Número total de visualizações de página

domingo, 30 de dezembro de 2007

Ano Velho, Ano Novo, Bom Ano a todos!


Há quem diga que isto de Ano Novo Ano Velho é uma grande cantiga, que os dias são todos iguais, os anos também, é só uma divisão do tempo, porque é que havemos de celebrar o fim de um, o começo de outro, quando na verdade não acontece mesmo nada entre os dois?
É uma maneira de ver, há quem goste de reduzir as convenções àquilo que são, formas de organização que podiam ser estas ou outras, não há que deixar que perturbem a nossa vidinha e venham agora cá com maçadas de encontros de família e amigos, balanços de ano, desejos para o futuro e outras iniciativas que podiam ter lugar no dia 5 do mês sete ou no 1º dia de cada mês ímpar.
Pois eu acho que essas pessoas não têm razão nenhuma, que os rituais devem ser cumpridos e devemos aceitar que existam pequenos marcos ao longo dos dias para que eles não sejam todos iguais ou com recordações desorganizadas. A verdade é que nos lembramos dos jantares de Natal da nossa infância, do mesmo modo que os nossos filhos se vão lembrar dos que fazemos com eles, tal como podemos dizer qual foi o aniversário que festejámos melhor ou quantos anos passaram sobre os acontecimentos mais importantes.
O ano é a divisão mais importante do nosso tempo, a que permite uma perspectiva mais segura da “tendência” mas ainda dá espaço a que se corrija alguma coisa, não é como uma semana ou um mês, em que parece que nada se definiu, e não é como uma década, que tem aquele peso horrível do irremediável e de que falamos já como se fossem factos históricos.
Daí que me pareça essencial que se pare um bocadinho para reparar no ano que passou, se olhem os nossos dias como olhamos as páginas das revistas desta época, as melhores fotografias, os acontecimentos mais marcantes, as pessoas principais, as que deixámos esquecidas sem dar por isso, ou porque assim quisémos. No nosso pequeno mundo individual, é incrível a quantidade de coisas que mudaram num ano, as que foram desejo intenso e não se realizaram e as que nos surpreenderam sem que contássemos com elas. É também curioso apurar quem influenciou o nossos destinos e porquê, ou o que teria sucedido se naquele dia x não tivéssemos atendido o telefone, ou se no dia y tivéssemos gritado de fúria em vez de calar mansamente a nossa discordância…
Das mil coisas que aconteceram nestes 365 dias que agora vão ficar muito arrumadinhos em 2007, há muitas que vale a pena guardar, outras que esperamos que prossigam em 2008 e se revelem plenamente, ainda outras que não chegaram mas que vamos continuar a querer e, claro, alguma que preferíamos que não tivessem acontecido ou que sofremos com desgosto.
Tudo isto num ano!, e ainda há quem diga que dispensa uma pausa para balanço… Eu não. Eu gosto do fim do ano e do princípio de outro, gosto de fazer um desejo por cada uma das doze passas, da azáfama de encafuar tanta agitação nesta semana, gosto das pessoas a cumprimentarem-se “Bom Ano, Bom Ano” mesmo sem se conhecerem. E gosto de acreditar que os meus desejos se vão realizar e que, ao afirmá-los, ganhei um novo fôlego para viver em pleno mais 365 dias!
Um Magnífico 2008 para todos os amigos e visitantes do 4República!

O paradoxo financeiro do SNS: como explicar?

Companheiros deste Blogue - Pinho Cardão e Ferreira de Almeida – editaram nos últimos dias severas críticas à política de encerramento de unidades do SNS localizadas no interior do País.
Trata-se de unidades dedicadas à prestação dos chamados “cuidados de saúde primários”, em especial Serviços de Atendimento Permanente e Serviços de Urgência criadas no âmbito de uma de proximidade dos cuidados de saúde.
A falta de um esclarecimento público, devidamente fundamentado, para esta política de encerramento em grande escala, torna cada vez mais difícil a sua aceitação pelas populações atingidas.
Não basta o Ministro da pasta afirmar dogmaticamente que estes encerramentos são justificados no plano técnico e que as soluções alternativas de acesso a unidades mais distantes asseguram melhor qualidade de atendimento.
Até pode ser que assim seja, mas um verdadeiro ermamento sanitário é o que à primeira vista esta política parece ter como desígnio, concentrando serviços e acabando com a proximidade que o actual Ministro defendia acerrimamente há alguns anos.
Mas nem é a discussão da bondade/maldade maior ou menor destas medidas que hoje me interessa, nem me considero habilitado para discutir - não disponho de informação suficiente para me pronunciar.
O que me impressiona é assistir:
- A esta série de medidas de racionalização de estruturas e de combate à despesa, assumidas com evidentes custos políticos pelo Ministério;
- E, ao mesmo tempo, o descalabro da gestão financeira do Ministério e do SNS como ainda há bem poucos dias foi evidenciado em exaustivo relatório do Tribunal de Contas para 2006 a que aqui me referi há 2 semanas.
Tenho-me interrogado como é que foi possível chegar a este paradoxo.
A única resposta plausível encontro-a na famosa “habilidade” do Orçamento rectificativo de 2005, em que foi incluída no Orçamento toda a despesa e mais alguma que os serviços do Orçamento conseguiram encontrar, satisfazendo generosamente a exigência despesista das unidades do SNS.
Conseguiram encontrar no final aquele belo resultado de um défice de 6,83% do PIB - certificado pelo Gov/BP é bom não esquecer…- mas cometeram, a meu ver, um erro dramático cujas consequências estão agora à vista: libertaram as amarras que existiam no funcionamento dos serviços, instalaram a regra do “regabofe” e agora “aqui-d’el-rei” que é preciso encerrar, matar, esfolar…
Recordo-me de um comentário feito na altura por Manuela Ferreira Leite na RR, em que alertava precisamente para os riscos de tal “habilidade”: perguntar aos serviços do SNS quanto queriam gastar seria abrir para o futuro uma “caixa de Pandora”, entrar numa prática de despesa sem controlo…
Aquela habilidade de encher o Orçamento rectificativo de 2005 com toda a despesa possível e imaginária, com vista a criar uma almofada para anos futuros, foi assim um tiro que saiu “pela culatra”.
Chegamos ao paradoxo a que acima aludi. Cabe agora perguntar: como se sairá daqui?
Com um único Hospital, como caricaturava Ferreira de Almeida? Confesso que não sei.

“Loucura” saudável, precisa-se!

No decurso da Verão li o livro, “O Pecado de Darwin”, de John Darnton, de uma penada. Romance imaginativo, bem escrito e sedutor consegue apreender a atenção de qualquer um, mais pelo enredo do que propriamente pelo conteúdo científico. Um aspecto emblemático do livro prende-se com a descrição da doença de Darwin depois do seu regresso a Inglaterra. As crises que padecia, diversificadas e frequentes, revelam um comportamento depressivo e hipocondríaco muito grave. As causas das suas maleitas têm sido alvo de especulação e de análises interessantes. São várias as explicações para que o cientista adoecesse desta forma relacionando com o longo tempo que demorou a escrever a sua obra prima, “A Origem das Espécies”, precisamente, vinte e dois anos! Interpretações psicanalíticas e conflitos entre a sua educação formal e os achados que estão na base da teoria evolucionista, constituem algumas. Mas há quem aponte outras, também, muito interessantes. É o caso da hipótese de sofrer de doença bipolar ou ter sido vítima de uma picada de um insecto, denominado vinchuca na Argentina ou bicho-barbeiro no Brasil, responsável pela transmissão da doença de Chagas.
Um dos aspectos mais relevantes da personalidade de Darwin, enquanto jovem, prendia-se com um vigor impressionante, ao ponto de surpreender os próprios gaúchos das pampas argentinas. “Nunca se cansava, não perdia o sentido da curiosidade ou o do maravilhoso”. Uma stamina invejável. Há quem coloque a hipótese de sofrer de hipomania substituída mais tarde pela depressão.
Esta abordagem tem como objectivo ilustrar que certas doenças mentais desempenham um papel importante na evolução humana. Desde que não sejam ultrapassados certos limites, a bipolaridade, sobretudo durante a fase de hipomania, pode-se acompanhar de manifestações de criatividade extraordinária. Não há campo do conhecimento humano que não tenha beneficiado desta particularidade, desde a música, passando pela pintura, literatura, poesia, ciência, até à própria politica. Claro que o inverso também pode ser verdadeiro, como é o caso da destruição, das manifestações maléficas, e até de comportamentos genocidas.
No fundo, uma boa dose de “loucura” é benéfica para qualquer sociedade, ao propiciar maior criatividade, ao estimular o desenvolvimento e ao produzir mais riqueza.
É pena que os portugueses não sejam mais “loucos” saudáveis. Convém, no entanto, não confundir “loucura” com tolice, porque o que abunda por aí são tolos, às carradas. Muitos portugueses, também, andam deprimidos o que faz com que a criatividade diminua ainda mais. Neste momento, por exemplo, os utentes do SNS consomem psicofármacos como se fossem tremoços, na ordem dos trinta por cento! Bem precisávamos de uma epidemia de “hipomania saudável”, mas nem vê-la quanto mais senti-la...

Entre 2007 e 2008: escolhas de ideias...

A Quadra de Natal é um excelente momento para fazermos “greve” às rotinas que nos consomem dia após dia, que nos obrigam a fazer repetidamente as mesmas coisas e da mesma forma, que nos deixam muito pouco tempo para uma pausa para com tranquilidade fazermos as nossas escolhas.
A Quadra de Natal deve ser um momento de recolhimento junto das nossas famílias e dos nossos amigos, em que a generosidade e a solidariedade nos tocam mais de perto e nos despertam para pensarmos mais nos outros, como que corrigindo um pouco do individualismo e do egoísmo com que comandamos e executamos as tais rotinas. É também um tempo que favorece uma certa vontade de reconciliação connosco próprios, com os outros e com o mundo.
A Quadra de Natal pode, pois, constituir uma pausa importante para reflectirmos sobre as nossas escolhas. Não sobre o que vamos vestir hoje ou amanhã, sobre se vamos ao cinema à sessão da tarde ou à sessão da noite, sobre se vamos almoçar ou jantar ao restaurante A ou B, sobre se vamos ver o DVD que descobrimos no interior da revista que comprámos há uns tempos atrás ou se vamos à procura de um qualquer canal televisivo com uma proposta mais tentadora. Refiro-me a outro género de escolhas, a escolhas de ideias sobre como por exemplo contribuir ou participar em iniciativas cívicas que impliquem darmos um pouco de nós, e porventura dispensando algumas das nossas "coisas", de uma forma voluntária e responsável com a motivação de ajudarmos a sociedade em que nos inserimos a melhor cumprir os seus objectivos, a melhor viver os seus anseios ou a melhor satisfazer as suas necessidades. É também uma forma de sermos mais exigentes, de estarmos mais vigilantes, de sermos mais críticos, de conhecermos melhor os problemas, de nos valorizarmos, de testarmos as nossas capacidades e os nossos sentimentos, de descobrirmos alguns dos nossos talentos por aí escondidos, enfim, de sermos úteis a muitas causas que precisam de nós.
Em Portugal o fenómeno da pobreza é uma realidade cuja fotografia, pese embora a brutalidade dos indicadores económicos, parece tirada de uma qualquer máquina fotográfica com a lente fragmentada. Os números são bastante claros e evidentes. Como não quero debitar mais números, aliás sobejamente conhecidos, embora pareçam às vezes esquecidos, lembro que Portugal é o país da União Europeia com maior desigualdade na distribuição do rendimento, com maior fosso entre ricos e pobres. Preocupante, mas mais ainda quando sabemos que esta situação se tem vindo a agravar.
Aproveitemos, pois, para reflectirmos sobre como podemos ser actores mais solidários da sociedade civil e sobre como podemos contribuir para o desenvolvimento de uma cultura social independente do Estado, organizada e eficiente, que seja a expressão de uma consciência social permanentemente viva e vigilante.
Claro que existem outros domínios muito importantes que requerem também uma maior intervenção cívica. Mas fica aqui esta via possível e desejável!
As dificuldades também podem constituir oportunidades. Por isso, temos um desafio pela frente em 2008 que poderá, muito bem, fazer parte das escolhas das ideias da pausa desta Quadra Natalícia.
Votos de Bom Ano Novo e desejos de que todas as nossas esperanças sejam realizadas em 2008…

sábado, 29 de dezembro de 2007

“Novo acto de criação”

As descobertas e conquistas na área da ciência deslumbram qualquer um. Cada dia que passa surgem novidades. Face a esta revolução, muitos ensaístas entretêm-se, e entretém-nos, com as suas previsões e especulações para o futuro próximo. Estamos a falar dos novos futurologistas que não tem nada a ver com as crises diarreicas verificadas na rentável profissão de astrólogos que aproveitam o fim de ano e advento do novo para venderem as suas previsões.
Ray Hammond é um deles. No seu ensaio, The World 2030, prevê várias e curiosas conquistas. Vamos viver mais anos, a substituição de órgãos far-se-á por rotina, a robótica resolverá muitos problemas, o uso de chips localizará qualquer um em qualquer momento e em qualquer lado (às tantas desde estar no trabalho, na casa de banho ou da amante), ou mesmo avisar que o órgão x ou y está em sofrimento, ou que está a ultrapassar o limiar de risco face ao seu comportamento; as comidas serão produzidas à sua medida, e de acordo com as suas necessidades, os meios tecnológicos acelerar-se-ão a um ritmo 500 vezes superior ao verificado nos nossos dias, as casas poderão ser flutuantes (já estou a ver as dores de cabeça do carteiro), muitas doenças incuráveis deixarão de o ser, à nascença poderemos escolher quais os tipos de doença que queremos prevenir e quantos anos queremos viver (!), enfim, apenas algumas preciosidades para uma população de 8 mil a 9 mil milhões de pessoas. O problema é que a quase totalidade das 8 ou 9 mil milhões de pessoas não irão, nem de perto nem de longe, usufruir destas ou parecidas conquistas.
Um dos aspectos que mais destoa na futurologia destes sonhadores é o agravamento das desigualdades sociais. Ou seja, a fome, a injustiça, a miséria, o fanatismo, a discriminação e quaisquer outras formas de desigualdade social irão continuar e provavelmente até a agravar-se. Sendo assim, como é possível falar de progresso? Mesmo os que poderão beneficiar de muitas dessas conquistas irão sentir a sua liberdade comprometida e provavelmente desejariam regressar aos “velhos bons tempos”. De qualquer modo, o fosso que começa a escavar-se entre os dois grupos de seres humanos irá sofrer um forte agravamento que, quem sabe, poderá possibilitar o aparecimento de uma nova espécie, dependente das novas tecnologias. Não esquecer que, de acordo com estudos recentes, as alterações evolutivas ocorrem, afinal, a um ritmo muito superior ao que se esperava. Sendo assim, se houver discrepâncias nos acessos às conquistas tecnológicas, não será disparatado concluir pela hipótese de aparecimento de uma nova espécie, a não ser que a “velhinha”, a nossa, sofredora e miserável para mal dos seus pecados, possa revoltar-se e impedir um novo “acto de criação”...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O Estado estreitinho

Qual Estado mínimo! O Estado está é demasiado apertado face a tanta ambição. Já não chega e por isso, no método e no discurso, olha-se para instituições privadas e cobiça-se um lugar nos órgãos sociais como se do Estado se tratasse. É o efeito que provoca o inebriante perfume do poder. Onde quer que se encontre.
Pasmei ao ouvir Luis Filipe Menezes a reivindicar para o PSD a presidência da CGD.
Mas hoje, chegado a casa e procurando notícias depois de um dia inteiro enfiado num gabinete a fazer pela vida, fiquei a saber por um comentador da SIC (presumo que de assuntos económicos) que a Dr.a Paula Teixeira da Cruz era candidata ao Conselho de Supervisão do BCP e que isso era muito importante para Carlos Santos Ferreira. Razão: o homem assume a presidência de um banco onde existem "muitas tendências" e que Teixeira da Cruz o poderia ajudar muito a superar a penosa função a que forçadamente se candidata. Primeiro - explica a sábia criatura - porque é do PSD e como este país se divide entre rosas e laranjas agrada-se assim a gregos e troianos. Segundo, porque é mulher!

Não sei qual destes poderosos argumentos contribui para a salvação do banco. Suspeito, porém, que o BCP corre o mesmo risco que o Estado corre. De ser desmantelado, em seis meses.´

A caminho de um hospital único!...

De acordo com o DN de hoje:
56 SAP encerrados, de um total de 79!...
15 Serviços de Urgência encerrados ou a encerrar!...
16 Maternidades encerradas ou a encerrar!...
A caminho acelerado de um Hospital único, de um SAP único, de um Serviço de Urgência único, de uma Maternidade única!...Ponto de passagem para a consolidação destes quatro serviços num serviço único, com uma instalação única, num edifício único!...
Afinal o país é pequeno e de Montalegre ou de Monchique a Lisboa é um saltito!...
Nota: A minha homenagem ao nosso comentador Tonibler que, em comentários no 4R, foi o primeiro intérprete deste grandioso objectivo do Ministério da Saúde!...

O País do Governo e o “Nosso País” (II)

Desde a apresentação do Orçamento do Estado para 2008, em meados de Outubro último, o Governo tem-se desdobrado em declarações sobre a recuperação da economia portuguesa e de como a situação tem vindo a melhorar a olhos vistos. Tentando até, penso eu, aproveitar o facto de a Presidência Portuguesa da União Europeia (que agora termina) ter inegavelmente corrido bem.

Um dos pontos mais altos destas acções de propaganda governamental foi a mensagem de Natal do Primeiro-Ministro do passado dia 25 de Dezembro.

Dessa comunicação ao País destaco, acima de tudo, o contentamento do Engenheiro Sócrates quanto à evolução das estatísticas do mercado do trabalho.

Dizia o Primeiro-Ministro que ainda não se conseguiu inverter a tendência de subida do desemprego – mas que a subida é cada vez menor, e que isso é um sinal menos negativo e de inequívoca recuperação da nossa economia.

Mas o que levou o Engenheiro Sócrates a embandeirar em arco foi o facto de, desde o início desta legislatura e até ao 3º trimestre de 2007 (inclusive), terem sido criados 105.9 mil empregos – e vale a pena recordar a promessa, feita durante a campanha eleitoral de 2005, de criar 150 mil novos postos de trabalho até 2009.

Ora, acontece que desde que este Governo iniciou funções (1º trimestre de 2005), houve um aumento do número de desempregados em 31.8 mil (a taxa de desemprego subiu de 7.5% para os actuais 7.9%), pelo que o acréscimo de emprego resulta única e exclusivamente do aumento da população activa, que passou de 5.5070 milhões no 1º trimestre de 2005 para 5.6447 milhões no 3º trimestre de 2007 (uma subida de 137.7 mil indivíduos).

Não creio que esta tendência se possa manter, e por isso acho muito pouco provável (infelizmente para todos) que os tais 150 mil novos empregos possam ser criados até 2009, até porque as perspectivas mostram uma estabilização da taxa de desemprego em redor dos actuais valores durante os próximos 2 anos.

Mas o pior é que, desde que este Governo tomou posse, houve uma destruição de 167 mil postos de trabalho onde as qualificações são mais elevadas: em dirigentes e quadros superiores, profissionais intelectuais e científicos, e técnicos de nível intermédio. Segundo o INE, eram 1.37 milhões no 1º trimestre de 2005, mas desceram agora para 1.205 milhões, ou uma quebra de 12%, que fez diminuir o peso deste tipo de empregos de 27% para 23% do total. Assim, o emprego cresceu exclusivamente em sectores que exigem pouca qualificação (cafés, restaurantes, serviços de limpeza, call centers, serviços de venda, etc.), que acrescentam pouco valor e criam relativamente menos riqueza.

Ou seja, a nossa economia procura cada vez mais qualificações pouco elevadas – o contrário do que devia acontecer, e indicia que não será em breve que o nosso crescimento económico irá acelerar como se desejaria… Mas sobre este facto, não ouvi uma única palavra ao Primeiro-Ministro…

E, afinal, não era este Governo que apostava fortemente na qualificação dos portugueses, tanto que até tinha prometido um “choque” ou “plano tecnológico”, tão querido pelo Ministro da Economia?... Por onde andará esse choque, que ninguém o vê?...

Não percebo, pois, como é que é possível mostrar contentamento e regozijo com esta situação. É mais um caso em que ao país de fantasia do Governo se contrapõe o… país real, o “nosso” país – onde as notícias são, infelizmente, bem sombrias…

...e o resto é paisagem!

A Câmara Municipal de Lisboa recebeu do Estado 13,4 milhões de euros pelo terreno destinado à construção do mega Hospital de Todos os Santos.
No interior do País fecham-se hospitais, maternidades, encerram-se urgências. Vendem-se os edifícios e os terrenos. É necessário. Afinal em Lisboa, ao invés do que acontece em qualquer outro município, os terrenos para novos hospitais não são disponibilizados gratuitamente pela autarquia. Pagam-se. Ao preço da desertificação.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A coragem vencida de Benazir Butho

O assassinio de Benazir Butho é uma grave derrota dos que acreditam que é possível enfrentar o terrorismo, que não se deve ceder às ameaças ou ao medo. Foi isso mesmo que ela disse quando regressou ao país, que já não tinha idade para se deixar intimidar pelos que queriam impedi-la de participar na luta política no seu país, disputando umas eleições.
Tinha sido avisada do perigo de ir hoje àquele local onde se realizava o comício, mas mesmo assim foi. Imprudência? Ela desafiou quem queria condicioná-la. Esta mulher tinha muita coragem, já o demonstrara outras vezes, e podia ter ficado quieta e sossegada no exílio, já tinha sido duas vezes Primeira Ministra, para quê expôr-se uma vez mais? Por imperativos morais, disse ela, por recusar desistir e deixar que a barbárie continuasse a dominar pelo medo.
Não sabemos se teria bons resultados nas eleições, se seria ou não uma boa solução para o Paquistão, se teria evitado a guerra civil. Mas a sua coragem foi vencida pelos ataques cobardes que vão, um pouco por todo o lado, e de diversas maneiras, impondo a sua lei.

Falar verdade não é impossível, é necessário...

Medina Carreira voltou à carga numa entrevista ao Diário Económico colocando o dedo em várias feridas. O seu realismo e frontalidade na análise dos problemas do País acabam por se sobrepor a uma certa dose de dramatismo e pessimismo a que nos vem habituando e que, particularmente, não aprecio.
A entrevista, mais do que debitar números e indicadores económicos e financeiros, incontornavelmente preocupantes, foca-se numa análise de natureza mais qualitativa sobre as nossas realidades política e sociológica, enfim sobre os alicerces culturais que explicam muitas das nossas inércias e “fugas para a frente”.
Do que foi dito, retive uma passagem interessante que mereceu uma paragem. Segundo Medina Carreira “ O problema não está em ser ou não ser reformista. Há um equívoco neste Governo, nos anteriores e provavelmente nos próximos: para venderem programas eleitorais e comprarem votos são tentados a prometer bons resultados e muito depressa. A classe política induz a ideia de que a situação vai mudar rapidamente e isso não pode acontecer. No curto prazo não há condições para mudar significativamente nem o desemprego, nem a economia.”
Esta técnica de intervenção política de vender o que não está à venda ou estando tem um custo incomportável é causadora de uma grande descrença em relação à classe política e à política em geral. Mais do que a desilusão colectiva, perfeitamente legítima, de anos e anos de promessas por concretizar e uma certa revolta silenciosa pela exigência de sacrifícios não compensados, é o País que não avança, que se vai deixando ficar para trás, que vai acumulando dificuldades em fazer as mudanças necessárias, que vai perdendo força e alento, que vai deixando de acreditar em si próprio, que duvida das suas reais possibilidades ou que espera por um “milagre”. É um círculo vicioso que se instalou no qual ao aumento das dificuldades corresponde um aumento de resistências ou ao aumento das promessas corresponde um aumento de descrédito! Tudo aspectos sociológicos que se vão enraizando no nosso código genético e como tal difíceis de ignorar.
A mentira enquanto instrumento de estratégia de acção política esconde a verdadeira verdade. Ora, a intervenção política recorrendo também à mentira, por receio que a verdade traga consequências negativas ou perdas, ou pela necessidade de obter ganhos e vantagens que a verdade não permitiria obter, dificulta as mudanças que precisamos de fazer. Verdade e gestão de expectativas não têm que estar de costas voltadas. Nunca será tarde para falar verdade, para explicar às pessoas as reais dificuldades e os reais benefícios que podem colher com as mudanças que urge fazer. Falar verdade é formar, é ensinar. Valores que se precisam, cada vez mais…
Em Outubro escrevi aqui no 4R uma reflexão sobre “Pensamentos de mudança…” (ler mais em: http://quartarepublica.blogspot.com/2007/10/pensamentos-de-mudana.html#comments) e em Novembro uma outra reflexão sobre “A verdade da mentira política…” (ler mais em: http://quartarepublica.blogspot.com/2007/11/verdade-da-mentira-poltica.html#comments), numa tentativa justamente de abordar a qualidade da “intervenção política” . São dois textos que fui reler para melhor situar este meu comentário àquela passagem da entrevista…

Então eu é que estou maluco?

O Governo, o presente, desmantelou mais uma Unidade de Urgência em Vila Pouca de Aguiar, tendo os doentes que seguir para Vila Real. O Ministério justificou a medida, dizendo que os doentes não devem ser enganados, já que o Serviço existente em Vila Pouca não cumpria os requisitos adequados à sua natureza. Será!... Mas o que acontece é que um cidadão de Vila Pouca ou de uma qualquer aldeia recôndita do concelho, perante uma indisposição, tinha o conforto de se poder dirigir às Urgências da vila. E aí, era feita a despistagem. Se fosse mal ligeiro, ia para casa; se o mal fosse grave, era dirigido para a Unidade adequada. Agora, perante a obrigatoriedade de ter que se deslocar a Vila Real, opta por ver se a coisa passa. Claro, que é um alívio para o Ministério da Saúde: se passar, o cidadão não consumiu assistência hospitalar; se morrer, fica o assunto logo arrumado. A tecnocracia fica inteiramente satisfeita com a medida: objectivo cumprido!...
Enquanto isto, o Governo, e aí não sei se foi o actual, esbanjou entre 100 e 150 milhões de euros para construir um viaduto exclusivamente destinado a lobos e proceder a alterações no traçado da auto-estrada de Vila Real para Chaves, precisamente nas imediações de Vila Pouca de Aguiar.
Apesar de haver várias passagens subterrâneas destinadas aos bichos em geral, a distinta casta dos lobos exigiu um caminho aéreo, com arranjo paisagístico especial, para não lhes criar stress no atravessamento.
São sete os lobos de tão elevada estirpe, pelo que cada um custou cerca 20 milhões de euros!...De elevada estirpe e de inteligência pelo menos tão fina como a dos promotores do loboduto: parece que ainda nenhum atinou com tal caminho!...
Para os nossos tecnocratas, o homem vale pouco ou nada: entre o homem e o lobo, escolhe-se claramente o lobo. É que, apesar da fraca natalidade, sempre nascem mais homens do que lobos!...
E a ética vigente manda proteger os mais fracos, neste caso os lobos!...

BdeP: comportamento exemplar

Um dos episódios mais curiosos da novela em torno da “débacle” do Conselho de Administração do Millennium BCP terá sido o anúncio, feito em grandes parangonas pelos media habituais, de uma suposta “decisão” do BdeP (em versão Unipessoal, como vem sendo hábito) de impedir todos os membros do Conselho de Administração daquele Banco, em exercício, de se candidatarem a novo mandato.
Estaríamos assim perante uma figura de “pré-inibição”, sanção aplicada sem que se encontre concluído qualquer processo de contraordenação como a lei impõe.
Não é preciso ser jurista especializado para se perceber que tal “decisão” (a ter existido, como parece) é totalmente ilegal, não tem o menor fundamento na legislação aplicável a este tipo de situações: o Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, aprovado pelo DL 298/92, de 31 de Dezembro, na nova versão que lhe foi dada pelo DL 201/2002, de 26 de Setembro.
Esse diploma estabelece um processo próprio para a aplicação de sanções pela prática de ilícitos financeiros penais ou de mera ordenação social (contraordenações), que se encontra regulado nos artigos 213º e seguintes.
Esse processo tem uma fase inicial de instrução, que conclui pela acusação ou pelo arquivamento.
Em caso de acusação, os visados têm o direito de apresentar defesa por escrito, juntando os meios de prova e arrolando as testemunhas que entenderem.
Depois de apresentada a defesa, são realizadas novas diligências de instrução, que sejam justificadas pela apresentação da defesa, e só depois disso é que o processo pode ser presente ao órgão que tem competência legal para decidir – o Conselho de Administração do BdeP.
Proferida a decisão, se for condenatória – incluindo a famosa inibição – os visados (arguidos), podem recorrer para os Tribunais, embora este recurso não seja suspensivo da inibição.
Nada disto aconteceu – se existe processo, ele está apenas no seu início, como resulta claro das duras críticas ainda ontem feitas publicamente pelo Presidente Executivo do BPI à autoridade de supervisão.
Sendo assim, a comunicação feita pelo BdeP a Accionistas do BCP sobre a impossibilidade de os actuais membros do CA deste Banco se candidatarem é totalmente ilegal.
É claro que na situação de enorme fragilidade em que se encontram, os visados não têm a menor possibilidade de reagir à aplicação desta sanção sem processo.
Cabe aqui perguntar se esta suposta decisão não será, por estranha ironia, uma confissão de má consciência – o BdeP já sabia de tudo, mas nada fez...
E, quando se viu “apertado” pela comunicação social e pelas iniciativas de alguns Accionistas do BCP – maxime a visita de Joe Berardo ao Procurador Geral – tomou esta brilhante “decisão”, passando por cima da lei de que é suposto ser o principal guardião, para tentar calar as vozes mais críticas.
Comportamento exemplar o do BdeP - não acham?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Roupa velha

No dia de Natal é costume, pelo menos ali pelas Beiras, aproveitar os restos da consoada para, salteados em azeite e uns dentes de alho, preparar um novo prato.
A mensagem natalícia do senhor Primeiro-Ministro pareceu-me isso mesmo. Aproveitamento de restos da véspera.

To be or not to be...socrático!...

No discurso do Jantar de Natal dos Deputados do PS, Sócrates criticou a crítica que lhe vem sendo feita de não explicar suficientemente os actos e medidas do Governo. Referiu então, em palavras triunfantes, que era fácil falar da sua governação, pois seria falar dos êxitos conseguidos. No discurso de Natal, repetiu a dose, agora para todos os portugueses. Não há dificuldades, o governo tudo ultrapassou, e a nossa economia está assim mais bem preparada para enfrentar os desafios e as incertezas da economia global.
Mas eu duvido da tese, porque nem só de êxitos se faz qualquer governação, e duvido do método, porque nunca se deve subestimar a inteligência das pessoas. E entre o To be de Sócrates ( e vou usar palavras do próprio) e o Not to be de muitos portugueses vai uma larga distância.
To be- ...o défice orçamental ficará abaixo dos três por cento...
Not to be- mas a despesa pública não diminuiu e o défice foi aliviado simplesmente à custa de mais impostos, implicando maiores dificuldades para os cidadãos e as empresas, menor investimento, menor formação, mais desemprego.
To be-...a economia portuguesa prossegue de forma consistente uma trajectória segura de crescimento…com um crescimento económico... próximo dos dois por cento em 2007...
Not to be-A trajectória mais baixa dos países da CE, o que nos leva a aumentar a divergência.
To be-...temos este ano mais alunos no ensino secundário e no superior...
Not to be-À custa de passagens administrativas no básico, na sequência das medidas aplicadas com vista a um fácil sucesso escolar.
To be-...360 mil portugueses inscreveram-se no programa Novas Oportunidades para melhorarem as suas qualificações...
Not to be-E, sobretudo, para obterem o diploma do 12º ano em três meses.
To be –...Aumentámos o emprego e temos agora boas razões para acreditar que a criação de emprego vai prosseguir nos próximos anos...
Not to be-Mas o que se verifica é que o desemprego atingiu a sua maior taxa de sempre, aproximando-se vigorosamente das maiores taxas da CE.

Não se podem negar alguns êxitos do governo. Mas é nítido que o país passa por grandes dificuldades, na economia, na segurança interna, na justiça, na educação, que não podem ser ignoradas. A primeira forma de respeito de um Governo pelos seus cidadãos é considerar que estes não são menos inteligentes do que o 1º Ministro ou os Ministros que o compõem. Ao escamotear tais dificuldades, e ao esconder a face feia da moeda, não creio que nós, cidadãos portugueses, tenhamos sido respeitados pelo 1º Ministro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Matar a fome...

Nesta época é comum ver reportagens televisivas sobre as consoadas oferecidas aos mais pobres e desfavorecidos. Um Natal mais aconchegado, estômagos mais compostos e consciências mais aliviadas. Quase que vale a pena perguntar: e os outros dias do anos, como serão? Menos aconchegados com estômagos vazios e muitas consciências distraídas.
Mesmo as crianças não escapam a certos fenómenos. É compreensível as suas apetências para os brinquedos, nesta época do ano, mas não é inteligível, aparentemente, que prefiram comida.
As crianças brasileiras também escrevem cartas ao Pai Natal. Os Correios do Brasil associaram-se a esta operação, preparando-se, com o auxílio de muitos cidadãos, para distribuir brinquedos às crianças desfavorecidas. Mas a “Operação Papai Noel” revelou algo que não esperavam, mais de metade das milhares de cartas recebidas pediam apenas comida, “bolos, queijo, peru, roupa” mas não brinquedos...
Se associarmos este curioso “achado” à explosão consumista verificado naquele país, podemos concluir que certos fenómenos se agravam contra todas as expectativas e promessas.

O Natal



"...Repare-se que Jesus, no capítulo 25 do Evangelho de Mateus, quando se refere à realidade última de cada pessoa e da História, diz que não se perguntará por actos religiosos ou actos de culto, mas sim por coisas corpóreas, materiais:


...tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e recolheste-me, estava nu e deste-me que vestir, adoeci e visitaste-me, estive na prisão e fostes ter comigo..."

Padre Doutor Anselmo Borges, Prof. de Filososofia, em entrevista ao Caderno Actual do Expresso de 22 de Dezembro.
Nota: Isabel Jonet, Presidente do Banco Alimentar, foi eleita Figura do Ano pela redacção do Expresso. Nada mais justo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

...Públicas virtudes!...

A fim de publicitar e assim comprovar a nossa impoluta honradez e a nossa elevada capacidade de gestão, eu, Helena Roseta, e os meus vereadores da Câmara Municipal de Lisboa, declaramos ter denunciado e ter devolvido à procedência a miserável oferta de uma prenda de Natal, no valor de 40 euros, por parte de uma empresa municipal. Mais declaramos ter dado conhecimento desta excepcional atitude de probidade moral a todos os meios de comunicação social, pois só a honra publicitada é que é verdadeira.
Assinado
Helena Roseta e demais Vereadores


A fim de publicitar e assim comprovar a nossa impoluta honradez, nós, Magistrados de Oeiras, declaramos ter denunciado publicamente e ter devolvido à procedência a miserável oferta de uma prenda de Natal, por parte da Câmara Municipal. Mais declaramos ter chegado ao fim a nossa paciência perante a reiterada prática de suborno que há dez anos se verificava e que íamos aceitando com natalícia resignação. Declaramos ainda ter dado conhecimento desta excepcional atitude de probidade moral a todos os meios de comunicação social, pois só a honra publicitada é que é verdadeira.
Assinado
Os Magistrados de Oeiras

As malhas que vamos tecendo

«La moindre chose qui se forme au monde est toujours le produit d'une formidable coincidencePierre Teilhard de Chardin, Le Phénomène humain

Este Natal retomei uma actividade que há muito tinha posto de parte: comprei lãs e meti-me a tricotar umas camisolas para as crianças da família. Andei pelas lojas a tirar ideias, a lembrar efeitos e feitios, e lá fui abastecer-me a uma loja que encontrei por acaso numa ruazinha em Mafra.
Ganhei o gosto pelo tricot no ano em que a minha faculdade ficou uns meses fechada, por alturas da revolução, e um tio meu, que tinha uma loja de lãs, se queixou de que lhe faltava uma empregada. O Inverno estava a chegar, os tempos conturbados não aconselhavam a contratar novos empregados, enfim, uma lamúria que me soou ao ouvido e, daí a oferecer-me para a vaga, foi um instante. Desde cedo tive o hábito de fazer uns trabalhos de estudante, explicações a miúdos difíceis e outras aventuras esporádicas, mas ali teria um ordenado, um horário, um primeiro emprego, em resumo. Ficou então assente, para escândalo da família, que eu iria para a loja até retomar as aulas.
Devo dizer que foi uma experiência muito dura, nunca imaginara como era penoso estar horas e horas atrás de um balcão, cara alegre para quem entrasse, paciência infinita para os caprichos e humores das senhoras que levavam eternidades até se decidirem, vá buscar aquele ali em cima, ora mostre aqueloutro, uma pilha de meadas fora do sítio, outras vezes ficavam a contar a vida toda ou a querer saber da vida dos outros, como se não tivessem mais nada que fazer.
Logo de manhã, antes das nove, era preciso receber os pacotes novos, enormes e pesados, e arrastá-los pelas escadas até ao 1º andar. Depois, subir e descer o escadote para arrumar tudo nas prateleiras, por cores, qualidade, quantidade e, quando se abria a porta, logo soavam os passos das primeiras freguesas a subir as escadas. Tive que aprender a falar com as pessoas consoante o seu género, umas eram cerimoniosas, outras afáveis, outras a evitar confianças porque iam ali como quem ia ao psiquiatra, sentiam-se sozinhas e ir buscar um novelo de lã era um bom pretexto para bisbilhotar. Incrível as conversas que se têm nas lojas.
É claro que também tive que aprender a distinguir as múltiplas qualidades de fio, as diferentes utilizações, o número da agulha certa, as combinações para tirar efeitos, saber o que estava na moda, ter em atenção os objectivos, -“Quero fazer um casaco para o meu neto” ou “- A minha filha viu uma camisola nesta revista, veja lá o que tem aí de parecido…” e aconselhar de acordo com o que era próprio. A curiosidade e a necessidade levaram-me, em breve, a passar dos rudimentos de “saber fazer malha”, que a minha avó me tinha ensinado, para a fase mais avançada de tricotar. O que foi, diga-se, um pau de dois bicos, pois comecei a gastar na loja o pouco ordenado que aí ganhava, não resistia a comprar as novidades e tricotá-las, e lembro-me o sucesso que foi quando uma cliente disse que queria fazer uma camisola igual à que eu vestia! Foi um alarido entre as minhas colegas de balcão, nunca tinha acontecido, contaram às clientes mais antigas e ao fim de poucos dias já todas sabiam da história. Não fosse estarem as aulas a recomeçar, era mais que certo que ia pedir participação nos lucros pela mudança operada no marketing da loja!
Quando as aulas recomeçaram já ia a caminho de aprender a usar a máquina de tricotar, expoente máximo da ousadia na altura, só para profissionais…Estou a brincar, em poucos meses não se aprende assim tanto, refiro-me à máquina, o resto aprendi e aprendi mil outras coisas, o que é ser vendedora ao balcão, o que é ter que conviver oito horas por dia com pessoas com vidas tão diferentes da minha, as dificuldades que elas tinham em gerir um ordenado pequeno, os problemas domésticos cujos relatos ouvia como se espreitasse um mundo desconhecido. A princípio olhavam-me desconfiadas e pouco à vontade, mas a pouco e pouco admitiram-me no grupo e contavam confidências que me deixavam embasbacada. A Isabel, que era a mais nova a seguir a mim, era um pouco gaga, andava muito enervada porque ia casar-se, o namorado era aprendiz num talho e tinham conseguido arrendar uma casa nos subúrbios. Deitava contas à vida mas baralhava-se a meio, só tinha a 4ª classe, e era a Hebe, a solteirona da caixa, magra e encurvada, que lhe fazia as somas, sempre a resmungar que ela ia era meter-se em trabalhos, que se deixasse de casamentos e juntasse o ordenado. A Lurdes, a mais antiga na casa, dava-se grandes ares porque o marido era contabilista numa empresa e vivia em Almada, o filho havia de ser doutor se as más companhias não o levassem por outros caminhos, e ficava ciumenta se eu não lhe dava atenção, amuava e vingava-se, mandando-me atender as clientes mais difíceis.
Lembrei-me desses meses enquanto tricotava as lãs que comprei para o Natal. Lembrei-me de cada uma das empregadas, o que seria feito delas quando a loja fechou, há uns anos, quando as lãs passaram de moda ou era mais fácil comprar feito e as senhoras que subiam as escadas só iam para dois dedos de conversa, já sem a revista debaixo do braço marcada na página com o modelo a copiar. Reparei que já esqueci muito do que me ensinaram para um trabalho perfeito, os começos com elástico, os remates elaborados, os bolsos metidos sem costuras, enfim, alguns segredos da arte, mas que o essencial ficou gravado para sempre.
Enquanto tecia os fios e deixava correr a memória, pensei que não faz mal nenhum aos jovens passarem por algumas experiências de trabalho que estão fora do seu horizonte futuro, até arranjarem melhor podem aprender muito com o que encontram.
Nessa altura, uma vez que estava quase a desistir por não suportar as agruras daquela rotina, encontrei uma frase, creio que de Teilhard de Chardin, que fixei para uso ao longo da vida: “Todo o trabalho tem nobreza se o prendermos a uma Estrela”.
Que a Estrela que guia os nossos sonhos e nos dá ânimo para vencer as dificuldades possa sempre brilhar bem alto nas vossas vidas, é o que desejo a todos neste Natal.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Imagem de marca

Praça de Espanha, em Lisboa
A imagem não é de Bagdad, nem de um qualquer subúrbio de um centro urbano.
Estamos na Praça de Espanha, numa área central de Lisboa.
O retrato não é o resultado de um acidente ou de uma obra mal acabada.
Está assim há muitos anos e piora a cada dia que passa.
Nesta praça está o mercado que Nuno Abecassis mandou construir nos anos 80 para albergar os comerciantes do Martim Moniz.
No centro da praça, João Soares mandou remontar o que restava do velho arco do aqueduto das águas livres na Rua de S. Bento.
Para esta praça, Jorge Sampaio encomendou - vai para 18 anos - um plano ao Arq. Siza Vieira.
Por aqui, continua provisoriamente - há 30 anos - um apelidado terminal de autocarros.
Para aqui já anunciaram a sede do Banco de Portugal e do Montepio - há 20 anos.
Os tapumes que estão do lado esquerdo da foto, foram montados vai para 17 anos.
Por entre o casuísmo e a precariedade, esta praça é um bom exemplo do urbanismo lisboeta dos últimos 30 anos.
Planos que ficam na gaveta.
Medidas casuísticas.
Anúncios que nunca se concretizam.
Lançamentos de primeiras pedras que só servem para o show off.
Enfim...
Os buracos, os lancis arrancados, os passeios dos quais restam um amontoado de pedras, o lixo e os tapumes vão permanecendo.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Bom Natal!...

Mãe, quando é Natal?
- Meu filho, hoje é dia de Natal!
Mãe! O Menino Jesus não veio, onde está a minha trotineta?
- Meu filho Ele deixou-te um presente, no sapatinho, dentro da chaminé!
Mãe! Mas… eu pedi uma trotineta igualzinha à dos outros meninos!
- Meu filho, as meias fazem-te falta e a mãe tem “sonhos doces” para ti!
Mãe para o ano o Menino vai pôr a trotineta no sapatinho, não vai?
Sim meu filho! Prova os sonhos!

Avô, quando é Natal?
- Netinho, hoje é dia de Natal e a bisavó fez-te sonhos!
Avô, o Pai Natal não veio, onde está o jogo que pedi?
- Netinho, ele deixou-te muitos presentes e até uma trotineta…
Mas, avô, não era aquele jogo que queria e para que serve a trotineta?
Avô vai trocar o jogo, não vais?
- Sim netinho! Saboreia agora os sonhos…


Rogério Simões-Diálogos da alma e do poeta

A todos os Autores do Quarta República, aos nossos Amigos, Leitores, Visitantes e especialmente aos dedicados Comentadores que connosco fazem o 4R, os melhores votos de Boas Festas, com muita saúde e alegria de viver.

“Ó Chiquinho, o lugar?”

Na minha adolescência, as férias do Verão eram passadas, invariavelmente, na terra, em amenos e divertidos convívios com os colegas e outros jovens que nessa época vinham das cidades. O local de encontro, “Oásis”, era uma esplanada isolada junto à ponte do rio Dão, aproveitando um velho parque, com belas e frondosas árvores, entre as quais sobressaíam gigantescos cedros impedindo o sol de penetrar no espaço, a meio caminho entre a estação e a vila. Tardes e noites com jogos, música, conversas e alguns mosquitos. Durante a tarde, depois da digestão feita, dávamos uma saltada ao rio, tomávamos umas boas banhocas acabando por repousar mais uns momentos até fazer horas para o jantar, rápido, findo o qual voltávamos ao “Oásis” para a noite, que tinha que acabar antes das doze badaladas, excepto em alguns dias de festa. Mesmo assim, a hora limite era, no meu caso, até à uma, sendo um problema se chegasse meia hora depois. Feitas as contas ainda eram uns razoáveis quilómetros a pé que tinha que fazer diariamente.
No Verão dos meus quinze anos, juntou-se ao nosso grupo duas jovens que não conhecíamos de lado nenhum. Sabíamos que estavam a habitar a casa da curva do bairro. O pai, um senhor bem parecido, com aspecto de ter idade na casa do meu, passou a ser objecto de curiosidade. Quem seria? Donde vinha? Por que razão passou a ocupar uma casa, que ninguém se lembrava de ter sido habitada. Uns diziam que era engenheiro, que vinha para as obras, outros desconfiavam e diziam que não tinha cara disso. Ao fim de algum tempo a curiosidade foi satisfeita, tratava-se de um escritor. Mas o que é que fazia um escritor na vila? Devia escrever, claro. Mas porque razão escolheu o nosso espaço? Se o escolheu devia ter os seus motivos. Vi-o várias vezes a conversar junto do café da vila e fiquei a saber o seu nome: Mário Braga. Presumo que passou mais do que um Verão.
Uma das filhas, no nosso “Oásis”, desafiou-nos para um jogo de cartas. – Vamos jogar à canasta? – Canasta?! Que jogo é esse?!. Ficou com ar meio surpreendida com a nossa resposta e disse que era um jogo em que se utilizavam as 52 cartas. Aí respondemos que não sabíamos jogar com tantas cartas, só com 40 e tinha que ser à bisca ou à sueca, porque ao burro era para os mais miúdos. Bem tentou explicar as regras, mas nós não achámos muita piada. Acabou por ter que jogar à sueca e à bisca. Que remédio!
Perguntámos se o pai era escritor e ela disse que sim. Gostava da nossa vila, queria conversar com as pessoas, estudá-las, ouvir as suas histórias, tudo para se inspirar e produzir a sua obra.
Anos mais tarde, já era médico há algum tempo, em casa de um compadre, esbarrei numa obra intitulada “Histórias da Vila”. Perguntei-lhe: - Olha lá. Este autor não era aquele senhor que chegou a habitar, durante o Verão, a casa da curva do bairro? Respondeu que sim e disse que o livro contava histórias da vila. Pedi-lhe emprestado e li-o, freneticamente, de uma penada. Recordo de algumas passagens e, sobretudo, de uma personagem, facilmente identificável, que conheci muito bem. O livro tinha um encanto especial. Adorei a narrativa e a análise das suas personagens.
Há dias, num intervalo de provas académicas que decorreram em Lisboa, aproveitei a tarde do primeiro dia para não fazer nada, ou melhor, acabei por fazer o habitual, ir para a zona do Chiado, que eu adoro, percorrer os alfarrabistas. Entrei num e deparei-me com quatro obras que de imediato recolhi, a primeira das quais foi “Antes do Dilúvio” de Mário Braga. O livro editado há quase 40 anos tinhas as marcas naturais da passagem do tempo. Comecei a folheá-lo e a leitura do mesmo fez-me recordar o outro que tinha lido há muitos anos. Na última página, a fechar a obra, podia-se ler: “Santa Comba Dão. Agosto de 1966”. Ah! Então este era o livro que o senhor andava a escrever naquele belo e saudoso Verão! Em duas noites devorei-o com a mesma satisfação da leitura de “Histórias da Vila”.
A história do “Antes do Dilúvio” descreve a vida e a problemática política e social de uma vila tipicamente beirã. A personagem principal era o Chiquinho Boavida, barbeiro, cronista do semanário da região, presidente da junta de freguesia, dotado para as artes de fígaro e excelente orador, desejoso de voos mais altos, que lhe possibilitasse ir para Lisboa, a fim de fugir à tirania da mãe e poder casar com a sua eterna amada, além de tirar rendimentos dos seus talentos.
Numa das passagens, o escritor relata a entrada em cena do Recor. O Recor é o tolo do sítio, defeituoso de mão e pé direitos que nunca conseguiu sair da primeira classe. O mestre-escola chegou a dizer-lhe que batia o “record da estupidez”. De record a Recor foi um passo para passar a ser conhecido apenas pelo apodo. Era defeituoso, tinha as suas limitações mentais, mas sabia que tinha que ganhar a vida, porque a mãe era pobre. Tinha pedido mais do que uma vez um lugar na junta ou no cemitério, a fim de providenciar o seu sustento. Volta e não volta atacava o presidente da junta da freguesia. A sua entrada em cena, na obra de Mário Braga, é notável. Chiquinho Boavida, numa caminhada, matutava sobre como dar volta à vida, quando sentiu alguém, por detrás, a puxar a manga do seu casaco dizendo: - “Ó Chiquinho, o lugar?” Surpreendido, disse-lhe que estava a ser difícil porque não tinha o diploma e sem o comprovativo da quarta classe não sabia como arranjar-lhe um. Lá se descartou do pobre rapaz como pode.
No dia em que comprei esta obra, os jornais anunciavam as preocupações do senhor Presidente da República com o desemprego dos nossos jovens que estão cada vez mais qualificados mas cada vez mais longe de arranjarem um lugar que lhes possa propiciar independência e subsistência. É triste o ambiente depressivo que nos rodeia. Desempregados, incapazes de conseguirem um lugar minimamente estável, objectos de exploração indigna, o quadro não abona nada de bom e desmistifica a promessa de alguém que há pouco mais de dois anos prenunciou uma centena e meia de milhar de novos empregos! Não foi nenhum presidente de junta, foi o actual Primeiro-Ministro.
Os jovens que andam por aí não são defeituosos, o que é, também, de somenos importância, como é óbvio, não são tolos e têm, a grande maioria, diplomas de ensino superior, um verdadeiro record.
Estou a vê-los – se pudessem lá chegar, claro – a puxarem a manga do senhor Primeiro-Ministro dizendo-lhe: - “Ó Chiquinho, o lugar? “
Qual seria a sua resposta?
A do Boavida já eu sei...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Provincianismo

  • «É verdade, eu sou um provinciano, eu fiz-me sem pedir autorização a ninguém. Não tenho aliados entre os intelectuais portugueses da esquerda aristocrática» - José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal em entrevista dada ao Libération, Dezembro de 2007.
  • Respondendo aos sectores que acusaram o Governo de ter descurado as questões nacionais por se ter dedicado no segundo semestre desta ano à Presidência Portuguesa da UE: «É uma visão provinciana ultrapassada. Seria uma grave irresponsabilidade se o Governo não colocasse a Presidência da UE no centro das suas preocupações» - José Socrates, Secretário-Geral do PS num discurso de balanço no jantar de Natal do Grupo Parlamentar ontem, 19 de Dezembro de 2007.
  • "O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia. Se há caracteristico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? (…) O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo caracteristico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguem atribui importância ao que produz. (…) O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse não seria provinciano. É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entenda-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossivel dever o texto dizer aquilo que diz. (…).
    O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que não o somos.
    " - Fernando Pessoa, 1928

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O calor do Natal...

Estive esta semana numa Festa de Natal organizada por um grupo de amigos que voluntariamente quiseram proporcionar um momento diferente, porventura inesperado, para aquelas pessoas idosas que partilham a sua existência num lar que as acolhe e as ampara na última etapa das suas vidas.
É difícil descrever a alegria quase silenciosa daquelas pessoas, de intensidade e expressão diferentes marcadas pelos também diferentes percursos das suas vidas ou pelos acontecimentos que lhe estão mais próximos no tempo.
É difícil descrever o medo das suas próprias emoções numa reacção de defesa a algo perturbante nas rotinas de hora a hora, na monotonia do dia a dia e nos ritmos iguais que se repetem mês a mês e por vezes ano a ano.
É difícil descrever a vontade de, por momentos, quererem ser diferentes acabando por não serem, por saberem que no momento seguinte tudo voltará a ser de novo igual.
É difícil descrever o que é a solidão dos seus corações mas ao mesmo tempo o muito carinho que têm para dar, que acumularam ao longo de vidas mais ou menos felizes, a vontade de o fazerem num momento que advinham ter um sabor doce.
É difícil descrever o companheirismo, a solidariedade e a entreajuda das pessoas idosas mais novas e ainda com alguma saúde física e vitalidade intelectual para com as outras já muito velhinhas, com problemas difíceis de mobilidade física ou já alheadas do mundo real.
Mas no meio de tantas dificuldades é me fácil confessar a gratidão que todos sentimos por termos tido a sorte, e teremos muitas outras se assim quisermos, de receber destas pessoas idosas um arranjo de flores secas, coloridas e envernizadas, que durante alguns dias ocupou os seus trabalhos manuais com todo o afinco e amor.
Não esquecerei as duas senhoras de 101 anos, felizmente muito activas e lúcidas, que recordaram e contaram histórias dos seus casamentos, vividos num caso durante 68 anos e no outro caso durante 70 anos! Assim como não esquecerei uma outra senhora cujo maior desejo é receber a visita da sua única filha! E estou a lembrar-me de um senhor que não queria abrir o presente que lhe foi oferecido porque não queria ficar sem o embrulho com os seus laçarotes e enfeites de sininhos! Vidas bem guardadas, cheias de tesouros únicos, repletas de alegrias e tristezas que o Natal veio lembrar e recordar e que o Menino Jesus quis presentear!
Foi um Natal especial para todos, com muita luz e brilho, que todos recordarão, em particular nós que somos bem mais novos...
O Natal é um tempo em que estamos mais predispostos para os outros. É um tempo em que provamos que a capacidades espiritual existe por si, sem depender nem precisar da capacidade material ou consumista para darmos e recebermos. No Natal há muito para oferecer que não está à venda nos centros comerciais, que está apenas nas nossas mãos dar e receber. Cada um saberá como fazê-lo em relação aos seus e aos outros...

Era uma vez...uma história verdadeira!...

O frio começava a apertar, caíam as primeiras neves, e na igreja a miudagem dava os últimos retoques na afinação das canções para o Dia de Natal. Por essa altura, chegava invariavelmente à aldeia uma tribo cigana, família larga de muita gente, avós, pais, netos de várias idades, carroças e burros e o inevitável acampamento num pinhal não longe da minha casa. Mesmo perante a hostilidade geral, que se dizia que os ciganos roubavam, insistiam em passar aí os Natais, vá lá saber-se porquê!...
Nesse ano, os ciganitos traziam um carrito daqueles que se compunham de uma caixa de sardinha ou uma tábua em cima de dois eixos com rodas, e que era usado para os miúdos brincar aos automóveis, descendo ladeiras a velocidades estonteantes. Mas desta vez era um carro de luxo, com rodas pequeninas de aço, que deslizavam como uma pena e um guiador que agora se diria topo de gama. Contei lá em casa e logo me disseram que tinha sido certamente roubado. Ripostei que não: eles tinham-me dito que foi o avô que o fez!...
Havia um caminho bastante inclinado, ao lado da minha casa, onde se juntavam para brincar. A troco de uns bons pedaços de pão, eu era o único elemento estranho a poder utilizar o bólide, embora espaçadamente, que eles exerciam ostensivamente o seu poder soberano e punham-me no meu sítio. Andava, mas quando lhes desse na real gana!... Claro que toda a gente que passava reprovava a minha participação: um menino tão limpinho e filho da senhora professora metido com os ciganos!...E logo iam pressurosos, a avisar!...
Logo pela manhã, foi um alvoroço na minha casa, um altear de vozes que eu não percebia, correrias, um sobressalto. Como ninguém atendesse a minha curiosidade, levantei-me cedo da cama, para ver o que era. Deparei então com toda a gente da família e pessoal de fora, no curral, à volta de um enorme porco, que se contorcia com dores, levantando o focinho em assustadores espasmos. Discutia-se se se havia de chamar o ferrador, que tudo sabia de doenças dos animais, ou o veterinário. A maioria preferia o ferrador, mas o meu pai resolveu mandar alguém ao telefone público, havia um na terra, chamar o veterinário. Mas este tardava em chegar e as contorções dolorosas do bicho metiam cada vez mais dó. Nas circunstâncias, o meu Pai tomou a decisão de matar o animal, encarregando-se ele próprio da função, nos mesmos moldes da matança tradicional, uma faca enterrada no pescoço, direita ao coração. Chegado entretanto o veterinário e inteirado do estado das coisas, mandou abrir o bicho. Rapidamente se verificou que o porco tinha engolido o arganel (uma armação de arame que era espetada no nariz, com dois bicos afiados, para não fossar), e que este lhe ficara cravado na garganta, causando-lhe as dores que podemos imaginar. Descoberta a causa, discutiu-se se a carne do falecido estaria em condições de ir para a salgadeira ou não. O veterinário achou que ele nem teria chegado a ganhar febre, pelo que deixava a opção aos donos. O que fez a discussão retornar ao ponto de partida. A maioria era pelo aproveitamento, mas a minha mãe declarou jamais comer tal pitéu, pelo que, ponderados os prós e os contras, foi decidido enterrar o porco. No chão nevado da quintarola, foi feito um buraco e o animal enterrado.
Olhando por cima do muro baixo da propriedade, que confinava com a estrada, os miúdos ciganos assistiram à operação, tendo logo contado aos pais. Pelo que, passado algum tempo, apresentaram-se dois ciganos pedindo para desenterrarem o porco, pois o aproveitariam para lhe tirar o sebo ou até para comer, se estivesse em condições. Levaram um rotundo não do meu pai, pois se não servia para nós, não servia para ciganos, o que eles imediatamente desmentiram com veemência. Era Natal e até poderiam dar alguma carne aos filhos. Se ela estivesse boa, claro!…
Perante a negativa, foram embora, mas voltaram e continuaram a insistir. Os miúdos rodearam-me e prometiam que me deixavam andar o que quisesse, se levassem o porco. Perante a fortíssima abordagem conjunta, minha e dos ciganos, o meu pai disse-me: diz a eles que não quero saber de nada, mas se, quando chegar da vila, vir algum buraco, chamo logo a polícia. Contei aos ciganos e estes aos pais que me disseram de imediato: a gente tapa logo e até põe neve por cima!...
Homens e mulheres vestidos de preto lá desenterraram o porco, taparam o buraco, arrastaram a neve, transportaram-no em braços até ao muro, puseram-no na carroça e abalaram felizes rumo às tendas, acompanhados por uma chusma de ciganitos.
Passados dois ou três dias, era Natal. Chegado a casa, depois da missa, ainda pude ver a caravana que desaparecia na curva da estrada. E, ao entrar no portão, o carrito que, sem me dizerem nada, me deixaram como prenda de Natal, gratos por uma consoada porventura mais farta. Não estava embrulhado em papel nem tinha laços, mas seria, na sua singeleza, a melhor prenda do Menino Jesus.
Tinham ficado felizes com o porco; quiseram deixar-me feliz com o carrito. Não saberiam bem o que era o Natal, mas, no seu íntimo, estavam em consonância com a mensagem do Menino Jesus, cujos bracitos se abrem para com todos compartilhar e a todos abraçar, independentemente do seu estado, raça ou religião!...O significado do Natal!...

Parabéns!...


É sempre bom ver um português distinguir-se entre os seus pares e ser considerado dos melhores na sua área de actividade, qualquer que seja, da cultura, à ciência ou ao desporto.
Em 2007, Cristiano Ronaldo foi eleito o melhor jogador do Campeonato Inglês, o 2º melhor jogador do mundo no concurso do France Futebol, e o terceiro melhor jogador do mundo no concurso da FIFA.
Neste, Deco também foi nomeado, tendo ficado creio que no grupo dos nonos.
Parabéns aos melhores, sobretudo ao Ronaldo, claro!...

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

IPSS: uma "economia pobre" muito rica...

A nossa Cara Pezinhos n' Areia desafiou-me a fazer aqui uma reflexão sobre a "Gestão das Instituições Sociais" . No texto que escreveu em comentário ao meu post "Os talentos que podem fazer a diferença..." (ver: http://quartarepublica.blogspot.com/2007/12/os-talentos-que-podem-fazer-diferena.html#comments ) a nossa Cara Comentadora desabafa a certa altura que “E pior ainda, … a realidade da gestão das IPSS mantém-se obsoleta e desadequada. Quem ganha com este estado de coisas?”.
A acção social tem hoje razões de proximidade acrescida com todas as acções em que se organiza a protecção social e é concretizada através das instituições particulares de solidariedade social (IPSS) – entidades não governamentais, sem fins lucrativos.
A importância das IPSS e do voluntariado na concretização das políticas sociais e na concretização da solidariedade é hoje reconhecida pelo próprio Estado e pela sociedade civil. A sua proximidade às populações confere-lhes um melhor conhecimento das realidades e por consequência a probabilidade de as ajudas chegarem aos cidadãos mais necessitados é maior.
Um traço muito positivo das IPSS é o recurso ao voluntariado que encontra a sua espontaneidade no princípio da solidariedade, que desde sempre a sociedade portuguesa cultivou e que tem vindo a ganhar novas expressões e novas causas. O seu carácter humanista é um traço que todos reconhecemos ser necessário proteger e reforçar.
Mas é também um traço comum das IPSS, neste caso negativo, o défice de qualificações e de competências em domínios tão fundamentais como a gestão e a organização. Esta situação é em boa parte explicada pela origem assistencialista das IPSS e pelo seu rápido e acentuado crescimento, em resposta aos problemas económicos e sociais, num ambiente de surgimento de novos riscos sociais.
Mais qualificações e competências são hoje objectivos que o País reconhece como fundamentais para o seu progresso, para criar riqueza. Não temos outro caminho que não seja investir de modo contínuo e sustentado para aumentar o nível do capital humano.
Ora o sector social não lucrativo não pode nem deve ficar de fora deste desígnio nacional. A insuficiência de qualificações e competências afecta naturalmente a qualidade da gestão dos recursos, com consequências directas nos custos da actividade e nos benefícios para as pessoas que estão dependentes destas instituições e, na nossa economia em geral, uma vez que este sector é financiado no essencial pelo impostos que pagamos.
Ora, sendo o Estado responsável pela actividade das IPSS que recebem financiamento público, compete-lhe regulamentar, entre outras coisas, os requisitos de gestão que as IPSS devem observar e estabelecer os resultados de qualidade dos serviços prestados aos beneficiários que delas dependem.
Aqui reside uma grande parte do problema. É que o Estado não promove nem exige uma gestão profissionalizada, nem tão pouco estabelece níveis de financiamento em função da qualidade dos serviços prestados. Evidentemente que estes défices regulamentares geram efeitos perversos para além de que não asseguram uma melhor gestão custo/benefício. Faltam políticas públicas de profissionalização de gestão e políticas públicas de qualidade para este importante sector, que embora sendo normalmente assimilado à “economia pobre”, consome biliões de euros dos nossos impostos e acolhe dezenas de milhares de pessoas carenciadas. A título de exemplo, para melhor se compreender esta problemática, a regulamentação pública existente impede que as direcções das IPSS integrem gestores profissionais remunerados.
Há uma clara necessidade de o Estado assumir um quadro de incentivos para o investimento na gestão e na qualidade das IPSS. Este imperativo resulta ainda mais evidente quando sabemos que o sector não lucrativo (no qual o subsector social tem um peso muito grande) representa uma força económica significativa com uma despesa total em 2002 (números disponíveis) que ascendeu a 4,2% do PIB, envolve quase 250.000 trabalhadores (equivalentes a tempo inteiro), dos quais 70% em posições remuneradas e os restantes em regime de voluntariado e empregam mais do que algumas industrias de dimensão, como a das utilities e a dos transportes.
Não posso deixar, no entanto, de reconhecer o esforço, a boa vontade, o espírito de solidariedade e de sacrifício que muitas IPSS prosseguem para, num contexto de muitas dificuldades, a começar pelo quadro regulamentar existente, passando pela crescente pressão para aumentarem a sua capacidade de resposta, proporcionarem às pessoas carenciadas uma vida digna aliviando-as das carências que sem ajuda teriam muitas dificuldades e mesmo impossibilidade de satisfazer.

O processo UGT

Amanhã ninguém falará dele.
Mas é importante que se registe que o chamado processo UGT chegou ao fim.
Em 2007!
Vinte anos depois, repete-se, vinte anos depois dos factos!
Não me interessa aqui o que se sentenciou. O que julgo que não deveria ficar esquecido é o facto, provado, de que a justiça em Portugal, ela própria, se transformou num factor de injustiça para quem se vê enredado nas suas malhas.
Quanta despesa, paga com o dinheiro de todos nós, não importou este processo, que é um dos milhares a arrastarem-se nos tribunais portugueses?
Quantos incómodos, quanto sofrimento, quanto enxovalho público não foram causados a quem ao fim deste tempo foi declarado inocente?
Quanto tempo se consumiu nos meandros processuais e quanta distracção de coisas importantes teve como consequência?
E quanta incompetência não se juntou a tudo isto?
Amanhã ninguém se recordará. Infelizmente. Porque sem consciência social da caricatura em que se tornou a justiça nacional muito dificilmente deixarão de existir exemplos como estes.
Porém, ninguém parece importar-se.

Fantasia de Natal

O Natal é um período de apelo ao melhor que há em cada um de nós. É objecto de atenção e de inspiração para diversos intelectuais, poetas, pintores, músicos, escritores, religiosos e cidadãos anónimos.
Quem não tem recordações de Natal? Eu também tenho. A mais velha reporta-se à primeira vez que tive a noção da festa. Tinha uma árvore enfeitada, acompanhei todos os passos festivos e ouvi a promessa de que o Menino Jesus ia dar-me uma prenda! – Prenda?! Quando? Quando? Eu quero vê-Lo! – Durante a noite, não sabemos a que hora chega, são muitos os meninos.
Entusiasmado, nessa noite tive dificuldade em adormecer. De repente começo a ouvir falar alto dizendo: - É Ele! É Ele! Levantei-me a correr para O ver mas nada! Olho para a árvore e vi um lindo carro vermelho. Afinal tinha estado mesmo ali! Fiquei deliciado com o raio do carro que andava assim que se lhe dava corda. Foi pena não ter visto o Menino Jesus. No dia seguinte, na Igreja da Misericórdia, dei-lhe um beijo e agradeci-lhe o lindo carro vermelho.
Nos anos seguintes ansiava por este período, o mais belo do ano. No entanto, comecei a reparar, após o regresso à escola, que muitos meninos não recebiam prendas, quanto muito um saquito de pinhões, de nozes ou de passas. Para mim tratava-se de uma situação muito intrigante. Perguntava lá em casa por que razão muitos meninos não recebiam prendas. As respostas não me convenciam muito, ficando com a suspeita de que o Menino Jesus não tratava todos do mesmo modo, o que não era justo.
Numa manhã de Natal uma raparigona da vizinhança perguntou-me quais foram as minhas prendas. Eu disse e mostrei-lhe o que o Menino Jesus tinha dado. Ela riu-se e com uma satisfação danada começou a gozar-me dizendo que quem dava as prendas eram os pais. Quanto mais lhe dizia que não tinha razão, mais ela ria e sopeteava. Furioso, entrei em casa e perguntei como era! Acabaram por dizer que a rapariga, que ainda hoje, quando a vejo, me faz recordar a raiva do tal momento, tinha razão. Em sinal de protesto, não fui à missa e não liguei aos brinquedos desse ano.
Apesar de tudo, tive que me adaptar à nova situação e todos os anos vivia com intensidade este período. O que me custava mais era os que pouco ou nada recebiam. Em contrapartida, deixava que partilhassem dos meus brinquedos que acabavam por durar muito pouco tempo!
De ano para ano, a forma de encarar o Natal modificou-se sem perder de todo a fantasia criada em criança.
Histórias ao redor do Natal tenho-as muitas mas há duas que não consigo esquecer.
Numa noite de consoada, preparado para atacar a mesa, fui chamado para ver um vizinho. Assim que cheguei vi que algo de grave estava a acontecer. Deitado na sua cama, e rodeado por muitos familiares, o maior tartamudo que já conheci até hoje, mas que afirmava que “até falava bem, o que lhe faltava era a pausa”, olhou para mim e tentou dizer qualquer coisa. Não conseguiu. Com um olhar sereno e um ligeiro sorriso nos lábios, apagou-se que nem um passarinho enquanto ouvia o último batimento cardíaco. Olhei para os familiares, fechei-lhe os olhos e voltei para casa. Ia a entrar quando ouvi alguém a chamar-me. Parei e ouvi que uma tia velhota estava mal em casa do filho. Em poucos minutos estava ao seu lado. Assim que me viu, deitada no sofá da sala, disse: - Ai Manelzito (era uma das poucas pessoas que me tratava daquela forma) estou a morrer! Mas fez esta afirmação com muita ansiedade – Oh tia, está cá agora! Enquanto colocava o estetoscópio sobre o seu peito descarnado, recordei-me de que já tinha tido um enfarte e que padecia de angina grave. Assim que comecei a auscultação, agarrou-me a minha mão esquerda, repetindo: - Olha, vou mesmo morrer! Desta feita, fez a afirmação com muita calma e, passado algum tempo, não muito, o estupor do estetoscópio, pela segunda vez naquela noite, ouviu o último batimento de um velho coração. Fechei-lhe os olhos e regressei a casa. Era quase meia-noite, não tinha ceado, nem tinha apetite. Comi alguns doces e perguntaram-me o que tinha acontecido. – Foram dois velhotes que adoeceram. É noite de Natal, emocionam-se e depois, claro, sentem-se mal.
A outra história ocorreu numa enfermaria de um hospital pediátrico. Uma das minhas filhas, com seis anos de idade, foi vítima de uma grave doença algumas semanas antes do Natal, tendo que permanecer bastante tempo no hospital, continuando ao longo de muitos anos a sofrer das sequelas da mesma.
Na noite de Natal, depois de consolar os outros filhos, desloquei-me mais a minha mulher à enfermaria. A quase totalidade das crianças sofredoras não tinham os pais ao seu lado, mas a atmosfera encheu-se de uma estranha magia com a cumplicidade das enfermeiras. “Alguém” bateu nas janelas da galeria, imitando o Pai Natal, e, logo a seguir, era quase meia-noite, distribuíram-se miminhos, prendinhas e doces, ignorando soberanamente as regras.
É comum ouvir-se que os mais belos e puros sorrisos são as das crianças. Mas naquela noite, os sorrisos das crianças tiveram um duplo e estranho encanto. As suas máscaras de sofrimento desapareceram, ao mesmo tempo que transmitiam uma sensação de paz e de serenidade muito difícil de explicar...
Nessa noite, consegui dormir, pela primeira vez nas últimas aterradoras semanas, com tranquilidade, graças à fantasia do Natal...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A nova inflação

A inflação acaba de atingir 3,1%, em termos homólogos (Nov2007/Nov2006) na zona Euro, pulverizando o objectivo de estabilidade de preços que o BCE prossegue desde que em 1999 foi instituído e assumiu a responsabilidade pela condução da política monetária.
O BCE pretende conter a inflação próxima mas abaixo de 2%, de forma duradoura.
Esta subida dos preços no Euro (e não só) é recente, devendo-se no essencial à subida dos custos das matérias-primas, com destaque para o petróleo e seus derivados, bem como dos bens alimentares.
Note-se que isto aconteceu numa altura em que a taxa de câmbio do Euro/USD atingiu o nível mais elevado desde que existe Euro, o que deixa perceber que na falta dessa forte valorização do Euro a subida dos preços teria sido mais acentuada.
Merece especial referência a subida dos preços dos bens alimentares que em Outubro do corrente ano atingiu em média 4%, sendo bastante mais elevada em países como a Bélgica (5,0%) Alemanha (5,2%), a Áustria (6,5%) e a Espanha (6,8%).
A subida dos preços da alimentação deve-se ao forte aumento que tem sido registado nos preços dos cereais, trigo e milho em especial, fenómeno que para nós é novo, habituados que estavamos à queda dos preços agrícolas.
Nos últimos 12 meses, o preço do trigo duplicou e o do milho subiu mais de 50%.
A subida do preço dos cereais explica-se muito especialmente pela sua crescente procura para a produção de bio-combustíveis, biodiesel e bioetanol, a qual por sua vez se deve aos incentivos financeiros instituídos pela política de apoio às energias menos poluentes.
Defrontado com este novo fenómeno, o BCE emitiu na última semana um aviso de possível subida das taxas de juro, para o caso de a tendência de subida dos preços no consumidor não ser corrigida – e não se vê bem como possa ser corrigida, considerando que estes serão os primeiros sinais de um fenómeno que tende a acentuar-se.
Curiosamente, há cerca de 2 semanas - pouco tempo antes de se conhecer o valor mais elevado da inflação para Novembro – o Gov/BP declarou publicamente, na Associação Comercial de Lisboa, que a subida dos preços que estávamos a observar seria um fenómeno passageiro, devendo ser corrigido a curto prazo, o que lhe permitia afirmar que para 2008 estaria excluído o cenário de subida de taxas de juro na zona Euro...
Perante estes novos dados e face a uma sempre possível alteração na tendência do câmbio Euro/USD, é caso para nos interrogarmos se essa profecia (influência de Ricardo Reis?...), além de altamente arriscada, não terá também excedido o nível aceitável do politicamente correcto.
Teremos oportunidade, já nos próximos meses, de perceber melhor a sustentação deste fenómeno inflacionista e também se o BCE exclui mesmo o cenário de subida de taxas como nos foi prometido…ou se vamos ter juros mais elevados.
Deus queira que desta vez a profecia se cumpra, mas o risco é muito grande.
Em qualquer caso, estamos perante uma nova inflação, com algumas causas bem diversas das que há alguns anos conhecíamos.

A vertigem da imagem e da marca Portugal...

À semelhança do que vem acontecendo com as “reformas” que nascem e renascem nos mais diversos domínios de intervenção política ao ritmo dos sucessivos governos - educação, saúde, administração pública, etc. - também as campanhas de promoção da imagem de Portugal não param de crescer.
Não tinha a exacta noção – passei a ter este fim-de-semana ao ler uma notícia sobre a imagem do País – que desde 1992, portanto em 15 anos, já contamos no activo (ou no passivo, depende da leitura que queiramos fazer) com 11 campanhas que trataram de nos anunciar lá fora! Melhor dizendo que nos tentaram promover! Todas elas inventivamente trabalhadas por prestigiadas agências criativas, que perante tão brilhantes currículos são contratadas para a engenhosa tarefa de venderem Portugal como destino paradisíaco e detentor de qualidade e marcas de prestígio, enfim, como país de sucesso que se recomenda.
Acho bem e necessário que nos demos a conhecer, mas as campanhas só por si não são suficientes. É como nas empresas. Se nada mais acontecer, não passará de uma superficialidade e poderá perigosamente evidenciar falhas e fragilidades que não colam com a imagem de sonho!
A mais recente campanha foi agora lançada pelo Ministério da Economia e da Inovação sob o lema “Europe' s West Coast” na tentativa de associar a costa oeste da Europa à costa oeste dos Estados Unidos, ou seja, de explorar uma semelhança geográfica da costa atlântica Portuguesa com a costa da Califórnia. Semelhança que só poderá ser mesmo geográfica. Até Lisboa e São Francisco são geograficamente parecidas, com as suas colinas, a ponte sobre o rio ligando as duas margens, os eléctricos e pouco mais. Em tudo o resto estas duas Cidades e as respectivas costas oeste são muito diferentes. O nível e a qualidade de vida, bem expressos na talentosa indústria das tecnologias e do conhecimento, as excelentes infra-estruturas turísticas e o ordenamento do território, apenas para exemplificar, são realidades que fazem da Califórnia uma região fascinante. Acho bem que tenhamos a costa oeste dos Estados Unidos como referência, mas teremos que trabalhar muito e bem para lá chegarmos…
Questiono-me sobre os benefícios efectivos destas campanhas e se os destinatários das novas imagens melhoraram efectivamente a sua opinião sobre Portugal. Porque não adianta mudar a imagem só por mudar, se “por dentro” não se fizerem mudanças reais.
Questiono-me também sobre como são geridas estas campanhas, porque em vez de se medir a actividade política pelo número de campanhas de imagem o importante seria saber, por exemplo, qual o seu contributo para reduzir o défice da balança de transacções.
E questiono-me se a falta de estabilidade da imagem de Portugal, fustigada também pela inovação da sua marca, não será um factor de instabilidade e de perturbação para a apreensão e fixação de uma imagem.
Esta é uma daquelas áreas em que se me oferece perguntar se não seria ajuizado fazer um “pacto de regime”!?

domingo, 16 de dezembro de 2007

“Placebo justiça”

Uma das principais queixas, tema habitual de conversa, prende-se com a justiça ou, melhor, a falta dela. É raro não sentirmos um sentimento de desconforto face a inúmeros acontecimentos do dia a dia que se abatem sobre nós. Às vezes até parece que é o próprio mundo!
A leitura de uma notícia sobre um autarca muito mediático, que foi acusado de corrupção e extorsão, permitiu uma pequena reflexão sobre as diferentes formas de fazer justiça. Na notícia, o arguido ou suspeito afirma “não estar preocupado, porque há pelos menos duas justiças que funcionam, a divina e a de Fafe”. Nem mais! Apesar de tudo confessa que acredita “mais” na divina. “Se estou inocente, a justiça divina tem de funcionar”.
Tenho dúvidas quanto à operacionalidade da última.
Recordo os meus tempos de jovem, em que face à sensação de injustiça de que era alvo (não esquecer que os jovens são muito sensíveis a estas matérias), haver sempre alguém pronto a “resolver” o problema invocando a divina providência. Entretanto, enquanto esperava pelo desfecho (!), o assunto ia desaparecendo.
Quanto á “justiça de Fafe” não me parece ser a mais correcta, apesar de ainda abundar em certos momentos. O já citado autarca parece que acredita nela, mas coloco-a atrás da outra. Receio de que lhe possam aplicá-la? Quem sabe!
A justiça humana, praticada com base em leis, normas e princípios, também, tem os seu quês. E não são poucos! São vários os relatos e muito mais as pessoas que se sentem injustiçadas pelas decisões e atrasos. Só o facto de ter que enfrentá-la intimida qualquer um, para não falar da ameaça, tão frequente, com os recursos aos tribunais, por situações que muito mais tarde acabam por se provar serem injustas e descabidas. Os autores das queixas até “sabem” utilizá-las como forma de denegrir e de azucrinar a paciência, e destruir a personalidade do alvo, provocando-lhes doença e mal-estar que perdura tempos infinitos. Às vezes até temo, por eles, quando, em alternativa, começam a invocar a justiça da “moca”. Tento demovê-los e, diga-se de passagem, sem fé nenhuma, invoco a tal justiça divina, como uma forma de placebo. Talvez funcione. Aparentemente ficam mais calmos, o tempo vai passando e muitos dos problemas acabam por ser resolvidos.
A justiça divina pode ajudar os inocentes, mas, no caso dos culpados tenho muitas dúvidas. Até hoje não foi proferida nenhuma sentença válida (as proferidas através dos tribunais inquisitórios não contam). Talvez estejam à espera que o “arguido” chegue “lá” para lhe comunicar pessoalmente a decisão e respectivo castigo...
A frase, proferida pelo autarca, “se estou inocente, a justiça divina tem de funcionar”, afinal, não me parece ser tão absurda como isso! Claro que se não estiver “inocente”, então, tem tempo de sobra para saber a verdadeira e “divinal” decisão...

A revolução silenciosa


De facto, isto de olharmos para os números do crescimento, da produtividade e da riqueza, sem tratarmos de saber outra informações sobre o modo como se vive em cada país, pode dar um ideia bem errada do modelo que deve seguir-se. Por alguma razão se fala já em substituir o conceito do PIB por outros parâmetros que dêem uma ideia da felicidade dos povos e não apenas do seu desenvolvimento económico.
A Revista Pública de hoje conta que há no Japão uma autêntica “corrida ao divórcio” por parte daquelas transparentes criaturas que costumavam ser as mulheres dos japoneses. Na sequência da alteração da lei, que passa agora a permitir que metade da reforma dos maridos fique para as mulheres que pediram o divórcio, eis que os homens descobrem que afinal “as mulheres não vão tomar conta deles para sempre, tal como fizeram com os filhos” e que só a dependência económica as fazia suportar a infelicidade e o abandono. Perante esta “revolução silenciosa” das doces e submissas esposas, parece que já se constituiu uma espécie de clube dos maridos arrependidos, ou seja, de homens que se sentem em pânico por ficarem sem a casa limpa e o jantar na mesa e, ao mesmo tempo, com metade da reforma a voar…Para evitar o pior, dispõem-se agora a fazer o que nunca lhes ocorrera antes: tratar as mulheres com um mínimo de afecto, dedicar algum tempo à família e, nos casos mais extremos, mandar-lhes umas flores com umas palavrinhas de amor. Muitas das felizes contempladas manifestam total surpresa, em anos e anos de casadas nunca o marido lhes dirigira duas palavras a direito. Vamos ver se vêm a tempo.
Mas o modo como as jovens japonesas olham o casamento é talvez o retrato mais expressivo da ruptura cultural que se deu: sete em cada oito jovens licenciadas estão solteiras aos 29 anos e quase 30 em cada 100 declara não querer casar, enquanto a idade média de casamento passou dos 24 para os 28 anos. O número de idosos japoneses e o decréscimo da natalidade são já um grave problema no Japão, a que se juntam agora exércitos de homens divorciados que tinham como certa uma reforma desafogada e amparo incondicional que lhe foge por entre os dedos…
Sinais de um desenvolvimento desumanizado, se as pessoas contam pouco cada um trata de si, no Japão ou noutro lado qualquer.

Grande Votação Insurgente 2007

O Insurgente acaba de nomear o 4R, conjuntamente com mais outros quatro blogues, para a Grande Votação Insurgente 2007, a eleger pelos Visitantes .
Dada a qualidade do patrono e a qualidade dos acompanhantes, só nos podemos sentir honrados com a distinção.
Os nossos agradecimentos a O Insurgente, que congrega autores e textos de excelência neste mundo da blogosfera.

2007: o triste retrato da Justiça

  • Guerra aberta entre Ministério Público e Polícia Judiciária
  • Violentíssimas críticas feitas em público pelo Inspector-Geral da Administração Interna aos modos de actuação das polícias e ao próprio estatuto da GNR que o Ministro não subscreveu, mantendo-se o Inspector-Geral em funções
  • Espantosas entrevistas do Senhor Procurador da República e as suas não menos extraordinárias suspeitas sobre as escutas ilegais ou de existência de vários poderes fácticos no seio da Procuradoria
  • Irreprimível sede de protagonismo de juízes e procuradores e a tão descarada quanto implacável contestação das opções da política criminal e às alterações às leis penais, numa tentativa permanente de menorizar o Parlamento
  • O flop do pacto para a Justiça
  • Confusão de papéis dos senhores ministros da Justiça e da Administração Interna e discurso oco do primeiro e habitualmente circular do segundo
  • Magistrados que se consideram funcionários para efeitos de legitimação do direito de greve e titulares de órgãos de soberania em matéria do seu estatuto funcional
  • O populismo e a falta de vergonha que assaltaram a Ordem dos Advogados e a guerra entre bastonários que atingiu o grau zero da decência
  • A confirmada tendência do senhor Procurador-Geral para nomear magistrados com poderes especiais para coordenar as investigações em curso sempre que a opinião publicada dramatiza sobre uma questão de segurança
  • Aceitação pelas instituições dos verdadeiros julgamentos populares e execuções sumárias do carácter e da honradez feitas diariamente nos media, sem direito a defesa e a apelo.
  • Continuada desjudicialização da Justiça sem resultados na diminuição das pendências.

    Eis um breve retrato do estado da justiça e da segurança em 2007. Em 2008, o espectáculo continuará. Até quando?

sábado, 15 de dezembro de 2007

Praça da República distingue o 4R!...

O Blog Praça da República distinguiu o 4R com o seu mais alto galardão, o Pelourinho de Ouro, como blog do ano de 2007. Em companhia de outro blog, por sinal excelente, Hoje há Conquilhas.
Dez outros blogs foram distinguidos com o Pelourinhos de Prata, de Bronze e Menções Honrosas, o que denota o critério apertado da selecção e a qualidade que à mesma presidiu.
Honrados ficamos com a distinção do Praça da República, do João Espinho, uma Praça sólida e esbelta, de onde observa, com ar atento, o que se vai passando por aí. Observa, descreve e também fotografa, com enorme sentido estético e saber.
É um prazer passar por tal Praça!...
E, sendo da República, tanto melhor para nós, os da Quarta!...
Convido todos a dar lá uma espreitadela. Para ver os textos, as fotografias e os diversos Pelourinhos atribuídos!...
Ah! E os agradecimentos da Quarta!...


O frio que os parta!...

Logo pela manhã, aberta a televisão, o Serviço Meteorológico, jornalisticamente interpretado, anunciava-me frio. Apesar de enteder melhor a informação do estado do tempo quando directamente prestada, sem mediação jornalística, confesso que consegui perceber a mensagem. Seria um dia frio, nomeadamente em vários distritos.
Mas nem tive tempo de saborear tal feito de compreender que estaria frio. É que, logo de seguida, um outro serviço, que dá pelo pomposo nome de Protecção Civil, veio clarificar a situação. Seria um dia frio!... E, para que ninguém deixasse de perceber que estava frio, estabeleceu mesmo um mapa de alertas, que chamou amarelos. Fiquei a novamente a saber que estava frio e que o frio era amarelo; só não compreendi bem foi a razão da cor, mas também não se pode entender tudo!...
Quando, pelas 13 horas, me deslocava no carro para almoçar num restaurante, o dito Serviço atacou de novo. E avisou-me que estava frio. Mas, para além disso, disponibilizou uma reputadíssima técnica para, através da RDP, me aconselhar em tão difícil e delicado transe. E que disse a técnica? Muitas coisas de enormíssimo alcance!...Por exemplo, aconselhou-me, em tal penoso momento, a acumular roupa sobre roupa, como vestir um casaco, quando saísse de casa. E explicou a vantagem: é porque, quando regressar, tiro o casaco e fico logo confortável no doce sossego do lar!...
Perante tão sábios e argutos conselhos, abençoei os impostos que pago para sustentar o trabalho de quem assim dedicadamente me serve!...
Pois como é que eu iria sentir frio sem o alertazinha amarelo e, sobretudo, me ia lembrar de vestir o casaco quando está frio?
E tenho andado eu a pedir menos Estado e menos despesa pública!...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Os talentos que podem fazer a diferença...

Numa humanidade tão altamente desenvolvida como é a actual, cada um, por natureza, recebe em dote acesso a muitos talentos. Cada qual tem talento inato, mas só a poucos é dado por nascença e por meio da educação o grau de tenacidade, persistência e energia, para que o indivíduo se torne, realmente, um talento, para que, portanto, venha a ser aquilo que é; ou seja, traduza isso em obras e acções”.
Este pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que mantém a sua actualidade, encerra em si o desafio de sermos capazes de descobrir e gerir os nossos talentos e darmos espaço aos talentos dos outros.
A descoberta dos talentos não é como sabemos automática, antes implicando uma oportunidade ou um ambiente que a favoreça, assim como a exploração dos seus benefícios, não apenas para satisfação de nós próprios mas também em relação aos outros, de quem afinal de contas também dependemos.
Passamos muitas horas das nossas vidas nos locais de emprego, uns a trabalhar com gosto e entusiasmo, outros nem por isso e outros não encontrando qualquer sentido na sua actividade profissional.
Escreve-se pouco em Portugal sobre a gestão das pessoas. Este facto só por si revela um défice de importância que as organizações, sejam elas privadas ou públicas, colocam na gestão dos seus colaboradores.
Tenho lido alguma coisa sobre esta matéria na imprensa estrangeira e em documentação da especialidade e verifica-se que colocam a tónica na necessidade de as organizações investirem mais no lado humano ou consideram que a liderança chave das empresas do século XXI é aquela que descobre e gere os seus talentos ou ainda que sem compromisso trabalhar não faz sentido.
Qualquer destas mensagens não poderia ser mais verdadeira. É qualquer coisa que a nossa intuição e sensibilidade aprova com toda a naturalidade, sem dificuldade. Mas a realidade não é assim.
Com efeito, constatamos em Portugal que no mundo laboral uma grande parte dos trabalhadores sofre de um certo cansaço e de falta de entusiasmo, não se identificando com a missão das suas empresas e não partilhando dos seus valores. Estudos da especialidade apontam para que um número crescente de pessoas se questione sobre o sentido último do seu trabalho e sobre se valerá a pena fazer sacrifícios pela sua organização. E a maioria das empresas não só não demonstram preocupações com o bem estar dos seus colaboradores, como não se interrogam sobre se essa sua atitude não constituirá um obstáculo para que as pessoas possam alcançar uma vida mais equilibrada.
Ora esta cultura não favorece a produtividade. Se é verdade que os gestores dominam o negócio e os respectivos aspectos operacionais, certo é que terão que se esforçar muito mais para envolver emocionalmente os seus colaboradores e os motivar de modo a permitir que cada pessoa explore o seu potencial e dê o melhor de si mesmo. É por aqui que se fará o caminho. A sobrevivência das empresas num mercado cuja ideologia marcante é o crescimento económico a qualquer preço dependerá cada vez mais da sua capacidade de proporcionarem aos seus colaboradores uma realização pessoal, explorando a sua criatividade e o desenvolvimento dos seus talentos.
A produtividade das organizações estará cada vez mais dependente da satisfação e felicidade das pessoas que nelas trabalham. Por isso, a gestão de talentos está a assumir um papel cada vez mais importante nas organizações. A concorrência e a competitividade apostam hoje e no futuro, mais do que nunca, no conhecimento e este não avança sem pensamento criativo. A capacidade de inovar terá uma correlação forte com a descoberta de talentos e a sua tradução em acções e obras.
Como as organizações não se fazem sem pessoas, aquelas que seguirem por esta via serão sustentáveis porque mais responsáveis e terão mais possibilidades de sobreviver! E as pessoas poderão encontrar na componente trabalho um contributo positivo para o seu bem estar e a sua felicidade!