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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um bom sinal


Já aqui deramos como exemplo dos reais problemas da justiça, entre outros, o caso das testemunhas que são convocadas vezes sem conta para depor em tribunal e dispensadas depois de horas de espera, sacrificando o seu tempo ou o tempo que deveriam ocupar a trabalhar, dispensadas quase sempre sem uma palavra do tribunal. O Conselho Superior de Magistratura emitiu uma orientação dirigida aos senhores magistrados no sentido de só serem convocadas as testemunhas que possam ser ouvidas em cada sessão da audiência de julgamento. Simples, tão simples e de tão óbvio senso que custa a crer como é que os senhores magistrados precisam de ser orientados nestas práticas e, se precisam, como é que a orientação chega tão tarde e não tem força de lei. Pode ser que este seja um sinal. Um sinal bom, de que o que está mal na justiça se repara com medidas destas (assim venham a ser respeitadas) e não com reformas "estruturais" que mais não são do que experimentalismos de laboratórios onde pontificam os sábios que nenhuma vivência têm do mundo concreto da justiça. Pode ser...

Quem cabritos vende e cabra não tem...ou os novos poderes soberanos

O domicílio e o sigilo da correspondência e dos outros meios de comunicação privada são invioláveis.
É proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas telecomunicações…, salvo os casos previstos na lei em matéria de processo criminal.
Artigo 34 da Constituição, Capítulo dos Direitos, Liberdades e Garantias
O brutal incumprimento do preceito é diário na comunicação social. Os mails e os telefonemas, obtidos de forma gratuita ou onerosa, vão sendo lançados na praça gota a gota. E quem cabritos vende e cabra não tem de algum lado lhe vem. Com total impunidade.
Lamentavelmente, o medo manietou quem deve zelar pelo cumprimento da lei. Os poderes soberanos cederam aos novos poderes emergentes e não democráticos, que "investigam", "traficam", julgam e condenam.
Com o aplauso de muitos, até de Deputados ao Parlamento, a quem compete um dos poderes soberanos.


Tudo é relativo, até ver

Há uma sabedoria popular que diz que um problema grande resolve-se melhor se se for actuando em cada um dos problemas pequenos que contém de modo a que, a pouco e pouco, tudo vá melhorando. Também há os que, não querendo ou não sabendo resolver nada, se empenham em lutar contra o que não podem de todo resolver, ficando paralisados ou deixando assim que grandes e pequenas dificuldades se transformem num gigantesco problema insolúvel.
A Senhora Lagarde fartou-se que passem o tempo a maçá-la com pequenos problemas, como o dos gregos, a insistir para que perca tempo a olhar para essa farta Europa, quando o que a motiva realmente é resolver os insolúveis problemas de todas as crianças das aldeias mais pobres de África! Parece impossível, paguem os impostos e sejam amigos uns dos outros, é só quererem, recomenda, não a distraiam mais porque o FMI, a que preside, só trata de coisas sérias, de pobreza a sério, é uma contrariedade enorme que a sua obra imensa para salvar os mais pobres do mundo passe menos percebida nos holofotes da abastada Europa, egoísta e cega às desgraças alheias enquanto chora a uma mesa farta, é só irem a uma aldeia do Niger que logo percebem.
Esperemos que C. Lagarde, dedicada aos problemas do universo, consiga salvar as crianças das aldeias mais pobres do mundo e que a pequena questão dos gregos se resolva quando eles começarem a pagar os impostos com o dinheiro que não têm.

domingo, 27 de maio de 2012

"Canibália"

Não tenho nada contra a Daniela Mercury. Considero-a uma boa artista e muito jeitosa. Por acaso, há alguns anos, vi-a atuar ao vivo. Confesso que gostei.
Parece que tem um novo disco, Canibália. Ontem, num programa da RTP 1, "Cinco para a meia-noite", foi entrevistada durante muito tempo. Hoje, agora, neste momento, aparece novamente a senhora no programa do Herman José a ser entrevistada de novo. Em cima da secretária do humorista lá está o CD, e, também, um livro de uma mestre de culinária, parece que é para diabéticos!
Estes programas são formas de publicitar muitas obras de certos autores, de forma descarada ou encapotada. Cada um faz pela vida. Agora, o que eu queria era saber quais os meandros a percorrer para se ser entrevistado por este pessoal. Não é que tenha algum interesse pessoal, mas a mesma senhora em duas noites seguidas? Que grande coincidência, ou, então, que grande trabalho e influência deverão ter certos negociantes...
Lindo país!
E mais não digo o que me passa pela cabeça. Ainda corro o risco de ser preconceituoso ou injusto!

sábado, 26 de maio de 2012

Aos tiros em Quintos de Mora

O subfinanciamento da conservação da natureza e da biodiversidade está a provocar uma verdadeira revolução coperniciana em Espanha. El Pais dá conta da concessão de caça num dos mais emblemáticos parques naturais do país vizinho. A justificação é que se matam dois coelhos com um só tiro: aumentam as receitas à custa do controlo cinegético das espécies. Quintos de Mora era um dos habitats para reintrodução do lince, por exemplo. Reino de águias e outras espécies em risco. Será possível esta conciliação? Duvido. Para Espanha esta medida poderá poupar ao rei umas deslocações sempre perigosas a África. Em Portugal espera-se resistência a maus ventos...

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Do Crescimento oral ao real: que País estranho, este!

1. Esta semana viveu-se um ponto muito alto da história parlamentar com a aprovação, no quadro feliz de um consenso muito alargado, da ansiada Adenda da Agenda para o Crescimento que deverá ser anexa ao chamado “Pacto Orçamental”.
2. Já temos pois a Adenda da Agenda, falta-nos apenas, agora, o Crescimento propriamente dito (o real)...
3. Se este Crescimento fosse o resultado de simples trabalho de oratória – do que muitos dos nossos garbosos parlamentares estão genuinamente convencidos - poderíamos a esta hora estar celebrando uma grande vitória do Crescimento contra a Austeridade, navegando de novo a desejada onda do Crescimento que tivemos que abandonar à pressa e em sobressalto há pouco mais de um ano, em risco de afogamento...
4. Infelizmente, esta concepção essencialmente oral de Crescimento, que uma boa maioria dos nossos parlamentares cultiva, existe mesmo e só para contentamento da classe política, nada tem a ver com o chamado País real...
5. No plano das realidades deveria interessa-nos bem mais considerar, por exemplo, o que se passa no plano da correcção do desequilíbrio (conjunto) das Balanças de bens e de Serviços com o exterior, tema que já aqui nos tem ocupado: esta semana foram divulgado os dados do 1º Trimestre/2012 que evidenciam um progresso muito significativo.
6. Com efeito, o défice conjunto das duas Balanças (Bens+Serviços) foi de € 730 milhões, inferior em 72% ao que se havia verificado no período homólogo de 2011 (€ 2.595 milhões).
7. Esta melhoria resultou, no caso dos Bens, de um aumento das exportações de +11,2% e de uma diminuição das importações de -3,8%, que produziram uma diminuição do défice da Balança de Bens de 44,2%. No caso dos Serviços, o saldo positivo subiu mais de 15% (€ 1206 milhões no 1ºT/2011 para € 1.388 milhões no 1ºT/2012).
8. Estes dados, não permitindo ainda tirar conclusões finais como é evidente, sugerem todavia, com razoável verosimilhança, a possibilidade de assistirmos já em 2012 ao equilíbrio do saldo conjunto das Balanças de Bens+Serviços – só por si, uma quase revolução no desempenho da economia portuguesa.
9. Basta referir, para termos uma noção do que esta mudança significa, que os défices de Bens+Serviços foram, respectivamente, de € 11.809 milhões em 2009, € 11.483 milhões em 2010 e € 5.446 milhões em 2011...
10. Mas, como já se percebeu, no plano mediático - caracterizado pela mediocridade absoluta dos temas dominantes – esta mudança fundamental e “sine qua non” para a estabilização da economia e para a normalização das condições de financiamento da mesma (sem o que qq ideia de Crescimento não passa da triste oralidade), de pouco ou nada vale quando comparada à grandiosidade da aprovação da Adenda da Agenda... Que País estranho, este!

Os pesadores de palavras


A jornalista diz que Miguel Relvas pressionou e ameaçou. E tem todas as edições do jornal para reafirmar que sim.
Miguel Relvas diz que nem pressionou e, muito menos, ameaçou.
A ERC iniciou um Inquérito. O Parlamento pressiona por outro Inquérito.
Palavra contra palavra, não sei que poderão os inquisidores concluir. A não ser que meçam o peso da palavra de cada qual. É isso: no fim, terá razão quem tiver a palavra mais pesada.
À falta de mais ou de melhor trabalho, o pessoal vai-se entretendo a pesar palavras.
A nós o que nos pesa é o que pagamos por esta sofisticada forma de diversão, apresentada como trabalho árduo. Mas com dignidade constitucional, "pour épater le bourgeois"!...


Foi muito mau mesmo

Ao vermos o triste espectáculo do final do jogo da taça de basquetebol, com cenas deploráveis de maus vencedores e piores perdedores, violência e má educação que impediram até que a taça fosse entregue ao Benfica no final do jogo, pensaríamos que seria difícil ver pior. Pois ainda foi possível ver o discurso do Presidente do Benfica, aparentemente em reacção aos acontecimentos, num tom e palavras absolutamente incompreensíveis. E digo incompreensíveis porque não percebi praticamente nada do que ele queria dizer, de tal modo disparou acusações, subentendidos e considerações furiosas supondo que seriam "entendidas" por aqueles a quem queria certamente ofender parecendo que estava a fazer lições de moral. Francamente, não percebo nada de futebol, de basquetebol e, muito menos, dos meandros clubísticos capazes de suscitar tal ódio e violência, e regozijo-me por não saber nem querer saber. É que o que se viu hoje tira a vontade a qualquer um de se interessar, se o clima é aquele, muito mal vai o desporto, que devia ser escola de bons princípios, lealdade e saber ganhar e perder, com os principais clubes a servir de exemplo. O que se viu é terrível e deve ser brutal para todos os desportistas e profissionais que tão bem têm representado o País em competições de alto nível, e para todos os que se esforçam por progredir nas modalidades a que se dedicam e para os adeptos que vibram com as exibições dos seus clubes. Foi muito mau mesmo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fatores que realmente condicionam o crescimento


Olha-se para este quadro e não passa despercebida a relação entre uma maior dilação nos prazos de pagamento e as dificuldades em retornar ao caminho do crescimento. Em Portugal, Espanha e Itália é endémico o atraso no cumprimento das obrigações, com a Administração Pública a dar o (mau) exemplo. Cultura oposta a da Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia, não só na pontualidade do cumprimento mas também (e por consequência?) na capacidade da economia resistir a conjunturas desfavoráveis.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Três mulheres


Não deixo de me surpreender durante as minhas consultas, umas vezes pela positiva, outras pela negativa e, por vezes, pelas lições de vida que recebo. Na mesma tarde, e de forma sequencial, três mulheres ensinaram-me imenso. Trabalhavam todas nas limpezas e já não eram nada novas, mas necessitam de trabalhar para ganhar o pão. A primeira contou-me que tinha tido uma empresa de pintura de cerâmica onde chegaram a trabalhar onze pessoas. Teve que as despedir e foi obrigada a arranjar um emprego. Via-se que a senhora tinha alguns tiques de ter vivido bem. Olhei para o seu pescoço e despertou-me a atenção uma extraordinária medalha em ouro finamente trabalhada representando a Cruz de David e no reverso um menorá. Ao redor frases em português. Perguntei-lhe se era judia. Riu-se, meia. Meia? Explique-me melhor. Afinal era cristã, embora com ascendência judaica. Mas o raio da medalha perturbava-me pela qualidade. Não é muito vulgar tal artefacto em ouro. Explicou-me que foi ela que a mandou fazer a partir de uma medalha de metal que uma senhora encontrou para os lados de Ílhavo. Mandou fazer uma réplica. As frases, em português, palavras de Deus, eram um estímulo de esperança no futuro. Curioso, uma medalha com motivos hebraicos e em português dos finais do século vinte. Falámos durante algum tempo até que me perguntou, não é desonroso trabalhar nas limpezas, pois não, senhor doutor. Agarrei na medalha e li o que nela constava. Não, minha senhora, seja qual for o trabalho, seja qual for a nossa condição, é a melhor das honras que um ser humano pode usufruir. Saiu confortada.
A seguir, entra uma senhora com setenta e dois anos. Trabalhava, também, nas limpezas. A face era de alguém muito mais nova, bonita mesmo. Não queria acreditar que tivesse aquela idade. Num ápice relatou-me a sua vida. Tudo porque lhe perguntei porque continuava a trabalhar. Não tinha tempo de descontos. Começou a descontar apenas há doze anos, quando se divorciou. Antes era costureira e nunca fez qualquer desconto, nem para a Casa do Povo. A senhora divorciou-se aos sessenta anos? Quanto tempo esteve casada? Estive trinta e dois. Casei-me aos vinte e oito, tive três filhos e o meu homem trocou-me, trocou-me por homens. Como? Foi então que desatou a explicar que logo de início começou a desconfiar dele, porque não a procurava. E para arranjar os filhos não foi nada fácil. Deixei-a contar as peripécias de uma vida a que teve de se sujeitar para poder criar os filhos. Mais tarde, a violência era uma constante, que diga as dores na coluna e no pescoço, zonas apetitosas para o energúmeno. Arranjou coragem e aos sessenta anos saiu de casa, fez-se à vida e tem trabalhado como uma moura à espera de conseguir o tempo mínimo para poder usufruir algum conforto. Espera poder conseguir resolver o seu problema daqui a três anos. Chamou-me a atenção o facto de não manifestar rancor pelas amarguras que a vida lhe proporcionou.
A terceira, de idade a raiar os sessenta e muitos anos, alquebrada, portadora de um esqueleto doloroso, manifestando sinais de ciatalgia, com limitações mais do que evidentes para o exercício de mulher de limpeza, contou-me a sua história. É um condão que tenho, algumas pessoas, as mais sofredoras, abrem-se de uma forma que me perturba, caindo nas suas intimidades quase de imediato. Vivia bem, muito bem, dois filhos e um marido que morreu de acidente de viação há cerca de dezoito anos. Foi fiador de um amigo, que passou os seus bens para a mulher, e declarou falência da empresa. "Herdou" quarenta mil contos de dívidas. Negociou com o banco e desde então paga oitocentos euros mensais. Oitocentos euros? Mas a senhora não ganha isso. Riu-se, pois não. Somos nós os três, ela e os filhos, a amealharem mensalmente para poderem pagar, o pior é que temos meses em que o dinheiro não dá para a comida. Mas ainda falta muito para pagar tudo? Faltam cinco anos. Olhe, já estou habituada. No início, se tivesse tido oportunidade, ainda era capaz de dar uns cem ou duzentos contos para que alguém o matasse, mas não apareceu ninguém. E o sacana? Anda pela terra, um desgraçado, um tinhoso a que ninguém liga. Tinha que preencher a sua ficha de aptidão, apeteceu-me escrever, "apta para usufruir o direito à felicidade". Fiquei com a sensação de estar perante um velho condenado às galés, sem culpa, resignado, sem direito a beneficiar um momento de felicidade.
Viver já custa, mas viver para pagar as dívidas de outrem é o mesmo que ser enclausurado inocentemente. Mas trabalha, com dores no corpo e com dores na alma. E ainda me queixo...

Espanto!

Num momento em que há estudantes que não podem prosseguir os estudos porque as famílias não têm condição económica para suportar os custos, espanta muita gente, porque não é vulgar em Portugal, que uma empresa decida suportar as despesas com a licenciatura dos filhos dos seus colaboradores. 
É um facto que suscitou algum interesse mediático, esperemos que tenha um efeito de replicação, que outras empresas lhe sigam os passos. 
Com efeito, é extremamente injusto que um jovem não possa prosseguir os estudos porque a condição económica não o permite e o Estado não supre esta falha. Estamos perante um efeito de guilhotina de efeitos graves que só servirá para agudizar os problemas sociais e económicos das famílias e do país, agora e no futuro. Tem um preço muito elevado.
A propósito deste assunto, tomei ontem conhecimento, através da crónica de Paulo Rangel publicada no Público, que o Ministério da Educação e Ciência tem estado a recusar a atribuição de bolsas de estudo a estudantes que têm pais com dívidas ao fisco ou à segurança social. É um tratamento de chantagem e de castigo incompreensível.
Tudo fazer para que os estudantes não tenham que abandonar os estudos por razões económicas deveria ser uma prioridade nacional.

Advogados!?

Manhã cedo. Ouço as notícias e "pareceu-me" ouvir que alguns advogados solicitaram à respetiva ordem que expulsasse o Duarte Lima, porque denegria a profissão! Fiquei de boca aberta. Então não são estes senhores que afirmam a torto e a direito a presunção de inocência até trânsito em julgado? Que raio de coisa! Não entendo.

terça-feira, 22 de maio de 2012

"Que se lixem"!


De manhã aparece na TV uma menina a falar de bolsa. Uma jovem que metralha números, tendências, diminuição do "PSI qualquer coisa", fala das ações que sobem e sobretudo das que descem, porque a tendência é para diminuir quer cá quer noutros sítios. Irrita-me muito aquele paleio e finjo que não ouço. Ao longo do dia, através do rádio do carro, surgem as notícias irritantes da bolsa de Lisboa. Assim que o locutor liga, penso que é para a Reuters, aparece uma menina, é sempre uma menina de voz fresca que me obriga a imaginar quais deverão ser as suas características, que, invariavelmente, diz que está no negativo, a descer, outras vezes a subir, mas as décimas de aumento são tão patéticas que o melhor seria estar calada. Apesar de não ser especialista nestas áreas, nem para lá caminhar, sei o suficiente de que uma diminuição das ações cotadas em bolsa é negativo, traduz problemas da economia e, naturalmente, reflete a má situação. Logo, nem consigo imaginar de forma "visível" quais deverão ser as "linhas" da menina, porque mudo imediatamente de estação. Não é que me preocupe muito o valor de algumas ações que tenho. Não são muitas, e adquiri-as porque um dia, há muitos anos, um gestor de conta quase que me obrigou a comprá-las. Eu ainda lhe disse que não valeria a pena, mas o paleio do senhor foi de tal modo convincente que acabei por adquirir algumas. Saiu-me caro a brincadeira, porque as ações eram do banco em que tinha, e continuo a ter, algumas das minhas poupanças. Passado algum tempo aquelas "coisas" começaram a baixar lentamente, mas depois a descida acelerou-se e, quando reparei que o valor das mesmas era muito mais baixo do que quando as adquiri, dei-as por perdidas, sem deixar de lançar uns desabafos em que a mãe do senhor gestor de conta, entretanto "desaparecido", não ficou incólume, e sem culpa nenhuma! Mais tarde fiquei a saber que o "chefe" do banco sabia o que andava a fazer. Um artista!
Não consigo ouvir as notícias sobre a bolsa, irritam-me, causam-me ansiedade, não porque pretenda obter mais-valias daquelas "porras", mas pelo sinal negativo da situação económica. Mas não são só estas notícias, outras, as de natureza política, também me andam a perturbar o meu refluxo gastroesofágico, o que não é nada agradável. Evito ouvi-las, arranjo pretexto para fazer outras coisas, poupando os meus neurónios a tantas agressões e disparates. Depois há aqueles casos em que os políticos que nos governam se metem em sarilhos, dando a ideia de que são irresponsáveis e de que não passam de ingénuos. Como é que é possível que certas raposas tão sabidas caiem em certas situações? Depois há os comentadores profissionais, ou não, que aparecem a dar palpites com ar de profetas bíblicos. Mas há ainda os crónicos comentadores amadores que, no facebook ou nos blogs, opinam de todas as formas e feitios sobre tudo e todos, propondo como se devem comportar os "outros", os "outros", neste caso, são os seus opositores políticos, porque quando se trata dos "seus", moita-carrasco!
Não sei se estas condutas serão ou não perigosas, mas que me causam desconforto, lá isso causam. O que é que posso fazer? Não os ouvir, pelo menos durante alguns meses, esperando que as coisas mudem ou melhorem. Um silêncio autoproposto.
Não pretendo com esta reflexão que os outros se mantenham silenciosos, como preconizou o reitor da Universidade do Porto ao apelar "ao silêncio para não criar mais problemas, uma vez que Portugal está numa altura em que a psicologia é fundamental e as coisas depressivas não ajudam a construir o país.
Acho que se estivéssemos seis meses todos calados, não criássemos mais problemas do que os que já existem e deixássemos as coisas correr, daqui a seis meses, trabalhando, veríamos que as coisas até evoluíram melhor do que o que pensámos".
Espero que sim, que melhorem com toda a sinceridade, e que daqui a alguns meses possa aguentar as notícias da bolsa a subir e entreter-me a imaginar quais serão as formas das detentoras de vozes frescas e suaves. Quanto às minhas ações, que se lixem...

A origem do mal

Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".
Ayn Rand-Filósofa russo americana 
Ora aí está a origem do mal: a necessidade de autorização de quem nada produz.  

Cuidado com os holofotes...

No 1ª Conselho de Ministros o novo Primeiro Ministro francês, Jean-Marc Ayrault tratou de acalmar o ímpeto mediático dos seus ministros, avisando-os de que só devem falar quando tiverem alguma coisa para dizer, tendo o seu gabinete explicado que o Governo não quer uma forma de comunicação em que assista aos seus ministros a “queimar-se sob as luzes dos holofotes”. Prudente, vamos ver quanto tempo resiste a regra...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O poder mágico das Agendas...

1. Recordo-me bem da transição do “cavaquismo” para o “guterrismo” do final de 1995: foi o momento em que à “Crispação” social do final do cavaquismo se opôs, triunfantemente, a promessa de Diálogo, fraterno e social, do guterrismo.
2. O País precisava de Diálogo, estava cansado de Crispação, era necessária uma nova Agenda de abertura (dos cordões à bolsa, como viria depois a acontecer), que o guterrismo prometia, rejeitando as políticas de contenção orçamental dos últimos 2 anos do cavaquismo, curiosamente protagonizadas pelo Dr. Eduardo Catroga...
3. E o País acreditou nas virtudes redentoras do Diálogo fraterno e social, tendo assim sido lançadas novas etapas de um Estado Social a caminho da perfeição – (i) o rendimento mínimo garantido, (ii) os generosos aumentos do salário mínimo nacional, (iii) os generosos aumentos na função pública e o recrutamento de muitos milhares de novos funcionários públicos, (iv) a criação vertiginosa de empresas municipais e intermunicipais e de fundações apoiadas pelo Estado, (v) a criação de uma miríade de institutos públicos para os mais diversos fins, (vi) a fixação dos preços dos combustíveis (que saudades...)...
4. Com a embalagem que vinha de trás foi possível, a par dessa grande abertura ao Diálogo, não inviabilizar a entrada na moeda única em 1999 – momento celebrado com enorme pompa e circunstância – a qual, acreditou-se piamente na altura, nos iria proporcionar prosperidade e bem-estar social para todo o sempre e, segundo o autor mais reputado da época, a liberdade de endividamento sem limite nem consequências...
5. Até que aconteceu o primeiro tropeção em 2002, quando se descobriu que os défices orçamentais tinham sido martelados, que a realidade era muito diversa e pior: em vez de um défice de 1,1% do PIB em 2011, última estimativa oficialmente divulgada pelo Governo cessante chefiado por A. Guterres, viria a ser descoberto um défice de 4,4% do PIB após correcções verificadas e confirmadas pelo Eurostat...
6. Parecia que o sucesso da política de Diálogo tinha chegado ao fim, o País voltava-se decididamente para Austeridade, pela mão dura de M.F. Leite...a qual acabou rapidamente, menos de 2 anos depois, sobretudo a partir do momento em que a inspiração de um Estadista lembrou ao País que “havia mais vida para além do défice”...
7. A partir daí chegamos num ápice ao período áureo, em que vigorou uma Agenda de crescimento a todo o vapor, nos anos 2005-2010 – sendo que o crescimento mais rápido aconteceu do lado da dívida, tanto pública como privada – período esse que terminaria abruptamente em 2011 com o País entalado num beco sem saída, sem dinheiro nem crédito, forçado a aceitar um regresso à Austeridade, agora em versão TROIKA, infinitamente mais dura do que a dos últimos 2 anos do cavaquismo ou dos 2 anos de M.F. Leite...
8. Mas parece que os ventos estão de novo a mudar, passado um ano a Austeridade já cansa: segundo declarações do SG/PS na semana passada, a resposta ao drama do desemprego consiste em “abandonar a austeridade a qualquer preço e, em alternativa, consolidar as contas públicas através de uma Agenda para o crescimento e o emprego”...como, ninguém sabe, mas isso são pormenores sem interesse...
9. Este poder mágico das Agendas, para onde nos irá levar, desta vez? De regresso ao velho Escudo?

O "caso" Relvas

Ouvi vezes sem conta os papas da comunicação social proclamarem que os jornalistas são gente livre, não são pressionáveis e não são influenciáveis. Eu não acredito noutra coisa...
Donde o meu espanto pela dimensão que o "caso" Relvas está a atingir. Ontem, ao que me dizem, até o habitualmente contido Professor Marcelo Rebelo de Sousa - insuspeito de antipatia pelo ministro em causa - condenou Miguel Relvas à demissão se se vier a provar o pecado da ameaça grave sobre uma jornalista! Mas como, se os jornalistas são autênticos couraçados, não são pressionáveis e ameaçáveis e se há alguém que o sabe é MRS? Algo me escapa...
Já não me espanta que, quando o anterior PM, diretamente ou através dos seus assessores, telefonava a diretores e a jornalistas procurando que notícias ou programas desfavoráveis não fossem publicadas ou divulgados - lembro-me particularmente daquele espetáculo medonho dos telejormais da TVI às sextas-feiras à noite - , não fosse então audível este bruá a propósito do ministro Relvas e dos seus telefonemas. Ter-se-á entretanto perdido a noção de como os nossos profissionais da comunicação social são livres? Ter-se-à perdido essa noção ao ponto de serem poucos os que se incomodaram com o facto, registado em imagem, de um deputado com responsabilidades políticas maiores ter subtraído o gravador ao jornalista no decurso de uma incómoda entrevista a que ele próprio anuiu?
Não. Os nossos jornalistas são os guardiões da liberdade, os únicos mensageiros da verdade, imparciais, imunes à pressão e sobretudo  incapazes de pressionar. Respeitadores da lei e dos direitos fundamentais dos cidadãos, a começar pelos direitos à privacidade e à imagem. Assim os devemos manter para que esta república não se desfigure. Mesmo quando impõem ao visado pela notícia já feita e impressa, que responda em meia hora ao questionário que comprova o respeito pelo contraditório, não estão a pressionar, muito menos a ameaçar. Estão a cumprir a Constituição e os direitos do visado. Estão a respeitar o divino dever de informar em matéria de superior interesse público. De que, naturalmente, são eles os juizes.
Relvas, é, na verdade, mera vítima dos que exageram na proteção devida a jornalistas e redatores, que, bem vistas as coisas, a dispensam pois não são influenciáveis e não são pressionáveis. O que se entende, sendo ele, Relvas, na essência (creio eu que até acredito piamente na couraça dos jornalistas) um ingénuo nestas coisas dos contatos com a comunicação social...

domingo, 20 de maio de 2012

Até que enfim!!!


Os 109 Observatórios!...

Não há ninguém com tão forte dinâmica reprodutiva como os burocratas. Depois de terem enxameado até ao limite tudo o que era sítio ou lugar ocupável, depois de duplicarem estruturas, agora dedicam-se a observar os outros burocratas.
Foi agora publicada uma lista, dando conta de 109 Observatórios. Observam-se os fogos e as cheias, as artes e as tradições, o sexo e a estatística, a iliteracia e os medicamentos, o arroz, a natureza, os robots e a astrofísica. Até se inventou um Observatório da Vida. E nos 109 publicados não estão todos: falta, pelo menos, o Observatório da Economia Paralela e da Fraude, que as consegue medir até às décimas!...
Sendo o Observatório uma construção de burocratas, que se esgota em si, por si e para si, nunca a burocracia é posta em causa, a começar naturalmente pela da observação. A culpa é sempre dos Governos. É bem feito. A burocracia fere sempre a mão de quem a sustenta. Sabemos bem disso, todos os que a pagamos.Directamente, ou pagando àqueles que a observam.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

A zona Euro parece o labirinto de Knossos

O imenso labirinto em que se tornou a União Monetária lembra uma das lendas em que a mitologia grega é fértil, a do famoso Labirinto de Knossos, em Creta, mandado construir pelo rei Minos, que queria ser rei de Creta e para isso conseguiu o apoio do deus Poseidon. Este exigiu em troca que o novo rei lhe sacrificasse um belissimo touro branco que o próprio deus fez sair das águas do mar para esse fim. No entanto, o rei achou o touro tão belo que tentou enganar o deus, sacrificando-lhe outro animal. Furioso, Poseidon fez com que a mulher de Minos se apaixonasse pelo touro e desse amor nascesse o Minotauro, metade touro, metade homem, que Minos mandou prender num imenso labirinto – o labirinto de Knossos – construído para o efeito pelo arquiteto Dédalo. O monstro era alimentado por um pesado tributo exigido a Atenas, vencida numa guerra, o qual consistia na obrigação de, de nove em nove anos, serem entregues 7 rapazes e 7 raparigas atenienses para serem comidos pelo Minotauro. Era virtualmente impossível sair vivo do labirinto de Knossos, tal era a complexidade dos caminhos e cruzamentos imaginados por Dédalo.
Ouvir as sucessivas e contraditórias declarações dos lideres europeus sobre se a Grécia vai se fica, se querem que fique ou que vá, sem nunca em momento algum ser apresentado um plano que permita escolher um caminho, ou sem que sequer se consiga interpretar o que dizem, como aconteceu ontem com as declarações de Durão Barroso, parece que a Europa se tornou no labirinto onde habita um monstro à solta que pode tragar os incautos. Todos se entrechocam a fugir do monstro da crise, procurando domá-lo ou trocar-lhe as voltas apontando-lhe o vizinho para se entreter primeiro, mas deste labirinto ninguém parece poder sair, embora também pareça que ficar não traz esperança nenhuma.
A mitologia grega é mesmo muito atual, por alguma razão estas histórias resistiram à passagem dos séculos, pena que não tenham ensinado nada.Diz o mesmo mito que o herói Theseu conseguiu matar o Minotauro e sair vivo do labirinto através de um estratagema bem simples. Adriane, sua apaixonada, deu-lhe um novelo de lã, de que ficou a segurar a ponta e que se foi desenrolando ao longo do percurso de Theseu dentro do labirinto, de modo que ele não teve mais do que seguir o fio no caminho de regresso.
Mas também o fio do caminho da Europa parece estar há muito perdido, já ninguém consegue lembrar-se quais os princípios fundadores, quais os objetivos da União, tudo se resume a uma profunda “crise do euro”. Cameron, tentou há dias lembrar algumas regras, mas não deu nenhuma primeira página de jornal.