Prometi, no post divulgado em 1 do corrente, comentários adicionais sobre o tema nele tratado - que alias suscitou vivo debate, facto que registo com muito interesse.
Esses comentários vêm a propósito do que me parece ser uma estratégia equívoca do frenético marketing oficial que pretende, a todo o custo, convencer o País de que a economia está melhor, de que temos razões para estar optimistas, tudo vai correr bem, não falta quem queira investir em Portugal, as finanças públicas estão sob controlo, o desemprego está a baixar, as reformas estruturais estão em marcha, a Europa e o Mundo olham-nos com admiração, estamos no rumo certo, espera-nos um futuro risonho.
Acrescente-se a isto o estilo “ralhão” do PM, copiado por alguns Ministros, acusando de mau serviço ao País aqueles que, com objectividade e frontalidade chamam a atenção para a gravidade da nossa situação e apontam “remédios”.
Quem promove este tipo de marketing político não entenderá que isto é muito semelhante a dizer aos cidadãos que não se preocupem, que relaxem, que há dificuldades mas nós estamos a resolvê-las, amanhã acordarão com um País muito melhor?
É claro que depois vêm as análises independentes, as estatísticas sem títulos encomendados ou ajeitados, provenientes de organismos internacionais e é um balde de água fria que nos cai sobre a cabeça. Nesses momentos lá vem o marketing oficial carregar sobre os “media”, tentando convencer-nos de que essas análises estão desfocadas, desactualizadas, que não têm em conta a evolução mais recente, etc.
Chega-se ao ponto de um Ministro, já aqui citado, ter tido o arrojo de dizer que houve uma viragem tão subtil na economia portuguesa – para melhor, claro está – que nem a OCDE foi capaz de se aperceber de tal ocorrência! E essa declaração passou, na comunicação social, quase sem comentários…
Parece-me que esta estratégia vai dar mau resultado.
A procissão dos nossos problemas ainda vai no adro, faltam os capítulos mais importantes.
Porquê este afã mediático para que as pessoas não se preocupem muito e sejam optimistas que o futuro próximo vai ser melhor?
Isto faz algum sentido na complexíssima situação em que nos encontramos?
Há poucos dias, o Ministro da Saúde, a quem não se pode negar coragem para assumir medidas ou posições impopulares, confessava, publicamente, que o défice de 2005 ainda pode subir para 6,2% do PIB, se não correrem bem as experiências empresariais dos Hospitais de S. João e Sta. Maria, que receberam dotações de 290 milhões euros de capital social em 2005.
E teve a coragem de acrescentar que, a acontecer, isso seria trágico para o País.
Quer isto dizer, em termos simples, que esses 290 milhões euros não foram contabilizados na despesa de 2005 – o que seria uma “manigância”, no tempo da Drª Manuela F. Leite, agora ninguém repara – e que essa contabilização terá sido condicionalmente aceite pelo Eurostat, mas pode ainda vir a ser revista.
Se essa verba vier a ser adicionada à despesa de 2005, por entendimento do Eurostat, fará saltar o défice para os tais 6,2% depois de nos ter sido solenemente garantido que o défice é de 6% e que daqui não sai.
Mas o facto é que a declaração do Ministro passou despercebida. Os “media” deixaram-na cair quase como se de um lapso se tivesse tratado.
A pressão do frenético marketing oficial e dos “media” têm vindo a imprimir uma dose muito elevada de irrealismo ao nosso quotidiano.
A continuarmos assim, nunca mais estaremos preparados para enfrentar, com indispensável consciência colectiva, a resolução estrutural dos problemas que nos afligem e vão gradualmente empobrecendo o País.