quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Redescobrir a Índia!...

A Fitch, uma das três mais importantes agências de rating, acaba de fazer um up grading do risco soberano externo e interno da Índia, face ao progresso no processo de consolidação fiscal e ao forte crescimento do produto interno e da balança comercial.
As finanças públicas estão controladas: o rácio da dívida pública é de 80% do PIB, menor que o nosso, e o deficit desceu, nos últimos 5 anos, de 10,1% para 7,5% do PIB, esperando-se que baixe para 3,8% no próximo ano.
São números notáveis para um país imenso, com mais de mil milhões de habitantes e em que só três cidades, Bombaim, Dehli e Calcutá têm 40 milhões de habitantes, equivalente à população de Espanha, debatendo-se com problemas difíceis nas políticas externa e interna.
Com finanças públicas saudáveis, que não constituem entrave ao desenvolvimento, a economia vem crescendo de forma notável. A Índia é já a 12ª economia mundial, embora o seu PIB ainda seja apenas 5 vezes superior ao português( 36ª economia).
De uma visita à de 15 dias à Índia que fiz em Julho do ano passado e da qual registei algumas impressões neste blog, não esclareci para mim o mistério de aquele país, com as suas enormes contradições e problemas, desigualdade imensa e aparente desorganização, conseguir disciplina orçamental e fiscal, controle da inflação, crescimento económico, desenvolvimento científico e crescimento económico.
Portugal, que cabia todo inteiro em Dehli, apresenta piores indicadores de finanças públicas do que a Índia.
A explicação estará na competência de uma classe política e na profunda incompetência de outra.
A da Índia, pelos resultados conseguidos, mostra saber ocupar-se com o essencial; a nossa entretém-se a gerir a imagem e a aparecer na televisão, com gravata ou sem gravata, a correr ou compostamente sentada.
Diz-se, para desculpar, que as nossas elites, nomeadamente a política, são o reflexo da sociedade. É uma contradição nos termos, pois ou é elite ou é reprodução da média e se não é elite devia abdicar de o querer parecer.
A Índia mostra a verdadeira influência de elites bem preparadas e por isso progride.
Temos mesmo que redescobrir a Índia!...

10 comentários:

Tonibler disse...

Tenho colegas indianos que me questionam porque é que temos acidentes rodoviários se nas nossas estradas as faixas só tem um sentido.
Ainda assim, os indianos não consideram que precisem de um TGV (embora se morra nas viagens de comboio) ou que os aeroportos estejam superlotados.
O nosso problema não está na classe política, está naqueles que fazem dessas pessoas classe política. Se perguntar na rua, 99% acham que a OTA e o TGV são importantes para o país, que não viveríamos sem a A23, a A2, a A13 (alguém sabe o que é a A13?), o Euro, a Expo, o CCB,....

Frederico disse...

Caro Pinho Cardão,
Como reconhecerá, os problemas que afectam Portugal são da responsabilidade dos dois maiores partidos portugueses e dos seus eleitores.
Quanto à imagem do primeiro ministro (a correr ou sentado), julgo que não deve ser utilizada para a crítica politica.
Portugal precisa de um projecto que provoque a competitividade dos produtos nacionais no mercado global. Se isso passar por taxas de desemprego de 21%, não contestarei. Os trabalhadores consideram que o problema da produtividade e da dinamização da economia não lhes pertencem e os empregadores terão que assumir (practicamente e infelizmente) sozinhos esse papel.
Obviamente que quem se aliena das soluções sofre as consequências.

Um abraço

JardimdasMargaridas disse...

Caro Dr. Pinho Cardão,

Em Portugal estamos com um problema, que há muito se tem vindo a agravar, de composição da nossa classe política.
Quem é vai para a política? Quem é que quer fazer política? A resposta não é, aparentemente não parece ser: a nossa elite. Cada vez mais afastada e desinteressada da vida política. E sabemos bem porquê…
Portugal tem, como acontece com os outros países, pessoas bem preparadas, com qualidades humanas e competências técnicas reconhecidas.
Fazem a elite do País, mas não querem ser classe política!
O problema é que a classe política é mesmo, como diz no seu texto, o reflexo da sociedade que somos, a reprodução da média. E é preciso não esquecer que a média é baixa!

As notícias sobre a Índia também nos deveriam fazer pensar. Quando se fala na Índia já não é para falar apenas da sua gigantesca pobreza ou das vacas sagradas. É para destacar o aumento da sua "massa cinzenta", cada vez mais qualificada para responder aos desafios do futuro e da globalização, nas áreas da investigação e da inovação, em sectores tecnologicamente muito avançados, nos quais o conhecimento e a capacidade de criar e transformar é vital.
A sua classe política, parece ter tido a clarividência de perceber que a aposta no sistema de ensino era estratégica. Disso são exemplo os seus I. I. of Technology e os I. I. of Management.
Mas é necessário quebrar por algum lado e aí está a Índia a atrair cada vez mais o investimento estrangeiro, em particular multinacionais ligadas à alta tecnologia.
O sistema de ensino é um “driver” do desenvolvimento.
Em pleno século XXI, depois da magnífica era dos Descobrimentos, que tal os nossos governantes (e não só!) fazerem uma viagem para descobrir a Índia? Obviamente que para trabalhar, nada de férias.
O saber nunca fez mal ninguém!

cmonteiro disse...

Estimado Pinho Cardão,

Perdoe-me a ousadia da pergunta: Esse post era a sério?... Não era pois não?

Anthrax disse...

Resta saber dr. PC, se a Índia quer que Portugal a redescubra.

Pinho Cardão disse...

Caro Jardim das Margaridas:

Concordo inteiramente como o disse.
De facto, a nossa classe política, salvo boas e honrosas excepções, não constitui uma verdadeira elite da sociedade portuguesa, mas aproxima-se da média,o que é trágico. Mas como tem o lugar bem ocupado, não desgruda, afastando muita gente válida.
Os líderes reconhecem o facto, prometendo sempre renovação mas, reféns do sistema, não a conseguem fazer. Aí está a causa de muitos dos nossos problemas.

Caro CMonteiro:

Muitas vezes brinco...até porque, independentemente do rigor que sempre procurei pôr nas coisas que faço, nunca me levei muito a sério!...
Mas um país com os problemas da Índia, mas que consegue ter as contas públicas apresentáveis, déficit, dívida pública e inflação controlados, e que apresenta uma economia em desenvolvimento galopante, só o pôde fazer pelo facto de ter elites sociais, políticas e empresariais que fizeram um acertado diagnóstico, convergiram no essencial e produziram as medidas adequadas.
Qualquer das cidades, Dehli, Bombaim ou de Calcutá são maiores que Portugal inteiro, pelo que o nosso país é um microcosmos em relação à Índia.
Ora se a Índia equilibra as contas públicas, por que razão Portugal não o faz?
Apresentei o problema das elites. Falei em geral,não particularizando nem tempo nem modo.
Correr ou andar com gravata ou sem gravata, é fenómeno de vários tempos e de vários modos. Mas com uma pequena particularidade: é que geralmente, em Portugal, se corre sem objectivo, porque nunca se definiu, mas querendo dar a imagem de que existe.

cmonteiro disse...

Mas caro Pinho Cardão, corrija-me se etiver errado; o problema da Europa é essencialmente a despesa social do Estado, e as obrigações do Estado derivadas do conceito de Estado providêncial nestas matérias (SS, Saude, Reformas, etc etc) coisa que como bem sabe não é assunto que preocupe a India. Para o confirmar, sugiro que consulte a estatisticas sobre a India no site da OMS e verá que a contas públicas equilibradas, como diz, está por corresponder tudo o resto (o que acho começa a ser uma fatalidade, mas isso é outro assunto...)

A India sempre deu ao mundo o melhor da elite intelectual, não duvido (ainda estou por perceber a fantástica vocação que têm para a Matemática... curioso), mas de facto comparar a India com Portugal ou com qq país Europeu em termos de contas públicas, uma vez que estes ultimos são especialmente afectados por este tipo de despesa, é o mesmo que dizer que a China trata bem os trabalhadores porque nem sequer há sindicatos...

Pinho Cardão disse...

Caro CMonteiro:
O que diz é verdade, mas essa situação, aos olhos dos nossos políticos, só serviria precisamente para aumentar a despesa pública, na miragem de atenuar esses problemas, o que seria ilusório.
Ora o grande mérito das elites indianas, na minha maneira de ver, está em querer fazer reformas de uma forma sustentável, através do aumento da riqueza que suporte uma maior despesa do Estado, nomeadamente em fins sociais, e não à maneira da "boa" tradição europeia através do aumento autónomo da despesa pública,financiada por impostos ou dívida, que se tem revelado asfixiante para a actividade económica e o desenvolvimento.
E é nesta escolha difícil e dinâmica entre o ímediato (aumento autónomo da despesa), que nada resolve de forma permanente, e o médio prazo(criação de condições de aumento da riqueza e redistribuição)que permite o desenvolvimento económico e social que eu baseio o mérito das elites políticas da Índia, que me parece terem encontrado o caminho certo.
É óbvio que é um caminho chocante. A miséria, aos olhos de um ocidental, que me foi dado observar na Índia é difícil de suportar, mesmo só à vista apressada. Em determinado estação de caminho de ferro, perante o estendal de corpos, aparentemente à beira da morte, alinhados ao longo das plataformas de acesso, um companheiro meu de viagem exclamou: e pensar que são seres humanos como nós!...
Creia que essa é uma imagem que, desde aí, passei a ter sempre muito presente e pensei nela quando fiz o texto que tem merecido os seus honrosos e sempre bem vindos comentários.

cmonteiro disse...

Caro Pinho Cardão,

É então em nome desse equilibrio orçamental que temos que "compreender" que não há outro remédio para já para esses corpos estendidos que refere?

Sinto-me confuso, principalmente por saber que na Europa todos os cidadãos são iguais e o Estado pertence aos cidadãos e tem como função servi-lo (embora esta possa ser uma receita esgotada, mas isso é outro assunto, repito), e na India exista um sistema social de castas: As superiores a que pertencem as tais elites, e as castas inferiores, a que pertencem milhões de "corpos" desses à beira da morte, que não merecem qualquer atenção do Estado. E isto não é uma excepção, é um sistema social milenar instituido.

No entanto a India tem a bomba atómica, misseis de médio curso, umas forças armadas poderosissimas e milhões de pessoas a morrer de fome que nem um missil paquistanês conseguiria matar.

Está no caminho certo para criar condições sociais em que possa dar mais apoio social, com diz, mas duvido que o faça uma vez que é mais do que óbvio que presentemente já poderia oferecer mais aos seus cidadãos do que o que oferece.

E como dizia o outro "há vida para além do défice" sendo que no caso indiano, não há grande vida e também não há défice.

Entre uma coisa e outra, sinto-me confuso, como lhe disse...

Pinho Cardão disse...

CaroCMonteiro:
Diz muita coisa pertinente, a que responderei com mais tempo, e sobretudo direi algo sobre "a vida para além do défice".
Queria no entanto, para já, referir que as castas estão legalmente abolidas na Índia, embora continuem no subconsciente colectivo.E que há membros das castas mais elevadas na mais completa pobreza e membros das castas menos elevadas, os párias, agora chamados "desprotegidos", riquíssimos.Creio que o Presidente da República actual é um membro da antiga classe pária, o que demonstra o progresso havido.
Vou procurar um texto que escrevi no 4R, em que abordava o assunto.

http://blasfemias.net/