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sábado, 19 de agosto de 2006

"Os cérebros dos políticos"...

As descobertas científicas têm invariavelmente consequências a diferentes níveis. Mesmo as mais controversas, que inicialmente são objecto de preocupação, acabam, mais tarde ou mais cedo, por serem integradas na rotina ou serem alvo de atenção especial com fins não previstos.
Saber como funciona o cérebro é uma das áreas mais deliciosas, que digam os neurocientistas na sua procura incessante em esclarecer os mistérios do órgão pensante.
Hoje, com as novas tecnologias, caso da ressonância magnética funcional, é possível ver onde se processam certos pensamentos e emoções com uma precisão que até assusta.
Já foram efectuadas várias experiências para localizar e conhecer a dinâmica do pensamento em inúmeras situações, desde o cálculo mental à excitação sexual, passando pela identificação de zonas de tristeza, entre outras, mas tentar aplicá-las a cérebros de políticos é que novidade. E que novidade! Parece que as predilecções dos cérebros dos ditos são frutos de vieses inconscientes!
Vejamos como tudo se processa. Certas zonas do cérebro foram identificadas com o raciocínio, com as emoções, com a resolução dos conflitos, com os juízos morais e com a satisfação emocional, entre muitas outras, localizadas, na sua grande maioria, no córtex pré frontal e frontal.
Colocar republicanos e democratas convictos face às contradições de Bush e de Kerry permitiu aos investigadores, através das leituras das imagens dos seus cérebros, concluir que ambos os grupos criticavam a conduta dos seus líderes. Mas, curiosamente, quando se passou para a análise das políticas de cada um deles, apenas uma zona se manteve “fria”, a zona do raciocínio! As outras foram activadas terminando na estimulação de uma zona que está relacionada com a recompensa e prazer. A partir daqui, ou seja, desde que a zona de satisfação emocional é activada, as outras zonas responsáveis pela resolução de conflitos, juízos morais e emoções eram estimuladas de forma a reforçar a zona de recompensa e prazer. Entretanto, a zona do raciocínio não sofria qualquer “ignição”. Desta forma o “verdadeiro” adepto político pensa de uma forma enviesada. O estímulo do centro de prazer é uma recompensa que lhe permite accionar determinados circuitos que poderíamos catalogar como “políticos” e dos quais está excluído a zona do raciocínio.
Aqui está uma boa maneira de seleccionar candidatos políticos, verdadeiramente fiéis. “Bastaria” fazer-lhes uma ressonância magnética funcional aos cérebros enquanto aplicassem certas perguntas. Um bom discurso e boas respostas acompanhadas de emoções, da estimulação da zona de conflitos e da zona de recompensas desde que mantenha “fria” a zona do raciocínio é mais do que uma garantia de um leal subordinado. Quantos ao que dispararem o centro do raciocínio, nada feito! São perigosos e imprevisíveis….

Demita-os, Sr. Dr.Correia de Campos, demita-os!...

Ouvi hoje na Antena 1 que o Sr. Ministro da Saúde fez um pitoresco despacho proibindo os Administradores dos Hospitais de fazerem gastos desnecessários!...
Admirável mundo este o dos Administradores competentes que o próprio Ministro, com toda a boa fé, nomeou ou que, sem qualquer fé, teve que nomear!...
"...E os nossos, Senhor Ministro, e os nossos!...foi das expressões que mais se ouviram nos corredores do Ministério, aquando das nomeações que não agradavam à clientela partidária!...
E lá iam muitos dos nossos!...
Mas o Ministro, que muito prezo, para além da sua boa fé, evidencia uma ainda melhor ingenuidade.
Então há lá administrador competente que prescinda de exibir o seu carro novo, se a principal razão, para além do ordenado, por que pressionou ser nomeado foi precisamente exibi-lo aos parentes e amigos?
Então há lá administrador competente que prescinda de um gabinete renovado e redecorado e de aí exibir o seu poder perante os fornecedores que lhe mendigam o que há muito lhes é devido?
Administrador que faz gastos desnecessário é uma contradição no conceito e nos termos.
Contradição que não se corrige, elimina-se!...
Demita-os, senhor Ministro, demita-os, mesmo que depois eles forcem V. Excia à demissão!...
Mas ficará o testemunho!...

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

OTA: debate urgente

Tive há poucos dias a oportunidade de conhecer, em ambiente informal, a opinião de um perito europeu acerca do polémico projecto da OTA.
Este perito é responsável pela gestão de vários aeroportos europeus de grande tráfego, conhecendo como poucos a problemática da gestão aeroportuária face às tendências de evolução do tráfego aéreo.
Na opinião dessa pessoa, que conhece o caso português, o projecto OTA não faz qualquer sentido. Vários argumentos concorrem para justificar esta posição.
Em primeiro lugar, as tendências do tráfego aéreo.
Parece que todo o aumento que se tem verificado nos últimos anos se deve ao chamado “low-fare”, os voos de tarifa reduzida praticados cada vez mais por companhias que se especializaram nessa modalidade.
Também parece que os passageiros do “low-fare” têm hábitos bastante diferentes dos que frequentam os voos normais, por exemplo gastando muito pouco nas lojas “duty-free” e noutros espaços comerciais.
O problema do “low-fare” resolver-se-ia, segundo este especialista, com um pequeno investimento no Montijo, para onde passariam a ser canalizados estes voos (uma parte, pelo menos).
O importante seria assegurar boas ligações – autocarro sobretudo – entre Montijo e Lisboa, para o rápido escoamento aos passageiros desembarcados ou para embarcar.
Para além deste apontamento, existe outro muito relevante, que tem a ver com a situação actual das condições de exploração da ANA (Aeroportos e Navegação Aérea)
Concretamente, a ANA tem uma operação rentável no aeroporto de Lisboa, tem uma exploração equilibrada em Faro e perde bastante dinheiro no aeroporto do Porto que, em termos económicos, constitui o que se chama um “elefante branco” (excesso de investimento).
Com a OTA, a situação passará a ser, segundo esse perito, de elevados prejuízos no Porto e na OTA, continuando Faro mais ou menos em equilíbrio.
Desaparecerá a única fonte de “cash-flow”, o aeroporto de Lisboa.
Existe ainda um terceiro argumento, que de certo modo reforça os primeiros.
Trata-se da mais que provável derrapagem nos custos de construção da OTA, actualmente estimados (por alto) em qualquer coisa como 2 mil milhões de Euros, mas que facilmente poderão duplicar ou triplicar.
A experiência diz-nos que essa derrapagem é quase certa, agravando assim o cenário de prejuízo da OTA.
Eu, que pouco mais conheço do tema para além do que a comunicação social tem vindo a referir, confesso que fiquei “disgusted” ao conhecer esta opinião.
Que não posso deixar de considerar muito respeitável e cheia de bom senso.
Em primeiro lugar, a pessoa em causa não tem qualquer interesse no assunto, emitindo uma opinião totalmente independente e desinteressada.
Em segundo lugar não deve ser fácil encontrar alguém que conheça melhor esta problemática.
Concluo, logicamente, que este assunto precisa de ser debatido com muito maior profundidade entre nós – e com urgência. Se assim não for, corremos o risco de coleccionar mais um “elefante branco”.
E, com todos estes “elefantes brancos” entretidos a consumir os nossos cada vez mais escassos recursos, o futuro terá por certo uma cor bem diferente: será cada vez mais negro.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Redescobrir a Índia!...

A Fitch, uma das três mais importantes agências de rating, acaba de fazer um up grading do risco soberano externo e interno da Índia, face ao progresso no processo de consolidação fiscal e ao forte crescimento do produto interno e da balança comercial.
As finanças públicas estão controladas: o rácio da dívida pública é de 80% do PIB, menor que o nosso, e o deficit desceu, nos últimos 5 anos, de 10,1% para 7,5% do PIB, esperando-se que baixe para 3,8% no próximo ano.
São números notáveis para um país imenso, com mais de mil milhões de habitantes e em que só três cidades, Bombaim, Dehli e Calcutá têm 40 milhões de habitantes, equivalente à população de Espanha, debatendo-se com problemas difíceis nas políticas externa e interna.
Com finanças públicas saudáveis, que não constituem entrave ao desenvolvimento, a economia vem crescendo de forma notável. A Índia é já a 12ª economia mundial, embora o seu PIB ainda seja apenas 5 vezes superior ao português( 36ª economia).
De uma visita à de 15 dias à Índia que fiz em Julho do ano passado e da qual registei algumas impressões neste blog, não esclareci para mim o mistério de aquele país, com as suas enormes contradições e problemas, desigualdade imensa e aparente desorganização, conseguir disciplina orçamental e fiscal, controle da inflação, crescimento económico, desenvolvimento científico e crescimento económico.
Portugal, que cabia todo inteiro em Dehli, apresenta piores indicadores de finanças públicas do que a Índia.
A explicação estará na competência de uma classe política e na profunda incompetência de outra.
A da Índia, pelos resultados conseguidos, mostra saber ocupar-se com o essencial; a nossa entretém-se a gerir a imagem e a aparecer na televisão, com gravata ou sem gravata, a correr ou compostamente sentada.
Diz-se, para desculpar, que as nossas elites, nomeadamente a política, são o reflexo da sociedade. É uma contradição nos termos, pois ou é elite ou é reprodução da média e se não é elite devia abdicar de o querer parecer.
A Índia mostra a verdadeira influência de elites bem preparadas e por isso progride.
Temos mesmo que redescobrir a Índia!...

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

"Não há ausentes sem culpas, nem presentes sem desculpas"...

...diz o Povo.
Divertida vai a preparação da festa algarvia do PSD que no tempo em que os incêndios eram incêndios e não ignições (como diria o nosso Pinho Cardão), se designava "rentrée política dos social-democratas".
Os tempos mudam. E com eles a relevância dos factos. O facto político da temporada para a oposição não é nenhuma das acções ou omissões do governo. É a festa do PSD, quem a ela falta e quem a ela vai. Ameaça mesmo bater aos pontos o interesse sempre gerado pela célebre e relevantíssima romaria de Chão de Lagoa!
Alguns dos media têm feito eco e elevado as expectativas sobre o não menos alto significado político das ausências. Do mesmo modo que ressaltam e apregoam as comparências. No melhor estilo da publicidade dada às estrelas pimba de uma qualquer festa de aldeia.
Anote-se esta pérola do Correio da Manhã
"A tradicional festa conta já com as presenças de Morais Sarmento, João de Deus Pinheiro, Arlindo de Carvalho, Helena Lopes da Costa, entre outros. Fernando Negrão tentará chegar a tempo da festa, mas Miguel Frasquilho e Mira Amaral já informaram que não podem estar presentes por se deslocarem para o estrangeiro. Eurico de Melo, um histórico do partido, informou Mendes Bota que, por “motivos de saúde” não pode estar presente".
Informa ainda aquele diário que António Borges não sabe se vai. Mas foi convidado por Bota que acha que lhe fazia bem ir.
Oh, como seria diferente a festa com Borges!
Apesar das ausências, ou se calhar por causa delas, é garantido que teremos festa.
Exultemos também!

"Caramelos de Elvas"...

A Ana teve o seu filho em Badajoz. Sabem o que ela disse? Que o seu filho vai ter dupla nacionalidade. Deste modo, o miúdo, mais tarde, poderá ter mais oportunidades sendo espanhol!
Já nasceram 50 crianças em Badajoz com provável “tendência” para se fixarem no lado de lá!
Chama-se a isto oferecer a Espanha “Caramelos de Elvas”…

Variações Climáticas: como interpretar?

Segundo hoje revela o Instituto de Análise Económica IFO (Alemanha), o clima empresarial, depois de ter alcançado no 2º trimestre deste ano os valores mais altos dos últimos 5 anos (103,4 pontos), terá piorado na zona Euro no trimestre em curso (101,7 pontos).
Essa evolução ter-se-á dado na generalidade dos países da zona, com excepção da Itália e de Portugal, em que a confiança empresarial terá subido.
Numa outra perspectiva, todos os países se mostram mais satisfeitos com a situação económica actual do que em inquérito anterior, com a excepção da Espanha (!).
São curiosas – no mínimo – estas variações climáticas.
Itália e Portugal são as duas economias da zona Euro com pior desempenho, ao longo dos últimos anos.
São também aquelas que enfrentam problemas estruturais mais sérios, devido às acentuadas perdas de quota de mercado das suas exportações e ao estado muito débil das respectivas finanças públicas.
O relatório Bruegel, aqui apresentado e debatido há poucos meses, com grande participação dos Comentadores, ofereceu uma perspectiva clara dos sérios problemas que os dois países enfrentam para suplantar as suas fragilidades económicas.
De repente, contrariando a tendência dos demais, parecem exibir um optimismo de excepção.
Como interpretar este fenómeno? Várias hipóteses/reacções se podem considerar.
A 1ª, de senso comum, consiste em dizer que já batemos tão fundo que não é possível que as expectativas continuem a baixar. Qualquer variação, só pode ser de sentido positivo.
A 2ª, que no caso da Itália até tem melhor cabimento – foi campeã do Mundo de futebol – tem uma raiz desportiva e de contágio ao clima de negócios. Isto é, os sucessos desportivos animaram os homens de negócios.
A 3ª, para os mais pessimistas, de que estamos sempre do lado errado. Neste caso, se o clima de negócios melhora, seria preferível que não melhorasse, seguindo o exemplo dos países que estão em melhor posição.
Pois não é verdade que o claro afrouxamento da economia americana, no 2ºtrimestre, foi recebido pelos mercados de capitais como “muito boas notícias” tendo contribuído para um comportamento positivo nas bolsas de valores?
Pela minha parte prefiro uma 4ª reacção, mais ao jeito de La Palisse: vamos ver no que este optimismo vai dar, quando forem divulgados os dados do 3º trimestre. Lá para o início de Dezembro, apenas.
Mas acredito que os senhores Comentadores terão interpretações bem mais engenhosas do que estas. Por exemplo, o talento neo-realista de Pinho Cardão é sempre susceptível de nos oferecer uma surpresa.

A diferença existe!...

Por alturas dos Verões de 2002 e 2003, quando os incêndios ainda não se chamavam ignições, mas eram muitos e intensos, o Partido Socialista montou a mais descabelada e demagógica campanha contra o Governo que me foi dado ver, exploração indigna dos sentimentos das pessoas, numa luta política de mero carácter partidário.
Muitos dos actuais responsáveis do Ministério da Administração Interna, o deputado José Sócrates e muitos outros deputados das zonas ardidas competiam entre si para atribuir todas as responsabilidades ao Dr. Figueiredo Lopes, ou acusá-lo de incompetência, para exigir diariamente a sua presença no Parlamento ou pedir a sua imediata demissão, para pedir a demissão do 1º Ministro ou do Governo. As acusações estendiam-se aos Governadores Civis e a todos os responsáveis que estivessem mais à mão.
Estes defendiam-se e tínhamos então Protecção Civil, Serviço Nacional de Bombeiros e demais Autoridades de coordenação uns contra os outros e todos contra o Governo, gastando energias num espectáculo deplorável, enquanto os fogos continuavam a sua marcha implacável.
As extremas condições climáticas verificadas não valiam, a falta de limpeza era culpa do Governo, as chefias eram mal escolhidas, as reestruturações um falhanço absoluto...
Como mais uma acha para a fogueira, foi criada uma Comissão Parlamentar, onde os deputados “regionais”, hoje nos Governos Civis ou nas Câmaras, tinham como único objectivo gritar mais alto, procurando seu momento de glória!...
Era, na altura, deputado independente pelo PSD e fui um observador atento dessa realidade.
Como talvez nunca, pensei aí que a política não era a “nobre arte” ao serviço das populações, mas uma forma abandalhada de conseguir meros objectivos pessoais, explorando a angústia alheia.
Este ano, os incêndios também vogam ao sabor da natureza, devastando parques nacionais e matas particulares, fazendo vítimas, algumas mortais.
O PSD não teve uma atitude “revanchista”, mantendo-se geralmente calado, não alimentando a combustão.
Foi responsável, fez bem e com isso mostrou que os Partidos nem sempre são iguais.
E as populações sabem reconhecê-lo, muitas vezes mais cedo do que se espera!...

Ciclismo, doping e viagra

Os últimos acontecimentos no ciclismo vieram provar que a fraude desportiva é um facto, e uma constante, que dificilmente se consegue evitar ou extinguir. “Os ladrões andam sempre à frente da polícia”. No caso do doping são inúmeras as substâncias sintetizadas e manipuladas de forma a não serem detectadas. Com o tempo são descobertas e indexadas à lista de proibições.
Uma breve análise permite-nos verificar que foram usadas em todos os tempos e condições. Quem não se lembra das “nadadoras masculinas” da antiga RDA? Ganhavam tudo e mais qualquer coisas! Uma forma de demonstrar que “somos os maiores”! Uma tragédia. Que digam as centenas ou milhares de vítimas de morte prematura, tumores e infertilidade e até de suicídios. Alguns foram a tribunal, mas muito poucos. Não os atletas, mas os responsáveis que os obrigavam a tomar as substâncias perigosas.
Todos querem ser os “melhores”. Para o efeito, muitos, não se importam de dar cabo da saúde, além de revelar uma faceta fraudulenta, pondo em causa a verdade dos factos. O que interessa isso? Desde que consigam ser famosos e ganhar umas boas massas…
Floyd Landis parece que produz testosterona a mais! Coitado, o que é que lhe tinha de acontecer, logo a testosterona que tem um importante efeito anabolizante. Afinal, o efeito foi da testosterona sintética e não da produzida pelos seus testículos.
Parece que a situação da dopagem é tão comum nos ciclistas que leva a tomadas de posição curiosas como a do adepto deste desporto, o ex-ministro da educação Marçal Grilo que, de acordo com duas citações transcritas ontem, no Jornal Público, parece aceitar esta prática: “Temos que ser realistas e, como um ex-ciclista me disse um dia, perceber que ninguém sob a Serra da Estrela, o Tormalet ou o Galibier a comer bifes com batatas fritas”. Nada mau para um ex-ministro da educação. Já agora gostava de lhe perguntar: - O senhor doutor também já usou algum dopingzito? Às tantas! Quem sabe se durante a experiência governativa…
O melhor é avisar o Floyd Landis que, não produzindo tanta testosterona endógena como queria que acreditássemos, passe a utilizar o Viagra. É verdade! Além do seu papel na disfunção sexual e na hipertensão pulmonar, descobriu-se ser uma excelente droga para aumentar a performance dos ciclistas quando se encontram em condições de hipoxémia. Assim, nas subidas das montanhas é só tomar o comprimido azul e mais ninguém o apanha. Claro que podem ocorrer algumas complicações dignas de Priapo, o que não é nada aconselhável com aquele equipamento…
Palpita-me que os inibidores da 5-fosfodiesterase ainda acabam por parar à lista de substâncias dopantes.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Que raio de oposição!

A denúncia efectuada pela Associação das Empresas de Dispositivos Médicos (Apormed), a propósito da reutilização indevida de materiais (após esterilização) mas que só podem ser utilizados uma única vez, é muito grave.
É fácil de compreender que as infecções hospitalares são uma das principais fontes de dores de cabeça dos que trabalham nos meios da saúde. São frequentes, temíveis, podendo provocar mesmo a morte. O ambiente hospitalar é propício a esta complicação, agravada pelo facto de as bactérias hospitalares não serem nada meigas, serem mais resistentes aos antibióticos e terem como fonte de alimentação os organismos debilitados dos doentes. Volta e não volta surgem notícias de casos e vítimas de infecções hospitalares. Os responsáveis têm de tomar, e penso que tomam, as medidas adequadas. Dentro das diferentes medidas os cuidados na utilização do material é indispensável para o controlo da infecção hospitalar.
A par da Apormed também os membros de Associação de Enfermeiros de Salas de Operações Portuguesas denunciam estas práticas. Vários responsáveis contactados negam ou desconhecem esta prática nas suas unidades e departamentos. Quanto às autoridades que superintendem nestas esferas revelam alguma discordância quanto às suas responsabilidades. O Infarmed diz que não é da sua competência e a Direcção-Geral de Saúde remete para a primeira o problema.
A situação descrita, a ser verdade, é muito grave e põe em causa muitos princípios, não esquecendo que somos todos potenciais vítimas.
Subentende-se da denúncia que as razões têm a ver com factores económicos: reutilização igual a poupança. Como o ministério da saúde tem tido uma política de cortes, a fim de assegurar o funcionamento do SNS, até que ponto não são um "convite" à má prática? Como é possível que duas instituições, Infarmed e Direcção-Geral de Saúde não se entendem quanto à responsabilidade da situação? Como é possível a oposição não chamar a si a condução deste processo, inquirindo da veracidade dos factos e da responsabilidade dos titulares, nomeadamente do ministro? O problema em questão não é só técnico, é fundamentalmente político. Mas parece que é mais importante saber se um avião israelita fez escala nos Açores transportando lagartas para tanques ou "pastilhas elásticas" do que defender a saúde dos portugueses.
No Parlamento, por muito menos, vi as comissões parlamentares, através dos requerimentos da oposição, exigir explicações aos responsáveis. E agora, não dizem nada? Que raio de oposição é esta!

Quem nos acode?

A gestão do Serviço Nacional de Saúde apresenta verdadeiros study cases, bem dignos de aturada análise nas cadeiras e cursos de pós graduação de psiquiatria. Aliás, a mente dos seus mentores também deveria constituir um alvo preferencial da investigação médica.
Quando os hospitais foram empresarializados, houve gestores hospitalares que, passado um ano, ainda não tinham tocado nas dotações de capital entregues, em dinheiro fresco, para constituir o capital social das novas empresas, apesar de aumentarem os atrasos de pagamentos a fornecedores e aos bancos. Aventavam como razão o facto de não quererem ser acusados de delapidar o capital recebido!...
Agora, o Jornal do Nordeste, citado na última edição do Expresso, revela o caso espantoso que se descreve a seguir.
Em meados de Abril, o Centro Hospitalar do Nordeste, em Bragança, abriu um concurso público para convencionar o serviço de ressonâncias magnéticas necessárias aos diagnósticos dos seus doentes, que vinham sendo feitas numa clínica de Bragança.
Feito o concurso, ele foi ganho por uma clínica do Porto!...
Muito bem...mas agora os doentes terão que se deslocar a essa cidade, a duzentos quilómetros de distância!...
Os autores da medida devem estar satisfeitíssimo com a performance, quer pelo que poupam, quer pelo menor trabalho dado ao hospital, que tem muito mais que fazer do que ver doentes, para mais necessitados de ressonâncias magnéticas!...
Merecem sem dúvida o Prémio Nobel da Medicina Psiquiátrica, devendo também ser já laureados com a Grande Ordem Tecnocrata e o Grande Colar do Burocrata!...
E o Ministério da Saúde que faz?

A sleepy season da oposição

Acontecem coisas relevantes na economia europeia e fazem-se sentir alguns sinais de reacção da economia doméstica.
Contra as melhores expectativas do governo, afinal as medidas preventivas e os dispositivos de combate aos fogos florestais não lograram obter melhores resultados do que em anos anteriores.
Arde uma parte importante do único parque nacional que o País possui e descobre-se, entre acusações abertas e outras moderadas pelo discurso político mais hábil do senhor Ministro da Administração Interna, que nem tudo vai bem nas relações entre este ministério e os ministérios da agricultura e do ambiente (com especial destaque para o papel omissivo deste último que ainda tentou fazer do secretário de Estado do Ambiente o bombeiro capaz de apagar o fogo nascente nas relações governamentais na sequência do incêndio do Gerês).
É hoje anunciado que o senhor ministro do Ambiente autoriza a co-inceneração de resíduos industriais perigosos desta vez em Souselas, de novo (como no Outão) sem avaliação de impactos ambientais.

Enquanto isto, a oposição, porventura cansada de tanto mal-dizer, de tanta trica interna, descansa.

Não sei se o governo não agradecerá o repouso da oposição porque descansa em dobro.
O que sinto é que uma oposição que vai a banhos e se despreocupa, não reflete e não faz saber o que pensa sobre o que de bem e de mal se passa no País, não ganha credibilidade como alternativa.
E as alternativas, e os seus protagonistas, não se constroem e não se impõem nas campanhas eleitorais.
Essa é a ingénua ilusão de alguns...

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Zona Euro: boas notícias

Foram hoje divulgados pelo Eurostat dados relativos ao desempenho (performance, na linguagem agora mais em uso) das economias da zona Euro e da União Europeia (EU) para o 2º trimestre deste ano, francamente positivos.
Assim, em relação ao 1ºtrimestre (crescimento em cadeia), a variação foi de 0,9% em ambos os casos.
Em termos de variação anual – 2ºtrim.2006/2ºtrim.2005 – a variação foi de 2,4% na zona euro e de 2,6% na EU.
No caso da Alemanha, também com variação de 0,9% em cadeia, este foi o ritmo mais elevado dos últimos 5 anos, levando a admitir que a economia possa crescer 2% este ano.
Em Espanha o crescimento continua mais elevado, com 0,9% em cadeia e 3,6% em termos anuais.
Na última 6ª Feira tinha sido antecipada informação sobre o forte desempenho da economia francesa no mesmo período, cerca de 1,1 a 1,2% em cadeia e 3% em termos anuais. O melhor resultado nos últimos 6 anos (Boost for France as growth hits 6-year high, era o título do F.Times do fim de semana).
Já no seu boletim de Junho, o Banco Central Europeu tinha antecipado este bom desempenho das economias do euro no 2ºtrimestre.
Esta evolução deve-se ao crescimento robusto das economias dos principais parceiros comerciais da zona euro, bem como à gradual recuperação do consumo privado.
Curioso notar que o consumo privado, especialmente em Junho, beneficiou bastante do clima gerado pelo Mundial de futebol na Alemanha.
E também é interessante observar que este desempenho se dá à revelia do forte agravamento dos preços do petróleo que, como se sabe, se encontram a níveis historicamente altos.
Algumas questões se podem colocar nesta altura.
A primeira é a de saber se os países do euro com dificuldades orçamentais – França e Alemanha, em especial - vão aproveitar esta fase mais favorável do ciclo para colocarem as suas finanças públicas em ordem.
Têm uma boa oportunidade, se souberem tirar partido do crescimento das receitas fiscais e controlarem o aumento da despesa, adoptando uma política orçamental anti-cíclica ou neutra.
A segunda, qual será o efeito destas notícias nas decisões do BCE. Irá este continuar a subir a sua taxa principal, pelo menos até aos 3,5% como antecipam muitos analistas?
À primeira vista dir-se-á que sim, pois a partir do momento em que a economia ganha maior ritmo de crescimento o BCE não terá necessidade de manter um estímulo monetário.
Mas esse não será o único factor a considerar. Muito importante também será a evolução do câmbio Euro/USD. Se por exemplo o Euro vier a valorizar bastante em relação ao USD, o BCE poderá sentir-se menos inclinado a subir as taxas de juro.
Quanto a Portugal, só lá para o início de Setembro deverá ser divulgada a variação do PIB no 2ºtrimestre. Mas tudo indica que a EU/zona euro nos vai dar uma pequena ajuda, apesar da fraqueza evidente da procura interna.

Ministeriais "ignições"!...

As ignições, para usar a picaresca terminologia de António Costa, depois de alastrarem pelas matas, começam a devorar os membros do Governo, segundo bem entendi da edição de hoje do Diário de Notícias!…
Como é sabido, tem lavrado forte ignição no Parque-Nacional da Peneda-Gerês, ao ponto de ontem o Secretário de Estado do Ambiente, de seu nome Humberto Rosa, ter que fugir de uma conferência de imprensa que improvisara no local, com medo que a ignição lhe chamuscasse o seu ecológico traseiro.
Na véspera, o Secretário de Estado da Administração Interna tinha acusado o Ministério do Ambiente de responsabilidades na dita ignição, pelo facto de impedir a abertura de aceiros no Parque.
Humberto Rosa ainda antes da fuga, respondeu ao seu colega do Governo, dizendo que nem pensar nisso, já que a ignição se desenvolvera devido ao facto de “faltarem pontos de água”; quanto aos aceiros ou corta-fogos, garantiu mesmo, a confirmar a ideia, que “…isso não será permitido”.
Ascenso Simões , no Diário de Notícias, não perdeu tempo a responder, dizendo que “é necessário acabar com teorias fundamentalistas para as áreas de alto valor ecológico" , afirmando ainda que “…havia alguma dificuldade de diálogo com o Instituto de Conservação da Natureza…”.
Entretanto, algumas matas do Parque, como a do Ramiscal, uma das áreas mais sensíveis em termos de biodiversidade e onde pelos vistos não podem ser feitos aceiros, ficaram irremediavelmente perdidas.
Isto é, não se pode fazer um aceiro, porque estraga, mas depois vem a ignição e tudo leva!…Pelos vistos, é preferível…pois é a natureza a trabalhar!...
Bons patuscos, estes ecologistas e governantes fundamentalistas!... Reparem que a qualificação é de um membro do Governo, não minha!...

Ide a Lamas de Mouro, correi!...

A não perder o texto de Helena Matos no Blasfémias sobre o Acampamento de Jovens do Bloco de Esquerda, intitulado "Ide a Lamas de Mouro, correi... e depois vereis de que género sois ".

domingo, 13 de agosto de 2006

HIV e penalização dos médicos

Passaram-se 25 anos sobre o início oficial da SIDA. Todas as partes do globo foram atingidas. Neste período de tempo ocorreram 65 milhões de casos dos quais 25 foram mortais.
Na fase inicial, como atingia a comunidade homossexual, chegou a ser considerada como um castigo divino. Rapidamente, através de medidas de prevenção, as vítimas homossexuais começaram a ceder a primazia aos heterossexuais.
As tentativas de encontrar meios para a luta contra este novo flagelo deram lugar não só às medidas de protecção e cuidados comportamentais, mas, sobretudo, ao desenvolvimento de novos fármacos que se têm revelado cada vez mais eficazes a ponto de modificar completamente o percurso e prognóstico. Com o tempo, esta doença diabólica e sinónimo de morte, passou à categoria de doença crónica.
Nos primeiros anos, raro era o dia em que não tinha honras de primeiras páginas, havia debates, as campanhas multiplicavam-se revelando criatividade, além de serem fonte de enriquecimento de muita gente, tudo com o objectivo de evitar a sua disseminação. Qual quê! A situação não melhora, sendo, nalguns países, nomeadamente africanos, asiáticos e da América Latina, particularmente gravosa. Agora, no Ocidente, os grupos etários mais avançados também começam a sofrer deste problema e não é raro ver pessoas com idade mais do que suficiente para ter e dar juízo apresentarem-se como portadoras de HIV!
Em Portugal a situação não é nada brilhante, sendo, inclusive, um dos países mais atingidos na Europa. Desconhecem-se os números reais e as características dos atingidos. Sem o conhecimento factual do fenómeno é difícil definir estratégias de luta e prevenção. O coordenador nacional da Comissão de Luta Contra a Sida sabe bem que é necessário um conhecimento epidemiológico mais aprofundado deste fenómeno. Os médicos são obrigados a notificar a doença e não o fazem. Propõe que sejam punidos em caso de não cumprirem com as suas obrigações. Compreendo-o. Mas que tipo de penalização? Quem é que vai aplicá-la? E as outras situações de obrigatoriedade de notificação que, até hoje, não têm sido respeitadas? É muito complexo e, pessoalmente, não acredito no sucesso. Os médicos têm responsabilidades acrescidas nestas matérias e deveriam ser respeitadores exemplares. Mas uma percentagem significativa não cumpre e nem para lá caminha, tal como grande parte da população que, apesar de ser conhecedora de muitos factos e fenómenos, também se "esquece" de respeitar certas normas e princípios.
Sabem dos perigos do não acatamento do código da estrada? Sabem! Mas continuam a não respeitá-lo. Sabem dos perigos do consumo de substâncias tóxicas? Sabem! Mas não as evitam ou moderam o seu uso. Sabem do perigo que correm nas relações sexuais não protegidas? Sabem! Mas continuam a não precaverem-se. Sabem das consequências sociais e económicas do não cumprimento dos deveres fiscais? Sabem! Mas uma parte significativa borrifa-se. Sabem quais os efeitos do não respeito pelos direitos individuais? Sabem! Mas muitos desprezam-nos.
Os problemas do nosso país só se resolvem através de medidas de fundo, bastante complexas e demoradas, exigindo o aceleramento dos chamados fenómenos de transição sociológica e epidemiológica. Mesmo conhecendo, em Portugal, mais aprofundadamente a realidade do fenómeno HIV/SIDA, tal não significa que iremos observar uma mudança radical nos tempos mais próximos. Era bom, era! Mas é um ponto de partida que se insere numa realidade mais vasta, perspectivando que daqui a muitos anos (mas mesmo muitos) a mentalidade dos nossos concidadãos seja diferente. O mesmo se passa com os responsáveis da saúde que, emergindo da realidade nacional, não conseguem esconder as mesmas virtudes e as mesmas deficiências e insuficiências. É preciso mudar, mas é muito difícil, demorado, frustrante, mesmo, mas não impossível...

Quem sabe...sabe!...

Estamos todos felizes, por já não haver nem fogos nem incêndios!...
Hoje o Ministro António Costa reenunciou mais uma vez as medidas tomadas para combater o elevado número de "ignições"!...
Como estava em cenário de fogo, entendi que se referia aos incêndios.
É isso: terminogia forte deve ser banida e ignição é eufemismo bem mais fresco e tolerável!...
Não sei se as ignições electrónicas também contam e então o êxito de as apagar ainda será maior!...
Mas sei que, passadas poucas horas, lá estava o noticiário de uma estação a enumerar umas tantas ignições e a sua localização, no país e na Galiza!...
Quem sabe...manda!...

sábado, 12 de agosto de 2006

Fogos florestais, o ritual

Quando o número e o impacto dos incêndios demonstram a insensatez dos optimismos exagerados, o insucesso das medidas e a temeridade das promessas de que este ano é que vai ser diferente, é certo e sabido que lá vem um ministro ou um secretário de Estado acusar as populações de negligência na conservação das matas.
É um clássico. Não estranhei por isso ouvi-lo de novo este ano.
Há tempos, aqui no 4R anotaram-se e discutiram-se razões que levam à incapacidade dos proprietários florestais, em especial os pequenos, de proceder a uma exploração que diminua as quantidades de combustível nas matas.
A resolução do problema concerteza que não dispensa quer o esclarecimento, quer a chamada de atenção ou o estímulo a boas práticas de conservação das matas e manchas florestais, não só das privadas mas também das públicas, muitas delas raramente objecto de limpeza.
Mas exigem-se outras medidas, imaginativas e bem mais eficazes no que respeita à prevenção do que o recorrente queixume ministerial.
Porque não canaliza o Governo, por exemplo, apoios para a instalação de unidades de aproveitamento da biomassa que todos os anos alimenta milhares de incêndios, designadamente os que Bruxelas tem disponíveis para o desenvolvimento das energias alternativas?
Para além de se conseguir o indispensável estímulo económico à recolha dos resíduos florestais, o efeito ambiental é significativo. Para além da diminuição do combustível nas matas, o aproveitamento energético de um só metro cúblico de biomassa significa a poupança de 250 litros de petróleo e evita a emissão de 600 kilos de gazes com efeito de estufa.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

"Feiticeiros"

Há alguns anos, numa curta estadia na adorável cidade de Bolonha, ao passear à noite debaixo das convidativas arcadas, chamou-me a atenção alguns indivíduos vestidos de negro, sentados nas soleiras das portas a pegar nas mãos de senhoras e meninas. Pensei: - Que raio de namoro é este! Afastados um do outro, numa cumplicidade esquisita, escondidos e simultaneamente à mostra, espalhavam-se ao longo das arcadas, contribuindo para adensar o ar de mistério típico daquela parte da cidade. A minha perplexidade foi tal que o meu colega, italiano, começou a rir e explicou-me o que se passava: - São consultas de rua dos nossos feiticeiros! - Feiticeiros? Aqui? Em Bolonha, cidade universitária? Tantos? - Ora, ora, o que dirias se fosses a Turim! Turim é a cidade do mundo com a maior densidade de bruxos por metro quadrado.
O fenómeno não é apanágio dos povos menos desenvolvidos. Em Itália o ocultismo é prática corrente. Dizem que há mais de 100.000 feiticeiros em tempo integral, três vezes mais do que sacerdotes católicos.
Para um homem de ciência determinados tipos de comportamento incomodam. Seria de esperar que à medida que os conhecimentos, a cultura e a ciência vão crescendo e se democratizam fossem acompanhados da eliminação ou redução de certas práticas. Mas não. Não acontece nem nunca virá a acontecer.
Se analisarmos as actuais relações entre ciência, religião e espiritualidade da New Age verificamos alguns aspectos curiosos. A ciência separou-se da religião e adquiriu o estatuto que todos reconhecemos. A religião entrou em conflito, gerou reacções negativas que ainda hoje perduram, teve necessidade de criar lóbis contra certas descobertas da ciência que, sendo difíceis de assimilar, abalam certos princípios teológicos, caso da evolução natural e das descobertas na esfera da biologia, factos que irão obrigar a adopção de novas atitudes e favorecer o aparecimento de religiões menos dogmatizadas, logo, não incompatíveis com a ciência. O que é certo é que o número de crentes não tem diminuído, pelo contrário, em muitos países verifica-se um incremento, mas também uma viragem com preocupação muito séria nas áreas sociais e culturais e menos nos problemas teológicos.
No tocante à espiritualidade da New Age, equivalente da função psicológica da religião, mas separada desta, apesar do conflito com a ciência ser menos intensa, não deixa de a considerar, frequentemente, como alienante e potencialmente catastrófica nas suas acções. Claro que os cientistas consideram este tipo de espiritualidade como perigosa. É curioso o facto da New Age usar a "ciência" para adquirir credibilidade, até certo ponto, porque logo a seguir não quer obedecer às regras científicas. Desde a homeopatia ao uso dos cristais, das cores, dos cheiros, passando pelas filosofias mais variadas, todas promotoras de cura, a racionalidade científica é afastada a todo o transe.
O crescente populismo destas práticas é uma realidade. Muitas delas até estão regulamentadas por lei, outras à espera. Sendo assim, porque admirarmos com o facto de, por exemplo, no Zimbabué, a feitiçaria passar a ser permitida por lei (desde que não seja usada para fazer mal a alguém!)? Para o governo se o sobrenatural existe nada melhor do que a legalização de muitas práticas tradicionais.
O irracional é intrinsecamente humano e nunca desaparecerá.
Quanto à feitiçaria nacional, apesar de não estar totalmente legalizada, tem bons cultivadores, desde artistas desempregados a comentadores televisivos, passando por alguns membros do governo e da assembleia da república. Mas precisam de cursos de especialização. Para isso tanto podem ir a Turim como ao Zimbabué... Clientes não faltam, nem nunca faltarão!
Religião, espiritualidade e ciência têm futuro e terão de conviver com mais ou menos conflituosidade, dependendo do grau de tolerância de cada uma.

Ameaça Nuclear

Decorre ainda por esta altura no tribunal de Manheim o julgamento de um homem de negócios, Gottard Lerch, que se encontra em prisão preventiva, acusado pelo Ministério Público alemão de ter colaborado com o famoso cientista nuclear paquistanês Abdul Qadeer Khan na venda ilegal de equipamento nuclear.
O enredo de ligações e de suspeitas que estão por trás deste julgamento oferece uma história fascinante para os apreciadores de filmes ou romances de tipo policial, e vem descrito em detalhe na edição da revista The New Yorker de 7&14 de Agosto.
As centrais nucleares e as bombas nucleares utilizam o urânio ou o plutónio como matéria prima, por serem materiais de fissão: são capazes de provocar uma libertação de energia, em cadeia, chamada fissão nuclear.
Os especialistas preferem habitualmente o urânio, por se poder extrair directamente da natureza e ser de manuseamento mais fácil.
Para produzir energia ou uma explosão nuclear, o urânio precisa de ser enriquecido, quer dizer reforçar a sua característica de fissão, através de um complexo processo de centrifugação.
Para alimentar uma central nuclear é necessário urânio enriquecido a 5% de U-235. Para uma bomba nuclear o grau de enriquecimento é muito superior, 95%.
Em qualquer dos casos, é necessária a instalação de uma bateria com milhares de centrifugadores, ligados em cascata, semelhante a uma instalação para filtragem de água.
A detenção de Lerch teve a ver com a tentativa de fornecimento de equipamento para enriquecimento de urânio à Líbia, abortada em Outubro de 2003, após uma operação de busca num cargueiro alemão (BBC-China) ancorado em Itália, em trânsito para Tripoli.
Na sequência dessa operação, foram detidos cerca de 12 homens de negócios na Europa, Malásia, Dubai e Africa do Sul incluído, todos suspeitos de colaboração com Khan em fornecimentos ilegais à Líbia e a outros países: Índia, Paquistão, Africa do Sul, Coreia do Norte e Irão.
Em qualquer destes casos, tratou-se de projectos nucleares conduzidos à revelia do Tratado para a Não Proliferação de Armas Nucleares.
Desses países, a Índia e o Paquistão são já potências nucleares (anulam-se mutuamente), a Líbia e a Africa do Sul desistiram dos seus projectos, a Coreia do Norte e o Irão representam hoje um quebra-cabeças para a diplomacia ocidental.
Existe a suspeita de que a rede Khan estivesse envolvida no programa nuclear iraniano. Mas não tem sido fácil reunir provas dessa cumplicidade.
Que os iranianos estão a desenvolver um projecto nuclear em grande escala, não há dúvidas, apesar das suas repetidas afirmações de que só prosseguem fins pacíficos.
Esse projecto está localizado junto da cidade montanhosa de Natanz, cerca de 200 milhas a sul de Teerão, num complexo de edifícios em forma de estrela.
Só num desses edifícios os inspectores da I.A.E.A. encontraram, em 2005, seis blocos de cimento cada um deles capaz de albergar uma cascata com 164 centrifugadores.
Muito próximo desse complexo de edifícios existe uma entrada para uma instalação subterrânea, a qual, uma vez concluída, poderá albergar cerca de 50 mil centrifugadores.
Acontece que os inspectores da IAEA não são autorizados a entrar no Irão desde o final de 2005.
De acordo com alguns peritos, citados neste artigo, o Irão será capaz de ter uma arma nuclear dentro de 2/3 anos.
Ou me engano muito ou vamos ter aqui um sério problema.