O meu texto de ontem, intitulado Também
sou “ignorante”… motivou diversas reacções e comentários quer aqui no Blog,
quer no Facebook pelo que, depois de responder aos primeiros e dado que algumas
questões que me colocavam iam no sentido ter, agora, uma posição/opinião contraditória
com o que tinha defendido no passado, resolvi que valia a pena fazer sobre este
assunto um segundo post, que é este.
Vamos lá estão esclarecer o que, sobre a matéria da TSU, impostos e
salários eu tenho defendido até hoje – e que, coerentemente (prezo muito a
minha coerência) não mudou.
1. Nunca, desde que escrevo e emito opiniões
públicas regularmente (e já lá vão mais de 10 anos), fui um adepto de mexidas
nas contribuições sociais, muito menos da chamada “desvalorização fiscal”
(orçamental, para mim). Devido, basicamente, aos argumentos que invoquei no post anterior (e que, por isso, não
repito agora). Mas também porque as contribuições sociais portuguesas, pagas
por empregados e empregadores, se encontram dentro da média europeia. Além de
que penso que devem ser as contribuições sociais a contribuir para as pensões
de reforma, e não outros impostos ou taxas. E mesmo para, por exemplo, aumentar
a sustentabilidade da Segurança Social, não me chocaria nada um aumento de 1 ou
2 pontos nas contribuições sociais dos empregados (não penso que aumentar o
custo do trabalho seja solução, para mais na fase que estamos a atravessar).
Sim: 1 ou 2 pontos melhoraria o défice (a Segurança Social consolida nas
Administrações Públicas) e não são 7 pontos de aumento…
2. Em matéria fiscal é conhecido que defendi o
choque fiscal de 2002, desgraçadamente, depois, metido na gaveta. E defendi
porque visava uma actuação em termos de IRC e IRS, dois impostos muito
importantes em termos de competitividade e atracção de recursos, e em que
comparamos francamente mal com a realidade europeia. Não mudei a minha opinião,
e penso mesmo que se baixássemos o IRC e o IRS, mesmo hoje (algo que, com a
Troika em Portugal, é infelizmente impossível…), ao invés de perdermos receita,
ainda a ganharíamos (afinal, os últimos anos mostram que já há muito estamos na
parte descendente da curva de Laffer). E se é para nos tornarmos atractivos ao
investimento e sermos competitivos em termos empresariais, beneficiando o factor
capital (como defendo), descer e simplificar IRC parece-me muito mais adequado
do que descer a TSU.
3. Finalmente, defendi, quando ainda ninguém o
dizia (pelo menos publicamente), que iríamos chegar a uma situação em que teríamos fatalmente que reduzir
salários na esfera pública e pensões. Foi num Congresso do PSD, em Abril de
2010, e podem imaginar como fui tratado… Mas limitei-me a constatar o que iria fatalmente
acontecer (e aconteceu, ainda com Sócrates, logo a seguir) e não estou nada arrependido
(tive razão antes do tempo). Porém, nunca defendi que se reduzisse os salários
no sector privado. Esses salários resultam da oferta e da procura exercidas por
empregados e empregadores, e onde o Estado não tem que se meter, para além da
tributação que cobra. Portanto, os salários do privado não são pagos pelo
Estado – mas o que nós temos é um problema de dimensão da despesa pública, onde
as despesas com pessoal e as prestações sociais pesam cerca de 70% (é aí que,
em minha opinião, estão mais concentradas as famosas “gorduras” do Estado).
Pelo que, para diminuir o défice cortando na despesa e tentando ao máximo não
aumentar impostos para não sufocar mais a economia nem aumentar o desemprego (o
que, infelizmente, nunca conseguimos), havia que actuar rapidamente e de forma
transitória nestas componentes da despesa (e noutras, bem entendido, mas cuja
expressão é bastante inferior e onde o impacto é, portanto, mais reduzido). Se
o Estado é um empregador e está falido (por isso Portugal teve que pedir ajuda
externa), uma vez que não existem despedimentos (como no privado), então a sua
factura salarial tem que ser reduzida. É esta a realidade, sendo que,
evidentemente, nada (mesmo nada!...) me move contra os funcionários públicos e
os pensionistas. Isto além de defender, como sustenta boa parte da literatura
científica na matéria, que a consolidação orçamental assente na despesa é
bastante mais saudável e duradoura do que aquela que assenta no aumento da
receita (que deteriora as condições da economia). Do que não estava,
minimamente, à espera, era que o Tribunal Constitucional decidisse como
decidiu, prejudicando, em minha opinião, os interesses do País quer em termos
internacionais, quer internamente, porque não permitiu um ajustamento que seria
muito menos prejudicial à economia do que aquele que agora acontecerá. Mas o
Tribunal Constitucional decidiu, está decidido e não adianta lamentar o facto; interessa
é resolver o problema que existe. Que, existindo esta forte condicionante, e
dado o largo montante em jogo, creio que será melhor resolvido pelo IRS (sempre
é progressivo) do que através da TSU. E transitoriamente – não permanente. Já
sei, é uma medida do lado da receita, e também não gosto dela, mas… que fazer,
dadas as circunstâncias?...
É isto, resumidamente, o que tenho defendido ao longo do tempo. E que
continuo a defender. De forma coerente. No meio de tudo isto, o que espero é
que uma actuação estrutural em termos de redução da despesa pública, e que
nunca poderá deixar de afectar – lá está… – as despesas com o pessoal e as
prestações sociais (incluindo saúde e educação), seja apresentada rapidamente.
É que só assim nos será permitido reduzir, tão cedo quanto possível, a pesada
carga fiscal que sufoca a nossa economia. Trata-se, por isso, de uma urgência…
para ontem.