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segunda-feira, 16 de maio de 2005

O critério editorial

O Prof. Massano acaba de se referir ao tema, como ontem a ele se referiram o F. Almeida e o D. Justino.Eu próprio já o abordei aqui várias vezes. O assunto é manifestamente importante.
Prevalecendo-me do facto de, no desempenho da minha actividade profissional, ter estado 6 anos e meio num órgão da comunicação social, julgo ter a estrita obrigação de partilhar algo do que aprendi sobre a matéria...
O critério editorial é uma coisa muito importante. Em primeiro lugar, por ser coisa que não abunda na natureza.Com efeito, o critério editorial é um dom que só os jornalistas têm.
É um elemento diferenciador do seu ADN: não se tendo esse elemento, não se tem critério jornalístico. É escusado tentar!...
Poderá perguntar-se se alguém, não tendo esse elemento no seu ADN, pode ser jornalista e ter critério editorial. Deixarei a resposta para um outro “post”. Mas o critério editorial tem algumas especificidades. Como estamos em Portugal, o gene de tal critério jornalístico tem que ser burocraticamente enquadrado: ele só se manifesta depois de o seu portador estar inscrito no Sindicato!...
A inscrição é o marcador do gene: sem inscrição e sem cédula, o critério não se revela no ADN, pelo que o seu exercício é ilegal.
Apesar de genético, o critério jornalístico pode perder-se: só se mantém nos jornalistas bactereologicamente puros.
Estes são os que sempre viveram no ambiente das redacções, das noitadas e dos bares próprios de jornalistas.
Há factos, no entanto, que o potenciam, como, por exemplo, ser Assessor de um Presidente da República socialista.
Mas também há factos que fazem, inexoravelmente, perder o dom. Por exemplo, quem experimentou ser Assessor de um Primeiro-Ministro social democrata perde imediatamente o gene.
Para não se dizer que isto é teoria, dou o exemplo do Jornalista Fernando Lima: não podia ser Director do DN, porque a proximidade com Cavaco, há 10 anos, o fez perder, inexoravelmente, o gene do critério editorial.
O critério jornalístico está como o olho clínico para os médicos, mas com uma diferença: enquanto nem todos os médicos têm olho clínico, todos os jornalistas têm critério.
É por esse facto que muitas vezes o título da 1ª página não condiz com o título da 4ª página e a notícia não condiz com nenhum dos títulos: a situação é explicável por lutas no interior da redacção sobre qual o critério mais afinado. Concluindo-se que todos são afinados, a notícia reflecte todos. Isso é critério jornalístico.
Além do mais, se não discutimos o medicamento prescrito pelo olho clínico do médico, porquê discutir o título, se ele é determinado por um ADN específico?
O critério jornalístico é ainda a “ultima ratio”, quando, em conversa amiga ou discussão acesa, o jornalista não consegue explicar a razão de ser de determinada notícia, de determinado título ou a escolha de um comentador em detrimento de outro: “critério editorial, meu amigo!...”

Marteladas jornalísticas

O noticiário de hoje destaca, com alguma particularidade, o acidente de viação no qual ficaram feridos cinco futebolistas. Nada a apontar, excepto, talvez, o excessivo tempo dado ao caso. Mas, em termos jornalísticos, os critérios podem “exigir” este destaque. É compreensível, porque até os próprios jornais televisivos fazem, com muita frequência, a abertura e, nalguns dias, chegam a gastar 20 ou mais minutos com os assuntos da bola, o que em televisão é uma eternidade. Mas, voltando ao assunto do acidente de hoje, congratulo-me com a postura do director de urgências do Hospital de S. João, o qual descreveu a situação dos sinistrados, mas sem entrar em pormenores de carácter clínico, até, porque nem estava autorizado para o fazer. Sim senhor! Sem arrogância, mas com firmeza e elevação tentou explicar aos senhores jornalistas que não havia mais nada a dizer. Pois! O pior é que os jornalistas continuaram a querer saber pormenores, contornando o não do médico, um atrás de outro, ouvindo sempre a mesma resposta.
A postura do médico é de louvar e respeita os princípios ético-deontológicos que salvaguardam os interesses e desejos dos sinistrados. Os senhores jornalistas têm que aprender que, face à recusa de detalhes, não deverão insistir.

A suspeição

Leio os jornais e vem-me à memória uma história contada por Gabriel Garcia Marquez no seu livro “Viver para contá-la”.
Conta ele que numa pequena aldeia pacífica começaram a aparecer cartas anónimas denunciando a vida de uns e de outros. O dia seguinte, portador de novas cartas, era temido, e a pouco e pouco todos começaram a desconfiar de todos. Qualquer gesto, qualquer frase, era considerada uma ameaça e deixou de haver amigos, vizinhos ou irmãos. Todos eram inimigos de todos, de lado algum podia vir o bem ou um gesto amigo, tudo era colocado sob suspeita. As ruas começaram a ficar desertas, as janelas fechavam-se aos olhares indiscretos, a vida tornou-se uma pesadelo. Todos eram vigilantes de todos, todos eram vítimas de todos.
A voracidade com que é tratada qualquer situação “suspeita” e o imediato turbilhão de comentários, dúvidas, ligações, começa a tornar-se uma espécie de psicose nacional que é em si francamente preocupante.
O objectivo é suspeitar, tirar a credibilidade, lançar a mancha sobre quem age ou decide, raramente é esclarecer ou contribuir para que os erros não se repitam – é o escândalo que interessa e, de preferência, que ninguém no futuro se atreva a decidir seja contra quem for. Adie, levante dúvidas, peça pareceres, vá empatando até que as coisas se decidam sozinhas. Geralmente, por desistência dos interessados. O pior é se nesse caso também se levanta a dúvida sobre tão longa demora - se o assunto era para recusar então porque é que não se pôs termo à questão em devido tempo?
Não sei se o caso que tem feito correr tanta tinta nos últimos dias tem ou não qualquer fundamento, nem nada do que li me leva a qualquer conclusão que me habilite a falar sobre ele.
Fica-me, no entanto, a ideia geral de que, no limite, todos os actos praticados por um Governo (pelo menos os de gestão) devem ser especialmente sindicados sobre as suas eventuais motivações ocultas e que todos os dias vão aparecer mais duas ou três situações que alimentem esta espécie de desporto nacional. Como o “caso” descrito numa coluna inteira do “Público” de 6ª feira, sob o título “Reestruturação retirou processo da Portucale das mãos de técnica” que deixa a desejável aura de mistério sobre o facto de “uma técnica que há mais de dez anos dava sucessivos pareceres negativos sobre o abate dos sobreiros” e que deixou de ter competência nessa matéria na sequência da nova lei orgânica do Ministério da Agricultura...Eu sei que se fazem leis orgânicas com demasiada frequência, mas uma nova lei orgânica de um Ministério para afastar técnicos dos processos que se arrastam anos e anos é no mínimo um exagero!

domingo, 15 de maio de 2005

Bento de Núrsia II (continuação)

Como consequência do lema “um mosteiro sem biblioteca é como um castelo sem armas”, nos mosteiros beneditinos foram-se acumulando, Idade Média fora, enormes bibliotecas; foi aliás deste saber assim preservado que, mais tarde, surgiram as Universidades ligadas às Escolas das Catedrais ou de Mosteiros.
Por isso, S. Bento é considerado o Santo Protector da Europa.
Bento de Núrsia também era pela descentralização: ao contrário de outras Ordens Religiosas, não havia uma autoridade central ou um superior geral, pelo que cada mosteiro era autónomo.
Há muitos aspectos curiosos da Regra Beneditina. Foi ela que proporcionou o mais antigo documento de planeamento urbano do Ocidente (ano 820), em que os edifícios comunitários são concebidos de uma forma integrada, com enfermaria, hospedaria, cozinhas, padaria, latrinas, oficinas, habitação, estábulos e até cemitério…
Mas, pelo que averiguei, nos mosteiros nem tudo era um mar de rosas, pois havia sérias proibições: nos mosteiros eram severamente proibidos os mexericos e as anedotas!...
Segundo os biógrafos,a vida de Bento paasou por momentos difíceis, sendo alvo de muitas tentações. Não resisto a reproduzir uma delas:” o espírito maligno fez-lhe trazer à ideia uma mulher linda que um dia tinha conhecido e, sem dar por isso, começou a ficar preso pelas emoções de tal imagem…Quase vencido na luta, estava a ponto de abandonar o seu isolamento, quando, de repente, com a ajuda de Deus, voltou a si. Para vencer a tentação, despiu-se e atirou-se para cima de uma moita de silvas e urtigas e nela se rebolou até ficar com o corpo todo dorido e coberto de sangue. Uma vez vencido o prazer pelo sofrimento, a sua pele dilacerada e sangrenta serviu para expelir do corpo o veneno da tentação”. Dizem os seus biógrafos que nunca mais teve semelhante tentação!...
Pudera, digo eu!...
Têm os meus amigos a receita para aconselhar a algumas pessoas que bem conhecem!...

Agir de acordo com a consciência

Na sequência da morte do Papa João Paulo II foram tecidas muitas opiniões, construídas interessantes entrevistas, divulgados calorosos pensamentos e efectuados posicionamentos estratégicos. A fé é algo de muito íntimo e dificilmente susceptível de discussão. O mesmo não se passa com os argumentos através dos quais se pretende saber o que é o melhor ou o pior para as comunidades. A este propósito, o ilustre professor de medicina Walter Oswald, numa entrevista ao Notícias Médicas, sobre a realização do referendo que pode abrir as portas à despenalização do aborto, deixa o seguinte conselho “Independentemente de qualquer lei, as pessoas devem agir de acordo com a sua consciência. Há leis más, iníquas. Aquilo que aconteceu na Alemanha nazi não foi ilegal”.
Estou de acordo com a primeira parte – as pessoas devem agir de acordo com a sua consciência. A tentativa de demonstrar a iniquidade das leis com o exemplo nazi, parece-me absurdo e até perigoso. Do mesmo modo, considerar as experiências, em determinadas circunstâncias, das células embrionárias ao Holocausto é igualmente desproporcionado. Será que no futuro as leis de estados soberanos terão de ser submetidas à apreciação dos responsáveis máximos da Igreja Católica a fim de saber se estão de acordo com a vontade de Deus e só depois é que poderão ser promulgadas? Pressinto qualquer coisa no ar que se assemelha a teocracia…

Áreas Protegidas - VI - Parque Natural da Ria Formosa



Ao sul, no coração do Algarve, são 18.400 ha de uma área protegida que abrange partes dos concelhos de Faro, Loulé, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António. Constitui uma das zonas mais importante dos ponto de vista da guarda de património genético, uma zona húmida de importância internacional como tal inscrita como sítio da Convenção de Ramsar, Zona de Protecção Especial para aves selvagens e sitio de Rede Natura 2000.
Vulnerável a muitas pressões, designadamente urbanística em áreas de enorme sensibilidade mas também instabilidade, não tem logrado obter, designadamente dos autarcas, a atenção que merece como aqui já uma vez assinalei.
O Parque Natural é mutifacetado, um verdadeiro mosaico de habitats: mar, ria, sapais, dunas, áreas de pinhal, zonas agrícolas (em acelerada decadência...).
A ria, eventualmente o elemento mais importante, existirá enquanto se mantiver o frágil cordão de areia das ilhas barreira, sujeitas desde há muito à predação e ao esbulho inacreditavel e irresponsavelmente tolerados pelos poderes públicos.
O Parque Natural da Ria Formosa partilha com o Parque Natural de Doñana, ali ao lado, em Espanha, o papel de servir de sítio de arribação e habitat de espécies prioritárias da avifauna, com especial destaque para o caimão ou galinha-sultana, mascote do Parque, cujo stock foi possível recuperar da ameaça de desaparecimento no nosso País. Relevam outras espécies faunísticas, sendo relevante a investigação que ali se faz sobre alguns exemplares da ictiofauna característica.
O grande desafio que se põe à Formosa é hoje saber se é possível conjugar sustentavelmente as preocupações da defesa diversidade biológica que ali encontra singular abrigo, com actividades e práticas humanas de enorme intensidade, como é o caso de (algum) turismo.

Bento de Núrsia I

A escolha por parte do Cardeal Ratzinger do nome Bento XVI, suscitou-me a curiosidade de saber um pouco mais sobre S. Bento.
S. Bento e a Ordem Beneditina, que fundou, são apontados por muitos historiadores como sendo dos principais pilares do que hoje designamos por cultura e civilização ocidental.
Com efeito, foi graças aos mosteiros beneditinos que subsistiram e se preservaram as grandes obras bibliogáficas da antiguidade, nomeadamente grega e romana, berços da nossa cultura.
Sem os Beneditinos tal legado estaria para sempre perdido.
Nascido na Úmbria, a nordeste de Roma, no ano 480, de uma família muito rica, Bento de Núrsia foi estudar para Roma. Sentindo repulsa pelo esbanjamento e pela decadência a que assistiu, abandonou os estudos, a casa dos Pais e as propriedades e fez-se monge, fundando depois a Ordem Beneditina.
Para reger a sua Congregação, criou a denominada Regra Beneditina.
Nela está inscrita uma primeira ideia, a da tolerância e da luta contra a opressão, ao referir: “ vamos abrir uma escola para o serviço de Deus, em que esperamos que nada de agreste ou de opressor seja ensinado”.
Uma segunda ideia é a do respeito pelo homem: ao contrário do que era uso na época entre os monges, Bento de Núrsia não aprovava a autoflagelação, dado que “neste mundo, as penas existem em quantidade suficiente”.
Por isso, o ascetismo de Bento era muito moderado: até previa oito horas de sono ininterrupto, com “colchão, lençol, cobertor e travesseiro, bem como ”… dotação de calçado e roupa apropriada, em função do clima”.
Esta moderação foi uma revolução, à época, em que se experimentavam comportamentos algo exóticos para conquistar o céu. Nessa época, e por exemplo, S. Simeão viveu 39 anos em cima de estrado, em que só podia estar de pé ou sentado,ao sol e à chuva, ao frio e ao calor, colocado sobre uma coluna que chegou a atingir os 15 metros de altura, para melhor se entregar à meditação…e também para fugir dos seus veneradores…
Uma terceira ideia á a educação: o dia de um monge previa 4 horas de leitura, pelo que todos tinham que saber ler ou aprender.
Bento tinha mesmo um lema que dizia que “um mosteiro sem biblioteca é como um castelo sem armas”.
A continuar…

Critérios editoriais ou o perigo de ler só os títulos

Na última edição do caderno de economia do Expresso fui alertado para uma pequena notícia inserida na secção “Últimas” da primeira página: “Exportações crescem”. Imaginem a reacção optimista: “isto começa a recuperar!”. Só depois da leitura completa me inteirei da situação: exportações para países extra-comunitários crescem 6,6%, mas as respectivas importações cresceram 21,3%, agravando o deficit da balança comercial. Para chegar aos detalhes fui à página do INE, esforço que acabou por ser recompensado com duas constatações: o título é o mesmo, mas o agravamento do deficit comercial (-44,3%) foi omitido.
Dá para imaginar quais teriam sido os títulos possíveis há um ano atrás: “Deficit comercial afunda-se”, ou “Importações disparam”. Enfim, critérios editoriais.

sábado, 14 de maio de 2005

Ao que isto chegou...

É a Polícia que esclarece que o chefe do Governo não tem que se preocupar com as suspeitas propaladas pela comunicação social. Os casos não são, afinal, iguais!
Alguma coisa vai muito mal no reino.
Decorre uma investigação daquelas que, como se tornou hábito, está em segredo cuja quebra se continua a dizer que é crime. Envolve figuras da vida politica e partidária e fornece, com a regularidade calculada para render por muitas edições, pormenores, suspeitas, alvitres, pretensos factos, interpretações desses factos supostamente feitas por "fontes ligadas ao processo" ou por "fontes próximas da investigação". Para além de favorecimento ilegítimo de entidade privada, com o omnipresente betão, abates de sobreiros e suspeitas de financiamento partidário pelo meio, eis que surge o que também já quase todos esperavam. O contrabalanço. Ou seja, uma notícia envolvendo agora personalidades do outro lado.
A notícia picante do dia foi assim que o actual Primeiro-Ministro e um dos ministros deste Governo também estavam a ser sindicados pela polícia por terem eles autorizado o abate de sobreiros, desta feita em Setubal, quando ambos eram membros do último dos governos do Engº Guterres. Também em vésperas do fim do mandato. Também por despacho. Também por acharem que outros valores mais altos se alevantavam. E também, vejam lá!, por denuncia da Quercus - essa organização redentora, tão omnipresente quanto o betão e a PJ. Subliminarmente, dada a similitude das circunstâncias de facto e de tempo, fez-se obviamente passar a ideia que se queria fazer passar: que tal como no caso que envolve Nobre Guedes e companhia, também este caso, antigo mas activo, teria que ver com tráfico de influências e financiamento partidário.
Mas enfim, lá veio o senhor Director Nacional da PJ negar em comunicado o que o órgão de comunicação noticiara, pondo em descanso o nosso Primeiro e em relativo sossego as hostes socialistas (que apesar de tudo se devem lembrar do categórico desmentido do senhor PGR de que Carlos Cruz não era suspeito no processo Casa Pia ou que o então secretário-geral do PS não tinha, nem ao de leve, sido nele envolvido...)
Impressiona-me como podem acontecer estas coisas, a frequência com que acontecem e o facto de ninguém pensar que estes lamentáveis episódios de manipulação constante da opinião pública corróem a credibilidade de todos os poderes, incluindo a credibilidade do próprio poder mediático.
A democracia, que tem de se sustentar de doses equivalentes de liberdade e de responsabilidade, pode sobreviver incólume à impressionante regularidade com que, de forma sempre impune, são difundidas notícias que colocam sobre suspeita, lançam inquietudes, geram desconfiança e instabilidade e põem em causa a honorabilidade dos mais altos dirigentes do Estado, sem que nada aconteça quando se revela que são falsas?
Lembro-me de há uns tempos nem o Cardeal Patriarca ter escapado no enojante enredo mediático em que foram transformadas as investigações do chamado Casa Pia. Nem ele, nem o Presidente da República.
Neste caso, de duas, uma: ou alguém se serviu do órgão de comunicação social que divulgou estar o PM sob investigação, e então devem os seus responsáveis denunciar sem hesitações a ignominiosa fonte que não merece qualquer protecção (sob pena se beneficiar o infractor e esconder um criminoso). Ou então a notícia é pura invenção e não há liberdade de imprensa que resista por muito tempo a tamanha tolerância perante a irresponsabilidade e a mentira vendida a preço de jornal.
Uma nota mais.
Posso estar enganado, mas estou em crer que ao PM deve bastar o desmentido do senhor Director Nacional da PJ. Tal como no passado outros não sentiram necessidade de se afirmarem filhos de boa gente, não se condoendo e achando suficiente uma explicação policial, mais ou menos do género.
Exigir a denúncia de fontes mentirosas que se servem e manipulam jornalistas sedentos de escândalo, em nome de interesses obscuros? Credo!
Censurar os media e condenar firmemente a falsidade? Abrenúncio!
É que as represálias dos media podem doer muito. E reagir com coragem à dor das agressões mediáticas não é para todos. Vale mais suportá-la e desejar que venha distante a próxima pedrada...

Ainda os Doutores de valor normalizado

No contexto do que tenho vindo a referir, nada melhor e mais oportuno do que o excelente o artigo do Prof. Dr. João Duque, Catedrático do ISEG, na página 12 do Caderno de Economia do Expresso de hoje, dia 14 de Maio.
Na impossibilidade de o transcrever todo, aqui vai uma parte.
“…Parece-me que vamos ter as propinas dos mestrados tabeladas e idênticas às das actuais licenciaturas…É óptimo, porque os alunos perdem o poder reivindicativo, uma vez que as propinas do curso deixam de ter valor significativo. Por seu turno, os Professores preocupar-se-ão menos com a qualidade da formação prestada. Ao contrário do que se passa hoje nos mestrados, em que quem paga exige cursos sem faltas, pontualidade dos docentes, actualidade dos programas e interesse das matérias, cultivar-se-á a política do perdão fácil às ineficiências e imperfeições e os alunos não sentem remorso pela não utilização dos recursos que lhes oferecemos…É óptimo, porque, sendo o benefício da formação individual recolhido através de melhores vencimentos pelos que dela beneficiaram, este vai ser financiado através dos impostos gerais e indiscriminados. Deliciosa democracia: uns ganham, pagam todos…”
Concordo obviamente com tudo,na sequência, aliás, dos meus "posts" anteriores, mas posso estar a ver mal…Por isso, muito gostava da opinião dos ilustres amigos Professores Massano Cardoso e David Justino, eméritos Professores de mestrados e doutoramentos, sobre esta matéria. As minhas desculpas pela provocação!...

sexta-feira, 13 de maio de 2005

“Moralizadores”…

"Um homem que moraliza é geralmente um hipócrita" (Óscar Wilde)

Os debates políticos são muito interessantes e essenciais para a prossecução das adequadas medidas políticas Ressalta, de imediato, as diferentes opiniões suportadas pelos mais diversos argumentos. Nada a apontar, até porque as divergências são salutares, traduzindo posturas ideológicas credíveis e respeitáveis. Podemos encontrar um equivalente a esta postura na diversidade biológica que caracteriza as diferentes espécies. Quanto maior for a diversidade biológica, maior é a garantia da perpetuação da mesma. Quanto maior for a diversidade política, maior é a garantia da perpetuação da democracia. Uma das vantagens dos debates, argumentos, contra-argumentos, é lançar a dúvida no adversário. Óptimo. Assim como algumas das nossas posições poderão sofrer algum abalo, muitas vezes não o suficiente para as abandonar, também os nossos argumentos não deixarão de semear alguma dúvida nos adversários, mesmo que não confessem. As pequenas ou grandes interrogações que ambos semeiam nos diferentes campos são muito importantes para o progresso e desenvolvimento da sociedade. Quando as coisas decorrem desta maneira podemos congratular-nos porque traduz maioridade e civilidade. No entanto, observamos, por vezes, que há um conjunto de indivíduos que em vez de exporem as suas opiniões de uma forma eloquente e veemente, como é seu direito, vão muito mais longe querendo que os outros se submetam às mesmas. São os moralistas da política. Têm um perfil fácil de identificar: insensibilidade, falta de amabilidade, intolerância, arrogância, insuficiência de imaginação, ou imaginação doentia, incapacidade de compreender a realidade das situações, enfim, julgam-se donos e convictos de que a sua forma de ver é a única aceitável. Óscar Wilde, afirmou que "um homem que moraliza é geralmente um hipócrita". Como o nosso sistema político não é imune aos moralizadores, estes passam a constituir uma verdadeira ameaça, criando instabilidade, irritação e inflamação social além da ansiedade e mal-estar na vida das pessoas…

Loucura ou Lucidez II

As palavras do Dr. Jorge Coelho no programa Quadratura do Círculo, a propósito do processo da Herdade da Vargem Fresca, dizendo ”… não acreditar que algum ministro… corra o risco de decidir contra o parecer dos serviços técnicos que prepararam o suporte à decisão” e que “só um louco o faria” traduz a real situação do poder político em Portugal. O seu poder é nulo!...
Mas as palavras do Dr. Jorge Coelho levantam uma outra questão, a da confusão que existe entre decisão política, que compete ao Ministro, e suporte técnico, que compete aos Serviços.
Se o Ministro abdica da sua competência política, é mais um tecnocrata na cadeia da decisão e nega-se enquanto Ministro.
Mas, mais grave ainda, se o Ministro abdica da sua competência política, está a dá-la aos Serviços.
Ora os Serviços, por mais prestigiados que sejam, não tendo sido eleitos, não podem arvorar-se em árbitros ou decisores políticos.
Assim sendo, é ao Ministro que compete decidir, contra ou a favor do que é recomendado.
Compreende-se a dificuldade.
Se decide contra, logo a Comunicação Social refere em letras gordas: decidiu contra o parecer dos Serviços!...
E vem logo a suspeita de corrupção do Ministro!...
Porque, está bem de ver, os Serviços não são nunca nem corrompíveis, nem corrompidos!...
Cá por mim, apesar de tudo, acredito mais num Ministro que coloca o seu nome numa decisão difícil do que numa burocracia ou numa tecnocracia naturalmente escondida atrás do Serviço.
Como acredito mais num Ministro que mantém a equipa dirigente anterior, desde que profissional, do que noutro, que muda toda a hierarquia.
O Ministro é para decidir; a tecnocracia, para estudar.
Não pode é a tecnocracia decidir e o poder político ter o único papel de concordar.
Mas é isto que acontece, como diz o Dr. Jorge Coelho. Essa é a nossa tragédia: votamos nuns, para outros decidirem!...

Lisboa, Carmona, Carrilho e Mendes

Dois colegas de Universidade candidatam-se à Câmara de Lisboa: Carmona Rodrigues e Manuel Maria Carrilho. A estima e amizade que tenho pelos dois, não me embaraça a escolha: Carmona Rodrigues, decididamente. Não só por ser do PSD - o que é importante! -, mas, acima de tudo, pelo perfil de competência e conhecimento que tem dos enormes problemas da capital.
Um reparo: quando é apresentado o candidato à mais importante autarquia do país, não se justifica a presença do Presidente do PSD, Dr. Marques Mendes?

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Crueldade e sofrimento, por Morin

"A crueldade entre homens, indivíduos, grupos, etnias, religiões, raças é aterradora. O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O ódio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O ódio abstracto por uma ideia ou uma religião transforma-se em ódio concreto por um indivíduo ou um grupo; o ódio demente desencadeia-se por um erro de percepção ou de interpretação. O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. E no subsolo das sociedades civilizadas torturam-se animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença".

Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'

Nos tempos que correm, textos destes chamam-me a atenção.
Sinal de quê?

“Flautistas”…


Pied Piper
Ilustração de Olivia Reyner


O flautista de Hamelin constitui uma das mais belas histórias do imaginário germânico. As crianças aprendem desde cedo a versão infantil e os adultos também não deixam de se divertir e aprender algumas lições.
Foi em 1284 que na cidade de Hamelin uma praga de ratos e ratazanas atormentou os habitantes a ponto de provocar a miséria e o desespero. Entretanto, surgiu na cidade, Pied Piper, homem estranho, vestido de forma peculiar e que prometeu libertar a cidade da ratazada desde que lhe pagassem uma determinada quantia. Os governantes aceitaram a proposta. Imediatamente Pied Piper rapou da sua flauta, tocou uma melodia, a qual seduziu os ratos e dirigiu-se para o rio Weser sempre seguido pelos animais. Entrou no rio e os animais acabaram por morrer afogados. Voltou à cidade para receber o pagamento, mas os cidadãos não cumpriram com a promessa. Saiu da cidade e mais tarde regressou disfarçado de caçador. Tocou, novamente, a flauta, só que desta vez foram as crianças com mais de quatro anos que seguiram o encantador, as quais, atravessando a montanha através de uma caverna, acabaram por desaparecer para sempre, provocando desespero e tristeza nos cidadãos de Hamelin. Três crianças ficaram para trás, uma porque se esqueceu do casaco, os outros dois, um por ser cego e um por ser mudo, não puderam mostrar o caminho ou contar nada.
A sociedade portuguesa está cheia de ratos e ratazanas muito especiais e resistentes que põem em perigo o bem-estar das pessoas. É preciso encontrar soluções para proceder a uma verdadeira e eficaz desratização. Como esta tarda, é natural que surjam flautistas. Resta saber se as melodias que prometem tocar conseguirão arrastá-los para as profundezas de um qualquer rio e afogá-los. O pior é se em vez da ratazada ainda acabam por seduzir os jovens afogando-os! Ah! Estes flautistas não precisam de regressar para receberem os pagamentos...…


Posted by Hello

Loucura ou Lucidez?

No último programa Quadratura do Círculo, o Dr. Jorge Coelho, a propósito do processo da Herdade da Vargem Fresca, referiu o seguinte: ”…quando os assuntos chegam a despacho do ministro, o processo já vai enformado pelo trabalho de vários serviços e não acredito que algum ministro, com consciência plena do lugar que está a exercer, corra o risco de decidir contra o parecer dos serviços técnicos que prepararam o suporte à decisão. Só um louco o faria.”
Retiro as seguintes conclusões e juro que não são mentira nenhuma:
1ª Só um Ministro louco contraria o parecer dos serviços.
2ª Um Ministro lúcido concorda sempre com o parecer dos serviços.
3ª Mesmo se o parecer dos Serviços é louco, a concordância do Ministro é um sinal de lucidez.
4ª Se o Ministro é lúcido, para que serve o Ministro? Bastam os Serviços.
5ª Se o Ministro é louco, para que servem os Serviços? Basta o Ministro.
6ª Um Ministro lúcido não faz nem serve para nada. É um mero custo.
7ª Um Ministro louco faz tudo e substitui os Serviços. É um activo inestimável.

CONCLUSÃO FINAL: Neste país de loucos, a solução é um Governo à medida, isto é: cheio de ministros loucos!...
Ou sou eu que estou a ficar louco? Ajuuuuuuudem…...-me!....

“Processo de Bolonha” e a Lei de Bases

Está hoje em discussão na Assembleia da República as propostas de alteração da Lei de Bases do Sistema Educativo visando adequar a organização do ensino superior aos princípios acordados entre os países europeus relativamente à reforma do ensino superior. À excepção do PSD, todos os partidos da oposição e o Governo apresentam propostas de alteração limitadas aos artigos e secções respeitantes ao ensino superior.
O PSD entendeu – na minha opinião, bem! – apresentar uma proposta de revisão geral da Lei de Bases colocando na agenda não só a reforma do ensino superior, mas a reforma global do sistema educativo.
Assinale-se, antes de mais, a coerência da posição do PSD, retomando a Lei de Bases da Educação que acabou vetada pelo Presidente da República.
Assinale-se igualmente a posição dos restantes partidos ao dar prioridade ao ensino superior e ao esquecer as reformas necessárias nos restantes graus de ensino. Quer queiramos, quer não, o único sinal que se retira desta posição é a da subalternização do ensino básico e secundário. É o sinal de que à urgência da reforma do superior se contrapõe a não urgência de reforma do básico e secundário. Este ficará para os “pequenos passos”.
Um último registo: o CDS-PP que havia subscrito a Lei de Bases da Educação, contenta-se agora em reformar o ensino superior.
À semelhança da posição do Sr. Presidente da República também estes partidos perdem autoridade moral para denunciar o “estado da educação em Portugal”.
Fica-nos a esperança de que em Bolonha ou qualquer outra cidade europeia emblemática se engendre um qualquer “processo” que nos faça avançar com as reformas necessárias.

Portugal e a competitividade

Foi recentemente publicado o World Competitiveness Yearbook 2005 que analisa e compara 314 indicadores de 51 países e 9 regiões relativos à sua capacidade competitiva. Esses indicadores distribuem-se por quatro grandes agregados: desempenho económico, eficiência governativa, eficiência empresarial e infra-estruturas. É interessante analisar o posicionamento de Portugal em função dos melhores ou piores indicadores:

Em que indicadores somos melhores?

- Rácio de alunos por professor no ensino secundário (1.º lugar)
- Investimento em telecomunicações em % do PIB (4.º)
- Despesa Pública na educação em % do PIB (8.º)
- Despesa total na saúde em % do PIB (12.º)

Em que indicadores somos piores?

- Adaptabilidade das empresas à evolução dos mercados (60.º lugar, último)
- Cooperação tecnológica entre empresas (60.º)
- Formação contínua de mão-de-obra (59.º)
- Resistência às flutuações dos ciclos económicos (59.º)

Conclusão: somos os melhores a gastar e os piores a organizar e a gerir os recursos.

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Modelos esgotados

Somos um país muito curioso – ou não temos nada feito, ou o que fazemos já não serve porque é preciso inventar “novos modelos”, de preferência tão complexos ou tão caros que nos sirvam de desculpa para continuarmos a adiar o que realmente deveria ser feito. Isto acontece quase sistematicamente quando se aponta uma deficiência ou se detecta uma grave ausência de boas práticas para melhorar um sector.
Vem este comentário a propósito da avaliação das universidades e do coro de aplausos e de justificações que suscitou o alerta que o Presidente da República lançou, invocando a absoluta necessidade de se avaliarem as instituições universitárias como única forma credível de garantir uma melhoria no seu desempenho.
Foi muito aplaudida a intervenção e a ideia parecia pacífica. Acontece, como explicaram depois vários Reitores e o Presidente do Conselho de Reitores, que essa avaliação existe mas que não parece ser suficiente porque não é uma avaliação externa. Ouvido o Presidente do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior, Professor Adriano Moreira, ficámos a saber que o sistema de avaliação não só existe, como os diagnósticos são regularmente publicados, mas que o tema acaba aí. Ou seja, cumpre-se o ritual, faz-se o trabalho, mas nada acontece porque falta regulamentar as consequências dessa avaliação!
Com todo o respeito que me merecem todos os intervenientes nesta polémica, não posso deixar de manifestar o meu absoluto espanto por tamanho absurdo assim tão cristalinamente exposto – há a recolha de dados, há a análise dos elementos, há conclusões e estas são publicadas. Há, portanto, imenso trabalho feito que serviria como fundamento mais que suficiente para se corrigirem erros e exigir melhores resultados.
Mas, pelos vistos, a lei que criou todo este sistema e as pessoas que nele se empenham não identificam a sua razão de ser e eis que um sistema fundamental para a qualidade do ensino superior é reduzido a uma prática burocrática, a um formalismo inútil porque…não há regulamentação quanto às suas consequências. Não é eficaz. Daí a concluir-se que o modelo “está esgotado” e que deve ser todo revisto foi um passo.
Fico assim sem perceber o que se passa. Se é esta avaliação que não pode dar resultados, nomeadamente porque não contém avaliação externa, peritos estrangeiros e mais uma série de requisitos que certamente nunca serão preenchidos totalmente, ou se falta apenas aquele pequeno passo corajoso que é tirar pura e simplesmente as necessárias consequências do que se analisou, estudou e classificou como bom ou mau?
Já agora também podíamos perguntar como foi possível conviver este tempo todo com um sistema completamente inútil ou inadequado sem que nada se tivesse corrigido?
Lá se esgotou mais um modelo de avaliação. Pode ser que o próximo inclua um capítulo com os efeitos práticos…

António Ramos Rosa



Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

No Calcanhar do Vento (1987)