Gracinha, então com 17 anos, começou a ir à casa grande, onde o filho do lavrador se fazia encontrado sempre que a sentia por perto. Ora para lhe gabar o asseio da sala, ora para lhe pedir que trouxesse da capoeira da mãe uma galinha para o jantar, ora para conversar, esquecido do pretexto que o tinha encorajado a falar-lhe. No Inverno apareceu uma vez a esperá-la ao fundo da rua, vinha ela com a merenda para o pai, chovia e abrigaram-se sob os ramos frondosos de uma árvore, a sentir a proximidade cálida um do outro, numa perturbação que a ruborizava e o emudecia.
Dessa vez o pai dela notou uma estranheza, alguma coisa que não conseguia definir mas que o fez retrair no cumprimento que habitualmente dirigia ao filho do patrão, reforçou o tom respeitoso, como que a marcar as distâncias, e deu pressa à Gracinha para voltar para casa antes que a tempestade piorasse.
Dessa vez o pai dela notou uma estranheza, alguma coisa que não conseguia definir mas que o fez retrair no cumprimento que habitualmente dirigia ao filho do patrão, reforçou o tom respeitoso, como que a marcar as distâncias, e deu pressa à Gracinha para voltar para casa antes que a tempestade piorasse.
Nessa noite, já no recato do quarto, confiou à mulher aquela vaga angústia que sentia, um não-sei-quê que lhe dizia que a filha estava em perigo, tinham que a vigiar e acabar com aquele serviço à casa grande. Uma menina, ainda, e o filho do patrão sem mulher, seria boa pessoa, não duvidava, mas a sua Gracinha havia de casar com um rapaz novo, na flor da idade, que lhe desse filhos e tivesse força e saúde para os amparar na velhice.
A mulher ouvia-o e calou o que sabia, há muito que notara como a Gracinha falava no filho do patrão, como lhe lembravam sem razão nem porquê os ditos dele, as qualidades que lhe descobria nas poucas falas, o trato de bom filho que era. Mas, sobretudo, via como o riso dela empalidecia quando ele ia de viagem a Lisboa, deixando-a vaga e distraída, de olhar comprido na linha da estrada empoeirada que se perdia no horizonte, a debruar as colinas esparsas.
O certo é que as visitas dele a Lisboa eram cada vez mais curtas. E ganhara o hábito de vir por casa dos caseiros, parava ali a conversar, fingindo sempre um recado a dar mas demorando-se em trivialidades, como se quisesse dizer alguma coisa para a qual lhe faltava a coragem, e os seus olhos perdiam-se a olhar a rapariga. (continua)
O certo é que as visitas dele a Lisboa eram cada vez mais curtas. E ganhara o hábito de vir por casa dos caseiros, parava ali a conversar, fingindo sempre um recado a dar mas demorando-se em trivialidades, como se quisesse dizer alguma coisa para a qual lhe faltava a coragem, e os seus olhos perdiam-se a olhar a rapariga. (continua)



