Número total de visualizações de páginas

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Corrida ao ouro...


As lojas de compra e venda de ouro nascem como cogumelos. Um sector que até há bem pouco tempo tinha uma dimensão reduzida, tem vindo a ganhar dimensão à custa do aprofundamento da austeridade e do crescimento da criminalidade. A crise fez florescer este negócio. Sinais do tempo.
No bairro onde moro abriram num curto período de tempo três destas lojas e ao que julgo saber o negócio vai próspero, embora quando me atrevo a espreitar não veja viva alma.   
Sempre me interroguei sobre os perigos desta actividade, sobre a possibilidade de estas lojas constituírem centros de compra de ouro roubado, com origem criminosa, e locais em que a fragilidade económica das pessoas que aí se dirigem para vender os seus bens é aproveitada para a obtenção do lucro fácil. A sedução do acesso rápido ao dinheiro fresco ali mesmo à mão leva muitas pessoas em situação vulnerável a tomarem decisões impensadas, sem possibilidade de uma contra-avaliação credível.  
É portanto uma boa notícia a iniciativa em curso, que só peca por vir atrasada, de preparação de legislação que visa regular o licenciamento, o comércio e a publicidade desta actividade. Neste momento é fácil a abertura de uma loja, com um regime quase inexistente de licenciamento, em que o negócio é feito sem o controlo das autoridades policiais e em que faltam regras exigentes que protejam os consumidores. É urgente que o sector não se transforme numa "selva"...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Wolfgang Munchau põe Grécia e Portugal no mesmo "saco"...porquê?

1.O conhecido articulista do F. Times Wolfgang Munchau, em artigo de opinião publicado na edição de hoje, advoga a “falência” de Portugal e da Grécia dentro do Euro, para evitar maiores danos, não apenas para a zona Euro como para os dois Países!
2.O mais curioso – ou desolador, consoante o ângulo de análise que queiramos adoptar – é que no artigo em que advoga essa solução, intitulado “Why Greece and Portugal ought to go bankrupt”, Munchau dedique cerca de 99% do espaço a analisar a situação dramática em que a Grécia se encontra e que, na sua opinião já não tem outra saída que não seja, quanto mais tarde pior, a “falência” e a consequente saída do Euro...
3....e ao chegar ao final do artigo, numa súbita inspiração, quando rebate a opinião dos que advogam a saída imediata da Grécia da zona Euro (necessariamente com default no serviço da dívida) e a utilização dos fundos (que seriam utilizados na operação de apoio à Grécia) para salvar Portugal, Munchau diz discordar desta opinião, considerando que será melhor deixar que ambos os países entrem em "default" embora permanecendo na zona Euro...
4.Para além da evidente contradição que consiste em, na parte inicial do artigo, Munchau sustentar a saída Grécia da zona Euro - dizendo mesmo que deverá ser essa a opção do próximo 1º Ministro grego - e na parte final, sustentar a falência do País sem abandonar o Euro, Munchau mostra-se muito castigador em relação a Portugal...
5....pois, sem outros argumentos que não seja “my personal belief”, ele conclui que “it would be best to recognise the desolate state of both countries, to let both default inside the monetary union and then use a sufficently increased rescue fund to help them to rebuild themselves...”!
6.Decididamente, Munchau assume neste artigo um papel “mauzão”, enfiando Portugal e a Grécia no mesmo "saco", sem qq preocupação de justificar tal opção...o que explicará esta súbita má disposição de Munchau em relação a Portugal?
7.Será Munchau adepto do Chelsea, tendo aproveitado este artigo para destilar toda a sua frustração pelo insuficiente desempenho do treinador português que está conduzindo o clube para uma posição de mediocridade? Será?

Ainda Garzón

A propósito deste post em que o Professor Massano Cardoso reflete sobre a sentença de que foi alvo o juiz Garzón, gerou-se uma interessante troca de impressões. Confesso que o assunto mexe muito comigo, pois aborda a questão da própria essência da ideia de Justiça. Por isso, reproduzo o comentário me suscitou o debate travado a propósito:

"Perdoem-me meter o bedelho em tão interessante debate, mas não resisto.
Compreendo bem os sentimentos que provoca a condenação de alguém que se fez notado como campeão das liberdades e perseguidor implacável da injustiça, mesmo daquela que quase se perdeu na memória coletiva. Tenho a minha opinião sobre os magistrados que atuam como o juiz Garzón tem atuado ao longo do tempo, em defesa de valores que julgo universais. Essa, porém, é outra conversa que não deve ser convocada quando se pondera a decisão de que foi alvo.
Segundo o que li, o juiz Garzón foi levado a julgamento porque terá ordenado a interceção de comunicações entre suspeitos de crimes de corrupção e os seus advogados. Tal facto foi provado em Tribunal. Não li uma linha que fosse protestando por não ter sido dada ao juiz Garzón a garantia de demonstrar o contrário. Isto é, que não mandou escutar quem sabia que não poderia ser escutado porque confiava na proteção da lei (constitucional, neste caso). Nada aponta, pois, para um cenário em que não foram dadas ao juiz Garzón as mesmas garantias de defesa que o próprio Grazón deveria assegurar se fosse ele a julgar e quisesse cumprir a lei.
Também não me apercebi de qualquer clamor público pelo facto de o julgamento a que Garzón foi submetido ter sido manipulado em relação à prova produzida ou viciado por qualquer outro fator, decorrendo sobre o império de principios e normas processuais e substantivas próprias de um Estado de Direito que Espanha é.

Sendo assim, não posso deixar de escrever isto: usar o poder de mandar intercetar conversas entre arguidos e seus advogados é uma falta gravíssima, qualquer que seja o crime que esteja em investigação. Agravada, como sempre é, pela qualidade de quem a cometeu - um juiz, que tem a obrigação como nenhum outro cidadão de conhecer os limites que a lei lhe traça. A mesma lei que o juiz invoca quando ele próprio assume a sua condição de juiz das liberdades e em nome dela investiga, arquiva, condena ou absolve os seus semelhantes.

Vejo por alguns dos comentários que há quem tenda a considerar válido o comportamento faltoso de um juiz quando o crime que investiga é supostamente de maior gravidade do que a falta que ele próprio, juiz, comete ao violentar (não só violar) uma garantia basilar do Estado de Direito.
Perigoso entendimento este, pois, na prática, equivale a reconhecer ao juiz o poder que nem o legislador tem: o de criar a lei para o caso concreto, segundo o seu livre arbítrio.
Há pouco tempo gerou-se em Portugal uma corrente na opinião publicada (e não só) legitimando idêntico procedimento de magistrados portugueses a propósito da investigação de um processo agora na fase de julgamento. Não levo as mãos à cabeça por serem muitos os que vejo assim pensar. Reconheço que os tempos não favorecem que se olhe para além dos casos individuais, relatados pelos media no mesmo registo das telenovelas. Mas entristece-me perceber que esta visão está a fazer o seu caminho, preferindo-se o justicialismo coevo do populismo reinante, à Justiça que, para o ser, se tem de nortear por valores estáveis e indiscutíveis. Que não pode variar nos seus critérios e nos seus desígnios por que o juiz se chama Garzón ou o suspeito Sócrates ou Aristóteles.
Desejo que quem pensa assim, decerto animado pelos mais nobres sentimentos e perceções, jamais sinta na pele as consequências trágicas de prevalecer esse entendimento no dia em que for objeto de torpe suspeita e investigado por ela!

Chocam-me os horríveis crimes do franquismo. Tal como me chocam as matanças determinadas pela república. Enoja-me a maldade que povoa a mente de homens como Pinochet que Garzón quis perseguir em nome da ideia de Justiça. Mas ai de nós quando na constituição não escrita das convicções coletivas passar a vigorar a ideia de que a justiça não tem de ter na lei - na sua letra e na sua razão de ser - um mínimo de tradução. Quando pensarmos assim, começamos por consentir tudo ao juiz; e acabamos, inexoravelmente, por admitir que todos somos juizes, tomando em nossas mãos a justiça que julgamos que deve ser feita".

Notícia surpreendente? Só para quem se deixa iludir...

Foram muitos os milhões de euros gastos na informatização da justiça. Desmaterializou-se a maioria dos processos. No discurso oficial tratou-se de uma revolução. Com os meios informáticos ao serviço da justiça não só se dava como certa a diminuição dos tempos, como se facilitaria a relação dos interessados com as instituições judiciárias e dos agentes da justiça entre si. Quanto aos tempos da justiça, não vale a pena escrever muito. Aqui e ali reduziram-se algumas pendências. Mas o tempo médio de solução dos problemas da vida que a justiça é chamada a resolver não sofreu alteração para melhor, pelo menos de forma sentida pelos cidadãos. Pelo contrário.
No plano da poupança de recursos, esta notícia é significativa. Em 2011 aumentou-se a despesa em papel e consumíveis para impressoras e fotocopiadoras em 2,6 milhões de euros. Aos poucos e poucos vai-se percebendo qual o custo real das reformas que parecem ter como única explicação a promoção política de quem as promove.

Os livros têm o diabo no corpo



É sempre o mesmo dilema, como é que se arruma uma estante? De todas as coisas que se vão amontoando numa casa ao longo da vida, a estante dos livros é talvez a mais representativa da vivência dos seus habitantes. Ao princípio parece enorme, os livros organizam-se à larga, estão quase todos novos, de casa dos pais vieram só os preferidos, os “nossos” foram chegando a pouco e pouco. Depois há uma altura em que temos que dividir os espaços, este lado é o teu aquele o meu, não mistures tudo porque depois nunca encontro o que procuro. O espaço é cada vez mais apertado, as vagas de livros sucedem-se e a evolução das preferências ou da curiosidade de cada um também, os mais antigos são empurrados para o alto, onde só se chega com o escadote, mesmo assim há os que nunca cedem o seu espaço de honra, os preferidos, os que podemos querer reler, os que consultamos com frequência. Essas fileiras, as dos preferidos, sofreram várias erosões à medida que as crianças cresceram e tiveram interesse em os ler, empresta-me este, posso levar aquele, primeiro migraram para a estante delas, muitos migraram já para as casas respectivas, ainda me custa encontrar livros novos no espaço cativo de alguns dos meus favoritos. Ao fim de umas décadas na mesma casa, para além de estantes suplementares na arrecadação onde jazem as vitimas das sucessivas arrumações e novas definições de prioridades, uma estante é um verdadeiro retrato dos habitantes da casa, mostra os seus gostos, a sua sensibilidade, os autores que mais os marcaram, um certo caos cultural ou uma tendência firme por certos temas, enfim, é todo um pequeno mundo ali a espreitar e a mexer-se, sob a enganosa capa da imobilidade. Parecem muito quietos, os livros, mas se os tiramos do sítio sai-lhes o diabo do corpo, as memórias saltam de repente e nós andamos de um lado para o outro atrás delas.
Por isso arrumar uma estante é sempre uma complicação, lembras-te deste livro, já viste a dedicatória, estava em tal emprego quando o comprei, ou em tal sítio, este foi o meu pai que o trouxe, aquele foi o teu pai que mo deu, aquele custou uma fortuna, estes trouxemos das viagens que fizemos, já nem lembrava, deixa esse, não mudes, esse sim, pode ir lá para cima, esse não, esse para que o queres, e quando não nos lembramos começamos a folhear e lembramo-nos logo, ah, já sei, é mesmo interessante, queres ouvir um bocadinho?, e assim se passa a tarde toda de domingo, os livros todos espalhados no chão, a pilha dos que são para sair ainda tão pequena e os que são para ficar, mais os que andavam por aí espalhados pelos cantos, fazem um monte enorme. Fiquei angustiada com as escolhas, não gosto de me separar dos meus livros, nem sequer de os mudar de sítio, gosto deles assim caóticos, nunca consegui organizar por autores, ou por temas, ou seja lá pelo que for a não ser por gostar mais ou menos deles, ou de quem mos deu, ou pela memória que despertam. Dá-me um secreto prazer que a minha metade da estante seja um enigma para os outros, uma balbúrdia, como dizem os entendidos, pois sim, mas é assim que eu gosto.
De modo que fiz uma bela tentativa de organização, tive um trabalhão e acabou tudo mais ou menos como estava, tirando uma dezena de novos que entraram e de antigos que saíram, mas ainda não me convenci a separar-me deles, mais uns dias e ficam em segunda fila, e volta tudo ao mesmo.

Ainda bem que decidi ir fazer biscoitos ao fim da tarde, estava a precisar de me distrair.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"Escadaria de almas"


Sábado. Manhã de sol de uma primavera serôdia. Movimento pouco usual na praça. Cavaletes, pintores, batas sujas, cada um para seu lado. Depressa apreendi estar perante uma sessão de pintura ao ar livre. Há mais gente? Sim. Andam dispersos por aí. Vasculhei alguns quadros em que pinturas embrionárias denunciavam os novos seres, para o efeito bastava projetá-las nos espaços envolventes. Quando terminam? Lá para o fim da tarde estão prontos para serem expostos. Não foi difícil adivinhar que cada artista tinha escolhido as melhores e, também, as mais previsíveis paisagens.

À hora aprazada fui ver o resultado. Alguns mais elaborados, outros menos, mas de qualquer modo demonstrativos de um esforço artístico. Houve entretanto um quadro que me atraiu de imediato, pela técnica, pelo calor e pela forma de abordar a paisagem envolvente. Não sendo da terra, era a primeira vez que a visitava, conseguiu fugir ao apelo dos espaços mais atraentes e fixou-se em pormenores laterais. Precisamente a parte lateral da igreja, focando a escadaria de acesso à mesma, e algum arvoredo, que outrora foi muito mais rico e diversificado. Não a abordou de frente e se o fizesse decerto surpreenderia qualquer um, porque a frontaria é de uma elegância única espraiando-se até infinito, oferecendo os seus olhos e corpo aos raios solares que no final da tarde devem sentir um prazer único em a acariciar. E mesmo nos dias em que não acordem, a sua beleza emana raios de felicidade, retribuindo calor, como se fossem cartas de amor ao deus sol, ou à deusa lua, ou a quaisquer almas que nas trevas da noite necessitam de algum calor. Mas não, fixou-se na lateralidade do templo.

Estranho. Por que razão terá focado aquele ângulo, questionei-me. Poderia ter-lhe perguntado, mas já se tinha ido embora. Veio cedo, deixou-se impregnar por algo que lhe chamou a atenção e, ao fim de algumas horas, a gestação estava concluída, parindo um quadro que não deixo de mirar todas as semanas.

Gosto do jogo de sombras, da luminosidade, da frescura da verdura, das cores das folhas dos arbustos, mas sobretudo do pormenor da escadaria. Ao longo dos séculos foram calcadas por inúmeras almas, vivas e mortas, muitas subiram com alegria e emoção no coração, outras com desconforto, ansiedade e tristeza, mas houve, também, quem as descesse com lágrimas de dor no rosto ou com pérolas de alegria nos olhos.

Os episódios que testemunhei ao subir e ao descer aquelas escadarias, corroídas pelo tempo, pela dor e pela raiva, mas também perfumadas pela alegria, pela esperança e pelo amor, emergem como magia sempre que olho para o quadro, muito mais realista. Se o pintor tivesse pintado a igreja de frente ficaria seduzido pela sua beleza e estética, esquecendo o significado de algo que representa a alma coletiva de uma comunidade.

O pintor não se deixou seduzir pelos belos recantos da localidade, atreveu-se a capturar almas, muitas almas, perdidas e achadas.

Whitney Houston: The Voice

Morreu Whitney Houston. Ontem, 11 de Fevereiro de 2012, aos 48 anos de idade, em Los Angeles, onde se encontrava para assistir à cerimónia dos Grammys (os Óscares da música) que hoje se realiza. Pouco me importam as razões da sua morte: ainda não consigo acreditar...

Dois anos mais velha que eu, lembro-me bem quando apareceu, com 21 anos, em 1985. Uma beleza arrebatadora (muitos dizem que, se quisesse, podia ter sido modelo), uma voz inigualável. Poderosa e vibrante, mas ao mesmo tempo suave e aveludada, percorrendo várias oitavas. Como nunca tinha ouvido.

Daí até meados dos anos 90, foi sempre a somar. O seu álbum de estreia, “Whitney Houston”, foi o primeiro mais vendido de sempre por uma cantora. Ganhou 415 prémios durante a sua carreira, entre Emmys, Grammys, Billboard Music Awards, American Music Awards e muitos outros. São vários os sucessos inesquecíveis, muitos deles “números 1s”. Desde Saving All My Love For You (o primeiro “número 1”), a Million Dollar Bill, de 2009, o seu último sucesso. Permitam-me nomear apenas aqueles que considero os seus três melhores temas e enormes êxitos: I Will Always Love You, o tremendo sucesso do filme The Bodyguard em que contracenou com Kevin Costner; o hino à dança I Wanna Dance With Somebody (Who Loves Me) e a verdadeira obra de arte que é Greatest Love Of All. Recordo a sua actuação numa homenagem a Mohammed Ali em que a sua interpretação de Grestest Love of All é memorável, de cortar a respiração. Bem como a sua fabulosa interpretação de The Star Spangled Banner no Super Bowl XX% em 1991, que levou à edição comercial do single e guindou o hino norte-americano, pela primeira e única vez na história, ao top 20 dos singles mais vendidos nos EUA.

Não exagerarei se disser que foi o seu tumultuoso e violento casamento com Bobby Brown, em 1992 – do qual nasceu uma filha, Bobbi Kristina (1993) –, que a retirou progressivamente do pedestal, levando-a a refugiar-se no consumo de drogas e álcool que lhe arruinaram a voz. Mesmo depois do previsível divórcio, nunca mais se recompôs. Tive a oportunidade de a ver ao vivo em 1998, em Lisboa, e em 2010, em Londres. Em ambas as ocasiões, pude constatar, com tristeza, que a sua voz, embora continuasse poderosa, já não apresentava a versatilidade nem a pureza dos anos 80 e início dos anos 90. E que o seu físico estava também frágil, desgastado.

Como ainda nesta madrugada dizia o locutor da CNN que fazia a reportagem sobre a sua morte, não tinham que lhe ter dado quaisquer informações sobre Whitney Houston. Ele tinha crescido a ouvi-la, sabia tudo sobre ela. Não precisava de coros, dançarinos, grandes orquestrações ou produções: nos seus anos memoráveis, bastava-lhe abrir a boca, e a música aparecia, como que por encanto. Posso fazer minhas estas palavras – e acrescentar que tenho todos os seus álbuns e singles, verdadeiras preciosidades que a imortalizarão.

Existem muitas vozes femininas excepcionais, cada uma à sua maneira, que muito aprecio. Mas a voz da verdadeira Whitney, aquela que vale a pena ser lembrada, era inigualável. Como ainda há pouco ouvi Gladys Knight dizer na CNN, nunca mais haverá outra voz como a de Whitney Elizabeth Houston, de seu nome completo. Para mim, The Voice. Obrigado pela voz e pela música, Whitney. Rest In Peace.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Mofo e mais mofo!

Carvalho da Silva continua a ser entrevistado por tudo o que é comunicação social.

Mas, depois de 25 anos a falar ininterruptamente, o que é que o homem pode dizer de novo?

Nada muda na nossa comunicação social: sempre os mesmos comparsas e as mesmas ideias, num imparável círculo fechado. Nada areja. Mofo e mais mofo, por todo o lado.

Garzón

Li hoje a reação de Garzón a propósito da sua condenação.
Garzón é um cavaleiro que luta por princípios nobres através da justiça, mas esta só é justa até um certo ponto. Há um limite para a justiça nobre. A justiça perde a nobreza a partir de um determinado momento. A falta de nobreza da sociedade humana, digam o que disserem, façam o que quiserem, mandou, manda e mandará neste planeta. Sendo assim, nas esferas mais elevadas, a justiça ajusta-se à verdadeira natureza da sociedade. Não presta. O único aspeto positivo do comportamento dos Garzóns é criar a ilusão de que tudo isto um dia mudará. Uma simples ilusão, nada mais, mas que, mesmo assim, nos ajuda a "passar o tempo" de uma curta existência. Viver é apenas um passatempo, muitas vezes doloroso, entremeado de algumas agradáveis ilusões.

Cristo "pescador de almas"


Há anos, no regresso de uns curtos dias de férias a Castela e Leão, guinei inesperadamente quando li a tabuleta a indicar Sabugal. Sempre desejei conhecer aquela vila. Como nunca se tinha atravessado nas minhas deslocações profissionais, pensei, é hoje. Senti que lhe tinha de prestar vassalagem. Não me arrependi, nem poderia, perante a carga histórica que lhe está associada. Efetuei um pequeno périplo, almocei e fui até ao castelo. O dia escaldava. Cheguei a pensar que o diabo, se passasse por aquelas bandas, deveria sentir-se bastante incomodado.

A beleza do local aliada ao silêncio do auge do verão empurraram-me para tempos remotos, provocando-me uma sensação agradável. Certos ambientes ajudam-me a viajar no tempo. Viagens que não desgosto de fazer. Lembrei-me do poeta, aventureiro, herói e brigão Brás Garcia de Mascarenhas, autor do "Viriato Trágico", que ali foi aprisionado como traidor à pátria. Uma vida fascinante, começada em Coimbra quando feriu gravemente um nobre por ter traído um amigo, coisas de saias. Preso, conseguiu fugir. Depois foi um corrupio por esse mundo fora e por cá, também, que digam os castelhanos. Lembrei-me do episódio em que com linhas, agulhas, tesoura, farinha de trigo e um livro religioso para consolo da alma, que o governador, condoído, lhe emprestou, conseguiu, recortando e colando as letras, escrever ao rei a originalíssima carta expondo a sua situação. O soldado enviado por um amigo levou-a à corte. D. João IV mandou, naturalmente, libertá-lo.

Ao sair do castelo, apetrechado com uma série de livros sobre a localidade e romances de autoria de pessoas ilustres da terra, cujos nomes e feitos deverão limitar-se ao concelho e zonas vizinhas, mas que nem por isso deixam de ser verdadeiramente importantes, tropecei numa pequena loja recheada de muitos e interessantes artigos, desde pedras parideiras até imensos artefactos hebraicos. Bem visto as coisas não era de espantar, já que naquelas zonas os judeus encontraram algum sossego durante pelo menos algum tempo. A senhora reparou na minha surpresa e, delicadamente, levou-me até ao piso inferior onde tive oportunidade de ver uma velha casa hebraica com sinais e locais destinados ao culto. Passei um bom bocado da tarde na conversa. Antes de sair chamou-me a atenção, no meio de muito material judaico, duas imagens em barro, um Cristo na cruz, muito efeminado, diria mesmo provocante e um Cristo sentado num estranho banco, que não se conseguia por em pé, com uma rede nas mãos, muito ocupado a apanhar almas, estas representadas por pequenos peixes. Riu-se, eu também, Cristos naquele local? Ao pegar no "pescador de almas" senti-me atraído pela sua beleza e arte. Ao fim de algum tempo, disse-lhe para que o empacotasse. Embora não fosse barato não discuti o preço. Naquele momento lembrei-me de um conselho que um judeu me deu há longos anos, não há dinheiro que substitua o prazer de uma obra de arte. Pois é, desde que haja dinheiro! Enfim, ao fim de algum tempo já não me recordava do preço.

Não sendo um estudioso da Bíblia lembro-me que a passagem que faz referência aos "pescadores de homens" marca o início da convocação dos primeiros apóstolos, quando Cristo arrebanhou Pedro, André, Tiago e João, oficiais da pesca, para se colocarem ao serviço da sua doutrina. "Farei de vós pescadores de homens". Pena foi que ao longo do tempo muitos dos "pescadores de homens" se tivessem transformados em "caçadores de homens". Naquele local sentia-se essa violação dos princípios cristãos.

Olho para o meu Cristo "pescador de almas", que não se equilibra, tenho de o encostar à parede, de semblante baixo e preocupado a olhar para a rede onde algumas almas escamosas se encontram presas.

Liberto-as ou não? Julgo que é o que está a pensar!

Nunca mais se decide! Não faz mal. Eu espero.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Reformas

É muito difícil em Portugal introduzir mudanças, as tais reformas estruturais por que todos reclamam. Mas não o é menos a absoluta necessidade de estudar bem as mudanças que se projetam, fazê-las assentar em pressupostos que podem não ser inabaláveis ou indiscutíveis, mas que são lógicos, fazem sentido, são coerentes com o diagnóstico. E depois medir bem os efeitos, todos os efeitos. A pressa de apresentar resultados, seja por que existe esta irresistível pulsão de mediatizar o que não passa de mera intenção, ou por incapacidade de explicar, externamente, de que é sábio o provérbio que nos diz que "depressa e bem não há quem", gera vezes de mais uma sensação de descrédito nas propostas.
Creio que uma destas coisas está a acontecer com as propostas de reforma da justiça. Se é evidente que as corporações vão reagir a qualquer mudança, mais óbvia se torna a necessidade de não ensaiar soluções mal medidas. Tão mal medidas que não resistem às críticas fundadas de entidades externas ao sistema de justiça.

Dívida das Câmaras, se for bem explicada, tem pouco significado...

1.Ora aqui está uma declaração que nos deve merecer especial simpatia. Terá sido ontem proferida pelo cordial e dinâmico Presidente da ANMP, tb Presidente da Câmara de Viseu...
2.Na sua simplicidade, sinceridade e autenticidade, esta declaração pode constituir um “template” de grande potência para muitas outras situações de endividamento e ajudar, quiçá de forma decisiva, a resolver o problema do excessivo endividamento do País, que tanto nos tem consumido...
3.Na verdade, não poderá esta mesma conclusão ser aplicada a múltiplos sectores da actividade em Portugal? Dou alguns exemplos:
- A dívida das PME’s, se for bem explicada, pode ter pouco significado;
- A dívida das Empresas Públicas (EPE’s), se for bem explicada, também pode ter pouco significado;
- A dívida dos Hospitais (EPE’s), se for bem explicada...
- A dívida das Fundações....
- A dívida das Famílias....
- A dívida do Estado - Administração Central...
- A dívida das Regiões Autónomas (Madeira “à la tête”, evidentemente)...
- A dívida dos Clubes de Futebol...
...e assim sucessivamente!
4.Estranho que não tenha ainda ocorrido, "a quem de direito", fornecer estas explicações, de forma convincente, ao FMI e à União Europeia – à Troika, para ser mais simples – o que poderia ter evitado tanta complicação e tanta medida de austeridade...
5.E também aos mercados/agências de rating, poderíamos ter sido capazes de vender uma boa explicação sobre a virtuosa origem de todas as dívidas que em Portugal foram geradas ao longo dos últimos anos - concluindo que as mesmas têm, no final de contas, pouco significado face ao imenso benefício que proporcionaram...
6. É muito possível que tanto mercados como agências de rating estejam disponíveis para mudar radicalmente de posição/opinião em relação a Portugal, quando receberem tal explicação...
7.Não teremos aqui o que se pode chamar um “ovo de Colombo”, para resolver a nossa crise financeira? Não acreditam? Alguma coisa deve ser feita...
8.Talvez o Governo possa solicitar ao Presidente da ANMP que prepare, com tempo e em detalhe, um plano explicativo do “Pouco Significado dos Endividamentos Sectoriais e Nacional” (PSESN), propondo-lhe em seguida assessoria permanente nas negociações com a Troika.
9. Quem sabe se não iríamos abrir uma nova era no processo de regeneração financeira do País, alterando radicalmente o PAEF e conseguindo realizar os mesmos objectivos? E sem dor nem irritação, como dizia um velho “spot” publicitário?...

A sentença

Há juízes assim, sensíveis aos dramas psicológicos e atentos à manifesta incapacidade de exprimir sentimentos.
Deu-se o caso na Califórnia, em que o réu, um homem de 47 anos e sem cadastro criminal, ia acusado de violência doméstica, por ter agredido e deitado as mãos ao pescoço da mulher quando ela protestou por ele não se ter lembrado de que era o dia de aniversário dela.
Como toda a gente sabe, ignorar o aniversário da mulher é um ato de grande alarme, uma autêntica prova de desamor se foi puro esquecimento ou um desafio insolente se com isso pretende demonstrar até que ponto anda descontente com a relação. Digo isto porque uma pessoa que seja indiferente a esse ponto já não tem emenda, se o marido se esquece e a mulher não o faz notar então faz de conta que já não vivem juntos, nada a salvar.
O juiz terá ouvido o relato dos factos e lá deduziu que nem ela gostou de ser ignorada nem ele gostou de se ver criticado pela indiferença, tratar-se-ia assim de um caso de incapacidade de expressão de sentimentos positivos, uma liçãozinha de sentimentos de pernas para o ar, digamos assim, devias ter-te lembrado dos meus anos, não me lembrei o que é que queres, não sei porque é que te aturo se nem dos meus anos te lembras, não quero mais conversas dessas, vou falar disso até me apetecer, e por aí fora até ao desastre.
Podia ter sido assim, não sei, mas acabou mal, ele perdeu a cabeça e bateu-lhe, quase a estrangulou com a fúria, o juiz é que teve que apreciar a questão e avaliar a punição. E decidiu que se calhar o melhor era ensinar ao homem uns básicos sobre como-demonstrar-que-se- quer-bem, então do que é que a sua mulher gosta, de bowling, e restaurantes, há algum que prefira, o homem a rir-se, enfiado, a recear estar a ser troçado, diga lá, o Lagosta Vermelha, pois muito bem. O senhor vai sair da prisão, vai comprar flores à sua mulher, arranja-se, leva-a ao Lagosta Vermelha e depois vão jogar bowling, ouviu? Vai fazer assim e acabou-se.
Todos na audiência estavam pasmados, a segurar o riso, o juiz é ridículo, mas o juiz manteve-se sério, talvez tenha tido pena da rudeza bruta do homem, talvez tenha acreditado no que a mulher disse, que estava disposta a perdoar. Lá achou que valia a pena um pouco de pedagogia, menos lei e mais lição de vida.
O homem saiu condenado a aprender a tratar bem a sua mulher, a mostrar que lhe quer agradar, pode ser que descubra que não é assim tão difícil tentar, pequenos gestos, pensar no que ela gosta, dar importância ao momento. E ela estranhará, talvez fique a pensar que ele só o faz para não ir preso, talvez até lho diga abertamente, quando o vir todo bem arranjado a estender-lhe desajeitado o ramo de flores, só fazes isso porque senão ias preso, talvez ele contenha o impulso de a esbofetear de novo por ela teimar em o criticar de novo por falta de amor, talvez ele se lembre do juíz e lhe diga, simplesmente, faço isto porque gosto de ti.
Talvez a sentença faça História, quem sabe? Às vezes os grandes problemas têm soluções bem simples.

Íris

Nomes. É preciso dar um nome a tudo e a todos, sem nomes caímos no anonimato e com nomes morremos, geralmente, como anónimos. Afinal para que servem os nomes? Para criar a ilusão de que existimos, sem eles não seria possível viver ou fingir que se vive. Olho para o lado e vejo sede de nomes, todos têm um, ou mais do que um, mas para quê? Para escrever numa lápide, que o tempo se encarregará de apagar, gozando e desprezando as almas que acreditaram que viver valia alguma coisa. E se não for uma lápide, pode ser uma folha de papel, uma carta de amor ou uma crosta de uma árvore, todos desejosos de eliminar o que quer que seja, e conseguem-no. Os nomes foram criados para um destino fatal, serem esquecidos, e mesmo os que teimam em perpetuar-se não perturbam os seus donos, porque estes esqueceram-se de que um dia existiram.
Não há nada mais gratificante do que o desaparecimento de um nome. Quando isso acontece é como se nunca tivesse existido, e quem não existe saboreia uma felicidade impossível de descrever.
Nasce uma estrela e dá-se-lhe um nome. Descobre-se um calhau perdido no espaço e apressamo-nos a dar-lhe uma designação, seja compreensível ou não, mas é imperioso que a tenha, porque se não tiver não existe, logo, para existir é preciso ser-se batizado. O mesmo acontece com os humanos. Nasceu, tem de ter nome. Depois é uma questão de imaginação, de gosto, ou de o que quer que seja. Nome? Sem nome não há existência, apesar de ter havido momentos em que existiram seres sem nomes. Olhavam-se e reconheciam-se. Depois verbalizaram fonemas, e os "hugs" e "hogs" deram lugar à constelação galática dos nomes atuais.
Teve uma menina? Parabéns. Teve um menino? Parabéns. Quantos filhos tem? Como é que se chamam? Perguntas banalíssimas que nunca ficaram, até hoje, sem respostas. E, além de mais, propiciam uma nítida explosão de orgulho, basta ver o olhar e ouvir o timbre de voz que mudam radicalmente. Íris. Íris? Porquê é que escolheu esse nome? Andei a fazer pesquisas. Pesquisas? Onde? Na internet, claro. Queria escolher um nome pouco vulgar, que não andasse por aí aos montes, que fosse diferente, raro, que marcasse a diferença entre a minha filha e as filhas dos outros. Calei-me. Não comentei e prossegui nas minhas tarefas habituais. Não tenho nada contra o nome Íris, que me fez lembrar de repente, o olho, e quem, por acidente, a tivesse perdido e causado uma angústia ainda hoje não resolvida, ou o velho deus egípcio, Osíris, sim, os deuses para existirem, também, têm de ter nomes. Diferença? Ser-se diferente? E logo à nascença? Alguma tendência nobiliárquica que até os plebeus não conseguem esconder? Às tantas! Diferenças à espera de serem esbatidas, de adormecerem e, finalmente, acabarão por ser esquecidas..
Uma pequenina fração de tempo é mais do que suficiente...

Baixa informação e baixa política

Há muito sabemos que a comunicação social se rege por leis próprias e se louva em comportamentos que condena no comum dos cidadãos.
As escutas estão proibidas por lei, a não ser com expresso mandato judicial. Não para a comunicação social que, aproveitando ilicitamente os acontecimentos que cobre, capta conversas pessoais ou particulares, através de microfones sofisticados e da imagem abusiva. Capta e difunde, o que significa uma total conivência das hierarquias das redacções na ilegalidade.
Ontem e hoje foi amplamente difundida uma dessas conversas entre o Ministro português das Finanças e o seu congénere alemão.

Se tal critério editorial é criticável, mais digno de censura é o aproveitamento que o Secretário-Geral do Partido Socialista dele está a fazer. Não já pela adulteração da conversa, entrando por um processo de intenções, lamentavelmente cada vez mais habitual nos políticos (no caso, o ministro português limitou-se a receber uma mensagem do ministro alemão), mas sobretudo pela utilização de uma ilegalidade para fazer política. Baixa política.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"O senhor doutor toma medicamentos?"

Entrou no consultório com ar displicente. Via-se que vinha um pouco contrafeito; se não fosse obrigado não punha os pés para aturar estas coisas. Confessou que tinha tido algumas crises desde a última vez, mas tinha deixado de tomar a medicação. A conselho do seu médico assistente, perguntei um pouco ironicamente. Não, fui eu que decidi. E qual a razão? Não gosto e não me apetece tomar drogas. Mas elas são importantes e muito úteis e se não corrigir os seus problemas pode vir a ter complicações graves. A conversa continuou, mas depressa tive de lhe dizer que cada um escolhe o que achar mais conveniente, embora me sentisse desconfortável com tamanha atitude, que quase diria ser matéria de "fé", ao não acreditar e não gostar de medicamentos. E no que toca a "matéria de fé", entendo não me imiscuir, pelo que dei por terminada a conversa, embora tenha continuado com o exame. No final disse-lhe quais os problemas que tinha detetado.
Vi que ficou um pouco incomodado e perguntou-me se eram graves. Graves? Não, o que me preocupa, e muito, é a sua atitude mental que pode ter graves consequências no futuro, mas a este propósito estamos falados.
Não deve ter gostado da minha observação e, arrogantemente, perguntou-me, o senhor doutor toma medicamentos? Como quem diz, mandas tomar aos outros, mas tu não os tomas. Interpretei aquela interpelação como tendo sido um soco à maneira e, já que queria luta, retirei do bolso esquerdo do casaco, blisters e uma caixa com comprimidos. Espalhei-os em cima da secretária, ao mesmo tempo que do bolso interior retirava canetas-seringas, lançando-as à sua frente. Tomo! E não é pouco, disse-lhe com uma valente oitava acima do habitual, denotando alguma irritabilidade própria de um temperamental em declínio. Ficou de boca a aberta, contrapondo, mas se fosse há uns anos não os tomava, deduzi que para ele na altura não existiriam, talvez não, mas também já não estava vivo e se estivesse não teria a qualidade que desfruto e espero continuar a gozar nos próximos anos, trabalhando com afinco. Percebeu? Tive a nítida sensação de o ter posto a K.O. Enquanto enchia os alforges com a traquitana dos medicamentos, disse-lhe, sem levantar os olhos, bom-dia, passe bem. Ao sair, ouvi-o dizer, em voz baixa e sem arrogância, obrigado senhor doutor. Fiquei com a sensação de que ia confuso com toda aquela cena. Gostaria de acreditar que tivesse ocorrido alguma mudança de atitude naquela cabeça. Talvez tenha acontecido, não digo que não, mas, para ser sincero, começo a estar farto de certos militantes.

O inaceitável paternalismo de Schulz

Fiquei espantado com as afirmações do presidente do Parlamento Europeu relatadas no ´Publico´. Martin Schulz terá dito numa conferência em que participou, que Portugal caminhava para o declínio. Pensei, à primeira, que se tratava de mais um instrumento desafinado desta orquestra pífia constituída por dirigentes europeus incapazes de acertar no ritmo e no tom. De toda a vez que algum toca, de imediato outro se lhe sobrepõe como aconteceu com o presidente da Comissão que ainda há poucos dias teve de desmentir uma das comissárias que tinha por inevitável a saída da Grécia do eurogrupo quando estavam pendentes dificeis negociações para justamente evitar esse resultado. Mas não. O que motivou Schulz a condenar Portugal ao declínio não foram as decisões ou as omissões de política interna para enfrentar a crise, foi a viagem do PM portugês a Angola. Para ele, Schulz, relações económicas fora da Europa e com países como Angola (e o mesmo deve dizer com a Guiné, Cabo Verde, Moçambique, S.Tomé, Timor e se calhar com o Brasil) são censuráveis e não contribuem para aquilo que, pensavam alguns, Portugal tem de fazer para que o projeto europeu se consolide, isto é, desenvolver-se também à custa dos mercados onde encontra melhores condições para colocar produtos portugueses e assim, por via das exportações, impulsionar a economia, ou obter os recursos que a Europa não tem, ou disponibiliza a um custo muito superior. 

Martin Schulz não é uma personagem qualquer. Preside à única instituição de génese democrática da UE. Sabe, tem obrigação estrita de saber, que os Estados - mesmo aqueles que se encontram sob protetorado financeiro - não alienaram a sua soberania a favor da UE no que às relações externas respeita, desde logo por que a UE sempre se mostrou incapaz de instituir uma política externa comum, mesmo quando em causa estiveram interesses estratégicos e de defesa do espaço europeu. Por isso, só um sentimento inaceitável de paternalismo que se vem fazendo sentir nalguns setores do poder europeu, é que pode explicar esta infeliz tirada do senhor Schulz, a somar às não menos infelizes afirmações da senhora chanceler, sua compatriota, sobre a Madeira.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Chorão

Está frio, adoro o frio, o frio provoca-me e eu não me importo. Ofereço-lhe apenas a face, o resto não, não tem nada a ver com isso. As suas navalhadas despertam um certo gozo debaixo dos agasalhos. Um confronto justo, pelo menos não lhe viro a cara. Caminho na noite. Ao aproximar-me da pequena ribeira começo a sentir a sua humidade, está sempre triste, a chorar, seja inverno ou verão, não sei porque razão um curso de água tão vulgar, tirando os dias chuvosos, consegue furar a pele injetando nos ossos a humidade mais estranha que já senti até hoje. Algum desgosto de amor que ainda perdura nos dias de hoje. Não a recrimino, paro e olho-a com ternura, sinto um certo alento, quero acreditar que as suas entranhas aqueçam um pouco com a minha presença. Estou-lhe grato por fazer parte do meu passado. Ofereceu-me horas de prazer; recordo os seus estranhos cantares, às vezes chegava a gritar de dor, assustava-me, mas os doces murmúrios das noites de verão acalmavam qualquer angústia ou tristeza, sei que queria falar, ainda hoje tenta, mas não consegue fazer-se entender. Deixava que brincasse nas suas águas límpidas com os meus barcos improvisados. Oferecia-me odores inconfundíveis de perfumes naturais que ia selecionando ao longo do seu trajeto pelos campos, e permitia que acariciasse minúsculos peixinhos que corriam como uns tolinhos, mas cheios de felicidade, de um lado para o outro. Durante o curto momento em que parei sobre a ribeira correram no meu pensamento, com uma fluidez hídrica, inúmeros episódios criados em seu redor. Olho em redor e encontro o belo chorão, acabado de ser tosquiado, as suas folhas avermelhadas dão-lhe um ar de quarentona acabada de sair do cabeleireiro. Mais umas semanas e irá rejuvenescer com frondosos, longos, e desgrenhados cabelos a lembrar uma adolescente rebelde, para o efeito a água da ribeira dá-lhe o que necessita, as lágrimas da sua longa e inexplicável tristeza. A alegria de uns alimenta-se da fria tristeza de outros. Um pouco de calor numa noite fria aquece qualquer um, até mesmo a ribeira.

"Escrow account" para a Grécia? É capaz de não ser má ideia...

1.Tem-se revestido de extrema dificuldade a negociação do 2º pacote de ajuda financeira à Grécia, do montante de € 130 mil milhões, atento o registo claramente insatisfatório do País no que se refere ao cumprimento dos objectivos e à aplicação das medidas previstas no PAEF respectivo - com relevo para a significativa derrapagem orçamental verificada em 2011 ( a despesa pública continuou a subir, apesar da aparente dureza das medidas anunciadas...).
2.Neste quadro aparentemente sem saída, a não ser a saída para o abismo por parte da Grécia, a Alemanha e a França terão tido a ideia de utilizar uma “escrow-account” para receber os fundos que vierem (se vierem) a ser disponibilizados ao abrigo do 2º pacote de ajuda.
3.Os fundos depositados nesta “escrow account” seriam utilizados prioritariamente no reembolso da dívida pública grega cujo vencimento ocorra durante o prazo de execução do novo PAEF, sendo a parte restante disponibilizada à Grécia apenas em função do cumprimento (fiscalizado) dos objectivos e demais obrigações inscritos no novo PAEF.
4.Estaria assim assegurado que, durante o período de execução do 2º Programa que vai seguir-se (assumindo que se segue...), a dívida grega, em capital e juros, será paga sem sobressaltos...
5....Sendo também certo que o pagamento da parte da dívida que se vença para além do final do período de execução do Programa, caso este seja um insucesso, não estará assegurado, podendo por isso a Grécia entrar em default nessa parte...
6.Mas a verdade é que este mecanismo, que retira à Grécia a livre disponibilidade dos fundos da ajuda internacional – embora dispense a “tirânica” ideia alemã de retirar competência à Grécia para gerir as suas finanças públicas, uma intolerável violência face às boas provas prestadas por Atenas – assegura que pelo menos durante os 3 anos de duração do 2º Programa um cenário de default estará praticamente afastado.
7. Neste quadro, será possível preparar - com tempo e sem grande agitação - um cenário de libertação da Grécia do jugo feroz do Euro, definindo uma solução para as obrigações gregas cujo vencimento ocorra depois do período de execução do Programa, isto é depois do 1º trimestre de 2015...
8.Não parece pois má ideia, esta da “escrow-account”...e para Portugal tem a vantagem de isolar o problema grego durante um período que nos deve permitir, caso saibamos cumprir satisfatoriamente o nosso estimado PAEF, fazer o regresso aos mercados com “pezinhos de lã”...
9....e tb de percebermos, caso não sejamos capazes de fazer o que nos compete, qual o tipo de tratamento que nos estará reservado...
10.Mais um argumento para darmos atenção ao que diz o Dr. Medina Carreira e não os “papagaios” que diabolizam, sem cessar, o “ultra liberalismo” das medidas de contenção orçamental...

Filho és, pai serás




No filme “O Último Samurai” há uma cena em que o samurai que resiste é feito prisioneiro e aguarda a decisão sobre a sua sorte. A certa altura abre-se a porta da cela e alguém entra e coloca uma espada em cima da mesa, junto ao guerreiro, num convite para que cometa hara kiri. É o sinal, escolhe uma saída com honra, és livre de fazer a tua escolha, morre como um homem ou serás tratado como um desprezível vencido.
Decorre na Holanda um debate sobre a possível legalização do suicídio assistido aos que tenham mais de 70 anos e decidam livremente escolher a morte, independentemente das razões que determinem essa vontade. O agendamento deste debate no Parlamento resultou de uma petição que recolheu mais de 100 000 mil assinaturas num mês. O fundamento será o da “liberdade de escolher”, o direito de cada um assumir que já não vale a pena viver, sendo que essa angustiosa dúvida só terá relevância social a partir dos 70 anos.
Eu gostava de saber quantas pessoas com 70 ou mais anos, ou mesmo com 65, assinaram essa petição, gostava mesmo de saber quantos dos que assinaram tratam dos seus pais ou avós, quantos tiveram a possibilidade de acompanhar com amor o envelhecimento e a decrepitude daqueles que amaram. É que eu nunca vi uma pessoa idosa desejar verdadeiramente morrer, pelo contrário, vi o apego à vida, vi as chamadas de atenção, vi o desejo de serem cuidados quando estiveram doentes. Talvez tenha tido sorte, mas nunca vi tamanho desgosto pela vida, a não ser, por vezes, o da dura consciência do peso que podem constituir para os outros, o que é coisa bem diferente.
Por isso, independentemente das muitas e variadas ordens de considerações que o tema pode suscitar, choca-me muito em especial o pequeno “detalhe” da idade: a partir dos 70 anos. Há suicídios em todas as idades, o desejo de morrer pode ser determinado por tantas circunstâncias ao longo da vida, veja-se as notícias sobre o número crescente de suicídios na Grécia, ou o drama dos suicídios entre os jovens, qual a razão, então, pela qual os defensores desta causa se cingem aos 70 ou mais anos? Qual o problema que, em consciência, sta petição pretende resolver, o dos velhos que se sentem a mais ou o dos novos que não sabem o que fazer com os seus velhos ? Tenho a noção da crueza como formulo a questão mas, na verdade, reconheço neste agendamento o avanço tenebroso de uma consciência negativa em relação aos velhos, a nossa avançadíssima civilização poderá considerar que, assim como há uma idade para a reforma, poderá vir a haver uma idade para morrer. Não será obrigatória, mas será compreendida, ficará implícita a saída “honrosa” para aqueles que não puderam encontrar, depois dessa idade/guilhotina, um sentido para a vida. Li há tempos, já não sei onde, que o grave problema da demografia e do envelhecimento colocariam muito em breve nas agendas políticas a questão do direito a morrer. Começaria por agendas libertárias, invocando os direitos individuais à livre escolha, mas seria impossível estabelecer a fronteira, onde há um direito pode muito bem passar a haver um dever, não te queixes do modo como vives ou sofres, se não estás bem suicida-te, é só pedires!, podemos muito bem imaginar este diálogo futuro entre um filho e um pai, uma versão moderna da tradição samurai ou da que se contava existir entre alguns povos nómadas, quando os velhos não conseguiam já acompanhar as caravanas deviam escolher o momento em que ficavam para trás, ao relento, até serem comidos pelas feras.
Não tenhamos dúvidas, o “direito de escolher morrer” tal como está agora em debate na Holanda, não é mais do que a formulação simpática do “dever morrer”, a agenda política ainda está embuçada no humanismo, na falsa compaixão pelos que carregam o terrível peso de se sentirem vivos e inúteis, mas se têm o direito também têm a opção, a espada do samurai será estendida para evitar a “desonra” da dependência, dos custos com a saúde, da necessidade de afeto atenções ou mesmo, quem sabe, de ser tempo de libertar heranças porque se faz tarde.
É caso para lembrarmos a parábola do velho a quem o filho vai levar para a montanha, para aí o deixar abandonado até morrer. Antes de saírem o filho estende-lhe um cobertor, para não passar frio, e o velho pede-lhe que divida o cobertor ao meio. Uma metade seria para ele levar, a outra para o filho guardar, para quando fosse a vez dele ser levado para a montanha. Filho és, pai serás, assim como fizeres, assim acharás.
A honra e a dignidade dos velhos poderá, num futuro que afinal já está em discussão, resumir-se a uma condenação. E os velhos seremos todos e cada um de nós.