Número total de visualizações de páginas

sábado, 16 de maio de 2009

Que horror!

É assustador pensar no clima em que se vive, ou melhor se sobrevive, num país em que 98% dos crimes cometidos não resultam em qualquer condenação. A Guatemala é um desses “paraísos”.
Seria, contudo, difícil de imaginar que uma pessoa que viria a ser assassinada tivesse um tão dramático “sangue frio” para se constituir ela própria sua testemunha de defesa e, simultaneamente, testemunha de acusação daqueles que ordenaram o serviço. Isto mesmo fez um advogado da Guatemala – Rodrigo Rosenberg Manzano – através de um vídeo difundido no site do elPeriódico, algumas horas após ter sido assassinado. Sentado em frente à câmara o Advogado diz que se as pessoas o estão a ver é porque a essa hora está morto. E estava mesmo.
Ao ver tudo isto questiono-me porque é que o Advogado, temendo pela sua vida, não fugiu ou porque é que não pediu protecção e auxílio. Porque não se defendeu? Porque teria que viver os seus últimos dias de vida tão tragicamente no medo de uma condenação anunciada?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Recebido por mail

António, depois de dormir numa almofada de algodão (Made in Egipt), começou o dia bem cedo, acordado pelo despertador (Made in Japan) às 7 da manhã.
Depois de um banho com sabonete (Made in France) e enquanto o café (importado da Colômbia) estava a fazer na máquina (Made in Chech Republic), barbeou-se com a máquina eléctrica (Made in China). Vestiu uma camisa (Made in Sri Lanka), jeans de marca (Made in Singapure) e um relógio de bolso (Made in Swiss). Depois de preparar as torradas de trigo (produced in USA) na sua torradeira (Made in Germany) e enquanto tomava o café numa chávena (Made in Spain), pegou na máquina de calcular (Made in Korea) para ver quanto é que poderia gastar nesse dia e consultou a Internet no seu computador (Made in Thailand) para ver as previsões meteorológicas. Depois de ouvir as notícias pela rádio (Made in India), ainda bebeu um sumo de laranja (produced in Israel), entrou no carro Saab (Made in Sweden) e continuou à procura de emprego. Ao fim de mais um dia frustrante, com muitos contactos feitos através do seu telemóvel (Made in Finland) e, após comer uma pizza (Made in Italy), o António decidiu relaxar por uns instantes. Calçou as suas sandálias (Made in Brazil), sentou-se num sofá (Made in Denmark), serviu-se de um copo de vinho (produced in Chile), ligou a TV (Made in Indonésia) e pôs-se a pensar porque é que não conseguia encontrar um emprego em PORTUGAL...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O sexo dos anjos

Enquanto a cidade era tomada pelo inimigo, os sábios de Bizâncio discutiam acaloradamente o sexo dos anjos. Porque sobre o sexo das mulheres e dos homens já não tinham qualquer dúvida.
Pois os deputados portugueses, a avaliar pela grossa discussão sexual de hoje na Assembleia da República, ainda têm dúvidas sobre o sexo dos homens e das mulheres. "O sexo não é suficiente para definir se alguém é homem ou mulher", afirmava convictamente um Deputado, logo apoiado e contraditado por outros. O apimentado debate que se seguiu não permitiu fazer luz total sobre tão candente matéria. Passando à votação, forma democrática de saber se o sexo era suficiente ou não, os Deputados continuaram divididos quanto ao ponto.
De facto, muito séculos depois, estamos ainda longe de Bizâncio. A discussão dos sexo dos anjos é uma miragem. Ainda estamos na fase embrionária e primeva de discutir o sexo dos homens e das mulheres.

Educação sexual em liberdade...

A Assembleia da República está a discutir a lei da "educação sexual". De tudo o que até agora ouvi e li, sou levada a concluir que os partidos não se entendem relativamente a questões que são a meu ver essenciais.
Uma das questões fundamentais é a de saber se a disciplina de educação sexual deve ser obrigatória ou facultativa. Discute-se também a quem compete a definição dos conteúdos curriculares.
Ninguém pode ignorar a importância da educação sexual. Não estando em causa a necessidade de transmitir aos jovens uma formação saudável em educação sexual, na qual a escola deverá ter um papel importante, não dispensando, contudo, a intervenção da família, não é, do meu ponto de vista, aceitável que uma matéria tão complexa e delicada seja imposta aos pais e aos alunos pela via da obrigatoriedade da frequência das aulas de educação sexual.
Nesta matéria o Estado não pode nem deve assumir uma posição paternalista e centralista, não respeitando as convicções éticas e os padrões de valores que as famílias perfilham e as convicções religiosas e filosóficas que professam. O Estado ao impor neste domínio uma concepção paternalista não respeita o princípio elementar da liberdade, já que não pode a lei esgotar a dimensão ética da vida.
O que se espera do Estado é que deixe à opção de cada família a decisão, que não deixará de ponderar os conteúdos curriculares e a preparação dos docentes envolvidos, de os seus filhos frequentarem ou não a disciplina da educação sexual.
Não sendo possível, nem me parece desejável, que os currículos sejam pura e simplesmente decretados por lei, a solução passa por atribuir às escolas essa responsabilidade, devendo a lei, isso sim, prever formação específica que habilite e prepare os docentes a fazê-lo.
Aprovar a educação sexual desenquadrada de uma educação global e sem dotar as escolas de docentes devidamente formados para assegurarem responsavelmente o ensino de uma matéria tão sensível seria uma irresponsabilidade.
O Estado deve preocupar-se com a educação sexual, mas no respeito pela liberdade de escolha...

Maravilha!

Quem diria que há 35.000 anos fosse possível criar uma Vénus com estas características? Os rapazes da época tinham preocupações estéticas e eróticas...

Medeia e Gaia

Ler a Teogonia de Hesíodo é uma forma de amansar a fúria da existência, atribuindo-lhe um significado que o dia-a-dia não consegue, nem de perto nem de longe. Retrata com particular acuidade as razões da vida, muito mais do que todas as cosmogonias posteriormente criadas.
Fala de Gaia, a deusa Terra. “O que primeiro existiu foi o Caos; e logo a seguir a Terra de seio fecundo e segura mansão de todos os Imortais, que habitam os píncaros do Olimpo coberto de neve... A Terra gerou, em primeiro lugar, um ser de dimensão semelhante à sua, o Céu coberto de estrelas, para que a cobrisse, toda inteira, e fosse dos deuses bem-aventurados a eterna e segunda mansão”.
Gaia inspirou, em 1970, James Lovelock que elaborou uma teoria com o mesmo nome. Segundo a Teoria de Gaia, todos os seres deste planeta comportam-se como células de um único corpo. Deste modo, a Terra é um ser vivo com muitas células, tecidos e órgãos que vive e respira. Não sei se tem alma e se sofre ou não. Mas, segundo a Teogonia, até tem. Gaia vive, sofre e ama. A visão de Lovelock, baseada em regras e princípios ecológicos, permitindo a interligação de todos os seres vivos, deu e abriu novas perspetivas para uma melhor compreensão do ambiente e do tão desejado equilíbrio. A Terra tem capacidade de sobreviver, mesmo em circunstâncias extremas, graças à auto regeneração.
Os desastres, grandes ou pequenos, naturais ou artificiais são insuficientes para matar a deusa Terra que continuará o seu percurso mesmo sem a presença dos humanos. A Terra-Gaia já viveu sem o homem e, naturalmente, poderá continuar a viver sem ele. Nesta perspetiva, a vida estará sempre assegurada. Mas será mesmo assim? Talvez não, se aceitarmos a opinião de outro cientista, desta feita, Peter Ward que, socorrendo-se da mitologia, contrapôs à bela teoria de Gaia, uma outra denominada Hipótese de Medeia. Medeia? Medeia é o símbolo da perversidade que Euripides tão bem descreveu na obra homóloga e cujo comportamento atinge o acme da violência contra a natureza humana quando mata os próprios filhos. O autor, com esta designação, pretende afirmar que a vida tem a pretensão de matar a própria vida. Para Ward “a vida é tóxica”! Segundo este autor, se deixarmos a natureza seguir o seu curso, a tendência é caminhar mesmo para o Dia do Juízo Final. Para ilustrar as suas afirmações, Ward socorre-se dos momentos em que o planeta esteve à beira de ficar sem vida. Quatro das cinco maiores extinções foram devidas não a impactos de meteoros ou à atividade vulcânica mas sim à ação de seres vivos e, por duas vezes, quase que o planeta se transformou numa gigantesca bola de gelo pela ação voraz de plantas.
As ações dos homens com todo o seu arsenal poluidor e destruidor não constituem uma ameaça maior às que já ocorreram e que levaram à extinção em massa das espécies. De acordo com este perito, as atividades dos seres humanos poderiam ser fatores importantes, impedindo essa tendência de a vida ter como “alvo” a própria destruição, contribuindo para manter a Terra viva. Nesta perspetiva o homem deixaria de ser considerado como uma célula nefasta, dotada de atividade “carcinogénica” ou um “vírus maléfico” contra a Terra-Gaia, e passaria a ser uma garantia para que a vida continuasse.
Afinal onde nos devemos posicionar? Na Teoria de Gaia ou na Hipótese de Medeia? O melhor não é escolher uma ou outra, mas sim continuar a ler a Teogonia, talvez um dia se encontre a resposta, apodando-a com o nome de um dos fabulosos deuses, que em boa hora criámos para que nos explicassem os porquês que ainda não conseguimos responder. É pena que estejam tão silenciosos! Mas são deuses...

Ali Agca quer ser português!

"O turco Ali Agca, que tentou assassinar o Papa João Paulo II em plena praça de São Pedro, arrependido pelo que fez e depois de ter sido perdoado por João Paulo II, quer tornar-se cidadão português." (Conferência Episcopal Portuguesa não se opõe ao desejo de Ali Agca)

Não sei se hei-de rir ou chorar! De qualquer forma aqui está uma boa solução para combater o decréscimo da população portuguesa!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Renacionalização da COSEC já está...só falta a moratória!

1. Em Post editado em 7 do corrente, “Moratória das dívidas à banca…” referi-me a propostas muito curiosas, uma a (re)nacionalização da COSEC, sugerida pelos Presidentes da AEP e da AICEP, a outra uma moratória geral para as dívidas bancárias das empresas, sugerida pelo Presidente da AIP.
2. O Governo mostrou-se lesto em relação à primeira - renacionalização da COSEC, ao que parece por aquisição “potestativa” – tendo essa decisão sido hoje anunciada pelo habitual porta-voz, pelos vistos antes mesmo de os presumíveis vendedores terem sido contactados para o efeito.
3. Tenho para mim que este anúncio constitui essencialmente um acto de política pré-eleitoral, que com grande probabilidade nos vai sair caro...
4. Digo que nos vai sair caro porque não estou a ver que os actuais titulares estejam dispostos a vender a qualquer preço e vão aproveitar-se do clima e da necessidade de fazer demagogia por parte dos decisores para imporem condições que...nós pagaremos como habitualmente.
5. Convém ter presente que um dos contemplados com esta aquisição “potestativa” é exactamente uma companhia de seguro de crédito alemã e o Governo deve saber que se não a tratasse bem (à nossa custa, claro), acabaríamos pagando uma factura elevadíssima…
6. O seguro de crédito, interno ou à exportação é hoje uma actividade essencialmente comercial, com excepção da área da cobertura dos riscos políticos e extraordinários em exportações - de bens de equipamento e serviços, sobretudo - para países que envolvam esse tipo de riscos, em geral economias emergentes ou países de baixos rendimentos (LIC’s).
7. Mas esses riscos políticos e extraordinários são desde há muito tempo objecto de resseguro junto do Tesouro Público, podendo o Ministério das Finanças adoptar as providências que muito bem entender para alargar essas coberturas se considerar isso do interesse nacional...
8. Então para quê nacionalizar a COSEC? Para fazer a vontade aos Presidentes da AEP e da AICEP? Para piscar o olho à esquerda? Não haverá processos de piscar o olho menos dispendiosos?
9. E porque não fazer também a vontade ao Presidente da AIP, concedendo uma moratória por 1 ano ou mais às dívidas bancárias das empresas?
10. No ponto em que as coisas se encontram, a moratória até teria mais justificação do que renacionalizar a COSEC...e custar-nos-ia muit(issim)o menos dinheiro.
11. Assim vai o circo, cada vez mais animado à medida que a data das eleições se aproxima...ha, quase esquecia: por estas e por outras é que os impostos não podem baixar…

Uma simples questão de emprego

Ainda se fazem sentir os ecos das inacreditáveis confissões em público de Elisa Ferreira do "vou ali à Europa e já venho". Escandalizou pela sinceridade quase desarmante. Mas quantos outros e outras tudo fazem para não descolarem dos círculos de poder? Quantos, bajulando agora quem sem dó nem piedade criticavam e condenavam há não muito tempo? Antes, a imagem de agentes de contrapoder e de independência, rendia notabilidade. Mas agora a bajulação é a rendição, a condição sine qua non da designação para uma lista qualquer que garanta mais uns anitos a viver à sombra de um qualquer lugar público. Para já não falar daqueles que, ocupando lugares ou exercendo funções em situação pessoal que a mais elementar sensatez levaria a abandonar, fazem inveja à mais resistente das lapas. Uma simples questão de emprego, dizia alguém por aí. E dizia bem.

Sabe que tem que registar o seu poço?

Num programa de televisão ontem (RTP?) os repórteres foram ao terreno perguntar aos cidadãos se sabiam da obrigação legal de registar os poços, noras, furos, minas, barragens, açudes ou descargas de águas residuais até ao fim de Maio (agora passou para 2010). Que não, não sabiam, diziam as pessoas das localidades rurais, esse país profundo aqui tão perto. Ou então que sim, tinham ouvido falar na aldeia mas que não sabiam mais nada, ninguém os tinha informado.
- E sabe que a multa pode ser de 25 000 euros até mais de 30 000? – dizia o repórter
O homem ficou parado, a avaliar a dimensão do dinheiro e depois encolheu os ombros, a desistir.
- Sei lá, capazes disso são eles, a gente já está habituada a tudo, mas aqui ninguém sabe de nada, quando é para multar é que aparecem, para ajudar ninguém vem.
Mais à frente, o repórter interroga uma senhora de cabelos todos brancos e ar tranquilo, pouco disposta a preocupar-se com os disparates que vê todos os dias.
- Ai é preciso? Eu não sei, tenho poço, sim senhor, mas isso de registar não sei, falam para aí qualquer coisa mas não sei ao certo.
- E sabe o que é preciso fazer? – o repórter tira um maço de papéis, vários impressos com perguntas e quadradinhos para registar todos os detalhes exigidos. – Tem que preencher e entregar isto.
A mulher deita uma olhada divertida à papelada.
- Ai sim?, Olhe, eu nem sei ler, o pouco que aprendi já esqueci e agora vejo mal, assino o nome com dificuldade, se é preciso preencher isso tudo não sei.
E por aí fora.
Hoje falei com um proprietário de uma herdade que tinha vários poços, a Câmara mandou construir um aterro nas proximidades, do outro lado da estrada, e a água está inquinada, teve que fechar os poços, mas mesmo assim não sabe se terá que os registar.
Se havia dúvidas sobre o abismo que há entre mundo dos que legislam, teorizam e apontam coimas e os cidadãos a quem as leis se destinam, ficámos esclarecidos, há casos em que a insensatez é mais funda que um poço.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Noite de patetices

Intervalo de um parecer trabalhoso. Na SIC-N confirmo que o PS não consegue calar Vitalino Canas que tem o condão (que alguns considerarão abençoado) de agravar as coisas para o partido a que pertence. Um juiz-desembargador que aceita ser interrogado sobre o caso do procurador Lopes da Mota para dizer que não pode falar sobre o caso Lopes da Mota. Um bem humorado Ângelo Correia desafiando Vicente Jorge Silva a acompanhar José Sócrates na visita à Madeira para o ritual da distribuição do Magalhães. Um fulano a dizer, sem se rir, que o desastre para a justiça está no facto dos magistrados - juízes e procuradores - falarem pouco para os media, não denunciarem o que está mal no sistema. O homem não é profissional brincalhão, é jornalista.
E ainda a noite vai uma criança...

Tolerância ao leite

Estudos efetuados em esqueletos do Neolítico revelam que os nossos antepassados, que viveram há cerca de 7.000 a 8.000 anos, não tinham capacidade de digerir o leite. Hoje, cerca de noventa por cento da população que vive no norte da Europa, Médio Oriente e nalgumas comunidades africanas têm essa capacidade em grau variável. Mas nas restantes regiões do globo continuam a não poder usufruir dessa capacidade.
Beber leite sem ter o enzima necessário para digerir a lactose origina um quadro clínico bem conhecido – Intolerância à Lactose – caracterizado por mal-estar abdominal e diarreia.
O facto de não haver elementos que confirmem a presença desse gene na pré-história indicia que os nossos avós não utilizavam o leite. Aliás, a única espécie que bebe leite fora da idade própria é a humana.
Como é que apareceu esta tolerância? Segundo uns, deveria existir já uma mutação nesse sentido mas que por falta de força da seleção natural ainda não tinha capacidade de mostrar a sua importância. Outros, apontam para aquilo a que podemos chamar um comportamento lamarckiano, em que a exposição ao leite teria originado o aparecimento da tolerância. Só após o início da atividade da criação dos animais é que começou a surgir este fenómeno, que se revelou altamente vantajoso, há 9.000 anos, passando os seres humanos a ser a única espécie a beber leite fora da idade própria.
A capacidade para digerir leite fresco deve-se a um simples gene autossómico dominante. Esta circunstância facilita o seu predomínio, comparativamente aos genes autossómicos recessivos. Se a capacidade de absorver a lactose garantir, por hipótese, mais 5% de probabilidade em termos de sobrevivência, e a sua prevalência for inicialmente de 1% então podemos calcular que são necessários 325 gerações para atingir uma prevalência de 90% como se verifica nalgumas zonas do globo, nomeadamente no norte da Europa, o que corresponde a 8.000 anos de evolução, o que bate certo com o início da atividade da pastorícia.
A mutação ocorrida no gene que permite a tolerância à lactose ilustra o fenómeno de seleção natural ocorrida nos “nossos tempos”, e com uma velocidade notável. Afinal, há indícios de que a evolução continua a sua marcha.
Uma mutação feliz que deverá ter ocorrido na antiga região da cultura Funnel Beaker, onde se instalaram os primeiros agricultores da Europa do Norte.
No entanto, tudo aponta para que tenham ocorrido mutações similares, e independentes, em África, há cerca de 4.5000 e 3.000 anos.
Neste continente não se observa este gene, exceto nos povos pastores os quais apresentam um certo grau de tolerância. Compreende-se que entre estes povos (Quénia e Tanzânia) o uso do leite seria uma forma de suplemento alimentar muito importante que evitaria a fome, além de não correrem perigos de infeção. Uma verdadeira assinatura genética da evolução.
A hipótese cultural-histórica parece ser a mais correta para explicar um dos fenómenos mais curiosos da nossa evolução recente.
Nas zonas do globo onde não existe cultura do uso dos produtos lácteos, como é o caso da China, a prevalência do gene é muito baixa.
Beber leite é beber uma bebida livre de parasitas e de gérmenes, fornece energia, fornece cálcio, fornece proteínas, ou seja, é um alimento completo que desempenha uma papel muito importante quando as forças seletivas ambientais, tais como a fome, acabam por se manifestar, permitindo a sobrevivência.
Em síntese, o estudo da prevalência da tolerância à lactose é um bom exemplo da seleção natural. Desempenhou nestes últimos milénios um papel muito importante, mas, convenhamos, hoje em dia, face à produção alimentar, justificar-se-á que se mantenha esta mutação? Será correto enviar produtos lácteos para as zonas do globo em que a intolerância é uma realidade? Haverá outras vantagens no uso do leite em idades mais avançadas? Poderá contribuir para minimizar o fenómeno da osteoporose tão comum nas sociedades ocidentais em consequência do envelhecimento? Será que a absorção do cálcio poderá contrabalançar a tendência anti-hipertensiva verificada nas pessoas de mais idade? Neste caso poderá explicar, pelo menos em parte, o aumento da prevalência da hipertensão arterial nos povos do sul e os que vivem mais perto do equador, os mesmos que apresentam maior intolerância à lactose. Será que possa ter dado um contributo importante no combate ao raquitismo? Nas zonas mais nórdicas, havendo menos exposição ao sol, produzir-se-ia menos vitamina D, vitamina indispensável para a correta utilização do cálcio. O leite, sendo um dos produtos mais ricos em cálcio, ao ser digerido e utilizado pelas crianças após o desmame e durante a vida adulta, poderia contribuir para uma absorção mais eficaz do cálcio, concedendo aos portadores do gene que permite a tolerância à lactose mais hipóteses de sobrevivência.
Evolução. Sempre presente!

Vale a pena ler...

...sobre a realidade da execução do QREN, este post de Carlos Nunes Lopes no 31 da Armada.
Há verdades que não são contornáveis, mesmo pela lábia política mais descarada.

Espanha e IRC

Ainda hoje, aqui ao lado, em Espanha, no debate do Estado da Nação, o Primeiro-Ministro Zapatero, anunciou a descida no imposto sobre sociedades (equivalente ao “nosso” IRC) para pequenas e médias empresas e para trabalhadores independentes, em cinco pointos percentuais, como medida para evitar a destruição de emprego.

Em Portugal, medidas fiscais continuam proscritas…

Certamente porque “fariam perder receita”…

E depois admirem-se que Espanha vá recuperar mais rapidamente da crise do que o nosso país (que, por razões internas, não sairá dela)…

Nunca aprendemos mesmo a lição…

Um caso raro de generosidade inter-geracional...

Vivemos tempos em que a ética anda arredada da vida social, financeira, económica e política e em que a responsabilidade social, que anda na boca de meio mundo, é muito mais um sound bite do que uma prática verdadeiramente assumida.
Têm sido tempos em que as decisões das actuais gerações são tomadas hipotecando o seu bem-estar futuro e o das gerações mais novas. Vivemos o primado do conjuntural sobre o estrutural.
A crise económica veio demonstrar a perigosidade da perda dos valores tradicionais, substituídos por objectivos de resultados efémeros e que aproveitam a uma pequena minoria. Com efeito, a maximização do lucro sem quaisquer restrições éticas e a realização do prazer imediato são geradoras de quebra de valor social e hipotecam a vida das gerações futuras.
Os bons exemplos demonstram-nos, contudo, que não tem que ser assim. É importante que as boas práticas sejam conhecidas e façam o seu percurso, na esperança de chamarem seguidores.
É o caso do "Fundo do Petróleo" da Noruega. É o segundo maior do mundo, financiado por receitas do petróleo, consignadas para beneficiar os filhos dos noruegueses e os filhos dos seus filhos. Os decisores políticos e os cidadãos da Noruega sabendo que as reservas de petróleo não são inesgotáveis entendem que não têm o direito de as utilizar hoje em seu exclusivo benefício.
Para além da ideia de renúncia imediata a uma parte dos lucros do petróleo em benefício do bem estar das gerações futuras, o Fundo impõe nas escolhas dos seus investimentos regras éticas muito rigorosas, que excluem, entre outras, empresas com condutas que não respeitem os direitos humanos ou que sejam danosas para o ambiente, com práticas anticoncorrenciais ou que produzam armamento.
No artigo que nos fala deste Fundo, é apresentado o caso da Wal-Mart, uma empresa conhecida pelas suas práticas de responsabilidade social e ambiental, que não escapou ao crivo das directrizes éticas do Fundo por ter violado direitos humanos fundamentais, como o trabalho infantil.
Estamos, pois, perante um caso raro de generosidade inter-geracional e perante uma iniciativa socialmente responsável, em contra ciclo ao que é o status-quo...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

“Odores e a seleção natural”

Ninguém duvida que as fragrâncias têm uma conotação sexual. Tudo aponta para que tenham sido utilizadas muito cedo, há mais de 5.000 anos, com esse fim. Houve períodos em que era mesmo necessário recorrer aos perfumes para esconder os maus cheiros resultantes da falta de prática higiénica tão comum em certas épocas.
A procura de fragrâncias e a capacidade olfativa para as detetar é do conhecimento geral. As feromonas desempenham um papel muito importante na atração sexual em muitas espécies. Importa saber qual o papel, se é que ele existe, na nossa espécie, dos odores que emitimos. A comunicação olfativa é uma realidade que não se esgota numa “comunicação vernácula”, traduzida pelos maus cheiros, ou excesso de odor, estende-se a fenómenos naturais que desempenharam, e quem sabe se ainda não desempenham, um papel muito importante no acasalamento. Pelo menos usamos fragrâncias com esse “desiderato”, ou seja, muitas vezes, apenas para realçar a produção natural. Resta saber se, mesmo sem as usar, os nossos organismos ainda conseguem detetá-las. Também é do conhecimento geral que, face às inúmeras fragrâncias, reagimos de forma diversa. Gostamos de algumas, detestamos outras e nem sempre somos coincidentes nos gostos.
Em todas as culturas podemos observar o comportamento ritualista do uso de perfumes que perpetua antigas práticas egípcias. A importância dos odores está também contemplada na própria Bíblia.
Face ao exposto, alguns cientistas chegam a afirmar que o uso das fragrâncias não é para esconder maus odores mas sim para realçar odores naturais.
O complexo major de histocompatibilidade representa um conjunto de genes codificadores da síntese de proteínas as quais por sua vez desempenham um papel muito importante em termos imunológicos. Este sistema influencia a resistência às doenças, desempenha um papel na aceitação e rejeição dos transplantes e facilita a tolerância ao feto durante a gravidez, além de outras funções importantes, nomeadamente o desenvolvimento do sistema nervoso. Uma das suas principais características é a extraordinária diversidade genética. Quanto maior a diversidade melhor. Deste modo, o cruzamento de genes semelhantes, que ocorre em comunidades endogâmicas, não é aconselhável, nem benéfico para os indivíduos. A procura de um parceiro com genes diferentes, em termos de sistema major de histocompatibilidade, é acompanhada de um ganho em termos evolutivos.
A produção de descendentes caracterizados por um elevado polimorfismo nesta área confere aos portadores maior resistência face aos agressores.
É aqui que as preferências por certas fragrâncias podem também desempenhar um papel importante na espécie humana. De facto, já foram testados as preferências de odores entre humanos, tendo-se verificado uma “empatia odorífica” entre os que apresentam dessemelhanças. Os que apresentam genes semelhantes não apreciam os odores um do outro, contribuindo, talvez, para evitar descendência com pouca diversidade de um sistema muito importante que nos protege face às agressões patogénicas. Claro que na espécie humana as coisas são mais difíceis de analisar, ao contrário de outras espécies. De acordo com o genótipo do sistema major de histocompatibilidade, as preferências pelas diversas fragrâncias sofrem uma grande variação, traduzindo um fenómeno que deverá ter tido um papel muito importante na evolução.
O nariz continua a desempenhar um papel muito importante na seleção natural ao contribuir para a “escolha de parceiros” mais qualificados a fim de garantir maior diversidade ao descendente, possibilitando-lhe uma maior resistência.
Quando ela lhe pergunta: - Gostas do meu perfume? E ele responde: Adoro, meu amor! É muito provável que os seus sistemas major de histocompatibilidade sejam mesmo diferentes. Mas se um dos dois achar enjoativo o after-shave ou o perfume, então o melhor é pensar duas vezes! Quem sabe se não estão a ir contra a força da seleção natural! E se não estiverem contra ela, pelo menos estão contra as fragrâncias em questão...
Ai Darwin, Darwin! Só nos arranjaste dores de cabeça!

Sell in May and...go away!

1. A expressão em título é muito popular nos mercados financeiros, querendo dizer que os ganhos se fazem melhor na primeira parte do ano...sendo boa opção “fechar a loja” em Maio e voltar só no ano seguinte.
2. Esta expressão poucas vezes terá tido tanto sentido útil como no ano em curso...a recuperação das cotações e dos índices a que se tem assistido apresenta um sinal algo estranho, quando ainda não existem certezas quanto à profundidade e (sobretudo) a duração da crise económica que tem abalado o Mundo.
3. Bem sei, já aqui mencionei há dias (“Rays of hope, pockets of gloom”), que existem sinais de que estaremos bem dentro do primeiro andamento do “programa” de saída da crise: em várias economias e sectores regista-se um claro abrandamento do ritmo de contracção da actividade, nalguns casos sinais de estabilização...
4. Mas partir daqui para uma vaga de quase euforia nos mercados de títulos, afigura-se uma temeridade, nada garante que este movimento não tenha ainda um retrocesso sério...
Na crise de 1929-1932, mais profunda do que a actual pelo menos no que aos USA respeita (o PIB caiu então cerca de 50%...), existiram vários movimentos de recuperação dos mercados de títulos que...se desvaneceram em pouco tempo.
5. Dá por vezes a impressão que “esta gente” não aprende com os erros cometidos, apesar de tão recentes e tão graves, alguns dos quais ainda em processo de “disclosure”, nomeadamente entre nós...
6. Não foi exactamente, entre outras razões, um excesso de confiança, por vezes tão cega (para lá da cegueira obnóxia de reguladores) que conduziu à “debacle” financeira cujas consequências ainda estamos a testemunhar diariamente?
7. Especificamente para o caso do sector financeiro, já se pensou no impacto que a queda da actividade económica pode ter no balanço dos bancos por exemplo? E que este efeito se produz com uma “lag” considerável, de um ano ou mais? Faz sentido, a esta luz, um clima de quase euforia impulsionando as cotações das financeiras?
8. Não vou negar que, em alguns casos, um sentimento de pânico tenha arrastado a queda das cotações muito abaixo do que seria justificado pela diminuição do valor fundamental das empresas - e que por isso, passado o pânico, uma correcção faria sempre sentido...
9. Quer-me todavia parecer que se está passando do pânico à euforia sem se perceber bem porquê...assim sendo, a opção mais sensata não será “Sell in May...and go away”?

O grande Mini fez 50 anos!


O Mini fez 50 anos! Dei com essa notícia no Público e adorei o título “Um grande amor pelas pequenas coisas”.
O meu mini foi realmente um caso de amor à primeira vista, e ainda por cima duradouro, prolongou-se durante 14 anos, com fidelidade absoluta, só acabou quando ele ficou sem conserto e ainda sinto saudades quando vejo um igual, todo recauchutado.
Decidi que tinha que comprar um carro quando comecei a trabalhar e entre aulas na faculdade, trabalho e outros compromisso próprios dos vinte anos não podia perder horas de autocarro. Comecei a procurar um em 2ª mão, mas um dia passei na montra de um stand e que vejo eu ali, mesmo a pedir-me que o levasse? Um mini 1000, branco, com um S na matrícula! e aqueles faróis redondos a olhar para mim e a dizer leva-me, leva-me! Mas como arranjar dinheiro para o comprar?, só com o meu ordenado, inteirinho, levaria mais de 5 anos a pagá-lo! Passei vezes sem conta à frente da montra só para ter a certeza de que ainda lá estava mas um dia vi um casal jovem à volta dele, abriam as portas e sentavam-se, senti um ciúme tão grande que decidi que aquele carro ia mesmo ser meu!
Por essa altura vivia-se lá em casa a azáfama do casamento das minhas irmãs e foi uma conversa sobre o preço das bodas que me deu a ideia luminosa de propor ao meu pai que me desse o equivalente para comprar o carro, em troca eu não faria festa quando fosse a minha vez de casar. Ele hesitou um bocado, “como é que sabes que quem casar contigo não vai querer a festa?”, mas logo achou uma boa ideia e foi ele que explicou ao resto da família que considerava a troca excelente. Meu dito meu feito, metade ficou pago e para o resto assinei letras, cada uma era exactamente metade do que eu ganhava, mas durante um ano e meio nunca falhei nem um dia. Lembro-me bem de sair do stand ao volante do meu mini, doida de orgulho e alegria, a ter a sensação de que todos na rua paravam para o olhar.
Éramos inseparáveis e o mini tornou-se uma espécie de mascote. Não tive festa de casamento mas esteve associado a todos os bons momentos da minha vida durante catorze anos, tanto levava o meu grupo de amigos, todos encafuados como se fosse uma carrinha, como levou mais tarde as minhas filhas nas suas cadeirinhas mais a pilha de objectos, malas e brinquedos que tínhamos que levar para férias. O mini era elástico, cabia sempre mais qualquer coisa, e além disso era aquela sensação de andar rápido, o ruído característico do motor fazia um vistão no meio do trânsito e era o primeiro a arrancar nos sinais vermelhos.
Quando me rendi à evidência de que os travões já não tinham mais conserto, comprei outro carro mas não consegui gostar dele e vendi-o pouco depois. A verdade é que, até hoje, nunca mais gostei de um carro como gostava do mini, falta aquele “entendimento secreto”da cumplicidade numa época da vida em que tudo parece estar ao alcance dos nossos sonhos, e o mini, com o seu estilo despachado e brincalhão, parecia que nos entendia a vontade e levava-nos mais depressa…

domingo, 10 de maio de 2009

A união fez o Tetra!...


Saborear o Tetra e porfiar pelo Penta!...

Incendiários

Tão incendiários são os criminosos que em Setúbal espalham o caos, destroem a propriedade alheia e ameaçam a segurança, como aqueles políticos que, irresponsavelmente, reduzem estes actos a uma questão social e implicitamente condenam as forças policiais no seu arriscado esforço de repor a ordem.
A diferença entre eles, é que estes últimos, por mais incendiários que sejam, têm imunidade e garantias de impunidade.

Jornal novo, velhas questões

O novo jornal “i” dedica duas páginas centrais à magna questão dos salários dos políticos, com uma fotografia central do Parlamento - com as bancadas vazias - e outra com a fotografia e especificação dos salários e respectivos aumentos de vários políticos. O título, do lado esquerdo ao alto da página, é feito para suscitar o escândalo: “o maior aumento da última década”! O subtítulo diz duas coisas: que o aumento custará meio milhão de euros e que “na banca e empresas as remunerações vão baixar”. Na página da direita, vem o título supostamente simétrico ou seja que, por contraste, “os gestores privados vão ganhar menos”. Mas lendo o subtítulo, vê-se que Paulo Azevedo vai ganhar “menos 10% e Zeinal Bava menos 17,7%” e nas duas colunas em que se desenvolve o lado “privado” dos salários não há uma única referência a valores concretos. Ou seja, menos 10% de quê? Menos 17,7% em quanto? Do mesmo modo, as duas páginas são omissas quanto a comparações anteriores, como congelamentos durante anos seguidos, políticas de contenção que há anos vêm tornando cada vez menos atraentes os cargos políticos e menos competitivos os cargos dos altos dirigentes da administração pública e ainda ao sistemático estreitamento do leque salarial na administração pública, resultante da necessidade de não penalizar tanto os salários mais baixos. Ao longo do mesmo período, o que se assistiu nalgum sector privado foi precisamente ao absurdo dos valores de alguns prémios de gestão, como agora se denuncia com o ruído com que há pouco se aplaudiam, à diferença intolerável dos ordenados de directores em relação ao dos quadros técnicos e ao recrutamento dos jovens mais qualificados atraídos pelas perspectivas de progresso salarial ao longo da carreira.
Este é um tema que devia começar a ser tratado com alguma seriedade, fora da esquadria simplista dos "bons e dos maus", que gera descrédito e não contribui em nada para dignificar as funções públicas e para legitimar que se espere que os melhores dêem o seu contributo.
É pena que um jornal que agora se estreia se limite a replicar a velha forma superficial e enganosa de abordar esta questão. É que nem todas as notícias verdadeiras esclarecem um tema, também se mente quando não se diz a verdade toda…

Crise: velhas receitas para um mundo novo?

Na notável conferência do Prof. Adriano Moreira, a que assisti há dias no Instituto de Estudos Políticos da Universidade católica Portuguesa, foi possível confirmar com clareza como a reflexão inteligente e a cultura histórica são essenciais para podermos compreender a turbulência que estamos a viver e o provável fracasso a que estão votados os “remédios” que se receitam para a crise. Numa fascinante viagem pelo último século e as transformações que o mundo foi vivendo, o orador lembrou que, no fim da 1ª Guerra Mundial, os países que se sentavam na Sociedade das Nações, como comandantes do mundo, eram cerca de 30. Estes países controlavam uma parte importante dos territórios onde havia matérias primas, energia e mão de obra que podia produzir o que fosse necessário. Depois da 2ª Guerra Mundial a ONU, que sucedeu à falhada SN, tinha 51 países, como consequência da nova geografia política e territorial. Actualmente, são mais de 190 países soberanos internacionalmente reconhecidos, as fontes de poder mudaram de mãos e a preponderância política, cultural e económica da América e da Europa estão longe de continuar a ditar as regras. A este propósito, Adriano Moreira lembrou que os países que controlam hoje as matérias primas e dominam parte importante dos mercados financeiros e comerciais nunca ouviram falar nos nossos teóricos da economia e ignoram as suas teses salvadoras. Será, pois, essencial, que se olhe com muita atenção esta nova realidade pois, como lembrou, “não são as teorias que moldam os factos, mas estes que devem suscitar novas teorias”.
Esperemos que o Instituto dirigido pelo Prof. João Carlos Espada edite esta e as outras conferências do ciclo que organizou sobre a Crise Global e as suas possíveis soluções, para que seja possível ler e reler intervenções como a que aqui refiro.

sábado, 9 de maio de 2009

Portugal dá "cartas" na investigação do cancro...

Com o anúncio da criação daquele que é o primeiro centro mundial - Centro Champalimaud de Investigação e Tratamento de Metástases - dedicado exclusivamente à prevenção, investigação e tratamento de metástases, a Fundação Champalimaud consolida os seus objectivos de ajudar, através da investigação nas ciências médicas, a mitigar o sofrimento humano e a aliviar o fardo da doença e do seu impacto na sociedade.
A originalidade do projecto baseia-se no facto de se fazer uma abordagem directa das questões do cancro através das metástases, um “problema que é uma preocupação central” no combate à doença. Leonor Beleza lembra que “o estudo clínico que se faz sobre o cancro é claramente deficitário na Europa e há mesmo recomendações da Comissão Europeia no sentido de que as instituições científicas invistam mais no estudo da doença”.
Esta iniciativa de grande alcance encerra a grandeza da decisão de ajudar a resolver o terrível sofrimento de milhões de pessoas que padecem de cancro e do reconhecimento da importância do aprofundamento da ligação entre a medicina e a saúde e da necessidade de fortalecer a ponte entre a descoberta científica e a vida.
O Centro Champalimaud de Investigação e Tratamento de Metástases é mais um legado, a juntar ao maior prémio consagrado a nível mundial no campo da visão promovido pela Fundação Champalimaud, que honra o extraordinário gesto do Homem António Champalimaud materializado numa doação de 500 milhões de euros à causa da investigação médica científica em benefício das pessoas.
Parabéns à Direcção da Fundação Champalimaud e, em particular, à sua presidente Leonor Beleza. Obrigada por mais este horizonte de esperança…

“Dinheiro e a gripe A”

Estas coisas das pandemias assustam um pouco. É dada uma ênfase tão exagerada que às vezes leva a que muitos questionem: - “Será mesmo assim tão perigosa? Às tantas não é”! Estes enquadram-se no grupo dos mais céticos. Do outro lado, temos um outro grupo, os que entram com muita facilidade em pânico, ao ponto de redefinirem a própria vida, alterando por completo os hábitos quotidianos. No meio - dizem que é onde mora a virtude -, estão os restantes que, não sendo virtuosos propriamente ditos, vão alternando a preocupação da gripe com outros acontecimentos, políticos, económicos e desportivos, que são os pratos fortes da nossa sociedade.
Estes fenómenos, pandemias de gripe, não são de hoje. Sempre existiram, mas foi a partir dos finais do século XVI que começaram a ser razoavelmente documentadas.
Os vírus têm algumas particularidades: querem viver e são genuinamente democráticos, aproveitando-se de nós sempre que podem.
Num mundo em que as pessoas começam a habituar-se à ideia de que são “imortais”, toda e qualquer agressão é vista como algo a evitar, como sendo uma falta de respeito pela integridade física humana. Compreendo e aceito que as autoridades e responsáveis tomem as atitudes que possam minimizar impactos mais brutais na saúde das pessoas e da comunidade. As medidas que têm sido tomadas são reveladoras dessa enorme capacidade. Apesar de tudo nada nos garante que sejam capazes de impedir que o vírus acabe por entrar na nossa vida à escala planetária.
O vírus responsável pela atual crise parece não ser tão violento como se supunha à partida, e compartilho a posição de colegas epidemiologistas, de que deverá ser dada permissão à sua entrada na comunidade. Deste modo, poder-se-ia aproveitar, pelo menos nesta fase, a virulência não muito elevada. Sendo assim, muitas pessoas iriam adquirir a doença, vacinando-se naturalmente. Algumas pessoas até podem sofrer o impacto do vírus sem adoecer e adquirir ao mesmo tempo imunidade. Só assim se justifica o facto de algumas pessoas de uma determinada localidade acabarem por sofrer a doença sem terem tido contacto com um doente com gripe. O vírus também sabe da poda e pode ir à boleia de qualquer um até se disseminar por esse mundo fora. Claro que para isto tem de ser um vírus “esperto” que não seja muito virulento e que possa, inclusive, não causar transtornos em muitas pessoas.
As medidas que estão a ser estabelecidas, como o caso das pessoas feitas “prisioneiras” num hotel de Hong-Kong, ou as que são convidadas a não porem os pés no local do trabalho, na primeira semana após o regresso de uma área com casos, constituem formas de retardar o processo e funcionam, limitando a cadeira de transmissão. Mas não se espere que esta última medida, a mais simples e a mais lógica de todas, consiga resolver as coisas. Não! E passo a explicar. Nos EUA, onde o fenómeno começa a tomar alguma expressão, atendendo ao número de casos e aos estados já invadidos, não é possível, para maioria dos trabalhadores, ficar em casa para fazer uma quarentena. Quem é que irá pagar essa semana de trabalho? Se o trabalhador não recebe, pode incorrer no despedimento. O sistema norte-americano não tem correspondência à valência social da Europa. No velho continente, a uma pessoa que seja considerada suspeita ou de risco é-lhe dada “baixa”, mesmo sem a pedir para conter a propagação do vírus. Pode estar uma semana nestas condições e não ser penalizada em termos financeiros nem correr risco de desemprego. Nos E.U.A. não é assim, nem para lá caminha. Deste modo, a falta de apoios sociais impede que medidas como as que acabei de anunciar não possam ser implementadas e, consequentemente, acabem por favorecer a propagação do vírus. Afinal não basta conhecer a epidemiologia da gripe A, e nem as medidas de contingência adotadas serão suficientes se os aspetos laborais e de proteção social não forem os mais adequados.
Como epidemiologista, tenho que acrescentar à longa lista de fatores determinantes da disseminação da doença, o sistema económico e a segurança social, os quais poderão constituir um fator de agravamento ou de contenção. O “dinheirito” pode ser um fator de risco suscetível de facilitar a transmissão virusal. E de que maneira! Através da pobreza, da falta de apoios sociais e do próprio sistema económico.
Para terminar espero não vir a ser comparado a Saramago. Não na escrita, obviamente, mas na interpretação “epidemiológica” que há dias deu, segundo a qual parte da culpa da gripe era do “capitalismo”! Como se não houvesse porcos na China comunista...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Previsões certeiras

Na conferência que fez hoje no Estoril, no âmbito das Conferências do Estoril subordinadas ao tema “Desafios Globais, respostas Locais”, Stiglitz contou que há 40 anos alguém perguntou ao economista Kenneth Galbraigh quando voltaria a haver um crise financeira tão grave quanto a de 1929. Ele respondeu que isso aconteceria quando tivessem passado 15 anos sobre a eleição do primeiro presidente americano que tivesse nascido depois da Depressão…

Tortura

Torturar é um ato eminentemente humano. Apesar de todos os esforços no sentido de não sujeitar ninguém à tortura, o qual pode ser inferido a partir dos diferentes códigos morais e religiosos, continuamos a observar a sua prática em muitas áreas.
É curioso verificar que alguns dos mais altos responsáveis das sociedades permitam o seu emprego, justificando-a com o facto de haver associações de criminosos que “não podem ser detidas ou travadas pelos meios normais”. Como não podem deter os autores pelos meios normais, passam a utilizar a tortura, método anómalo, que assim reaparece legitimado.
Os casos dos presos de Guantánamo, e os que foram, igualmente, alvos de sevícias na prisão iraquiana, estão associados a movimentos islamitas radicais. O islamismo radical passou a ser sinónimo de “privilégio religioso para matar quem quer que seja, mesmo os da própria religião”. É inconcebível que a coberto da religião se pratiquem atos hediondos.
Mas também é surpreendente o comportamento de uma percentagem significativa de praticantes das religiões cristãs ao aceitarem a tortura, tal como foi descrito recentemente num estudo. Independentemente do significado estatístico do Pew Survey, é de arrepiar a percentagem da população norte americana que afirma ser adepta do uso, frequente ou ocasional, em 49% dos inquiridos, da tortura contra “terroristas suspeitos”. Em contrapartida, 25% afirma que tal prática nunca se justifica. A abordagem feita em função do comportamento religioso cristão revela que a percentagem dos que a aceitam sobe para os 62% nos evangélicos, 51% nos católicos de origem hispânica e diminui para 40% nos que não têm qualquer afiliação religiosa.
O que leva algumas pessoas, a pretexto da religião, praticar crimes contra a humanidade e a aceitar práticas proibidas pelos códigos religiosos? Contrassensos que não consigo compreender.
Os cristãos que dão “consentimento” à tortura dos suspeitos de terrorismo terão consciência do seu ato? Não deveriam respeitar os princípios tão amplamente disseminados? Como justificar este comportamento tão estranho? Será que a religião tem a ver alguma coisa com este comportamento ou será que são as convicções políticas que se sobrepõem aos princípios religiosos, anulando-os?
A nossa espécie é muito estranha, para não dizer outra coisa, e quando começamos a analisá-la deste ângulo, mais estranha se torna, deixando pouca esperança quanto ao seu futuro. Comparativamente, merecem muito mais respeito as outras espécies nas quais não são, que eu saiba, reconhecidas tendências para a prática de assassínios a coberto de fundamentalismos religiosos e de tortura contra os seus semelhantes.

Quem ajuda estes "Ceguinhos"?

1. Destacados membros do Governo afirmavam há pouco tempo, apesar da radical alteração do cenário macro-económico, que não VIAM razões para apresentação de um Orçamento Rectificativo (OR).
2. Esta semana um membro da equipa das Finanças reiterava não VER razões para a apresentação de um OR, apesar da forte quebra das receitas fiscais e da mais que provável ultrapassagem da despesa orçamentada, neste último caso em resultado do funcionamento dos chamados “estabilizadores automáticos...
3. A Comissão Europeia vaticinava há 3/4 dias um défice orçamental em Portugal de 6,5% do PIB para o corrente ano (optimista, em minha opinião...) e de 6,7% para 2010 como resultado combinado de quebras das receitas fiscais e (este ano) de ultrapassagem das dotações da despesa...
4. Diversos economistas consagrados apontaram já a inevitabilidade de um OR, embora uma das opiniões tidas por autorizadas, ao mesmo tempo que reconhecia essa inevitabilidade sugeria que esse orçamento só fosse apresentado lá para o final do ano...
5. Já aqui comentei que esta ideia de OR só lá para o final do ano se afigura inaceitável e até “imoral” - apresentando todo o ar de “lavagem” duma situação de ilegalidade permanente que consistiria na realização de despesas não autorizadas pela A.R. e de endividamento fora dos limites fixados pela mesma A.R. – até chegar ao final do ano em que a aprovação de um OR “fantoche” viria passar uma esponja sobre toda essa ilegalidade...
6. Parece assim que só os membros do Governo parecem incapazes de VER uma realidade que “se mete pelos olhos dentro” de qualquer cidadão mesmo entorpecido...
7. Num aparente paradoxo, o Ministro da Economia declarou esta semana que VIA as linhas de crédito funcionando...
8. Trata-se pois de uma cegueira atípica e sectorial, esta que se manifesta na incapacidade de VER a necessidade de um OR, que ataca forte altos titulares do executivo...quiçá ofuscados pelo brilho intenso, incandescente mesmo, do sucesso de suas políticas?...
9. Qualquer que seja a razão última de tão obnóxia cegueira, esta gente precisa urgentemente de ajuda...quem pode ajudar estes “Ceguinhos”?

Esclarecimento

Admito que o 4R não facilite os comentários ao que nele se anota, reservados como estão a quem se regista no blogger. Pode ser uma limitação, mas foi uma opção que se revelou em muitos aspectos acertada. O que não significa que não cheguem comentários por outra via ao que aqui, livremente, se escreve.
A propósito deste meu post conscientemente titulado "Indecoroso", recebi por mail várias reacções, quase todas manifestando desacordo. Uma delas, sob relativo anonimato, imputa-me, com alguma inflamação, "o mais primário populismo". Tenho de admitir que outros dos que por aqui passam tenham lido o post e ficado com a mesma impressão, sem contudo a manifestar. Porque se há coisa que não sou é populista, nem costumo alinhar em populismos - quanto mais alimentá-los! - , interessa-me voltar ao assunto para esclarecer, tendo em atenção o teor de algumas mensagens que não reproduzo mas que se intuem, o que segue:
(a) Não tomei posição na nota que aqui deixei sobre o modelo de financiamento dos partidos políticos e, em especial, das campanhas eleitorais. É questão sobre a qual tenho opinião que, adianto, repousa na distinção entre a actividade regular dos partidos e as campanhas eleitorais, sendo que nestas o financiamento púbico faz todo o sentido porque se espera que as formações partidárias retribuam com esclarecimento das suas propostas eleitorais;

(b) O post foi motivado, exclusivamente, pelo incremento do financiamento partidário no período difícil que vivemos e em que o Estado pede a todos ainda mais sacrifícios. Como é que se pode entender que, apelando alguns partidos a cautelas redobradas no gasto público, se aceite despender mais nesta terrível conjuntura, em campanhas eleitorais verdadeiramente sumptuárias como são as nossas? Como aceitar que se gaste mais dinheiro em cartazes e festarolas de campanha, apesar dos permanentes apelos à austeridade e ao rigor de forma a travar que o deficite e o endividamento públicos comprometam definitivamente a retoma, designadamente os apelos vindos do Chefe do Estado? Como explicar às famílias a quem o Estado nega apoio por falta de recursos, que afinal esses meios existem para as estridentes e cada vez mais sofisticadas - e por isso caras - acções de campanha eleitoral que apostam sobretudo no espectáculo?
A nota que aqui coloquei tinha subjacentes estas questões que dirigidas aos beneficiários não encontrarão decerto resposta porque estou seguro que os seus responsáveis são os primeiros a julgar indecorosa e chocante a situação. No discurso político todos estão de acordo: o exemplo de contenção deve ser dado desde logo por quem se candidata ao poder. Mas neste caso, como em muitos outros da política nacional, os portugueses já perceberam que a verdade, verdadinha que sobressai da atitude dos responsáveis partidários é a que resulta da asserção atribuída ao pároco lá da freguesia "olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço".
Se os meus desabafos de cidadão preocupado pela sorte do seu Pais são, para quem faz o favor de me ler, manifestações de populismo, o que são então estas provas da mais destilada hipocrisia dos responsáveis partidários?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Nunca é demais lembrar...

A edição da revista Economist de 30 de Abril publica um artigo sobre Portugal. Não traz nada que não saibamos sobre a nossa crise e os problemas que a explicam, mas não deixa de sublinhar a necessidade de Portugal fazer um conjunto de reformas que há muito estão diagnosticadas como inadiáveis e ilustra com a dura realidade dos números as consequências de não termos feito as mudanças que se impunham:

“(...) This year GDP is expected to contract by 3.5%, lifting unemployment to about 8.5%. These are hardly cheering figures, but the real problem is that they come after a decade of below-average growth. GDP per head has fallen from almost 80% of the EU average ten years ago to just 75% in 2008. (...)

To improve its performance, Portugal needs more flexible labour laws, less bureaucracy, a better educated workforce, more competition and a smaller state. As the IMF states in a recent report, the country’s fundamental problems are domestic, not global, in nature
. (...)”

Não admira, pois, que os portugueses estejam pessimistas. De acordo com um estudo da Eurobarometer citado pela Economist, 92% dos portugueses consideram a situação económica má, 95% estão preocupados com a perspectiva futura dos seus empregos e cerca de 50% não estão satisfeitos com a sua vida. Segundo o mesmo estudo, na União Europeia apenas a Hungria e a Bulgária apresentam um retrato tão depressivo.

E a questão de raíz mantém-se: como é que vamos resolver os problemas estruturais da nossa economia? A que acresce uma outra questão: como é que vamos unir esforços para o fazermos?

Moratória nas dívidas à banca? Excelente ideia, mas...e os depósitos?

1. Num dia recheado de notícias curiosas, nomeadamente (i) a contínua subida do índice de acções, (ii) a descida da taxa principal de financiamento do BCE, (iii) a proposta de renacionalização da COSEC, sugerida pelo Presidente da AEP e apoiada pelo Presidente da AICEP, (iv) a ocupação (“pacífica” ao que parece) das instalações do BPP no Porto por clientes que exigem o pagamento dos depósitos...achei particularmente interessante a proposta do Presidente da AIP no sentido de ser concedida ou decretada uma moratória geral nas dívidas das empresas à banca.
2. Por parte dos (muitos) críticos do sector bancário é recorrente a ideia de sugerir a imposição de sanções aos bancos pensando somente ao primeiro membro do balanço...os “bancos que paguem a crise”, que emagreçam o activo, se beneficiaram nos tempos de euforia agora que suportem (pelo menos parte dos) prejuízos nos tempos de vacas magras...
3. Recordo-me de uma reunião em que participei há muitos anos, no auge da tremenda crise 1983-1985, em que um dos participantes, uma pessoa por sinal bastante inteligente embora “laica” em matéria financeira, propunha com grande entusiasmo um perdão, parcial ou integral, das dívidas à banca das empresas em dificuldades...
4. Então como actualmente as empresas atravessavam enormes dificuldades, mas os bancos ainda eram nacionalizados pelo que não seria difícil ao Governo (em teoria) impor-lhes aquela solução radical...
5. Recordo-me de ter confrontado o autor daquela proposta com uma questão absolutamente trivial mas que o apanhou de surpresa: muito bem, o Senhor propõe que os bancos perdoem os créditos que detêm sobre as empresas suas devedoras; diga-me apenas o que é que os bancos vão fazer quando os clientes lá aparecerem para levantar os depósitos -entende que os bancos devem pedir aos depositantes para esperarem algum tempo ou dizer-lhes que apenas pode ser reembolsada uma parte dos depósitos?
6. Esta proposta do Presidente da AIP é menos radical do que a do episódio que relatei, não propõe o perdão mas “apenas” uma moratória; em tese, todavia, o problema subsequente não deixa de colocar-se: se os bancos não forem reembolsados dos créditos durante um período considerável – 6 meses ou um ano pelo menos, uma moratória por período mais curto saberia a anedota – como é que reembolsam os depósitos durante esse período?
7. Será que os depositantes aceitariam de bom grado uma moratória dos depósitos para ajudarem as “pobres das empresas”, em nome de uma solidariedade nacional? Estamos mesmo a ver o que aconteceria em tal hipótese...
8. Tenho a noção de que com o aquecimento das condições atmosféricas e do clima eleitoral vamos assistir a mais propostas interessantes/desconcertantes como esta, que ilustram bem até que ponto tantas ideias andam arredadas da realidade...seriam tempos bem divertidos, não fosse o fantasma da crise...

Indecoroso!

Foi publicado no DR o 1º orçamento suplementar da AR para '09. Na versão inicial previam-se 70,5 milhões de € de despesa com a subvenção pública aos partidos concorrentes às eleições. Este valor subiu para 88,3 milhões, isto é, mais 17,8 milhões do que o inicialmente orçamentado.
Numa altura em que os portugueses sofrem no seu quotidiano uma das piores crises de sempre, em que o desemprego atinge níveis alarmantes e a possibilidade do caos social é perspectiva que não deve ser desprezada, permitirem-se os deputados aumentar em mais de 20% a já vultuosa verba destinada às campanhas é, no mínimo, indecoroso.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um excelente exemplo de promoção turística...

A revista National Geographic publica este mês nas edições portuguesa e norte-americana um suplemento dedicado a Angra do Heroísmo e à Vinha do Pico, as duas zonas dos Açores classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade.
A presença dos Açores na National Geographic permite que seja conhecida em todo o mundo pela sua extraordinária geodiversidade e pela sua rara beleza, que merecem ser preservadas e visitadas.
Trata-se de um excelente exemplo de como se promove turisticamente uma Região e um País.
Aqui fica, portanto, este meu registo de satisfação.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Farinha Maizena!


O Ministro da Economia aconselha Paulo Rangel a comer papa Maizena. Não pode. Está gordo de mais! E é isto um Ministro de Economia! Pobre ministro, a cabecita já não dá para mais. O que é irá dizer amanhã? Que anda a comer papinha a mais? Só se for ele nas nossas cabeças!

“Meu Deus! Nem queria acreditar.”

Hoje, ao deslocar-me até à mata do Buçaco, local que utilizo sempre que tenho algo mais complexo para escrever ou analisar, vi as raparigas do costume na estrada. Muitas, cada vez mais. Algumas, já as conheço, tantas são as vezes que passo por aquelas bandas. Novidade do dia: uma jovem grávida, transportando uma apreciável barriga, a prostituir-se. Meu Deus! Nem queria acreditar!
Pus-me a imaginar a vida daquela criança. Neste momento é feliz. Quente, a nadar num precioso líquido, espreguiçando-se à vontade, a chupar no dedo sempre que lhe apetece, sonhando sem saber que sonha, desconhecendo que existe, mas um dia irá saber que aqueles doces momentos existiram, sem passar fome, divertindo-se com os sons do exterior, e “assustando-se” às vezes para manter funcional os seus mecanismos é o protótipo de um ser biológico a viver no Éden. Um fruto de um acaso, que um dia irá saborear o fel de uma vida mal prometida, logo que for expulso, sem ter sido ouvido e sem ter cometido uma única falta.
Mas que raio de reino é esse em que as crianças não são poupadas nem respeitadas?

Rays of hope, pockets of gloom...assim vai a economia

1. Nesta bem poética expressão – "rays of hope, pockets of gloom" – se pode sintetizar o que se passa hoje com a economia mundial, dos USA até à China e ao Japão, passando pela Europa.
2. Diversos indicadores apontam nesta altura uma clara melhoria de clima económico em relação ao que prevalecia no final do ano passado – e só passaram 4 meses...
3. Tomando como exemplos a confiança dos consumidores americanos, o mercado imobiliário nos USA, a confiança dos empresários na Alemanha, alguma animação da economia chinesa – para não falar da aparente estabilização do sistema financeiro e da impressionante recuperação dos mercados accionistas, cujos índices se encontram em terreno francamente positivo em relação ao início do ano - a situação mudou para bastante melhor nos últimos 4 meses, não restam grandes dúvidas.
4. Temos pois “rays of hope” bem visíveis no horizonte, aparentemente num crescendo prometedor...
5. Ao mesmo tempo, porém, continuamos a assistir ao generalizado aumento do desemprego, ao encerramento de muitas unidades industriais e à redução da actividade de muitas outras, a quebras muito acentuadas na procura de bens duradouros e de bens de investimento, à continuação da crise profunda de muitos mercados imobiliários, embora com ritmos de abrandamento menores...
6. Temos pois ainda “pockets of gloom” um pouco por toda a parte, nomeadamente na Europa e no Japão, onde a crise parece ter vindo para residir por mais tempo do que nos USA e noutras importantes economias da Ásia...
7. É preciso ter presente que uma crise da extensão mundial e da profundidade da que tem atingido as economias não se resolve em “duas penadas” como certos teóricos do optimismo “pacóvio” quase todos os dias nos querem induzir a pensar...
8. A saída duma crise económica como esta supõe três andamentos: (i) desaceleração do declínio económico, (ii) estabilização da actividade e (iii) retoma da actividade uma vez percebida pela generalidade dos agentes económicos que a estabilização tem bases sólidas...
9. Estaremos nesta altura já bem dentro do 1º andamento, assistindo-se a uma clara desaceleração (não tanto entre nós, infelizmente) do ritmo de declínio em diversos sectores, desde serviços até à construção habitacional/comercial...
10. Resta saber, porque esta crise tem características muito peculiares, qual será o tempo necessário para se passar ao 2º e depois ao 3º andamentos...só em 2010? Antes de 2010? É possível que até seja antes, mas é inútil confundir desejo com realidade...
11. Um ponto muito importante para a qual o Presidente da Reserva Federal chamou hoje a atenção: qualquer percalço no processo de estabilização do sistema financeiro poderá implicar um enorme atraso para os 2 andamentos seguintes...
12. Tenho a noção de que nesse particular a situação não é ainda satisfatória e que algumas autoridades nacionais preferiram apoptar umas medidas de remendo a enfrentar o problema de forma estrutural, aberta e decisiva...a ver vamos...
13. Mas venham mais "rays of hope"!

A horta do Basílio

Não quero dar para o triste peditório de quem nada tem de novo ou de útil para dizer ao País e se serve do fait divers para o escamotear. Mas não devem passar aqui sem comentário as infelizes declaração do Dr. Basílio Horta em reacção a proposta do lider da candidatura PSD ao parlamento europeu. Independentemente do mérito ou do demérito da proposta, o que é intolerável é que alguém, que não tem legitimidade popular e ocupa cargo na Administração Pública, venha quebrar com tamanho despudor o dever de neutralidade que lhe impõe o artigo 266º/2 da Constituição. Apesar de não ser rara esta confusão entre o que é da vida dos partidos e o que é do domínio do Estado, convém que o Dr. Basílio perceba que o AICEP não é a sua horta.
.
Adenda: já estas declarações do senhor ministro Manuel Pinho não são só impróprias de um membro do governo, mesmo que ande de cabeça perdida. Resistem a qualquer qualificação.

Europa e globalização


Portugal, a cigarra e a formiga...

“Perceber a Crise para Encontrar o Caminho” é o título do recente livro da autoria de Vítor Bento que li com muito agrado e no qual reconheço uma intervenção cívica que muito aprecio.
De entre os vários enquadramentos que Vítor Bento tão bem descreve para explicar o “entalanço” em que Portugal se encontra, gostei especialmente da síntese que é feita logo na Nota Introdutória.
Com efeito, a crise do País é classificada como uma “espécie de ressaca que nos ficou (e que ameaça deixar-nos muito mal tratados) da euforia resultante do enorme progresso trazido pela adesão ao que é hoje a União Europeia e à sua moeda única. Crise que já dura, em estado latente, há cerca de uma década e que uma outra crise – a crise financeira internacional – veio agravar, ao mesmo tempo que reduziu significativamente a já estreita margem de manobra para a resolver sem grandes perturbações sociais.”
O dito “entalanço” é o resultado de uma integração europeia que fez encarecer os custos de trabalho, até então baratos, sem que a produtividade tivesse compensado esse encarecimento. Não temos conseguido oferecer condições suficientemente atractivas para captar o investimento que exige uma superior base tecnológica, incluindo maior qualificação dos recursos.
Na descrição deste “entalanço” Vítor Bento afirma o que todos já sabemos mas que não fomos capazes de resolver. É que o País para deixar de estar entalado “ou consegue dar o salto qualitativo que o sustenta no patamar alcançado, ou terá inevitavelmente que regredir ao patamar inferior, resignando-se a disputar a competitividade no embaratecimento do seu trabalho e a definhar num relativo empobrecimento.”
Partilho da análise de que o problema do País não sendo apenas económico, é também político, por natureza, e de que a gestão política agravou ela própria o problema. Vítor Bento conclui que só a gestão política nos pode tirar do declínio em que nos encontramos e que “a solução exige de todos mais disponibilidade para esquecer diferenças não essenciais, para não remexer o passado à procura de culpados ocasionais, para que toda a concentração se foque no futuro e nas suas necessidades, e para procurar plataformas de consenso alargado que viabilizem um tratamento de choque.” Mas esta solução apresenta objectivamente uma grande dificuldade de implementação. No passado relativamente recente não fomos capazes de o fazer, bem pelo contrário aprofundaram-se as diferenças e exacerbaram-se os ânimos. Será que a crise é suficientemente grande para se conseguir o tal consenso alargado? Será que há outra saída?
Uma coisa é certa, será cada vez mais difícil continuarmos com “a moralidade da cigarra, prazenteira e descuidada do futuro”. Se não aceitarmos a verdade da “moralidade da formiga, esforçada e previdente” iremos inexoravelmente caminhar para o empobrecimento, tornando cada vez mais difícil assegurar o nosso bem-estar!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Uma confrangedora indigência

Estamos a pouco mais de um mês das eleições para o parlamento europeu. E à semelhança do que já tinha acontecido há alguns anos em situação semelhante, discute-se tudo menos o que era suposto discutir-se. Passaram-se 3 dias e os noticiários continuam a debitar sobre a grosseira agressão a Vital Moreira. Esperava-se que a condenação quase unânime do ocorrido remetesse o episódio para o baú dos acontecimentos lamentáveis. Mas não. Insiste-se no facto, nas culpas e nas desculpas, e não se passa à frente, legitimando a opinião de quem entende que a vitimização dá um jeitão a quem não confia nas ideias que tem ou receia os efeitos de demonstrar publicamente que as não tem.
Espera-se, pois, o pior desta campanha eleitoral face a esta apetência pelas questões laterais e à notória fuga ao esclarecimento das propostas de cada um e ao debate sobre o presente e o futuro do País e da Europa.
Na noite das eleições, porém, quem apostou deliberadamente na indigência do debate e encareceu factos e circunstâncias a latere do objecto das eleições, será o primeiro a lastimar o elevado desinteresse dos portugueses, traduzido nos números históricos da abstenção. E ninguém será capaz de lhe atribuir culpas nem de refletir sobre o que o fenómeno significa para a democracia. Aposto.

Um cartaz surrealista, de humor negro ou de mau agoiro?

1. Na colocação profusa de cartazes/outdoors a que se tem dedicado, com especial afã, um dos partidos concorrentes às eleições para o parlamento europeu, há um que me prendeu a atenção pelo equívoco de simbologia que expõe.
2. Esse “outdoor” faz parte de uma bem ilustrada galeria em que personalidades relevantes do mesmo partido aparecem associadas aos grandes feitos europeus do nosso País, feitos esses que permitem explicar a situação de imensa prosperidade em que nos encontramos.
3. Um desses feitos foi a participação no Euro...e para celebrar condignamente esse feito, nada melhor do que escolher a figura de herói nacional que a ele se quis associar: nada mais, nada menos do que o Engº A. Guterres.
4. Para isso lembraram-se de apresentar a figura bastante afável do ex-1º Ministro exibindo garbosamente uma moeda de 1 €...e logo aqui me aprece existir o primeiro erro de concepção do “outdoor” - porque não optaram pela exibição de uma nota de € 500, que traduziria bem melhor o estado de prosperidade em que o País se acha “mergulhado”?...
5. Não se percebe esta pequenez ou miserabilismo do pequenino 1€...será que não quiseram ser acusados de novos-ricos? Se foi, parece-me mal, não devemos ter vergonha da nossa prosperidade...
6. Mas mais curioso – e erro maior na minha modesta opinião - é que tenham escolhido, para associar a este feito, a pessoa que quiçá mais generosamente terá contribuído (sem qualquer má intenção como é evidente, foi mesmo e só generosidade...) para que a nossa participação no Euro se tivesse transformado num desastre económico e no pesadelo que hoje bem percebemos...
7. Ao ponto de nesta altura não existir a menor ideia de como vamos sair da “embrulhada” em que nos meteram...leiam por favor Vítor Bento, “Perceber a Crise para Encontrar o Caminho” como aqui já sugeri...
8. Convém não esquecer que as “gaffes” sucessivas de política económica do período imediatamente anterior (1997-1998) e dos anos subsequentes à entrada no Euro (1999,2000,2001...) – criaram uma dinâmica de despesa/endividamento imparável e de afundamento das produtividades que conduziram, em linha recta, à delicadíssima posição em que agora nos encontramos...
9. O breve consulado de D. Barroso/F. Leite, apesar da enorme abnegação desta última e de algum progresso conseguido em 2002/2003 (visível na forte redução do défice com o exterior), não se mostrou capaz de corrigir duradouramente essa dinâmica suicidária. Depois disso, enfim...
10. Aqui chegados, interrogo-me sobre qual terão sido os vectores motivacionais desta tão pouco inspirada escolha publicitária: (i) simples surrealismo político de resto tão em voga? (ii) exercício de humor negro, à falta de melhor? (iii) sinal de mau agoiro, cunhado em mensagem paradoxal, para uma campanha cujo objectivo seria (ainda será?) a obtenção de uma vitória?
11. Querem escolher ou têm outra explicação, porventura mais lógica ou clarividente?

Divórcio à italiana


O Primeiro Ministro italiano provocou a ira da sua mulher ao resolver fazer das listas para o Parlamento Europeu um verdadeiro concurso de misses. Numa interpretação bastante livre do politicamente correcto quanto à participação das mulheres na política, escolheu uma galeria de jovens modelos e artistas da televisão, dando largas ao seu estilo provocador e pouco incomodado com a escandaleira. Habituados como parecem já estar às singularidades de Berlusconi, os italianos preparavam-se para olhar as eleições com particular atenção quando a mulher de Berlusconi acabou com a brincadeira. Sem papas na língua e à boa maneira das matriarcas italianas, fez um comunicado público arrasador, dizendo que a iniciativa era “uma vergonha que ofende a credibilidade de todas as mulheres” e considerou que se tratava de “uma diversão do imperador” que “cria lixo sem pudor em nome do poder”. Carregada de razão, é claro.
Berlusconi, que já tinha tido que apresentar desculpas públicas à mulher por causa de uma outra beldade que também é Ministra das Oportunidades Iguais, viu-se agora obrigado a desistir de mais esta brilhante ideia, e reduziu as participantes para três. Tarde demais. A Senhora Berlusconi desta vez zangou-se a sério e pediu o divórcio.
Aguarda-se o pedido de desculpas público, desta vez de joelhos.
A menos que o imaginativo Primeiro Ministro tenha vestido a pele de Marcello Mastroianni no papel de barão Fefe Cefalu, no filme Divórcio à Italiana. O Barão, querendo ver-se livre da mulher Rosália por se ter apaixonado por uma jovem prima, e não sendo permitido o divórcio na Itália nos anos 60, decide fazer tudo para a mulher cometer adultério, o que lhe daria o pretexto de a matar sem ser condenado à prisão.
Será que Berlusconi viu na escolha para as listas europeias uma bela oportunidade para irritar a sua mulher ao ponto de ela pedir o divórcio, ficando ele livre para novas conquistas perante os olhares compreensivos dos italianos? Aguardam-se cenas dos novos capítulos. A coisa promete.

domingo, 3 de maio de 2009

A expulsão

"...Se são apenas simpatizantes, o partido nada poderá contra eles, mas, se são militantes, sim, poderá. Por exemplo, expulsá-los...", palavras de José Saramago no DN de hoje, referindo-se aos agressores de Vital Moreira.
Em 1975, José Saramago agrediu 20 jornalistas ao saneá-los, por motivos políticos, da redacção do DN, em que era Sub-Director em título, mas onde detinha o verdadeiro poder. Com tal saneamento, Saramago agrediu gravemente a democracia e a liberdade de informação em Portugal.
Ainda estamos à espera que o Partido demita Saramago.

A norma é a "anormalidade"?

O número de abortos na espécie humana é muito superior a outras espécies. À medida que as mulheres envelhecem o número de cromossomas dos ovos altera-se, apresentando anomalias.
Num estudo sobre fertilização in vitro, verificou-se que 21 de 23 embriões rastreados, provenientes de nove jovens mulheres férteis, apresentavam anomalias! Sendo assim, a norma é haver anomalias cromossómicas.
Estará encontrada a explicação para a tendência “abortista” que ocorre espontaneamente na nossa espécie?

sábado, 2 de maio de 2009

Dois olhos azuis e um aprendiz de barbeiro...

Tinha ultrapassado os setenta anos não há muito, mas, mesmo assim, a pele, lisa e muito branca, não acusava o desgaste do tempo, nem tão pouco da doença que há mais de vinte anos vinha a miná-la. Ultimamente o coração começou a claudicar e, após o episódio da hospitalização, tornou-se quase impossível controlar a diabetes. Acatava os conselhos e tomava a medicação com uma religiosidade sem limites. Mas nada. Houve necessidade de começar com terapêuticas mais poderosas. Aceitou com naturalidade e com o desejo de poder fruir apenas uma qualidade de vida mínima, não queria viver muito, mas apenas com dignidade. Olhava para mim com um sorriso suave, e uma humildade encantadora jorrava dos seus lábios a pedir auxílio e compreensão. Os seus olhos pareciam, estranhamente, duas estrelas felizes, conscientes de que em breve iriam explodir mas desejosos de transmitir tranquilidade e esperança ao médico. Tínhamos acabado de criar um círculo muito estranho. A doente pedia ajuda e compreensão, e eu correspondia ao seu pedido, mas, ao mesmo tempo - penso que deveria transmitir alguma ansiedade e preocupação, porque o que emanava do seu olhar era algo difícil de descrever -, pressenti que a senhora queria tranquilizar-me. Um estranho vento de esperança e de resignação parecia querer libertar-se do lago dos seus olhos azuis. Perturbou-me. Estabelecido o elo, apercebi-me que a morte não teria forças para o romper, antes pelo contrário, quando tal acontecesse ficaria ainda mais reforçado.
Acabamos por ficar sempre ligados uns aos outros. São as recordações que nos transformam sem darmos por isso. Foi o que aconteceu. Passou a fazer parte de mim e de algo que cada vez compreendo menos.
Na mesma página, outra notícia, agora a de um jovem que se arrogou ser o deus da própria existência. Quantas vezes me cruzei com ele? Poucas, muito poucas. Há muito tempo que o não via. Quantas vezes falei com ele? Não sei se alguma vez tivemos alguma conversa, tirando a saudação. Mas recordo do dia em que, na sua condição de aprendiz de barbeiro, teve que fazer o primeiro corte de cabelo. Verde de corpo, bem penteado, educado, de poucas ou nenhumas falas, nem sei se teria acabado o 9º ano, encontrava-se ao meu lado, um pouco afastado da cadeira onde tinha acabado de sentar. O patrão, homem de baixa estatura, simpático e que fazia honras à arte, ao filosofar incessantemente sobre os mais variados temas, ia preparar-se para dar início a mais uma tosquiadela quando estacou de repente e perguntou-me: - O senhor doutor importa-se que aqui o rapaz lhe corte o cabelo? É a primeira vez que vai fazer sozinho. Mas não se preocupe, porque eu fico a ver se tudo corre bem e se houver algum azar eu intervenho. Achei piada a este pedido. Sorri e disse: - À vontade! O rapaz encheu o peito de ar, agarrou nos instrumentos e com determinação deu início ao seu primeiro corte a solo. Um verdadeiro cirurgião! No final, foi buscar o espelho para mostrar as traseiras do crânio, ritual interessante, porque assim ficamos a saber o que é que os outros veem, sobretudo os que gostam de nos ver pelas costas. Abanei a cabeça, disse que estava bem. Paguei o corte adicionado da respetiva gorjeta. O patrão, que habitualmente nunca se calava, acenou afirmativamente a cabeça dando o seu veredicto à prova rainha. Disse boa tarde e saí. Durante algum tempo, o rapaz, entretanto muito mais crescido, parece que não parava de medrar, passou a ser o anatomista capilar. Mais tarde, já não me recordo quando, deixei de frequentar aquele espaço.
Passaram-se alguns anos. Recordo este pequeno episódio, porque tive conhecimento de que acabou por cortar a si próprio o fio da vida. Fui um marco na vida profissional do jovem. Nunca conversámos. Ao mesmo tempo que cortou o fio da vida também cortou muitos dos meus fios de esperança.
Sinto cada vez mais que as interligações humanas são muito mais fortes e importantes do que imaginamos. É na morte que revemos o que é a vida e qual a importância da vida dos outros na nossa, mesmo que tenhamos tido poucas conversas ou nenhuma...

Trepar às árvores...

Foi notícia, há pouco, que o Tribunal Judicial da Lousã foi assaltado na madrugada de hoje, tendo sido “queimados alguns processos dentro das instalações, por razões ainda não identificadas”. Para descanso dos cidadãos, logo o Ministério da Justiça fez saber “que os processos destruídos não se vão perder, pois estão digitalizados”. Digitalizados ou não, a questão central chama-se segurança (ou insegurança). Primeiro foram os arrombamentos de máquinas multibanco no interior dos tribunais, agora são os assaltos, muito provavelmente, encomendados para violar e destruir processos em plenas instalações dos tribunais. Os processos são aliás, a meu ver, bem mais valiosos do que o dinheiro à guarda de uma qualquer máquina multibanco. Sendo os tribunais os locais onde se pratica a justiça, é grave que não disponham de sistemas de vigilância e protecção de pessoas e bens. Há pouco ouvi alguém comentar, que o assalto em questão foi um caso isolado, não sei se para desvalorizar a gravidade da situação, se para não chamar a atenção da insegurança existente.
É por de mais evidente que a crescente violência que se tem vindo a registar na sociedade portuguesa, caracterizada por novos tipos de crimes e uma maior perigosidade dos meios utilizados, justificam o investimento em infra-estruturas de segurança nos tribunais.
Ressalvadas as necessárias distâncias, deixo aqui um episódio que até teria uma certa graça não fosse a gravidade da situação.
O que tem este episódio em comum com o assalto ao Tribunal da Lousã? É que parece estar na moda trepar às árvores para penetrar no interior dos edifícios.
Ontem ao serão em casa de uns amigos, um deles contava que um destes dias quando regressava a casa, no Bairro Alto, portanto em plena Lisboa, deparou com um homem sentado na sua sala de estar. O homem tinha trepado a uma árvore e num acto de malabarismo saltou para uma das varandas e num ápice entrou dentro de casa. Estava, então, refastelado num sofá, com um ar completamente alienado, com uma lata de cerveja numa mão e o comando da televisão na outra mão. O homem, segundo percebi um drogado, tinha decidido descansar e estava a aguardar a chegada de companhia para fazer o “trabalho”. Mas quem é que há dez anos pensaria ser possível uma coisa destas?
Voltando à segurança dos tribunais, não vale a pena adiar as decisões que se impõem. Investir na sua segurança é dinheiro bem gasto!

A madre superiora e o guarda-chuva vermelho

Tanta celeuma à volta de Vital Moreira e à sua agressão no Dia do Trabalhador. Telejornais e rádios a abrirem com as respetivas reportagens, jornais com a primeira página a denunciar a situação, blogs e twitter cheios de comentários e de análises, debates televisivos com pompa e sem circunstância e não são capazes de dar o mínimo de destaque a Maria dos Anjos Gorena, madre superiora das Irmãs Oblatas, que, conjuntamente com mais uma freira e sete prostitutas, desfilaram no 1º de Maio com guarda-chuvas vermelhos, insígnia das ditas cujas. Mas a “irmã” não se ficou só pelo desfile, colocou-se no grupo da Pantera Rosa e teceu elevadas considerações às pessoas fabulosas que o constituem. Está no seu direito. Quando lhe foi colocada a questão de que é “algo pouco comum na Igreja Católica...”, a madre mandou esquecê-la e afirmou que “se Jesus estivesse aqui andaria a distribuir preservativos pelas prostitutas”. Nem mais! Ai, madre, madre, se estas afirmações chegarem lá acima, não digo ao céu, claro está, mas sim ao Vaticano, vai ser o bom e o bonito! E ninguém realça o comportamento herético de uma religiosa! Só ligam ao bispos, caso do bispo de Viseu (tarda a prometida reação vaticaniana) e ao papa!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Provar do veneno

Vital Moreira foi agredido no Desfile do 1º Maio da CGTP-IN, num acto deplorável de alguns manifestantes, que não pode nem deve ser tolerado.
Vital Moreira vestiu agora a pele dos reaccionários que há 35 anos invectivava em cada sessão parlamentar. E dos socialistas, que o PC tratava de igual forma. E não me lembro de o ver condenar atitudes idênticas então praticadas.
Lamentavelmente, Vital Moreira provou agora o veneno que, noutros tempos, ajudou a servir.

“Um alívio ecológico”...

De vez em quando lembram-se de mim para fazer conferências e participar em debates. Nada de especial se for no âmbito da saúde. Mas, atendendo às especificidades das áreas em que navego, saúde pública, saúde ambiental, epidemiologia e medicina preventiva, acabo muitas vezes em fora de outras áreas. E começa a ser muito frequente. A última teve a ver com “Green Buildings”. Nessa reunião, dominada por arquitetos, engenheiros, geógrafos e políticos, aparece um médico. Bem, no mundo atual, em que comentadores políticos "ensinam" saúde e palram com um à-vontade surpreendente sobre a gripe A, considero-me “autorizado” a falar sobre tudo, sobre políticos e, no caso vertente, sobre edifícios verdes, metendo a foice em arquitetura alheia. E foi o que fiz.
Um dos participantes denunciou a “verdolatria”, a idolatria do verde. Concordo com o senhor geógrafo. De facto, anda tudo a ficar verde! Não é que tenha alguma coisa contra esta cor, exceto o facto de me lembrar a expressão “verde de raiva”, que não é nem mais nem menos do que a cor da bílis. Imaginem um fígado raivoso face a tantos disparates que se praticam por aí. Como pensam que irá reagir? É fácil, produzindo quantidades industriais de bílis, ao ponto de ficar esverdeado de indignação.
Apercebi-me que os senhores arquitetos – cuja função social é indiscutível -, têm as suas regras e códigos, materializados na expressão de Marcus Vitruvius Pollio, (arquiteto e engenheiro romano que viveu no século I a.C.), “utilitas, venustas e firmitas” (utilidade, beleza e solidez). Mas, a par desta tríade, importa garantir a saúde e bem-estar das pessoas. Foi o que eu fiz, com algumas atitudes provocadoras, já que alguns dos males têm origem ou são desencadeados dentro das habitações, e de outros edifícios, nos quais passamos a maior parte do tempo. A este propósito, teci algumas considerações sobre a qualidade do ar interior, sobre a síndroma do edifício doente, sobre a necessidade de usar materiais menos agressivos, cheguei a especular com a necessidade de haver uma arquitetura da disposição dos aparelhos elétricos, para evitar agressões de campos eletromagnéticos, caracterizei, embora sumariamente, os resultados de um estudo sobre o ar interior das habitações portuguesas. Enfim, desempenhei o meu papel, invocando a segurança e a saúde dos indivíduos. Fiquei um pouco surpreso pelas reações dos restantes companheiros de mesa, quando descaíram para caricaturar algumas das minhas opiniões. Olá, pensei eu, devo estar no bom caminho! Verifiquei, como já vem sendo habitual, que a assistência gosta de se colar a atitudes sedosas, emitindo risinhos a roçar a timidez. Tive que explicar que a minha missão era provocar e não ser um apaniguado da criatividade dos arquitetos.
A “utilidade” é importante? É. A “beleza” é necessária? Sem dúvida. A “solidez” é recomendável? Com certeza. E quanto à saúde e bem-estar? Na minha opinião também deve ser respeitada. E a este propósito afirmei que o famoso arquiteto Santiago Calatrava, autor da gare do Oriente, deveria ser obrigado a ter que apanhar o comboio naquela estação, pelo menos durante 365 dias seguidos. As condições são de tal ordem que, ou muito me engano, já deverá ter sido responsável por inúmeras gripes e até mesmo pneumonias. Frio, chuva, sol e correntes de ar permanente caracterizam aquele “útil, belo e sólido” lugar. O pior é o resto, ao ponto de terem sido construídas umas gaiolas - salas de espera -, que protegem os pobres viajantes do permanente desconforto. As” gaiolas” deverão constituir uma violação do “espaço”, a suprema preocupação e matéria de reflexão para os arquitetos. Violação feliz, não para os que defendem os princípios vitrunianos, mas, para aqueles que têm que utilizar notáveis espaços arquitetónicos. Ao “verde da caricatura” contrapus o “verde da bílis”, e tudo, porque, volta e não volta, acabo por dar ao meu fígado o privilégio de pensar. Um “alívio ecológico”...