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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A ética não se impinge!

Faz honra de primeiras páginas há já dois dias, um diálogo no Facebook entre pilotos da TAP, Associa-se agora ao episódio um curso que a empresa quer que os seus trabalhadores frequentem sobre ética nas relações entre o pessoal da TAP, curso que, segundo o sindicato, custará a módica quantia de 2 milhões de euros. Os responsáveis dizem que não senhor, o curso nada tem que ver com as mensagens trocadas nas redes sociais.
Para lá da estranha coincidência de a TAP ter acordado para o problema da falta de ética dos seus trabalhadores no preciso momento em que se incendiavam as relações entre pilotos por causa das ditas mensagens, é extraordinário com se formou uma onda de inusitado interesse motivado por conversa que, por muito censurável que tenha sido, se confina às relações entre pessoas, umas que supostamente difamaram, outras que pretensamente se consideram ofendidas. A SIC abriu mesmo um forum para discutir o caso, interrogando gravemente até onde se poderá ir nas redes sociais! E os noticiários entrevistam eméritos professores de direito para saber que constitucionais princípios estão em perigo de extinção com o caso!
Espanta tudo isso. Não tanto o interesse da comunicação social que liga a isto tal como faz reportagem sobre a pata partida do piriquito da minha vizinha. Espanta pelo cúmulo da desresponsabilização individual que o caso traduz. Se a conversa, seja no Facebook ou à mesa do café, é ofensiva da dignidade e honra de outrém, corresponderá a um banal episódio de difamação, que o difamado deve saber resolver pela forma que achar mais adequada à reposição da honra ofendida. E se a TAP entende que a falta de ética revela alguma infracção a obrigações laborais, chama os responsáveis à responsabilidade. Não se oferece para os vacinar contra a doença. Nem nos oferece a todos a noção da crise de consciência do dever que parece ter conquistado todos os sectores da vida.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Uma questão de solidariedade...

Congratulo-me com a aprovação na Assembleia da República, na passada sexta feira, do projecto de diploma que institui o regime de majoração (em 20%) do montante do subsídio de desemprego para as situações em que ambos os cônjuges estão desempregados. A medida abrange também os desempregados que tenham filhos portadores de deficiência ou doença crónica.
Embora não conhecendo os detalhes do diploma e a sua aplicação em concreto, considero que se trata de uma decisão justa e equilibrada que procura minorar, numa situação de grave crise, as famílias que estão numa situação mais complicada.
A despesa adicional que decorre da medida, que poderá variar entre os 80 milhões de euros na versão do proponente da iniciativa legislativa, o CDS/PP, e os 93 milhões de euros estimados pelo Governo que, aliás, se manifestou recentemente contrário à sua viabilização, deve ser considerada e enquadrada numa lógica de prioridades políticas e de contenção da despesa pública, reduzindo ou anulando despesa onde ela pode ser cortada ou dispensada.
Um facto político interessante é que esta medida acabaria por ser aprovada com os votos favoráveis do PS e do BE.
Desconheço o texto aprovado e, portanto, se a majoração agora aprovada será paga pelo Orçamento de Estado ou pelo Orçamento da Segurança Social. Este aspecto é relevante, na medida em que está em causa saber se estamos perante uma medida de redistribuição, assim sendo financiada pelos impostos, ou se está em causa um reforço da função de seguro social, neste caso financiada pelas contribuições das empresas e dos trabalhadores para a segurança social .

Alegria no trabalho...

Não conheço a origem do "desenho". As reacções à “alegria no trabalho” podem ser várias. Cada um fará a leitura que muito bem entender.
Neste momento ocorre-me pensar nos desempregados e jovens à procura do primeiro emprego que pagariam alguma coisa para trabalhar. O trabalho dignifica e é fonte de sustento…

"As Cinderelas devem comer perdizes!"

Era muito pequeno, deveria ter sete ou oito anos, não mais, quando vi o meu primeiro filme. Foi na Figueira da Foz, num cinema mesmo ao lado de um parque de diversões que se manteve, ainda, por décadas. Andei num carrinho de choque e fiquei deslumbrado com os efeitos de uns espelhos que refletiam as nossas figuras, baixas e “gordas”, altas e “magras”, sempre acompanhadas de deformações da cara a qual ainda ficava mais afeada quando punha a língua de fora e repuxava os cantos dos lábios com os dedos. Duas novidades a que se juntou uma terceira, ver um filme. Uma tarde de sol inesquecível. Ao ver aquelas imagens projetadas num écran, parecia ter penetrado no reino dos gigantes. Uma coisa “monstruosa” para um petiz em que as dimensões do que vê são muito superiores à realidade, porque, para quem é pequeno, o padrão das medições é definido pelo tamanho do seu corpo.
O filme era sobre a Cinderela. Ainda hoje consigo recordar algumas passagens com as cores muito vivas próprias dos filmes animados de Walt Disney. As emoções produzidas foram muito fortes ao ponto de viver as cenas como se fossem verdade. E, durante muito tempo, quase que o conseguia reproduzir mentalmente como se o meu cérebro fosse um animatógrafo com apenas um filme e que punha a rodar sempre que me apetecesse. Não me cansava.
Perturbou-me muito as cenas em que a pobre Cinderela era mal tratada quer pela malvada da madrasta quer pelas duas filhas cuja fealdade contrastava com a beleza da enteada. Uma injustiça, pensei eu. - Como é possível ser-se tão má?
Mais tarde, muito mais tarde, depois de ter visto o filme, li que o seu nome tinha sido associado a uma síndrome. É frequente em medicina, e também em psicologia, a criação de síndromes para personalizar e identificar algumas doenças.
Peter Lewin, há cerca de 35 anos, inspirou-se nesta história para criar a síndrome de Cinderela com o propósito de descrever as falsas acusações de maus-tratos ou negligência praticada pelas mães adotivas. A par desta síndrome, foi criado, muito mais recentemente, o complexo de Cinderela, o qual se prende com o desejo inconsciente de uma mulher ter medo de se tornar independente, aspirando encontrar alguém que tome conta dela. Aliás, é muito comum determinadas interpretações psicanalíticas de histórias como a Cinderela, a Branca de Neve, a Bela Adormecida e muitas mais.
Agora, num período em que a liberdade feminina é uma realidade, conquistada apenas em certos cantos do mundo, não é de estranhar que histórias de encantar sejam objeto de redefinição. Foi o que aconteceu em Espanha com a feitura de um livro intitulado “A Cinderela que não queria comer perdizes”. Quando li o título, fiquei surpreso com esta de não querer comer perdizes. Foi então que soube que, enquanto em Portugal, estas histórias têm o tradicional final: “Casaram e foram felizes para sempre”, em Espanha não é assim. O equivalente é o seguinte: “Foram felizes e comeram perdizes”. Aqui está um final, pelo menos, muito mais original e apetitoso. Sem sombra de dúvida. Mas afinal qual a razão de ser deste livro? Contribuir para o combate à violência contra a mulher. Nesta nova versão, que ainda não li, mas vou tentar, a Cinderela borrifa-se para a meia-noite, sai do baile alta madrugada, manda às malvas o príncipe encantado e parece que se torna vegetariana. Neste último caso não consigo compreender muito bem. Mas não é só a Cinderela que pretende mudar de vida, também as suas amigas. A Bela Adormecida não precisa mais do beijo do príncipe para acordar, mas tenho que ler o livro para saber como é que ela conseguiu e até a Branca de Neve deixou de ter depressões, passou a tomar Prozac, apenas enquanto teve necessidade, e depois foi para a praia bronzear-se.
Ora aqui está como se pode mudar as histórias que nos contaram por outras mais adequadas aos nossos tempos, sem corrermos o risco de condicionar o comportamento dos mais jovens. Não quer dizer que sejam as mais apropriadas para os pequenos, mas também as outras, as clássicas, parece que não são grande ajuda. Para isso seria conveniente ouvir dissertar o pessoal que se dedica à educação das crianças. Entretanto, muitas das mulheres que já leram o livro, deverão ter-se libertado do complexo de Cinderela. E ainda bem! Mas, apesar de tudo, acho que as mulheres espanholas deveriam continuar a comer perdizes...

A larga gaveta socialista

O Orçamento de Estado, dizem, é o instrumento fundamental da governação, por nele se concretizarem as grandes linhas que presidem ao Programa de Governo. Aliás, os governos consideram-no tão importante que a sua recusa normalmente leva a novas eleições.
Segundo hoje vem sendo noticiado, o Orçamento de Estado para 2010 vai ser viabilizado pela direita.
Pois é. A esquerda é cada vez mais uma abstracção alegre. Boa para espectáculo folclórico.
Quando chega a hora da verdade, lá se vão para a gaveta as grandes profissões de fé socialistas.
Que, todavia, em breve clamarão pela unidade, em alegres slogans sem senso nem sentido.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Divórcio de cisnes

Esta coisa dos divórcios já atinge espécies que se caracterizam por acasalamento “perpétuo”, como é o caso dos cisnes. Em caso de morte do parceiro arranjam outro(a), mas agora ambos vivos, e morando na mesma zona, é que é de espantar. Não estiveram com meias medidas, cada um acasalou-se novamente. Os cientistas andam às “aranhas” e não conseguem explicar o que aconteceu. Aventam a hipótese de não terem procriado, mas é apenas uma mera hipótese. Andei à procura de outras razões, como incompatibilidade de feitios, adultério, falta de atração sexual, mas nada. Aguardo futuros desenvolvimentos...

Vigarice e evolução

A evolução do homem é uma realidade e tudo aponta para que no futuro a nossa espécie se transforme em verdadeiros “cabeçudos”. Pelo menos é o que dizem alguns antropólogos com base nos seus ensaios e evidências. É provável que assim seja, já que tudo aponta para um aumento e complexidade da nossa estrutura cerebral. De acordo com Yves Coppens, Lucy, australopiteco que viveu há mais de três milhões de anos, se nos visse hoje morreria de susto perante o nosso tamanho e, sobretudo, a nossa cabeça. Passar de 400 cm³ para 1500 cm³ é obra. Há quem diga que um dia teremos uma capacidade da ordem dos 5000 cm³. Para o efeito, o corpo terá de se adaptar às novas circunstâncias. Resta saber se tal aumento da capacidade craniana se acompanhará de uma evolução no sentido de comportamentos diferentes, mais “humanos”. Tenho muitas dúvidas. De facto, os primatas têm, relativamente ao corpo, cérebros grandes. A par da inteligência mecânica há que destacar a inteligência social. Tudo aponta para que o aumento do tamanho do cérebro e, consequentemente, da inteligência sejam devidos mais a exigências sociais do que mecânicas.
Segundo a hipótese da “inteligência maquiavélica” – curiosa designação! -, os mamíferos sociais, com necessidades que os animais solitários não têm, foram obrigados a desenvolver a inteligência a fim de manter as relações próprias de grupos, que são cada vez mais complexas e exigentes, dentro das quais se destacam, prioritariamente, manipular e explorar os colegas, conseguindo, assim, alcançar evidentes vantagens a menor custo. Se este aspeto é uma exigência, logo, surge outra como resposta, ou seja, a capacidade de evitar a tal manipulação e exploração.
Manipular e explorar são frutos do verbo enganar, fácil, de baixo custo e grandes benefícios. Verdadeiro sentido económico. Deste modo, a vigarice foi, é e será determinante para o desenvolvimento das espécies sociais que dependem da inteligência e do tamanho do seu cérebro, ao contrário de outros seres sociais baseados na química como alguns insetos. Somos enganados? Constantemente, e em todas as épocas. Como reagimos? Descobrindo as vigarices e tentando evitá-las. Comportamentos que revelam inteligência, sem sombra de dúvida. É a necessidade imperiosa de manipular e enganar os outros que leva ao desenvolvimento da inteligência e, assim, num crescendo, lá vamos subindo na escala da evolução à custa de um processo que nunca se irá extinguir, mesmo que alcancemos um dia uma capacidade craniana de 5000 cm³! Nessa altura as vigarices deverão ser muito sofisticadas. Nesta perspetiva tenho que dar razão à minha avó que me dizia em pequeno que andava meio mundo a enganar outro. Na altura não percebi bem o que queria dizer e perguntei-lhe se pertencia aos que andavam a ser enganados, porque não a via enganar quem quer que seja. Riu-se e disse que sim, que fazia parte do mundo que os outros queriam enganar. Mas para evitar que tal acontecesse, ser enganado e vigarizado, era preciso estar atento, olho aberto e estudar muito, porque quanto mais estudássemos e lêssemos mais dificilmente seriamos vítimas das más intenções. E, ato contínuo, perguntou-me se já tinha feito os deveres e se tinha lido as notícias da primeira página do O Primeiro de Janeiro. Uma espécie de exame oral que fazia antes do jantar, porque como já tinha lido o jornal, ficava a saber se eu entendia o que tinha lido. E se não compreendia bem, não havia problemas, porque logo de seguida explicava-me por “miúdos” as mesmas, não deixando de lançar as suas interpretações pessoais, eivadas de histórias, algumas verdadeiras encantadoras e, até, meio mirabolantes – um timbre muito pessoal -, como se estivesse a iniciar-me na arte de como evitar ser vigarizado, não obstante ter apenas a quarta classe. Às tantas, tenho de lhe agradecer ter adquirido – quem sabe? -, umas gramitas a mais de córtex cerebral...
Não me posso queixar-me muito, apesar de já ter sido vigarizado... Mas a evolução humana é isso mesmo!


"O aumento da inteligência é o resultado de dois imperativos: conspirar mais do que ser vítima da conspiração e mentir mais do que ser vítima de mentiras (Mark Rowlands, in O filósofo e o lobo)"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Canja de Galinha (último episódio)

Passaram os dias e as melhoras estavam à vista de todos. Com os cuidados da Gracinha, entre canjas de galinha e companhia alegre e apaixonada, em breve o patrão novo retomou a faina e se desassombrou a tristeza da aldeia.
Casaram poucos meses depois, numa festa rija que juntou todo o povo dos arredores, ela lindíssima, morena e sorridente no seu vestido branco de noiva, feito pela mãe, ele pouco à vontade no seu fato completo, um pouco largo, a calvície acentuada pela fraqueza da doença. Mas a alegria estampada no rosto e o amor intenso com que olhava a noiva fizeram com que muitos pensassem, surpreendidos, que ele até era um homem bonito e que havia de a fazer muito feliz.
Viveram sempre na aldeia mas ela nunca aceitou mudar-se para o casarão, para desgosto dos sogros. Fizeram a sua própria casa, já inspirada na moda trazida pelos emigrantes, a meio caminho da casa grande e da casa dos caseiros, ai nasceram os filhos e aí vão visitá-los os netos. Gostam de se sentar junto ao avô, já muito velhinho, a contar-lhe as novidades de Lisboa enquanto a avó, sempre risonha mas a que a idade acrescentou umas formas generosas, se esgueira com surpreendente ligeireza para a cozinha, a preparar aquela canja de galinha, que não há outra que se lhe compare no mundo inteiro. Dizem na aldeia que cura todos os males, mesmo os que os médicos não sabem tratar, e os netos acreditam. Pois se os mais velhos garantem que viram!…

Não há justificação para corte de salários este ano" - o que significa?

1. Esta “meia afirmação” parece ter sido feita hoje por um conhecido co-responsável pela política económica em Portugal a propósito do nível de esforço requerido para a correcção do défice orçamental em 2010 - considerando suficiente o congelamento nominal dos salários...
2. Recorde-se que o congelamento nominal dos salários foi na pretérita semana prometido pelo Instituto de Gestão do Crédito Público aos mercados financeiros, em aflição, depois de o Governo ter anunciado um não aumento em termos reais, o que não é a mesma coisa...
3. Uma “meia afirmação” como esta presta-se a um sem número de interrogações e de especulações (no bom sentido do termo), nomeadamente as seguintes:
- Se não há justificação este ano para cortes nos salários, quer com isso dizer que já se admite tal necessidade em 2011?
- Se assim for, qual a razão de adiar para 2011 o que poderia ser feito em 2010 – está-se à espera de um milagre?
- A haver corte dos salários, que tipo de cortes deveriam ser feitos – à irlandesa como pareceria mais adequado, com cortes percentualmente mais elevados nos níveis salariais mais altos e cortes mais baixos nos níveis salariais inferiores?
- Se a meio deste ano se verificar a necessidade de um rectificativo – não seria nada surpreendente – face a uma eventual execução orçamental abaixo do previsto, antecipa-se nessa altura o corte nos salários?
- Terão os senhores deputados coragem para reduzir, significativamente, os seus próprios salários e mordomias?
4. Existe um número crescente de portugueses que tem vindo a sofrer cortes (e que cortes) nos seus salários: refiro-me aos desempregados, que não cessam de aumentar...para estes portugueses, vítimas de uma conjuntura adversa mas não menos vítimas dos erros da política económica, os cortes nos salários não começam este ano – pela simples razão de que já começaram há pelo menos dois anos e vão continuar não se sabe até quando...
5. O que esta “meia afirmação” parece significar é que estará a chegar a hora de os sectores protegidos da sociedade e da economia portuguesa começarem a sentir os efeitos da crise, eles que até agora têm da crise uma noção essencialmente literária, de exterior, pela leitura dos jornais e pelos ecrãs das notícias...
6. Nessa perspectiva, o que esta “meia afirmação” pretenderá em última análise dizer é que se torna mesmo necessário um corte salarial na função pública (em sentido alargado, compreendendo o Estado Central, Regional, Local e os respectivos sectores empresariais) mas que face à dificuldade em implementar agora tal medida, melhor será deixar correr as águas até ver...
7. Está muito arreigada na nossa classe política esta filosofia de deixar o mais difícil para amanhã...que maçada! Só que deixar o mais difícil para amanhã significa as mais das vezes nada fazer, nunca, pela razão de que fazer amanhã será tão ou mais difícil do que seria hoje – no caso vertente mais difícil, certamente...

"24 canais de televisão por cabo obrigados a transmitir intervenções de Hugo Chávez"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Canja de Galinha (4º episódio)

O filho chegou, magro e triste, mais calado que nunca. O regresso ao casarão agravou-lhe as lembranças, via a Gracinha em cada dobra dos montes, ouvia o seu riso no correr do rio, sonhava-lhe os cabelos negros na ondulação das árvores ao cair da noite. Foi definhando em silêncio até que um dia não teve forças para sair do quarto, no outro ficou de cama, por fim uma febre teimosa prostrou-o numa sonolência que alarmou os pais. Chamaram então o médico da vila e esperaram, ansiosos, o diagnóstico que havia de resultar da longa observação que se desenrolou no quarto.
O médico saiu de semblante carregado e olhar severo. Usou a sua voz pesada para dizer que o doente sofria de tristeza, uma tristeza tão grande que o consumia sem remédio, sem luta e sem esperança. Que não lhe encontrara moléstia tratada nos livros que falam do corpo, mas que antes tivesse encontrado, porque a que via era da alma, tão grave e tão oculta que não havia mezinha que lhe devolvesse o gosto da vida. A menos que eles soubessem a causa de tão grande pena e o segredo para a resolver, o mais que o médico podia fazer era apaziguar-lhe os dias num adormecimento suave e confiar num milagre. Pegou o chapéu e saiu, deixando atrás de si um silêncio atormentado e incrédulo.
A mãe do doente tomou a decisão, ao acudir-lhe de súbito à memória a devoção com que o filho saboreava as ceias preparadas por Maria da Graça. Em tanta aflição não havia que medir os remédios, quem sabe se o médico não teria razão e aquela estranha doença fosse apenas um grande mal de amor? Mandaram em urgência um moço à casa dos caseiros, suplicando que deixassem vir a rapariga e que com ela trouxesse um caldo de galinha, apurado pelas suas próprias mãos.
Vieram os pais da rapariga, alvoraçados na madrugada, acompanhando a filha, que corria à sua frente, carregada com a marmita bem aconchegada no cesto da merenda que tantas vezes tinha levado ao encontro do pai, e parecia que tinha asas nos pés quando viu a luz pálida na janela do quarto, a esbater-se na claridade da manhã como um apelo que desesperava de ser ouvido.(continua)

“Pé descalço”

Hoje, ninguém anda de descalço, a não ser em determinadas circunstâncias ditadas por imperativos mais do que óbvios. Os pés, sobretudo os “pés portugueses”, têm sido muito mal tratados ao longo dos tempos. Os desgraçados, que estão na extremidade do corpo, têm que carregar com o peso do dono, muitas vezes mais do que exagerado, além de vários acessórios e cargas. Por outro lado, a escolha de calçado apropriado ao conforto e saúde das “patinhas” é relegado para um plano secundário, ao ser dada prioridade a aspetos mais estéticos do que funcionais, chegando a provocar deformações e problemas a nível da coluna.
Atendendo ao envelhecimento da população portuguesa e às inúmeras patologias com reflexos na circulação dos pés tem de haver mais atenção e cuidado para evitar complicações, algumas mesmo graves, que chegam, em certas circunstâncias, a amputações. Acontece que em termos práticos só agora é que se começa a avizinhar alguma preocupação neste sentido por parte das autoridades de saúde. Mas é muito importante que seja dada mais atenção ao conforto e saúde dos pés, mesmo nos que não sofram de patologias. Andam muitos preocupados com a estética, nomeadamente das “dentuças”, mas esquecem-se de tão importantes apêndices, base da nossa sustentação, e que, pelo facto de não andarem expostos, não são bem tratados.
Portugal pautou-se durante muito tempo por um dos mais interessantes fenómenos, o “pé descalço”, que levou muito tempo a ser combatido.
Foi em janeiro de 1928 que a Liga Portuguesa de Profilaxia Social “iniciou a campanha contra o indecoroso, inestético e anti-higiénico hábito do pé descalço”.
“O pé descalço – Uma vergonha nacional que urge extinguir”, publicado em 1956, faz uma interessante análise deste fenómeno. Adquiri-o há dias num alfarrabista no Porto.
Lembro-me muito bem, nos meus tempos de criança, de ver inúmeras pessoas que andavam descalças quer fosse verão ou inverno. O perigo de contrair o tétano era uma realidade, além de outras infeções. Apesar de muitas pessoas morrerem, mesmo assim, teimosamente, continuavam com aquela prática, ainda na década de cinquenta.
No Porto, o governador-civil proibiu o hábito do “pé descalço” em 1928, e, no mesmo ano, Lisboa seguiu o exemplo. Em Coimbra, na sequência de uma palestra proferida pelo diretor da liga, em 1933, um tio dos assistentes, Nicolau da Fonseca, que então dirigia a Agência do Banco de Portugal, encabeçou a campanha publicando vários artigos no jornal Gazeta de Coimbra, motivando o meio culto da cidade para o despertar deste assunto, e que veio a culminar na proibição a partir de 1 de Maio de 1934.
Uma coisa é proibir, outra é acatar as ordens. Tudo aponta para que os portugueses, à exceção dos alentejanos, que protegiam os pés, fosse o único povo da Europa a andar com solas naturais. Os relatos de estrangeiros atribuíam-nos epítetos de selvagens. Nem os marroquinos andavam descalços. O argumento da pobreza não era suficiente para explicar este fenómeno. De facto, em 14 de Fevereiro de 1904, o Professor Daniel de Matos proferiu, em Coimbra, uma conferência intitulada “A luta contra o pé descalço”. A certo trecho fez a seguinte afirmação: “O nosso povo mais depressa deixa de comprar um par de sapatos do que deixa de ter um cordão, anel, brinco, cadeia ou outro objeto de adorno para seu uso”.
Cheguei a ver mulheres com arcadas de ouro a levarem cestos à cabeça com os tamancos ou sandálias em cima, ou até botas presas pelos atilhos a baloiçarem como se fossem duas grandes orelhas!
Alguns relatos de julgamentos publicados na imprensa da época são muito curiosos como o seguinte que passo a transcrever: “A senhora Maria Joaquina da Silva Teixeira, que tem 29 anos e reside no largo de Santa Marinha, em Gaia, foi ontem responder ao Tribunal de Policia – por, no dia 30 de novembro do ano passado (1954), ter sido encontrada descalça numa das ruas da cidade.
- Era só um pé, Sr. Dr. Juiz. - E porquê? – Perguntou o Sr. Dr. António Quintela.
A ré alega que andava doente do pé que trazia descalço. Tem duas feridas. E, para comprovar a acusação, levanta o pé doente – mostrando-o ao magistrado. Este ergue-se do seu lugar, olha – e comenta: - O que vejo é que está sujo, pelo menos... E depois: - Mas, se tem o pé doente com alguns ferimentos, isso é mais uma razão para andar calçada. Esta medida é para vossa defesa!
A certa altura, apareceu uma testemunha, uma outra mulher: - Eu ia com a ré. E também fui autuada. Venho cá responder terça-feira... - Pois então, espere pela sua vez...
Claro que a Maria Joaquina acabou por ser condenada na multa (que é de 16$50) e no mínimo do imposto de justiça (que é de 50$00).”
Hoje, os pés, felizmente, não andam descalços, o pior é a outra “extremidade”, onde se aloja o “juizinho”, e, vendo o que circula por aí, também anda “descalça”, descalça de ideias, descalça de valores e descalça de princípios. No fundo, passámos de um povo “pé descalço” a um povo de “cabeça descalça”...
É a altura de começarmos uma campanha “contra o indecoroso, inestético e anti-higiénico hábito de insultar e julgar na praça pública”.
“Uma vergonha nacional que urge extinguir”.

A lei do mercado!...

Assisti ontem ao maior jogo do futebol português: cena normal, prolongamento e bónus de trinta grandes penalidades, como extra. Mais de três horas de espectáculo, vibrante e cheio de suspense.
E também o bilhete de mais barato custo por minuto!...
O FCPorto é grande em tudo e conhece bem as leis do mercado: se preza a quantidade e diminui a qualidade, sabe que deve baixar o preço...

Palavras, só palavras...

Os Bancos americanos continuaram, já este mês, a reembolsar o Tesouro dos Estados Unidos dos fundos cedidos aquando da crise do sub-prime. Claro que irão pagar até ao último cêntimo.
A Justiça americana resoveu o problema da falência da General Motors em três meses e a empresa salvou o seu património, os trabalhadores o seu posto de trabalho e os accionistas e fornecedores o essencial dos seus interesses.
Em Portugal, os casos dos bancos BPN e BPP, diminutos até à escala nacional e que cabem numa pequena gaveta de secretária de um banco internacional, ainda não foram resolvidos pelo Governo, nem se sabe quanto o Estado irá suportar.
A falta de competência e de liderança torna tudo mais complexo, para adiar decisões com base em pretensas dificuldades. Por isso, estamos com estamos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Não há paciência...

É indiscutível que há falta de médicos. Estamos a braços com um problema muito grave que não se vai resolver de um momento para o outro. Não é novo. A verdade é que governos sucessivos não foram capazes de criar condições para obviar à situação a que se chegou. Não tinha que ser assim. É a falta de organização e planeamento a que já estamos habituados. Se há coisa que o tempo permite, é que com tempo se tomem decisões, se planeie o futuro.
Hoje no Parlamento, o Bastonário da Ordem dos Médicos recordou que no passado alertou para a “falta gritante” de médicos e avisou que o aumento de vagas nos cursos de medicina pode conduzir ao excesso de médicos, ao desemprego destes profissionais. A "falta gritante" desapareceu. Francamente, não há paciência!
É por estas e por outras que estamos na situação em que estamos, com serviços públicos essenciais sem capacidade de resposta adequada às necessidades, na saúde, na educação ou na justiça.
Não há paciência, mas é triste...

Para quando o elixir da juventude?

No nosso dia a dia somos confrontados com várias situações perante as quais temos de tomar uma decisão. O pior é quando ficamos indecisos sem saber o que fazer. Neste caso, podemos vir a sofrer consequências nada agradáveis. Esta afirmação não é passível de contestação, penso eu, e poderá ter sido já vivida por qualquer um. Além do mais, apesar do acumular da experiência com a idade, também aumenta o número de situações com estas características, como é fácil de prever. Curiosamente, este fenómeno tem, também, um equivalente a nível molecular.
É fácil de compreender que à medida que envelhecemos corremos mais riscos de vir a sofrer doenças degenerativas, cancros e doenças cardiovasculares, entre outras. Quanto ao envelhecimento, os sinais são mais do que evidentes e constituem uma grande preocupação para muitos. A busca de elixires da juventude não é de hoje. Podíamos enumerar uma catrefada deles. No entanto, eles existem mesmo. O mais eficaz, pelo menos até ao momento, é o CR. Não tem nada a ver com o Cristiano Ronaldo, mas sim com Caloric Restriction (Restrição Calórica). Desde os anos trinta do século passado que já se sabia do efeito da restrição calórica no prolongamento da duração da vida. Nos ratos uma restrição de 30% de calorias acompanha-se de mais 30% de duração de vida. E não é só nos ratos, também ocorre noutras espécies. O pior é que os seres humanos não são muito adeptos em fazer restrição calórica. Era o que mais faltava. Mas, mesmo assim, não desistem em descobrir uma molécula ou substância que faça a mesma coisa que a restrição calórica sem se privarem de bons pratos. Um sonho. Comer que nem uns alarves e, ao mesmo tempo, viver mais anos e sem doenças. E não é que este sonho pode ser mesmo viável? Já existem dados de que uma substância, por exemplo, o resveratrol, tão propalado por esse mundo fora, comporta algumas das características próprias de um “elixir de juventude”. O vinho é uma das suas fontes, mas seria necessário beber algumas centenas de garrafas para obter o efeito, diariamente.
Mas, afinal, o que faz o resveratrol? Atua, estimulando a produção de sirtuína através de um gene, o SIRT1. Esta molécula é responsável pelas reparações a nível do DNA e faz, ao mesmo tempo, com que os diferentes genes entrem ou não em atividade, consoante as necessidades e ocasiões. Acontece que à medida que vamos envelhecendo, a sirtuína tem muito que fazer a este nível, não havendo em quantidade suficiente para modular a expressão dos genes. Como estes “não sabem” o que fazer, ficam ao deus-dará e, consequentemente, poderão enveredar por caminhos que levam ao cancro e a vários tipos de doenças, metabólicas e cardiovasculares.
A descoberta de uma substância que estimulasse o tal gene SIRT1, seria uma bênção, porque permitiria, ao mesmo tempo, fazer as reparações próprias do envelhecimento e permitir a expressão mais adequada e equilibrada dos diferentes genes, sem risco, ou muito pouco risco, de enveredarem por caminhos nada agradáveis.
Poderão afirmar que estas medidas não são naturais. E daí? Qual o problema? Não devemos o nosso bem-estar e vida a muitas conquistas? Se continuássemos a viver de acordo com o “natural”, onde estaria a maioria de nós? Do outro lado, claro está, e há muito tempo.
Atendendo ao crescente envelhecimento da espécie humana, e às inúmeras doenças associadas, não vai haver dinheiro que resista para fazer face a tamanha despesa. Cálculos já efetuados, permitem afirmar que uma redução de apenas 1% da mortalidade por cancro se acompanharia numa poupança na ordem dos 500 mil milhões de dólares!
Um dia destes ainda vamos acordar com a notícia da descoberta de uma substância capaz de mimetizar os efeitos da única, ou principal, técnica para prolongar a vida, a restrição calórica. Seria uma ótima notícia para todos e, sobretudo, para os alarves gastronómicos que andam por aí, incapazes de saciarem os seus apetites.
Depois é altura de encontrar um equivalente a nível social, que impeça certos lambões de comerem tudo, e de nos comerem com todo o descaramento. Mas não estou convicto desta última, ao contrário da primeira.

A Canja de Galinha (3º episódio)

No casarão também souberam ler os sinais. O lavrador começou a vigiar o filho quando lhe estranhou os modos alegres com que falava da Gracinha, as demoras em sair de casa nos dias em que ela vinha, ou o brilho dos olhos que nunca antes se lhe iluminavam.
Percebeu e não gostou do que viu. Como era possível que aquele lunático se embeiçasse por uma garota da aldeia, jeitosa, é certo, mas filha de um camponês e ela própria uma criada da casa? Não que fosse gente para um capricho, isso não, por isso mesmo o problema, não queria que acusassem o filho de estar a levar a desonra a casa de quem sempre servira lealmente a família e outra hipótese não se punha, nada de sério poderia sair daquela loucura. Ah, se ele tivesse imposto a sua autoridade de pai e o tivesse casado com a filha do Mendes!, mas não, deixou-se levar na teimosia do rapaz e o resultado estava à vista, uma paixoneta tola e serôdia de que era preciso dissuadi-lo sem demoras.
Chamou o filho e falou-lhe asperamente, proibiu-o de voltar a falar com a Gracinha e que nunca mais a queria ver lá em casa, fosse por que motivo fosse. E, se ele insistisse, ver-se-ia obrigado a despedir o pai dela, causando a miséria à família e a vergonha a quem durante uma vida o tinha servido lealmente. Mas que o faria, disso não tivesse dúvidas, assim ele o obrigasse.
Gracinha deixou de ir servir à casa grande, num acerto que nunca lhe revelaram, e o filho do patrão abalou para Lisboa sem se despedir, num desgosto de que não queria testemunhas nem conversas. Na aldeia sentiu-se um pairar de tristeza que ninguém conseguia explicar e que contrariava a prática do falatório das velhas e das confissões da vida dos outros, em que entretinham os serões.
Começou a notar-se um abandono dos campos até então férteis e bem cuidados, o pai de Gracinha queixava-se de que o patrão velho não tinha ânimo para lidar com as querelas dos camponeses e ele, ao fim de tantos anos, já sentia que lhe faltava força e autoridade para se impor ao trabalho.
Na aldeia, comentava-se a tristeza da rapariga, antes tão alegre e amiga de ajudar, agora esquiva, fechada em casa, movendo-se na lida como uma sombra. A mãe limpava as lágrimas furtivas, não via forma de compor as coisas, quem havia de dizer que a sua menina se ia perder de amores por aquele homem tão mais velho, sem beleza nem garbo, quem a dera tê-la deixado abalar para fora, como tantas outras da terra, agora vi-a ali, sem gosto nem viço, perdida num amor insensato e inútil.
Foi a patroa que decidiu mandar que o filho viesse de Lisboa. Pesava-lhe a solidão, já não suportava ouvir o marido resmungar diante das janelas, a ver o desleixo nos campos, a olhar para o relógio de horas lentas, tão lentas quanto o esmorecer dos sentimentos contrariados e imprevisíveis. Era tempo de dar por finda a cura de Lisboa. (continua)

Grelhador da dívida: Grécia vai ter companhia?

1. O que se está a passar por estes dias nos mercados financeiros com a dívida grega e por arrastamento com a dívida portuguesa (e não só) não poderá continuar indefinidamente assim, sob pena de implosão: o spread da dívida da Grécia, no principal benchmark (10 anos), ultrapassa já os 300 bps, duplicando a taxa de juro da dívida alemã, sendo o da dívida portuguesa superior a 100 bps.
2. Tem-se verificado um agravamento contínuo nos últimos dias, face aos rumores de um possível “default” por parte da Grécia, em prazo não muito longo, que tem sido aventado por comentadores com impacto nas opções dos investidores.
3. Hoje foi a vez do conhecido investidor e consultor de investimentos Marc Faber, de cidadania suíça, actualmente com base de negócios em Hong-Kong ter profetizado o default de alguns Estados membros do Euro, nomeadamente da Grecia e de Portugal, num prazo de 2 anos.
4. Porque Marc Faber foi capaz, noutras situações, de fazer previsões arriscadas mas certeiras – crash bolsista de Outubro de 87, crise asiática de 98 – este tipo de profecias tem influência no comportamento dos investidores, que estão fugindo da dívida grega e (também) da portuguesa e da espanhola agravando consideravelmente os custos de emissão de nova dívida.
5. Não vai ser fácil inverter este clima de incerteza e de desconfiança dos mercados em relação às dívidas soberanas dos países do “arco da dívida”...arriscamo-nos a viver mais uns meses neste clima e a ter de aumentar pesadamente a dotação da rubrica dos juros da dívida pública, bem como a suportar os efeitos perversos sobre toda a economia de um agravamento generalizado dos custos de financiamento.
6. Estamos numa encruzilhada extremamente complexa, em que, contrariamente ao que ainda há duas semanas afirmava com segurança o PM, teremos mesmo de esquecer a crise e dar prioridade ao défice...
7. Não encontro com franqueza outra solução, pois esta tremenda pressão dos mercados não vai diminuir – podendo até agravar-se consideravelmente – enquanto não forem tomadas medidas duras de combate ao défice, medidas de contenção/diminuição efectiva da despesa, não medidas de meia-cosmética que não convencem já ninguém.
8. Bem sei que a situação de frágil saída da crise em que nos encontramos torna esta opção muito mais dolorosa...era só o que nos faltava ter de regressar a uma austeridade a doer, quando ainda nem saímos de um período de crise económica profunda, com o desemprego a caminho de 11% da população activa...
8. Mas se assim não for a situação de encarecimento da dívida pode tornar-se insuportável, obrigando, porventura a meio do ano ou ainda antes à apresentação de um orçamento rectificativo extraordinário, com medidas adicionais de combate ao défice...
9. Este é um momento em que se exige grande lucidez e coragem políticas...e é o momento em que devemos recordar os avisos sérios feitos há tanto tempo por pessoas de opinião independente como Medina Carreira, infelizmente tratados como descartáveis pessimistas...que não criam empregos! Viu-se no que está a dar o optimismo, em matéria de criação de empregos...
10. Não parece que tenhamos muitas opções nesta altura...ou aplicamos agora medidas correctivas que não permitam dúvidas de uma diminuição visível do défice orçamental ou arriscamo-nos a fazer companhia à Grécia no grelhador da dívida...até quando?

Por uma questão de elementar justiça

De entre as condições que as Oposições vão colocando ao Governo para viabilizar o orçamento, há uma que me parece da mais elementar justiça. Trata-se da proposta do CDS/PP no sentido de permitir a compensação entre os créditos detidos pelas empresas sobre o Estado e as dívidas destas ao Fisco. É imoral que o Estado exija o cumprimento pontual de obrigações tributárias, muitas vezes resultantes de rendimentos que as empresas não auferiram porque o Estado não prestou aquilo a que estava obrigado. Mas não é só uma questão de moralidade. Para muitas pequenas empresas é mesmo uma questão de sobrevivência na medida não só se vêem privadas de proveitos durante meses e meses, como também são oneradas e perseguidas por uma administração fiscal que é absolutamente surda a estas e outras dificuldades que os gestores são absolutamente impotentes para contornar.
O princípio da compensação deveria, aliás, estender-se a todos os sectores da Administração, permitindo a extinção das dívidas perante o Fisco, mas também as obrigações paratributárias impostas pela Administração Local.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Você é estúpido?

Retenho de um pequeno ensaio que li em tempos esta pergunta: - Você é estúpido?

O autor faz uma abordagem do que hipoteticamente poderia pensar um extraterrestre sobre a vida neste planeta. Se viesse com intenção de saber qual a principal forma de vida, esbarraria nos seres unicelulares, tipo bactérias, se focasse a sua atenção nas formas multicelulares mais comuns passaria o tempo a estudar as algas e o plâncton, se optasse pelos seres que mais facilmente se movem, então, os insetos seriam uma delicia e se fosse obcecado por sociedades mais avançadas em termos de organização ficaria surpreendido com as formigas e abelhas. E, caso quisessem comunicar com algumas espécies, até poderiam escolher os chimpanzés ou os golfinhos. Nesta fase do campeonato, começamos a questionar porque é que nós, seres humanos, que até somos uma espécie que está espalhada por tudo quanto é sítio, não somos alvo dessa preocupação? Se for por uma questão de domínio da ecúmena, então, as baratas poderiam ser também selecionadas, já que estão, também, em toda a parte. Mas por que carga de água quereriam os extraterrestres comunicar connosco, uma cambada de seres que se autodestroem e destroem o ambiente e outras espécies? Os seres que viessem de outros planetas deveriam dominar outros conceitos e serem dotados de conhecimentos e princípios muito para além dos que caracterizam os terrestres. Nós temos a mania de que somos súper inteligentes. É curioso verificar que a ficção científica é useira e vezeira em apresentar os alienígenas como seres cruéis e com aspetos de monstros com o objetivo de destruir a nossa civilização. Obviamente que não faz qualquer sentido esta representação. Alguém imagina que seres provenientes de outros planetas e galáxias procurassem a Terra para estudar ou comunicar com o Homo sapiens? Credo! Deveriam ser mesmo muito loucos para não dizer estúpidos. Somos muito convencidos e julgamos que não há criatura mais esperta no planeta e até criámos escalas para medir a inteligência, mas fazemos coisas que as outras espécies não fazem e não conseguimos fazer outras inerentes a elas.

Imaginem agora se alguém fosse por aí fora e interpelasse as pessoas na rua, perguntando: - Desculpe. Podia responder a um curtíssimo inquérito? Muitos argumentariam que não tinham tempo e afastar-se-iam se não fosse a persistência do inquiridor. – É rápido. É apenas uma pergunta! – Uma pergunta? Então diga lá. – O senhor é estúpido? - Como?! E o entrevistador com o ar mais solene do mundo repetiria: - O senhor é estúpido? Claro que podia sujeitar-se a vários tipos de respostas, algumas mesmo a fugir para o violento. Estou convicto de que nem um diria que sim fossem mil ou dez mil os inquiridos. Era o que mais faltava!

Lembrei-me deste ensaio ao confrontar-me com um trabalhador que, periodicamente, é obrigado a realizar exames médicos. Bem-parecido, extrovertido, com algum nível cultural, pelo menos aparentemente, sofre de diabetes que lhe diagnostiquei há dez anos. Na altura, aconselhei-o a ir ao médico assistente para se tratar. Chamei a atenção de que se trata de uma doença traiçoeira que acaba por ter consequências graves. No exame periódico seguinte, o doente revelou, após alguma insistência, que não tinha feito nada. O mesmo aconteceu nos exames anuais posteriores. Hoje, a situação, sobreponível às anteriores, revelava perturbações mais graves, algumas mesmo muito preocupantes, nomeadamente a nível da visão. Dez anos de avisos e conselhos. Resultado? Nada! Coloquei uma face muito formal e disse o que tinha a dizer. À medida que ia debitando o meu discurso, a cara do trabalhador começou a acinzentar-se, os olhos a esbugalharem-se, e a respiração a acelerar. Expliquei-lhe que não conseguia compreender a sua atitude. É claro que cada um tem a liberdade de fazer o que lhe der na mona. Não discuto. No entanto, no caso vertente, a preocupação manifestada pela mímica do trabalhador permitiu-me concluir que o senhor afinal tem medo. O homem devia pensar que era imortal. Mas consegui demonstrar-lhe que era mais mortal do que imaginava e a curto prazo. Trata-se daquele género de pessoas que, se um dia lhe acontecer algo de grave, então, a responsabilidade é do destino que lhe pregou uma partida, um azar dos diabos. Nessa altura aqui d’el-rei. Fiquei mesmo incomodado. Não consigo compreender estas situações. Tive mesmo vontade de lhe perguntar: - O senhor é estúpido? Claro que poderia receber uma resposta meio torta, mas estou perfeitamente convencido de que a última coisa que lhe poderia ser assacada seria a da estupidez, ou melhor, nunca seria capaz de admitir que é estúpido. Mas é mesmo!