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sábado, 1 de dezembro de 2007

”Fenómeno Clever Hans”…


Uma notícia sobre o I Simpósio Ibérico sobre Hipnose Experimental, realizado em Coimbra, descreve uma entrevista efectuada a um especialista norte-americano, Irving Kirchs, da Universidade de Connecticut. Segundo este investigador “a diferença entre os efeitos de um antidepressivo e o efeito placebo é tão pequena que não chega a ter significado clínico”! É certo que o placebo é o “medicamento” mais poderoso que existe, mas daí a chegar àquela conclusão é de desconfiar, até, porque chega a salientar a existência de muitas alternativas à terapia medicamentosa como “o exercício físico, a psicoterapia ou a erva de São João” (vulgo hipericão). Parece-me que quer “vender” a hipnose. Que o faça, mas não à custa de afirmações que ponham em causa o efeito dos antidepressivos. O próprio organizador do simpósio é autor de um livro denominado “A depressão não é uma doença”. Se estiver a referir-se ao famoso “touch of depression”, aceito. Mas as depressões graves existem, e são cada vez mais frequentes e invalidantes, com todas as repercussões pessoais, familiares e sociais.
Esta notícia pode ter impacto em muitas pessoas influenciando-as ao ponto de poderem deixar as suas terapêuticas.
Este comportamento e observações fez-me recordar o célebre cavalo “Clever Hans”.

Como os efeitos esperados de um investigador, pode influenciar os resultados mesmo nos estudos duplamente cegos.

No princípio do século XX, um cavalo tornou-se famoso, devido ao facto de “saber” contar e “efectuar” as diferentes operações académicas. Foi motivo de vários espectáculos e espantou todos quantos assistiam a este fabuloso espectáculo. No entanto, este notável cavalo só podia efectuar as suas façanhas apenas em frente do seu treinador, um professor reformado. Mas, afinal, qual a explicação para tão interessante fenómeno? Ninguém conseguia ver nada! Como é que o treinador transmitia os dados ao cavalo? Ninguém foi capaz de detectar as instruções. Tratava-se de um precioso exercício de ilusionismo. O que é certo é que o treinador conseguia enviar para o cavalo de uma forma subliminar as soluções. E a seguir a pata do animal dava o resultado!
Um placebo pode aumentar e diminuir a dor? Pode. Se for efectuado um estudo duplamente cego, utilizando uma substância capaz de aumentar as endorfinas cerebrais e um placebo e se os doentes forem instruídos no sentido de se sujeitarem a um estudo com o objectivo de diminuir as dores, verificaremos que ambos os produtos terão um efeito esperado. Mas se os doentes forem instruídos no sentido de se sujeitarem a um estudo duplamente cego, com o objectivo de estudar as consequências de aumento da dor (agora no sentido oposto ao anterior) iremos verificar aumento das dores nos dois grupos, o sujeito à droga activa e ao placebo. Este conceito ilustra o efeito do fenómeno Clever Hans. Fenómeno muito pouco estudado nos estudos duplamente cegos. Um placebo pode em certas circunstâncias aumentar ou diminuir a dor, dependendo das expectativas do investigador. Skrabanek cita este exemplo, focando as experiências de Gracely e os seus estudos na dor após extracção dentária.
Sendo assim, torna-se imperioso controlar este aspecto, de forma a não falsear ou desvirtuar as consequências de uma experiência. Ainda de acordo com a análise daquele autor, é possível quantificar efeitos positivos muito importantes em situações de aplicação de medicamentos activos e placebo, mesmo em situações graves, como é o caso do enfarte do miocárdio. Os resultados obtidos são praticamente idênticos em médicos e nos doentes! E porquê? Porque se transmite a informação de que a administração dos produtos tem como objectivo melhorar a qualidade de vida. E os resultados são por vezes muito semelhantes quer no grupo do placebo, quer no grupo do fármaco activo. Claro que em situações em que o “outcome” não depende da subjectividade do investigado, as diferenças são mais acentuadas. No entanto, não podemos esquecer que muitos dos “outcomes” em investigação clínica baseiam-se em informações de carácter subjectivo, o que é perfeitamente normal, já que uma das principais expectativas por parte dos doentes é sentirem-se melhores e, quanto a este último aspecto, não vejo alternativas superiores para a medição do que uma apreciação pessoal, não obstante a realidade poder ser substancialmente diferente e até eventualmente muito grave. De qualquer modo temos de estar atentos a estes aspectos mesmo que sejam subliminares, já que poderemos receber informações ou soluções apontadas pelos responsáveis pelo projecto.
Não somos cavalos bem treinados, mas somos muito sensíveis a diferentes tipos de informação, os quais se não forem estudados convenientemente irão irremediavelmente influenciar os resultados no final da investigação, com todas as consequências daí resultantes, o que é manifestamente óbvio.
A explicação para o fenómeno foi dada por um psicologista de Berlim, o qual provou que o cavalo não dava uma resposta certa se estivesse sozinho. O cavalo conseguia detectar movimentos mínimos ou a “tensão” das pessoas quando se aproximava do resultado correcto.

Clever Hans era um cavalo árabe oriundo da Rússia. Wilhelm von Ossten comprou-o em 1900. Von Osten era um professor reformado que acreditava na inteligência dos animais. Passou longos períodos a treinar o seu cavalo, a fim de provar a sua tese. De todos os animais que tentou treinar, só Hans é que “revelava” inclinações para a matemática!
Von Hosten ensinou o cavalo a contar até nove. Perante um quadro, tapava com a pata os resultados referentes a diferentes cálculos, inclusive raízes quadradas. Os observadores não conseguiam detectar nenhum truque. Eminentes matemáticos chegaram à conclusão de que o cavalo tinha uma capacidade matemática de um estudante de 14 anos!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Uma crise, profunda, de esperança


Faz sentido o Governo ser contestado na rua, a sua acção desencadear greves, mobilizações e manifestações, algumas ruidosas, e no entanto subir nas sondagens?
Ou será que existe uma deficiente percepção da real dimensão da contestação social?
Serão as sondagens e os barómetros um exercício de manipulação da opinião?

Estou convicto que existe um profundo desencanto em relação à situação do País, cada vez mais pobre e desigual; e ao mesmo tempo - sem que isso constitua um paradoxo - uma visível tendência para o PS, o seu líder e o Governo, consolidarem o seu predomínio.
Explico.
Para que a reacção social às políticas do Governo tivesse uma diferente expressão na opinião do eleitorado, era necessário que alguma força da Oposição polarizasse a esperança de políticas diferentes, capazes de inverter o preocupante curso das coisas, que nos arrasta, cada dia que passa, para o grupo dos últimos do pelotão.
Faltando alternativas inteligentes e credíveis que definitivamente assentem na ideia de que só se distribui o que se tem e que por isso é essencial criar riqueza, o Povo sensato pensa que para pior já basta assim...
A crise é, por isso, acima de tudo, uma crise de esperança.
Profunda, muito profunda...

“Levar a carta a Garcia”

As obrigações avolumam-se dia para dia e não têm contemplações com o estado de espírito, disposição, cansaço e até mal-estar. Muitas têm que ser cumpridas porque são relevantes e de elevado interesse cívico.
Perguntam-me, com certa frequência, por que razão aceito tantas tarefas. Nem eu sei responder, quando me apercebo já estou metido nelas até às orelhas. Muitos, pensam, mas mal, que eu retiro proventos dessas actividades. Quando digo que recebo uma senha de presença cujo quantitativo mal dá para os táxis e refeições, além de ter de pagar IRS sobre o mesmo, ficam muito admirados, isto no caso de receber, porque nalgumas nem isso!
Tirando o cansaço, que começo a sentir e que não é bom sinal, confesso que tenho aprendido muito e, de acordo com as minhas capacidades, feito todos os possíveis para “levar a carta a Garcia”.
A expressão “levar a carta a Garcia” é sinal de dever cumprido, como é do conhecimento geral. O que eu não sabia, confesso, era a sua origem.
Hoje, após mais uma reunião do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, tive tempo de sobra, mais de uma hora, o que me permitiu, na Gare do Oriente, vasculhar a exposição de livros que nesta altura do ano já é habitual. Adquiri dois livros. Um do pessimista Schopenhauer, “Sobre o sofrimento do mundo”, e o outro, intitulado “Uma carta para Garcia”, meio escondido entre várias obras, de Elbert Hubbard. Folheei o livro, muito pequeno, e seduziu-me o facto de ir conhecer a história que está na base de uma frase tão usada. No preâmbulo o autor explica como nasceu a obra que foi escrita na noite de 22 de Fevereiro de 1899 em apenas uma hora. O que é certo é que é considerada a segunda obra mundial mais editada a seguir à Bíblia!
A história assenta na guerra entre a Espanha e os Estados Unidos. O presidente dos Estados Unidos queria comunicar com o líder dos rebeldes cubanos, o general Garcia, que se encontrava algures nas montanhas da ilha. Mas como? Alguém lhe disse: “Há um homem chamado Rowan que encontrará Garcia, se é que alguém o pode encontrar”. Rowan pegou na carta, guardou-a numa bolsa impermeável junto ao coração, desembarcou em Cuba, embrenhou-se na selva e três semanas depois apareceu do outro lado da ilha. Rowan, quando recebeu a carta não perguntou: - Onde está Garcia?
“O herói é aquele que faz o seu trabalho, o que leva a carta a Garcia”. “Rowan foi o verdadeiro herói da guerra de Cuba uma vez que tinha ido só e cumprido a sua missão”.
Nunca li um livro tão rapidamente, quinze minutos, de acordo com o relógio da estação, aconchegado sob um delicioso sol outonal. Confesso que nunca aprendi tanto em tão pouco tempo.
Uma edição a não perder e a ofertar a jovens, e a menos jovens, a fim de que hajam cada vez mais pessoas a “levar a carta a Garcia”.
Tantos Garcias por aí à espera de uma carta...

“Uma carta para Garcia” de Elbert Hubbard - Padrões Culturais Editora

Poderá ser tudo, menos normal!

Não estando em causa qualquer juízo médico sobre o caso, vindo de novo a público, da funcionária pública da Junta de Vitorino de Piães de Ponte de Lima – Ana Maria Brandão – e não me sentido capturada por um qualquer sentimento de pena, não posso deixar de ser sensível à dimensão humana deste caso e de me interrogar sobre os critérios seguidos pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) nas decisões que determinam (ou não) a reforma antecipada perante um determinado quadro clínico.
Este caso segue-se a muitos outros que têm deixado incrédula a opinião pública, ao ponto de o Governo vir a terreno manifestar o seu espanto e a sua solidariedade perante a "desumanidade" de algumas das decisões da CGA.
A situação laboral e clínica desta funcionária pública trouxe há tempos a terreiro o próprio Ministro das Finanças - membro do governo que tem a tutela daquele organismo - que determinou que a mesma fosse de novo reavaliada, depois de a junta médica ter concluído que o estado de saúde da funcionária não era suficiente para autorizar a reforma antecipada e ter determinado que se apresentasse ao trabalho.
Segundo as informações divulgadas, que até agora não vi desmentidas, esta mulher está de baixa há três anos por sofrer de lombalgia e cervicalgia degenerativas, doença que terá surgido depois de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica a uma hérnia discal. Esta mulher usa desde então um colar cervical, uma braçadeira no braço direito e uma cinta lombar, “sendo incapaz de realizar tarefas simples do dia a dia”.
Na sequência da referida reavaliação realizada, entretanto, pela junta médica – dando cumprimento às orientações daquele membro do governo – a CGA decretou que “a interessada não se encontra absoluta e permanentemente incapaz para o exercício das suas funções”.
Pergunto: que condições de saúde são necessárias reunir para que esta mulher esteja “absoluta e permanentemente incapaz”?
Pergunto: como é que uma pessoa com as limitações físicas que esta funcionária apresenta pode exercer normalmente as suas funções? Ou será que essas funções foram revistas?
Pergunto: que razões foram invocadas para conceder a esta mulher sucessivas baixas que, entretanto, já acumulam um período de três anos?
Pergunto: a funcionária vai continuar a contar para a estatística do pessoal no activo? Fazendo de conta que trabalha?
Pergunto: a quem interessa esta situação?
Questiono-me se não há aqui uma contradição. Se a funcionária pode exercer as suas funções, então porque é que esteve e está de baixa já lá vão três anos?
Numa situação destas, está previsto algum mecanismo que permita que uma instância médica superior arbitre a decisão da primeira instância?
Este tipo de casos deixam-me sinceramente perplexa e muito pouco tranquila sobre as contradições que nos levam a suspeitar da correcção das decisões destas entidades “burocratas” que mexem com questões essenciais da vida das pessoas e que, quer queiramos quer não, dispõem de muito poder!

Resolução do Conselho de Ministros!...

Considerando:
a) o inalienável direito à greve dos trabalhadores da função pública
b) o grande desígnio e empenho do Governo em sanear as contas públicas e diminuir o défice orçamental, para o que as greves da função pública são um factor decisivo, pela poupança que trazem, quer em remunerações, quer em consumíveis
c) a deficiente formação dos funcionários públicos em matéria de greves, que tem o seu expoente no próprio funcionamento dos gabinetes ministeriais em dias de greve e no facto de os Ministros, na maioria funcionários públicos, comparecerem nesses dias para trabalhar
d) a ineficácia sindical em matéria de greves, que nunca são gerais
e) a irrelevância para os cidadãos das greves da função pública, nomeadamente a educação, pois os alunos já passam sempre, quer saibam, quer não saibam, quer faltem, quer não faltem, ou na justiça, em que uns dias a mais ou a menos são irrelevantes face aos anos que demoram os processos, ou na saúde, em que as acções grevistas não trazem agravamento especial às filas de espera.
e) Salvaguardadas que fiquem, no domínio da saúde, as operações de abortos, já que, estando aquém do esperado, haverá que aproveitar, de imediato, todos os que apareçam para atingir os objectivos inicialmente previstos pelo governo
O Conselho de Ministros, reunido em dia de greve, deliberou criar o Ministério das Greves da Função Pública, com as seguintes funções, a estabelecer em lei orgânica:
-assegurar o funcionamento adequado do sistema de preparação das greves e garantir os mecanismos adequados à plena efectivação das mesmas
-providenciar a adopção de medidas normativas para que, em dia de greve, ninguém compareça nos locais de trabalho, assim como gerir os recursos humanos afectos às greves, nomeadamente através de justos incentivos aos que se distingam na sua preparação e execução
-assegurar a formação de quadros bem preparados para a dinamização das greves, marcando-as para as segundas ou sextas-feiras, ou para "pontes", de forma a maximizar a sua eficácia
-coordenar a actividade grevista com os Sindicatos, de forma a não haver, nunca, coincidência de datas, e promover o recurso à greve através das acções de marketing que se revelem adequadas
Estabelece-se desde já como objectivo mínimo a integrar no Plano de Actividades do Ministério, para o primeiro ano, a efectivação de um dia de greve por mês, implicando a diminuição de 800 milhões de euros no custo com o pessoal, e trazendo um impacto positivo de 0,5% no défice.
Palácio de S. Bento, 30 de Novembro de 2007- José Sócrates

Aprender a dançar


Vi hoje no DN que foi editado um livro em que um jovem conta a sua história depois de ter sofrido um acidente de mota que o deixou tetraplégico. Ainda não li “Ser feliz Assim”, mas ouvi há bem pouco tempo uma jovem que dá aulas de dança oriental na Holanda contar que lhe pediram para ir ensaiar uma coreografia com algumas raparigas que queriam apresentar uma dança no dia do casamento de uma amiga. Entre as amigas na noiva estava uma jovem que sofre de atrofia muscular, tem 21 anos e só se desloca em cadeira de rodas, os braços são tão curtos que não consegue cortar a carne ou levar um copo à boca. O ensaio foi um sucesso, muito abrilhantado pela participação dessa jovem deficiente, que fazia rodopiar a cadeira de rodas ao ritmo que as outras moviam as ancas, os véus coloridos tapavam-lhe os bracitos curtos e com ele escondia a deformidade, tirando proveito dos movimentos com uma alegria contagiante.
O êxito foi tão grande que procuraram de novo a “professora”, desta vez com um pequeno grupo de outras jovens deficientes que não se consideram inibidas de participar nesses pequenos prazeres da vida. Fizeram então a análise da simetria do corpo: os ombros mexem em paralelo com as ancas, os braços com as pernas, a cabeça acentua a graciosidade dos movimentos e um sorriso, um largo sorriso, dá o tom geral à dança. Todas concordaram que o sorriso é que não tinha sucedâneo.
E assim, um pequeno grupo em cadeira de rodas e uma jovem entusiasta das danças orientais, passam umas horas bem animadas, à mistura com muitas gargalhadas quando falham e muitas palmas quando uma supera as suas dificuldades. Fazem competição nas roupas que inventam para acentuar o exotismo das danças e são muito críticas quando a coreografia lhes parece fácil. No fim da sessão, juntam-se os namorados e vão todos ao café conversar e planear os dias seguintes.Foi à saída de uma dessas sessões que a rapariga com atrofia muscular comentou com toda a simplicidade: - “Sabes, a vida é maravilhosa. É tão fácil sentirmo-nos felizes!"

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Profissão e risco de morrer

É do conhecimento geral que certos factores e circunstâncias são determinantes para explicar as diferenças verificadas nos riscos de adoecer e de morrer. As discrepâncias existem, sendo por vezes muito marcadas.
Os pertencentes aos estratos sociais e culturais mais elevados vivem mais e adoecem menos dos que estão nos opostos. Seria conveniente que quando se procedesse à análise de certas taxas, estas deveriam ter em conta os tais “factores” e “circunstâncias”. Deste modo, a dinâmica dos fenómenos revelaria a sua verdadeira faceta, ou seja, a uma diminuição da taxa de mortalidade por uma determinada doença poderia corresponder em certos grupos, habitualmente os mais desfavorecidos, a um aumento efectivo da mesma.
Esta pequena reflexão surgiu na sequência de um trabalho em que foi demonstrado que os profissionais manuais correm mais riscos de morrer do que os executivos.
A Grã-Bretanha tem sido palco de muitos estudos nesta área e o mais recente revela que os trabalhadores de profissões rotineiras correm três vezes mais risco de morrer por volta dos 64 anos do que os “grandes” executivos. Os profissionais liberais também apresentam taxas de mortalidade baixas mas mais elevadas do que os dirigentes.
Tudo aponta para que não seja a profissão em si o responsável pelas diferenças. As principais causas de morte neste grupo etário são os acidentes, a violência e o suicídio os quais estão associados à remuneração e à forma como é valorizada a actividade. Um trabalho bem pago, mais prestigiado, com elevada capacidade de decisão corresponde a menos violência, no seu sentido mais amplo.
Dentre da escala apresentada os carteiros e seguranças ocupam o penúltimo lugar. É curioso verificar que os trabalhadores autónomos como donos de lojas e pedreiros correm menos riscos do que os trabalhadores já referidos. Estes últimos são muito bem pagos no Reino Unido ao ponto de ganharem tanto como os médicos e outros profissionais liberais e por isso dotados das tais “características” protectoras.
Seria interessante analisar em Portugal o que é que acontece com o risco de adoecer e morrer em função do tipo de actividade/profissão.
Claro que agora “compreendemos” porque é que tantos querem ocupar elevados cargos na administração pública ou privada. No fundo querem fazer “prevenção”, querem ser mais saudáveis e morrer o mais tarde possível! Aspiração legítima! A minha curiosidade estender-se-ia também aos “vigaristas”, “corruptos” e “quejandos”. Poderia colocar a hipótese de que estes grupos “profissionais”, tendo uma capacidade de decisão ilimitada, elevada autonomia e uma “natural” violência, deverão viver muito mais do que os restantes, sobretudo os “grandes executivos”. Também seria interessante saber qual o peso na mortalidade dos portugueses, de acordo com as actividades profissionais, provocado pelas acções, comportamentos e atitudes dos diversos agentes ao serviço da política, da justiça, do fisco, da segurança e da comunicação social, a par de outros factores já conhecidos. Sempre seria um contributo para, eventualmente, reduzir o risco de adoecer e morrer em Portugal.

Contas do Serviço Nacional de Saúde(SNS) em 2006

Em diversos Posts editados ao longo do corrente ano procurei chamar a atenção para o facto de as contas do SNS, tal como são apresentadas no Orçamento do Estado (OE) não evidenciarem a situação real do sector.
Seria sempre necessário, para se ter uma noção mais exacta das contas do sector, conhecer as contas dos hospitais, tanto dos EPE’s como dos SPA, pois um eventual aumento do endividamento/prejuízos destes seria sempre uma forma habilidosa (i) de encobrimento da real situação do SNS e também, por reflexo, (ii) de desorçamentação de despesas pura e dura.
O relatório recentíssimo do Tribunal de Contas (TC) sobre as contas do SNS vem por em evidência a total pertinência da questão.
Vou-me limitar a referir alguns excertos do relatório do TC:
1) A situação económica global das entidades que integravam o SNS em 2006 reflecte um agravamento tanto dos resultados operacionais como dos resultados líquidos, os quais atingiram - € 294,5 milhões e - € 284,8 milhões, respectivamente.
2) O agravamento mais significativo dos resultados líquidos, de 2005 para 2006, verificou-se no conjunto dos Hospitais do Sector Empresarial do Estado (SEE) sem que tenham sido esclarecidas as principais causas que terão contribuído para tão elevada variação do resultado líquido agregado.
3) Na situação financeira das entidades do Sector Público Administrativo (com relevo para os Hospitais Públicos, não EPE) o saldo financeiro do exercício apresentou valores negativos em 2006, verificando-se a passagem de positivo em 2005 (cerca de € 51 milhões) a negativo em 2006 (cerca de € 273 milhões) justificado, em grande parte, pela descida das transferências correntes obtidas – a famosa poupança orçamental proclamada pelo Ministro da pasta, agora percebe-se como foi conseguida... Quase € 325 milhões de desvio...
4) Quanto ao saldo financeiro acumulado do SNS, o qual já apresentava em 2005 valores negativos (- € 744 milhões), agravou-se em 2006 cerca de 31% (- € 978 milhões).
5) Relativamente aos hospitais SPA, verifica-se que se encontram a acumular défices que em 2006 já atingem € 464 milhões.
6) Em Dezembro de 2006, as dívidas do SNS ascendiam a € 1.989,4 milhões segundo o IGIF, sendo bastante mais elevado o montante apurado pelo TC: € 2.214,7 milhões.
7) O maior volume de dívidas do SNS concentra-se nos fornecedores externos, representando 82,7% da dívida total em 2005 e 84% em 2006.
8) O endividamento mais significativo ocorreu no grupo dos Hospitais EPE, verificando-se uma tendência crescente, em todas as entidades.
9) No SPA constatou-se um agravamento do prazo médio de pagamento a fornecedores, que no caso dos Hospitais SPA passou de 3,7 meses em 2005 para 6,7 meses em 2006.
10) Quanto aos Hospitais EPE, apurou-se em 2006 uma dívida total que supera em 51,9% a dívida do ano anterior (€ 557,1 milhões para € 846,5 milhões), sendo ainda mais elevado o valor da dívida apurada pelo TC: € 1.047 milhões.
11) A dívida dos Hospitais EPE a fornecedores externos, a maior fatia (mais de 90%) do total, aumentou 49,3% em 2006.

Palavras, para quê? É este o sucesso da gestão orçamental na área da saúde? Para que serviu a final a encenação do défice de 6,83% em 2005?
Estamos hoje pior que no ponto de partida, infelizmente para todos nós.

Os burocratas iluminados e os atrasados mentais!...

Servindo mal os cidadãos, muitos serviços públicos, nacionais e comunitários, ainda nos tratam, ou impõem que nos tratem, como verdadeiros atrasados mentais. É o caso daquelas alminhas do Serviço de Protecção Civil, que nos mandam agasalhar, quando está frio, vestir roupa leve, quando está calor, ou usar guarda-chuva, quando chove. Mas os exemplos multiplicam-se.
No passado fim-de-semana, ao tomar o pequeno-almoço num hotel do Porto, deparei com um aviso na torradeira, em português e inglês: CUIDADO, PODE QUEIMAR-SE. Ao que me disseram, é obrigatório o Aviso!...
Ontem, numa oficina, e enquanto esperava, distraí-me a olhar, com alguma atenção, o livro de instruções do meu carro: um enorme calhamaço, talvez tão grande como a Constituição, 480 páginas, formato 18 x 14 cm!... Fiquei espantado: praticamente todas as páginas incluíam conselhos, sinais vermelhos de advertência e de perigos de acidentes vários... A acreditar, o meu carro era uma verdadeira máquina de espalhar terror!...
Segundo o Manual, utilizar o carro, mesmo antes de o colocar em marcha, traz perigos iminentes. Daí os alertas, bem a vermelho, para o perigo de entalar os dedos, ao fechar a porta, ou de ferimentos, ao ajustar o banco. Apenas dois exemplos de uma numerosa lista!...
E se tiver ousados acompanhantes, eles nem sonham as armadilhas e perigos que os espreitam, o menor dos quais é poderem ficar com o pescoço entalado, se fechar o vidro sem pré-aviso. Se tiver amigos distraidamente a conversar cá fora, sou alertado para a enorme probabilidade de ficarem entalados, se fechar rapidamente a mala. Também me dizem que não devo ainda deixar a chave no carro, sobretudo quando nele estão crianças. Ah! E que o transporte de pessoas deve ser feito apenas nos bancos!... E que, antes de iniciar a viagem, devo libertar todos os vidros de neve, porque prejudicam a visão. Temendo ainda pela minha saúde, avisam-me que devo pegar no isqueiro apenas pelo botão, pois, de contrário, posso queimar-me!...Por fim, dizem-me que não devo substituir uma roda senão por outra de tamanho igual!...
Quando tive o carro pronto, e mostrando-lhe o livro, resolvi perguntar ao Director se era actividade lícita colocar carros assim perigosos nas mãos dos clientes.
Normas da CE, Sr. Dr. Pinho Cardão. E, por outro, o fabricante não pode correr riscos, respondeu-me!...
Pensei então que, nunca como agora, centenas de milhares de carros recolhem anualmente às oficinas, para substituição de peças com defeitos de fabrico, resultante das reduções drásticas de custos que os fabricantes impõem aos fornecedores, prejudicando a qualidade e podendo provocar, aqui sim, acidentes muito graves!...
No entanto, os fabricantes, bem ajudados pelas bem iluminadas burocracias comunitária e nacional, preocupam-se com o facto de eu, atrasado mental, poder chamuscar o dedo, por não saber pegar no isqueiro!...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Um comportamento inaceitável e um repto ao SEAF

Na passada semana, o Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (SEAF), Amaral Tomás, de quem tenho uma impressão positiva, fez declarações que, do meu ponto de vista, e vindas de um Governante, são absolutamente inaceitáveis. Direi mesmo mais: intoleráveis.

E que disse o SEAF? Basicamente, que é “perfeitamente inquestionável” que “em Portugal há grandes empresas que fazem fraude fiscal”, tendo ainda acrescentado o problema do branqueamento de capitais. E sublinhou ainda que “alguns empresários deviam ter vergonha da sua actuação e corrigi-la, e outros deviam ter mais cuidado quando se aconselham com determinadas pessoas”.

Ora, salvo melhor opinião, um Governante, qualquer que ele seja, não pode levantar assim a suspeita sobre todos os grandes empresários e todas as grandes empresas do nosso país sem identificar exactamente quais são e detalhar as práticas de que são acusados. Porque, ao não mencionar os prevaricadores, o SEAF está a colocar todos no mesmo patamar: o patamar dos prevaricadores. E isso não é legítimo. E já agora, se existem essas certezas, por que não se age em conformidade?...

Finalmente, não compreendo por que, tendo estas declarações sido proferidas numa audição onde se encontravam presentes todos os Partidos, não foi imediatamente requerido ao SEAF que justificasse e concretizasse as acusações genéricas que acabara de fazer. Afinal, não me parece possível que qualquer Governante possa fazer acusações deste género se não tiver provas. Seria absolutamente leviano – pois não há pior comportamento do que levantar uma suspeita e depois não a concretizar. Ainda para mais, repito, tratando-se de um Governante.

E é por isso que daqui lanço o repto ao SEAF: identifique os transgressores e aja em conformidade. Não coloque o ónus perante toda a classe empresarial portuguesa. Ao fazê-lo, é a imagem do país como um todo que está em causa. Incluindo a de um Governo que, ao saber que existe fraude e evasão, não actua como devia.

Desabafo sobre a hipertensão arterial

Um amigo solicitou-me que escrevesse um artigo relacionado com a hipertensão arterial. Reflecti sobre o assunto e acabei por focar entre outros aspectos o problema do sal, cujo consumo entre nós é excessivo. Para o combater são necessárias, também, medidas políticas. Há alguns anos, enquanto deputado, tentei sensibilizar os responsáveis para que fossem tomadas iniciativas simples mas com impacto na população, nomeadamente a rotulagem do teor do sal dos alimentos e “convidar” a indústria alimentar a reduzir o seu uso, o que é possível, sem alterar as características dos produtos. Claro que houve quem tivesse afirmado (por ignorância?) que poderíamos estar perante uma “lei” (o objectivo era uma mera proposta de resolução) “fascizante” ao intrometermo-nos na liberdade do cidadão.
Na última crónica de Miguel Sousa Tavares, no último parágrafo, lá vem o aviso, perante a iniciativa de alguns deputados socialistas que querem assumir este assunto, de que a seguir à “lei do fumo”, vem a “lei do sal” e outras do género. “Eu não vos avisei?”
Eis uma pequena parte do texto (completo no Quarto da República):

(...)Falar do sal, é falar da hipertensão. É falar dos acidentes vasculares cerebrais. É falar do enfarte do miocárdio. É falar das principais causas de doença e de morte em Portugal. É falar da principal causa de invalidez. É falar de tragédias humanas e familiares. É falar de uma epidemia silenciosa em termos políticos, mas gritante e exasperante para as vítimas e suas famílias. É falar de projectos de vida interrompidos conflituando, em muitos casos, com uma auto-imagem negativa e uma humilhante necessidade de ajuda de terceiros.
O problema dos acidentes vasculares cerebrais não pode e nem deve cingir-se ao foro médico ou aos cuidados de enfermagem ou familiares. Trata-se de um problema de carácter individual, assente em responsabilidades colectivas, influenciado por factores económicos, culturais e, até, quem diria, políticos!
Anualmente morrem mais de 20.000 portugueses só por acidentes vasculares cerebrais. Estamos a falar de morte, que é um epifenómeno. Se tomarmos em linha de conta o número de AVCs, dos quais, cerca de um quarto se manifesta através da morte e outros 25% por incapacidades graves, necessitando da ajuda de terceiros, torna-se fácil compreender o impacto desta entidade. Acresce que, em Portugal, este fenómeno é particularmente violento, face aos restantes países comunitários.
As razões subjacentes a esta problemática são bem conhecidas. Dentro dos múltiplos factores, destacamos o já referido consumo excessivo de sal, tão característico do povo português, o não controlo efectivo da hipertensão arterial, cuja elevada prevalência é deveras preocupante e os consumos excessivos de álcool e do tabaco.
Apesar da tendência para a redução da mortalidade verificada nas últimas duas décadas, mesmo assim, a situação não deixa de ser dramática.
Muitos dos factores enunciados têm a ver com hábitos e comportamentos pessoais, os quais, paradoxalmente, se agravaram ou não sofreram modificações significativas.
A necessidade de educar e informar os portugueses a diferentes níveis é indispensável. Mas, a par das medidas educacionais e informativas, as quais são muito limitadas e, quase sempre, restringidas à área do foro da saúde, torna-se imperioso outras atitudes que se revistam de carácter político. Iniciativas legislativas que limitem o teor de sal dos alimentos pré-confeccionados são vitais, já que uma pequena redução do teor deste produto, na ordem dos 10%, por exemplo, é susceptível de uma redução substancial da morbimortalidade, mesmo a curto prazo, sem implicar alterações de fundo na qualidade e sabor dos produtos em causa. É pena que certos opinadores da nossa praça, ao arvorarem-se em defesa das liberdades e lutando contra correntes “fascizantes” que procuram regulamentar comportamentos diversos pondo em paralelo, por exemplo, a luta contra o tabaco e a lei “contra o sal”, não sejam mais honestos ou menos ignorantes, já que as medidas de carácter legislativo a serem tomadas terão como objectivo a rotulagem ou a redução da concentração dos alimentos pré confeccionados permitindo que milhares de toneladas de sal deixem de percorrer, anualmente, o nosso sistema sanguíneo reduzindo os riscos cardiovasculares. Quanto aos “doutos” fazedores de opinião têm todo o direito em ingerir o sal que lhes aprouver respeitando não só a sua liberdade de escolha mas também exprimir a sua estupidez e que São Ruperto os proteja.(...)

A extraordinária profecia de Ricardo Reis: chegamos ao 3º Acto?

1º Acto, ESPERANÇA
Em 29 de Agosto deste ano editei um Post no qual comentava a feliz profecia de um muito jovem Professor da Universidade de Princeton, Ricardo Reis que, graças ao arrojo então demonstrado, mereceu do “laborioso” D. E. nada menos do que o epíteto de “Nova estrela da economia portuguesa”.
Na sua profecia o Prof. Reis sustentava que dentro de 30 dias já não se falaria na crise dos mercados financeiros, também conhecida por crise do “sub-prime”, a qual segundo o Professor se confinava a um episódio de turbulência nos mercados monetários.
Nessa altura, mostrando é certo alguma reserva, dei ao Prof. Reis - como não podia deixar de dar - o benefício da dúvida.

2º Acto, DESENCANTO
Em 6 do corrente recordei a dita profecia, chamando a atenção para o facto de ser já evidente a não verificação da mesma uma vez que a crise do “sub-prime” se tinha agudizado e alastrado e serem muito elevadas as perdas registadas por importantes Bancos, nos EUA e na Europa, derivadas da sua exposição ao risco “sub-prime”.
A dimensão do problema tinha extravasado em muito as fronteiras do mercado monetário para ganhar uma importante expressão financeira, afectando as condições de exploração e até a credibilidade (Northern Rock, maxime) de diversos Bancos.
E em muito estava excedido o prazo de 30 dias, elemento central da profecia, continuando a falar-se, com crescente intensidade de resto, no problema e nas suas presumíveis consequências.

3º Acto, IMPLOSÃO
Chegados quase ao final de Novembro, acumulam-se sinais de que estaremos a entrar na fase de implosão da profecia de R. Reis, com o adensamento da crise e a sua mais que provável extensão à chamada economia real.
A OCDE estimou há poucos dias em USD 300 mil milhões - € 200 mil milhões ao câmbio corrente – as perdas causadas pelo “sub-prime” nas contas do sistema financeiro da Zona, o que a confirmar-se quer dizer que ainda estará por revelar mais de duas vezes o montante de perdas já confessado...
A evolução recente dos mercados de crédito e dos mercados de capitais sugere com forte intensidade um abrandamento sensível da actividade económica nas economias mais desenvolvidas em 2008 pelo menos (sempre com a excepção da economia de aço).
A rápida queda das taxas de juro dos prazos mais longos também aponta para o abrandamento da actividade, tendo-se até verificado nos últimos dias um fenómeno que há poucas semanas seria quase inadmissível: apesar da grande fraqueza do USD, as taxas de juro da dívida soberana americana a 10 anos caíram para nível inferior ao das taxas de idêntico prazo na Europa.

A continuarmos assim, o FED terá de baixar as suas taxas a ritmo mais célere do que se supunha.
E o BCE está perante um cenário de horror, agora que na Alemanha a inflação atingiu 3% e o crescimento dos agregados monetários acelerou...

És a nossa glória!...


Uns dizem, ou mandam dizer, que são os maiores; outros limitam-se a andar na frente!...
Uns ocupam diariamente as primeiras páginas dos jornais; outros limitam-se a jogar bem!...
Uns, no mundo virtual, são campeões em todos os defesos; outros, no mundo real, esforçam-se por ser melhores, e são campeões de facto!...
FCPorto, ininterruptamente, desde 28 de Novembro de 2005, 1º classificado do Campeonato Nacional de Futebol!...
Faz hoje dois anos!...

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Ministério do Vício e da Virtude!...

"Numa escola pública de Lisboa, cada aluno tem por missão verificar o que come cada colega, sobretudo se petisca guloseimas. Seguidamente cada um destes vigilantes dá conta das suas averiguações ao professor de Formação Cívica..."
Helena Matos, no Público de 26 de Novembro, e blog Blasfémias, hoje.
A tradição inquisitorial e pidesca continuam bem presentes; só que, agora, é politicamente correcto. Não tarda aí o Ministério do Vício e da Virtude!...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Esqueleto fora do armário

"Julguei que ele era um produto do guterrismo. Afinal estava enganado. É o oposto".
Mário Soares encontrou a forma mais simples e ligeira de arrumar com um esqueleto socialista - António Guterres.
Diz o ditado popular que a vingança serve-se fria e Mário Soares acabou de ajustar algumas contas dos velhos tempos da guerra que teve com o ex-secretariado do PS.
Ao comparar Guterres com Sócrates (embora parecesse o inverso), é preciso reconhecer que Soares escolheu uma forma muito súbtil de dizer o que todos pensamos: Guterres foi um desastre!
Esperemos para ver o que Soares dirá de Sócrates daqui a uns tempos...

Novamente, na gaveta!...

Mário Soares quer que o Governo vire à esquerda e tenha uma política mais socialista. Todavia, quando governou, meteu o socialismo na gaveta, a frase é do próprio.
Agora, comentando a entrevista de Mário Soares, um porta-voz do PS, Vitalino Canas, proclama que “à medida que os problemas forem sendo ultrapassados, é claro que a dimensão à esquerda poderá ser mais visível", e que "isso virá com o tempo".
Como democrata, respeito e respeitarei sempre os socialistas e as suas opiniões, mas nunca acreditei no socialismo para resolver qualquer problema político ou social.
Confirmo, mais uma vez, que os socialistas também não acreditam!...
Embora utilizem profusamente o termo como mero produto de marketing, para vender uma falsa imagem.

Um elogio a Quaresma


Um elogio a Quaresma, bela peça literária de Francisco José Viegas na Origem das Espécies. Vale a pena ler!...

"...Valdano, há tempos, escrevia sobre essa arte de fazer coisas estranhas, próximas do talento puro, situando Quaresma entre os grandes artistas. Mas Quaresma é solista de outra música. Há jogadores que tomam o seu lugar numa grande orquestra; há os que reconhecemos em música de câmara...e há os que saltam para o palco ora a solo, ora com o seu grupo, bailaores, cantaores e guitarristas..."
Bem merece o elogio Ricardo Quaresma, sem qualquer dúvida o melhor que joga em Portugal e que, com Deco e Ronaldo, forma o trio dos melhores portugueses!...

Chega, basta de modernismos e progressismos!!

(clicar para ver em tamanho normal)
Excelente retrato de loucura da autoria de António Barreto. Às vezes parecemos, ou somos mesmo, um país de loucos. A propósito do documentário "Portugal um Retrato Social" da autoria também de António Barreto, alguém escreveu que "Somos dos poucos países europeus cuja grande maioria da população teve mais de cinco telefones - com câmara e vídeo incorporados - em 2 anos. Somos fãs da última geração em tudo e mais alguma coisa".
Chega, basta de modernismos e progressismos!! Era o que nos faltava não podermos comer uns biscoitos caseiros, não podermos comprar um bolo-rei com fava e brinde, não podermos apreciar umas castanhas embrulhadas em papel de jornal, não podermos beber a bica numa chávena de louça!!
Se nos despirem destes pequenos mimos, então sim iremos ter loucura a sério... É tudo, isso sim, uma grande tristeza!

Os "sótãos" das nossas vidas...

Este fim-de-semana estive verdadeiramente enclausurada no “sótão” situado na cave da minha casa. Mal pus o pé na rua e vi a luz do dia. Fiz um passeio no tempo e às recordações da minha vida. Uma viagem cansativa mas que valeu a pena.
Andava há anos para fazer uma reviravolta no amontoado de “coisas” que enchiam de um lado ao outro e até ao tecto um espaço que normalmente utilizamos sem critério, em que o único critério é, normalmente, dele fazer um primeiro recurso para guardar o que não conseguimos no momento decidir dar ou deitar fora. Não conseguimos desfazermo-nos das coisas que, embora tenham sido úteis já cumpriram a sua função ou que nunca o tendo sido temos com elas uma relação de posse material ou afectiva que impede uma separação definitiva.
Não tinha nem pequenas nem grandes forças para fazer uma arrumação à grande desarrumação em que tinha caído há muitos anos a minha arrecadação. Andava à procura de um estímulo para avançar e acabei por decidir forrar o “quadrado” (diga-se de passagem com uma área muito generosa, um privilégio nos tempos que correm) de uma estrutura de prateleiras e armários em madeira que meticulosamente desenhei, imaginado a função que cada parte desempenharia numa arrumação mais ou menos “matemática” dos variados objectos que seriam poupados ao “lixo”. Uma arrecadação assim seria também um motivo para acabar com a ditadura do caos a que as minhas “coisas” tinham sido devotadas há longos anos.
Uma parte do tempo foi dispendido a tirar tudo, mas tudo, para fora, e a descobrir, recordar e sentir cada “coisa” que ia “abrindo”. Para além do muito lixo que pura e simplesmente não consigo perceber como foi possível ter guardado durante tanto tempo, uma boa parte das “coisas” voltaram de novo para dentro ocupando agora um lugarzinho especial, bem à vista, sem os pesos e os “empurrões” do lixo e das outras “coisas” mal desejadas, tal era a situação antes desta intervenção, simultaneamente, de limpeza e reabilitação.
Mas no meio de todo este trabalho, senti uma grande satisfação em tornar a ver muitas recordações da minha vida de infância e de juventude e confirmei a brutal transformação que no mundo ocorreu, desde lá para cá, e não vão assim tantos anos, e como a forma de viver sofreu tantas modificações.
Encontrei no baú das recordações a Cartilha Maternal de João de Deus pela qual aprendi a juntar as sílabas – através de um método que hoje em dia é considerado ultrapassado, mas que foi uma base importante para muitas pessoas da minha geração que escrevem bem; os cadernos do Liceu Filipa de Vilhena no qual fiz os estudos liceais e as cadernetas com as notas e as faltas lançadas – uma escola e uma época em que havia disciplina e respeito e os alunos que faltavam chumbavam por faltas; os discos de vinil dos Beatles e dos Beejees que constituem verdadeiras peças de museu – que os meus Pais de vez em quando lá compravam depois de muito caprichados e sofridos; a raquete de ténis toda em madeira que adorava e nunca emprestava com medo que se partisse – que hoje mais parece uma “colher de sopa” quando comparada com as raquetes altamente tecnológicas que fazem o sucesso de todos os garotos; duas malas de viagem pesadíssimas, feias, sem marca, sem estilo, que me lembro foram comigo na viajem de final de curso – imagino o que me aconteceria se, tendo força para as transportar o que duvido, me apresentasse hoje num aeroporto ou num hotel com material de uma tal categoria; a colecção de porquinhos, constituída por dezenas de exemplares de todos os tamanhos e feitios, de todas as qualidades e decorações – que coleccionei desde pequenita até à entrada na universidade e que me lembro fazia o espanto das minhas amigas; e muitas outras “coisas” apetitosas.
Já me esquecia de uma coisa gira: encontrei numa caixa de farmácia, de plástico, no meio de vários medicamentos, todos já fora de validade, uma pasta de dentes medicinal Couto – que penso ainda se vende em algumas drogarias, mas que as marcas multinacionais trataram de eliminar – e uma caixa de Aspirina, mais ou menos igual à apresentação que tem hoje e imagino que com comprimidos quimicamente bem mais eficazes.
Todas estas “memórias” voltaram para dentro do “sótão”, foram colocadas preciosamente num local reservado à importância que tiveram no passado. Não pensei por algum momento desfazer-me destas antiguidades que são, afinal, tão actuais no meu imaginário e tão importantes para perceber a vida.
Andei no baú do tempo confesso que com alguma nostalgia, mas também com a alegria de o poder fazer. Afinal, há muitos "sótãos" cheios de vida...

domingo, 25 de novembro de 2007

Tratamento em conformidade!...


O Orçamento para 2008 acabou aprovado, na passada semana, depois de mês e meio de discussões, debates, entrevistas, comunicações, comunicados, discursos inflamados, perguntas, respostas, defesas da honra, esclarecimentos, desmentidos, votações e declarações de voto do mais diverso teor.
Mas, depois de todo este esforço, nada compreendi e sinto-me verdadeiramente angustiado. Ora vejam!...
No Orçamento que o Governo fez, a despesa pública aumenta 3.200 milhões de euros. E cresce 4,2%, mais do que a inflação prevista de 2,1%. Mas o Governo, do primeiro ao último dia, diz e jura que diminui!...
No Orçamento que o Governo fez, as receitas irão aumentar 4.000 milhões de euros, e a carga fiscal 5,7%, um aumento real, bastante superior ao da inflação e ao do crescimento do PIB nominal. Mas o Governo, do primeiro ao último dia, diz e insiste que a carga fiscal diminui!....
Como as receitas aumentam 4.000 milhões e as despesas 3.200 milhões, é o aumento das receitas que faz diminuir o défice em 800 milhões.
Mas o Governo diz que a contenção do défice se deve à diminuição da despesa.
Ainda me passou pela cabeça pensar que o Governo mentia. Mas como isso está completamente fora de causa, a falha de compreensão é realmente minha.
Na melhor das hipóteses, estou ao nível do meu antepassado de Neandertal ou mesmo do australopiteco!...
E o Governo trata-me em conformidade com esse estádio intelectual!...