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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

“Desculpa”...

Fui educado a pedir desculpa sempre que cometia algum disparate ou asneira e, olhando para trás, foi coisa que nunca faltou. Mas não era fácil, as palavras teimavam em sair, as mãos ficavam molhadas e frias, arrepios subiam pela espinha, o peso na consciência fazia pender a cabeça, o peito ficava perro e uma vermelhidão afogueava as faces. Enquanto não ouvia o perdão, se é que ia ouvir, pensava eu, o tempo parecia uma canga de chumbo. Às vezes tinha que aceitar um responso, mas pelo tom da advertência já adivinhava o final feliz e, por isso, começava a ficar aliviado. Pronto! Já está! Durante algum tempo andava alinhado, mas depois saía novamente mais um disparate.
Com o tempo os disparates modificam-se, não deixando de ocorrer situações que às vezes exigem pedidos de desculpa. Quando acontece, sinto que é correcto proceder em conformidade, tentando explicar as razões subjacentes.
Pedir desculpa é um sinal de respeito e dignifica o responsável. No entanto, o uso da palavra começa a ser corriqueiro, chegando ao ponto de perder o seu verdadeiro significado. Um individuo qualquer bloqueia o nosso automóvel e, passado uma eternidade, aproxima-se com ar de parvo e meio-espantado lança a palavra mágica: - Desculpe! Já é diferente se pisarmos o calo de alguém, sem intenção: - Oh! Desculpe! Aleijei-o? Também se usa como forma muito cortês quando queremos abordar alguém, para pedir uma informação, por exemplo: - Desculpe. Pode-me dizer onde fica ...? Outras vezes é utilizada como moeda de troca. – Eu só lhe peço desculpa se ele (ou ela) me pagar o que me deve!
Também é utilizada quando a consciência colectiva sofre em virtude de actos e atitudes terríveis, como aconteceu com os representantes do povo alemão que tiveram, e bem, de pedir perdão pelos crimes praticados contra os judeus. Aqui, a desculpa toma uma dimensão especial e muito mais vasta. Por vezes a desculpa, apesar de tardia, é bem-vinda, dando a entender que não mais se irá repetir os acontecimentos que estiveram na sua base. Foi o que aconteceu com o anterior papa quando pediu perdão pelas atrocidades cometidas pela Inquisição em nome de Deus e o actual pelos abusos sexuais na Igreja Católica. A desculpa estende-se a outras áreas como a perseguição feita à ciência pela Igreja, quando pôs em causa alguns princípios, como foi o caso de Galileu. Agora, a Igreja Anglicana, 200 anos após o nascimento de Charles Darwin, acaba por pedir desculpa, através de uma declaração redigida pelo reverendo Malcolm Brown, ao iminente cientista, por terem tido uma atitude “excessivamente emocional” face à teoria da evolução.
As pessoas e as instituições cometem erros e os cristãos e a Igreja não são excepção. Não existe nada nas teorias de Darwin que contradiga os ensinamentos do cristianismo”.
Tantos anos depois é que tomam estas posições! Vale mais tarde do que nunca, diz o povo. Pois é, são desculpas a outro nível, muito diferente das desculpas próprias das crianças que, habitualmente, ficam embaraçadas, com a boca seca, as pernas a tremer, o suor a correr pelas costas, com dificuldade em respirar, à procura do tal buraquito que as “engolisse”. As crianças são férteis em disparates, mas têm o condão de aprender e de os corrigir, graças ao seu reconhecimento e ao pedido de desculpas. Quanto às instituições, enfim! Não acredito que tenham tanta capacidade de aprender quanto uma criança... Era bom!

30 anos de casados - já somos uma relíquia!

“E antes que venham ventos e te levem do peito o amor, esse tão grande amor que deu grandeza e alma à tua vida, faz dele, agora, enquanto é tempo, uma cidade eterna. E nela habita”.
(Teillard de Chardin)

O mundo está tão confuso que resolvemos celebrar os trinta anos de casados com uma viagem que sai das nossas rotas prováveis e que só referíamos por brincadeira, assim como se fosse o símbolo do que gostaríamos de poder fazer, uma dia, talvez, quando, se, quem sabe… Vamos a Buenos Aires, onde um de nós passou há muitos anos, apenas o tempo de se deslumbrar o suficiente para dizer, vezes sem conta, “gostava de te levar lá”. Sempre que se combinavam férias, ou se abria o mapa, lá vinha a ideia “e se fôssemos?”, mas o tempo foi passando, não é assim sem mais nem menos que se atravessa o Atlântico, com tanta coisa para ver mais perto, com tão pouco tempo sem programas já definidos, sendo tão raras as ocasiões em que os filhos, ou os pais, ou o trabalho, nos deixaram um pedaço das nossas vidas só para nós. Exclusivamente para nós, só porque sim.
Celebramos trinta anos de vida em comum com a sorte de podermos cumprir ainda uma etapa do nosso imaginário da juventude, quase uma brincadeira, mas que teve o efeito de marcar um ponto no horizonte que simboliza esse entendimento secreto que só os sonhos comuns e nunca abandonados pelo caminho podem expressar.
Vamos a Buenos Aires, agora, enquanto é tempo, porque são raros os momentos, ao longo da vida, em que coincidem a circunstância e a oportunidade. Talvez o segredo de uma vida feliz seja o de sabermos ver esses momentos em sintonia e de os integrarmos nas nossas vidas com a alegria de quem colhe um fruto saboroso.
Até para a semana!


Divórcio sim, casamento (ainda) não

O PS liderou ontem o bloco parlamentar que aprovou uma alteração ao regime do divórcio sem atender no essencial às observações - que bem mereciam outra ponderação - constantes da mensagem presidencial que anunciou e fundamentou o veto ao primeiro decreto.
No mesmo dia, e sem que o tema estivesse em agenda, o PS fez anunciar que era contra o casamento entre pessoas do mesmo género. Argumento: esta medida não está inscrita no programa do governo (!).
Transparece a estratégia. O PS sabe que estes temas alegadamente vanguardistas, federam a esquerda e credibilizam o PS aos olhos de um eleitorado urbano, pouco preocupado com a economia, os problemas sérios da crise, ou das soluções para um Estado social em perda. Sabe ainda que a direita, que sempre receia ser acusada de conservadorismo, dá-se mal com estes temas, reagindo sempre com argumentos que não são carne nem são peixe, para além de não apresentar uma posição a uma só voz. Mas também sabe que não pode esticar muito a corda dos temas que põe a JS a designar orgulhosamente de "fracturantes", na medida em que, para garantir a maioria nas próximas eleições é essencial manter as graças do eleitorado conservador que conquistou nas últimas, eleitorado avesso por natureza a estas alterações nos costumes.
Começam a ficar definidos os contornos da quadratura do círculo que espera o PS neste intenso ano de (quase) todas as eleições.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Por caminhos da Dácia e da Trácia-O princípio do fim IV



Trata-se de vista da imponente avenida que Ceausescu mandou construir, tirada de uma das varandas do mastodôntico e muito conhecido Palácio do Parlamento, edificado simultaneamente (clicar, para aumentar a imagem).
Diz-se na Roménia que o Palácio é o segundo maior edifício do mundo, depois do Pentágono, ou mesmo o maior, se se considerar que é constituído por um só bloco.
Para edificar o Palácio e a Avenida, Ceausescu destruiu bairros, mosteiros e igrejas, numa extensão de muitos e muitos hectares. A construção obrigou ao desvio de consideráveis recursos financeiros, com sacrifício das populações. Ao mesmo tempo que construía o Palácio, Ceausescu resolveu que deveria reembolsar a totalidade da dívida externa, afectando a maioria da actividade económica romena à exportação, a fim de angariar as divisas necessárias.
Como é sabido, os bens alimentares e outros bens essenciais começaram a rarear, mesmo o gás e a electricidade para a cozinha e para o aquecimento, em pleno Inverno, situação que se prolongou por vários anos. A queda do muro fez o resto.
A meio da magnífica avenida, as faixas de rodagem são separadas por dezenas de esbeltas fontes, que representam as várias províncias romenas. Uma obra que apressou o fim do ditador.

Keneth Rogoff, Ricardo Reis e...a política de "papa-açorda"

Editei na última 6ª Feira um POST comentando a iminente ruptura do Lehman Brothers, na sequência do episódio que envolveu as empresas/agências Fannie Mae e Freddie Mac, tendo citado a profecia feita a 18 de Agosto, em Singapura, por Kenneth Rogoff – segundo a qual iríamos assistir muito em breve à falência de um grande banco americano.
E ao 27º dia após essa profecia, o Lehman entregou-se aos credores!
Parece quase inverosímil tal capacidade de premonição!
Este episódio trouxe ao meu espírito a “famosa” profecia do Professor Ricardo Reis, de Agosto do ano passado, antevendo uma duração máxima de 30 dias para a crise financeira então no seu início, “esclarecendo” que a crise nem era financeira, nem era crise tampouco – tratava-se somente de uma situação de tensão “short-lived” no mercado interbancário, que no final de Setembro estaria ultrapassada e já não se falaria mais no assunto.
A menos que o Professor Reis tivesse emergido nesse dia de uma cura de sono e acabado de ler as notícias, custa a crer também como tenha sido possível um erro tão extraordinário de previsão...
Curiosamente, do Professor nunca mais houve notícia...espero bem que não tenha sido submergido pela crise do sub-prime...
Mas a absurda profecia do Professor Reis mereceu grandes parangonas por alguns dos mais destacados jornais de economia domésticos, que colocaram o Professor num pedestal, como nova estrela da economia nacional!
Era o que lhes cumpria de resto - a notícia era agradável ao “establishment”, enquadrava-se perfeitamente no estado de “papa-açorda” nacional reinante segundo o qual tudo o que se diga sobre problemas e ameaças que condicionam a economia é desde logo rotulado de alarmismo injustificado...até que os problemas estalam e pomos as mãos na cabeça sem saber o que fazer (a não ser tentar negar a evidência mais uma vez)!
Continuamos a viver nesta doce teoria em que diariamente nos servem optimismo às colheres, tentando fazer-nos crer, contra a evidência, de que tudo por aqui vai bem - até que as notícias do mundo real nos vêm sobressaltar e inquietar, retirando-nos cruelmente do torpor em que nos querem manter...
Esta estratégia de nos tentar manter tranquilos e “optimistas”- por exemplo insistindo em previsões de crescimento que se revelam sucessivamente infundadas - de tantas vezes contrariada pela realidade, não acabará por ter um efeito oposto ao que é pretendido pelos ideólogos do optimismo e suas agências de comunicação?
Conduzindo-nos a reagir por excesso aos episódios negativos?
E não tarda muito fica (se é que não está já) o “cidadão médio” mais pessimista que os agora acusados de pessimismo/alarmismo?
Não seria preferível enfrentar a realidade e por termo a optimismos injustificados?

Um ano parlamentar escaldante

Inicia-se hoje o derradeiro ano parlamentar desta legislatura. Um período marcado pela realização de quase todas as eleições.
Joga-se neste ano, claro está, o futuro do País, como em quaisquer eleições. Mas estas disputar-se-ão num clima político, social e económico de grandes incertezas e de turbulência garantida.
Estará em causa, seguramente, a conformação actual do espectro partidário (e só não ocorrerão alterações profundas no sistema partidário porque se não modificaram as leis eleitorais), sobretudo ao centro e à direita, com a oportunidade de re-afirmação do PSD e a tentativa de sobrevivência do PP.
Joga-se à esquerda uma carta decisiva para partilhar, ou pelo menos condicionar o poder em termos que já não ocorrem desde, pelo menos, 1976, com o BE à espreita de uma oportunidade para, perdida a maioria absoluta, fazer ao PS de Sócrates no governo do País, o que logrou conseguir com o PS de Costa no governo de Lisboa, confinando o PCP à sua influência social.
Feitas as contas após o encerramento da última das urnas, daqui sensivelmente a um ano veremos se, no final desta guerra feita de muitas batalhas diárias (de que o Parlamento, aposto, será o palco menos relevante), o novo quadro político resulta do sucesso do PS no esforço de ganhar a esquerda sem perder o centro do qual depende a conservação da maioria.
Uma nova quadratura do círculo para o PS? Começa hoje a desenhar-se. Aqui estaremos para observar.

A BP já percebeu!

O ministro Manuel Pinho apelou a que os combustíveis baixassem rapidamente de preço. A BP logo se apressou a subir a gasolina.
Adenda: Mas esta é ainda mais incrível!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A sentença do TAS!...

O Acórdão do Tribunal Arbitral do Desporto, em Lausanne, iliba FC Porto, põe em causa as decisões da Comissão Disciplinar da Liga e do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, encontrou vícios substanciais no Regulamento que serviria de base à exclusão do clube das Competições da UEFA e obriga o Benfica, o Guimarães e a UEFA a pagarem ao FCPorto despesas de deslocações e emolumentos dos advogados.
Como referi em post anterior, o FCPorto não terá respeitado procedimentos éticos, o que é reprovável. Mas, se não feriu a lei, não pode ser punido, como o actual "sistema" pretendia.
Um "sistema" que feria a ética não pode ser substituído por um outro que fere a lei, como tantos agora advogavam. Um e outro são igualmente reprováveis.
Vida nova precisa-se!...

Pelos caminhos da Dácia e da Trácia: O Deian, auto-didata do português III

O Deian é um jovem búlgaro de 26 anos, a acabar o mestrado em Turismo, e que actua como guia, em part-time. Conheci-o agora na Bulgária. Tendo estudado castelhano, apaixonou-se pela língua portuguesa, que aprendeu sozinho, sem qualquer apoio ou professor. Fala fluentemente o português, que considera uma língua bonita, encantadora e excitante, nas suas palavras. Há uns tempos, os pais enviaram-no para Berlim durante seis meses, fim de juntar ao castelhano o conhecimento do alemão. Apanhando-se em Berlim, logo iniciou o percurso das bibliotecas em busca de livros de autores portugueses. Passou os seis meses a ler os nossos escritores e regressou a Sófia pouco mais sabendo de alemão do que no momento da partida.
Como poucas possibilidades tem de treinar o português corrente, o sotaque não é perfeito, mas a sua linguagem é extraordinariamente rica, utilizando termos fora do uso vulgar, aprendidos nas leituras que fez. Fiquei deveras impressionado com essa faceta e com a quantidade de sinónimos que, de forma perfeitamente natural, dava para melhor explicitar as suas considerações como guia turístico. Entre os livros que leu, e apenas a título de exemplo, está um que considero bastante difícil, A Selva, de Ferreira de Castro.
Como não tem acesso a livros portugueses, fiquei de lhe enviar um ou outro livro dos nossos escritores.
E lembrei-me de convidar, quer os Autores do 4R, quer os nossos ilustres leitores e comentadores, a associar-se à ideia. Pelo que aqui deixo a morada:
Deian Stefanov
Rozova Dolina 3/12
Pernik 2300
Bulgária
O Deian merece, por ter aprendido português sem escola na Bulgária e pelo esforço que para isso fez como auto-didata!...

Lamentáveis confissões

O presidente da Associação Sindical dos Juízes partilha da opinião do senhor Juiz Conselheiro Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Consideram ambos que a possibilidade de, nos estritos limites da lei, um magistrado poder ser responsabilizado pelos prejuizos que cause a um cidadão por erro grosseiro (avaliado e declarado como tal por outro juiz), incapacita o magistrado de tomar uma decisão em consciência.
Esta afirmação, que tem vindo a ser repetida com insistência nos últimos dias (porque será?), é uma lamentável confissão de algo que não escrevo aqui. E não o faço porque a generalização é injusta e certamente teria por efeito a falta de respeito a muitos juizes que ao longo da minha vida conheci. Magistrados cuja consciência nunca cedeu a medos e a sua coragem e isenção nunca enfraqueceram perante quaisquer ameaças, muito mais sérias do que a exigência de assumir a responsabilidade pelos seus actos.
Resisto a dizer algo mais, mas confesso que não é fácil parar por aqui perante a face mais triste do corporativismo. Limito-me a deixar esta singela pergunta. Que sociedade estamos nós a construir quando quem é investido num mandato soberano que lhe confere a autoridade de exigir ao cidadão que preste contas e pague com a privação do bem mais sagrado que é a liberdade os erros cometidos, sinta que as suas decisões de consciência são condicionadas pela lei (que nem necessitava de ser escrita) que não o isenta de responder pelos seus?

“Farmacologia moral”...

Mal desanoitecia a humanidade e já o homem procurava, ansiosamente, a solução para os seus problemas e doenças. Olhava em redor, via o que os animais faziam, recordando também, sem sombra de dúvida, a sua velha condição de pré-hominídeo, e, desta forma, deverá ter começado a colectar e a cultivar tudo o que tivesse acção “farmacológica”.
A apetência para o mundo químico natural e, muitíssimo mais tarde, para o artificial é uma constante na nossa história. Desde sempre que procurámos e usámos produtos para curar, para matar, para “falar com os deuses”, para divertir, para amar, para odiar, para fornicar, para dormir, para acalmar, só para falar de algumas finalidades.
Certos tipos de comportamentos anti-social, pondo em risco a segurança e o bem-estar de terceiros, acompanham-se de medidas farmacológicas destinadas a combater essas tendências. Casos de comportamentos “sociopáticos” chegam a levar alguns doentes a procurar auxílio e tratamento. É do conhecimento geral que indivíduos com pulsões sexuais, tipo pedofilia, por exemplo, chegam a solicitar que lhes façam castração química e, noutros casos, em certos países, são as próprias autoridades que a determinam. Outros, consoante as suas tendências agressivas, solicitam que os tratem de forma a não prejudicar os que amam. Há aqui, aquilo a que podemos chamar uma tendência para a emergência de uma “farmacologia moral”. Psiquiatras já começaram a debater estas matérias questionando se será lícito enveredar por essa via, ou seja, tornar as pessoas mais “humanas”. O aparecimento deste conceito já desencadeou reacções desde a aceitação até ao repúdio, porque estaríamos a condicionar o comportamento de um indivíduo, entrando pelo campo da moral. O que é certo é que hoje em dia muita gente anda “calminha” devido aos tranquilizantes. O número de pessoas que os “engolem” é verdadeiramente astronómico, condicionando as suas maneiras de ser e de estar. Às vezes ponho-me a pensar o que aconteceria se as mesmas deixassem de tomar a medicação. Libertar-se-iam pulsões e agressividades difíceis de controlar? Quem sabe! Mas não vou tão longe como um professor meu que, há muitos anos, se lembrou que já era altura de propor o prémio Nobel da Paz à indústria farmacêutica produtora de tranquilizantes!
Voltando à “farmacologia moral”, o autor da ideia, segundo a qual deveríamos produzir fármacos para tornar as pessoas mais “humanas do que inteligentes”, abre o caminho para um controlo comportamental dos cidadãos. Imaginem a produção de uma “pílula Gandhi” ministrada a uma população para a tornar mais pacífica e mais humana? Aparentemente até seria interessante, dada a violência em crescendo no nosso país e também noutros. Já estou a ver o Hugo Chavez com um discurso gandhiano 24 horas após a tomada da primeira pílula! E se descobrissem fármacos que modificassem a forma de funcionamento do cérebro humano fazendo com que as pessoas não fossem corruptas, usando para o efeito a “pílula Baltazar Garzón”, ou transformando os sacanas e vigaristas em pessoas carinhosas e caridosas com a “pílula Madre Teresa de Calcutá”? Claro que há um problema no meio disto tudo. Era preciso que as tomassem! A não ser que as “pílulas morais” fossem substituídas por “vacinas morais”. Aqui o caso mudaria de figura. Em princípio os efeitos das vacinas seriam irreversíveis. Já há algumas experiências na produção de vacinas contra o tabaco e contra as drogas. Agora, vejam o que aconteceria se descobrissem vacinas contra a corrupção, contra a mentira, contra a sacanice, contra a demagogia, contra a falta de carácter e as aplicassem a muitas pessoas que andam por aí. Devia ser o bom e o bonito se um futuro “Plano Nacional de Vacinação” passasse a incorporar as novas vacinas!
Nada impede que um dia a par da farmacologia clínica, emerja uma “farmacologia moral” e, até, quem sabe uma “farmacologia política”! Bem. Mesmo que tal acontecesse o mercado paralelo encarregar-se-ia de produzir e contrabandear “drogas ilícitas” suficientemente excitantes, capazes de despertar emoções tipo corrupção e mentiras e, até, a agredir, a ofender e a matar!
Enfim! O melhor é tomar um analgésico. Sempre ajuda a aliviar as dores de cabeça provocadas por tantas iniciativas...

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Tenham medo, tenham muito medo!

O BdP garantiu que a falência do Lehman Brothers não terá reflexos em Portugal.
O ministro Manuel Pinho corrobora essa opinião.

Merecem ser punidos

O Lehman Brothers, quarto maior Banco dos EUA, tinha uma importância acrescida que lhe advinha da sua posição preponderante na Banca de Investimentos, criando, promovendo e colocando novos e complexos produtos financeiros, puros e derivados e organizando e liderando algumas das maiores operações de fusões e aquisições a nível global. Era uma referência das Instituições financeiras. Pois é este Banco que vai apresentar-se hoje à falência.
Durante anos e anos, o Conselho de Administração do Lehman apresentou aos accionistas objectivos cada vez mais ambiciosos e difíceis de realizar e lucros crescentes. As valorizações bolsistas anestesiaram os accionistas e os analistas exigiam novos crescimentos para fixar preços-alvo mais elevados, propiciadores de mais e mais lucrativas transacções. A criação de produtos de risco que sustentavam o crescimento tornaram-se, como seria inevitável, a razão da sua queda.
A falência do Lehman vem, mais uma vez, comprovar que a tecnocracia não chega para gerir o que quer que seja. E significa também que as grandes escolas americanas de gestão terão que rever os seus programas.
Pois, quer os responsáveis pelas administrações das grandes empresas falidas, quer os responsáveis pelos Fundos de Investimento e de Pensões que se constituíram como accionistas importantes das mesmas, estudaram nessas Universidades. Deslumbrados pelas luzes dos tableaux de bord, dos indicadores de curto prazo e dos bónus imediatos, nunca se lembraram que o sentido de responsabilidade e a prudência na gestão de bens alheios conflituam com os indicadores tecnocráticos.
Merecem ser punidos, não apenas os gestores do Banco, mas também os dos grandes accionistas institucionais, que sempre apoiaram os métodos do lucro fácil que agora levaram ao desastre.

domingo, 14 de setembro de 2008

Por caminhos da Dácia e da Trácia-Um Rei contratado II


Como aqui referi, a Roménia nasceu em 1859, pela união dos Principados da Valáquia e da Moldávia. A escolha do rei revelou-se um problema melindroso, já que nenhum dos Principados deveria aparecer como privilegiado ou subalternizado. Por isso, o entretanto nomeado Príncipe da Roménia, Ioan Cuza, e o Parlamento acordaram na definição do perfil de uma terceira pessoa que pudesse exercer as reais funções: um estrangeiro, dotado de capacidade de liderança, sério e com prestígio internacional. A escolha acabou por recair num príncipe alemão Karl von Hohenzollern-Sigmaringen, que recebeu a coroa da Roménia, com o nome de Carol I.
Para aceitar, Carol pôs como condição não constituir um encargo para o novo país. Assim, a morada que para si mandou fazer, o fabuloso Palácio de Peles, foi totalmente financiado pelo próprio. Não tendo descendentes vivos, chamou um sobrinho, com vista a prepará-lo para a sucessão, construindo, também a expensas próprias, um outro Palácio mais pequeno, para habitação do seu sucessor. Carol I revelou-se uma excelente escolha e foi um Rei altamente apreciado e estimado pelos romenos.
Para além da excelência da arquitectura, o Palácio de Peles estava ricamente decorado, o que levou o Presidente Ceausescu a querer requisitá-lo como habitação presidencial. Ceausescu tinha um medo terrível das doenças. Sabendo disso, e temendo as adaptações que o desvirtuariam, o Conservador do Palácio, no decorrer de uma visita de Ceausescu, foi-lhe falando dos vírus instalados nas madeiras antigas, propiciadoras de terríveis doenças. Assustado, Ceausescu, não quis arriscar e requisitou, bem perto, também um belo edifício, um antigo Casino, para morada de férias.
Com o desaparecimento do regime comunista, em 1989, os descendentes vieram a reivindicar a posse dos seus Palácios, já que não foram erigidos pelos fundos do Estado romeno. Foi-lhes devolvida a propriedade dos mesmos, condicionada a que se mantenham como monumentos e museus visitáveis.
Uma visita que valeu mesmo a pena. Claro que, no decorrer da mesma, não deixei de pensar se a escolha de um rei profissional estrangeiro não seria a melhor solução para ultrapassar as tricas caseiras que paralisam a governação de certos países…

Escutem a águia, o abutre ou o lobo: abaixo as fronteiras!


Um dos resultados da construção da união europeia foi a abolição das fronteiras. Os cidadãos adquriram a liberdade de circular de Estado para Estado dentro do espaço comunitário.
Não foram, porém, abolidas todas as fronteiras. Algumas existem que contrariam a natureza das coisas e sobretudo as coisas da natureza.
A visita do Presidente da República a Trás-os-Montes tornou público que se estuda a criação da primeira área protegida transfronteiriça, unindo o português Parque Natural do Douro Internacional e o espanhol Parque Natural Arribes del Duero.
Os domínios da conservação da natureza não devem, efectivamente, conhecer os limites que desenham a geografia politica, sobretudo quando esses limites são traçados por um rio que as espécies não conhecem como fronteira e que obviamente não divide, antes unifica os habitats.
Espero sinceramente que a intenção se concretize. Estou convencido que a criação de um primeiro parque natural ibérico, entre outras coisas, permitirá dar impulso a políticas e práticas de salvaguarda do imenso património natural na zona raiana. Concretizando-se pode ser que o exemplo se replique noutras zonas da raia, ricas em biodiversidade, nas quais visões diferentes têm colocado limites bem mais vincados do que aqueles que os governos impuseram antes de serem abolidas pela ideia de uma Europa sem fronteiras. Estou a lembrar-se das duas margens de outro rio, o Guadiana, onde do ponto de vista da defesa da biodiversidade aquele curso de água e os habitats que criou continuam a dividir. Basta ir a Castro Marim ou a Vila Real de Santo António, ao sapal que constitui uma riquissima reserva natural que não conhece soberanias, e lançar o olhar para a outra margem. Percebe-se logo como nos domínios do ambiente e da conservação da natureza não basta desarmar fronteiras, é essencial a cooperação.

Reconhecimento internacional

Estados Unidos estudam Base Aérea de Beja para sede do Comando Africano, noticiava ontem o Diário de Notícias.
Aí está o reconhecimento internacional da nossa verdadeira situação!...

sábado, 13 de setembro de 2008

Por caminhos da Dácia e da Trácia I


Uns dias na Roménia e na Bulgária, passeando e confrontando o conhecimento livresco da sua história, religião, cultura e economia, traduzida nas estatísticas, com a realidade e a vida do dia a dia.
Países vizinhos, muita coisa os separa, do alfabeto, latino, o romeno, cirílico, o búlgaro, aos recursos naturais, que privilegiaram a Roménia.
Traço saliente da cultura romena é a acentuação da sua raiz ocidental e latina, como Província que foi do Império Romano, a Dácia. O nome, Roménia, ou România traduz, mais do que tudo, esta ligação perene à cultura ocidental. Aspecto essencial da sua tradição, ganha enorme predominância no Museu de História da Roménia, em Bucareste, onde avulta uma imponente cópia do segmento da Coluna de Trajano erigida em Roma, onde é mencionada a conquista da Dácia, no ano 107 D.C.
Outro traço predominante da sociedade romena é a ligação à fé cristã. Dominada pelos Império Otomano durante 500 anos, a sua população soube sempre preservar, para além da língua, a sua identidade religiosa. Tendo resistido ao domínio muçulmano e, depois, às purgas, perseguições e ao encerramento dos templos por parte do regime comunista, os cristãos constituem cerca de 97% da população, 87% da Igreja Ortodoxa e os restantes de outros credos cristãos.
A Roménia, enquanto país, nasceu apenas em 1859, pela união dos Principados da Valáquia, ao Sul e da Moldávia, ao Norte, constituindo-se como Estado monárquico. Juntou-se-lhe depois a Transilvânia, Província central, após os arranjos territoriais subsequentes à 1ª Grande Guerra.
A Roménia teve apenas quatro reis. A escolha do primeiro rei reveste-se de aspectos verdadeiramente singulares que, por não serem muito conhecidos, mencionarei a seguir.

Valorizar o esforço, premiar o mérito

Grita-se demagogia! porque o PM e alguns ministros se deslocaram a algumas escolas para atribuir prémios aos melhores alunos do secundário, comparando esta a outras acções, como a distribuição de computadores, indisfarçavelmente encenadas para valerem como propaganda de uma medida, encarecendo desproporcionadamente a sua relevância.
Não duvido um segundo sequer que as centrais de informação e os estrategas ao serviço do governo aconselham vivamente estas cerimónias onde o PM e o governo ficam sempre bem na fotografia.
Mas neste caso aplaudo a presença dos governantes nas escolas, em especial do Primeiro Ministro, independentemente das segundas intenções que a tenham motivado.
Dar visibilidade a gestos políticos que valorizam o esforço e premeiam o mérito é algo que, no meu entender, se deve incondicionalmente apoiar e aplaudir.

“Enterradas vivas”...

Em Outubro de 2002, a Assembleia da República aprovou por unanimidade um voto de protesto pela condenação à morte, por lapidação, da cidadã nigeriana Amina Lawah. Presumo que estejam lembrados que Amina foi condenada por ter tido um filho fora do casamento. Uma onda de indignação percorreu o mundo e foi objecto de atenção por parte da comunicação social, talk shows, caso da “Oprah” e de parlamentos como o nosso. Uma decisão tomada ao abrigo da Sharia e que constitui uma afronta à dignidade e aos direitos das mulheres.
A violência entre os seres humanos é uma constante. No tocante às mulheres os relatos de violência são cada vez mais frequentes, facto que nos leva a questionar se estaremos a fazer o suficiente para prevenir e impedir tamanhas atrocidades. A divulgação dos casos é importante, porque ajuda a uma maior consciencialização do problema, pressionando as entidades e autores de forma a adoptarem comportamentos menos bárbaros e mais condicentes com os direitos humanos.
Gostava de saber a razão ou razões, por que é que casos como a de Amina são objecto de debate e discussão ao mais alto nível - e ainda bem -, enquanto outros são praticamente “esquecidos”. Uma questão de “apetite”? Um fenómeno de mimetização? Por motivos ou interesses políticos? Por mera distracção? Não sei. O que eu sei é que a comunicação social deu grande ênfase à renúncia do presidente do Paquistão, e à ascensão do “viúvo”, esquecendo que cinco jovens mulheres foram enterradas ainda vivas, depois de terem sido vítimas de agressões, ao desafiarem os chefes tribais, recorrendo ao tribunal civil para legitimar os respectivos maridos de acordo com as suas escolhas pessoais. Um membro do parlamento paquistanês, Israr Ullah Zehri, extremista radical, é um defensor das práticas tribais, depositárias de “tradições centenárias”, necessárias para impedir que as mulheres possam escolher livremente os seus maridos! “Uma obscenidade”! Segundo a besta.
Fico surpreendido por que é que a comunidade internacional, e já agora a nacional, não dão atenção a este problema. Há necessidade de acabar com a violência contra as mulheres e as crianças baseadas em “tradições centenárias”. Para o efeito é indispensável uma acesa discussão.
A violência domestica, a violência contra as crianças e a violência contra os velhos têm sido objecto de medidas e de debate entre nós, a diferentes níveis. Não descurando estes problemas, urge que se tomem medidas contra as manifestações do género verificado no Paquistão. Para o efeito, os políticos, e os responsáveis de diferentes áreas e actividades, deveriam exprimir não só o seu repúdio mas pressionar as autoridades desses países assim como denunciar a atitude vergonhosa dos que praticam e defendem práticas bárbaras e, até, utilizar medidas de pressão.
Agora que vai iniciar-se mais uma sessão legislativa seria interessante que os senhores deputados da Assembleia da República tomassem uma posição pública sobre esta matéria, dando não só visibilidade a este crime, mas, também, denunciando a barbárie que continua a imperar por aí.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O valor económico dos assaltos!...

Senti, ontem um certo encantamento ao embarcar para Lisboa no avião das 21 horas e 45 minutos, em Frankfurt. Depois dos cinco voos do dia, a afectação ao voo da noite de um enorme avião Airbus demonstra importância que para a Lufthansa tem o nosso país, em matéria de geração de tráfego aéreo. Eram 350 lugares, praticamente todos ocupados. Muitos executivos, o traje não enganava, de regresso de viagens de negócios ou à procura de negócios em Portugal. Muitos turistas portugueses e estrangeiros, também a avaliar pela vestimenta. Era o sexto voo do dia da Lufthansa para Lisboa. Pela mesma hora, saía o terceiro voo do dia para o Porto.
Depois do sono da noite, quebrou-se o encanto com as notícias da manhã.
A casa do Procurador- Geral tinha sido assaltada e um juiz libertou um sujeito preso em flagrante, por ter dado uns tiros num cidadão na esquadra da polícia, perante as barbas dos agentes. Acho que o juiz foi prudente e sábio. Quando for possível, a exemplo de médico, ter juiz de família, clientela não lhe faltará.
Como convém ter o pessoal calmo, agora que as férias acabaram, o Europeu já se foi e os Jogos Olímpicos já começam a esquecer-se, alguém apareceu a desdramatizar os factos. Aliás, está a assistir-se ao aparecimento de uma nova categoria de comentadores: os comentadores desdramatizadores.
Foi assim que, de diária em diária desdramatização, reencontrei o país em perfeita normalidade.
Por mim, também vou nesse caminho. Aliás, em matéria de justiça, cheguei erroneamente a pensar que uma boa justiça era essencial à economia. Puro engano!...
Pensando bem, nesta época de depressão, os assaltos constituem um dos mais poderosos incentivos à economia, ao promoverem o consumo ou o investimento para substituição dos bens surripiados. E começo mesmo a achar que os assaltantes deviam era ser condecorados por tão inestimável papel no desenvolvimento económico. Mais ainda, penso que a prisão dos ladrões é um acto de perfeita sabotagem da economia!...
Assim sendo, também sou pela desdramatização!...