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segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O pneu ...

Na altura não havia brinquedos. Fome de brincar e cabeça para imaginar eram coisas que abundavam.
Quando os eucaliptos davam a pele, retirava uma faixa e com maestria infantil, a que não era alheia a perigosa navalha, sempre escondida dos graúdos, arranjava maneira de criar uma fantástica hélice que girava como se fosse a mais esplendorosa ventoinha. Depois era vê-la a girar à velocidade da minha corrida. Víamos quem corria mais depressa atrás daquelas belezas feitas com a pele descamada dos eucaliptos.
Correr era uma necessidade. O corpo exigia insistentemente como se a vida quisesse andar atrás de um mundo que então via mas não compreendia. Fazia-lhe a vontade correndo com um velho arco ou a jogar à bola feita com meias velhas e trapos, os quais me valeram algumas tareias, porque nem sempre tinha discernimento para distinguir o velho do novo. Coisas da vida.
O que gostava mais era de andar às corridas com os arcos. Não era fácil arranjá-los, logo, o melhor era ficar junto da oficina das bicicletas e, como não quer a coisa, ia perguntando se não havia um pneu velho para brincar.
- Não. Não há. Diziam com vozes tonitruantes, eivadas de cigarros, de algum tinto e de muita berraria.
- Não há? Estão tantos ali.
- Onde?
- Ali! Não são pneus velhos? Podia dar-me um.
- Podem ser precisos. Replicou.
- Podem ser precisos?
- Sim. Podem.
- Mas para quê?
- Olha lá, ó meu rapaz. Não vês que estamos a trabalhar e que conversa não ajuda? Pensei: - Não ajuda uma merda! Estão a sempre a conversar, de futebol, de gajas, de vinhos, de patuscadas e de muitas outras coisas.
- Queres um pneu?
- Quero pois. Disse todo entusiasmado.
- Então, antes de ires buscar um pneu tens que me dizer se já pintas. Eu bem sabia o que ele queria, mas como estava com o olho num belo pneu respondi que não, ainda era muito novo.
- Ah! Então sabes o que é pintar!
- Posso ir buscar um? Perguntei sem responder.
- Espera. Ainda tens de me dizer se já viste a “pintelheira” de alguma miúda. Farto deste tipo de conversa, ainda estive tentado a dizer que sim, que já tinha visto a da filha. O pior era o resto. Respondi:
- Não senhor. Ande lá, deixe-me ir buscar um pneu. À medida que ia falando aproximava-me do montículo sujo de borracha usada. Já tinha o “meu” pneu ao alcance da mão.
- Posso levar este? Apontei.
- Podes, mas antes tens de dizer três asneira seguidas.
- Para quê? Questionei surpreendido.
- Para quê? Para pagares o pneu.
- Pagar com asneiras?
- Sim. Nessa altura já tinha abocanhado o mais bonito de todos.
- Pronto. Está bem. Porra, catano e merda!
- Mas isso são asneiras que se digam? Isso não vale nada. Tens que dizer as de verdade.
- Está bem. Eu digo para a próxima vez. Entretanto, já ia suficientemente longe para não ouvir as gargalhadas do pessoal que assistiram ao diálogo.
Fiz uma inveja do caraças junto dos meus amigos. O pneu “novo” foi alvo de trocas e baldrocas, mas fiquei sempre com ele. Não era fácil pô-lo a andar, tinha que lhe dar muita “porrada” com o pau, mas depois engatava e eu não conseguia acompanhá-lo na descida da inclinada calçada...

sábado, 24 de setembro de 2022

"Mactérias" ...

Nas andanças pelos meus textos tropecei neste que escrevi há alguns anos por causa de uma neta. Os miúdos são uma adorável fonte de inspiração.
“É bom estar atento aos miúdos, porque quando menos se espera aprende-se alguma coisa, pelo menos ficamos a saber, ou a imaginar, como funciona aqueles pequenos cérebros ávidos em compreender o mundo que os cerca.
O primo, um ano mais velho, sofre de cárie. Uma situação muito comum nestas idades. Apesar dos cuidados de higiene oral não conseguiu evitá-la. Tomara! É uma criança como qualquer outra, gosta de se alambazar com produtos altamente cariogénicos, o que pode ter consequências, por vezes dolorosas, como foi o caso desta semana. Antes, já tinha sido sujeito a tentativas de tratamento, mas, como estávamos à espera, opôs-se com determinação, ou seja, com medo, comportamento típico nestas idades, embora as condições atuais não tenham nada a ver com os dignos representantes dos "dentistas-barbeiros" que, no meu tempo de criança, revelavam ainda resquícios de aspirantes a torturadores da Santa Inquisição.
As conversas sobre este tema, cárie, doces, chocolates, lavagem e escovagem dos dentes são uma constante lá em casa, escutadas ou não pelos protagonistas infantis. Mas devem ser ouvidas, porque se não fossem não teria assistido e tido conhecimento das conversas da mais nova. Face às dores do primo, e ao conhecimento do seu comportamento em recusar o tratamento de dois "buracos", a menina acabou por entabular uma conversa com a mãe, dando provas do seu interesse por este assunto. "- Sabes o que são cáries, mamã?

- Hummm... Não. Conta-me lá!

- São "mactérias" que querem construir casinhas dentro dos dentes. Então, escavam, escavam, escavam e depois levam para lá a família toda!

- Ahhh... E cabem lá todas?

- Cabem, são todas amigas! Mas só que às vezes fazem doer a casa...

- Pois! É uma grande chatice..."

Hoje, face ao heroísmo e à aceitação por parte do primo em deixar-se tratar com sucesso, a conversa centrou-se no tema durante o almoço. A Leonor explicou-me o que eram as "mactérias", como é que elas entravam nos dentes e faziam a sua casinha para si e para os filhinhos e depois, quando começavam a ressonar, provocavam dores. 

- Como?! As "mactérias" ressonam?

- Sim. E depois fazem doer.

- E o que é que fazem, quando acordam? Não me digas que começam a pular, a correr e a brincar? Perguntei-lhe.

A miúda esboçou um largo sorriso de admiração, dançou na cadeira, revelando uma manifestação de gozo e de incredulidade, e lançou-me na cara, a rir que nem uma perdida:

- Oh, vovô, mas que pergunta tão "podícula"!

- O quê?!

- "Podícula", vovô! Mas tu não sabes de "mactérias"?

- Bom, um pouquinho.

- Ah. Está bem.

- E agora, o que é que vais fazer?

Com o dedo dá a indicação de esfregar os dentes e diz:

- Vou tirar as "mactérias". 

- Antes que escavem os teus dentinhos, não é?

- Pois. É que depois podem "ressonar" e "darem" dores.

- Muito bem. Vai lavar os dentinhos.

Pelo menos fiquei a saber o que são "mactérias", bactérias más, que gostam de escavar os dentes para terem uma casinha e que ao “ressonarem” provocam dores. Esta do ressonar é que ainda não percebi bem. Mas por hoje chega. Espero nos próximos dias aprender um pouco mais. O pior é que o raio de um molar começou a doer-me. Será que tenho lá dentro "mactérias" a ressonar? Às tantas. Na próxima semana vou acordá-las e mandá-las embora, senão quem não vai ressonar sou eu...

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O meu outono ...

Quando se vive muitos anos somos invadidos por uma estranha sensação, viver sem compreender. Pelo menos está a acontecer comigo. Cada dia que passa sou inundado da esperança de ser atingido pelo esquecimento súbito. Não sei bem o que isso é, mas pressinto-o como algo sublime, ser esquecido e esquecer. Haverá algo mais belo e poderoso? Não. A minha mente é lambida por recordações pontuais, quais flashes de raios e coriscos numa noite de verão. Gosto de as amarrar ao meu coração, mas desaparecem na primeira ocasião. Gente sem nome, olhos húmidos a imitar verdadeiros lagos de felicidade, lágrimas de rios de sofrimento, conversas belas a ofuscar o por de sol no fundo de um mar calmo e sensual, atitudes de coragem mais altas dos que as maiores das montanhas, poetas cheios de caráter mesmo no reino do analfabetismo, ternura tão vasta a querer subjugar o universo. Gente sem nome. Viveram e foram esquecidos. Devem sentir-se felizes na vastidão de um novo mundo. Felizes e livres. Julgo que sim. Até as almas perdidas acabarão por se achar e encontrar os seus Edens, mesmo que não saibam ou nunca tenham desejado. Não importa, o que interessa é ser esquecido e esquecer. Refugio-me atrás da beleza e sensualidade de uma caneta. O seu azul perturba-me, o peso encanta-me e o brilho do seu olhar emociona-me. Preciso, não de viver, nem ainda de esquecer, apenas sentir alegria com a doçura de um aparo de ouro e as lembranças quentes e doiradas a relembrar as areias do rio que acariciavam o meu corpo, libertando-me de forma doce e encantadora nas tardes de setembro do final do verão, prometendo pinturas da beleza colorida do meu outono. Outono, a estação que precede a morte, o sono, mas que encerra por momentos a beleza de uma vida simples e eternamente esquecida.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

“Até eu medrava sem comer” …


No pico do espraiamento do sol tive que calcorrear uns bons metros através de velhas ruelas sempre à procura da tão desejada sombra. 

Quatro gatos alinhavam-se em frente de uma porta modesta demonstrando que ali nasce comida pela qual nunca tiveram de lutar ou de trabalhar. Sabem-na toda estes animais ditos domésticos, embora não totalmente, visto que prezam, de forma ímpar, a independência e a liberdade. Três gatos cercavam um outro, mais pequeno e ranhoso, que não se mexia. Encolhido, e paralisado de medo, devia estar a equacionar a melhor maneira de livrar-se dos três “irmãos”, umas verdadeiras bestas. Todos quietos. Um deles, em jeito de ataque imediato, era o que estava mais perto, enquanto o segundo, negro, com o pelo eriçado e olhar assustador, trancava, um pouco mais longe, a passagem de uma eventual fuga. O terceiro, castanho-amarelado, acabou por desistir daquela parvoíce abandonando o local em passo lento e com um ar verdadeiramente aristocrático. O quadro dos três gatos adquiriu, subitamente, vida, com o mais perto a mostrar dentes aguçados e a bufar à maneira ao mesmo tempo que dava uma valente patada com as garras desnudadas no focinho do pobre animal que, encolhido, quase desapareceu tipo ouriço-cacheiro. Gemeu de dor. Perante o quadro avancei em seu auxílio. Safou-se e agradeceu, miando com ternura e com um olhar enternecido. Avançou uns metros e colocou-se à sombra debaixo de um contentor. Os outros dois viraram-se para mim, mas devem ter reparado que eu tinha uns valentes palmos a mais. Mesmo assim não desarmaram à primeira. Olhares furiosos prontos a atacar. Eu fiz o mesmo e dei-lhes a entender que estava preparado para ripostar à maneira.  

Analisando a questão, não vi que tivesse violado o seu território, não vi nenhuma fêmea a apelar à satisfação do cio e também não me pareceu que fosse por causa dos alimentos. Os agressores estavam bem nutridos, ao passo que a vítima estava doente e visivelmente esfomeada. Quanto à minha pessoa também não me referenciei como alguém que pusesse em causa a etologia felina. 

Ia a pensar neste quadro urbano e despropositado, em que a violência extravasa a sua força, quando uma senhora bem nutrida, sentada na soleira da sua porta, não muito distante do episódio que acabei de contar, manifestava em alta voz o seu desagrado com a menina que lhe queria saltar para o lombo. Traquina, e calada como os gatos, tentava fazer das suas. Uma atitude que tomei como lúdica e carinhosa. Quem não estava a gostar da conversa era a avó, que lhe gritava: - Está quieta meu estupor. Nunca estás queda. Só sabes chatear. Quem me dera que a tua mãe viesse amanhã da Alemanha e te levasse. Até eu medrava sem comer! A pobre da criança deixou-se de brincadeiras e sentou-se na soleira da porta ao lado. Amuada? Sim, ou qualquer coisa parecida. Às tantas pensei, o raio do calor dá cabo dos cornos, quer das pessoas quer dos gatos. Só pode. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Silêncio da escrita

 Silêncio da escrita


Não tenho escrito como é habitual. As palavras, as ideias, os sentimentos, os medos e os desejos estão aprisionados. Nada e ninguém gosta de se sentir preso. Ouço lamentos e até alguma raiva. Tenho que os libertar, de outro modo acabarão por me fazer mal. Tenho lido entrementes. Talvez seja por isso que não escrevo. Fico absorvido pela elegância e inundado pela energia criadora de grandes escritores. Consigo ouvir as suas vozes, o dançar dos seus pensamentos e a profundidade dos seus escritos, elegantes e até, porque não dizer, divinos.  Para quê escrever se há sempre alguém a desenhar e a cantar o mundo com tal perfeição? Prefiro mil vezes confundir-me com alguma das suas personagens, mesmo que não existam ou, então, brinquem como figuras da banda desenhada. 
Mas a força do pensamento é diabólica. Diabólica, ardilosa, frustada ou desejosa de recriar a vida e fazer esquecer a dor e a morte.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Dois momentos…

Um dia vulgar e ao mesmo tempo diferente. Continuo a aguentar as amarguras da vida. Felizmente choveu um pouco. Não cantei durante a viagem, mas fiquei um pouco mais confiante. Pequeninas gotas de água pintaram o meu pára-brisas. As escovas deslizaram com uma voluptuosidade a raiar a sensualidade. Não fizeram barulho. Senti o prazer e o resfolgar da natureza a ser aspergida pela fonte da vida, a água. Fiquei mais tranquilo e esperançoso no futuro imediato. Nada mais me resta do que isso, desfrutar o pouco ou o muito que me aguarda. Tranquilamente fiz o que tinha a fazer, trabalhei, embora um pouco ansioso para desfrutar a meia hora após o almoço. Almoço simples, escolhido a propósito para não sofrer as consequências. Claro que o vinho branco, muito fresco, foi a exceção. Também tenho direito à liberdade de expressão através de uma agradável libação. Comi peixe! Eu que nunca fui adepto de peixe e nem do Benfica. Enfim! 

Agradou-me sobremaneira a forma como o a funcionária do restaurante me olhou. Depois de alguma hesitação disse, “Está muito mais magro. Anda bem de saúde?”. Sorri e, meio confuso, disse-lhe que sim. A sua observação foi interessante. Fiquei na dúvida, “Será que estou mais magro ou é o efeito de ter cortado o cabelo, ter óculos novos e de não me ver há mais de um mês?”. Sorri e fiquei agradado por tamanha simpatia. Adoro este tipo de cuidados e atenções. Logo a seguir, no café ao lado, tomei o segundo café. A menina, que me reconheceu, trouxe de imediato o café com adoçante. Disse-lhe, “Tem boa memória. Muito obrigado”. Respondeu-me com um belo sorriso. 

Sim, momentos banais que são confortantes e que me ajudam a viver.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Três reflexões…

 Chuva

Saboreando um café no resto de uma manhã …


Andava com saudades da chuva. Tenho olhado incessantemente para o céu à procura de nuvens cinzentas, negras e pesadas capazes de refrescar a vida sedenta de água. Nada. Em troca recebo o azul do céu que tanto adoro, mas que agora causa-me ansiedade e até medo. Esta noite acordei com um cantar de alegria. A chuva caía doce e alegremente. É tão belo ouvir esta música. Acalma e transmite a esperança de melhores dias. Seduz e faz esquecer a dor de quem já não a consegue ouvir. A morte pode ser esquecida com o brilho e a alegria de quem pode dar vida, a água. 


Espera

A falta de rotinas  num local novo causa-me sempre ansiedade e até alguma frustração. Cada sítio tem as suas regras e usam-nas como se tivéssemos de as conhecer. Mas isso é o menos, o pior é a falta de cuidado e sobranceria como sou tratado. 

Gosto de ser acarinhado com um sorriso, uma atenção. Nada de complicado. O distanciamento é uma realidade, não falo do imposto recentemente, mas do devido a falta de empatia. Nada de surpreendente, claro, mas que me incomoda, lá isso é verdade. No entanto, faço por ultrapassar estas situações, passando a ir várias vezes ao mesmo local. Ao fim de algum tempo acabo por ser reconhecido. Depois é tudo muito simples, aproxima-se um sorriso e ouço um dialogar doce…

Para que isto possa acontecer tenho que esperar. Demora, mas vale a pena. 




Vícios

Não posso dizer que tenha vícios. Se os tiver não dou conta. Gosto de usufruir o prazer de pequenas coisas. Uma delas tem a ver com os alimentos do espírito. Já analisei e dissertei bastante sobre este assunto. Fui um fumador inveterado durante muitos anos. Fui o que se pode dizer um perfeito louco. Incorrigível? Não! Testei as minhas forças e fiquei a saber que era forte. Deixei de fumar cigarros às 23:55 horas do último dia de 1983. Foi terrível? Ui, se foi! Mas consegui. Desde esse dia guardo com certa voluptuosidade o meu último maço de cigarros. Acompanha-me religiosamente. Por vezes este episódio tem servido de argumentação contra os que se opõem aos meus conselhos. Sorrio quando dizem, “O senhor doutor nunca fumou. Se tivesse fumado não falaria dessa maneira. É a altura de me encostar à cadeira. Suspiro, sorrio e conto a minha história. Fui um verdadeiro Tom Mix.  Andava com dois maços de cigarros, um em cada bolso. Chegava a pagar a contrabandistas para me trazerem o reles tabaco espanhol, o “Fortuna”. Horrível? Sim. Era a única possibilidade de contrariar os grevistas da Tabaqueira no pós vinte e cinco de abril. No entanto, anos depois, passei a “saborear”, muito ocasionalmente, um charuto. Nada de mais e nem de menos. Recordo-me de um colega norte-americano que passou pelo mesmo e me disse um dia, “Salvador. Eu fumo dois charutos por ano em ocasiões especiais. Considero este como um deles. Importas-te que fume um?” Ainda por cima depois de termos feito conferências em que o tabaco foi a nosso “vítima”. Sorri e perguntei-lhe, “Tens um para mim?”. “Tenho pois!”. A partir daí, de quando em vez, ataco um bom cubano. Cuba também tem coisas boas, apesar de Fidel ter acabado um dia por dizer que oferecia com muito gosto charutos aos seus inimigos. Foi na altura em que ficou doente. 

Sabe bem. Os alimentos do espírito são saudáveis quando usados com parcimónia. A alma tem desses desejos. 

Seleciono os melhores entre os melhores a ponto de quando  entro na loja, a menina, sem perguntar o que pretendo, vai buscar logo duas embalagens do dito. Sempre com um belo sorriso. Também alimenta.

Vícios? Sei lá se são ou não…


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

“Sepultar a dor” …

De quando em vez, ao acordar, penso na morte. Começa a ser frequente, mas não estremeço e nem sinto medo, apenas uma estranha sensação de paz. Curioso associar a morte à paz ou a paz na morte ao nascer de um novo e belo dia.
Sou depositário de muitas lembranças que arrecadei ao longo da vida. Muitas estão relacionadas com a morte, esse estranho fenómeno com quem comecei a conviver, e até a tocar, desde muito novo. Muito novo mesmo.
Por causa de ter despertado a pensar na morte, recordei uma conversa tida há alguns anos. Já era muito tarde, foi num daqueles dias tristes em que o sol adormece demasiado cedo.
O meu velho amigo, após se sentar com alguma dificuldade, perguntou-me se conhecia fulano. 
- Quem? Não estou a ver.
- Não o conhece?! Ele trabalhou comigo muitos anos na fábrica, e, com um gesto largo, apontou na noite escura como o breu para o lado de lá do rio, como a querer comprovar a sua identidade. Ficou em silêncio durante breves segundos. Depois reiniciou a sua narrativa.
- Vivia na quinta mais a mulher, que estava muito adoentada, coitadita. Eram ambos velhotes.
- Está bem! Mas o que é que aconteceu? Perguntei, antevendo o pior, porque o estilo de linguajar, aliado à idade avançada, só podia ser o prelúdio de um passamento.
- Na véspera do Ano Novo tiveram de chamar o 112. A mulher não se sentia bem e levaram-na para o hospital. Ela andava em cadeira de rodas. Estava muito doente, coitadita. Depois, quando regressaram tiveram de lhe dizer que tinha morrido. Veja lá como são as coisas. O marido, quando ouviu, sentiu-se mal e não é que também acabou por morrer. Como são as coisas, senhor doutor, como são as coisas. Afligiu-se e morreu. Eles davam-se muito bem. Viviam sozinhos, isolados na quinta, mas eram boa gente. Gente de trabalho, de muito trabalho, e honesta, muito honesta. Acabaram por ser enterrados no dia do Ano Novo e na mesma cova. Viveram juntos, morreram no mesmo dia e foram sepultados na mesma cova.
- Sabe, ainda bem, apesar da tristeza da notícia da morte de alguém, fico aliviado. Não sofreram com a separação, e a dor também acabou por ser enterrada com eles, homem, mulher e a dor da separação sepultados ao mesmo tempo. Uma bela forma de começar o novo ano. Viveram juntos, morrem praticamente juntos e vão dormir juntos para a eternidade. Onde foram enterrados? Disse-me o local. 
- Mas não deverão ter tido grande acompanhamento. Praticamente ninguém os conhecia.
- Não faz mal. Eu tenho alguma ideia deles quando era pequeno, mas vou registar este episódio, pode ter a certeza, nunca mais o esquecerei pela emoção que me despertou e por saber até onde pode ir o coração das pessoas que se amam. 
Almas desconhecidas que se libertaram da vida sem serem alvo de grandes atenções. 
Dedico-lhes esta descrição e lembrança. Sempre pode ser considerada com uma forma de oração ao nascer de um belo dia de sol com a morte a bocejar e sem querer fazer mal.

sábado, 27 de agosto de 2022

Lucille…

Uma tarde cinzenta convidando a memórias cinzentas. Tarde sem história. Rotina cinzenta. Tudo hoje me parece cinzento. Perdura o aroma matinal das minhas rosas cheias de cor. Felizmente que não há rosas cinzentas.
- Como se chama? 
- Lucília...
Sorri. Tinha o mesmo nome que a minha mulher. Exame banal, simples, senhora com saúde e simpática. No decurso do exame disse-lhe:
- Lucília é um nome pouco comum.
- Pois é. Respondeu. - Não conheço muitas.
Aproveitei a deixa.
- A minha mulher também se chama Lucília e a minha sogra também se chamava. Sorriu.
- É pouco comum, mesmo. 
- Hum! Então, não é boa pessoa. Aqui o sorriso deu lugar a uma curta gargalhada.
- Eu gosto do nome. Disse. Eu e o B. B. King. Conhece? Não lhe dei tempo para responder. Foi um grande músico. A sua guitarra chamava-se Lucille e fez uma música dedicado a ela. Expliquei-lhe a razão de ser do nome e como é que surgiu. Vi que estava a gostar da história. Fiz o que tinha ainda a fazer, dizendo-lhe ao mesmo tempo:
- Quando acabar a consulta vou-lhe mostrar. Foi o que eu fiz. Assim que ouviu os primeiros acordes disse:
- Ah! Mas eu já ouvi.
- Claro! Quem é que nunca ouviu?
- Mas eu não sabia que a guitarra se chamava Lucille. A guitarra e a música. Obrigado, senhor doutor. Hoje já aprendi alguma coisa. Saiu com um sorriso de agradecimento e polegar levantado.
A ideia é essa mesma. Aprender todos os dias um pouco.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Dignidade de um livro…

Passei parte do dia a trabalhar. Nos intervalos ataquei a leitura. Bebi-a como se fosse uma das minhas bebidas preferidas. Senti um agradável calor. Vivi os sentimentos de pessoas que também conheci. Terminei agora mesmo. O livro, muito velho, uma primeira edição, deixou cair nas mãos a última folha e a contracapa. Nunca tinha terminado um livro desta forma. A meu lado esquerdo o grosso do volume e na minha mão direita a delgada e ambicionada página. Aprendi tanto. A natureza humana seduz-me. Todos os dias surpreende-me, quer ao vivo, quer através da literatura dos nossos, maiores ou esquecidos, ou, então, no mundo da minha imaginação.
Fui buscar uma fita adesiva e restitui ao livro a alegria e a satisfação de um final que nem sempre acontece. A vida continua e sobrevive à morte e ao malfadado sofrimento. 
O livro sorriu e agradeceu o meu cuidado... 
A dignidade é isto mesmo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

“Pormenores da vida” …

Estou atento aos pormenores da vida. Aprendo com eles e acabo por compreender um pouco o que sou. Preciso de explicações, não das sofisticadas, que fazem as delícias dos filósofos ou dos teólogos, já que as dos cientistas são sempre mais humildes e sinceras, mas as dos acontecimentos diários em que os protagonistas são agentes e expressões da vida.

Uma conversa banal na esplanada de um café, um pedido inusitado na rua, uma atenção de respeito no cruzamento patético de entrada ou saída de uma rotunda, uma ajuda espontânea a uma pessoa aflita ou a descrição de experiências pessoais são alguns exemplos.

Sou cuidador, cada vez mais, situação difícil e complicada que é amenizada pelas reações de animais. O meu companheiro é rico e amoroso nas suas expressões. Hoje, tive de tomar conta de uma cadelita de uma filha. Já teve os seus problemas, graves, desde os maus-tratos quando nasceu, é portadora de cicatrizes, até de acidente com fratura e operação aos intestinos. Ajudei-a nessas ocasiões. Não temos convivido, porque raramente a vejo, mas o que é certo é que a cadelita se afeiçoou a mim como se fosse o seu dono desde sempre. Não sei explicar o seu apego. Mas não sei mesmo. Não me larga, pede-me para que a coloque ao meu colo, dorme com felicidade e até suspira, enfim, há coisas que não entendo. Ponho-me a pensar se terá algum sexto sentido ou algo que a leve a ter esta conduta, já que desconfia dos seres humanos e foge deles. Só sei que consegue transmitir algo quente, doce e cheio de paz. Um ser vivo a transmitir o que um humano nem sempre consegue ou conhece.

Esta reflexão foi despertada pelo cantarolar mais estranho que se possa imaginar. Uma muda, munida do carrinho de mão, e acompanhada pelo seu rafeiro, cantava toda feliz ao mesmo tempo que recolhia dos contentores aquilo que pode e lhe serve de sustento. Hoje vinha particularmente feliz. Cantava. Cantava. A muda cantava. Não sabe falar, mas sabe cantar e até avisar com gritos capazes de arrepiar qualquer um em caso de perigo ou se alguém precisa de socorro. Já faz parte da minha paisagem urbana. Tem um belo sorriso, transmite felicidade e está bem com a vida. Uma muda que canta e um animal desejoso de amar, apesar dos maus-tratos que sofreu, dão um significado à vida que os grandes pensadores são incapazes de transmitir…

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Uma extravagante forma de governar

Phineas Barnum, empresário norte-americano do século XIX na área do divertimento, tornou-se o primeiro milionário desse ramo de negócio, muito devido aos métodos originais e extravagantes que utilizava para atrair gente aos seus espectáculos.   

Desconhecido, as pessoas mal acorriam aos shows do primeiro salão que montou em N. York, até ao dia em que encontrou um mendigo à porta do teatro e teve a repentina inspiração de o contratar para um trabalho muito peculiar. Entregou-lhe uma sacola de tijolos e definiu-lhe os locais ao redor do quarteirão onde deveria ir deixando cada um deles. Quando ficasse com apenas um, voltava para trás, depositava esse tijolo no sítio do anterior, apanhando o que lá estava e assim sucessivamente, ficando sempre com um na mão e refazendo o trajecto até chegar ao salão onde deveria entrar. Aí, demorava um pouco e sairia por outra porta, retomando o circuito, o depósito e levantamento dos tijolos.

A cena, de tão repetida, intrigou os moradores, comerciantes e passantes no local que começaram a seguir o mendigo e a tentar saber o que por faria dentro do salão. Aí encontravam Barnum que lhes vendia um bilhete de ingresso. Conta-se que ao fim do primeiro dia largas centenas de pessoas tinham comprado uma entrada.  

Foi a forma criativa e excêntrica de publicitar os seus espectáculos que tornou Barnum o rei do show business.    

Olhando para o país, igualmente me parece que o actual 1º Ministro se tornou um rei, agora do show business político. É que, também ele, vai semeando tijolos, não já para publicitar os seus espectáculos, mas para desviar a atenção das deprimentes performances governamentais.

Se à porta do seu teatro se levantam manifestações perante o doloroso espectáculo das urgências hospitalares, logo planta dois coriscantes tijolos, um Plano de Emergência para o SNS e uma Comissão de Acompanhamento, fantasiando acção e trabalho, mas ironicamente sinal confesso de que não havia qualquer plano e o ministério nada acompanhava.

Nada se alterando, e subindo na rota da ficção, logo lhes junta mais dois vistosos tijolos para distracção pública, um vistoso aumento histórico das pensões (e com ele a ideia de benesse governamental e não de imposição legal devida a uma inflação como há 30 anos não havia), ou um repto aos empresários de aumento dos salários em 20% nos próximos 4 anos, não referindo se em termos reais ou nominais, importante foi a exibição de número tão redondo como virtual.

E se se levanta indignação perante a desobediência ministerial no caso do novo aeroporto, logo deixa mais um esplendoroso tijolo, a aprovação em Conselho de Ministros do Estatuto do SNS, garantia firme de resolução administrativa dos problemas estruturais da saúde, como se um regulamento alterasse o absurdo ideológico da Lei de Bases que visa servir.  

E se nas ruas adjacentes ao teatro se contesta os preços da electricidade, logo encandeia os contestatários com mais dois luminosos tijolos, a vitória no campeonato da descarbonização, forma de encobrir o resultado de uma fundamentalista política energética, e um plafond no preço do gás, mas ficando-se sem saber quem vão ser os últimos suportar o ónus, segredo bem guardado na ambiguidade da resolução.       

E quando o peso dos impostos nos salários atinge o incrível valor de 41,8% e os contribuintes suportam a maior carga fiscal da Europa, mais um cintilante tijolo vem atribuir o facto ao crescimento económico, como se a carga não medisse o peso de todas as componentes da fiscalidade no PIB.

E tão bem treinado e afoito na tarefa, não hesitou em mostrar peito e arremessar mais um tijolo, este bem grosseiro, aos países europeus que tanto nos têm apoiado, o da recusa da solidariedade nas restrições do gás.

Os tijolos de Barnum promoviam os seus espectáculos, os do governo apenas visam controlar as pateadas. Mas foi longe demais, que a arrogância, sobretudo do pedinte, tem um efeito de boomerang que sempre lhe é fatal. Mas certamente já serão outros a apanhar a pancada.

https://ionline.sapo.pt/artigo/778063/uma-forma-extravagante-de-governar?seccao=Opiniao_i

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

“Três de copas” …

 Os homens do mar têm comportamentos interessantes. São mais calmos, introspetivos, possuem olhos profundos, exprimem-se em curtas falas, exceto quando os convidamos a contar histórias, os quais são exímios, quer na forma quer no conteúdo, como se fossem elos de sagas remotas que, conhecedoras das suas fraquezas, se alimentam da sua cortesia para se manterem vivas. Os longos meses passados nas embarcações, trabalho duro, leva-os a adquirir este tipo de conduta, mas também revelam comportamentos nada saudáveis. Quando entram no consultório, logo pela manhã, muitos emitem um bom dia enevoado por uma rouquidão tabágica associada ao característico cheiro. Nem lhes pergunto se fumam, passo para as seguintes, há quanto tempo e quantos cigarros por dia. Outro aspeto muito comum são as tatuagens, de um modo geral são toscas, mal produzidas, com motivos vários, embora outros apresentem imagens bonitas. Presumo que deverão ser feitas nos curtos períodos de descanso entre o silêncio do mar e o ruído ensurdecedor das máquinas.  

Três marítimos, de chofre, o primeiro com a laringe enrugada, não pelo sol, mas pelo tabaco, apresentava um dragão na região do deltoide, um deltoide espesso, duro, a conferir ao animal imaginário uma força descomunal, à espera de um dia transformar-se num dragão decrépito. Nem foi preciso perguntar se era do Futebol Clube do Porto, porque por baixo do bicho lia-se bem, “FCP”. Sorri. Há indivíduos para tudo. Foi feita por um profissional, segundo me disse. Quanto ao tabaco, os conselhos que lhe dei para abandonar deverão ter o mesmo efeito do que pretender apagar a tatuagem com água e sabão. Outro, simpático, mais culto, ocupando um cargo superior, perguntou-me se estava tudo bem, se não havia problemas. Disse-lhe que sim. Olhou-me meio perplexo. - Mas o quê? O que é que se passa? – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? - É verdade, mas diga-me o que é que se passa! – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? Repeti. Sim! Via-se a impaciência a crescer, queria saber o que é que se passava. - É isso mesmo homem de Deus, o senhor fuma, e quem teve um enfarte não deve fumar. Incrédulo, ainda repetiu mais uma vez a pergunta não querendo acreditar que aquilo que eu considerava como grave era para ele uma coisa sem importância, mas, depois de algumas explicações, profusamente detalhadas, ficou convencido da importância do seu problema de saúde e agradeceu-me efusivamente. Nesse momento não consegui ver qual o grau de satisfação e o sorriso da sereia desenhada no seu peito, mas, pela forma como reagiu, adotando a posição de peito inchado, decerto que a sua imaginada amada também terá sorrido e ficado mais tranquila. O terceiro, o mais alto da escala hierárquica, revelou todas as interessantes caraterísticas deste tipo de pessoal. Culto, bom contador de histórias, calmo, como convém a quem tem de tomar decisões, e ainda por cima no mar, revelou-se um bom fornecedor de matéria-prima para quem gosta de conhecer a natureza humana. Não lhe vislumbrei, à primeira vista, nenhuma tatuagem, mas ao auscultá-lo fiquei surpreendido. No peitoral esquerdo também tinha uma! Afinal, este pessoal, mesmo os mais habilitados, também têm os mesmos comportamentos. Não resisti e perguntei-lhe o porquê do "três de copas". - São as minhas três mulheres. Olhei para ele e, atendendo a que era ainda novo, a filha mais nova tinha sete anos, pensei, como é que iria resolver o problema se tivesse ainda mais um amor. Não é que fosse difícil desenhar o "quatro de copas", mas o que é que iria fazer ao "três de copas"? Não lhe perguntei. 

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

"A Guerra do Roque"...

Li em tempos uma história interessante numa obra de John Steinbeck. O capítulo intitulava-se "A Grande Guerra do Roque". Acabei por saber que o "roque" é uma forma complicada do jogo de críquete, que para mim já é suficientemente esquisito. Steinbeck diz que este tipo de jogo desenvolve o carácter. Antecipei de imediato ironia que se veio a comprovar no final do capítulo. Tudo começou numa cidade com graves complicações. Quando foi fundada muitos velhos refugiaram-se ali, sem compreenderem do que é que fugiam. Tornou-se numa cidade "rabugenta" em que tudo corria mal. Foi então que um filantropo decidiu oferecer à cidade dois campos de "roque". Como qualquer desporto tem de haver adeptos, necessidade de competição, de luta, e atribuição de prémios para o vencedor. Os cidadãos tinham mais de setenta anos. Uns pertenciam aos Azuis e outros aos Verdes. A rivalidade começou a crescer de tal forma que deixaram de se falar e ser proibido casamentos entre Azuis e Verdes. Passou-se de imediato para a política, e na igreja os Azuis não se misturavam com os Verdes. Houve quem propusesse a criação de igrejas separadas. Tudo girava à volta da rivalidade clubística, que se transformou em rivalidade política e em segregação religiosa e, claro, com o tempo, os idosos chegaram a incendiar as casas de uns e de outros, a cometer atentados e a provocar mortes. O filantropo via tudo aquilo com muita tristeza. Um dia, encomendou um buldózer e mandou destruir os dois campos de "roque". Em seguida abandonou a cidade para sempre. Foi o que fez de melhor. Os Azuis e os Verdes, desde então, reúnem-se naquele dia e queimam uma esfinge do filantropo depois de o enforcar. Este comportamento fez-me lembrar a queima do Judas. Azuis e Verdes unem-se de forma a exteriorizar a sua violência e intolerância na figura e na lembrança de um filósofo que só queria o bem-estar dos seus concidadãos. Dizem os entendidos que a tal variante de críquete desenvolve o carácter. Pois! Nota-se. Há histórias que não sendo verdadeiras assentam como uma luva à realidade. Mesmo assim, prefiro, de longe, as figuras dos Judas que outrora queimavam na minha terra. Todos se uniam em torno da imagem, gostassem ou não da personagem, mas depressa esqueciam-se desta união. Voltavam aos copos, o que também era uma outra forma de união. Neste país, sem rei e sem roque, embora, aparentemente, nos queiram convencer do contrário, a radicalização começa a surgir com alguma veemência. Um problema dos diabos, ou melhor, um problema típico dos homens (neste conceito, gramaticalmente com tendência para o neutro, homens, estão também incluídas as mulheres) …

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Mondrongo

Gosto de navegar no tempo. Sou um marinheiro de mares da saudade. Adoro partilhar vivências, sentimentos, emoções e, sobretudo, saborear recordações. Navegar no tempo é esquecer as más memórias. Poderão dizer, mas não as esquecemos! Está bem, não faz mal, mas é sempre possível retocá-las com cores menos dolorosas, desenhando traços finos de saudade. Navegar no tempo é transformar a realidade do passado no encanto do mundo da fantasia. São momentos deliciosos quando conseguimos misturar tudo, imagens dinâmicas, coloridas e quentes, com desejos ardentes, sensações estranhas, cheiros deliciosos, emoções perdidas e vontades achadas. O tempo mistura tudo, sem respeito por ele próprio, criando novas realidades que só ele sabe. O tempo faz esquecer a realidade dos momentos do passado, confundindo-nos propositadamente para que a saudade tenha outro sabor e cheiro. O tempo consegue o impossível que é recriar situações temporais distintas como se tivessem ocorrido no mesmo momento. Vale a pena viver a fantasia da realidade, uma fonte de prazer a que não devemos fugir. 

- Então, ainda cá estamos?

- É por pouco tempo, senhor doutor. Deve ser a última vez que nos vimos.

- Ó homem não diga isso.

- Digo, digo, eu é que sei.

- Mas não está a dar a côdea, pois não? O miolo ainda funciona. Um sorriso alargado, com alguma baba a cair do canto da boca a testemunhar o ocorrido há cerca de trinta anos, fez-me recordar o passar do tempo.

- Afinal, envelhecemos juntos. Disse-lhe meio espantado.

- Pois é, mas ainda vai sentir saudades minhas. Vai ver que vai. E bate com o punho no peito, dando a entender a fragilidade crescente do corpo e da alma a querer libertar-se.

- Vá, deixe-se disso, vamos daí. Suba. Subiu com muita dificuldade.

- Estou um mondrongo.

- Qual quê! Vamos conversar um pouco. E assim foi, com alguma provocação à mistura, ou melhor, com muita, as lembranças iam-lhe saindo a uma velocidade razoável, tendo, por vezes, misturado momentos, prazeres e aventuras, algumas mesmo loucas, quase que diria irreais. Uma verdadeira caldeirada de sabores, experiências, vivências e sentimentos que rapidamente despertaram velhas emoções fazendo com que o tempo andasse num corrupio louco, saltando anos, não interessa quantos e nem como, o que interessa foi recordar o passado através de tempos diferentes que eram e são sempre seus, e alguns também meus. Uma alegria efusiva, acompanhada de sonoros risos, inundava-lhe a fácies conseguindo repuxar os beiços descaídos, num interessante rejuvenescer em que o futuro conseguia mergulhar no seu passado.

Uma delícia, um alívio, sentir a vontade louca de recordar o que aconteceu como se o presente necessitasse desse belo e estranho alimento. O tempo da conversa não passou, foi apenas saboreado como se tratasse de um delicado copo de vinho. Mais uma memória construída para ser recordada amanhã. Amanhã? Não, ainda hoje, enquanto é tempo. 

Não sou ainda um mondrongo, mas o meu amigo Pereira tinha razão, sim, tenho muitas saudades dele. Se tenho, meu Deus.