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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Canja de Galinha - II

Gracinha, então com 17 anos, começou a ir à casa grande, onde o filho do lavrador se fazia encontrado sempre que a sentia por perto. Ora para lhe gabar o asseio da sala, ora para lhe pedir que trouxesse da capoeira da mãe uma galinha para o jantar, ora para conversar, esquecido do pretexto que o tinha encorajado a falar-lhe. No Inverno apareceu uma vez a esperá-la ao fundo da rua, vinha ela com a merenda para o pai, chovia e abrigaram-se sob os ramos frondosos de uma árvore, a sentir a proximidade cálida um do outro, numa perturbação que a ruborizava e o emudecia.
Dessa vez o pai dela notou uma estranheza, alguma coisa que não conseguia definir mas que o fez retrair no cumprimento que habitualmente dirigia ao filho do patrão, reforçou o tom respeitoso, como que a marcar as distâncias, e deu pressa à Gracinha para voltar para casa antes que a tempestade piorasse.
Nessa noite, já no recato do quarto, confiou à mulher aquela vaga angústia que sentia, um não-sei-quê que lhe dizia que a filha estava em perigo, tinham que a vigiar e acabar com aquele serviço à casa grande. Uma menina, ainda, e o filho do patrão sem mulher, seria boa pessoa, não duvidava, mas a sua Gracinha havia de casar com um rapaz novo, na flor da idade, que lhe desse filhos e tivesse força e saúde para os amparar na velhice.
A mulher ouvia-o e calou o que sabia, há muito que notara como a Gracinha falava no filho do patrão, como lhe lembravam sem razão nem porquê os ditos dele, as qualidades que lhe descobria nas poucas falas, o trato de bom filho que era. Mas, sobretudo, via como o riso dela empalidecia quando ele ia de viagem a Lisboa, deixando-a vaga e distraída, de olhar comprido na linha da estrada empoeirada que se perdia no horizonte, a debruar as colinas esparsas.
O certo é que as visitas dele a Lisboa eram cada vez mais curtas. E ganhara o hábito de vir por casa dos caseiros, parava ali a conversar, fingindo sempre um recado a dar mas demorando-se em trivialidades, como se quisesse dizer alguma coisa para a qual lhe faltava a coragem, e os seus olhos perdiam-se a olhar a rapariga. (continua)

"Crime" sem ética e sem "lei".

O futebol português profissional tornou-se uma importante actividade económica e uma indústria que, directa ou indirectamente, movimenta centenas de milhões de euros e emprega milhares de pessoas. O seu produto, o futebol, é um dos poucos produtos concorrenciais à escala global e ocupa normalmente lugares de topo nos grandes certames europeus e mundiais. As três principais SAD,s encontram-se entre as grandes empresas portuguesas e uma delas tem-se distinguido, de forma consistente, como uma das maiores empresas exportadoras nacionais, quer em receita bruta, como líquida de importações.
Dada a sua natureza, a organização do futebol obteve do Estado a faculdade de ter a sua própria justiça desportiva, de forma a gerir com celeridade os normais litígios derivados de actividade tão específica.
Como nas restantes actividades económicas, a concorrência é uma condição essencial ao bom funcionamento e sobrevivência da indústria, enquanto tal.
Faz hoje um mês, dois empregados de uma SAD, a do FCPorto, especializados na actividade futebolística, foram suspensos de exercer a sua actividade profissional, devido a alegados desacatos cometidos fora do local de trabalho, no túnel do Estádio da Luz. Passado um mês, esses dois profissionais continuam suspensos, sem sequer terem sido ouvidos sobre os factos de que são acusados e deram origem à suspensão. Durante estes 30 dias, apenas houve tempo para serem chamados, não para conhecerem o objecto do delito, que não lhes foi revelado, mas para darem a sua versão pessoal dos acontecimentos no túnel. Assim a modos de testemunhas.
Com este acto inclassificável de protelamento sine die de um processo que se exige célere, a justiça desportiva, para além de se negar a si própria, está objectivamente a praticar o “crime” económico de atentado à concorrência, privando uma empresa dos meios de produção que lhe permitem desempenhar nas melhores condições a sua actividade, e promovendo assim o benefício de terceiros. Ao abrigo de uma norma desenhada para encurtar os prazos de suspensão, pratica-se a arbitrariedade de os prolongar sem fim à vista. Um verdadeiro “crime” económico, praticado às escâncaras e ao abrigo de uma torcionária interpretação literal da lei. No fundo, um “crime” económico, sem ética e sem “lei”. Praticado precisamente pelo órgão que devia zelar pela legalidade e boa concorrência.

Grécia no "grelhador do endividamento", até quando?

1. A reunião de ontem do ECOFIN parece ter concluído, relativamente à situação crítica em que a Grécia se encontra, o seguinte: não causamos esta situação, “os gregos que paguem a crise”...
2. Esta posição parece deixar tudo em aberto, por enquanto os gregos vão ficando no “grelhador do endividamento” dependentes da avaliação que os mercados forem fazendo – uma combinação instável dos estados de espírito e das análises das agências de rating, dos “opinion-makers” especializados e dos investidores...
3. Não é fácil antever próximos desenvolvimentos desta novela, pois não existem livros que expliquem, para esta União Monetária, o que fazer se um estado-membro entra em quase-insolvência:
– Vai mesmo para a insolvência?
- Previne-se a insolvência, com que meios e sob a orientação de quem – FMI? Comissão Europeia?
- No caso de cair na insolvência, será que existem meios para recuperar dessa situação - ou será mesmo forçosa a saída do Euro, solução juridicamente muito complexa que pode implicar eventualmente a saída da União?
4. Esta novela, dizendo respeito à Grécia, interessa-nos muito particularmente, pois a dificuldade maior ou “menor” (sempre gigantesca) de sairmos da armadilha do endividamento em que alegremente nos deixamos cair – e parece querermos persistir, contra todos os avisos - terá sempre muito a ver com o que se passar no caso da Grécia.
5. A este respeito citei já, em Post anterior, a opinião de Desmond Lachman - uma opinião “pessimista”, publicada no F. Times de 12 do corrente, que prevê a implosão financeira da Grécia e a consequente saída do Euro...
6. Julgo ser oportuno citar hoje outra distinta opinião, publicada tb no F. Times, edição de 15 do corrente, de Simon Tilford (Chief Economist, Centre for European Reform), sob título “Europe cannot afford to let Greece default”.
7. Tilford sustenta a tese de que, caso não existam apoios para a Grécia por parte da União Europeia, o país não vai conseguir, por si só, evitar a queda na insolvência, deixando de cumprir os compromissos de dívida em relação ao exterior especialmente.
8. Em tal cenário de insolvência, o autor entende que os custos de ultrapassar os desequilíbrios, refazendo a competitividade da sua economia, seriam para a Grécia inimagináveis.
9. O mais razoável em tal situação, por muito arriscada que essa opção se afigure, admite Tilford, seria deixar mesmo a zona Euro.
10. Não diverge muito de Lachman, neste ponto. Mas avança que, caso esse cenário se verifique, outros países – citando os casos da Espanha, da Itália e de Portugal – serão o alvo seguinte, podendo cair em situação de grave crise financeira, maxime a insolvência.
11. Para além de outras considerações, Tilford conclui que uma ruptura parcial da zona Euro teria custos enormes para a Europa e para o projecto europeu...
12. Tilford sugere que os países excedentários da zona – com a Alemanha à cabeça - deveriam rever as suas políticas e adoptar medidas mais expansionistas para ajudar os seus parceiros em dificuldades...mas quem os convence disso? E será que isso chegaria?
13. A única coisa que se sabe é que por enquanto os gregos ficam no grelhador do endividamento...resta saber por quanto tempo e se ainda será possível retira-los de lá antes que atinjam o ponto de assar...

A Canja de Galinha (novela em vários episódios)

Maria da Graça foi o nome que escolheram para a menina quando, já passada a juventude, nasceu aquela filha única, como uma bênção dos céus sobre a sua casa humilde.
Viviam no campo, numa aldeia que as estradas fizeram hoje próximo de Lisboa mas que nos anos cinquenta se perdia lá longe, numa desolação de casas vazias dos vizinhos e amigos que, um a um, partiam para França, para a Venezuela ou para lugares que só conheciam depois, das cartas garatujadas de saudades.
Eles tinham ficado, agarrados à terra que ele lavrava com esmero para um proprietário da zona e ela às galinhas, patos e coelhos que criava no seu quintal. Não sabiam ler nem escrever mas a sua filha única foi à escola e em casa aprendeu a costurar, a mãe fazia dela uma boa dona de casa para que pudesse casar bem, com um rapaz dos arredores que a estimasse e lhe merecesse a beleza morena e o sorriso aberto, que era um regalo só de a olhar.
Viam-na crescer embevecidos. A garota era a alegria da aldeia, o pai esperava ansioso a hora do almoço para a ver aparecer ao fundo da rua, muito afogueada, com a cesta da merenda, e impacientava-se quando ela parava por momentos, a tagarelar com quem encontrava pelo caminho. Que bonita era a sua Gracinha!, estava a fazer-se uma mulher, pensava orgulhoso, até o patrão a tinha elogiado por duas vezes, uma quando foi preciso ajudar na cozinha num dia de festa rija no casarão, outra quando o filho mais velho festejou os anos e quis que fosse ela a servir os convidados. Ela tinha esmero, sim senhor, nisso saía à mãe, não havia cozinheira mais apurada ou que pusesse uma mesa com mais gosto, as suas mãos ásperas e rudes tinham a arte de transformar uma côdea de pão numa ceia saborosa e reconfortante.
O tempo foi passando e o filho do patrão tomava agora mais sentido na lavra, não quis deixar a terra para ir estudar para Lisboa, como o irmão. Ocupava-se cada vez mais da quinta e chamou o pai da Gracinha para lhe dar mais responsabilidade, vocemecê agora é o meu braço direito, contrata os homens, compra as sementes e as alfaias, olha por tudo quando eu estiver fora. Também lhe disse que a Gracinha podia olhar pelo casarão, que fosse lá todas as semanas, os seus pais estavam velhos e precisavam de alegria na casa, ele não tinha encontrado ainda noiva que lhe agradasse e sempre era um modo de os ir compensando da falta de companhia. E ria-se, um pouco tímido, como se receasse que a proposta fosse mal aceite.
O patrão novo não era um homem bonito. Já bem passados os trinta anos, era magro e de estatura média, os seus cabelos ralos denunciavam uma calvície precoce e tinha bem fundas as marcas de um acne mal tratado, que a sombra escura da barba não conseguia ocultar. Diziam na aldeia que não quisera casar com a noiva que o pai lhe destinara, já o assunto estava apalavrado como manda a honra e os negócios. A moça era rica e bem apresentada, as terras eram vizinhas e assim se multiplicava a lavoura, mas ele cismou que não, que havia de casar com quem quisesse e que aquela não era a mulher com que ele sonhava. O pai enfurecera-se mas depois desistira, via o tempo a passar mas o filho nunca mais voltara ao assunto, era sisudo e de poucas falas, dedicava-se ao trabalho, tomava-lhe conta das terras e ia a Lisboa de quando em quando, já a ganhar hábitos de solteirão. (continua)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Direito à indignação!...

Já não sei explicar o vendaval de irracionalidade, mesmo de loucura, que tomou instituições e personalidades com responsabilidades na vida pública nacional ou com acesso privilegiado aos media, quando falam da política económica e orçamental.
Agora mesmo acabo de ouvir o Secretário-Geral da UGT, João Proença, a enfatizar que a prioridade política tem que ser o desemprego e a preocupação não pode ser o défice.
Já não há forma de demonstrar que é precisamente o continuado e permanente défice das contas públicas uma das grandes causas do nosso insignificativo crescimento, da divergência com a União Europeia, do crescimento dos impostos que depaupera a economia e do avolumar da dívida pública, que constrange financiamentos e eleva os custos financeiros.
Por esta ordem de razões, o défice público tem implicações graves sobre a diminuição da produtividade e sobre o aumento dos custos de produção, diminuindo as vendas e trazendo o desemprego.
Mas, mesmo que não aceitem argumentos teóricos, os pensadores e comentadores, professores e sindicalistas, jornalistas, que alinham os seus argumentos com os de João Proença, ou vice-versa, pelo menos deviam aceitar como argumento as evidências empíricas.
Praticamente em todos os anos do último quinquénio, a despesa pública e a carga fiscal aumentaram, em termos absolutos, em termos reais e em termos de PIB, e em todos os anos o endividamento subiu. E só o aumento de impostos explica que o défice não tenha atingido valores críticos, como foi o caso de 2009. Mas, por isso mesmo, a actividade económica estagnou ou diminuiu e, consequentemente, o desemprego aumentou para valores como nunca em Portugal.
Mas esses senhores só descansarão quando a despesa pública atingir 100% do PIB, se é que isso é possível. O veneno receitado e tomado com profusão tirou todas as forças ao doente e colocou-o em morte lenta. Por razões para mim já inexplicáveis, continua a receitar-se do mesmo, para o doente reagir. A reacção só pode ser uma, a morte mais rápida. É para onde esses senhores empurram a economia. De forma irracional. Uma perfeita loucura!...

Nulidade em directo e por satélite

Já aqui, creio, se falou do assunto. Mas para mim continua a ser um enigma o critério que leva as TV, em especial a televisão do Estado que é aquela que pagamos com a nossa contribuição para as indemnizações chamadas compensatórias, a mandar "enviados especiais" para a cobertura dos mais diversos fenómenos, às vezes aos locais mais estranhos. Na maior parte dos casos a informação que os repórteres fornecem em directo e por satélite, nada acrescenta ao conteúdo dos despachos das agências noticiosas com que os pivots dos telejornais iniciam a notícia.
Hoje foi a vez de a RTP dar cobertura em directo à libertação de Mehmet Ali Agca, o homem que em 1981 tentou matar o Papa João Paulo II. O jornalista luso enviado à Turquia para relatar a libertação em directo repetiu exactamente a introdução da notícia feita na redacção. E as imagens transmitidas não ofereciam nada de especial, ao invés, exibiam a habitual confusão dos paparazzi. No final, ouvidas as palavras de Ali Agca, confirmou-se o que se sabia: libertou-se um louco cuja loucura não se curou nos anos que passou pela prisão.
O repórter regressa agora a casa, pendura o seu colete Coronel Tapioca, e a RTP, com a nossa ajuda, pagará as facturas da nulidade transmitida em directo e por satélite. Haverá nisto alguma racionalidade, alguma explicação? Se calhar existe. Se alguém a conhecer e a quiser partilhar, antecipadamente este contribuinte agradece.

Os procedimentos!...

Tenho eu andado, e bem, a vociferar quanto à má qualidade de muitos serviços públicos e a elogiar as alternativas privadas, quando, ao almoço de ontem, me cai esta história assim de chofre.
Uma dama razoavelmente grávida acordou com um olho inflamado. Como doía e não passava, dirigiu-se a um destes novos hospitais onde se paga caro, mas a cura é certa. Chegada ao balcão, procurou o serviço de oftalmologia. A senhora está grávida? Estou..., respondeu a jovem dama. Então tem que entrar pelos serviços de obstetrícia e ginecologia…Mas trata-se apenas de um olho inflamado, quero ser vista por um oftalmologista…Tenha paciência, são os nossos procedimentos…
Vendo que de outra maneira não obtinha consulta, lá se dirigiu para o serviço de obstetrícia.
Tenho o olho inflamado (e apontou para o dito...) e disseram-me que a consulta tinha que passar pela Obstetrícia… A funcionária mandou esperar a paciente, para ser vista pelo médico. Então que se passa? Sr. Dr. apareceu-me o olho inflamado… O olho inflamado? Mas isso é com a oftalmologia... Mas disseram-me que era aqui... Aqui? Então se viesse com uma perna partida também era aqui? Perplexo, o médico chamou a enfermeira, que confirmou o procedimento. Mas então como é que eu a mando para a oftalmologia? Qual é a instrução do computador?
A jovem grávida então aí percebeu que, sem autorização formal e por escrito do computador, seria impossível guia de marcha e acesso ao tal serviço onde lhe analisariam o problema do olho…
Debruçados sobre o aparelho, médico e enfermeira lá verificaram que a única saída era através da Sala de Observações. Bom, a senhora vai esperar um pouquinho, que uma enfermeira irá levá-la lá!...Mas eu vou sozinha, se me disser onde é…Não, tem que ser acompanhada por uma enfermeira…são os nossos procedimentos…
Interveio então o médico, muito simpático: mas, já que veio cá, e para não ser tempo todo perdido, enquanto espera posso ver como vai essa gravidez… Quer deitar-se ali e descobrir a barriguinha? Mas eu só queria que me vissem o olho…A senhora é que sabe…
Em desespero de causa, a paciente lá acabou por mostrar a barriguinha, por aí, felizmente, estava tudo bem.
Chegada entretanto a enfermeira e conduzida à Sala de Observações, aí ficou sentada, aguardando consulta, entre várias pessoas a soro e armadas de tubagens diversas. Passado tempo, decidiu-se a procurar alguém que a atendesse. Encontrado finalmente um interlocutor, a paciente lá historiou mais uma vez ao que vinha…Mas isso não é aqui, é na Oftalmologia…aqui…é só para internamentos…mas vou ver… Olhe, então vai ser vista por uma médica de clínica geral, que depois dirá se é necessário ir à oftalmologia… Mais uma espera e lá veio a médica. Depois uma sumária observação, sentenciou que o caso era mesmo do foro oftalmológico. Só que há um problema… Já passa das sete e a oftalmologista deve ter saído…
Entretanto, chegou o marido, já a par da história, os telemóveis permitem saber tudo…. Mais uma discussão clarificadora e a médica, depois de uns contactos telefónicos, chegou à conclusão que a especialista ainda se encontrava no consultório. Para lá se dirigiu, onde foi atendida.
Presentes no balcão de pagamento para regularizar a conta, a factura compunha-se de duas consultas: uma de obstetrícia e outra de oftalmologia. Mas só pago uma, a consulta que queria era oftalmologia... Para aqui e para ali, tinha que pagar, pode é reclamar, aqui tem uma folhas para reclamar…não pago, era o que faltava, reclamar nessas folhas soltas que vão para o lixo, quero é o livro de reclamações…tem que pagar…só pago uma consulta…
No fim, lá veio o livro, lá ficou a reclamação e apenas uma consulta paga!...
Não dei o braço a torcer…Benditos serviços privados!... Duas consultas pelo preço de uma; e melhor do que nos serviços do Estado, onde se paga tudo, mesmo reclamando…
Tudo uma questão de procedimentos…

domingo, 17 de janeiro de 2010

Síndrome de Van Gogh

Ao acordar frente a uma manhã alfombrada de branco, e envolta numa atmosfera cinzenta, ao ponto de querer apagar as cores quentes dos edifícios e veículos, senti uma sensação de beleza estonteante como se tivesse acabado de pintar um quadro impressionista ou ter fugido do mesmo para melhor o contemplar. Uma experiência quase stendaliana, a querer lembrar a síndrome que comporta o nome de genial escritor, brilhantemente descrita em certas pessoas que, ao visitarem Florença, ficam esmagadas com tanta e contínua beleza, ao ponto de o cérebro, confuso e inebriado, deixar de saber quem é e onde está. Um bom pretexto para passar o dia livre no museu Van Gogh. Obras inesquecíveis. Não vi aquela em que o consagrado pintor se auto retrata depois de ter cortado a parte inferior da orelha esquerda, enviada, na antevéspera do Natal, a uma prostituta que, entretanto, morre. Sempre ouvi dizer que, num ato de loucura, o artista se automutilou. Este comportamento deu origem a uma síndrome com o seu nome, síndrome de Van Gogh.
Há um equivalente a esta síndrome denominada de Munchausen, do famoso barão do mesmo nome que contava as aventuras mais mirabolantes e inexequíveis. Recordo ter diagnosticado um caso destes há muitos anos. Um homem de meia-idade tinha passado por vários hospitais e sido submetido a múltiplas intervenções cirúrgicas exploratórias que nunca revelaram nada de especial. O abdómen era um verdadeiro mapa de estradas, retalhado, revelando os percursos percorridos com o propósito de encontrar um destino. Face a tão inusitada história, com muita paciência e conversa, aliadas aos pedidos de vigilância aos enfermeiros, acabei por descobrir que, desta vez, as hemorragias retais, e a anemia subsequente, eram devidas à introdução no reto de pequenos objetos de vidro cortante. O doente estava ansioso para que o operassem mais uma vez a fim de lhe descobrirem a origem das hemorragias.
Afirmam os entendidos que a automutilação de Van Gogh traduz um quadro de perturbação mental. É bem possível. Mas também correm outras versões. O seu companheiro, Paul Gauguin, que não era flor que se cheirasse, numa altercação com o amigo, que deveria estar a empunhar uma lâmina de barbear, desferiu-lhe um corte cirúrgico com a sua espada. Ambos se calaram. Van Gogh de vergonha e Gauguin de culpa. No ato, Van Gogh sentiu uma dor na orelha esquerda e ao olhar para a mão ensanguentada terá dito: - Onde está a minha orelha? Apanhou-a do chão e ao dirigir-se a Gauguin, paralisado, disse: - Estás calado. Eu também vou ficar. Foi a última vez que estiveram juntos.
Na altura em que fiz o diagnóstico de síndroma de Munchausen, li vários textos sobre o assunto. De facto não me recordo de as orelhas serem alvo de automutilações. Às tantas as vítimas nem se devem lembrar delas.
A síndrome de Van Gogh, face a esta análise, deveria ser revista. O seu alcance deixaria de ser sinónimo de automutilação e deveria passar a ser sinal de uma “mutilação silenciosa” provocada por amigos, no calor de uma discussão, em que ambos ficam calados, um por vergonha, o outro por culpa.
A medicina necessita de construir síndromes. É através de sinais e de sintomas que consegue criar e personalizar certas entidades e comportamentos. Habitualmente usa epónimos dos autores que estiveram na sua génese. Outras vezes socorre-se dos locais, da arte, da poesia, e da literatura. Uma forma elegante de ajudar a compreender e interpretar certos fenómenos.

Já cá faltava...

Nós temos esta tendência doentia, uma espécie de gene que paira por aí e que faz das suas na primeira oportunidade, tudo o que de mau que acontece aos outros poderá acontecer-nos a nós, enquanto o que acontece de bom está, seguramente, fora do nosso alcance. Acho que é por causa desse maldito gene que vivemos neste estado de depressão colectiva que nos faz aceitar como uma fatalidade tudo o que corre mal, tudo o que piora, e olhar com a maior desconfiança quem não se queixa de infelicidade, quem teve êxito ou quem se atreve a falar em esperança.
Já passaram 4 dias sobre a catástrofe inimaginável do Haiti e já estava a intrigar-me esta contenção de ainda não ter vindo uma primeira página do jornal dizer que se fosse cá, que se fosse cá…
Pois bem, ouvi há pouco anunciar que o Prós e Contras de amanhã picou o ponto e encontrou o tema: estaremos preparados para um terramoto como o do Haiti? Qualquer pessoa normal antevê a resposta, e quem é que está preparado para uma catástrofe desta dimensão do fim do mundo? Vamos então passar um serão de catarse psicótica, precedida de imagens reais aterradoras e seguida de inúmeras explicações sobre as nossas insuficiências para enfrentar tal terror. Parece que não nos basta o que já nos atormenta e preocupa. Parece que nos sobram alegria, confiança e esperança no futuro. Não, há que aproveitar o ambiente de terror e explorá-lo, trazendo para o consciente o temor que, instintivamente, todos procuramos distrair quando assistimos horrorizados às imagens que nos chegam de longe. Há alturas em que o jornalismo (?) parece ter-se tornado num meio de tortura sem respeito nem misericórdia, seja lá o que for que amanhã se lembrem de dizer no programa.

Novamente o Haiti...

A calamidade do Haiti tem mobilizado à escala mundial a solidariedade de governos, autoridades internacionais, organizações não governamentais e cidadãos de todo o mundo. Todos querem acudir à tragédia humana, movidos pela compaixão, pelo sentido de responsabilidade política e por imperativos éticos e morais.
À pobreza e miséria extremas, como se não bastasse, juntou-se um dos mais temíveis fenómenos naturais, o terramoto.
Mas quando vemos a vontade e a capacidade de mobilização dos países desenvolvidos para ir em socorro dos haitianos, com promessas de ir mais longe no apoio à reconstrução do país, não deixo de me interrogar porque é que idênticas vontades e capacidades não acontecem antes, de forma preventiva e positiva, ajudando os países pobres a quebrarem os ciclos de miséria em que vivem.
O Haiti faz parte desse universo de países riscados do mapa, quase inexistentes. Mas a tragédia inverteu a situação. Quem ainda não ouviu falar deste país?
A catástrofe natural de terça-feira mostra bem a vulnerabilidade criada pelas catástrofes sociais e económicas em que se encontram mergulhados muitos países pobres. Uma situação incapaz de limitar ou minimizar os efeitos devastadores da força da natureza, antes pelo contrário.
Esta tragédia que nos tocou a todos, poderia bem constituir um momento de séria reflexão à escala mundial para a necessidade moral de fundar uma “nova ordem mundial de solidariedade” que permitisse incorporar no modelo desenvolvimento dos países ricos preocupações de equidade no relacionamento com os países pobres.
Se o mundo se quer unir para reconstruir o Haiti, porque não ajudou a fazê-lo antes da tragédia? Se existe solidariedade socorrista porque não construir a solidariedade preventiva? Serão razões economicistas? Não creio. Quanto custará reconstruir o Haiti depois da total destruição? Não sendo, que outras razões estão na base dessa omissão? Complexidade? Não me parece. Desvalorização política? Sim. Esquecimento? Também. Razões que espelham a indiferença e o egoísmo que também marcam as situações de crise das economias e sociedades ocidentais que também são, afinal, crises morais.
Concentremo-nos na ajuda aos haitianos e tenhamos esperança que o Haiti também nos ajude, mundo desenvolvido, a rever a nossa solidariedade...

sábado, 16 de janeiro de 2010

O andor!...


Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.






Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas
opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!


Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Hoje, o jornal A Bola, em Editorial solene, autêntica voz da confraria, decretou, vermelho no branco, que a confraria das opas vermelhas vai chegar em primeiro lugar. E que a confraria das opas azuis e branças, com Hulk ou sem Hulk, a questão é irrelevante, não possui argumentos, no espaço restrito do rectângulo do jogo ( isto é da procissão...), para contrariar o óbvio. A frase é transcrita.
Confirmadíssimo. Para não ir mais atrás, três golos legais anulados ao FCPorto nas duas últimas jornadas mostram à evidência os poderosos e irresistíveis argumentos de quem vai sendo levado triunfalmente no andor…
Nota: Versos (lindíssimos...)de António Lopes Ribeiro, em tempos tão bem recitados por João Villaret, que ainda tenho o ritmo no ouvido; pintura de Souza Cardoso.

"Hay males mayores que lo de Haití, como nuestra situación espiritual"

Estava à espera de algo semelhante. Sempre que surge uma catástrofe desta natureza há tentativas de a utilizar para certos fins que nos transcendem. Quando foi do furacão Katrina houve quem visse a mão de Deus por detrás! Agora surge José Ignacio Munilla, bispo de San Sebastian, a fazer uma afirmação surpreendente: "Hay males mayores que lo de Haití, como nuestra situación espiritual". Claro que as reações não se fizeram esperar, e o senhor fundamentalista veio a terreiro tentando recolocar o problema no campo teológico. Valha-me Deus que ainda não aprendeu a escolher os seus “funcionários”…

A disponibilidade para estar disponível

Ontem, Manuel Alegre declarou mais uma vez a disponibilidade para estar disponível para ser candidato a Presidente da República.
Já começa a haver pouca paciência para ouvir tanta disponibilidade em potência, mas nula materialização em acto.
Não ameace, não queira vir dizer que foi pressionado, disponha-se de vez e assuma alegremente a candidatura. Sem dramas e sem folhetins!...
Afinal, quer ou não ser Presidente? Ou, tão só, limita-se a querer que outros queiram que seja Presidente?

Terras de Espanha e praias de Portugal

A propósito do post do Ferreira d'Almeida
Romance da Nau Catrineta
(...)
-Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.
"Não vejo terras de Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar".
- Acima, acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal
"Alvíçaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terra de Espanha, Areias de Portugal.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Campanhas agora de vanguarda

A Coordenação Nacional para a Infecção VIH/Sida vai lançar uma mega campanha publicitária que teve honras de notícia no telejornal, com extractos das imagens que serão exibidas para reavivar os alertas para a necessidade de prevenção contra a doença sexualmente transmissível.
E a que se deve este súbito re-despertar da luta contra a Sida? Qual a mensagem renovada que trazem à ribalta com este raid surpreendente? Pois a campanha tem como público alvo e protagonistas do filme os parceiros homossexuais, para o que “serão exibidos alternadamente dois anúncios diferentes, representando relações estáveis e ocasionais entre homens que praticam sexo com homens”. E que a campanha “se estende até ao dia dos namorados”.
É claro que são sempre oportunas e certamente bem vindas as campanhas levadas a cabo para cumprir a missão de um organismo destinado a isso mesmo, a prevenir e combater a Sida. O que me causa perplexidade é este súbito e absolutamente inesperado foco na homossexualidade, quando passámos largos anos a ouvir dizer que todos os grupos são de risco e que era errado alimentar preconceitos que só serviam para agravar a exclusão e a discriminação com base na orientação sexual dos indivíduos.
Pelos vistos, o discurso mudou e agora já se deve evidenciar o risco específico entre os pares masculinos. O que terá determinado esta nova linha de orientação, que há bem pouco tempo teria escandalizado os grupos visados? Houve agravamento da doença que o justifique? Alguma orientação das organizações europeias ou mundiais de saúde que o recomendem? O responsável pela iniciativa esclareceu, de modo um tanto titubeante, que havia um “certo adormecimento” da consciencialização, daí a campanha.
Pois haveria, não sei, o que sei é que, ao ver o filme que a SIC passou, fiquei com a impressão de que a sensibilização que se pretende é bem diferente daquela para que foi criada a Comissão de Luta contra a Sida. E estranho que os grupos alvo não estejam já a reclamar da discriminação que os associa tão explicitamente aos grupos de risco.

Adenda de 18 de janeiro: segundo o DN de hoje, especialistas arrasam esta campanha, alertando para que o seu impacto pode ser perigoso e que "as pessoas estão saturadas das campanhas", além de que "faltam estudos prévios, pré testes e também uma avaliação dos resultados alcançados, que são muito importantes para se saber como elaborar outra campanha". Pois.


Solidão

No mundo atual, a rapidez com que se transmitem infeções é uma realidade fruto de uma forte interação entre os seres humanos e da velocidade estonteante que se vive. Os vírus também sabem aproveitar os jatos. Mas não são só os vírus, também as notícias viajam velozmente, e, muitas delas, são capazes de provocar ansiedade, medo e algumas doenças. As nossas fragilidades fazem-se sentir cada dia que passa. E são cada vez mais, não obstante as conquistas técnicas e científicas que enchem o olho e acalmam, embora temporariamente, a inquietude das nossas almas.
Epidemia. Tornou-se uma palavra corrente, utilizada praticamente para tudo, desde as doenças infecciosas, donde nasceu, até à solidão, passando pelo medo. A designação epidemia está associada a inúmeras situações: gripe, sida, cancro, diabetes, depressão, fome, obesidade, pobreza, medo, leviandade, estupidez, consumo, entre muitas outras. A mais recente epidemia, embora o assunto não seja novo, refere-se à problemática da solidão. Tudo, porque se conseguiu apurar que é contagiosa. Este sentimento, que invade muitas pessoas, acaba por se transmitir aos amigos de uma forma que faz lembrar as vulgares constipações. As pessoas que sofrem de solidão propagam este sentimento cortando os laços. Se um dos nossos amigos se transformar num solitário faz-nos correr o risco de virmos a sofrer de solidão em 40 a 65% dos casos e outro amigo nosso que não tenha qualquer relação com o primeiro acaba, também, por correr riscos na ordem dos 14 a 36% e um amigo deste amigo um risco de 6 a 26%. Há quem conteste esta visão de a solidão poder ser comparada a um vírus suscetível de causar uma epidemia, argumentando que aspetos semelhantes, também, foram observados na acne, nas cefaleias e, até, na própria estatura. É difícil, mas não impossível, caracterizar e quantificar estes fenómenos, os quais são preocupantes, caso se comprove, de forma inequívoca, este caráter de transmissão, na medida em que solidão é sinónimo de graves problemas na esfera da saúde pública, ao contribuir para as doenças cardiovasculares, passando pelo suicídio, até à doença de Alzheimer. Optar pela solidão é um fenómeno que tem muitas causas. Mas há um denominador que é comum aos que sofrem desta perturbação: um estado de alerta permanente e exagerado face às ameaças sociais. E estas proliferam como cogumelos em ano de chuva. Muitos dos solitários têm muitos contactos, só que estes não os satisfazem, e nem a criação de múltiplas redes que hoje estão ao nosso dispor, através da internet, conseguem substituir as verdadeiras redes sociais em que a amizade, a compreensão e a solidariedade são uma constante.
Assiste-se a uma desorganização social e estrutural, sobretudo das famílias, que, curiosamente, não são um campo fértil para a propagação da epidemia, a não ser pela sua não existência ou destruição. A involução da procriação, e o acréscimo das exigências do modo de viver, que empastam e dificultam o relacionamento entre as gerações, constituem focos de desestruturação que podem levar à solidão.
Fala-se, hoje, muito de planos de prevenção para tudo e mais qualquer coisa. Planos de prevenção contra cheias, contra terramotos, contra a obesidade, contra a diabetes, contra a gripe, entre muitos outros, mas pouco ou nada contra a solidão. E é preciso fazer qualquer coisa a este mundo atarantado e ameaçador em que vivemos ou fingimos viver.
Olho para trás e consigo ver com nitidez algumas pessoas com quem convivi e que sofreram de solidão. Sofreram e fizeram sofrer outros e quem sabe se ainda não continuam a fazer sentir os seus efeitos em muitos desconhecidos, os quais, por sua vez, alguns também solitários, estarão a provocar tempestades emocionais, contribuindo para explosões patológicas por esse mundo fora.
É preciso, utilizando expressões do mundo informático, “religar” aqueles que caíram fora das tradicionais redes sociais. Uma forma curiosa de contribuir com eficiência para a melhoria da saúde pública.

Volta Mário Lino, tudo perdoado...

Estava tranquilamente em casa a assistir ao telejornal quando o pivot anunciou que o ministro das obras públicas tinha dito que a linha de TGV entre Lisboa e Madrid faria com que as praias lisboetas se transformassem em praias de Madrid. Um brincalhão este pivot, pensei.
Passaram a palavra ao ministro. Afinal o brincalhão era o dito. Ao pé desta tirada tenho de concordar que o ´jamé´ e 'o deserto da margem sul' foram coisas inocentes.
Tudo perdoado Lino. Podes regressar.

Ponto de honra

Julgo que os leitores do 4R já se aperceberam de que neste Blog se distingue muito bem factos de opiniões. Estas podem ser contraditadas; os factos não, por serem verdadeiros e objectivos. Quanto a estes, temos por ponto de honra não se fazer afirmações que não possam ser demonstradas.
1. Publiquei ontem um texto, Rapidinha Premiada, em que aludia a dois Despachos do 1º Ministro, o Despacho 26370/2009, de 4 de Novembro, que nomeava uma colaboradora, com efeitos a partir de 26 de Outubro, e o Despacho 26371/2009, também de 4 de Novembro, que exonerava, com louvor, essa mesma colaboradora, com efeitos a partir de 30 de Outubro.
Era feito, como agora, um link para os Despachos no Diário da República, para que não houvesse dúvidas.
2. Através de um comentário, tive conhecimento de que o Blog Corporações me acusa de omitir parte substancial da verdade para que a história tivesse pés para andar. E publica, para o efeito, o Despacho 14504/2009, em que uma Colaboradora é nomeada para o Gabinete do 1º Ministro com efeitos a partir de 15 de Junho. O nome da colaboradora aparece riscado no texto do Blog Corporações, de forma a dar a entender que se trata da mesma pessoa referida nos Despachos 26370 e 26371 e que, estando cerca de 6 meses a trabalhar no Gabinete, tinha mostrado as competências e dedicação bastantes para ser louvada.
3. Verificado no entanto o teor do Despacho 14504, verifica-se que se trata de pessoas diferentes: nem o nome nem qualquer dos apelidos condizem, nem também a função é igual.
4. Conclusões: para o Blog Corporações vale tudo. Da pior forma ao serviço do Governo, pratica o lema que da mentira alguma coisa há-de ficar. Mesmo que primária, rasteira e grosseira. Que uma simples consulta à Internet permite verificar.
Nota de esclarecimento: Afinal, veio a saber-se que a funcionária em questão, independentemente de ter sido nomeada pelo Despacho 26370 de 2009, a que me referi, tinha também já sido nomeada pelo Despacho 8232/2005. Como o despacho 26370 não falava de recondução, nem o Despacho 26371/2009 tão pouco referia essa situação, a única coisa que logicamente um cidadão poderia concluir era que a funcionária tinha sido louvada por um trabalho de quatro dias. Pura incompetência do redactor, susceptível logo de atingir a funcionária nomeada. É que os Despachos não se destinam aos Colaboradores ou iniciados do Gabinete, mas aos cidadãos em geral. Independentemente disso, e por uma questão de boa fé, aqui fica o registo. E as desculpas à interessada, vítima em primeiro lugar da incompetência dos serviços.

Perspectivas económicas para 2010 e 2011: satisfação, a que título?

1. Foram divulgadas esta semana, pelo BdeP, perspectivas económicas para o ano corrente e o próximo:
- (i) crescimentos do PIB de 0,7% e de 1,4%;
- (ii) aumento da taxa de desemprego em 2010, eventual início de redução em 2011;
- (iii) agravamento do desequilíbrio das contas com o exterior para quase 10% do PIB em 2010 e mais de 11% do PIB em 2011 (8,2% em 2009).
2. Estas perspectivas foram recebidas pela generalidade dos comentadores (dos que consegui ouvir ou ler) e pelos responsáveis políticos com satisfação, como um sinal de melhoria...como seria aliás de esperar...
3. Uma leitura mais atenta e sem prejuízo da reserva que estas previsões devem merecer, leva-nos contudo a indagar o verdadeiro significado destes cenários e sobre a sustentabilidade a prazo deste modelo de comportamento da economia portuguesa.
4. Importa notar que, para assegurar uma ligeiríssima retoma da actividade económica, que nem é suficiente para garantir uma redução do nível de desemprego, teremos de suportar um aumento considerável do nível de endividamento global e ao exterior, uma aceleração mesmo do seu ritmo de agravamento...
5. Na minha perspectiva este modelo de evolução da economia portuguesa é simplesmente insustentável, é caminho certo para uma implosão ou pior, como a Moody’s sugeria esta mesma semana, para uma morte lenta...
6. A este respeito gostaria de referir um interessante artigo de opinião sobre o caso da Grécia, publicado na última 3ª Feira (12) no F. Times e da autoria de Desmond Lachman, membro do American Enterprise Institute, “Greece looks set to go the way of Argentina”.
7. Lachman, a situação da economia grega e numa comparação ao caso da Argentina no final dos anos 90 que conduziu a uma situação de insolvência face ao exterior, (ainda hoje por resolver), conclui que a Grécia não tem solução dentro do Euro pela simples razão de que os desequilíbrios macro-económicos que acumulou e os níveis de endividamento que atingiu tornam já insuportável o esforço de ajustamento necessário para inverter a trajectória de endividamento.
8. Na análise de Lachman, seriam necessários anos sucessivos de deflação, com elevadas perdas de rendimento nominal e real das famílias para que a Grécia conseguisse restabelecer os equilíbrios económicos fundamentais e sanear as suas finanças públicas – e isso o autor considera simplesmente impraticável...pelo que conclui que a Grécia não terá outra saída a não ser...sair do Euro dentro de 2 a 3 anos.
9. Se a premonição de Lachman está certa ou não, desconheço. Trichet recusou comentar quando ontem lhe colocaram a questão...
9. Do que me apercebo é que a continuarmos assim – e sinceramente não vislumbro outra solução com as opções de política que estão “sobre a mesa” – colocar-se-á à economia portuguesa um dilema muito semelhante, não tarda.
10. É por esta razão que não consigo entender, de todo, as manifestações de satisfação de "opinion-makers" e de políticos pela divulgação destas perspectivas económicas...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Rapidinha premiada!...

Despacho n.º 26370/2009
Nos termos e ao abrigo no n.º 1 do artigo 2.º e no n.º 1 do artigo 3.º do Decreto -Lei n.º 322/88, de 23 de Setembro, com a redacção que lhe foi dada pelo Decreto -Lei n.º 45/92, de 4 de Abril, nomeio a licenciada... (nome omitido) para exercer as funções de secretária pessoal do meu Gabinete, em regime de comissão de serviço.
Este despacho produz efeitos a 26 de Outubro de 2009.
4 de Novembro de 2009. — O Primeiro -Ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

Despacho n.º 26371/2009
Exonero, a seu pedido, por ir exercer outras funções públicas, a licenciada... (mesmo nome acima omitido) das funções de secretária pessoal do meu Gabinete, ao abrigo do disposto no n.º 1 do artigo 3.º do Decreto -Lei n.º 322/88, de 23 de Setembro, sendo-me grato evidenciar a forma extremamente leal, competente e dedicada como desempenhou aquelas funções, bem como as excelentes qualidades pessoais e profissionais.
Este despacho produz efeitos a 30 de Outubro de 2009.
4 de Novembro de 2009. — O Primeiro -Ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.
Foi chegar, arregaçar as mangas, encarregar-se da tarefa, terminá-la com dedicação, competência e rapidez e ala que se faz tarde!...Quem cumpre assim missões em 4 dias merece todo o louvor. E é exemplo e castigo para quem anda a trabalhar 40 anos sem nenhum!...