
Uma notícia sobre o I Simpósio Ibérico sobre Hipnose Experimental, realizado em Coimbra, descreve uma entrevista efectuada a um especialista norte-americano, Irving Kirchs, da Universidade de Connecticut. Segundo este investigador “a diferença entre os efeitos de um antidepressivo e o efeito placebo é tão pequena que não chega a ter significado clínico”! É certo que o placebo é o “medicamento” mais poderoso que existe, mas daí a chegar àquela conclusão é de desconfiar, até, porque chega a salientar a existência de muitas alternativas à terapia medicamentosa como “o exercício físico, a psicoterapia ou a erva de São João” (vulgo hipericão). Parece-me que quer “vender” a hipnose. Que o faça, mas não à custa de afirmações que ponham em causa o efeito dos antidepressivos. O próprio organizador do simpósio é autor de um livro denominado “A depressão não é uma doença”. Se estiver a referir-se ao famoso “touch of depression”, aceito. Mas as depressões graves existem, e são cada vez mais frequentes e invalidantes, com todas as repercussões pessoais, familiares e sociais.
Esta notícia pode ter impacto em muitas pessoas influenciando-as ao ponto de poderem deixar as suas terapêuticas.
Este comportamento e observações fez-me recordar o célebre cavalo “Clever Hans”.
Como os efeitos esperados de um investigador, pode influenciar os resultados mesmo nos estudos duplamente cegos.
No princípio do século XX, um cavalo tornou-se famoso, devido ao facto de “saber” contar e “efectuar” as diferentes operações académicas. Foi motivo de vários espectáculos e espantou todos quantos assistiam a este fabuloso espectáculo. No entanto, este notável cavalo só podia efectuar as suas façanhas apenas em frente do seu treinador, um professor reformado. Mas, afinal, qual a explicação para tão interessante fenómeno? Ninguém conseguia ver nada! Como é que o treinador transmitia os dados ao cavalo? Ninguém foi capaz de detectar as instruções. Tratava-se de um precioso exercício de ilusionismo. O que é certo é que o treinador conseguia enviar para o cavalo de uma forma subliminar as soluções. E a seguir a pata do animal dava o resultado!
Um placebo pode aumentar e diminuir a dor? Pode. Se for efectuado um estudo duplamente cego, utilizando uma substância capaz de aumentar as endorfinas cerebrais e um placebo e se os doentes forem instruídos no sentido de se sujeitarem a um estudo com o objectivo de diminuir as dores, verificaremos que ambos os produtos terão um efeito esperado. Mas se os doentes forem instruídos no sentido de se sujeitarem a um estudo duplamente cego, com o objectivo de estudar as consequências de aumento da dor (agora no sentido oposto ao anterior) iremos verificar aumento das dores nos dois grupos, o sujeito à droga activa e ao placebo. Este conceito ilustra o efeito do fenómeno Clever Hans. Fenómeno muito pouco estudado nos estudos duplamente cegos. Um placebo pode em certas circunstâncias aumentar ou diminuir a dor, dependendo das expectativas do investigador. Skrabanek cita este exemplo, focando as experiências de Gracely e os seus estudos na dor após extracção dentária.
Sendo assim, torna-se imperioso controlar este aspecto, de forma a não falsear ou desvirtuar as consequências de uma experiência. Ainda de acordo com a análise daquele autor, é possível quantificar efeitos positivos muito importantes em situações de aplicação de medicamentos activos e placebo, mesmo em situações graves, como é o caso do enfarte do miocárdio. Os resultados obtidos são praticamente idênticos em médicos e nos doentes! E porquê? Porque se transmite a informação de que a administração dos produtos tem como objectivo melhorar a qualidade de vida. E os resultados são por vezes muito semelhantes quer no grupo do placebo, quer no grupo do fármaco activo. Claro que em situações em que o “outcome” não depende da subjectividade do investigado, as diferenças são mais acentuadas. No entanto, não podemos esquecer que muitos dos “outcomes” em investigação clínica baseiam-se em informações de carácter subjectivo, o que é perfeitamente normal, já que uma das principais expectativas por parte dos doentes é sentirem-se melhores e, quanto a este último aspecto, não vejo alternativas superiores para a medição do que uma apreciação pessoal, não obstante a realidade poder ser substancialmente diferente e até eventualmente muito grave. De qualquer modo temos de estar atentos a estes aspectos mesmo que sejam subliminares, já que poderemos receber informações ou soluções apontadas pelos responsáveis pelo projecto.
Não somos cavalos bem treinados, mas somos muito sensíveis a diferentes tipos de informação, os quais se não forem estudados convenientemente irão irremediavelmente influenciar os resultados no final da investigação, com todas as consequências daí resultantes, o que é manifestamente óbvio.
A explicação para o fenómeno foi dada por um psicologista de Berlim, o qual provou que o cavalo não dava uma resposta certa se estivesse sozinho. O cavalo conseguia detectar movimentos mínimos ou a “tensão” das pessoas quando se aproximava do resultado correcto.
Clever Hans era um cavalo árabe oriundo da Rússia. Wilhelm von Ossten comprou-o em 1900. Von Osten era um professor reformado que acreditava na inteligência dos animais. Passou longos períodos a treinar o seu cavalo, a fim de provar a sua tese. De todos os animais que tentou treinar, só Hans é que “revelava” inclinações para a matemática!
Von Hosten ensinou o cavalo a contar até nove. Perante um quadro, tapava com a pata os resultados referentes a diferentes cálculos, inclusive raízes quadradas. Os observadores não conseguiam detectar nenhum truque. Eminentes matemáticos chegaram à conclusão de que o cavalo tinha uma capacidade matemática de um estudante de 14 anos!

Não estando em causa qualquer juízo médico sobre o caso, vindo de novo a público, da funcionária pública da Junta de Vitorino de Piães de Ponte de Lima – Ana Maria Brandão – e não me sentido capturada por um qualquer sentimento de pena, não posso deixar de ser sensível à dimensão humana deste caso e de me interrogar sobre os critérios seguidos pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) nas decisões que determinam (ou não) a reforma antecipada perante um determinado quadro clínico.




