Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O boneco de corda


É engraçado como a nossa memória regista as coisas mais improváveis e depois, assim de repente, salta a imagem como se fosse um filme, estivemos lá e já não o saberíamos, não fosse um pretexto qualquer iluminar a cena remota.
Quando, há dias, vi numa montra um brinquedo que me chamou a atenção, experimentei aquela estranheza de, por um instante, me sentir fora do meu espaço e do meu tempo e reconheci-me na menina pequena que, há muitos anos atrás, estava no quintal em Luanda a brincar com um urso tão parecido com aquele que agora estava ali, do outro lado da montra.
Tinha sido prenda de Natal e era o brinquedo sensação, um urso vestido com casaco vermelho, calças às riscas pretas e brancas e sapatos de verniz preto. Para além do pêlo macio da sua cabeça, todo o corpo, escondido sob as roupas, era estranhamente rígido, feito em várias peças de metal articulado. No extremo dos braços, cada mão de luva branca segurava um prato de metal e estava na caixa assim, naquela posição esquisita, como se tivesse sido apanhado a fugir da banda de música antes de terminar o concerto.
O mistério desvendou-se quando se fez rodar a corda, uma espécie de borboleta de lata disfarçada sob o casaco. O urso animou-se, a cabeça virava para um lado e para o outro, os braços aproximavam-se e tóing!, os pratos batiam um ruído roufenho, uma e outra vez, enquanto as pernas lhe permitiam uns passinhos hesitantes pelo chão fora.
Aquele brinquedo era um deslumbramento, uma inovação total no reino da garotada e eu e a minhas irmãs viemos com ele para o quintal, onde podia andar sempre em frente, afastando-se a bater os pratos até se esgotar a corda.
A casa era rodeada de um muro baixinho que a deixava exposta aos olhares de quem passava na rua. Foi por isso que os miúdos negros se foram juntando na rua, colados ao muro, a olhar o boneco como quem vê uma aparição. Estavam silenciosos de espanto, cada um que passava engrossava o grupo e os de trás já começavam a empurrar os da frente para conseguirem apreciar o fenómeno.
Levámos então o urso para cima do muro, não sei se por simpatia se por vaidade, isso já a memória apagou, e pusemo-lo a andar naquela beira estreita, tóing, tóing, a avançar a direito ao ritmo dos pratos. De cada vez que acabava a corda, os miúdos negros faziam um alarido a pedir mais, voltando à admiração muda quando recomeçava a exibição.
Estávamos assim muito entretidas quando veio de dentro da casa a Eugénia, a empregada que se ocupava de nós. Largou aos gritos, aqueles já eram tempos de ameaça e medo, havia perigo naqueles ajuntamentos, mesmo que fossem crianças, tudo o que fosse turbulência era explosivo, e enxotou-nos para casa sem nos deixar recolher o brinquedo.
Olhámos para trás mesmo a tempo de ver o urso a acabar de percorrer o muro e a cair a pique no chão, com o estardalhaço do metal a desconjuntar-se, um prato a rolar pelo chão, a cabeça de lado e as pernas bambas, como se fosse uma marioneta desarticulada. Do lado de fora, um silêncio duro, ressentido, de quem não perdoa uma ilusão desfeita.
Olhei o urso na montra, por altura do Natal, mas o que vi de súbito foi o outro, o de corda, a tocar pratos, em equilíbrio no muro do quintal, e um magote de garotos fascinados, aprisionados na minha memória naquele gesto de pasmo inocente.

The BioDaVersity Code

Original a forma encontrada pela WWF para mais um alerta sobre o emprobrecimento biológico.
Inspirado no filme O Código de Da Vinci, este cartoon merece ser visto.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Francisco José Viegas - mais um livro de poemas

"Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
Chama-se: "Se me Comovesse o Amor", edições quasi.
É mais um dos livros de poemas de que Francisco José Viegas é autor.
Foi hoje lançado na casa Fernando Pessoa e o Autor revelou que era um livro assim que agora lhe apetecia fazer..."pequenino, onde está o que agora exactamente sinto".
Já o li todo...mas é um livro para se ir lendo...a poesia de que gosto vou-a lendo, há sempre um dia em que apetece chegar à estante e ler aquele poema.
Parabéns ao Francisco José Viegas, mais um belo livro na sua extensa obra literária e não só...como Pedro Mexia hoje disse, durante a apresentação, Francisco José Viegas tem uma singularidade: "faz variadíssimas coisas e todas bem"!
Uma das muitas que fez brilhantemente bem...foi o prefácio do "4ªRepública"!
Bairrismos à parte, os Transmontanos são assim!!!

Lisboa no Top Ten


Vá lá, uma boa notícia de vez em quando para animar! O DN de hoje dá notícia de que Lisboa está no topo das cidades a visitar em 2008, recomendada pela editora Shermans e pelo Yahoo Travel. Além de ser a mais barata da Europa Ocidental (como tudo é relativo!) é uma cidade lindissima para passear, com "lugares cheios de charme e cozinha inovadora".
Esta da cozinha inovadora é uma americanice, claro, eles eliminam da história tudo o que não conhecem, de modo que se compreende a "novidade" de nossa cozinha tradicional, se só agora é que deram por ela. Mas que é excelente, isso é, até já está na moda, a competir com o sushi, parece que os portugueses hesitam entre o peixe assado no forno com batatinhas e cebola e o peixe cru às lascas enrolado numas algas verdes. Gostos não se discutem...
O que interessa é que só somos ultrapassados nas recomendações pelo Butão, onde as tarifas para os estrangeiros são de 200 dólares/noite e a Gronelândia, para os masoquistas que queiram ir ver com os seus olhos os efeitos das mudanças climáticas. Por uma vez, acho que somos competitivos, sejam bem vindos os turistas a Lisboa!

"Jamais" aeroporto OTA...

"Jamais" se falará do aeroporto da OTA porque nunca chegará a acontecer! Lembram-se que era ponto assente a OTA!
Nunca a sociedade civil tinha mostrado uma tal força e uma tal capacidade de mobilização - num curto espaço de tempo - para contribuir para o escrutínio de uma decisão política tão importante para o futuro do nosso País. A pressão foi realmente fundamental!
Por isso, é justo relevar o papel vital que desempenhou em todo este processo.
Que grande alívio! Na ausência da sua intervenção teria avançado a OTA, a única localização existente porque as outras eram o "deserto"!
Fica aqui, portanto, a minha modesta homenagem à sociedade civil.

“Regras da selva”

Afinal, as “macacadas” podem ser muito úteis para ascender numa carreira.
Cientistas estudaram os comportamentos de macacos e chimpanzés na selva. Ao compararem este ambiente com o do trabalho concluíram pela enunciação de cinco “regras” que, aplicadas no dia a dia, poderão ser muito úteis para quem queira subir na vida.
1ª Regra – Saber trabalhar em equipa.
Esta conclusão resulta do facto dos macacos trocarem favores para atrair simpatia e obter algo no futuro! Não se esquecem de coçar os amigos!
2ª Regra – Ser amigo do chefe.
É importante ser amigo dos companheiros, mas se for do chefe melhor!
3ª Regra – Não guardar rancor.
“Os chimpanzés geralmente beijam-se e abraçam-se após uma luta”!
4ª Regra – Jogar limpo.
A quarta lição é saber jogar limpo e não ficar com os louros de um trabalho feito em equipa. Pode ser perigoso mais tarde. Os tipos têm boa memória.
5ª Regra – Ser bom chefe.
Evitar provocar stress nos subordinados é muito importante, senão os súbditos ficam desorientados e perdem a motivação.

Quem diria que os macacos podem ser bons mestres?
Mas, pelos vistos, na nossa espécie, as duas primeiras regras são suficientes para subir na vida….

Ratificação Parlamentar = Outra Promessa Incumprida…

E pronto: lá vamos ter ratificação parlamentar do Tratado de Lisboa.

Quero desde já deixar bem claro que sou totalmente favorável ao Tratado Europeu que foi assinado no passado dia 13 de Dezembro em Lisboa. Considero-o um passo fundamental para fortalecer a Europa e consolidar o projecto europeu. Uma Europa unida e vencedora é hoje indispensável – e desse contexto todos os países europeus retirarão vantagens incluindo, naturalmente, Portugal.

Porém, do meu ponto de vista é muito diferente, para os portugueses, que a ratificação do Tratado de Lisboa seja feita através de um referendo ou por via parlamentar.

Nem vou usar o argumento (e poderia fazê-lo) de que nunca foi realizado nenhum referendo europeu no nosso país – e que, portanto, esta seria uma óptima ocasião para o fazer.

Nem o argumento de ser quase a 100% certa a vitória do “sim” num eventual referendo que viesse a realizar-se no nosso país – pois, de acordo com todas as sondagens conhecidas sobre o assunto, é esmagadora a maioria da população portuguesa favorável ao projecto europeu.

Para mim a questão é muito simples: trata-se de uma promessa eleitoral que foi feita na última campanha para as eleições legislativas. E o que é prometido aos eleitores deve – tem que!... – ser depois cumprido. Já estamos todos cansados de ver promessas feitas durante campanhas eleitorais serem depois absolutamente metidas na gaveta porque “as circunstâncias se alteraram”. Lembram-se do “choque fiscal” de 2002 (que, como é sabido, tanto me diz…)? Ou das promessas de não introduzir portagens nas SCUT e de não aumentar os impostos em 2005? Ou, cá está, da promessa de referendar o Tratado Europeu que quer PS, quer PSD, fizeram na última campanha para as eleições legislativas, em Fevereiro de 2005?...

Ora, a propósito de “alteração de circunstâncias”, tem sido referido que o Tratado de Lisboa é muito diferente do Tratado Constitucional que franceses e holandeses fizeram abortar em referendos realizados na Primavera de 2005. E que a promessa eleitoral dizia respeito a “esse” Tratado Constitucional. Porém, basta uma leitura atenta para percebermos que o essencial do conteúdo do Tratado Constitucional está presente no Tratado de Lisboa. Numa percentagem, digamos, não inferior a 90%. Isto é, nada de substancial muda do Tratado Constitucional para o Tratado de Lisboa. “Alteração de circunstâncias”?!...

E também tenho ouvido que o facto de Portugal poder referendar o Tratado de Lisboa poderia tornar mais difícil a vida em outros países “menos europeístas” (cujo expoente máximo é o Reino Unido) no sentido em que poderia ser mais fácil reivindicar a realização de um referendo que poderia levar à rejeição deste Tratado. Com ratificação parlamentar em todos os países da União Europeia (excepto na Irlanda em que, por imperativos constitucionais tem que ser realizado um referendo – mas aí o resultado não será problemático), o problema, evidentemente, não se coloca: não há nenhum exemplo referendário “voluntário” a que recorrer…

Ora, aqui, quero referir apenas dois aspectos.

Primeiro: cada país deve tomar a decisão que julgar mais adequada e não optar por esta ou aquela solução apenas porque outro(s) país(es) a tomou. Não é cada um dos Estado em causa soberano?!...

Segundo: Mesmo tendo o Tratado de Lisboa sido assinado em Portugal, poderá o nosso país ser a referência para a Europa em matéria de referendo? Será o peso e a influência de Portugal de tal ordem que outros Estados-membros se veriam impelidos a imitá-lo?!... Francamente: quem dera que assim fosse…

Sinceramente: por mais argumentos que possam ser invocados, a minha opinião é que nenhum se sobrepõe aos compromissos assumidos internamente entre quem vota e quem é escolhido.
Creio que não andarei longe da verdade se disser que poucos factores existirão que distanciem mais o eleitorado e os eleitos, e que mais descredibilizem a classe política, do que prometer e depois não cumprir. Isto para além de que proceder assim é um total desrespeito para com os eleitores. E que motivos terão as populações para confiar, em eleições seguintes, naqueles que prometeram e depois não cumpriram?!... E se este sentimento for generalizado, que motivos existem realmente para se ir votar?!... Pois é, não há mesmo volta a dar: o que se promete aos eleitores nas campanhas tem mesmo, depois, que ser cumprido. Se assim não acontecer, é a própria democracia que é colocada em xeque.

O deserto de Alcochete!...

O Governo decidiu-se pela localização do aeroporto em Alcochete.
A Quercus, através do seu Presidente, e a Associação para a Protecção da Natureza já contestaram. Seria para admirar, se não o fizessem.
Por outras razões, dentro da ilogicidade em que vivemos e para que o Governo tem generosamente concorrido, também a escolha me parece abstrusa. Na sequência do que já referi, mas não é de mais repetir, Alcochete é, de facto, o pior dos sítios para o aeroporto!....
Primeiro, porque oficialmente existe um deserto no perímetro do Campo de Tiro e não se faz um aeroporto no deserto. Depois, porque vai provocar uma enorme pressão demográfica no deserto, com os malefícios consequentes sobre o deserto.
Segundo, porque se trata de um terreno plano, sem montanhas circundantes. O que impede, no céu, o exercício pleno dos “skills”, conhecimentos e virtualidades da pilotagem e, na terra, o exercício enriquecedor de vastas movimentações de terras.
Terceiro, porque se trata de um terreno seco, não pantanoso e não atravessado por rios. O que impede naturais obras de estacaria e consolidação dos terrenos, e não permite dar continuidade à experiência adquirida em Macau.
Quarto, porque não tem montes por perto que precisem de ser arrasados, ou centrais de combustíveis, que precisem de ser removidas. O que impede a obtenção de recomendáveis sinergias de obras públicas.
Quinto, porque fiz parte da tropa no Campo de Tiro, como aspirante miliciano, durante seis meses, e não posso ver esse local assim desfeito.
Sexto, porque o aeroporto em Alcochete é o aeroporto natural da Estremadura espanhola e de uma parte da Andaluzia. O que implica invasões, por carro e TGV, de milhares de espanhóis, e de lá “nem bom vento, nem bom casamento”.
Sétimo, porque se trata de um terreno do Estado, que não exige expropriações ou elas são diminutas em relação a outros locais. O que implica defraudar legítimos direitos adquiridos.
Oitavo, é que se trata de uma zona com muita caça. O que implicaria que muitos notáveis não mais seriam convidados para aí dar ao gatilho, como no meu tempo de oficial.
Nono, porque implica a travessia do Tejo. Com os problemas de eventuais quedas de pontes, já lucida e sobejamente teorizados por ilustres políticos.
Décimo, porque é um aeroporto para durar cem anos. O que vai retirar aos nossos políticos a oportunidade de construir outro, daqui a meia dúzia de anos!... E aos nossos ecologistas a oportunidade de novamente se expressarem no contra!...
Por isso, e face aos antecedentes, não percebo a posição governamental.

Os "meninós" que nos governam!...

Até ontem, o juízo do Governo, amplamente propagandeado na comunicação social, era dividir o aumento da pensão referente ao mês de Dezembro e o Subsídio de Natal de 2007 por todo o ano de 2008, para beneficiar os pensionistas!...
Ontem, o Governo anunciou que aqueles aumentos serão pagos de uma só vez. Certamente também para beneficiar os pensionistas.
Isto é, o Governo tomou duas decisões contraditórias para atingir o mesmo objectivo propalado: beneficiar os pensionistas.
Tal significa tão só que o objectivo do Governo nunca foi o benefício real dos pensionistas, mas apenas a propaganda, servindo-se das pensões. Tanto assim que o Governo chegou a chamar, pasme-se, “aumento extraordinário” à distribuição mensal da pensão referente ao mês de Dezembro e o Subsídio de Natal de 2007!...
Perante as reacções a uma decisão indefensável e a uma argumentação canhestra, o Governo recuou, e bem.
Mas confirma a ideia de que os assuntos de estado e que nos interessam a todos são vistos com a maior das displicências; consideram muitos “meninós” que nos governam que uma boa propaganda consegue sempre transformar decisões à medida das suas fracas cabeças em decisões ponderadas e reflectidas. Aliás, no círculo em que se movem, as suas ridículas decisões tendem a ser vistas como de longa visão e alcance.
O que não foi agora o caso, felizmente!...

Simone de Beauvoir, 100 anos


"É pela mulher, através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tirania, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo do mais áspero, do malogro superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo o mundo de significações que só existem pela mulher; ela é a substância das acções e dos sentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéis desmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos. Eis, pois, que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo o que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o Homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda a sabedoria. (…)Ele projecta nela tudo o que teme, o que ama e o que detesta (…) ela é todo o Outro. Enquanto Outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado.” Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, I, Os Factos e os Mitos


Faz hoje um século que nasceu Simone de Beauvoir. A minha homenagem a essa mulher extraordinária, inteligente, que revolucionou o discurso feminista ao apresentar a mulher como um ser inteiro, responsável e livre e não apenas como o outro que almeja a igualdade…
Sempre tive uma enorme admiração por ela, li apaixonadamente os seus livros, primeiro com surpresa, depois com deslumbramento, por fim com sentido crítico, mas sempre com a curiosidade e o encanto de quem encontra algo de novo e de desafrontado. Na minha geração, muito jovens ainda, Simone de Beauvoir foi sem dúvida uma influência marcante, pela afirmação ou pela recusa, e permaneceu depois uma referência, como filósofa e como escritora.
Podia falar sobre ela durante muito tempo sem sequer referir Sartre, cada um apropria-se dos outros à sua maneira, para mim Simone de Beauvoir não precisa de ser associada a mais ninguém, ela não é “o Outro”…"

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Mãos

Mãos de John Coplans

Há algum tempo, no decurso de uma conferência, terminei a minha apresentação com uma série de fotografias de John Coplans, pintor e fotógrafo, que, a partir de 1978 e durante 23 anos, começou a fotografar o seu corpo, mostrando imagens do seu envelhecimento. As mãos constituiu a sua primeira imagem tendo sido alvo de particular atenção ao longo do tempo. Para este autor o envelhecimento é uma arte e que melhor do que as mãos para o provar?
As mãos servem para tudo, amar, matar, escrever, esculpir, pintar, tocar, falar, insultar, curar, teclar, dançar, criar, destruir, beber, comer, bater, acariciar, rir, chorar e cumprimentar só para falar de algumas! A sua aparência é tão diversificada que basta, muitas vezes, olhar para elas para ler a personalidade, a idade ou a actividade do seu portador, até mesmo nos amputados. Ao apertar a mão, vulgaríssimo acto de saudação, podemos ajuizar muito sobre os nossos interlocutores. Não entrando pelas regras de etiqueta e de cortesia, é conhecido a sensação desagradável transmitida pelos excessos, caso dos quebra-ossos ou dos amanteigados!
Recordo que, em miúdo, algumas pessoas evitavam estender a mão no acto de cumprimentar ficando muitas vezes com a minha estranhamente estendida. Olhava, de imediato para os lados, incomodado pela falta de correspondência, tentando disfarçar o melhor que podia, porque a situação era mesmo embaraçante. Ficava furibundo.
Uma das pessoas que tinha este estranho comportamento era um médico, solteiro, de alguma idade, que usava um chapéu sebento, fato coçado, barba de dois dias e que volta e não volta – várias vezes ao dia - ia ao fontenário da Ponte da Praça ou à fonte do Pistolo lavar as mãos, regressando com as asas abertas e a pingar, porque não as limpava. Nos bombeiros, à noite, ou nas tardes dos Sábados e Domingos, o senhor doutor sentava-se, calado – nem me recordo do timbre da sua voz -, pegava, estranhamente, no Diário de Notícias, com as pontas dos dedos nas curtas margens não impressas e lia-o todo, inclusive anúncios. Assim que acabava de ler, levantava-se e lá ia percorrer umas centenas de metros lavar as mãos nos fontenários. Punha-me a pensar: - Como é que ele observaria os doentes?
Só mais tarde, na faculdade, é que fiquei a saber que o senhor, assim como outros, devia sofrer de uma perturbação obsessiva compulsiva.
Lavar as mãos é uma necessidade imperiosa para todos, como é fácil de compreender, sobretudo para os médicos, ao ponto de ainda há algum tempo o senhor ministro da saúde ter dado um “puxão de orelhas”, quando afirmou que “muitas mãos não são lavadas” e, como tal, seriam responsáveis por muitas infecções hospitalares. Não deixa de ter alguma razão, embora a forma peculiar como se debruçou sobre este assunto tenha originado alguns engulhos.
De acordo com um recente estudo, o risco de contrair uma gripe ou uma banal constipação é muito maior através das mãos do que os tradicionais beijinhos. Sendo assim torna-se necessário evitar os apertos de mãos, procedendo à sua lavagem imediata com sabão ou usar desinfectantes que contenham álcool. Na prática não é muito fácil. Não estou a ver ninguém a dizer para o seu vizinho ou amigo: - Eh pá! Estás constipado?! Não me estendas a mão, dá-me um beijinho! Mas se for a vizinha ou uma amiga, então é certo e sabido: - Já sabe que dar beijinhos é muito menos perigoso do que apertar as mãos? É verdade! Está cientificamente provado.
Imagino o que faria o tal médico da terra se tivesse tido acesso a esta informação! Mas também com a barba de dois dias e sem as “mãos”…

Inflação em 2008: Pinho contraria (muito bem) previsão do BdeP

Nas previsões económicas ontem divulgadas, o BdeP aponta para o corrente ano uma taxa de inflação superior em 0,3 pp à que tinha sido anunciada pelo Governo: 2,4% é a taxa prevista pelo BdeP.
Erro claro.
O BdeP parece não ter ainda interiorizado a noção de que a inflação deixou de depender da evolução dos preços em Portugal: é fixada pelo Governo no início do ano e é inamovível nesse período, qualquer que seja o comportamento dos preços.
Assim, fez bem o Ministro Manuel Pinho em ter dito ontem que apesar de o BdeP anunciar uma inflação mais elevada, ele continuava convencido de que ela não seria superior aos 2,1% já fixados pelo Governo.
Julgo que esta inovação tem inegáveis vantagens: (i) reduz a incerteza económica, estimulando as decisões de investimento; (ii) pacifica as relações laborais, uma vez que se torna muito mais fácil ajustar as remunerações a uma inflação certa, que não admite revisões; (iii) agiliza os mecanismos de fixação de preços na medida em que estes, deixando de ter qualquer impacto sobre a inflação, também não constituem motivo de preocupação para as Autoridades que perdem a tentação de travar os preços, em especial os que ainda estão sujeitos a decisão administrativa.
No cenário pouco risonho que se desenha para 2008 e que a derrota de ontem, embora por escassa margem, de Barack Obama no New Hampshire veio tornar ainda mais lúgubre, esta inovação portuguesa que permite esterilizar os efeitos das variações de preços sobre o nível da inflação constitui uma das poucas notícias agradáveis.
Não será também possível conseguir um mecanismo semelhante para o PIB, tornando o respectivo crescimento insensível, por exemplo, às variações da conjuntura externa?
Talvez que, com algum esforço de investigação, se consiga lá chegar.
Então sim, teríamos motivos para nos tranquilizarmos ainda mais.

O País em notícia e...os Parodiantes de Lisboa

Ontem de manhã ía eu, tranquila e bem disposta, para mais uma reunião sobre o encerramento dos SAP's no Concelho do Seixal, no âmbito da Assembleia Municipal, apanhando o habitual engarrafamento da ponte 25 de Abril, e eis que "salta" o noticiário da TSF.
Notícia de abertura: o surreal discurso do Secretário de Estado da Segurança Social sobre os retroactivos das pensões (aqui já tão bem escalpelizado pelo Dr. Pinho Cardão) a desfazer-se em explicar o inexplicável...numa "bondade" irritante disfarçada de ingerência na gestão das parcas verbas dos pensionistas...fiquei siderada!
Pensei como é que um Ministro como Vieira da Silva (que foi meu colega de comissão parlamentar e que me deixou uma imagem de homem inteligente, sabedor destas matérias e hábil politicamente) consentia que um seu Secretário de Estado proferisse semelhantes aberrações, ininteligíveis por um único cidadão, desde o mais esclarecido ao mais iletrado.
Segunda notícia: em Marrazes, Leiria, o poder autárquico da terra e a paróquia decidiram transformar as capelas mortuárias em lugar para actividades extra-curriculares, ATL's, dos alunos do 1º ciclo!!!
Parece que não havia mortos bastantes para ocuparem toda a área das capelas e, então, nada mais apropriado, acolhedor, sem traumas para os Pais ou Avós das crianças...do que enfiá-las num espaço, "já livre de quaisquer memórias", segundo o Padre da Paróquia!

Desliguei o rádio do carro!
Lembrei-me dos Parodiantes de Lisboa; aquelas duas notícias, que eu tive o azar de ouvir, pareciam rábulas, no seu melhor, feitas pelos Parodiantes, que não perdiam pitada que lhes desse azo a uma criação humorística geralmente bem feita, popular e com bom gosto.
Mas não, isto é tudo verdade...os "Parodiantes" agora são outros...sem humor, sem povo, sem bom gosto, sem perceberem o que é fazer POLÍTICA.

E é esta gente que nos governa!...

Referi-me ontem à incompreensível atitude do governo de não pagar por inteiro os retroactivos referentes ao aumento das pensões, distribuindo-os pelas mensalidades de 2008. Mais do que o acto, mereceu-me repulsa a justificação oficial que ouvi e indiquei no texto.
Mas o pior estava para vir. É que a justificação refinou-se e sofisticou-se ao nível do mais elaborado e saloio esplendor tecnocrático.
Segundo o Diário Digital, o Secretário de Estado da Segurança Social justificou a decisão, “porque, apesar de o aumento definido da velha para a nova pensão ter sido de 2,4 por cento, o facto de o Governo ter decidido dividir o valor devido por Dezembro pelos restantes meses do ano, integrando-o na pensão, faz com que o aumento da velha para a nova pensão seja, na prática, de 2,7 por cento…e é sobre essa base que será calculado o valor do próximo ano”.
Já adivinhava no meu post anterior que o aumento oficial passaria a ser calculado na nova base; só não pensava é que fosse tão de imediato, o que mais releva a suprema demagogia da medida.
Mas o paroxismo da maldade está no descaramento de se salientar que essas três milésimas de aumento vão potenciar os aumentos do próximo ano, deixando entender que esse facto tem algum significado real!...
Para uma pensão de 500 euros em 2007, o aumento de 2008 traduz-se em 12 euros, transformados em 13,5 euros nas contas do Governo, uma diferença de 1,5 euros mensal. Se o aumento de 2009 for igual aos 2,4% deste ano, o impacto na pensão de tal sofisticado acto governamental é de 3,6 cêntimos por mês, num total de 50 cêntimos no ano!...
E assim, em nome da propaganda, vamos sendo desavergonhadamente governados!...
Declaração de interesses: Embora tenha descontado e continue a descontar para a S. Social, estes ou outros cálculos do Governo são-me pessoalmente indiferentes, já que espero que o Fundo de Pensões ao qual estou afecto venha a cumprir a sua missão.

Mais respeito, sim?

Compreendo que o sr. Engº José Sócrates relativize a importância dos seus compromissos para com o eleitorado. Já tinha quebrado, antes, promessas eleitorais. Esta, da promoção do referendo para a ratificação do tratado reformador das instituições comunitárias não traz, por isso, qualquer novidade nem provoca, por aí, qualquer especial emoção.
Compreendo que o Tratado de Lisboa mantendo - por vontade expressa dos actuais dirigentes europeus - a lógica aristocrática do governo da União, não estimule particularmente a vontade de obter uma legitimação popular sobre a proposta de reforma das instituições.
Compreendo também que Sócrates queira capitalizar para si o impacto de uma presidência bem sucedida no propósito de rapidamente fechar as negociações e assinar o texto do tratado, evitando que um debate sobre os méritos e deméritos do projecto europeu fizesse esfumar o suave perfume do sucesso.
Compreeendo que o Engº Sócrates não queira ser visto pelo seu amigo Sarkozi como o "traidor" ao compromisso de arrumar de vez o assunto do novo modelo institucional, para que se pudesse passar à fase da legitimação do domínio político do eixo franco-alemão e do vigilante caminho paralelo do Reino Unido.
Compreendo que a euforia "porreiro, pá!" tenha sido antecipadamente ensaiada após um necessário e prévio compromisso entre as lideranças dos Estados (por mais negada que seja) e que o referendo não seja compatível com esse acordo.
Compreendo que, no plano interno, todas as condições, todas as solidariedades relevantes tenham sido garantidas para que o Engº Sócrates e o PS não corressem qualquer risco político na tomada da decisão de rejeitar o referendo.
Compreendo que o Engº Sócrates entenda que o povo é ignato, incapaz de decidir sobre o seu futuro, e que os políticos são incompetentes para explicar não o texto mas o sentido e o alcance do Tratado de Lisboa, e por isso se descartem dessa responsabilidade.
Compreendo tudo quanto antecede.
Mas não aceito o atentado à inteligência de todos nós que é a explicação dada pelo senhor Primeiro-Ministro e secretário-geral do partido mais votado para rejeitar o referendo e quebrar a promessa que ninguém o obrigou a fazer. A de que o tratado já não se chama constitucional, mas sim de Lisboa!
Haja respeito para que se sinta que ainda existe alguma decência na política.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O País do Governo e o “Nosso País” (III)

Foram hoje conhecidas as perspectivas do Banco de Portugal para a economia portuguesa em 2008 e 2009. De acordo com o Banco Central, Portugal irá crescer 2% neste ano e 2.3% em 2009. Note-se que, para 2008, a projecção agora apresentada constitui uma revisão em baixa de 0.2 pontos percentuais face ao anterior valor, reflectindo o aumento do risco de crédito à escala global, a subjacente turbulência dos mercados financeiros internacionais, e os efeitos – por conhecer – sobre a economia real.

Relevante é igualmente ver que o Banco Central acredita que o consumo privado será menos dinâmico em 2008 (1.1%) do que já o foi em 2007 (1.2%) e que as exportações crescerão 4.9% (contra 7% estimados para 2007 e os anteriormente previsto para 2008 6.5%)… Ora, onde é que o Banco de Portugal vai “descobrir” um crescimento de 2% em 2008? No investimento que, de acordo com as projecções agora apresentadas, deverá subir 3.3% - mais do que em 2007 (2.6%) e do que os anteriormente previstos 3.1% para este ano!... Não parece uma certa fé da parte do Banco Central?... Mesmo com as compras de material de transporte aéreo (aviões para a TAP), que já se iniciaram em 2007), dado que os últimos indicadores para o investimento mostram uma deterioração da situação deste… não será um cenário demasiado optimista?...

Enfim, em geral, a verdade é que o cenário do Banco de Portugal vem confirmar as projecções da Comissão Europeia e da OCDE: crescimento de 2% em 2008 e pouco superior a 2% em 2009… que não posso deixar de confrontar com a promessa de José Sócrates durante a campanha de 2005, de crescermos 3% no próximo ano, o final desta legislatura. ... Regista-se, assim, uma diferença que não é pequena: quase um ponto percentual entre as projecções que foram apresentadas e a promessa então feita – o que, em minha opinião, deita por terra qualquer possibilidade, por mais ínfima que ela pudesse ser, de Portugal crescer 3% em 2009.

Para além do absurdo que é prometer um certo nível de crescimento (que não se pode decretar…), já em Fevereiro de 2005 era possível prever (e escrevi-o) que essa promessa não iria ser cumprida, dadas as debilidades estruturais que a nossa economia atravessava – e ainda atravessa. E isto por mais que o Governo estivesse a governar bem, porque quaisquer reformas que sejam realizadas levam tempo até produzirem efeitos. Ora, não estando o Executivo Socialista a governar bem em diversas áreas – pelo menos em minha opinião – claro que esse objectivo fica ainda mais longínquo…

Aliás, não resisto a terminar com os números já conhecidos para o crescimento do PIB nos países da União Europeia (UE) no terceiro trimestre de 2007. Apesar de haver resultados para apenas 17 países, os maiores (Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha) já são conhecidos, pelo que o resultado preliminar apurado será já muito próximo do final. Para Portugal, o cálculo foi apresentado pelo INE e revelou que, em termos homólogos (isto é, comparando o terceiro trimestre de 2007 com o mesmo período de 2006), Portugal cresceu 1.8%, o penúltimo resultado de entre os já conhecidos. E como a maioria dos países por apurar é de leste – que costumam crescer bastante mais do que nós – não me surpreenderia que, mesmo entre os 27 Estados-membros da UE, ficássemos com o segundo pior desempenho (a UE-27 e a Zona Euro cresceram 2.9% e 2.7%, respectivamente). E face ao trimestre anterior Portugal estagnou: crescimento de 0%. Na UE-27 tivemos 0.8% e na Zona Euro 0.7%. Aqui o nosso registo foi o pior de entre os países já apurados e creio que também no crescimento em cadeia nos situaremos na cauda da Europa quando todos os países forem apurados. Espantosamente – custou-me imenso a acreditar, mas foi mesmo verdade!... –, quer o Primeiro-Ministro, quer o Ministro da Economia acharam esta informação “muito positiva” e vangloriaram-se perante estes resultados!... Mas como pode alguém regozijar-se perante um desempenho que é o pior da União Europeia?!... Com mais um trimestre em que os portugueses ficaram mais pobres face aos seus congéneres europeus?!...

Lá está a distância entre a ficção e a realidade… Será possível encontrar maior diferença entre a “redoma” em que se encontra quem dirige os destinos de Portugal e a realidade dos números e que todos sentimos no dia-a-dia?… Em que país viverá o Governo?!...

Um governo sem alma e avarento!...

O Governo aumentou as pensões de reforma, com referência a Dezembro passado. Seria natural, lógico, obrigatório e de bom senso que os aumentos retroactivos referentes a esse mês e ao Subsídio da Natal fossem pagos de uma só vez.
Pois não: o Governo decidiu que esses pequeníssimos aumentos (creio que 24 euros brutos, por junto, para quem tem uma pensão de 500 euros) fossem pagos ao longo do ano de 2008!...O que significa, para alguns pensionistas, uns míseros cêntimos ao fim de cada mês. Medida verdadeiramente miserável, se nos lembrarmos que os 24 euros brutos podiam, pelo menos, servir para comprar um medicamento. E há muita gente com pensões abaixo de 500 euros.
Seria de bom decoro e denotaria alguma vergonha que, pelo menos, o Governo nem tentasse justificar o acto. Mas não. O ilustre Secretário de Estado do pelouro veio, em grande descaro, dizer que essa decisão não retirava poder de compra (como se receber agora e aos bochechos fosse o mesmo…) e teve como finalidade evitar que os pensionistas sentissem uma diminuição da pensão nos meses seguintes, em relação à que receberiam em Janeiro, se neste mês recebessem os retroactivos por inteiro. Demagogia pura e dura e sem olhar a meios!...
O que o Governo fez foi miserável e vergonhoso. Trocou um mínimo conforto de muita gente pela possibilidade de propagandear mais uns décimos na percentagem da pensão mensal de 2008 em relação a 2007!...
Uma vergonha, à custa dos mais indefesos, que tanto diz proteger!...

Impressões de Londres III

Mais de vinte raparigas, com idade inferior a 16 anos, ficam grávidas, em cada dia que passa, noticiaram os jornais ingleses. Mais de metade terminam em aborto.
Lá, como cá, atribuiu-se o fenómeno ao falhanço das estratégias da educação sexual e vários professores, sociólogos, psicólogos e médicos pronunciaram-se sobre o tema. Um deles referiu mesmo, aludindo à facilidade da prática, que “é vital começar por ensinar às teenagers que ter um bebé não é a mesma coisa que adquirir um acessório de moda, por exemplo uma mala de mão”.
Lá, como cá, não basta ensinar, se não se quiser aprender.
Aliás, na matéria em questão, as miúdas parecem estar cada vez mais sabidonas!...

Dia dos Reis Magos


"Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos, vindos do oriente (…) E eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles até que parou sobre o lugar onde estava o Menino com Maria, sua mãe e, prostrando-se, adoraram-no. Em seguida, abriram os seus tesouros e ofereceram-lhe presentes:ouro, incenso e mirra” (Mateus 2, 1-11-12)

Rezam as escrituras que, uns dias depois do nascimento de Jesus, chegaram vários reis, ou magos, não se sabe bem qual a qualidade que os distinguia, para O adorarem. Talvez fossem mais magos que reis, uma vez que souberam ver a estrela no céu e seguiram-na, de qualquer modo a sua sabedoria fazia-os superiores e improváveis submissos a um pobre camponês. Imagine-se a surpresa daquelas pobres gentes, a confusão que ia em Belém por aquelas alturas, um amontoado de gente deslocada por causa do recenseamento, a dormirem ao relento, e logo vários magos, montados nos seus camelos, à procura de uma criança que teria nascido numa das grutas que havia pelos campos!
Hoje não precisamos ler as estrelas, nem reconhecer sinais misteriosos, temos uns GPS que nos levam onde queremos mas também esses é preciso programar, se não soubermos onde queremos ir não nos servem de nada… Mas adiante, assentemos que as estranhas visitas eram astrólogos, portanto magos, assim se chamavam e chamam os que entendem o que os outros não lêem, por muito que se esforcem.
Os reis eram talvez três, Mateus não nos diz quantos, mas mais também não era preciso porque o imaginário popular tratou de encontrar uma boa explicação para esse número provável. É que, diz-se e não vejo porque não acreditar, que um, Belchior, era branco, Gaspar era amarelo e Baltazar era negro, interessa pouco que nos digam que chegaram do Oriente, talvez se tivessem encontrado algures para que parecesse assim, os Reis do Oriente eram os mais poderosos, seria talvez mais impressivo.
O que interessa é que o que passou à história foi que ali se representavam todas as raças da terra. A globalização, portanto, ali bem presente, foram precisos dois milénios completos para lhe darmos o nome certo e lhe tirarmos daí as consequências. É que a divindade deveria reunir todas as raças do globo, Ele não as distinguia e a estrela a todos guiava até Ele, desde que o procurassem.
Além disso, os reis magos levavam presentes, ainda hoje, em memória desse gesto, a forma preferida de manifestar amor, afecto ou respeito, pelos presentes se depreende a mensagem e a intenção de quem os dá.
Esses presentes eram ouro, incenso e mirra. Destes, só o ouro é que ainda é de sentido imediato ao comum dos mortais, o símbolo do poder, da riqueza que persiste, do valor material mais duradouro.
O incenso, poucos sabem e menos viram ou cheiraram os fuminhos na igreja, o cheiro acre queimado em honra de Deus, é o símbolo da divindade, talvez por ser forte mas etéreo, imaterial, por invadir todo o espaço e ser impossível de delimitar.
E a mirra, para este já é preciso ir ao dicionário, é uma resina amarga que tem efeitos terapêuticos, anti sépticos, mas que era muito usada pelos egípcios para embalsamar e perfumar os mortos, seria talvez o símbolo da condição humana, do risco do sofrimento e da certeza da morte.
Para além da visita dos Reis Magos e dos seus faustosos e simbólicos presentes, também os pastores se ajoelharam perante o Menino, nesse gesto igualados aos poderosos, ou os poderosos a eles. Mas conta uma história, que também ouvi, que os seus humildes presentes, figos, mel, leite, farinha, nozes, foram todos misturados e levados ao forno por um padeiro, que assim fabricou o fantástico bolo Rei, todos os presentes num só, que se partilha à mesa em celebração do dia em que a Estrela mostrou o caminho para que se encontrassem, sem distinção, todos os homens.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

"Honras" da imprensa estrangeira...

Ainda o caso do Inspector-geral da ASAE - António Nunes - “apanhado” a fumar às primeiras horas da entrada em vigor da Lei do Tabaco. Não poderia ter sido mais oportuno. No sítio certo, à hora certa e com o fotógrafo certo.
Um caso que vai continuar a dar muito que falar, que já conseguiu "honras" da imprensa estrangeira de referência. Afinal não é todos os dias que Portugal é notícia lá fora! O artigo publicado na Revista Time (edição de 4.01.2008) não lhe poupa críticas! Por cá, tudo bem! Não há qualquer problema…
Desculpem a insistência, mas há coisas incompreensíveis! Parece que é hoje que vamos saber como é que a Lei do Tabaco se aplica aos casinos. Alguém se atreve a fazer um prognóstico?
Na Time ler em: http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/europe/article3129006.ece

Enforcer Antonio Nunes caught with smoking cigar
Thomas Catan in Madrid

Portuguese smokers have been confined to the pavements since January 1, when new legislation banned smoking in many pubs and public places; so they were outraged to see a photograph of the man who had sponsored the legislation lighting up a cigar in a casino in the early hours of New Year’s Day.
António Nunes, the head of the Portuguese Food Standards Agency, who is charged with enforcing the new regulations, said that he had not realised they also applied to casinos.
“We must investigate to see if it is within the new law,” he said, in an attempt to explain his actions.
The Health Ministry promptly replied that his cigar was most definitely illegal. Smoking was banned in casinos as well as bars and restaurants.
Campaigners said that Mr Nunes had set a deeply unfortunate example, making a mockery of the law within hours of its introduction.
“It is a counter-productive image,” said LuÍs Rebelo, the president of the Portuguese Confederation for the Prevention of Tobacco Addiction. “He must have been misquoted because it is inconceivable that he does not know the law.” Portugal’s new regulations are relatively lax compared with smoking bans recently introduced in Britain and other European countries.
(…)

O ambiente ao serviço das Quercus

A Quercus foi ao Procurador-Geral da República levar dossiers sobre supostas ilegalidades no licenciamento de novos projectos, susceptíveis de procedimentos criminais. Estará no seu direito.
Mas o Procurador-Geral deveria também investigar toda a pressão ilegítima e os boicotes da Quercus à grande maioria dos projectos empresariais de grande ou média importância para este país. E os dinheiros públicos deitados ao lixo, devido à sua acção.
E, a propósito: alguém me saberá informar da representatividade da Quercus? Quantos filiados tem? Como são eleitos os seus dirigentes? Há quanto tempo foram as últimas eleições? Quantos Presidentes teve?
Nota: Contestar muitas das acções da Quercus e de outras associações ditas ambientalistas não é lutar contra o ambiente; ao contrário, é uma acção positiva em favor do ambiente.

"PP venceu PS nas eleições dos bombeiros"

A notícia, no interior do JN, não despertará grandes atenções.
E no entanto é um retrato do estado a que a sociedade chegou numa época em que nem as associações humanitárias escapam à partidarite reinante.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Taylorismo encarnado!...

Titula hoje um jornal, referindo-se ao Presidente do “glorioso” da 2ª Circular, que “Vieira vai dar um murro na mesa".
Na Luz, cada um desenvolve as actividades para que se sente mais vocacionado: Vieira dá murros na mesa e Katsouranis dá murros no Luisão!...
Vieira revela-se um lídimo taylorista, seguindo resolutamente os princípios de uma organização racional do trabalho.
Fica assim claro que a especialização em futebol não faz parte daquela escola!...

Rainhas e reis do disparate.

De médico e de louco todos temos um pouco. Provérbio bem conhecido que pode apresentar outras versões como a seguinte: de médico, de sábio e de louco todos temos um pouco. Uma verdade que ninguém põe em causa. Se for pouco nada de especial à excepção de sábio. É mau ser-se pouco sábio.
Esta observação prende-se com o facto de muitas individualidades e figuras públicas transmitirem ideias, conceitos ou opiniões que cientificamente não são correctos. Atendendo ao facto de serem ouvidas e respeitadas por uma fatia nada pequena do público, este, ao aceitar a informação que lhe é transmitida, corre o risco de ser mal informado condicionando negativamente os seus comportamentos e atitudes.
Vários exemplos foram seleccionados pela organização Sense about Science que editou recentemente um pequeno folheto denunciando o comportamento de muita gente famosa.
Nesse texto estão descritas algumas frases de várias artistas tais como: “ Estou a combater os genes perigosos através de métodos naturais, por isso estou convicta de que se comer alimentos biológicos é possível evitar os tumores”; ou então: “ A pele é o órgão mais extenso do corpo. É preciso ter cuidado porque muitos produtos para a pele utilizam os mesmos produtos petroquímicos existentes nos anticongelantes dos automóveis”. A própria Madona afirmou a necessidade de “neutralizar a radioactividade” (que não é possível) e a ex-mulher de Paul McCartney chega a relacionar a ingestão de leite com a obesidade ao passo que Juliet Stevenson afirmou ter medo da vacina tríplice porque “se injectam três doenças de uma só vez nas crianças”. Jo Wood, mulher do guitarrista dos Rolling Stones Ron Wood e dona de uma marca de produtos de beleza orgânicos, “decretou” que “O que se coloca na pele vai direitinho para a corrente sanguínea.” Outras chegaram a afirmar que “as mulheres devem limpar o seu sistema linfático para evitar o cancro da mama”.
Entre nós, é habitual, nalguns programas de entretenimento, ouvir várias personalidades a dissertarem sobre certos assuntos sem qualquer fundamento científico inculcando conceitos errados nas cabecinhas dos ouvintes, para não falar da utilização publicitária de várias figuras públicas que se prestam a esses fins.
A organização Sense About Science tem denunciado estas situações no Reino Unido sugerindo que as celebridades, antes de abrirem as suas “reais” boquinhas, deviam inteirar-se junto da comunidade científica sobre o valor e a correcção das suas afirmações. Para o efeito disponibilizam uma linha telefónica e outros meios.
Ah, já me esquecia. Apesar de ter sido feita uma distribuição maciça de folhetos nos lugares mais frequentados pelo jet set, até agora nenhum dos visados tentou redimir-se das suas afirmações ou feito qualquer inscrição em aulas de ciências…

Transformar bons exemplos em "boas notícias"...

O clima em Portugal é, há muito, de desilusão, de descrédito, de desconfiança e até de uma certa tendência para a auto-destruição. Com estes estados de espírito - para os quais todos acabamos, consciente ou inconscientemente, por contribuir, mesmo aqueles porventura mais esperançados e optimistas - passam-nos ao lado “casos” bem sucedidos da nossa economia que mereceriam da nossa parte mais atenção.
Quero eu dizer com isto, que deveríamos – aqueles que estão em posição de o fazer – transformar esses casos em "boas notícias", essencialmente porque são bons exemplos de que os portugueses também sabem fazer coisas bem feitas, que também podem ter êxitos, que têm empresários empreendedores e que se preocupam em motivar e premiar os seus trabalhadores, que têm visão estratégica e de futuro, que também sabem competir, que também sabem reconhecer a importância da inovação e do desenvolvimento na produção de riqueza, que sabem incluir-se na globalização, que têm visão estratégica, que também querem correr riscos e que sabem investir hoje para colher amanhã.
Tenho escrito várias vezes que devemos falar das empresas e dos projectos bem sucedidos e evidenciar o empreendedorismo económico que contribuem para melhorar a produtividade e a qualidade do investimento e do trabalho.
É neste contexto que deixo aqui a notícia recente sobre o licenciamento do primeiro remédio português, um antiepiléptico cuja molécula foi descoberta e é patenteada pelos Laboratórios Bial, o maior grupo farmacêutico nacional.
Este extraordinário desempenho deve-se à visão estratégica, à capacidade de gestão e ao elevado nível de empreendedorismo da Bial que apostou forte na investigação e desenvolvimento. A empresa direcciona mais de 20% da sua facturação anual para a investigação de novos fármacos, na área do sistema nervoso central e do sistema cardiovascular.
Esta aposta culminou com aquela assinalável marca para a Bial mas também para o País, cujo valor para a melhoria da saúde foi reconhecido internacionlamente.
Segundo dados vindos a público, a Bial investiu nos últimos treze anos cerca de 450 milhões de dólares para este resultado, sem qualquer retorno até à data. O licenciamento exclusivo do novo medicamento antiepiléptico nos mercados dos EUA e do Canadá, que será feito através de uma parceria com uma empresa americana, tem um potencial de facturação que é expectável possa vir a representar 5% de quota do mercado das drogas epilépticas avaliada em 4 mil milhões de dólares.
Casos como estes devem ser notícia. Devem constituir-se como "boas notícias" e portanto serem divulgadas e trabalhadas como tal. Mas não, continuamos a anunciar programas e “choques” e a noticiar desgraças e dramas políticos, sem querermos ver que os portugueses precisam de sentir e acreditar que são exemplos como a Bial que podem realmente mudar o País!

Impressões londrinas-O vulto e a burka II

Londres é mesmo uma cidade muito especial, onde o insólito acontece a cada passo.
Entrei para tomar um café num dos numerosos “pronto-a-comer” da cidade. Na bicha ao lado, um vulto vestido da cabeça aos pés, cara tapada, só dois buracos nos olhos, não sei se era nikab ou burka que trajava.
Comecei a matutar de mim para comigo como é que ela conseguiria tomar um café ou comer um bolo com tal vestimenta. Entraria apenas para comprar uma sanduíche para levar? E dispus-me a ver o que aconteceria.
Depois de aviado, o vulto procurou com os olhos uma mesa vaga. Havia duas ou três no centro, mas essas não pareciam servir-lhe. Hesitou um ligeiro segundo entre permanecer e sair de imediato, quando providencialmente vagou uma mesa redonda, pequena, numa das esquinas do restaurante. Precipitou-se, ágil, para lá. Empurrou a mesa totalmente para o canto e sentou-se tão de costas para a sala e tão virada para a parede que só uma observação de frente, mas impossível, permitiria que se lhe visse o rosto. Com um movimento, e mantendo as faces tapadas, a severa cobertura da cara terá admitido uma abertura ao nível da parte da frente, já que vi o braço da presumivelmente mulher mover-se na direcção da boca.
Saí então. Não sei se era nova ou velha, bonita ou feia ou assim, assim. Também não sei se o vestuário advinha de forte convicção própria ou de subjugação passiva aos usos e costumes em que nasceu.
Mas pensei como é intolerável que uma mulher, neste ano de 2008, não possa mostrar a cara à luz do sol, nem possa comer, de cara destapada, uma simples sanduíche num qualquer restaurante ou numa qualquer rua de um qualquer país.
Por mais que muitos não queiram, esta é mesmo uma questão civilizacional. E não há multiculturalismo que lhe valha!...

sábado, 5 de janeiro de 2008

“Endireitas”

No decurso de um telejornal foi apresentada uma reportagem sobre um endireita, o Sr. Chico de Alter, que há mais de cinquenta anos vem prestando o seu contributo à comunidade. É de tal forma conhecido que, segundo o próprio, são os médicos que lhe enviam os doentes chegando a tratá-lo por colega!
Vi o senhor a palpar os ossos e tendões das pessoas e, de repente, ouvia-se um ruído característico acompanhado por um ai suspiroso dos doentes. Um ai muito interessante que me fez lembrar o alívio das dores que alguns doentes descrevem da seguinte maneira: - Ai senhor doutor, foi como a graça de Deus!
De acordo com a entrevista, o "colega" põe no seu devido lugar os ossos e tendões em apenas num minuto. Nem mais nem menos, um minuto! Também observei o senhor a ser esportulado de uma certa quantia a qual enfiou de imediato no bolso do lado direito do casaco. Não sei se passou o respectivo recibo e se o mesmo serve para descontar no IRS. O que é certo é que não lhe falta freguesia.
Curioso, tentei sabei quem era tamanha personalidade. Confesso que desconhecia a existência do curandeiro e não me sentia bem se não alargasse os meus conhecimentos. Acabei por saber que o senhor Francisco da Silva Mendes, o Endireita de Alter, foi distinguido no dia do município com a medalha de mérito municipal grau ouro.
A pompa e circunstância que rodeou a homenagem está bem retratada na citação seguinte extraída do Jornal regional.com (in Alto Alentejo): “…Com a centenária Banda Municipal Alterense a abrir o desfile e seguindo-se os cavalos do Clube Equestre, fez-se o cortejo entre o Largo do Município e o Palácio de Álamo, com os autarcas a pé, bem como o chefe de Gabinete do governador Civil… e os homenageados transportados no trem da Coudelaria. Num salão nobre repleto de gente, um homem simples recebeu com visível comoção a medalha de ouro de mérito municipal, e o elogio do homenageado esteve a cargo de António Brazão Ferreira que falou sobre esta pessoa humilde «num país subserviente aos títulos de doutor e de engenheiro», e comparou o Endireita a outras personalidades de fraca escolaridade, como Amália ou Eusébio que «levam o nome de Portugal ao mundo, como Mestre Chico leva o de Alter»".
Aqui está um bom exemplo para resolver muitos problemas de saúde. O senhor ministro podia aproveitá-lo e até, porque não, promover escolas de especialistas nestas práticas.
Se os nossos governantes e responsáveis fossem tão eficientes como o “Endireita de Alter”, já estaríamos endireitados há muito evitando que andássemos tão cabisbaixos..
Olhem para o senhor Chico de Alter. Olhem. Se fizerem como ele ainda podem chegar a comendadores, com pompa e circunstância…

MEDO, o poder do terrorismo...

O poder do terrorismo mostrou de novo a sua verdadeira face, ao conduzir ao cancelamento do Rally Lisboa-Dakar. Esse poder chama-se MEDO. Um poder temível para todos os que prezam a vida.
Foi o medo, atentatório da vida e anunciante da morte, que terá conduzido à solução radical de não deixar partir o Lisboa-Dakar.
As "Razões de Estado", apontadas por várias fontes, que forçaram o cancelamento do Lisboa-Dakar são a expressão política da razão fortíssima que explica a gravidade das decisões, o medo do terrorismo. Acreditando nas informações trazidas a público que justificaram a decisão do governo francês, sou de opinião que foi melhor assim, pois estando em risco vidas, nada, mas mesmo nada, poderia explicar que uma tal decisão não tivesse sido tomada se o terror, a violência e a morte tomassem conta da prova. Na posse de informação necessariamente muito grave, é caso para nos perguntarmos com que direito, com que (ir)responsabilidade ou a que título, o Lisboa-Dakar poderia ter avançado!?
O poder do terrorismo atingiu neste caso uma eficácia mediática muito elevada. É capaz de ser para o terrorismo demoníaco que nos ameaça, e que nos tira pedaços da nossa vida e a nossa própria vida, um resultado tão bom ou melhor que a tragédia da morte!?
Desta vez não venceu a eficácia operacional do terrorismo, mas venceu a eficácia mediática, igualmente poderosa.
Que consequências tirar desta nova ordem internacional ditada pela ameaça do terrorismo? Que podemos fazer para nos defendermos? Que preço estamos dispostos a pagar? Para onde vamos? Com o que é que podemos contar?
Tudo devemos fazer para combater a desgraça do terrorismo e devemos também aceitar que para vivermos em maior segurança face à ameaça teremos que abdicar de algumas "liberdades" que estamos a habituados a ter.

2008: o ano do terror

"...Um preso pode pedir uma seringa nova numa prisão para injectar droga, mas não vai poder fumar...;...em locais como a Feira da Golegã, a Fatacil, a Ovibeja ou a Feira da Ladra, mesmo ao ar livre, não se vai poder fumar, porque são recintos de feira; nas praças de touros não se vai poder fumar, porque são recintos de espectáculos; o faroleiro do Bugio ou o guarda-linhas da CP, mesmo na solidão absoluta das suas moradas, não vão poder fumar, porque estão em instalações do Estado..."
Miguel Sousa Tavares, no artigo 2008: o ano do terror, no Expresso.
É preciso calma, porque o problema é transitório, penso eu. Logo que os fumadores se tornem minoria, terão de imediato todos os seus direitos assegurados, como é politicamente correcto, aliás. E, então, ai de quem atente quanto aos seus sagrados direitos ao fumo, onde quer que se encontrem!...

As piscinas da Portela - hip, hip, hurra!!


São hoje inauguradas as Piscinas da Portela. Grande novidade, dirão os leitores, piscinas é o que por aí não falta, com tanta escola por remediar e querem é piscinas? Pois, mas estas são um caso especial, as verdadeiras obras de Santa Engrácia deste bairro que finalmente viram a luz do dia.
A história tem muito de rocambolesco, coisas que só se passam neste país. Um bairro construído de raiz, os prédios muito alinhadinhos, na época, finais dos anos 70, destoava da confusão de outros que se multiplicavam nos limites de Lisboa. Aqui compraram casa muitos casais jovens, com predomínio dos que tinham já beneficiado do acesso à Universidade, aqui encontraram morada também muitos dos que começavam a organizar a vida depois de África, sobretudo comerciantes que deram o grande impulso ao então moderno centro comercial, coisa rara e nunca vista.
A Portela era um bairro cheio de miudagem, tinha escolas, tinha sossego, ao fim de semana os vizinhos encontravam-se por todos os lados, no Centro havia lojas para todas as necessidades, o pior eram os acessos e os transportes públicos, mas quem cá morava gostava imenso. Depois, com as obras para a Expo, foram dois anos de poeirada e bloqueios de trânsito, um tormento que finalmente deu lugar a acessos largos, a avenidas com árvores e a um belo sítio para ir passear à beira rio, em vez das velhas docas semi abandonadas onde até era perigoso passar. Creio que foi nessa altura que se fez o jardim e se arranjaram os exteriores de uma parte do bairro, a outra, a chamada 4ª fase, foi sempre adiada …até hoje, há promessa firme que será este ano.
Em 94, época áurea, a grande novidade era que se iam construir as piscinas, bem no centro do bairro. Grande entusiasmo, não haveria muitas freguesias com esse luxo, na altura quem é que falava em piscinas? Ia-se com as crianças à natação ao Aeroporto ou aos Olivais, já não era nada mau, o Colégio levava-as, mas uma piscina aqui mesmo ao pé, iniciativa da Associação de moradores, foi adesão imediata.
Começaram logo a fazer a cratera e a pôr o betão, cobraram-se quotas por antecipação para ajudar à obra, houve até quem desse o sinal para a salinha do novo ginásio. Pois bem, que se começou, começou. Mas, depois, faltou o dinheiro no ano seguinte, e no outro, e no outro, e no outro, a cratera enchia-se de água das chuvas, o betão começou a ter os ferros enferrujados, o matagal invadiu tudo e ali se instalavam os marginais ou os vadios. Esteve anos com uma vedação meia podre, esventrada pelos que queriam acoitar-se ali para se drogarem, assim viveu o bairro 14 anos, virando a cara para não ver aquela vergonha, já nem se falava disso, embora fosse difícil de entender porque é que se faziam outras piscinas nas freguesias em redor, várias, algumas até foram ficando abandonadas por falta de manutenção, mas a da Portela, zero.
A miudagem cresceu, os jovens pais envelheceram, muitos mudaram-se para novos bairros, sobretudo a Expo, e os destroços da obra já eram quase monumento histórico.
Nas eleições de 2002 a promessa ressuscitou, sempre eram votos para ajudar a mudar a Câmara de mãos, e o novo executivo declarou a obra prioritária. Nas eleições de 2006 foi posta uma vedação nova, com cartazes a anunciar a inauguração próxima do “complexo de piscinas” a qual, porém, não dava sinais de inquietação. Por fim, lá arrancou, lá se investiram os actualizados 3,5 milhões de euros, Deus quer, a obra nasce, tardou mas chegou.
É inaugurada amanhã, já tem espaços dedicados à terceira idade, àquela que era só 2ª quando se fez a promessa, os miúdos que evitavam os andaimes abandonados vão agora lá fazer pesos e halteres ou vêm ao bairro deixar os filhos para os avós os levarem à natação.
Aleluia, aleluia, ao fim de uma década e meia, inaugura-se a piscina da Portela! É caso para festejar, nem tudo tem um happy end.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Impressões londrinas I

Regresso, dando conta do meu renovado espanto. Durante uma semana em Londres, quase desesperei em ver um inglês, já não digo um Lord, um Sir, mas um daqueles comuns “beefs” que, pela análise sumária do rosto, do cabelo ou da barba se vê logo serem súbditos de Sua Majestade. Ingleses desses são coisa cada vez mais rara em Londres, uma minoria certamente já sob protecção!...
Claro que haveria ingleses, mas com uma tez bastante mais escurecida, alguma mesmo bem negra, haveria também ingleses de rosto amarelado e de olhos em bico, outros com faces ao jeito magrebino, ingleses de turbante, ingleses de feição árabe, paquistanesa ou indiana. E também haveria inglesas, muitas, muitíssimas inglesas, milhares, com o rosto embrulhado no hijab, e algumas no niqab. Pareceu-me ainda ver quatro mulheres debaixo de uma burqa, mas aí não posso atestar do género do ser humano que por lá se escondia.
Notícias de Portugal nos jornais, só as temperaturas de Lisboa, Porto, Faro e Funchal. Ah, e as camisolas do Ronaldo em todos os quiosques londrinos, rivalizando com as do Lampard, Rooney e Gerrard!...
Acabado de regressar, dou razão ao critério informativo dos jornais de Sua Majestade, no que ao nosso país se refere. As notícias são as mesmas de há sete dias, continua o folhetim da questão tabaqueira e das tomadas de posição partidárias sobre as Administrações do BCP e da CGD. Segundo me disseram, só o estado do tempo é que ia mudando e aí vi que os ingleses claramente noticiaram a evolução das temperaturas e do estado das correntes atmosféricas.
No entanto, ao ler o 4R, fui surpreendido pelo post do Dr. Tavares Moreira, que dava conta da fantástica inovação teórica portuguesa no domínio da economia, a da subtil distinção entre inflação e a subida dos preços dos bens e serviços.
Se, em Londres, tivesse lido o 4R, certamente que iria de imediato levar a notícia à London Business School, somente para ver o ar de espanto dos seus insignes cérebros e professores perante tão revolucionária contribuição para a ciência económica.
Para lhes mostrar, afinal, que alguma coisa vai bulindo nesta nossa socrática Costa Leste da Europa!...

Espantoso este espanto!

É notícia que apoiantes do Dr. Carlos Santos Ferreira foram apoiados pela Caixa Geral de Depósitos que os terá financiado na operação de aquisição de acções do BCP a cuja presidência aquela personalidade se candidata.
Apoio com apoio se paga? Não sei. Neste espisódio só me espanta o espanto que ao longo do dia foi desfilando, protagonizado por algumas (conhecidas) falsas virgens.
Pois não é esta, afinal, uma prática habitual, ocorrida noutras ocasiões de tomada de posições relevantes em instituições do sector financeiro que nunca foi considerada atentatória de qualquer princípio ou regra?
Esta operação que aparece como uma espantosa revelação, não é, em boa verdade, um segredo de Polichinello, tantos são os que, responsáveis, em variadas situações e oportunidades tiveram conhecimento desta prática sem mostrarem qualquer incómodo?
Descontada a aparência de pagamento de favor que aquele apoio pode traduzir, não será mais grave do que o facto que se revela agora tão chocante, o aumento de capital do banco feito à custa da captação de poupanças e do financiamento a pequenos e mal informados depositantes (que hoje lamentam a perda substancial do valor das acções que lhes impingiram a crédito), sem que se tivesse ouvido uma crítica, um aviso, uma prevenção por parte dos reguladores do mercado?
E sobretudo, não é este o retrato autêntico do capitalismo português, onde poucos arriscam o que têm de seu para empreender, onde quase nenhuns criam ou investem e muitos especulam?
Não foi este exemplo que levou Joe Berardo à comenda?
Porquê, então, tanto espanto e a censura?

Vitória de Obama no Iowa

No dia 11 de Dezembro editei um Post – “Oprah Winfrey: reviravolta nas primárias do Partido Democrático?”, no qual admiti a vitória do senador Barack Obama na primeira escolha dos Democratas para a nomeação presidencial, no estado do Iowa, apesar do favoritismo que até aí recaía em Hillary Clinton.
E Obama ganhou mesmo!
Oprah Winfrey, como também referi naquele Post acabou por ser uma carta decisiva, jogada pelo Senador no momento certo.
A principal derrota foi para Hillary Clinton, que apesar do grande empenho da sua candidatura neste Estado e dos muitos milhões de USD que conseguiu mobilizar, acabou ultrapassada por Obama e por John Edwards.
Veremos na próxima semana (dia 8) o resultado em New Hampshire.
Se Obama voltar a ganhar, está lançado na corrida para ganhar a nomeação pelo seu Partido e muito provavelmente para se tornar o próximo Presidente dos USA – assim espero - fazendo história nas eleições americanas por ter partido como um quase desconhecido e ultrapassado uma esmagadora vantagem de Hillary Clinton.
Neste momento de vitória, daqui endereço minhas mais sinceras felicitações a António Sampaio e Mello, que continua a acompanhar e aconselhar o candidato Obama.
Seria bem interessante poder repetir este cumprimento na próxima semana, mais concretamente na 4.ª Feira, quando forem conhecidos os resultados de New Hampshire.
Quanto aos Republicanos, a vitória de Huckabee não será para já muito significativa, até porque os principais candidatos não se empenharam muito nesta primeira etapa, apostando mais nas próximas escolhas, em especial a "simultânea" de 22 Estados na 3ª Feira de Carnaval.

Berard e CGD: cohabitação perigosa?

A notícia, hoje divulgada, de que Joe Berard recorreu ao crédito da CGD para adquirir acções do BCP vem responder a uma interrogação que coloquei a mim próprio quando vi Berard atacar tão duramente a candidatura de Miguel Cadilhe à Presidência do BCP e defender, tão estrenuamente, a candidatura de Santos Ferreira.
De facto, na minha análise simplista, Miguel Cadilhe é muito mais o tipo de candidato da preferência de Berard: frontal, duro, sem “papas na língua” como é hábito dizer-se.
Santos Ferreira é muito mais defensivo, extremamente cauteloso, nunca frontal.
Sendo assim, perguntava para os meus botões, qual será a razão desta curiosa inversão de preferências da parte de Berard?
O facto de terem assinado um qualquer documento de apoio à candidatura de Santos Ferreira não seria muito relevante, uma vez que esse facto é anterior à candidatura de Miguel Cadilhe e o aparecimento desta representa uma alteração fundamental das circunstâncias que ditaram as vontades declaradas naquele documento.
Essa alteração fundamental de circunstâncias é motivo de alteração ou mesmo de denúncia de contratos, em sede do direito civil/obrigacional (artigo 437º do C. Civil): por maioria de razão pode ser invocada na alteração de posição para quem tenha subscrito esse tal documento.
Aliás, a T. Duarte, subscritora desse mesmo documento, anunciou já o princípio de uma revisão de posição...
Com esta notícia de hoje, percebe-se a posição de Berard, perfeitamente – corresponder ao apoio que lhe foi dado pela CGD – amor com amor se paga.
Só que isto, a meu ver pelo menos, enfraquece a posição de Santos Ferreira, em vez de a reforçar.
Com efeito, esta situação pode ser entendida como de troca de favores, o que não é nada agradável de ver, reconheça-se...sobretudo quando envolve uma Instituição de Crédito do sector público e o seu Presidente, agora candidato à Presidência do Banco cujo accionista e público apoiante financiou.
Bem se pode dizer que neste caso o silêncio de Berard teria sido de ouro...
Assumindo a posição que assumiu, tão ostensivamente favorável ao Candidato que agora se sabetê-lo financiado para comprar acções/adquirir votos, Berard acaba por fazer um favor a Cadilhe, reforçando a sua candidatura...é o que me parece, pelo menos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

- Mas não lhe tiraram a carta!

De ano para ano aumenta o número de doentes que vão obedecendo à lei da morte. Quando tenho conhecimento de uma situação destas sinto sempre um choque a que não consigo habituar-me, sobretudo quando não estou à espera. Foi o que aconteceu recentemente. Um doente de 87 anos faleceu no dia a seguir ao Natal, mas só tive conhecimento oito dias depois ao ler o jornal que anunciava a missa do sétimo dia. É certo que tinha uma idade avançada, mas nada fazia prever uma situação destas, até, porque, alguns dias antes do passamento, fui visitado, mais uma vez, pelo senhor na companhia da esposa. Tratava-se de uma pessoa delicada, simpática, culta, que cultivava boas maneiras e com uma cabecinha a trabalhar em pleno. Claro que tinha as suas maleitas, mas estava compensado, até o tremor tinha diminuído. Sempre sorridente, após ter perguntado como andava, respondeu que se sentia muito bem e queria ver se aguentava mais uns tempos. – E sabe porquê, senhor doutor? O senhor sabe há quantos anos estamos casados? Respondi: - Há uns bons anitos! – 67 anos! 67 anos! Não é por nada mas gostava de comemorar os 70. A esposa, meio envergonhada, disse: - Se for essa a vontade de Deus! Respondi: - Por mim farei todos os possíveis para que tal aconteça. Riram-se. Via-se mesmo que estava satisfeito, facto que contrastava com um período anterior quando lhe recusaram a renovação da carta de condução por causa do seu tremor. Fiquei estupefacto, porque se tratava de um tremor senil e não parkinsónico. O senhor deprimiu-se, gravemente, porque adorava conduzir, embora limitasse as suas viagens para ir de casa à consulta ou fazer pequeninas coisas muito circunscritas devido à sua idade avançada. Tinha perfeita consciência da situação e cumpria escrupulosamente os seus deveres. Ao não renovarem a carta provocaram-lhe uma situação muito grave. Enviei-o a um neurologista para que o observasse. O colega elaborou um relatório comprovativo de que reunia as condições necessárias à condução. Graças aos nossos relatórios, a autoridade de saúde competente acabou por permitir que continuasse a conduzir. Nunca vi tamanha felicidade quando me apareceu para agradecer a minha colaboração. Depressão? Qual quê! desapareceu como por artes mágicas.
A sua responsabilidade enquanto condutor ficou perfeitamente demonstrada após este episódio. Vi-o várias vezes nas suas manobras quando ia à consulta. Como era sempre dos primeiros a chegar, tal facto permitiu-me estudá-lo. Impecável a forma como conduzia. A sua atitude rodoviária contrastava, e de que maneira, com o comportamento de muitos que pululam por aí.
Este episódio foi comentado pela sua esposa que hoje me procurou acompanhada pela filha. A sua tristeza era evidente. – Andava tão bem senhor doutor! Já não vamos fazer os setenta de anos de casados. - Pois não! - Mas não lhe tiraram a carta! – É verdade!
Cada vez que um doente morre é como morrer um pouco…

Keep out!

O Ano Novo tem destas coisas, aguilhoa-nos a consciência com esta aparência de novinho em folha e, de certa maneira, ajuda-nos a ver as coisas com outro olhar, talvez menos rancoroso, talvez mais disposto a desdramatizar as contrariedades. Por isso vou escrever o que se calhar nunca chegaria sequer a pensar, se não fosse esta época de alma limpa e boas vontades. E vou escrever que eu, fumadora moderada mas persistente há muitos anos, não posso, em boa razão, criticar a lei do tabaco.
Claro que me contraria, detesto que me dêem ordens ou me imponham restrições quando eu me considero mais do que habilitada a gerir os meus comportamentos de forma razoável. Claro que vivia muito melhor e me sentiria individualmente mais livre sem esta floresta de tabuletas com o sinal proibido e eu, pobre fumadora, a sentir-me expulsa dos “meus” locais favoritos, Keep out!, como se faz aos indesejáveis.
Mas a necessidade de me adaptar às novas circunstâncias fez-me mudar alguns hábitos e foi assim que reparei que, afinal, antes também vivia com outras tantas limitações, com a diferença que resultavam da minha opção pessoal, determinadas em função do meu conforto ou do meu julgamento das conveniências mas, ainda assim, eram limites ao prazer de fumar um cigarrinho quando me apetecia.
A saber, nunca fumei na rua porque me ensinaram em criança que era uma falta de educação grave. Raramente fumava em casa, primeiro porque as crianças eram pequenas, depois porque elas não gostavam, finalmente porque decidi que deixava o maço no carro ao fim do dia. Há muito tempo que não levo cigarros para reuniões, mesmo as mais prolongadas. No avião nem me lembro dos cigarros. Nunca fumava no carro, meu ou dos outros, porque não gosto do cheiro que se entranha, porque tenho medo de queimar a roupa ou de me distrair a guiar. E há muito tempo que, se vou com alguém que não fuma, também me inibo de fumar no café restaurante. Além disso, há poucos anos, parei de fumar durante um ano porque tive um problema de saúde que desaconselhava em absoluto a absorção do fumo.
Tudo isto para me lembrar que já havia muito espaço condicionado à minha qualidade de fumadora, só que eram limites que eu própria decidia, por conveniência pessoal, podemos bem resumir assim, dependendo exclusivamente do meu interesse ou vontade. Agora, trata-se de aceitar que o critério da conveniência e conforto dos outros também faz todo o sentido, sendo certo que não se sobreporia ao meu gosto pelo cigarro se não me fosse imposto, tenho que reconhecer, há coisas que só mudam mesmo à força, os egoísmos pessoais por excelência. É uma grande maçada? Sem dúvida, até porque agora só posso fumar na rua, na minha casa, no meu carro, tudo o que não fazia antes porque não queria, tenho que pensar como é que vou resolver este conflito…O mais certo é ir deixando de fumar, até porque não quero pagar o imposto que aumenta mais uma vez, sempre é uma forma de me vingar das proibições. Keep out!

Pedir sacrifícios com menos arrogância e mais humildade...

Retirado da entrevista realizada a Eduardo Ferro Rodrigues – ex Secretário-Geral do PS - publicada hoje na revista Visão. Uma entrevista para ler.
---
▪ À pergunta:
“É o próprio PSD a acusar o Governo de insensibilidade social…"
▪ A resposta de Ferro Rodrigues:
“Pedem-se sacrifícios a uma parte importante da classe média e a uma determinada geração, que tem entre 45 e 60 anos. Ou seja, a geração do 25 de Abril e da consolidação da democracia. Se esses sacrifícios são pedidos, é indispensável que isso se faça com menos arrogância e mais humildade.”
---
Interessante este reparo político de Ferro Rodrigues. Tem razão na crítica, algo imprevisível vinda da sua parte, mas não está isento de responsabilidades na pesada herança do caos das contas públicas deixada pelo governo do Eng. António Guterres.
Já hoje ouvi reacções bem diferentes àquela afirmação. Os olhos não vêem todos da mesma maneira. E depois os tempos também mudam. Já diz o ditado popular: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

O Rei vai nu!

Fumar mata?

O Sr. Presidente da ASAE fez saber que os serviços jurídicos desta insígne autoridade elaboraram um parecer jurídico que abre uma excepção à aplicação da nova "lei do tabaco".
Descobriram que a lei do jogo, sendo uma lei especial, não se aplica aos casinos e às salas de jogo!
Pouco importa o que TODOS ouvimos sobre os objectivo desta lei.
Pouco importa que nos tenham dito que esta lei se aplica a TODOS.
Pouco importa que a lei estabeleça de forma clara as condições como se aplica a TODOS os locais.
Pouco importa que o título da lei seja "Aprova normas para a protecção dos cidadãos da exposição involuntária ao fumo do tabaco e medidas de redução da procura relacionadas com a dependência e a cessação do seu consumo".
A ASAE e o seu presidente interpretam a lei.
Arranjam um alçapão.
Inventam uma excepção.
Depois do queijo da serra, dos galheteiros e da colher de pau, será que decidiram colocar a inteligência na lista dos produtos fora de prazo?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Presidente da República-mensagem do Novo Ano de 2008

Começo por confessar que ando tão descrente... que a única voz política que me apetece ouvir é a do Presidente da República.
Estou mesmo convicta de que, actualmente, é a única voz audível (porque credível) deste nosso querido País.
Mas é pena, porque quando um Povo se sente alheado, distante, sem se rever em lideranças, porque nelas já não acredita, prevê-se um futuro morno, num tipo de gestão imediata e de técnica de "navegação à vista".
O Presidente falou para os portugueses o entenderem, aliás, falou pela voz dos portugueses com quem tem contactado por esse País fora, apontou as mesmas preocupações e apontou os mesmos problemas por resolver!

Lembrei-me dum Sermão do Padre António Vieira que reza assim: " uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros é dos pecados do tempo, porque fizeram no mês que vem o que se devia fazer no passado; porque fizeram amanhã o que havia de se fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo o que haviam de fazer já...e o tempo não tem restituição alguma."

Disse, por exemplo, o Presidente que " seria importante que os Portugueses percebessem para onde vai o País em matéria de cuidados de saúde; que o acesso aos cuidados de saúde é uma inquietação de muitos Portugueses que não estão seguros de que os utentes, principalmente os de recursos mais baixos, ocupem, como deve ser, uma posição central nas reformas que são inevitáveis para assegurar a instabilidade financeira dos serviços de saúde."
Daqui se depreende que o Presidente entende que estas "reformas são inevitáveis" mas não sem que, em cada situação, se explique com verdade às pessoas quais as actuais dificuldades, porque são necessárias as mudanças, com que garantias elas se vão executar e que benefícios delas virão a colher as populações. (exactamente aquilo que a Margarida Corrêa de Aguiar defende no post a que chamou "Falar verdade não é impossível, é necessário...")
Já aqui defendi os encerramentos dos chamados SAP's que foram uma aberração quando criados, consumidores de recursos, incapazes de acudir a uma situação verdadeiramente grave, contribuindo muitas vezes para reais perdas de tempo, numa escala escusada que terá de culminar no hospital.
Mas o Governo prometeu soluções alternativas, antes de os encerrar e não cumpriu cabalmente; portanto, onde não cumpriu...não devia encerrar !
Antes de encerrar urgências de alguns hospitais concelhios e maternidades prometeu garantir reforços na área do socorro pré-hospitalar; o Governo prometeu, mas não cumpriu...não as devia encerrar!
Foi a estas situações que o Presidente da República se referiu ao alertar ser "importante que os Portugueses percebessem para onde vai o País em matéria de cuidados de saúde..."
E os Portugueses só não percebem porque quem é que percebe quando olha... e vê pôr uma carroça á frente duns bois?

Que todos, especialmente todos os que "ajudam" nesta 4R, tenham um melhor 2008!
Desejo-o, muito sinceramente e com amizade.

"Presidente da ASAE fuma com a lei do tabaco em vigor"

Título do DN de hoje com fotografia do homem saboreando, em pleno Casino, "um pensativo cigarro".
Querem ver que ainda se descobre que lá em casa se cozinha com colher de pau?

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Mouquice

A agressão auditiva começa a ser um problema muito grave a diferentes níveis, laboral, ambiental e lúdico ao ponto de estarmos a originar o aparecimento de uma geração de surdos. Apesar de todas as medidas legislativas em vigor, as quais nem sempre são devidamente respeitadas, não se consegue evitar um fenómeno para o qual o envelhecimento é uma das principais causas. O pior é que a presbiacusia que, habitualmente, começa a manifestar-se aos 65 anos, tem tendência para aparecer cada vez mais cedo, prevendo-se que no futuro se inicie aos 35 anos. Atendendo a que vamos viver cada vez mais é provável que a partir dos 50 anos sejamos cerceados de tão extraordinária faculdade. No dia a dia já é possível verificar este fenómeno, obrigando muitos a “berrar” para que possam atingir um nível mínimo de entendimento.
Não sei se os novos modos de falar, tomando como exemplo o que ocorre nos cafés, é devido a este fenómeno ou a puro exibicionismo. É irritante ter que gramar com as conversas dos vizinhos do lado que não se coíbem de pormenores e detalhes que bem dispensaríamos, apesar do caricato de algumas.
Falar baixo começa a ser complicado. A audição vai-se perdendo, o ruído ambiental vai aumentando, as boas maneiras desaparecem e, consequentemente, berra-se! Mas há ainda zonas e populações do globo em que isto não acontece. Os mabaans, uma tribo do Sudão, que habitam uma zona cercada pelo deserto, apresentam a mais baixa taxa de surdez do mundo e falam muito baixo. Os únicos sons que se produzem por aquelas bandas são os naturais.
Ouvir os sons da natureza, sem qualquer contaminação de origem humana é muito raro e uma experiência única. Recordo-me de duas situações em que experimentei essa encantadora e estranha percepção.
Há alguns anos, na sequência de uma participação em provas académicas, hospedaram-me no Convento da Mitra, nos arredores de Évora, numa simpática e acolhedora cela transformada em quarto. Isolado, tive a oportunidade de ouvir sons desprovidos de contaminação humana e até de um período nocturno em que o silêncio total se podia ouvir em toda a plenitude. Uma sensação agradável que me levou a congeminar quão sábios tinham sido os construtores e habitantes daquele espaço. A outra foi nos arredores de Luanda onde me levaram para ver uma paisagem única, o Miradouro da Lua. Quadro deslumbrante pintado de sons naturais. Já não sei o que mais me impressionou se a beleza visual ou auditiva. As duas muito provavelmente. Ambas as experiências foram mais do que suficientes para dar um outro significado a tão importante sentido.
Os ruídos que nos agridem são cada vez mais comuns, indo das explosões sonoras dos intervalos publicitários televisivos, passando pelo tráfego automóvel, uso de “fones” e discotecas, até à actividade profissional. Claro que há outros tipos de ruído que, embora não esteja comprovado que possam provocar surdez, não deixam de ser perturbantes e causar mal à saúde. Os seus autores já devem sofrer de presbiacusia precoce, magníficos exemplares da tal “geração de surdos”, e, naturalmente, não se devem aperceber dos prejuízos causados. Só assim se compreende que as manifestações, os protestos e as palavras de ordem de muitos cidadãos, falando da problemática da saúde, por exemplo, não consigam estimular as células responsáveis pela audição. Já devem ser poucas, muito poucas, nem mesmo berrando! A mouquice patológica é muito triste, mas a mouquice política não lhe fica atrás...

Óptima notícia para 2008: inflação sobe menos que os preços

Num dos jornais on-line do último dia do ano podia ler-se este título de antologia: “Preços dos bens e serviços vão subir mais que a inflação em 2008”.
Achei este título um prodígio de imaginação do marketing oficial, que já atinge o chamado “requinte de malvadez” como se usava dizer no meu tempo de estudante.
Entrando na notícia, percebia-se que:
- “Inflação” em 2008 é o valor previsto/desejado pelo Governo: 2,1%.
- Preços dos bens e serviços são um conceito diferente, correspondendo àquilo que o consumidor vai pagar a mais do que pagou em 2007 pelos mesmos bens e serviços que adquirir.
Temos assim que foi possível, finalmente, a comunicação social fazer o chamado “decoupling” entre os preços e a inflação.
Assim, inflação passa a constituir um conceito inamovível, fixado à priori e cujo valor se mantém independentemente do que for o comportamento dos preços.
Quanto aos preços que vierem a verificar-se, esses poderão ser quaisquer que isso não terá influência na inflação oficial!
Confesso que desta não me tinha nunca lembrado…mas que é uma conquista de grande alcance, não posso deixar de reconhecer e até de lhe “tirar o chapéu”!
Assim ficará imensamente facilitada por exemplo a negociação das variações salariais, na função pública e noutros sectores…não há que ter quaisquer dúvidas quanto ao valor da inflação uma vez que este deixa de ter relação visível com a evolução dos preços.
Os Sindicatos, suas Federações e Uniões, poderão finalmente ter um ano tranquilo sem necessidade de grandes reivindicações.
Os aumentos que se anunciam, de dois dígitos, nos bens alimentares não deverão constituir motivo de preocupação…a inflação está ancorada, amarrada, nos 2,1%, não há motivo para qualquer alerta amarelo, laranja ou de qualquer outra cor…
O único problema é que o BCE pode vir a ter opinião ligeiramente diferente e estragar-nos a festa…mas também aí já recebemos garantias de que nada de especial vai acontecer em 2008.
Podemos assim ficar tranquilos e esperar que em 2008 só nos aconteçam coisas boas como augura a nossa querida Margarida.
A esta luz, só não entendo o pessimismo do Dr. Mário Soares… a quem desejo, não obstante, um Bom Ano Novo!

Bem vindo ANO 2008!

Bem vindo ANO 2008!
Bom ANO 2008 para o 4R!
Feliz ANO 2008 para Todos os que fazem do 4R um lugar que apetece viver!
O primeiro Dia de um Ano Novo é sempre um dia especial. É um Dia de cores diferentes que nos lança para mais uma viagem da vida em que todos desejamos a todos que aconteçam coisas boas, muitas alegrais e boas surpresas, os maiores sucessos pessoais e profissionais, em que fazemos votos que todos os desejos e os sonhos se concretizem, que aconteça o que há de melhor e em que esperamos que haja paz, saúde e felicidade.
Neste momento do Ano alimentamos uma vontade especial que as nossas vidas, das nossas famílias e dos nossos amigos sejam muito felizes e sentimos uma força particular de que podemos fazer mais e melhor para que assim seja.
Da chuva de mensagens de votos de recebi nesta Quadra, gostei especialmente de um pensamento que, para mim, espelha de forma sublime o que podemos e devemos ser para que não sejamos o que não devemos ser. É um poema sempre intemporal, mas que assenta bem neste Dia que se quer levezinho, sem dramatismos mas com os "pés bem assentes na terra". Aqui fica o poema "DEFICIÊNCIA" de Mário Quintana, considerado um dos maiores poetas brasileiros do século xx:
**

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda. "Diabético" é quem não consegue ser doce.
"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois: A amizade é um amor que nunca morre.

**