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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O exemplo dos taxis

Os taxistas (e pelos vistos o regulador) consideram ilegal o Uber
Em suma, os taxistas consideram que ninguém pode invadir o seu território ou fazer-lhes concorrência. Alguns dos ultaliberais no poder também...
Os taxistas só não estão contra os veículos decrépitos, desconfortáveis, sujos que conduzem.
Nem contra a antipatia de muitos, contra a má apresentação nem contra os muitos casos de burla e más contas. Ao que parece o neoliberalismo também não está.

Um exemplo, entre muitos, da nossa endógena ultraliberal alergia à concorrência e à competição estimulantes...
O país (a Grécia) sabe que sair do euro - a curto prazo pelo menos - seria catastrófico; mas o sofrimento de manter as restrições é insuportável. No entanto, as reformas estruturais desejadas pelo resto da Europa são realmente necessárias. 
É por isso que o problema do governo grego não é simplesmente o reembolso da dívida; é a oposição às reformas.
Tony Blair, no DN de ontem 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Agora é Tsipras que deixa Varoufakis no vazio...que mais ainda vamos ver?


  1. Segundo rezam as crónicas da reunião do Eurogrupo de ontem, teria sido alcançado, ao fim de 5 horas de “amena” discussão, um projecto de  comunicado conjunto que procurava harmonizar as posições, à partida muito divergentes, da Grécia e dos seus parceiros do Euro; em especial quanto á questão dos próximos passos a dar para ultrapassar o problema de o Programa de Assistência, em curso, chegar ao seu final no corrente mês, sem que exista uma solução alternativa que permita manter as finanças da Grécia a flutuar…
  2. Todavia, e quando menos se esperava, o já famoso Varoufakis terá comunicado o excelente resultado para Atenas, para o seu PM, com vista a obter o aval do Governo…tendo recebido de volta um redondo não!
  3. Concluiu-se, assim, que o PM grego não está disponível para aceitar - embora Varoufakis estivesse – qualquer tipo de referência à ideia de extensão do Programa em curso, tendo como contrapartida a promessa de alterações a esse programa que satisfizessem, pelo menos em parte, as reivindicações do governo grego…
  4. A explicação mais plausível para este primeiro visível desencontro entre os principais responsáveis pela estratégia de negociação do governo grego, poderá residir no facto de o PM grego se encontrar virtualmente refém de posições mais radicais que existem dentro do seu Partido, bem como do incómodo parceiro de coligação, tendo por isso decidido mais uma vez “esticar a corda” e deixar o laborioso Varoufakis em posição bastante incómoda, obrigado a um segundo "round" de negociações na próxima semana, para as quais parte com um passivo não despiciendo…
  5. …"round" em que, como parece provável, se assistirá a uma iteracção do difícil exercício de ontem -  com algum "molho" de fraseologia decorativa para grego ler e apreciar - mas mantendo na essência o que ontem teria ficado acordado até ao fatídico telefonema de Varoufakis para Tsipras…
  6. Será que Varoufakis vai conseguir, no final do Eurogrupo da próxima 2ª Feira, quando tiver que voltar a chamar Atenas, evitar outra negativa?
  7. Mas pode acontecer que na Cimeira de hoje seja a vez de Tsipras chegar a um acordo com os seus pares, com a vantagem de não correr o risco de ser desfeiteado por Varoufakis…os mercados apontam para aí, vamos a ver…
  8. E, por cá, ainda há quem, num pronunciamento de grande clarividência, venha chamar a atenção para o risco de isolamento da Grécia...mas, até agora, quem tentou isolar a Grécia, além dos seus próprios responsáveis?

Os 32 da mão estendida


Entre eles, muitos, quase todos, dos maiores críticos da União Europeia. Afinal, o grande objectivo da crítica é obter mais uma esmolita. Para que tudo continue na mesma. 
Estranhos modos de vida destas elites, andar sempre de mão estendida!...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A curiosa consternação com o agravamento do défice de mercadorias em 2014


  1. Foi tema muito noticiado e comentado nos últimos 2 dias o agravamento, em € 926 milhões, do défice da balança de bens com o exterior em 2014 por comparação a 2013.
  2. Com efeito, segundo as estatísticas divulgadas no início da semana, as exportações de bens aumentaram apenas 1,9%, de € 47.266 milhões em 2013 para € 48.181 milhões em 2014, enquanto que as importações aumentaram 3,2%, de € 56.906 milhões para € 58.746 milhões  – apurando-se uma diferença no ritmo de crescimento desta duas variáveis, de 1,9% para 3,2%, que, a julgar pelas opiniões expendidas, se terá revelado astronómica…
  3. Não deixo de notar, de passagem, que este agravamento de € 926 milhões é inferior ao que se registava até ao final de Novembro, o qual atingia € 1.097 milhões, o que significa ter havido em Dezembro uma recuperação de € 171 milhões…
  4. Mas o mais curioso disto tudo é que os comentadores que se mobilizaram para comentar a “desgraça” que foi este agravamento do défice comercial, nalguns casos literalmente lavados em lágrimas, são os mesmos que clamam, incessantemente, pela necessidade de alívio das medidas de austeridade e pretendem, consequentemente, que a procura interna possa crescer mais depressa incentivada pelo aumento do rendimento disponível…
  5. Não há maneira de entenderem que qualquer aumento da procura interna, seja de consumo seja de investimento, vai necessariamente traduzir-se num aumento de importações…foi exactamente o que aconteceu em 2014 em que já se registou algum alívio em cortes de salários e pensões, conduzindo a um aumento da despesa orçamental com pessoal  e, naturalmente, a uma maior procura de bens importados (vidé o forte aumento da compra de automóveis, que aliás prossegue em 2015).
  6. Ou então entendem mas querem tratar-nos virtualmente como parvos…
  7. Num registo mais caricato, encontrei num conhecido diário esta interessantíssima notícia: “Importações da Alemanha contribuem para o agravamento do défice comercial”…com esta aprendi alguma coisa, ou seja que as importações, desde que provenientes de outros países que não a Alemanha, podem não contribuir para o défice comercial…
  8. Só falta referir que, com este resultado para a balança de bens e tendo em conta o que já se sabia sobre as demais rubricas da balança de pagamentos até ao final de Novembro, é agora praticamente certo que o saldo conjunto das Balanças Corrente e de Capital – o saldo dos saldos – deverá ter sido em 2014 confortavelmente superior ao de 2013…mas, quando essa notícia chegar, vai passar quase despercebida, “felizmente”.

 

Confrontando opiniões

Vitor Bento divulga no Observador um texto em que dá a sua perspetiva do percurso seguido pelas diferentes realidades económicas existentes no seio da União Europeia. Creio ser uma reflexão importante de quem não é suspeito de radicalismo ou de emitir infundadas opiniões. Um contributo, pois, para o confronto saudável de posições.
Para o debate, fica também o link para a opinião de Rui Ramos sobre o texto de Vitor Bento.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Breves da política caseira (II)...

Muitas escolas do ensino artístico estão sem receber as transferências orçamentais que são necessárias ao seu funcionamento. Há professores sem receberem salários, as escolas têm dívidas a fornecedores, há alunos sem frequentarem as aulas de música. 
Refere a notícia que as escolas do ensino artístico com financiamentos em atraso vão finalmente ver a sua situação resolvida. Se há meios financeiros orçamentados não se compreende porque é que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) não assegura que as transferências são feitas com a devida antecedência. 
O que está em causa é o normal funcionamento das actividades escolares. Nada de extraordinário. Porque é que os pagamentos atrasados acontecem invariavelmente? Geram perturbações perfeitamente dispensáveis. Não deveria o MEC fazer um esforço de organização, acabando de uma vez por todas com este tipo de rupturas? A bem da educação...

Breves da política caseira (I)...

Reza a notícia que 90% dos novos nomeados já lá estava. Trocando por miúdos: nove em cada dez dirigentes de topo que estão a ser nomeados pelos diferentes ministros já ocupavam as funções para as quais passam a situação definitiva, depois de as exercerem “provisoriamente” nos últimos anos. Pergunta-se, então, para que serve a CRESAP (Comissão de Recrutamento e Selecção da Administração Pública)? Hoje ouvi alguém dizer que serve para dar guarida a estas situações...

Dispensamos bem as prefecias patéticas e os deslizes de Varoufakis...mas pode continuar!


  1. O novo ministro das finanças da Grécia parece não estar ainda satisfeito com a inenarrável confusão que conseguiu criar em torno da já muito difícil situação económica e financeira do seu País, tornando indecifráveis as suas prioridades e objectivos – e dando mesmo a sensação de estar sobretudo empenhado em indispor os seus credores aos quais, paradoxalmente, vai apresentando exigências, com o falso rótulo de propostas, para obter novos financiamentos.
  2. Na verdade, para além desse trabalho tão meritório como deletério, na frente interna, entretém-se agora a disparar ameaças sobre a zona Euro, tendo ontem chegado ao ponto de afirmar que esta zona será como um baralho de cartas: se lhe tirarem a carta da Grécia, a mais vulnerável como se depreende das suas próprias palavras, a seguir cairão as cartas Portugal, Itália, e assim sucessivamente…
  3. Ao mesmo tempo, divulgou conversas que supostamente (…) teria mantido em privado com responsáveis governamentais italianos, nas quais estes lhe teriam afirmado que a dívida pública italiana seria também insustentável e que isso só não era tornado público para não por em causa a “tranquilidade” da zona Euro…
  4. …tendo obrigado a um rápido desmentido do Ministro das Finanças de Itália, em termos bastante diplomáticos mas suficientemente claros para se perceber quanto lhe “agradou” o deslize de Varoufakis…
  5. Curiosamente, a reacção dos mercados tem sido no sentido de castigar a Grécia, com fortes subidas do juro implícito (yield) na cotação da dívida grega e quedas de valor na bolsa de Atenas, com relevo para as acções representativas do capital dos bancos…mantendo uma calma olímpica em relação às dívidas dos restantes países do Euro…
  6. Relativamente à inabilidade e ao evidente amadorismo do Snr. Varoufakis na solução da complexíssima situação em que a Grécia se encontra – quando esta recomendaria uma abordagem radicalmente oposta ao estilo incendiário de Varoufakis - temos de reconhecer que é assunto que diz respeito aos gregos, pois se foram eles que decidiram mandatar estes especialistas para lhes tornar a vida ainda mais difícil do que já estava, só a eles cabe avaliar o desempenho dos seus mandatários…
  7. Mas, em relação às declarações claramente insensatas dirigidas a Portugal e á Itália, já nos cabe, mais afoitamente, recomendar ao Snr. Varoufakis um conveniente silêncio.
  8. Que se limite a tratar mal os problemas da Grécia, nós vivemos melhor sem os seus comentários apocalípticos e os seus deslizes de linguagem…e, melhor ainda, dispensamos o seu amadorismo…
  9. Todavia, se quiser insistir nesta senda de profecias patéticas e de dislates do mesmo tipo dos atrás citados pode prosseguir - quanto mais descrédito acumular melhor será para nós…e, em última análise, para os gregos, também.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pecado meu...

"Não se pode desistir da política e não se pode apagá-la pela sua caricatura ou pela sua corrupção", diz D. Manuel Clemente nas vésperas de se tornar cardeal numa entrevista à Renascença
Já pensei assim, mas hoje confesso a fraqueza e deixo-me arrastar pela onda do descrédito, sem forças para voltar assim a pensar. É que quando a política se apaga porque se transforma numa caricatura ou navega na corrupção, não são as pessoas que desistem da política. É precisamente o contrário, é a política que desiste das pessoas.

Um Podemos monadero!...

Juan Carlos Monadero, o ideólogo do Podemos da esquerda espanhola e nº 3 na hierarquia do partido, foi apanhado em descarada fuga ao fisco, por não declaração de rendimentos no valor de 425.000 euros, que facturou em 2013, através de uma sociedade inexistente, alegadamente por trabalhos de assessoria a governos de esquerda da América Latina. Com tal procedimento, intentou não desembolsar  cerca de 130.000 euros de impostos. 
Para além de se discutir se esse dinheiro se deveu efectivamente a trabalhos de assessoria ou se se destinava ao financiamento do Podemos, o que é relevante é ter caído a máscara de dirigentes  de um partido que se vem armando em campeão da ética, de uma mais justa resistribuição dos rendimentos. e um combatente feroz da fraude fiscal. No que se refere aos outros, claro está.
Enfim, e em todo o seu esplendor, um Podemos monadero!...
O nome do ideólogo ajusta-se quase  na perfeição!...

Estranha forma de estimular o investimento e por a economia a crescer...


  1. "Discurso de Tsipras atira bolsas para o vermelho e faz disparar juros (yield) da dívida grega a 3 anos para cima de 20%"...pode ler-se hoje na imprensa on-line, dando conta das reacções dos mercados ao discurso do PM grego, na abertura do debate sobre o programa do novo governo da Grécia.
  2. Ainda segundo os media, “insistência do governo grego em recusar a extensão do programa internacional e na reposição de benefícios que colidem com o plano de resgate penalizam o sector financeiro e fazem disparar juros”…
  3. Mas o mais curioso é verificar que no mesmo discurso do PM do novo governo grego é conferida grande ênfase à necessidade de estimular o investimento para repor a economia a crescer…
  4. Eu interrogo-me como é que alguém, no seu perfeito juízo, estará disposto a investir numa economia onde a fantasia – e, porque não dize-lo, a irresponsabilidade - assumem papel primordial na definição dos objectivos e das prioridades de política…estranha forma esta, de "estimular" o investimento e o crescimento…

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Um simples arrefecimento do aquecimento global!

O território de Portugal continental vai ser atingido entre hoje e domingo por uma massa de ar frio, ar polar transportado do norte da Europa por uma corrente forte de norte, que irá refletir-se numa acentuada descida da temperatura, indicou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Parece ainda que as coisas nos Estados Unidos também andam friotas...
Pois é, nada de grave, um simples arrefecimento do aquecimento global...
PS: Isto é o que diz um amigo meu, que eu estou proibido de brincar com estas coisas sérias pelos ambientalistas do 4R...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os títulos são gregos, o BCE ainda não!

Li críticas violentas ao BCE pelo facto de não aceitar como garantia títulos de dívida grega. 
Mas como pode um Banco aceitar como garantia títulos de dívida que o devedor anunciou não querer pagar, ou querer "perpetualizar", ou querer reestruturar, conforme os dias ou as horas, ou cujas taxas quer alterar?
O que é que vale uma garantia dessas para um Banco, mesmo que seja o BCE? Ou para um Banco, demais a mais o BCE, com funções reguladoras e de supervisão sobre os restantes?
Claro, nada, depois do que o governo vem declarando, e enquanto não se concluírem as negociações. É que os títulos são gregos, o BCE ainda não!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A ler

Para além da questão concreta dos acordos de comércio, a novidade de existir um governo de um Estado membro ideologicamente contrário a consensos que até agora, salvo as naturais divergências entre Estados na fase de discussão, sempre foram regra, coloca o problema da sustentabilidade política desta UE. A ponta de um icebergue, pois...
  

A hypokrisia dos bem pensantes

Por cá, vai um enorme entusiasmo, nas esquerdas e nos comentadores e analistas bem pensantes, quanto às propostas da Grécia de perdão da dívida, seja qual for a modalidade que assuma, como se sabe, de geometria variável a cada dia que passa. Entusiasmo tão orgasmático que até despreza ou esquece as consequências para os contribuintes portugueses, que teriam que suportar, de seu bolso, a participação nacional no financiamento europeu à Grécia. 
Os mesmos profundos pensadores que criticaram e continuam a criticar, por mero exemplo, o alegado peso para os contribuintes do apoio imposto pelas autoridades europeias a Bancos portugueses, não por razões substanciais de solvabilidade, mas de mera regulamentação de rácios de solvabilidade, quando esses apoios, aliás já quase todos reembolsados, se materializaram em lucros relevantes para as finanças públicas, mercê do enorme diferencial entre as taxas cobradas e o custo do dinheiro para o Estado. 
Enfim, bem pensantes, que normalmente acumulam com bem ignorantes e, sem saberem, nem sonharem, capazes de dar plena e adequada expressão à grega hypokrisia. 
Tudo certo, pois. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tasca

Entrei ontem pela primeira vez numa tasca no Porto para almoçar. Gosto de comer nesta cidade, por várias razões, mas há duas que se salientam, a simpatia como sou tratado e a boa comida. Podia acrescer uma terceira, que não é de deitar fora, os valores são substancialmente mais baixos em relação a muitas zonas do país.
Entrei um pouco indeciso, confesso. O espaço era um pouco acanhado, simples, mas limpo. Graças à simpatia, natural, genuína, sem sorrisos forçados ou salamaleques urbanos e artificiais, antevi que o repasto iria correr bem. O funcionário encarregou-se de nos orientar, aceitou as nossas sugestões e acabou por ser premiado com a liberdade de escolher o vinho. O serviço foi rápido. No local onde nos encontrávamos, antevi, pelo postigo que dava ligação para a cozinha, uma senhora de idade, barrete na cabeça, idade um pouco avançada demais para aquelas funções, com sinais evidentes de ter tido uma paralisia facial e dificuldades na locomoção a apontar para problemas das coxo-femurais. Não consigo deixar de usar a minha condição de médico para fazer certos diagnósticos. Não são ossos do ofício, mas sim manias que não consigo evitar. A par de todos os sinais evidentes, vi que a senhora não estava bem. O sacrifício era evidente, mas ia despachando o serviço, e muito bem, como pude observar ao fim de algum tempo através da qualidade da comida. O que leva uma pessoa naquelas condições a trabalhar? Já merecia descanso. O corpo ansiava por isso, mas o espírito denotava uma força superior. Ainda consegui ouvir, embora com alguma dificuldade, comentários sobre o hospital. Foi quando entrou uma senhora, talvez da mesma idade, vestida de negro e muito sorridente, à custa de uma branca dentadura postiça que ameaçava saltar a qualquer momento. Apercebi-me que havia qualquer coisa que não estava a correr bem. Encaixava-se perfeitamente com a senhora da cozinha. A sua simpatia e educação eram mais do que evidente. Emanava ternura e compreensão. Olhou-nos mais do que uma vez.
Hoje, como sou um animal de hábitos, fui ao mesmo sítio. Adapto-me com uma facilidade incrível. Basta ser bem tratado da primeira vez. O funcionário reconheceu-nos e tratou-nos como se fôssemos velhos conhecidos. Atenções e mordomias. Um encanto ser tratado daquela maneira num local muito simples. Hoje, eu pedi um prato e a minha mulher outro. Ao fim de algum tempo tinha o meu. A senhora apercebeu-se, saiu da cozinha e veio pedir desculpa por não terem sido apresentados em simultâneo. Julgava que eram pedidos para mesas diferentes. Nunca me tinha acontecido nada parecido. Mas a conversa continuou, e a senhora explicou que estava muito cansada e com dores nas ancas e que iria sentar-se um pouco. Estava ali para fazer um favor; aposentou-se há mais de seis anos. Pediram-lhe para ajudar, porque a cozinheira tinha caido nas escadas do metro e partiu a perna e deu cabo da cabeça. - Está no hospital. Coitada. Pediram-me para dar uma ajuda e aqui estou eu. Cheia de dores, cansada, mas que hei de fazer? Tenho que ajudá-los. Não acha? Disse para a minha mulher. Ao mesmo tempo que ia explanando, com uma liberdade e sinceridade únicas, a duas pessoas desconhecidas, as suas maleitas e explicações para o ocorrido, perguntava se precisávamos de mais alguma coisa e se estava tudo bem. Ouvia sem dizer nada. Mas a minha minha mulher não, entrou na cena com uma facilidade difícil de explicar. É habitual atrair certo tipos de pessoas. Sorri. Não tarda e toma conta conta da tasca. A senhora pediu mais uma vez desculpa pelo desfasamento do serviço, agarrou numa cadeira e levou-a para a cozinha. - Tenho que descansar. Não aguento as dores. Mas tenho de trabalhar para os ajudar. E não sei quando a cozinheira vai regressar. Oh vida! Oh vida!
Terminei dizendo: - Amanhã já não vamos estar aqui. Se estivéssemos vínhamos a esta tasca e sabe-se lá o que é que iríamos ouvir e conhecer. - Tudo.
É assim que se começa a fazer amizades. Não sei como a senhora se chama e nem ela sabe quem somos. Mas não é preciso, primeiro irmana-se numa estranha e inesperada simpatia e depois o tempo faz o resto…

Grécia: entradas de leão, saídas de sendeiro?


  1. É certo que a “procissão ainda vai no adro”, mas parece já claro que não poderia ter sido mais aventureirista (para dizer o mínimo) a forma como o novo governo grego cumpriu a sua primeira semana em funções, começando por anunciar um conjunto de medidas de política económica e financeira que contrariam frontalmente os compromissos assumidos pelo País com os seus credores no âmbito do Programa de Assistência Financeira ainda em curso.
  2. Tratou-se de uma verdadeira “entrada de leão”, mas numa forma incrivelmente desajeitada: é totalmente incompreensível, com efeito, que, tendo a Grécia necessidade (segundo o seu próprio governo) de obter grandes concessões dos seus credores internacionais, tenha começado por lhes “atirar á cara” um conjunto de decisões que são exactamente o oposto do que tinha sido prometido a esses credores…
  3. Ao agir desta forma, o novo governo grego terá criado a si próprio uma situação da qual agora só poderá sair de forma muito pouco auspiciosa: espera-o doravante um caminho árduo, de cedências atrás de cedências, pois já terá percebido que a persistência nas exigências de redução da dívida, de rejeição pacóvia de negociação com a Troika, de abandono unilateral do Programa de Assistência, teriam como consequência, a brevíssimo prazo, umam situação de bancarrota generalizada no País e de “salve-se quem puder”  - e quem não se salvaria seria certamente o governo…
  4. Mas agora, perante um cenário em que só lhe resta ir deixando cair, uma após outra, as fantásticas bandeiras eleitorais que lhe permitiram obter um mandato para governar (com um parceiro pouco cómodo, para agravar), vai colocar-se um novo e “inesperado” problema: como explicar aos gregos que, em tão pouco tempo, tenham sido abandonadas as teses centrais de um espectacular programa de governo…
  5. Vai ser muito curioso, com efeito, quando estiver concluído o corrente périplo europeu do seu Ministro das Finanças, e no seu regresso a casa tiver que mostrar uma mão cheia de nada, ver como irá começar por reagir o eleitorado face á evidente impossibilidade de cumprimento das grandes promessas eleitorais…
  6. …o eleitorado e também, segundo parece, a facção mais radical do partido vencedor das eleições, para a qual estas inevitáveis cedências poderão ser tomadas quase como actos de traição à Pátria Helénica…
  7. É o que têm muitas vezes estas entradas de leão, mal calculadas, acabam geralmente em saídas de sendeiro…

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Realpolitik ou surrealpolitik?

Varoufakis, o ministro das finanças da Grécia, declarou que "O meu maior receio é transformar-me num político". Frase pensada? Vantagem ou desvantagem, a questão coloca-se? Será que vai conseguir não ser político e obrigar os que estão do outro lado a deixarem de o ser? Ou será que rapidamente o seu receio será confirmado pela realpolitik?

domingo, 1 de fevereiro de 2015

No topo dos "castelos"...


Ora aqui está uma boa notícia. O Palácio da Pena em Sintra foi considerado pela European Best Destinations o melhor castelo da Europa. Uma marca que se segue a outras marcas - por exemplo, em 2014, o Porto foi eleito o melhor destino na Europa - que ajudam a colocar Portugal nos roteiros turísticos internacionais. Estamos de parabéns.
Estes prémios são uma prova das vantagens que decorrem do investimento na reabilitação histórica e cultural, da prioridade colocada no ordenamento do território e da preocupação a ter com a qualidade de vida e bem estar das regiões e das populações que nelas habitam. 
Os ganhos no turismo só serão sustentáveis se na sua base estiverem políticas de desenvolvimento económico, social e cultural sustentáveis em que os primeiros beneficiários são as populações locais, a economia e o património.
É um conjunto duradouro e harmonioso de políticas suportado numa visão estratégica que pode fazer a diferença. É por aqui que temos de continuar a caminhar, respeitando e valorizando o que temos de mais bonito e que, simultaneamente, nos distingue e nos aproxima do que de melhor têm outros locais do mundo...