velha barca e o suave e enigmático odor de um rio que teima em correr sem parar no meu coração como se fosse o mais puro e nobre sangue da vida… 

sábado, 21 de janeiro de 2023

“São Sebastião” …

Presumo que já tive a oportunidade de explicar a razão de gostar do São Sebastião, capitão da guarda pretoriana de Diocleciano, imperador romano. Sendo cristão, Sebastião era benévolo com os crentes, facto que o levou a ser considerado como traidor e condenado à morte por flechas. Lançado ao Tibre acabou por ser resgatado por Irene (nome tão lindo, nome de uma tia querida com voz de anjo) que mais tarde foi elevada aos altares. Novamente presente perante o imperador, acabou por ser executado através de espancamento e o seu corpo lançado nos esgotos de Roma.
Foi objeto de várias obras, uma delas li em pequeno, Fabíola, do cardeal Nicholas Wiseman. Nunca mais esqueci a belíssima capa do livro. Também foi objeto de outros autores de forma sedutora e encantadora. 
Desde pequeno que sou fascinado pela sua imagem, tronco nu, amarrado a um tronco e cravejado de flechas. 
Portugal tem uma característica religiosa que considero única. Em todas as procissões, sejam elas em honra de quem for, aparece sempre um São Sebastião. Vai a todas! Está presente em muitas igrejas, e quanto a capelas, upa, upa, é difícil, penso eu, encontrar um santo com tantas. São Sebastião pode mesmo ser considerado como o campeão das capelas em Portugal. Presumo que o culto a São Sebastião tenha a ver com a peste, a fome e a guerra, a tríade destruidora da humanidade. Na falta de melhor, São Sebastião tornou-se no santo protetor das pestilências humanas. É tão popular que até tivemos um rei chamado Sebastião (por ter nascido neste dia) que tudo fez para o honrar. Lisboa tinha sido assolada em 1569 pela peste. O rei mandou erigir um templo junto à margem do Tejo e até o papa lhe enviou de Roma uma das setas com que o santo foi martirizado.
Muito mais havia a contar a propósito deste cristão que tentou converter Diocleciano.
No seu dia, 20 de janeiro, costumava calcorrear alguns sítios onde lhe prestam homenagem. Lembro-me de um ano ter passado por eles. Fiquei triste, nem uma festa, nem uma procissão, nem uma venda, nem música ao estilo de Quim Barreiros, nem um taberneiro, nada. Ainda pensei: - Ó Sebastião! Será que as pessoas estão a esquecer-te? Não me respondeu.
Na altura “precisava” de dois santos para juntar aos muitos que andam por aqui. Faltavam-me um São Brás e um São Sebastião. Agora já os tenho. O São Brás por causa da minha mãe, e o facto de ter nascido no seu dia! As voltas que dei para ir buscá-lo à Guarda. Tantos anos à minha espera! Quanto ao Sebastião, foi em Frankfurt que o adquiri. O antiquário quase que me o ofereceu. - Sabe? É indo-português. Adquiri-o em Goa. Como o senhor é português é perfeitamente legítimo que o leve para o seu país. Venda simbólica. Presumo que não vou adquirir mais nenhum santo. Este Sebastião, tosco, popular, foi criado pelas mãos de um santeiro de Goa nos finais do século XIX.
Lembrei-me dele. Hoje, à hora do almoço, telefonei para casa e pedi para ir ao jardim ver se havia uma flor. Havia apenas um lindo botão de rosa. Agora está a seus pés no meu quarto. Bom, tenho que agradecer ao São Sebastião. De facto, mais tarde ou mais cedo, acabo sempre por conseguir o que desejo. Estranho? Um pouco. Mas foi sempre assim.
Escrevinhei este texto ao som de uma chuva miudinha e de um largo sorriso cheio de sol que, inesperadamente, surgiu enquanto almoçava na esplanada de um restaurante. Adoro o sorriso de São Sebastião.
Foi hoje, 20 de janeiro de 2023.
Agora, termino a minha refeição bebendo um copo de vinho à sua memória e história.
-  À tua, Sebastião!

sábado, 5 de novembro de 2022

Clara

Adoro escrever. Preciso de sonhar e de dar largas à imaginação mesmo na mais estranha solidão. Vivo sem compreender a vida. Sou um saco de confissões, de desejos, de medos, de terrores, de amores, de ilusões, de doces e de alegrias. Mesmo num dia banal encontro sempre motivos de reflexão. Os seres humanos são verdadeiros exemplos de saber, de emoções, de solidariedade e de esperanças a par de muita dor, do sofrimento da alma e até da morte anunciada.
A senhora, com mais de quarenta anos, pediu-me um esclarecimento. Tinha tido recentemente uma filha e “perdeu” a visão. – Acha que foi da gravidez? – Foi de repente? – Foi. – Mas é só para o perto, não é? – Sim, porque ao longe continuo a ver bem. Sorri. Olhei para os exames e comprovei défice de visão apenas para o perto. Nada de especial. Depois expliquei-lhe que era natural a diminuição da acuidade visual com a idade. Uma mera questão ótica, na medida em que o “formato” do olho se altera com a idade, tal como acontece com o corpo. Tentei explicar que o facto de ter estado grávida, e as alterações decorrentes da mesma, poderão ter tido alguma responsabilidade no assunto, mas que não era sinónimo de gravidade, além de que a diminuição da visão ao perto tem a característica de ser quase abrupta. - A idade explica o assunto. – Mas há pessoas que são muito mais velhas do que eu e continuam a ver sem problemas. – Pois! Cada caso é um caso. Às tantas muitas dessas pessoas não “precisam” dos olhos para ver ao perto e nem dão conta disso. Sorri. – Não é o meu caso. Retornei ao tema da gravidez. – É o primeiro filho? – Sim. Nem imagina o “esforço” que tive para engravidar. Mais de dez anos em tentativas e tratamentos. Sorri e dei-lhe os parabéns. Logo de seguida perguntei o nome. Teve uma menina. – Como se chama a sua menina? – Clara. – Lindo nome. Parabéns. Um nome pouco frequente nos dias de hoje. Antigamente ainda o usavam, depois parece que se “esqueceram”. Digo isto, porque habitualmente pergunto às senhoras os nomes dos filhos. Uma atitude que considero simpática e que é bem vista pelas trabalhadoras. – Ainda há pouco, no decurso de um exame a uma senhora brasileira, que veio para Portugal com a família, disse-me que a sua  menina também se chama Clara. Dei-lhe também os meus parabéns, tanto mais que os brasileiros são useiros em nomes por vezes muito peculiares. Sorriu. – Olhe, senhor doutor. Nomes tínhamos nós há muitos anos, fosse rapaz ou rapariga. O nosso sonho era um dia usá-los. Nomes nunca nos faltaram. 
Felicitei-a novamente. Desejei-lhe saúde, bom trabalho e as maiores felicidades para a Clara. – Olhe. Não sei se sabe, mas Santa Clara, além de ser padroeira da fala, também é padroeira das doenças visuais. – Ai é? – Sim. Não é só a Santa Luzia. Sorriu e saiu embrulhada  num pouco de felicidade. 
Quando saiu, recordei uma conversa tida há muitos anos com a minha avó. Era muito pequeno. Contou-me que o meu pai falava muito pouco ou quase nada até aos cinco anos. Tiveram que fazer uma promessa à Santa Clara para lhe dar a fala. O que é certo é que a partir daquela altura começou a falar quase ininterruptamente durante o resto da vida, até quase aos noventa e um anos! O meu pai nunca estava calado, apenas quando dormia. Às vezes dizia-lhe: -  A avó fez uma grande asneira, nunca devia ter feito a promessa de levar de pedir à Santa Clara a fala para ti. Sorria e voltava a falar como se não ouvisse. 
 
 
 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

“Conserva o teu sorriso” …

Acabei a manhã de trabalho muito cedo. Apesar da agressividade bendita da chuva, que quer fecundar a terra, fui dar uma volta. Entrei na loja de antiguidades/velharias. A senhora deve ter-me reconhecido e apontou logo para a zona dos livros, que estava praticamente inacessível. Fez os possíveis para que eu pudesse tocar-lhes. Não foi nada fácil, mas mesmo assim consegui tocar nalguns e em poucos minutos já tinha coligido cinco. Uma mania como outra qualquer. Achei curioso a explicação. “Muitos destes livros foram dados pelos donos. Como já não tinham espaço, ofertaram-nos. Agora vendemos a um euro”. Pensei que deveriam ser tolos. Descartar livros é como sujar a alma de lama. Posso descartar-me de muitas coisas, menos de arte e de livros. Não disse nada, sorri apenas. Estive tentado a trazer muitos, mas os livros pesam. Neste caso pesam literalmente, mas na carteira não. 

Fui até ao restaurante habitual, muito tempo antes da hora. Sentei-me na esplanada. O dono surgiu. Vinha das compras. - Então, que é que traz aí? - Douradas e estas sardinhas. Mostrou-me. - Opto pelas sardinhas. - Quatro ou cinco? - O senhor é que sabe. Sorrimos em uníssono. Já sabia que ia demorar, obviamente. Entretanto, comecei a folhear os livros. Alguns eram virgens. Há décadas que estavam embrulhados em plástico. Nunca ninguém os tinha aberto. Três eram de autores portugueses, Aquilino, Camilo e Trindade Coelho. Um outro, era uma coletânea brasileira de pequenos contos, cujos autores foram omitidos. O quinto, um livro de Rex Stout, a propósito do famoso Nero Wolfe, detetive que me impressionou desde sempre, fechou o capítulo preliminar antes der “ler” as sardinhas assadas. Calcorreei os cinco. A minha vontade era navegar todos sem respirar. Claro que não vou conseguir. Não por não ter vontade, mas por falta de tempo. Todos foram fonte de inspiração e de saudade. Gosto de livros. São alimentos para uma alma que se sente cada vez mais pobre neste mundo estranho e sem sentido. Desaparecer no seu seio seria uma forma de renascer num mundo belo e sedutor.

Vivam as sardinhas, vivam os livros e, sobretudo, um bom vinho. 

A meu lado almoçavam cinco pessoas, quatro jovens e uma senhora que devia ser a “tutora”. Pela conversa depreendi que seriam estudantes de cinema. Estavam na localidade para um congresso. Dois deles tinham sotaque brasileiro. Falavam alto e não pude de deixar de acompanhar a conversa, desde os tipos de alimentos até aos cursos que frequentavam. Houve um momento em que falaram dos próximos feriados. O facto de a brasileira ter dito que o primeiro de dezembro tinha a ver com a queda da ditadura e a instauração da república obrigou-me instintivamente a entrar na conversa. Pedi licença e fiz as correções necessárias. Ouviram-me com atenção e agradeceram. O que estava mais próximo apontou para um dos livros que tinha em cima da mesa, deve ter-lhe chamado a atenção a encadernação antiga, e perguntou que livro era.  Disse-lhe que era uma coletânea de contos, editado há muitos anos no Brasil. Conversa, puxa conversa. Acabei por lhe oferecer o livro, aconselhando-o, sempre que comprasse um livro antigo a folheá-lo, porque por vezes encontramos coisas belas, como cartas, notas e outras coisas mais. Ficou de boca aberta. Mas para não ficar sozinho, também ofereci o “In illo tempore”, de Trindade Coelho, que já conhecia, à jovem brasileira, porque durante a conversa tinham falado de Coimbra e das suas praxes. Uma das meninas, a de Lamego, foi agraciada com a vida e obra do Marquês de Pombal de Camilo, enquanto a “tutora”, do Instituto Politécnico de Viseu, recebeu o livro de Aquilino que acabou por respirar ar puro ao fim de muitos anos. E assim, sabendo que não iria tempo para ler e reler estas obras, acabei por oferecer livros e divulgar a nossa literatura. Fiquei apenas com o livro policial de Rex Stout.

Ao levantar-se, o jovem luso-brasileiro, folheou o velho livro e encontrou um belo poema manuscrito. Letra feminina. Título? “Conserva o teu sorriso”. Um lindo poema que deve ter visto a luz em muitos anos. 

Ofereceu-me!

 

 

 

Um almoço vulgar…

Gozo alguns minutos da minha existência numa esplanada no alvor do outono. Não sinto frio, não sinto calor, sinto apenas saudade de um tempo que nunca existiu. Vivo mergulhado numa atmosfera simples. Consigo recordar imensas coisas ao mesmo tempo. O anoitecer prematuro, a música tranquilizadora de Glenn Miller, os sonhos de uma criança, os ruídos do sótão, temerosos ou tenebrosos, já não me recordo bem, os lençóis a cheirar a sabão azul, o medo da noite, a esperança do renascer de um novo dia, as orações a um anjo da guarda desconhecido e malandro, como é típico dos anjos, o medo da minha mãe poder descobrir o maço de cigarros, “Sagres”, escondido no armário do meu quarto. Ui! É melhor não avançar mais. São tantas as lembranças que acabam por causar ansiedade num tempo que não era meu, e nem sabia o que me iria acontecer. Mal sabia o que me estava guardado. 

Soube-me bem os filetes panados, embora tivesse de descartar as saborosas capas. Valeu-me o adocicado e saboroso vinho branco e os sorrisos delicados do pessoal.

Um almoço simples e banal para quem é banal e simples, eu.

domingo, 9 de outubro de 2022

“Cansaço” …

Há personalidades que apresentam características comuns. Quando as vejo quase que descortino o que são ou o que foram. 
Mulher magra, de meia idade, voz rouca de tabaco de longa exposição, olhos pintados a risco negro, olhar inquieto, sempre atento, não escondendo a fome de ver tudo em redor, nervosismo à flor da pele, maçãs do rosto salientes, sentou-se. Antes de lhe perguntar o que quer que fosse, debitou de imediato que sofria de um cansaço terrível, o que para ela, mulher que gostava de trabalhar, era uma grande preocupação. Consegui enfiar-me na conversa perguntando-lhe se sofria de alguma doença. Disparou que teve hepatite B e que ficou imune e depois disseram-lhe que também tinha hepatite C. - Já fez tratamento para a hepatite C? - Não! A minha médica já me falou nisso. A forma com expunha dava a entender que não teria assim nada de especial. - Olhe lá.- Atrevi-me ir direito ao assunto. - Foi consumidora de drogas proibidas? - Fui, senhor doutor. Disse com a maior naturalidade. - Mas deixei. Sem ajuda e nem tive que ir ao CAT. - E o que é tomava? - Heroína. - Ai sim? E conseguiu parar sem ajuda? - Claro. Vi que me estava a fazer mal e parei. - Sim senhora! - Quando é que começou? - Devia ter perto de trinta anos. - Então, já foi há muito tempo. Como é que se meteu nisso? - Foi o meu companheiro. Foi ele que me pegou as doenças. Mas também só andei dois a três anos nessa vida. Fazia-me mal. - E o seu companheiro? - Morreu. Mas não morreu da droga, foi morto por um cunhado que lhe espetou uma faca aqui. Apontou para a zona do fígado. - Isso aconteceu há muito tempo? - Foi naquela altura. O filho era pequeno, agora já tem trinta anos. - Claro que o assassino foi preso. - Foi, mas libertaram-no ao fim de doze ou treze anos. Ninguém sabe onde para, e ainda bem. Olhe, são coisas que acontecem. 
Depois continuou com o seu relato de vida pessoal, dizendo que teve outro filho de uma relação mais recente e que teve também de terminar. Era demasiado violento e um bebedolas. - Fartei-me de homens, sabe? Agora estou bem, o pior é este maldito cansaço. Dei cabo da minha vida por causa do amor. Acredita, senhor doutor? - Claro que acredito. - Maldita sorte a minha. Como é que estão as análises?
Tive que lhe dizer que tinha problemas no fígado e que deveria tratar-se como devia ser. Fiquei com a sensação de que desconhecia a gravidade da situação. - Ah! Então, o cansaço vem do fígado! - Sim. Tem que tratar-se como deve ser. Expliquei como deveria fazer. - Vou seguir o seu conselho. Vou mesmo. Eu gosto de trabalhar, mas este cansaço é demais, mata-me. Eu quero viver.
- Força! Viva mesmo.

sábado, 1 de outubro de 2022

Nomes e ferimentos

Conhecemos muitas pessoas através das suas obras, opiniões, conquistas, descobertas, inovações, arte e demais atividades ligadas aos seres humanos. Fabricamos as nossas opiniões acerca dos seus valores, princípios, dignidade, forma de estar e de sentir o mundo, acabando por incorporar na nossa essência parte do que são ou foram. Somos moldados por tudo o que nos rodeia. Os “outros” também fazem parte de nós.  

Conhecer não é apenas conviver ou partilhar, também é ouvir e saber o que fazem ou o que fizeram. Por vezes ficamos incrédulos quando a imagem de alguns fica manchada por algo iníquo ou horrível que fizeram. Além de perderem de imediato o seu valor e o respeito que julgávamos merecedores acabam por nos atingir e até ferir-nos. Também sofremos 

Quase que me apetece dizer que raro é o dia em que não somos confrontados com certos tipos de ferimentos ou insultos às nossas almas. Um eclesiástico, que foi inundado de honrarias ao mais alto nível mundial, passou a ser um iníquo. Um criminoso visivelmente alquebrado e sem a força de outrora, foi humilhado na sua condição humana. Alguns políticos mostram ao fim de algum tempo a qualidade das fibras de que são feitos, falsas e hediondas. Desportistas sem caráter e violadores da solidariedade e do companheirismo destroem a essência dos valores olímpicos. Os seus nomes correm a princípio como doces e felizes rios de água limpa, saciando a nossa sede e alimentando as nossas esperanças, mas alguns transformam-se em enxurradas de águas sujas e extraordinariamente violentas capazes de destruir a vida, as suas e ferindo as de outros. Também somos os que os outros são, porque fazem parte de nós. Os nomes que transportamos, mesmos que sejamos desconhecidos e sem qualquer impacto de maior, sempre transmitem alguma ideia acerca do nosso valor, nem que seja para dar algum alento à nossa autoestima, mas os dos outros, os dos “maiores”, podem causar transtornos muito graves porque roubam muito do que desejaríamos que a humanidade fosse. O quê? Já nem sei. Confesso que não acredito que alguma vez a humanidade seja o que foi prometido. Acredito apenas num breve momento em que o tempo se esquece que existe e me deixa saborear um café em paz na companhia de um cão sossegado e meigo deitado aos meus pés. Temos nomes, o dele também está incorporado na minha essência.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O pneu ...

Na altura não havia brinquedos. Fome de brincar e cabeça para imaginar eram coisas que abundavam.
Quando os eucaliptos davam a pele, retirava uma faixa e com maestria infantil, a que não era alheia a perigosa navalha, sempre escondida dos graúdos, arranjava maneira de criar uma fantástica hélice que girava como se fosse a mais esplendorosa ventoinha. Depois era vê-la a girar à velocidade da minha corrida. Víamos quem corria mais depressa atrás daquelas belezas feitas com a pele descamada dos eucaliptos.
Correr era uma necessidade. O corpo exigia insistentemente como se a vida quisesse andar atrás de um mundo que então via mas não compreendia. Fazia-lhe a vontade correndo com um velho arco ou a jogar à bola feita com meias velhas e trapos, os quais me valeram algumas tareias, porque nem sempre tinha discernimento para distinguir o velho do novo. Coisas da vida.
O que gostava mais era de andar às corridas com os arcos. Não era fácil arranjá-los, logo, o melhor era ficar junto da oficina das bicicletas e, como não quer a coisa, ia perguntando se não havia um pneu velho para brincar.
- Não. Não há. Diziam com vozes tonitruantes, eivadas de cigarros, de algum tinto e de muita berraria.
- Não há? Estão tantos ali.
- Onde?
- Ali! Não são pneus velhos? Podia dar-me um.
- Podem ser precisos. Replicou.
- Podem ser precisos?
- Sim. Podem.
- Mas para quê?
- Olha lá, ó meu rapaz. Não vês que estamos a trabalhar e que conversa não ajuda? Pensei: - Não ajuda uma merda! Estão a sempre a conversar, de futebol, de gajas, de vinhos, de patuscadas e de muitas outras coisas.
- Queres um pneu?
- Quero pois. Disse todo entusiasmado.
- Então, antes de ires buscar um pneu tens que me dizer se já pintas. Eu bem sabia o que ele queria, mas como estava com o olho num belo pneu respondi que não, ainda era muito novo.
- Ah! Então sabes o que é pintar!
- Posso ir buscar um? Perguntei sem responder.
- Espera. Ainda tens de me dizer se já viste a “pintelheira” de alguma miúda. Farto deste tipo de conversa, ainda estive tentado a dizer que sim, que já tinha visto a da filha. O pior era o resto. Respondi:
- Não senhor. Ande lá, deixe-me ir buscar um pneu. À medida que ia falando aproximava-me do montículo sujo de borracha usada. Já tinha o “meu” pneu ao alcance da mão.
- Posso levar este? Apontei.
- Podes, mas antes tens de dizer três asneira seguidas.
- Para quê? Questionei surpreendido.
- Para quê? Para pagares o pneu.
- Pagar com asneiras?
- Sim. Nessa altura já tinha abocanhado o mais bonito de todos.
- Pronto. Está bem. Porra, catano e merda!
- Mas isso são asneiras que se digam? Isso não vale nada. Tens que dizer as de verdade.
- Está bem. Eu digo para a próxima vez. Entretanto, já ia suficientemente longe para não ouvir as gargalhadas do pessoal que assistiram ao diálogo.
Fiz uma inveja do caraças junto dos meus amigos. O pneu “novo” foi alvo de trocas e baldrocas, mas fiquei sempre com ele. Não era fácil pô-lo a andar, tinha que lhe dar muita “porrada” com o pau, mas depois engatava e eu não conseguia acompanhá-lo na descida da inclinada calçada...

sábado, 24 de setembro de 2022

"Mactérias" ...

Nas andanças pelos meus textos tropecei neste que escrevi há alguns anos por causa de uma neta. Os miúdos são uma adorável fonte de inspiração.
“É bom estar atento aos miúdos, porque quando menos se espera aprende-se alguma coisa, pelo menos ficamos a saber, ou a imaginar, como funciona aqueles pequenos cérebros ávidos em compreender o mundo que os cerca.
O primo, um ano mais velho, sofre de cárie. Uma situação muito comum nestas idades. Apesar dos cuidados de higiene oral não conseguiu evitá-la. Tomara! É uma criança como qualquer outra, gosta de se alambazar com produtos altamente cariogénicos, o que pode ter consequências, por vezes dolorosas, como foi o caso desta semana. Antes, já tinha sido sujeito a tentativas de tratamento, mas, como estávamos à espera, opôs-se com determinação, ou seja, com medo, comportamento típico nestas idades, embora as condições atuais não tenham nada a ver com os dignos representantes dos "dentistas-barbeiros" que, no meu tempo de criança, revelavam ainda resquícios de aspirantes a torturadores da Santa Inquisição.
As conversas sobre este tema, cárie, doces, chocolates, lavagem e escovagem dos dentes são uma constante lá em casa, escutadas ou não pelos protagonistas infantis. Mas devem ser ouvidas, porque se não fossem não teria assistido e tido conhecimento das conversas da mais nova. Face às dores do primo, e ao conhecimento do seu comportamento em recusar o tratamento de dois "buracos", a menina acabou por entabular uma conversa com a mãe, dando provas do seu interesse por este assunto. "- Sabes o que são cáries, mamã?

- Hummm... Não. Conta-me lá!

- São "mactérias" que querem construir casinhas dentro dos dentes. Então, escavam, escavam, escavam e depois levam para lá a família toda!

- Ahhh... E cabem lá todas?

- Cabem, são todas amigas! Mas só que às vezes fazem doer a casa...

- Pois! É uma grande chatice..."

Hoje, face ao heroísmo e à aceitação por parte do primo em deixar-se tratar com sucesso, a conversa centrou-se no tema durante o almoço. A Leonor explicou-me o que eram as "mactérias", como é que elas entravam nos dentes e faziam a sua casinha para si e para os filhinhos e depois, quando começavam a ressonar, provocavam dores. 

- Como?! As "mactérias" ressonam?

- Sim. E depois fazem doer.

- E o que é que fazem, quando acordam? Não me digas que começam a pular, a correr e a brincar? Perguntei-lhe.

A miúda esboçou um largo sorriso de admiração, dançou na cadeira, revelando uma manifestação de gozo e de incredulidade, e lançou-me na cara, a rir que nem uma perdida:

- Oh, vovô, mas que pergunta tão "podícula"!

- O quê?!

- "Podícula", vovô! Mas tu não sabes de "mactérias"?

- Bom, um pouquinho.

- Ah. Está bem.

- E agora, o que é que vais fazer?

Com o dedo dá a indicação de esfregar os dentes e diz:

- Vou tirar as "mactérias". 

- Antes que escavem os teus dentinhos, não é?

- Pois. É que depois podem "ressonar" e "darem" dores.

- Muito bem. Vai lavar os dentinhos.

Pelo menos fiquei a saber o que são "mactérias", bactérias más, que gostam de escavar os dentes para terem uma casinha e que ao “ressonarem” provocam dores. Esta do ressonar é que ainda não percebi bem. Mas por hoje chega. Espero nos próximos dias aprender um pouco mais. O pior é que o raio de um molar começou a doer-me. Será que tenho lá dentro "mactérias" a ressonar? Às tantas. Na próxima semana vou acordá-las e mandá-las embora, senão quem não vai ressonar sou eu...

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O meu outono ...

Quando se vive muitos anos somos invadidos por uma estranha sensação, viver sem compreender. Pelo menos está a acontecer comigo. Cada dia que passa sou inundado da esperança de ser atingido pelo esquecimento súbito. Não sei bem o que isso é, mas pressinto-o como algo sublime, ser esquecido e esquecer. Haverá algo mais belo e poderoso? Não. A minha mente é lambida por recordações pontuais, quais flashes de raios e coriscos numa noite de verão. Gosto de as amarrar ao meu coração, mas desaparecem na primeira ocasião. Gente sem nome, olhos húmidos a imitar verdadeiros lagos de felicidade, lágrimas de rios de sofrimento, conversas belas a ofuscar o por de sol no fundo de um mar calmo e sensual, atitudes de coragem mais altas dos que as maiores das montanhas, poetas cheios de caráter mesmo no reino do analfabetismo, ternura tão vasta a querer subjugar o universo. Gente sem nome. Viveram e foram esquecidos. Devem sentir-se felizes na vastidão de um novo mundo. Felizes e livres. Julgo que sim. Até as almas perdidas acabarão por se achar e encontrar os seus Edens, mesmo que não saibam ou nunca tenham desejado. Não importa, o que interessa é ser esquecido e esquecer. Refugio-me atrás da beleza e sensualidade de uma caneta. O seu azul perturba-me, o peso encanta-me e o brilho do seu olhar emociona-me. Preciso, não de viver, nem ainda de esquecer, apenas sentir alegria com a doçura de um aparo de ouro e as lembranças quentes e doiradas a relembrar as areias do rio que acariciavam o meu corpo, libertando-me de forma doce e encantadora nas tardes de setembro do final do verão, prometendo pinturas da beleza colorida do meu outono. Outono, a estação que precede a morte, o sono, mas que encerra por momentos a beleza de uma vida simples e eternamente esquecida.