- Segundo rezam as crónicas da reunião do Eurogrupo de ontem, teria sido alcançado, ao fim de 5 horas de “amena” discussão, um projecto de comunicado conjunto que procurava harmonizar as posições, à partida muito divergentes, da Grécia e dos seus parceiros do Euro; em especial quanto á questão dos próximos passos a dar para ultrapassar o problema de o Programa de Assistência, em curso, chegar ao seu final no corrente mês, sem que exista uma solução alternativa que permita manter as finanças da Grécia a flutuar…
- Todavia, e quando menos se esperava, o já famoso Varoufakis terá comunicado o excelente resultado para Atenas, para o seu PM, com vista a obter o aval do Governo…tendo recebido de volta um redondo não!
- Concluiu-se, assim, que o PM grego não está disponível para aceitar - embora Varoufakis estivesse – qualquer tipo de referência à ideia de extensão do Programa em curso, tendo como contrapartida a promessa de alterações a esse programa que satisfizessem, pelo menos em parte, as reivindicações do governo grego…
- A explicação mais plausível para este primeiro visível desencontro entre os principais responsáveis pela estratégia de negociação do governo grego, poderá residir no facto de o PM grego se encontrar virtualmente refém de posições mais radicais que existem dentro do seu Partido, bem como do incómodo parceiro de coligação, tendo por isso decidido mais uma vez “esticar a corda” e deixar o laborioso Varoufakis em posição bastante incómoda, obrigado a um segundo "round" de negociações na próxima semana, para as quais parte com um passivo não despiciendo…
- …"round" em que, como parece provável, se assistirá a uma iteracção do difícil exercício de ontem - com algum "molho" de fraseologia decorativa para grego ler e apreciar - mas mantendo na essência o que ontem teria ficado acordado até ao fatídico telefonema de Varoufakis para Tsipras…
- Será que Varoufakis vai conseguir, no final do Eurogrupo da próxima 2ª Feira, quando tiver que voltar a chamar Atenas, evitar outra negativa?
- Mas pode acontecer que na Cimeira de hoje seja a vez de Tsipras chegar a um acordo com os seus pares, com a vantagem de não correr o risco de ser desfeiteado por Varoufakis…os mercados apontam para aí, vamos a ver…
- E, por cá, ainda há quem, num pronunciamento de grande clarividência, venha chamar a atenção para o risco de isolamento da Grécia...mas, até agora, quem tentou isolar a Grécia, além dos seus próprios responsáveis?
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Agora é Tsipras que deixa Varoufakis no vazio...que mais ainda vamos ver?
Os 32 da mão estendida
Entre eles, muitos, quase todos, dos maiores críticos da União Europeia. Afinal, o grande objectivo da crítica é obter mais uma esmolita. Para que tudo continue na mesma.
Estranhos modos de vida destas elites, andar sempre de mão estendida!...
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
A curiosa consternação com o agravamento do défice de mercadorias em 2014
- Foi tema muito noticiado e comentado nos últimos 2 dias o agravamento, em € 926 milhões, do défice da balança de bens com o exterior em 2014 por comparação a 2013.
- Com efeito, segundo as estatísticas divulgadas no início da semana, as exportações de bens aumentaram apenas 1,9%, de € 47.266 milhões em 2013 para € 48.181 milhões em 2014, enquanto que as importações aumentaram 3,2%, de € 56.906 milhões para € 58.746 milhões – apurando-se uma diferença no ritmo de crescimento desta duas variáveis, de 1,9% para 3,2%, que, a julgar pelas opiniões expendidas, se terá revelado astronómica…
- Não deixo de notar, de passagem, que este agravamento de € 926 milhões é inferior ao que se registava até ao final de Novembro, o qual atingia € 1.097 milhões, o que significa ter havido em Dezembro uma recuperação de € 171 milhões…
- Mas o mais curioso disto tudo é que os comentadores que se mobilizaram para comentar a “desgraça” que foi este agravamento do défice comercial, nalguns casos literalmente lavados em lágrimas, são os mesmos que clamam, incessantemente, pela necessidade de alívio das medidas de austeridade e pretendem, consequentemente, que a procura interna possa crescer mais depressa incentivada pelo aumento do rendimento disponível…
- Não há maneira de entenderem que qualquer aumento da procura interna, seja de consumo seja de investimento, vai necessariamente traduzir-se num aumento de importações…foi exactamente o que aconteceu em 2014 em que já se registou algum alívio em cortes de salários e pensões, conduzindo a um aumento da despesa orçamental com pessoal e, naturalmente, a uma maior procura de bens importados (vidé o forte aumento da compra de automóveis, que aliás prossegue em 2015).
- Ou então entendem mas querem tratar-nos virtualmente como parvos…
- Num registo mais caricato, encontrei num conhecido diário esta interessantíssima notícia: “Importações da Alemanha contribuem para o agravamento do défice comercial”…com esta aprendi alguma coisa, ou seja que as importações, desde que provenientes de outros países que não a Alemanha, podem não contribuir para o défice comercial…
- Só falta referir que, com este resultado para a balança de bens e tendo em conta o que já se sabia sobre as demais rubricas da balança de pagamentos até ao final de Novembro, é agora praticamente certo que o saldo conjunto das Balanças Corrente e de Capital – o saldo dos saldos – deverá ter sido em 2014 confortavelmente superior ao de 2013…mas, quando essa notícia chegar, vai passar quase despercebida, “felizmente”.
Confrontando opiniões
Vitor Bento divulga no Observador um texto em que dá a sua perspetiva do percurso seguido pelas diferentes realidades económicas existentes no seio da União Europeia. Creio ser uma reflexão importante de quem não é suspeito de radicalismo ou de emitir infundadas opiniões. Um contributo, pois, para o confronto saudável de posições.
Para o debate, fica também o link para a opinião de Rui Ramos sobre o texto de Vitor Bento.
Para o debate, fica também o link para a opinião de Rui Ramos sobre o texto de Vitor Bento.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Breves da política caseira (II)...
Muitas escolas do ensino artístico estão sem receber as transferências orçamentais que são necessárias ao seu funcionamento. Há professores sem receberem salários, as escolas têm dívidas a fornecedores, há alunos sem frequentarem as aulas de música.
Refere a notícia que as escolas do ensino artístico com financiamentos em atraso vão finalmente ver a sua situação resolvida.
Se há meios financeiros orçamentados não se compreende porque é que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) não assegura que as transferências são feitas com a devida antecedência.
O que está em causa é o normal funcionamento das actividades escolares. Nada de extraordinário. Porque é que os pagamentos atrasados acontecem invariavelmente? Geram perturbações perfeitamente dispensáveis. Não deveria o MEC fazer um esforço de organização, acabando de uma vez por todas com este tipo de rupturas? A bem da educação...
Breves da política caseira (I)...
Reza a notícia que 90% dos novos nomeados já lá estava. Trocando por miúdos: nove em cada dez dirigentes de topo que estão a ser nomeados pelos diferentes ministros já ocupavam as funções para as quais passam a situação definitiva, depois de as exercerem “provisoriamente” nos últimos anos. Pergunta-se, então, para que serve a CRESAP (Comissão de Recrutamento e Selecção da Administração Pública)? Hoje ouvi alguém dizer que serve para dar guarida a estas situações...
Dispensamos bem as prefecias patéticas e os deslizes de Varoufakis...mas pode continuar!
- O novo ministro das finanças da Grécia parece não estar ainda satisfeito com a inenarrável confusão que conseguiu criar em torno da já muito difícil situação económica e financeira do seu País, tornando indecifráveis as suas prioridades e objectivos – e dando mesmo a sensação de estar sobretudo empenhado em indispor os seus credores aos quais, paradoxalmente, vai apresentando exigências, com o falso rótulo de propostas, para obter novos financiamentos.
- Na verdade, para além desse trabalho tão meritório como deletério, na frente interna, entretém-se agora a disparar ameaças sobre a zona Euro, tendo ontem chegado ao ponto de afirmar que esta zona será como um baralho de cartas: se lhe tirarem a carta da Grécia, a mais vulnerável como se depreende das suas próprias palavras, a seguir cairão as cartas Portugal, Itália, e assim sucessivamente…
- Ao mesmo tempo, divulgou conversas que supostamente (…) teria mantido em privado com responsáveis governamentais italianos, nas quais estes lhe teriam afirmado que a dívida pública italiana seria também insustentável e que isso só não era tornado público para não por em causa a “tranquilidade” da zona Euro…
- …tendo obrigado a um rápido desmentido do Ministro das Finanças de Itália, em termos bastante diplomáticos mas suficientemente claros para se perceber quanto lhe “agradou” o deslize de Varoufakis…
- Curiosamente, a reacção dos mercados tem sido no sentido de castigar a Grécia, com fortes subidas do juro implícito (yield) na cotação da dívida grega e quedas de valor na bolsa de Atenas, com relevo para as acções representativas do capital dos bancos…mantendo uma calma olímpica em relação às dívidas dos restantes países do Euro…
- Relativamente à inabilidade e ao evidente amadorismo do Snr. Varoufakis na solução da complexíssima situação em que a Grécia se encontra – quando esta recomendaria uma abordagem radicalmente oposta ao estilo incendiário de Varoufakis - temos de reconhecer que é assunto que diz respeito aos gregos, pois se foram eles que decidiram mandatar estes especialistas para lhes tornar a vida ainda mais difícil do que já estava, só a eles cabe avaliar o desempenho dos seus mandatários…
- Mas, em relação às declarações claramente insensatas dirigidas a Portugal e á Itália, já nos cabe, mais afoitamente, recomendar ao Snr. Varoufakis um conveniente silêncio.
- Que se limite a tratar mal os problemas da Grécia, nós vivemos melhor sem os seus comentários apocalípticos e os seus deslizes de linguagem…e, melhor ainda, dispensamos o seu amadorismo…
- Todavia, se quiser insistir nesta senda de profecias patéticas e de dislates do mesmo tipo dos atrás citados pode prosseguir - quanto mais descrédito acumular melhor será para nós…e, em última análise, para os gregos, também.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Pecado meu...
"Não se pode desistir da política e não se pode apagá-la pela sua caricatura ou pela sua corrupção", diz D. Manuel Clemente nas vésperas de se tornar cardeal numa entrevista à Renascença.
Já pensei assim, mas hoje confesso a fraqueza e deixo-me arrastar pela onda do descrédito, sem forças para voltar assim a pensar. É que quando a política se apaga porque se transforma numa caricatura ou navega na corrupção, não são as pessoas que desistem da política. É precisamente o contrário, é a política que desiste das pessoas.
Um Podemos monadero!...
Juan Carlos Monadero, o ideólogo do Podemos da esquerda espanhola e nº 3 na hierarquia do partido, foi apanhado em descarada fuga ao fisco, por não declaração de rendimentos no valor de 425.000 euros, que facturou em 2013, através de uma sociedade inexistente, alegadamente por trabalhos de assessoria a governos de esquerda da América Latina. Com tal procedimento, intentou não desembolsar cerca de 130.000 euros de impostos.
Para além de se discutir se esse dinheiro se deveu efectivamente a trabalhos de assessoria ou se se destinava ao financiamento do Podemos, o que é relevante é ter caído a máscara de dirigentes de um partido que se vem armando em campeão da ética, de uma mais justa resistribuição dos rendimentos. e um combatente feroz da fraude fiscal. No que se refere aos outros, claro está.
Enfim, e em todo o seu esplendor, um Podemos monadero!...
O nome do ideólogo ajusta-se quase na perfeição!...
Estranha forma de estimular o investimento e por a economia a crescer...
- "Discurso de Tsipras atira bolsas para o vermelho e faz
disparar juros (yield) da dívida grega a 3 anos para cima de 20%"...pode
ler-se hoje na imprensa on-line, dando conta das reacções dos mercados ao
discurso do PM grego, na abertura do debate sobre o programa do novo
governo da Grécia.
- Ainda segundo os media, “insistência do governo grego em
recusar a extensão do programa internacional e na reposição de benefícios
que colidem com o plano de resgate penalizam o sector financeiro e fazem
disparar juros”…
- Mas o mais curioso é verificar que no mesmo discurso do PM do novo governo
grego é conferida grande ênfase à necessidade de estimular o investimento
para repor a economia a crescer…
- Eu interrogo-me como é que alguém, no seu perfeito juízo,
estará disposto a investir numa economia onde a fantasia – e, porque não
dize-lo, a irresponsabilidade - assumem papel primordial na definição dos
objectivos e das prioridades de política…estranha forma esta, de "estimular"
o investimento e o crescimento…
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Um simples arrefecimento do aquecimento global!
O território de Portugal continental vai ser atingido entre hoje e domingo por uma massa de ar frio, ar polar transportado do norte da Europa por uma corrente forte de norte, que irá refletir-se numa acentuada descida da temperatura, indicou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Parece ainda que as coisas nos Estados Unidos também andam friotas...
Pois é, nada de grave, um simples arrefecimento do aquecimento global...
PS: Isto é o que diz um amigo meu, que eu estou proibido de brincar com estas coisas sérias pelos ambientalistas do 4R...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Os títulos são gregos, o BCE ainda não!
Li críticas violentas ao BCE pelo facto de não aceitar como garantia títulos de dívida grega.
Mas como pode um Banco aceitar como garantia títulos de dívida que o devedor anunciou não querer pagar, ou querer "perpetualizar", ou querer reestruturar, conforme os dias ou as horas, ou cujas taxas quer alterar?
O que é que vale uma garantia dessas para um Banco, mesmo que seja o BCE? Ou para um Banco, demais a mais o BCE, com funções reguladoras e de supervisão sobre os restantes?
Claro, nada, depois do que o governo vem declarando, e enquanto não se concluírem as negociações. É que os títulos são gregos, o BCE ainda não!
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
A ler
Para além da questão concreta dos acordos de comércio, a novidade de existir um governo de um Estado membro ideologicamente contrário a consensos que até agora, salvo as naturais divergências entre Estados na fase de discussão, sempre foram regra, coloca o problema da sustentabilidade política desta UE. A ponta de um icebergue, pois...
A hypokrisia dos bem pensantes
Por cá, vai um enorme entusiasmo, nas esquerdas e nos comentadores e analistas bem pensantes, quanto às propostas da Grécia de perdão da dívida, seja qual for a modalidade que assuma, como se sabe, de geometria variável a cada dia que passa. Entusiasmo tão orgasmático que até despreza ou esquece as consequências para os contribuintes portugueses, que teriam que suportar, de seu bolso, a participação nacional no financiamento europeu à Grécia.
Os mesmos profundos pensadores que criticaram e continuam a criticar, por mero exemplo, o alegado peso para os contribuintes do apoio imposto pelas autoridades europeias a Bancos portugueses, não por razões substanciais de solvabilidade, mas de mera regulamentação de rácios de solvabilidade, quando esses apoios, aliás já quase todos reembolsados, se materializaram em lucros relevantes para as finanças públicas, mercê do enorme diferencial entre as taxas cobradas e o custo do dinheiro para o Estado.
Enfim, bem pensantes, que normalmente acumulam com bem ignorantes e, sem saberem, nem sonharem, capazes de dar plena e adequada expressão à grega hypokrisia.
Tudo certo, pois.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Tasca
Entrei ontem pela primeira vez numa tasca no Porto para almoçar. Gosto de comer nesta cidade, por várias razões, mas há duas que se salientam, a simpatia como sou tratado e a boa comida. Podia acrescer uma terceira, que não é de deitar fora, os valores são substancialmente mais baixos em relação a muitas zonas do país.
Entrei um pouco indeciso, confesso. O espaço era um pouco acanhado, simples, mas limpo. Graças à simpatia, natural, genuína, sem sorrisos forçados ou salamaleques urbanos e artificiais, antevi que o repasto iria correr bem. O funcionário encarregou-se de nos orientar, aceitou as nossas sugestões e acabou por ser premiado com a liberdade de escolher o vinho. O serviço foi rápido. No local onde nos encontrávamos, antevi, pelo postigo que dava ligação para a cozinha, uma senhora de idade, barrete na cabeça, idade um pouco avançada demais para aquelas funções, com sinais evidentes de ter tido uma paralisia facial e dificuldades na locomoção a apontar para problemas das coxo-femurais. Não consigo deixar de usar a minha condição de médico para fazer certos diagnósticos. Não são ossos do ofício, mas sim manias que não consigo evitar. A par de todos os sinais evidentes, vi que a senhora não estava bem. O sacrifício era evidente, mas ia despachando o serviço, e muito bem, como pude observar ao fim de algum tempo através da qualidade da comida. O que leva uma pessoa naquelas condições a trabalhar? Já merecia descanso. O corpo ansiava por isso, mas o espírito denotava uma força superior. Ainda consegui ouvir, embora com alguma dificuldade, comentários sobre o hospital. Foi quando entrou uma senhora, talvez da mesma idade, vestida de negro e muito sorridente, à custa de uma branca dentadura postiça que ameaçava saltar a qualquer momento. Apercebi-me que havia qualquer coisa que não estava a correr bem. Encaixava-se perfeitamente com a senhora da cozinha. A sua simpatia e educação eram mais do que evidente. Emanava ternura e compreensão. Olhou-nos mais do que uma vez.
Hoje, como sou um animal de hábitos, fui ao mesmo sítio. Adapto-me com uma facilidade incrível. Basta ser bem tratado da primeira vez. O funcionário reconheceu-nos e tratou-nos como se fôssemos velhos conhecidos. Atenções e mordomias. Um encanto ser tratado daquela maneira num local muito simples. Hoje, eu pedi um prato e a minha mulher outro. Ao fim de algum tempo tinha o meu. A senhora apercebeu-se, saiu da cozinha e veio pedir desculpa por não terem sido apresentados em simultâneo. Julgava que eram pedidos para mesas diferentes. Nunca me tinha acontecido nada parecido. Mas a conversa continuou, e a senhora explicou que estava muito cansada e com dores nas ancas e que iria sentar-se um pouco. Estava ali para fazer um favor; aposentou-se há mais de seis anos. Pediram-lhe para ajudar, porque a cozinheira tinha caido nas escadas do metro e partiu a perna e deu cabo da cabeça. - Está no hospital. Coitada. Pediram-me para dar uma ajuda e aqui estou eu. Cheia de dores, cansada, mas que hei de fazer? Tenho que ajudá-los. Não acha? Disse para a minha mulher. Ao mesmo tempo que ia explanando, com uma liberdade e sinceridade únicas, a duas pessoas desconhecidas, as suas maleitas e explicações para o ocorrido, perguntava se precisávamos de mais alguma coisa e se estava tudo bem. Ouvia sem dizer nada. Mas a minha minha mulher não, entrou na cena com uma facilidade difícil de explicar. É habitual atrair certo tipos de pessoas. Sorri. Não tarda e toma conta conta da tasca. A senhora pediu mais uma vez desculpa pelo desfasamento do serviço, agarrou numa cadeira e levou-a para a cozinha. - Tenho que descansar. Não aguento as dores. Mas tenho de trabalhar para os ajudar. E não sei quando a cozinheira vai regressar. Oh vida! Oh vida!
Terminei dizendo: - Amanhã já não vamos estar aqui. Se estivéssemos vínhamos a esta tasca e sabe-se lá o que é que iríamos ouvir e conhecer. - Tudo.
É assim que se começa a fazer amizades. Não sei como a senhora se chama e nem ela sabe quem somos. Mas não é preciso, primeiro irmana-se numa estranha e inesperada simpatia e depois o tempo faz o resto…
Grécia: entradas de leão, saídas de sendeiro?
- É certo que a “procissão
ainda vai no adro”, mas parece já claro que não poderia ter sido mais
aventureirista (para dizer o mínimo) a forma como o novo governo grego
cumpriu a sua primeira semana em funções, começando por anunciar um
conjunto de medidas de política económica e financeira que contrariam frontalmente
os compromissos assumidos pelo País com os seus credores no âmbito do Programa
de Assistência Financeira ainda em curso.
- Tratou-se de uma
verdadeira “entrada de leão”, mas numa forma incrivelmente desajeitada: é
totalmente incompreensível, com efeito, que, tendo a Grécia necessidade (segundo o
seu próprio governo) de obter grandes concessões dos seus credores
internacionais, tenha começado por lhes “atirar á cara” um conjunto de
decisões que são exactamente o oposto do que tinha sido prometido a esses
credores…
- Ao agir desta forma, o
novo governo grego terá criado a si próprio uma situação da qual agora só
poderá sair de forma muito pouco auspiciosa: espera-o doravante um caminho
árduo, de cedências atrás de cedências, pois já terá percebido que a
persistência nas exigências de redução da dívida, de rejeição pacóvia de
negociação com a Troika, de abandono unilateral do Programa de Assistência,
teriam como consequência, a brevíssimo prazo, umam situação de bancarrota
generalizada no País e de “salve-se quem puder” - e quem não se salvaria seria
certamente o governo…
- Mas agora, perante um
cenário em que só lhe resta ir deixando cair, uma após outra, as fantásticas
bandeiras eleitorais que lhe permitiram obter um mandato para governar (com
um parceiro pouco cómodo, para agravar), vai colocar-se um novo e “inesperado”
problema: como explicar aos gregos que, em tão pouco tempo, tenham sido
abandonadas as teses centrais de um espectacular programa de governo…
- Vai ser muito curioso,
com efeito, quando estiver concluído o corrente périplo europeu do seu Ministro
das Finanças, e no seu regresso a casa tiver que mostrar uma mão cheia de
nada, ver como irá começar por reagir o eleitorado face á evidente
impossibilidade de cumprimento das grandes promessas eleitorais…
- …o eleitorado e também,
segundo parece, a facção mais radical do partido vencedor das eleições,
para a qual estas inevitáveis cedências poderão ser tomadas quase como
actos de traição à Pátria Helénica…
- É o que têm muitas
vezes estas entradas de leão, mal calculadas, acabam geralmente em saídas de sendeiro…
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Realpolitik ou surrealpolitik?
Varoufakis, o ministro das finanças da Grécia, declarou que "O meu maior receio é transformar-me num político". Frase pensada? Vantagem ou desvantagem, a questão coloca-se? Será que vai conseguir não ser político e obrigar os que estão do outro lado a deixarem de o ser? Ou será que rapidamente o seu receio será confirmado pela realpolitik?
domingo, 1 de fevereiro de 2015
No topo dos "castelos"...
Ora aqui está uma boa notícia. O Palácio da Pena em Sintra foi considerado pela European Best Destinations o melhor castelo da Europa. Uma marca que se segue a outras marcas - por exemplo, em 2014, o Porto foi eleito o melhor destino na Europa - que ajudam a colocar Portugal nos roteiros turísticos internacionais. Estamos de parabéns.
Estes prémios são uma prova das vantagens que decorrem do investimento na reabilitação histórica e cultural, da prioridade colocada no ordenamento do território e da preocupação a ter com a qualidade de vida e bem estar das regiões e das populações que nelas habitam.
Os ganhos no turismo só serão sustentáveis se na sua base estiverem políticas de desenvolvimento económico, social e cultural sustentáveis em que os primeiros beneficiários são as populações locais, a economia e o património.
É um conjunto duradouro e harmonioso de políticas suportado numa visão estratégica que pode fazer a diferença. É por aqui que temos de continuar a caminhar, respeitando e valorizando o que temos de mais bonito e que, simultaneamente, nos distingue e nos aproxima do que de melhor têm outros locais do mundo...
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Nota 20
Não resisto. Perante a rendição ao que se tornou correto dizer-se, escrever-se, comentar-se ou apoiar-se, mas sobretudo perante a mudez geral no desfile do rei nú, reproduzo o que li num sítio aqui ao lado.
Conta-se que a Universidade de Griffith na Austrália lançou o repto aos seus alunos no sentido de definirem uma expressão contemporânea. A expressão escolhida foi "politicamente correto". O aluno que levou o prémio definiu-a lapidarmente: "Politicamente correto é uma doutrina, sustentada por uma minoria iludida e sem lógica, que foi rapidamente promovida pelos meios de comunicação social, e que sustenta a ideia de que é perfeitamente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo".
Conta-se que a Universidade de Griffith na Austrália lançou o repto aos seus alunos no sentido de definirem uma expressão contemporânea. A expressão escolhida foi "politicamente correto". O aluno que levou o prémio definiu-a lapidarmente: "Politicamente correto é uma doutrina, sustentada por uma minoria iludida e sem lógica, que foi rapidamente promovida pelos meios de comunicação social, e que sustenta a ideia de que é perfeitamente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo".
Syriza, a nova religião do Partido Socialista
Já não admira, pois é negócio corrente, que muitos mudem de partido, a grande maioria por oportunismo puro, em busca de novas oportunidades. Mas é original e insólito que um partido, o PS português, por força da derrota do PASOK, abjure do seu parceiro grego, camarada na Internacional Socialista e se torne camarada fraterno do Syriza, partido vencedor. Depois de António Costa nem sequer ter citado o partido irmão na adoração que prestou ao Syriza, é agora um ex-governante e ex-deputado socialista que transforma o PS no Syriza português.
Agora, para o ex-governante o PASOK foi sempre um "partido caudilhista, profundamente burguês, arrogantemente sentado em cima de uma história e de um passado que desconhece a evolução das sociedades..." e o PS "é hoje o movimento que se transforma para ser a casa mãe da inovação política".
E como o PS não é o PASOK...e em Portugal o Bloco de Esquerda morreu antes de nascer o Syriza, aí está a demonstração completa da nova religião do PS: uma união espiritual tão profunda, ao ponto de identificar adorador e adorado numa identidade única, com duas pessoas indistintas, a religião Syriza.
No fim, interrogo-me: oportunismo desbragado ou é mesmo assim?
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Os mistificadores e o "quantitative easing"
Continuo a ficar espantado com as
declarações dos vários responsáveis, políticos e outros, sobre os efeitos
esperáveis para Portugal da medida do BCE de compra de dívida (quantitative
easing). Declarações mais do que suficientes para evidenciar ou a maior das
demagogias ou um desconhecimento atroz da realidade, ou ambas as coisas.
Para esses mistificadores, a medida terá
o condão de abrir a torneira do crédito, de diminuir as taxas de juro e de
permitir mais despesa pública através da compra de dívida pelo BCE. Para além
de vir em sentido contrário à política de austeridade em Portugal.
Acontece que não é nada disso. Os efeitos directos na concessão de
crédito serão diminutos, por não haver um problema de liquidez no nosso sistema
bancário, mas haver, sim, falta de projectos viáveis. Sem projectos, não há
crédito, apesar da liquidez existente no sistema.
Quanto às taxas de juro, e para riscos da mesma
qualidade, as nossa taxas médias já alinham perfeitamente pelas europeias, alemãs
incluídas: as referentes a particulares, um pouco abaixo; as respeitantes a
empresas, um pouco acima. Ora, estando incluído no preço do crédito o custo do dinheiro para os Bancos, mais o
custo de oportunidade dos capitais próprios investidos e que naturalmente inclui o prémio de risco
do pais, tal significa que, na prática, mas mal, os
nossos Bancos já equiparam o risco país Portugal ao risco país Alemanha. Donde,
não se pode esperar, racionalmente, qualquer baixa das taxas de juro.
Por outro lado, o funcionamento do Quantitative
Easing só alcançaria objectivos em Portugal se pudesse funcionar conjuntamente
com uma política orçamental expansiva, keynesiana. Mas esta é um
constrangimento inultrapassável, pois o montante da dívida não permite
brincadeiras orçamentais. Nem o desenvolvimento do país se pode fazer através
de maciço investimento público. Ponto final. Efeitos favoráveis, sim, poderão
esperar-se das exportações, induzidos por um aumento da actividade nos países
onde a medida do BCE tenha efeitos práticos. Efeito esse aumentado, caso persista
a depreciação do euro face ao dólar, favorecendo os exportadores. Mas até aí os
efeitos aparecem relativizados, já que grande parte das exportações portuguesas
se dirige para os países do euro. Portanto, caros amigos, a medida é globalmente positiva, mas, directamente, não se espere muito dela em Portugal. E para quem vá na cantiga do crescimento através da despesa pública viabilizada por tal política, eu diria: fiem-se na virgem
e não corram e verão o tombo que levam...
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Picadinhos, entendam-se...
Hoje de manhã quando ouvi na telefonia a notícia sobre os resultados a que chegou a Deco Proteste numa análise à qualidade de carne de vaca picada que é vendida em estabelecimentos comerciais pensei que este assunto não iria ficar por aqui. Uma tal notícia não iria deixar em bons lençóis, ou deveria ser assim, as entidades oficias que zelam pela qualidade e segurança alimentar.
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) veio, como seria de esperar, desvalorizar o assunto. E as críticas não se fizeram esperar. Não sei se a amostra da Deco Proteste é representativa, mas os resultados publicitados são preocupantes e exigem, a confirmarem-se, medidas concretas das autoridades públicas.
A ASAE questiona os resultados do trabalho da Deco e avança que em 2014 recolheu 42 amostras de carne na Região de Lisboa e que não detectou qualquer resultado irregular.
O Conselho de Segurança Alimentar vai reunir-se. Este órgão foi constituído quando surgiu o fenómeno da venda da carne de cavalo em 2013. Dá ideia que de lá para cá não voltou a reunir. Há órgãos para tudo e mais alguma coisa, nascem como as cerejas. Mas fica a dúvida sobre a sua utilidade. Surgem muitas vezes para “acudir” a uma situação a requerer uma intervenção política, mas depois desaparecem de circulação.
Vamos lá ver se o dito Conselho resolve alguma coisa sobre a carne picada. Com a alimentação não se brinca e muito menos com a saúde pública. Já basta o que para aí vai no Serviço Nacional de Saúde…
Grécia: atracção, eventualmente fatal, pela autonomia monetária?
- Um dos mais curiosos episódios relatados na imprensa internacional, sobre o momento especial que se vive na política grega, foi naturalmente omitido ou passou despercebido à grande maioria dos “media” lusos, tomados por um encantamento infantil em torno do PFEC em curso na Grécia (o equivalente ao nosso velho PREC, agora em versão financeira).
- Esse episódio tem a ver com a queda acentuada das receitas fiscais do Tesouro grego, nas semanas que antecederam as eleições, em resultado de muitos milhares de gregos terem começado a alimentar a expectativa de que, com a vitória do Syriza, pudesse ser decretada uma amnistia fiscal ou algo de muito parecido…
- Tal episódio é bem revelador de como a mensagem económica e financeira do partido vencedor, cheia de exigências em relação ao resto do Mundo – uma espécie de ajuste de contas financeiro com o resto do Mundo, muito em especial com os seus credores internacionais – foi capaz de passar para o eleitorado ao ponto de acreditarem num grande alívio/perdão fiscal pós eleitoral…
Em suma, o Syriza conseguiu convencer uma boa parte do eleitorado grego de que seria capaz de:
- Repor os vencimentos dos funcionários públicos e as
pensões de reforma para níveis iguais ou muito próximos dos que se verificavam
antes da intervenção da malfadada Troika;
- Recuperar benefícios sociais e níveis de salário mínimo
nacional, que também foram consideravelmente reduzidos durante o Programa de
Ajustamento (ainda em curso);
- Impor aos credores internacionais uma reestruturação
da dívida em termos altamente penalizantes para eles
(termos ultra-concessionais), obviamente facilitando o serviço da dívida ao devedor
República Helénica de modo a permitir a restauração dos benefícios supra
indicados;
- Sem prejuízo do que antecede, continuar a merecer a
confiança e a disponibilidade dos credores internacionais para continuarem a
financiar a República Helénica nos termos por esta escolhidos e, desnecessário
será acrescentar, altamente concessionais também.
5.
Qualquer cidadão minimamente esclarecido compreende que este programa
envolve um nível de utopia considerável – equivale a comer um bolo várias vezes
e mantê-lo como se não tivesse sido comido – mas a verdade é que uma boa parte
dos gregos acreditaram nele e votaram naqueles que o prometeram.
6.
Subjacente a todo este estranho enredo e esta ilusão financeira está uma
noção central do ideário dos dois partidos que formam a nova coligação
governamental na Grécia: ambos estão
profundamente empenhados (“passionate”, diz o F. Times na sua edição de hoje)
na restauração da soberania nacional sobre a política económica.
7. Mas isso só será possível ou viável
com um novo regime económico, muito especialmente com a restauração da
autonomia monetária perdida aquando da adesão ao Euro, como é evidente…mais concretamente, isso implicará o abandono do Euro, seguindo um modelo
financeiro do tipo argentino ou venezuelano…coisa que os gregos têm
esmagadoramente rejeitado nos inquéritos de opinião!
8. Confesso as minhas sérias dúvidas
quanto à possibilidade de tudo isto não acabar numa enorme frustração para os
gregos; esta ilusão financeira/monetária em que confiaram ainda lhes pode
sair mais cara que o Programa de Ajustamento…muito sinceramente não o desejo,
mas com igual sinceridade antevejo um enorme risco de tal acontecer.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Os charlatões da Educação
"...Sugere-se que seja dedicada especial atenção ao sinal de igual (que estabelece uma relação de igualdade dos valores apresentados em cada um dos lados do sinal), trabalhando-se no sentido da passagem de uma visão "procedimental" (a seguir a um sinal de igual coloca-se o resultado) para uma visão relacional..."
IAVE-Instituto de Avaliação Educativa
Bom, com este ensino assim centrado numa mera visão procedimental, fica cabalmente explicada a dificuldade de os alunos penetrarem nos segredos da Matemática...
E não mandam implodir os edifícios onde tais cérebros se albergam? Retirando-os de lá primeiro, claro está!...
Oportunista e confundido!...
António Costa, sim, o António Costa líder do PS, apressou-se a festejar a vitória do Syriza na Grécia, um sinal de mudança em curso na Europa...
Espantoso oportunismo do homem que, num ápice, esqueceu a solidariedade com o partido irmão socialista grego, parceiro do governo, que ficou abaixo dos 5%, para se congratular com a vitória de um partido adeversário. E terrível a confusão geográfica que dele se apossou ao tomar a mudança na Grécia por uma mudança na Europa!...
domingo, 25 de janeiro de 2015
O Governo e a PT
Vai por aí uma onda de indignação por o governo não ter interferido na venda da PT. Indignam-se aqueles que consideram que Portugal perde mais uma jóia da já depauperada coroa por causa da indiferença do governo. Ou que mais um centro estratégico se desloca de Portugal e da esfera da lusofonia sem que o governo se importe. Ou que, perante a despreocupação governamental, o comprador só tem propósitos especulativos e não pretende manter a empresa na vanguarda da tecnologia pois se torna indispensável investimento para lá do que foi feito na aquisição das participações sociais que, dizem, só resolveram parte do problema de grandes acionistas aflitos. É curioso que estes argumentos são partilhados por gente da esquerda - ou que se afirma de esquerda - e da direita.
Por mim, para além de esperar que a Justiça apure o que tiver de ser apurado no que respeita aos atos de quem foi responsável pela impressionante destruição de valor, louvo o governo pela serenidade, mas sobretudo pela distância que soube manter do processo de venda à ALTICE. A PT chegou ao estado a que chegou porque nunca verdadeiramente se autonomizou do poder político e não resistiu ao apelo de outros poderes, vendendo a sua autonomia e rendendo os interesses dos seus acionistas a relações que num futuro próximo melhor serão apercebidas, estou em crer. Por isso, abster-se o governo de intervir, de influenciar direta ou indiretamente decisões ou de mostrar preferências, é de louvar, em especial quando foram muitas as pressões para que a conduta do Executivo fosse a que era hábito.
Os defensores da interferência do Estado na sorte da PT esquecem-se que se trata de uma empresa privada, que a inteligência posta ao serviço das tecnologias não tem nação mas precisa de capital que o País não tem (e os contribuintes muito menos) e que, a respeito das lógicas lusófonas a Oi é brasileira e...foi o que se viu.
Espero bem que o que aconteceu à PT perdure por muito tempo na memória dos portugueses e sobretudo das elites. Pelas opções que foram a resultante de uma nefasta intervenção do poder político no passado, pela exemplar neutralidade de que o governo foi agora capaz, mas também e sobretudo pela demonstração de que em Portugal podem desenvolver-se projetos empresariais, portadores de futuro, que, bem geridas, ombreiam com os melhores que existem pelo mundo.
sábado, 24 de janeiro de 2015
Cada povo, o seu Maduro!...
Pelo que vou ouvindo, vai enorme arraial na comunicação social com a eventual vitória do Syriza nas eleições gregas. E arraial significa alegria, folguedo, dança, comes e bebes à fartura.
Afinal, a coisa é simples. Cada povo tem o Maduro que merece. E a comunicação social que o promove.
E acabado o festim, Venezuela na Grécia?
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Contas externas até Novembro: notícias interessantes...
- A imensa excitação mediática que por aí vai face à expectativa de vitória do Syriza nas eleições gregas do próximo Domingo – só comparável à que foi causada pela atribuição da 3ª Bota de Ouro ao famoso CR7 – exonera, justa e compreensivelmente, os nossos "media" e seus opinon-makers de serviço de prestar atenção aos assuntos realmente importantes para o País.
- Vem isto a propósito da divulgação feita ontem, pelo BdeP, da habitual posição das contas externas, neste caso até final de Novembro de 2014, que aqui, como vem sendo hábito, nos propomos apreciar, considerando que constituem o melhor indicador da capacidade da economia portuguesa para se auto-regenerar.
- Segundo a informação divulgada, constata-se o seguinte:
- O saldo (positivo) da Balança Corrente quase
duplicou em relação ao mesmo período de 2013, passando de € 621,1 milhões para
€ 1.194,2 milhões;
- O saldo conjunto (positivo) das Balanças de
Bens+Serviços diminuiu 29%, passando de € 3.380 milões em 2013 para € 2.400
milhões em 2014;
- O saldo (negativo) das Balanças de Rendimentos (Primário+Secundário)
diminuiu, de € 2.759 milhões em 2013 para € 1.205 milhões em 2014, uma queda de
mais de 56%;
- O saldo conjunto (positivo) das Balanças Corrente e
de Capital – o saldo dos saldos como lhe temos chamado - aumentou, de € 2.970
milhões em 2013 para € 3.364 milhões em 2014, uma subida de 13,1%.
4.
Verifica-se, em reforço das conclusões já extraídas sobre dados de meses
anteriores, que o equilíbrio fundamental da economia se encontra por enquanto
salvaguardado, sendo certo que a grande melhoria se situa ao nível dos
Rendimentos, muito provavelmente como consequência da forte redução nos
encargos com as dívidas ao exterior.
5. E este equilíbrio subsiste
(reforça-se, mesmo) apesar do aumento das importações induzido pela conhecida
recuperação do consumo privado (e também do investimento): o aumento das
importações de bens até Novembro foi de 3,4%, suplantando o aumento das
exportações, que se cifrou em 1,1%, originando um agravamento do défice
comercial de quase € 1.100 milhões.
6. Aliás este agravamento do défice
comercial, conhecido já na semana anterior, terá sido o único dado destas
contas a merecer alguma atenção mediática, exprimindo a habitual e curiosa
preocupação pelo aumento das importações quando o consumo privado recupera…
7. E assim vai, pois, a economia real no
seu rumo de reconstrução, indiferente ao alarido syrizista, fazendo o seu
trabalho de forma empenhada ou mesmo abnegada, não pressupondo, ao contrário da
cultura mediática dominante, que o incumprimento das responsabilidades
financeiras constitui a melhor garantia de um futuro melhor…
8…para esta parte do País, o trabalho
e o respeito pelos compromissos assumidos ainda constituem a melhor forma de
responder aos sérios desafios que se nos colocam…
9. A grande questão é que já não há “pachorra”
para acomodar tanto dislate mediático (e sobretudo tanta infantilidade)…
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Pela diferença mínima ...
Manuel Caldeira Cabral, professor de economia da Universidade do Minho, tem sido apresentado como o homem que António Costa escolheu para estudar as propostas do PS na área da economia e finanças e, penso eu, municiar o lider do PS com argumentos que permitam perceber a diferença entre as propostas do PS e as políticas da coligação no poder. Vem aparecendo como o sempre útil académico, que usa a sua auréola de sábio contra as tenebrosas políticas da não menos tenebrosa direita neoliberal.
O professor Caldeira Cabral, na sua dupla qualidade de sábio e conselheiro daquele que já todos anunciam como futuro PM, deu uma entrevista a Maria João Avilez, reproduzida no Observador e que pode ser lida aqui. Entrevista que, apesar de ter passado despercebida, é muito significativa do estado da arte da oposição que quer ser governo.
Registo, em primeiro lugar, o estilo. E o estilo revela uma curiosa ingenuidade de quem provavelmente não se apercebeu que a política, esta política dos políticos desta república, não é feita de verdade e esbarra, sem dó nem piedade, com a realidade.
Vejamos o que de nu e cru, mas sobretudo surpreendente, revelou Caldeira Cabral, revelações imputáveis ao lider da oposição, que de resto não as desmentiu ou veio corrigir.
Entre muitas coisas interessantes - que cada leitor apreciará de acordo com o seu interesse ou sensibilidade - veio louvar as cautelas e moderação do PS e do seu líder em relação às políticas futuras, muito em especial quanto à política financeira do Estado. Afirma, por exemplo, que PS segue a linha de uma consolidação orçamental "clarissima" a médio prazo, cedendo no propósito no curto prazo, pois no curto prazo admite e propugna "uma pequena oscilação no déficite". Não quantificou a pequenez, e seria importante conhecê-la na sua concreta dimensão, atentos os limites impostos de fora e a que Portugal está vinculado. Mas adiante. Tudo lido e ponderado, creio que Caldeira Cabral me quis dizer, em nome e representação do PS, que é tudo, pois, uma questão de escala e prazo. Curto ou médio, pequeno ou nem tanto. A pergunta que tal declaração suscita é intuitiva e foi-lhe dirigida. Então e que diferença existe entre essa proposta e a política do governo? A resposta é que foi inesperada, pois, como antes disse, não estava à espera de aparecer alguém com ambições políticas mas que se recusa a enganar a realidade: “É só ligeiramente diferente, nesse aspeto, mas é importante: pode evitar aumentos substanciais de desemprego e pode ter efeito na retoma do investimento”, diz o economista, professor na Universidade do Minho. Ou seja, o PS, pelo menos nesta fase, só tem propostas ligeiramente diferentes dos tenebrosos neoliberais no governo. Mas esta curta diferença faz, pelos vistos, toda a diferença. Afinal, meu caro Dr. Tavares Moreira, bem vistas as coisas os seus "crescimentistas" contentam-se com pouco...
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Auditoria negra aos Vistos Gold...
É demolidor o Relatório da Inspecção Geral da Administração Interna aos Vistos Gold. Não fica pedra sobre pedra. As conclusões da auditoria não deixam dúvidas sobre a falta de uma actividade devidamente organizada e estruturada de atribuição dos Vistos Gold. É vasta a lista de irregularidades em vários planos de intervenção, de procedimentos inexistentes mas necessários e de indefinições em matérias essenciais ao rigor da condução dos processos e do controlo da atribuição das autorizações. Há desconformidade de procedimentos, há desarmonia na aceitação/valoração dos meios de prova necessários, há inexistência de regra claras quanto ao modo de tramitação do processo e à unidade orgânica que deve proceder a instrução, há desorganização no modo de instrução dos processos, há falta de definição quanto a problemas materiais associados à autorização de residência, há falta de definição quanto à forma de arquivamento dos processos, há incumprimento das regras de competência estabelecidas para a decisão, o controlo interno é muito incipiente e fraco, há inexistência de modos internos de controlo, etc.
É de facto surpreendente, ou nem por isso, que a medida política de atribuição dos Vistos Gold não tenha sido acompanhada, desde o início da sua aprovação, da preocupação de lhe conferir controlo, fiabilidade, rigor e transparência. Encurtando explicações, o governo criou a medida, fez dela uma bandeira política, mas não cuidou de se preocupar em garantir o funcionamento responsável da respectiva administração. Como se por milagre, um decreto-lei fosse só por si suficiente para que a medida tivesse êxito e, particularmente, fosse executada sem abusos, desvios, irregularidades e incumprimento da própria lei.
Quer dizer, foi preciso a operação Labirinto para que o MAI se questionasse sobre a organização da actividade, sobre o sistema interno de controlo, sobre as competências de quem faz e o quê. Um caso lamentável, que desprestigia a administração pública e que cria um caldo de facilitismos e de dúvidas que põem em causa a segurança e a eficácia de uma medida, que gostemos ou não, não poderia ser administrada de forma had-hoc e sujeita a níveis de arbitrariedade decisional que são contrários à confiança que os cidadãos e o próprio Estado esperam do funcionamento dos serviços públicos.
Agora, o relatório de auditoria recomenda a elaboração urgente de um Manual de Procedimentos e a adopção de medidas de reforço do acompanhamento e escrutínio da actividade da atribuição dos Vistos Gold. Mas fica uma pergunta: quais as razões que justificaram que estas preocupações não tivessem sido acauteladas antes da entrada em vigor dos Vistos Gold...
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
A China nos Açores
O Presidente do Governo Regional dos Açores considera uma bofetada na cara do Estado português o anúncio pelos EUA da diminuição do efectivo norte-americano, civil e militar, de 650 para 165 elementos, medida que implica a redução gradual dos trabalhadores portugueses da Base das Lajes de 900 para 400 pessoas, ao longo deste ano.
Claro que é de lamentar vivamente o desemprego de 500 trabalhadores, com grande incidência na economia local, mas não se pode escamotear tão facilmente a responsabilidade do Governo Regional.
Sendo obviamente transitórios os acordos de permanência americana, ou outra, nas Lajes, pergunta-se o que é que o Governo Regional, tão cioso da sua autonomia, fez para que a população da Terceira não estivesse tão dependente de factores incontroláveis, como a vontade americana? Sim, o que fez, quando é o próprio Governo Regional a dizer que mais de metade do emprego na Terceira se deve à Base americana?
Um fracasso completo da política regional. Eles são mesmo bons é em decisões de grande risco e coragem, como a de recusar o navio Atlântida, cuja velocidade de cruzeiro pecava por dois nós na ligação entre as ilhas. Dois pequenos nós, mas um novelo de enormes prejuízos para o Estado português e uma redonda meada a puxar pela falência dos Estaleiros Navais de Viana.
E agora querem a China nos Açores!
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Lição grega
Num volte-face justificado pela proximidade das eleições, aparece agora o Siryza a declarar que já não quer a saída da Grécia do euro.
Porque a saída e o consequente retorno à velha dracma provocaria uma desvalorização da moeda, e "uma depreciação monetária seria equivalente a aplicar um novo programa de austeridade"-Yannis Miliós, um dos quatro economistas responsáveis pelo plano económico do partido.
Por cá, ainda há quem não queira compreender a evidência. Ditos economistas e políticos, uns e outros sempre com o povo na boca, mas longe do coração.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Sefarad. Eterna Sefarad.
O tempo permite recordar certos momentos que podem ser facilmente transformados em interessantes histórias. Acontece-me frequentemente sofrer de regurgitação saborosa desses apontamentos, que, desejosos de ver a luz do dia, ajudam a construir novas ideias.
Ao ler a publicação de que os descendentes de judeus expulsos de Portugal nos séculos XV e XVI podem obter a nacionalidade portuguesa, uma forma de tranquilizar a má consciência coletiva, recordei-me de um pequeno episódio ocorrido há mais de vinte anos.
Fui apresentar um trabalho a Jerusalém. Foi uma verdadeira epopeia chegar até lá. Fiquei com a nítida sensação de que nem um piolho ou percevejo seria capaz de furar as barreiras que tive de transpor. O congresso teve lugar fora da cidade, numa zona ocupada, um kibutz transformado em hotel. Nada mal, apesar de tudo. Era o único português. Fui confrontado com várias culturas, hábitos e costumes diferentes dos nossos. Tropeçava a qualquer momento com interessantes pretextos para fabricar histórias; imensos. Não recordo de uma semana tão profícua em termos de temas para mais tarde escrever. Não vou passar a pente fino esses acontecimentos, mas sim descrever um que me impressionou.
No dia da discussão do meu poster, fui o primeiro a chegar à sala. Mania de gaiteiro! Aparentemente estava vazia, mas ao fundo vislumbrei um militar fardado com uma pistola à cintura. Baixo, atarracado mesmo, com notória falta de cabelo, apesar de ser ainda novo, estava de plantão junto do meu trabalho. Na altura, as convulsões naquele país estavam bem acesas, como é costume. Fiquei meio apreensivo, mas continuei a caminhar. Ao chegar, o senhor perguntou-me se eu era o autor daquele trabalho. A minha inquietação cresceu porque tratava-se de um trabalho sobre epidemiologia das doenças cardiovasculares que, aparentemente, não tinha nada de subversivo e nem interesse para um militar armado. Disse que sim, que é que havia de dizer? Foi então que o militar, com barriga proeminente, baixo e com a calvície a nascer, me cumprimentou e disse mais ou menos o seguinte:- É o primeiro português que conheço. Sou médico. Os meus antepassados foram expulsos de Portugal, mais concretamente de Lisboa. Fiquei de boca aberta! O medo dissipou-se e a curiosidade aumentou em proporção inversa. A conversa continuou com o colega hebreu a fazer imensas perguntas sobre Portugal, país que gostaria imenso de conhecer. Contou-me que os seus pais falavam ladino em casa. Ele, assim como a irmã, já não sabiam falar, mas ainda rezavam nessa língua com os pais. A sua curiosidade em ver um "compatriota" (!) foi tal a ponto de estar ali, sozinho. Com mais atenção, e admiração, vi que tinha um vulgar ar de português. Ele queria conversar. A certo momento contou-me que em casa a família tinha uma velha chave. Os pais guardavam-na com muito carinho; vinha sendo transmitida de geração em geração. Era a chave da casa onde viveram os seus antepassados quando foram expulsos de Portugal. Fiquei sensibilizado com aquela descrição. A chave representou, e, talvez, quem sabe, continua a ser o símbolo da esperança de um dia poderem regressar à sua casa. Uma esperança que se acasala perfeitamente com a atribuição da nacionalidade portuguesa aos descendentes dos expulsos das suas terras.
Não sei se os pais ainda são vivos. Não sei se o médico israelita vai ter conhecimento desta decisão do governo português, mas se tiver quase que tenho a certeza de que a irá solicitar. Não é em vão que se guarda durante centenas de anos a chave da casa de onde foram expulsos.
Interessante poder sentir a força da "nacionalidade" séculos depois da ignomínia da expulsão.
Sefarad. A eterna Sefarad.
Estado garante 50% das necessidades de financiamento de 2015...dá que pensar...
- Foi ontem e é hoje notícia de (merecido) destaque a emissão JUMBO de dívida pública portuguesa, num montante de € 5,5 mil milhões, com a particularidade de € 2 mil milhões terem sido emitidos ao prazo de 30 anos…
- As condições destas emissões reflectem a continuação de um ambiente muito favorável no mercado de dívida, que nem a “ameaça” (certo que cada vez mais suave, ao que se vai sabendo) do SYRIZA consegue perturbar:
- Ao prazo de 10 anos, foram colocados € 3,5 mil milhões,
com taxa de juro média da colocação de 2,92%;
- Ao prazo de 30 anos, foram colocados € 2 mil milhões,
taxa média de colocação de 4,131%;
- Procura global para as duas linhas: € 14 mil milhões,
segundo as notícias, com peso elevado de investidores estrangeiros.
3. Não podendo deixar de enaltecer a
qualidade do trabalho dos responsáveis pela colocação de dívida pública, IGCP
em particular, bem como de reconhecer que, afinal, apesar das milhentas vozes
em contrário, a dita “austeridade” parece não ter sido 100% em vão….
4. …não posso deixar de, neste contexto,
colocar duas breves reflexões/angustias…
5. A primeira, quanto a saber se o País vai ser capaz de preservar o
crédito que conseguiu ganhar/recuperar junto dos mercados financeiros ou se,
pelo contrário, embalado por estas aparentes facilidades e na convicção
infantil de que tudo está assegurado (tal como na altura gloriosa da entrada no
Euro, ainda se lembram?), vai regressar, sobretudo a partir do próximo Outono,
a fazer “vida de rico”, gastando os recursos que não tem…
6. A segunda, para lamentar que
exista uma distância abissal entre as condições de financiamento do Estado/SPA e as que estão disponíveis para o sector privado, Famílias e Empresas
que (com excepçãodas poucas que têm acesso directo ao mercado de capitais) têm
muito que penar para conseguir os recursos financeiros de que carecem.
7. Este contraste é tanto mais
chocante quanto é certo que deve ser atribuído ao enorme esforço das Famílias e
das Empresas uma grande parte do crédito que o Estado recuperou junto dos
mercados – recordemos, em especial, o enorme agravamento da carga fiscal…
8…e também deve ser lembrado que foi graças àquele
enorme esforço que o País conseguiu inverter o gigantesco desequilíbrio externo
de mais de 15 anos (que o afundou em dívidas), transformando-o, em apenas 3 anos,
num superavit apreciável, como aqui temos anotado, inversão que muito
contribuiu para a recuperação da confiança dos mercados.
9. Em conclusão, não há mesmo justiça
neste Mundo!
Acertar o passo
As notícias dão como certo que, na sequência da iniciativa diplomática protagonizada pelo ministro dos negócios estrangeiros, caminham para a normalização as relações entre Portugal e Angola, abaladas, nos últimos tempos, mais pela inabilidade na resolução de questões que sempre ocorrem na relação entre Estados soberanos (e, naturalmente, no confronto - ainda que implícito - entre duas sociedades que, queiramos ou não, se regem por princípios e valores diferentes), do que pela gravidade dessas questões.
O Dr. Rui Machete parece, finalmente, ter acertado o passo. E bem precisado andava o ministro do reconhecimento da sua competência. Não por causa da reputação do ministro, mas porque o descrédito de um dos protagonistas principais da diplomacia nacional fazia correr o risco de defenestração do capital que Portugal detém na relação com os Estados da lusofonia e não só.
À margem disto, que é o mais relevante, demonstra-se que a ação do MNE se deve pautar pela discrição, evitando declarações "pouco diplomáticas" ou que assim possam ser entendidas no plano externo, mas também que deem aso no plano interno - como no passado recente deram - a uma oposição facilitada pelo equívoco.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
De vez em quando tiro o chapéu
António Ramalho, o presidente da Estradas de Portugal e da REFER reconheceu publicamente que foi errada a opção pela colocação de pórticos nas autoestradas que nasceram com a promessa de não terem custos para os utilizadores. Uma solução que, além do caos que está a provocar porque não tem associado um sistema racional alternativo de cobrança, significa, do ponto de vista funcional, um inegável retrocesso tecnológico em contraste com o caráter pioneiro do sistema de via verde (que, como se sabe, criámos e exportámos)
Fica muito bem o reconhecimento do erro sem subterfúgios (ainda que ele se meta pelos olhos dentro desde o dia em que alguém teve a brilhante ideia de implantar o quase absurdo). Mas é sobretudo de louvar a sensatez da mensagem. Com efeito, a pressa é sempre inimiga da boa solução. Vai sendo raro nos gestores da coisa pública este registo de prudência e sensatez...
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Nos 800 anos da Magna Carta e 39 de afirmação do Estado de Direito português
O contribuinte atrasou-se no pagamento do Imposto Único de Circulação (IUC) de uma moto que tinha adquirido dias antes. O imposto correspondia a 5,5,euros que pagou um ou dois dias depois do limite do prazo. Poucos meses depois é notificado pela Autoridade Tributária (AT) para, querendo, apresentar defesa ou pagar antecipadamente o valor da coima devida pela contraordenação que constitui o atraso. Montante da coima, 50 euros; montante das custas, 38,25 euros. 88,25 euros para não se dar ao trabalho de se defender, quase 17 vezes o montante do imposto devido. Pormenor relevante: a circunstância de a AT se apresentar magnânima a cobrar a coima pelo mínimo legal.
Entre o Natal e o Ano Novo, o contribuinte decide-se ir ao balcão do serviço de finanças tentar convencer algum funcionário do absurdo da situação com que o Fisco o confrontou. Mas o funcionário limita-se a comunicar que já tinha passado o prazo para a defesa ou para pagamento voluntário e antecipado, pelo que aguardasse por nova notificação, agora de aplicação efetiva da coima, acrescida de novas custas. Não teve de esperar muito pela anunciada notificação. Nela se recordava que o imposto devido era de 5,5 euros, que o contribuinte se tinha atrasado no seu pagamento, que a coima se mantinha em 50 euros, e que as custas do processo passavam a ser de ... 76,50 euros. E por isso, uma de duas, ou pagava já o correspondente a 25 vezes o montante do imposto que de resto tinha prestado, ou recorria para tribunal, pagando aí as despesas judiciais, a que acresceriam as de representação, sem garantia de lhe ser reconhecido o direito a não prestar o que não tem qualquer fundamento racional e só se explica pelo evidente propósito de saque.
Deixo aqui este exemplo da vida real, vivido por muitos milhares de contribuintes cumpridores. Poderia ser com o incauto automobilista que se esqueceu de pagar uns cêntimos da portagem virtual que passou sem identificador e que mais tarde viu transformarem-se em centenas de euros num processo de execução fiscal onde a defesa mais limitada está. Exemplos entre muitos que poderiam ser dados para ilustrar o verdadeiro retrocesso na relação do Estado com o cidadão, decorrente do processo de agressão fiscal há muito em curso, sem que os valores fundamentais da justiça e da proporcionalidade sensibilizem quem enche todos os dias a boca com o Estado de Direito.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Poderes soberanos ou soberana cobardia?
“…A TVI,
aparentemente, não respeitou a lei (ao emitir a entrevista a Sócrates), mas
respeitou os seus espectadores e o interesse público...”
Nuno Santos,
ex-Director de Informação da RTP em artigo no DN de 4 de Janeiro, A TVI e a
entrevista a Sócrates
A frase
transcrita traduz de forma explícita o poder que a comunicação social se arroga
de definir o interesse público, acima e para além da lei. Num Estado
democrático respeitar o interesse público é respeitar a lei, já que é esta que
vela pelo interesse geral e este é definido pelo poder soberano, que deriva da
vontade popular expressa em votos nas eleições.
Repare-se
que Nuno Santos não é um jornalista qualquer, foi Director de Informação da
RTP, serviço público de televisão. Que assim advoga a desobediência à lei, com
fins que é o seu próprio critério jornalístico a definir. Aliás, doutrina seguida
pela generalidade das chefias jornalísticas, em que a lei são eles que a
definem, o interesse público são eles que o delimitam e interpretam.
Uma
verdadeira usurpação de poderes, numa situação de absoluta ilegitimidade. Com
a complacência dos poderes soberanos, por temor de represálias ou por tráfico de favores e imagem.
Poderes soberanos ou soberana cobardia?
Nos 800 anos da Magna Carta
Em 2015 passam 800 anos desde a assinatura da Magna Carta por João Sem Terra.
A Magna Carta constituiu um momento fundamental da história ocidental por ser o compromisso percursor do constitucionalismo, influenciando muitos anos mais tarde a construção de sistemas políticos assentes na ideia da limitação do poder, afinal a sua pedra basilar.
No presente, vale a pena recordar o que em 1215 foi assumido pelo poder até então absoluto, no que respeita aos direitos dos súbditos e à administração da Justiça, proclamando o direito fundamental ao due process of law. Em tradução livre do artigo 39.º:
- "Ninguém será preso, capturado, privado da sua propriedade, considerado fora da lei, exilado ou de alguma maneira aniquilado, nem agiremos ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares ou em cumprimento da lei da terra".
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
TGV: ainda na estaca zero, já acumula € 152,9 milhões...
- É notícia de hoje e a fonte, fidedigna, é o T. Contas: mesmo sem ter sido concretizado, o projecto do TGV já custou ao Estado (leia-se, a nós), a simpática quantia de € 152,9 milhões, em estudos e projectos naturalmente…
- Para muitos "opinion-makers" e formadores do Povo, esta é uma forma de promover o desenvolvimento – o crescimento e o emprego - “investindo” fundos públicos em obras sem qualquer retorno ou de retorno garantidamente negativo, mas que não obstante essa nota negativa, se justificam em atenção à sua dimensão estratégica…
- Pela minha parte, continuo a pensar que, não havendo retorno ou, pior ainda, havendo um retorno negativo, traduzido em encargos que se perpetuam onerando indefinidamente as contas públicas e tornando cada vez mais rígida a gestão orçamental, este tipo de “investimentos” não produz nem crescimento ( a não ser de forma efémera, na fase de execução) nem emprego…pelo contrário, a prazo acaba por contribuir para a destruição de ambos.
- …e também penso que o étimo “estratégico” constitui um óptimo argumento para iludir cidadãos indefesos, levando-os a acreditar nas vantagens de obras faraónicas, altamente consumidoras de capital…
- Mas tenho de reconhecer que este meu raciocínio é marcadamente neo-liberal e que o País se prepara para por um ponto final neste tipo de raciocínios, apostando novamente em iniciativas de tipo estratégico, rumo a um futuro radioso…
domingo, 4 de janeiro de 2015
Honestidade e verdade: um mundo virtual?
Interessante uma reflexão em torno do tema “Virtudes e defeitos. Onde começa a tentação acaba a honestidade”. Segundo os especialistas ninguém é totalmente honesto ou totalmente desonesto. Mas algumas pessoas são mais sérias do que outras. Tenho para mim que a honestidade não é graduável. As pessoas ou são sérias ou não são. Podem, sim, em face das circunstâncias cometer alguns desvios. Mas concordo plenamente que a educação é um factor fundamental de regulação dos comportamentos, que estabelece a diferença entre o bem e o mal e que define barreiras entre um mundo e o outro. A educação “cívica” assente em valores éticos e morais é essencial. Mas não chega, embora seja ela própria fundamental para criar instituições sólidas, como é o caso da lei e da justiça. Sólidas no sentido de os cidadãos reconhecerem nelas instrumentos necessários e eficazes e de as respeitarem, seja porque a lei tem a medida certa para prevenir e punir a infracção, seja porque a justiça é célere na aplicação. A culpa e a vergonha por comportamentos que a sociedade condena, não apenas à face da lei mas também tendo por referencial códigos de conduta éticos e morais, são dois efeitos dissuasores da desonestidade e da mentira que aproveita benefícios indevidos e prejudica terceiros. Mas haverá sempre ocasiões que fazem o ladrão, haverá sempre quem julgue que poderá enganar os outros, aproveitando barreiras mal vigiadas ou crises de valores ou institucionais, ou que se ache no direito de recorrer à mentira ou de fabricar a sua verdade, fazendo da mentira por repetidas vezes utilizada a verdade ou defendendo a verdade que lhe convém...
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Mensagem de fim de ano do PR . - a minha fundamental discordância
Digam o que disserem, é ainda a palavra do Presidente da República a escutada pela maioria dos portugueses. Na habitual mensagem de mudança de ano, o PR é normalmente contido no discurso, ainda que se perceba que a intensidade é determinada pela posição institucional do Chefe do Estado. Compreendo, pois, que o Prof. Cavaco Silva transmita menos do que queira, transmita diferente do que será porventura a sua convicção de político experimentado, ou que transmita o que quer transmitir no tom imposto pelas funções que exerce. Ouço sempre o PR tomando em consideração estas condicionantes que se colocam a quem sei que não é inteiramente livre de dizer o que pensa.
Na última mensagem presidencial entendeu o Prof. Cavaco Silva referir-se a um tema que poderia ter contornado (como têm feito as principais figuras do Estado) e fez uma afirmação banal. Banal, tornou-se a afirmação de que "os partidos políticos são essenciais para a qualidade da democracia e para a expressão do pluralismo de opiniões". Ninguém contestará que assim é, em tese, nas sociedades que escolheram a democracia representativa como modelo político. Esta afirmação é feita no contexto da condenação do populismo, dizendo que "devemos recusar o populismo e fazer um esforço de pedagogia democrática". Ora, a meu ver a conjugação da quase banalidade com o apelo ao combate ao populismo crescente faz fracassar o discurso. E faz fracassar o discurso porque ignora que na raiz dos populismos (orgânicos e inorgânicos) estão justamente os partidos políticos que temos. Quer pelas derivas demagógicas que fomentam no seu seio, quer pelo descrédito feito de tudo quanto de negativo se aponta à sua ação e à conduta dos seus dirigentes.
Sei bem que, demonstrando consciência disso, o PR também disse que "esse esforço de pedagogia democrática só pode ser feito através da força do exemplo"; que "os partidos e os agentes políticos têm de demonstrar, pela sua conduta, que são um exemplo de transparência, de responsabilidade e de civismo para os Portugueses". Mesmo descontando os condicionalismos que se colocam à exteriorização do pensamento do PR, distancio-me desta fé na república que temos, já que se trata de visão descolada da realidade e os portugueses merecem que não seja a virtualidade a comandar o discurso das principais figuras do Estado. Ora, a realidade demonstra impiedosamente que, com os atuais partidos políticos, diria mesmo, com o atual sistema partidário, não é possível suster o compreensível descrédito das formações partidárias, a compreensível falta de confiança pública no que propõem os seus dirigentes, nem tão pouco recuperar o prestígio perdido das instituições representativas.
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