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domingo, 27 de julho de 2008
Para quando um SISTEMA DE SAÚDE em Portugal?
Ou seja, continua a ignorar-se uma (ainda) moderna Lei de Bases da Saúde, dos ídos anos 90, onde se diz que o SNS é um dos prestadores de cuidados, a par dum sector privado e dum sector social, em regime de contrato ou convenção, numa lógica de prestação plural, concorrencial, centrada no cidadão e geradora de um verdadeiro SISTEMA DE SAÚDE.
Passados 18 anos ainda lá não chegámos!
Continua uma aposta num serviço de saúde estatal, a braços com recursos escassos frente aos crescentes e desafiadores investimentos e consumos, uma inevitabilidade da tecnologia e dos inegáveis ganhos em saúde.
Vai-se continuando a puxar por uma "manta curta" que ora tapa aqui, ora destapa alí, ora reestrutura e encerra serviços, ora assiste ao grave desvio dos seus melhores profissionais (e da sua escola formativa), ora constata e se queixa que é "fornecedora" dos cidadãos que "alimentam" o sector privado, ora reconhece alguma ineficiência e desperdício de uma máquina pesada que obriga a prestar serviços a preços mais elevados...
Assim continuará, enquanto se continuar a defender que os outros dois pilares prestadores de serviços de saúde são supletivos, complementares e não concorrenciais do SNS!
Assim continuará, enquanto não se garantir ao cidadão a liberdade de escolha do prestador e da instituição, enquanto não se financiar o direito à saúde, independentemente desse acesso e da escolha recaírem na prestação pública, social ou privada.
A forte regulação da qualidade, da equidade no acesso e do preço do serviço, essa sim, compete e só ao Estado.
“Ainda vai enterrar muitos”!...
Fui consultado por um senhor há poucos dias por queixas urinárias, sangue total, que não augura nada de bom. Em pouco tempo foram feitos os exames necessários que apontam para uma lesão renal e também vesical. Quanto a esta última não me parece ser a mais preocupante, até, porque já foi alvo de intervenção cirúrgica a situação semelhante há poucos anos. O pior é a lesão no rim direito.
O senhor vive na companhia de uma jovem senhora que o trata de forma exemplar em virtude das filhas viverem fora do país. Simpático, comunicativo, bem disposto e com uma cabecinha de fazer inveja a muitos jovens. Gosta imenso de conversar, sempre com um agradável sorriso.
Face aos dados, tive que lhe dizer que a lesão na bexiga era igual às que tinha sido operado anteriormente, sendo, muito provavelmente, benigna. Mas no rim havia qualquer “coisita” que tinha de ser retirada e, para o efeito, ia escrever uma carta para ser entregue no hospital a um colega especialista. Muito provavelmente teria necessidade de fazer mais um ou dois exames e, depois, ser sujeito a uma intervenção. Enquanto falava, perscrutava a sua fácies e comportamento, verificando que estava atento, mas um pouco apreensivo, traduzido por um silêncio emoldurado pelo sorriso da natural boa disposição. Adiantei que a situação iria ser resolvida e com sucesso, até, porque, apesar da idade, estava mais do que em condições físicas para ultrapassar o problema. A conversa, ou melhor, a meia-conversa continuou e, à saída, depois de ter entregue a carta à acompanhante, disse-lhe que, após a intervenção, gostaria de o ver para saber como tudo tinha corrido. Foi então que me disse, com o seu sorriso natural, agora meio entristecido, que às tantas não seria ele quem viria mas sim alguém a pedir que assinasse uma certidão de óbito. Repliquei, com muita sinceridade, que não seria esse o caso, porque acreditava que tudo ia correr pelo melhor e que os seus 90 anos não seriam grande estorvo. Sorrindo, utilizei uma velha expressão de votos de uma vida longa: - Qual quê! “O senhor ainda vai enterrar muitos”! Virou-se e disse: - Oh senhor doutor! Eu não sou coveiro. Nunca enterrei ninguém! E largou uma sonora gargalhada que me contagiou, obrigando a ripostar com uma outra.
Espero que, daqui a algumas semanas, possa ouvir e ver, novamente, uma pessoa que ama a vida, que é detentor de um sorriso simpático e partilhar alguns momentos da sua simplicidade e humildade.
Espero, muito sinceramente...
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Desendividem-se? Mas como?!
Entre todos, cabe referir o comentário do Presidente da República, cheio de sensatez, sobre a necessidade de vivermos mais de acordo com os nossos recursos.
Estes comentários e recomendações dirigem-se sobretudo ao endividamento excessivo das Famílias, embora tanto o Estado (em especial se considerarmos o conceito de SPA – Sector Público Alargado) como as Empresas mostrem também elevados índices de endividamento.
A economia portuguesa precisa, ou diz-se que precisa, de uma cura a que os ingleses chamariam de “deleveraging” – redução dos níveis de dívida.
Poderei dizer, em relação a estas tomadas de posição, o seguinte: muito bem, é preciso reduzir o endividamento, mas como é que isso se faz?
Esta interrogação é justificada pois, dos vários pronunciamentos conhecidos, não encontrei um só apontando o caminho para a redução da dívida – apenas sabemos que tal é necessário...
E é bom que se diga que aquilo a que estamos a assistir e vamos continuar a assistir é precisamente o contrário: estamos até a acelerar o ritmo de endividamento ao exterior, este ano e no próximo pelo menos, com o considerável alargamento do défice corrente.
A dívida externa entrou já no caminho da auto-alimentação, não pode parar de crescer. Isto é de fácil conclusão quando verificamos que a dívida aumenta este ano cerca de 6% do PIB só por efeito dos encargos que ela própria gera...
Como por outro lado nós não somos capazes de exportar bens e serviços em valor equivalente – bem longe disso – ao que importamos, temos aí mais um factor de crescimento da dívida...
Tudo junto, estamos a falar de qualquer coisa como 15% do PIB este ano e também no próximo.
Temos depois para amenizar a situação as transferências correntes e de capital, susceptíveis de gerar uma entrada líquida de pouco mais de 3% do PIB.
A dívida cresce assim cerca de 12% do PIB/ano, no actual contexto.
O cenário irá repetir-se nos próximos anos, apesar dos apelos patrióticos ao desendividamento que vamos ouvir porventura com intensidade e frequência crescentes.
Decisões como a de lançar o Programão de obras públicas contribuirão para agravar – e de que maneira – este cenário.
O maior problema colocar-se-á provavelmente em 2013, se não for antes, quando terminar o Quadro de Apoio em vigor e já não pudermos contar com os capitais disponibilizados pela U.E.
Nessa altura, os apelos ao desendividamento vão provavelmente tornar-se quase lancinantes...
Tal como hoje, caberá perguntar aos autores desses apelos: desendividem-se? Mas como?!
A "longa metragem" da pobreza (II)
Há alguns dias escrevi sobre a pobreza inspirada um pouco no Estudo sobre a “Pobreza e Exclusão Social em Portugal” recentemente publicado.Escrevi sobre a relação existente entre a pobreza e o capital escolar. Com efeito, de entre os factores estruturais aprofundados pelo Estudo que explicam a dimensão da pobreza encontra-se a educação.
Os baixos níveis de escolaridade conduzem a situações profissionais pouco qualificadas e geradoras de baixos níveis salariais, contribuindo para a precariedade do emprego, quer no que se refere à estabilidade do rendimento quer no que se refere ao seu nível. A educação assume por isso um papel fundamental no caminho do desenvolvimento.
A quebra do ciclo vicioso da pobreza revela-se difícil quando as famílias não conseguem que os seus filhos frequentem normalmente a escola porque o seu nível de rendimento e os problemas que daí derivam (não disporem por exemplo de ambiente para estudar e aprender) não permitem fazer face às despesas que lhe estão associadas, sobrepondo-se outras de maior necessidade, como é o caso da alimentação. Nestas circunstâncias o baixo nível de escolaridade e cultural dos pais não ajuda, antes funciona como uma explicação para nada mudar, tal é a barreira tantas vezes intransponível da falta de condições para proporcionar um quotidiano de vida normal, nas suas diversas componentes, designadamente a dimensão psicológica e emocional.
Assisti há alguns dias a uma excelente e educativa reportagem da SIC sobre uma família de Chão Sobral, residente na Aldeia dos Dez no Conselho de Oliveira Hospital. Trata-se de uma família rural numerosa, constituída por onze membros, pais e nove filhos com idades compreendidas entre os quatro e os vinte e três anos de idade. A história de vida desta família – Família Luís - impressionou-me pela sua sabedoria e riqueza de espírito em contraste com a presença de grandes dificuldades e obstáculos materiais causados pela sua fraca condição económica e social.
Na Família Luís, que se sustenta com um rendimento mensal que não chega a dois salários mínimos nacionais - obtidos numa oficina caseira de fabrico de facas com cabo de madeira – e com alguns apoios sociais e a solidariedade da comunidade local, todos os filhos estudam, com excepção da filha mais pequenita ainda com quatro anos. Os três filhos mais velhos estão a frequentar o ensino superior em Coimbra e sustentam-se com bolsas de estudo. Não trabalham para poderem estudar e vivem numa residência colectiva, contando exclusivamente com aquele apoio escolar, pois os pais não os podem ajudar.
Os pais sempre tiveram a preocupação de incentivar os filhos a estudar e entendem que os seus sacrifícios, que são muitos, são sustentáveis enquanto os filhos o quiserem fazer. Este querem e desejam fazê-lo. Estes pais sabem que a vida dos seus filhos só poderá ser melhor do que a deles se estudarem e se obtiverem uma qualificação profissional. Os filhos mais velhos falam com alegria do amor e generosidade dos seus pais e têm a certeza que vão vencer as adversidades e conseguir aproveitamento escolar para, antes de tudo o mais, ajudar os pais na educação dos irmãos mais novos.
O que impressiona nesta Família é a enorme sabedoria e riqueza de espírito, em particular dos pais, que a mobiliza na vontade, esperança e certeza de que tudo devem fazer para que todos os filhos tenham a oportunidade de estudar, com condições que lhes permita um bom aproveitamento escolar. Desejam que na escola aprendam muito e que também se distraiam. É o nobre e consequente desejo de uns pais, contagiado aos filhos mais velhos, que querem que os filhos não pensem demasiado nas dificuldades da falta de dinheiro, que sonhem e projectem coisas boas para as suas vidas.
Há em Portugal muitas famílias “Luís” com fracos recursos financeiros e muitas dificuldades para quebrar o ciclo da pobreza em que se encontram e de contrariar a sua própria condição de exclusão social. Mas, infelizmente, ainda são poucas as famílias “Luís” com pais tão lúcidos e tão corajosos, tão educados e tão cultos, mobilizados para transpor as dificuldades que os apoios sociais quase inexistentes não ajudam a esbater.
Esta história ajuda-nos a perceber melhor o que é pobreza em Portugal e a necessidade de tomarmos verdadeira consciência que temos obrigação de dar oportunidades às famílias “Luís” para entrarem no ciclo virtuoso do desenvolvimento. Pensemos micro ou pensemos macro, a pobreza não tem que ser uma fatalidade para quem dela sofre e para o País! Fingir que a pobreza não é uma realidade brutal e estigmatizante para quem dela padece e para o bem estar colectivo é negar aquilo que é verdadeiramente importante na nossa existência!
quinta-feira, 24 de julho de 2008
“Oniomania politica”...
A oniomania é uma doença compulsiva que leva as pessoas a comprar coisas desnecessárias, em excesso, e, até, repetidamente. Ao comprar, o indivíduo sente satisfação e prazer, originando uma sensação de felicidade que se transforma, muitas vezes, em posterior arrependimento. Quantas pessoas não estarão hoje em dia arrependidas de terem comprado o que não deviam? Tudo aponta para que a forma patológica ocorra uma em cada doze pessoas. Mas a tendência para comprar “futilidades” deverá ser muito superior, fazendo com que certas campanhas de “facilidades” acabem por apanhar nas suas tenebrosas malhas muitos incautos.
Os alemães acabaram de anunciar que desenvolveram uma terapêutica bem sucedida para esta doença. Trata-se de uma terapêutica de grupo destinada a reorientar o comportamento para as verdadeiras necessidades dos doentes, adquirindo autocontrolo e reaprendendo a lidar com o dinheiro. A oniomania enquadra-se dentro do grupo de doenças tipo cleptomania e piromania.
É uma realidade, entre os portugueses, a existência de um traço de oniomania que urge tratar. Mas, face aos investimentos que para aí andam a ser anunciados, e atendendo às nossas necessidades e possibilidades, a “oniomania política” é tão preocupante como a oniomania de um qualquer cidadão que foi “manipulado” pelos “agentes da economia”, se é que se podem chamar assim!. Só que, no caso da primeira, não é o decisor a pagar, logo não corre risco de se arrepender, ao contrário do desgraçado cidadão que tem de pagar as suas dívidas e as contraídas pelos outros...
Estamos tramados!
Variação do PIB em 2008 chegará a 0,7%?
Quanto ao 2º trimestre têm sido divulgadas estimativas por alguns analistas da especialidade, trabalhando sobre modelos próprios, que apontam uma variação homóloga não superior a 0,5%.
A confirmar-se esta estimativa, que se afigura razoável tendo em conta a evolução do indicador coincidente do BdeP – sendo que este até sugere uma evolução mais desfavorável – teríamos no 1º semestre uma variação homóloga da ordem de 0,7%.
Quanto ao 2º semestre é bem provável, conhecendo o efeito desfasado de alguns dos factores que têm vindo a influenciar o comportamento da procura interna e externa – restrições ao crédito, abrandamento das principais economias, acentuação da crise em Espanha - que venhamos a observar uma desaceleração do crescimento.
Neste contexto, a variação homóloga no 2º semestre dificilmente chegará a 0,7%...
Mas vamos admitir, por agora, que é capaz de lá chegar – pode ser que o preço do petróleo acabe por dar alguma ajuda, lá mais para diante.
Sendo assim, para o conjunto do ano teríamos uma variação do PIB em torno de 0,7%, num cenário que sem ser cor-de-rosa é apesar de tudo menos mau...
Lembro que estou a assumir um grande risco, apresentando esta previsão poucos dias depois de o “infalível” BdeP ter avançado uma previsão de 1,2% - embora chamando a atenção para os elevados riscos descendentes do exercício em causa.
Mas também me parece que fazer previsões depois dos factos ocorridos, que é a especialidade dos nossos mais distintos “estadistas”- enganando-se com frequência mesmo assim – tem realmente muito pouca graça.
Previsões fazem-se a esta distância, com alto risco, para terem algum sabor…
O 4R criou um saudável hábito de convidar os seus visitantes/comentadores a participar em exercícios de previsão de eventos de diversa natureza – política e económica – e achamos interessante manter esse hábito, que para lá do carácter lúdico ajuda a descontrair o debate e a laminar algumas asperezas da vida...
Querem os nossos estimados Comentadores lançar suas sugestões/arrojadas previsões para a variação do PIB em 2008?
Que investimento público?
"Mas será esta a única discussão que queremos fazer, sobre as obras públicas, a do debate financeiro? Evidentemente que não. Foi por causa da obsessão "tem de se pagar a si mesma" que a virtuosa Expo 98 degenerou no ladrilhado Parque das Nações. Todos são santos e pecadores na tese financeira. Do PSD, que analisa o tema num microscópio, ao Governo, que adiciona variáveis na equação para tornar “sustentável” o que é “inviável”.
(…)
O País não vai recuperar o dinheiro investido nestas obras. O Governo tem a obrigação de deixar isso claro e, depois, de explicar porque ainda assim as faz. É para isso que se elegem políticos em vez de analistas financeiros, para tratar do País. A economia não é apenas finanças”
O tema do “programão” das obras públicas – como aqui o baptizou Tavares Moreira – tem sido abordado no 4R nalgumas das perspectivas de análise adoptadas no JdN de hoje. É um debate que se impõe que se aprofunde. Decerto na perspectiva da utilidade e rendibilidade de cada projecto de per si. Mas tendo como pano de fundo o modelo de desenvolvimento que queremos para o País. Só assim será possível saber-se se projectos com utilidade marginal decrescente, como é manifestamente o caso das estradas e autoestradas, fazem sentido numa óptica de desenvolvimento regional apoiado, exigência da coesão nacional se não pretendermos reduzir cada vez mais o País ao litoral. Ou se, conjunturas à parte, os benefícios indirectos dos projectos (ambientais, sociais ou outras) que o Governo contabiliza – quando contabiliza – sem se perceber de que premissas quantitativas parte, justificam o ónus que se está hoje a lançar sobre as gerações futuras. Ou, mais prosaicamente, se muitas das obras não são, afinal, tiques de um País que se quer dar ares de rico, sacrificando o investimento por exemplo num melhor funcionamento da Justiça, de cujo salutar funcionamento e eficiência depende em boa parte a competitividade, ao encurtamento das distâncias-tempo quando não parece ser este em Portugal, 2008, o factor crítico do desenvolvimento.
Nós, por aqui, não partilhamos a opinião de que o País só perde com estas discussões. Que o que importa é decidir, bem ou mal. Não nos incomoda que o que estava consolidado há uns anos atrás seja hoje posto em causa. Ao invés, esta dinâmica parece-nos essencial para o acerto das decisões. E não deve incomodar quem, tendo de decidir, não se queira tornar surdo ou autista. Pelo contrário, deve servir de estímulo. O exemplo do abandono do aeroporto da Ota está aí para o demonstrar. Até o Governo, sem o dizer, aceita que se evitou um erro quando pela discussão se obrigou a estudar alternativas. Seria impossível reparar esse erro se se mantivesse surdo.
Por isso decidiu o 4R contribuir para esta reflexão, ainda que na modéstia do que pode, abrindo este espaço ao aprofundamento do debate. Assim, nos próximos meses aqui publicaremos, sem prejuízo de outras iniciativas, o depoimento de algumas personalidades de mérito reconhecido, naturalmente aberto ao comentário de quem nos vem acompanhando.
Falta o pão, RTP dá o circo!...
Tais “certezas” , as mesmas que não convenceram a Polícia, nem o Ministério Público são as mesmas que, agora, são apresentadas em livro. E irão ser tomadas por muitos como verdade irrefutável e prova definitiva. No preciso momento em que os pais acabaram de ser ilibados pelas autoridades, recomeça, em larga e inimaginável escala, o seu julgamento popular.
Critica-se o “oportunismo” do livro. Mais tarde, passado o tempo necessário, talvez fosse útil e oportuno; no momento presente, não pode ser visto senão como um mero exercício novelístico, treino para romance de maior fôlego ou forma fácil de fazer dinheiro.
No entanto, ávida de sensacionalismo, a comunicação social anda excitada com a peça. Pois que se excite, a Constituição também permite a liberdade de excitação, sem discriminação de sujeito ou objecto.
No entanto, o canal de serviço público, se aí existisse alguma ideia do que isso é, deveria ter especiais cuidados na indecorosa demonstração pública do acto. Pois é o que mais desavergonhadamente demonstra a excitação. Provocando uma das maiores campanhas de desprestígio da Judiciária e do Ministério Público e de desconfiança nestas instituições, assim como um verdadeiro linchamento público dos pais.
O autor do livro vai ser logo ouvido no principal programa de entrevistas do canal público.
Se já não confiava nos critérios do canal, ainda tinha alguma “fé” nos critérios de alguns jornalistas. Agora, até essa se perdeu. A informação deu, de vez, lugar ao espectáculo. A turba gosta. Faltando o pão, que venha o circo. Um homem e uma mulher vão ser lançados às feras. Logo, na arena da RTP!...
Vidas de encontros e desencontros
Agora, já chegadas aos oitenta anos, os telefonemas eram cada vez mais espaçados, quase só a marcar as datas que tinham ficado mais firmes na memória, por isso era terrível ouvir aquele som sufocado de angústia com que ela começou de repente a desfiar a sua vida.
-“Tu sabes, sim tu sabes que eu fui um exemplo da geração de mulheres educadas para casar, ter filhos, cuidar da casa e apoiar o marido na profissão com que ele sustentava a família. Vivi apagada na sombra deste homem, meu único namorado, meu único amigo, a ele dediquei os sonhos de juventude, lembras-te como ele se zangava quando eu ria alto, lembras-te como era sisudo e austero? Não gostava de risos nem de barulho, com o tempo deixei até de sorrir, depois passei a calar-me quando ele estava presente, uma vez porque estava cansado, outra porque só ele tinha coisas para contar. Os filhos preencheram-me o tempo vazio dele, mas cresceram ansiosos por se libertarem da tirania do pai, dos seus silências sorumbáticos ou do jeito acusador que trazia da sua profissão. Deixei de ter vida própria, gastava os dias a cuidar da família, vivia a vida dele, como uma sombra, sempre foi assim, era o meu dever.
Sim, é verdade que muitas vezes me revoltei em silêncio com a solidão, a ver a minha vida escoar-se naquela atenção discreta, impiedosa, de quem tinha que estar presente sem se fazer sentir.
Sim, é verdade que sentia como uma ofensa quando ele chegava tarde e mal humorado, resmungava um cumprimento e nem um beijo me dava, foi sendo assim, já não me lembro de alguma vez lhe ter ouvido uma palavra de carinho, um gesto de amor, nunca um presente, um telefonema de saudades, há quanto tempo não saimos juntos? Tu sabes, várias vezes me criticaste por me isolar tanto, mas o queres?, fui-me habituando, não parecia bem sair sem ele...
Fui desculpando com as preocupações da profissão, fui desculpando e esperando pacientemente que chegasse a idade da reforma, talvez então pudessemos sair, reatar amizades antigas ou ir ao cinema. Os meus filhos cansaram-se dos confrontos com o pai, seguiram as suas vidas e passam semanas que nem sei deles, não os culpo, coitados, não os culpo, mas senti-me tão só, nunca fizémos amigos, neste vaguear com a casa às costas.
Mas quando ele se reformou, há uns anos, ainda foi pior, ficava dias a fio sem vir a casa, reuniões, conferências no estrangeiro, uma roda viva, dizia-me secamente arranja-me a mala, amanhã não esperes por mim. E eu ficava aqui, sozinha, a arrumar esta casa já tão velha e tão triste como eu.
Até que ele teve aquela doença súbita, ah,não sabias?, pois foi, quando o teu marido morreu ele já não estava bem, começou a perder o equilíbrio, a não poder guiar, os médicos sem um diagnóstico certo. Voltou a semana passada do hospital, sem poder andar, a depender de mim para tudo, mas mesmo assim seco e mudo como nunca. Não, talvez mais triste, agora que penso nisso, uma tristeza inquieta, uma revolta que atribuí à desgraça de se ver tão velho e tão doente. Tive pena dele, uma pena enorme, sabes?, também me doía vê-lo assim, ele que era tão orgulhoso da sua figura e tão arrogante. Esqueci tudo, os anos de abandono, o mau humor permanente, a brusquidão dos gestos, não era agora, já próximo dos 80 anos, que seria altura de o deixar sem amparo.”
As lágrimas secaram à medida que Libânia falava em atropelo, a voz ganhava força à medida que desfiava a sua vida, já não era indolente nem conformada, na ânsia de se libertar daquele peso que a atormentava e que lhe ditara o impulso de ligar a alguém que a ouvisse.
-“Hoje pediu-me que lhe chegasse o telefone, deu-me um número para marcar e mandou-me sair da sala. E eu, para não o contrariar, fui saindo lentamente, a hesitar se o devia deixar sozinho. Foi então que ouvi como a voz dele mudava de repente, um tom doce, suave, a dizer a alguém do outro lado da linha “minha querida, não te preocupes, sim eu estou melhor, sim, só não quero que te amargures, eu falo, meu amor, descansa, eu falo-te”.Agarrava o telefone como quem se agarra à vida e depois deixou-o cair lentamente, as lágrimas a correr pela cara, chorando sem se conter, dobrado sobre o seu corpo doente como se fosse um farrapo.”
Libânia fez um pausa, para que a emoção deslizasse sem se emaranhar nas palavras que fluiam sem parar. Contou à amiga que o marido não esperou pelas perguntas, que começou a falar pausadamente, secamente, com a voz que usava quando lia sentenças irrevogáveis nos seus tempos de juíz. Disse-lhe que se tinha apaixonado há mais de vinte anos por outra mulher, como tinha sofrido por não poder viver com ela, por causa da família, por causa da vergonha de um divórcio, “por tua causa, sim por tua causa, nunca te faltei com nada, não te podes queixar, já vês como eu sofri”. Disse-lhe que a outra tinha aceite aquela indignidade por amor dele, que tinha renunciado a ter filhos, que tinha compreendido que ele tinha que manter a sua vida, a sua imagem, por ele tinha abandonado tudo.
-“ Só te peço que me deixes falar-lhe de vez em quando, ela também já está velha e doente, não posso pensar que vamos morrer sem voltar a ver-nos. Perdoa-me, mas deixa-me falar-lhe, não será por muito tempo”, e olhava para ela como um condenado a suplicar o último favor.
Foi aqui que Libânia parou de falar, mesmo antes de esperar uma palavra de conforto da amiga. A voz dele soou ao longe, imperiosa e urgente e ela desligou, muito aflita, porque ele estava a chamá-la e devia precisar de alguma coisa.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Polícia Judiciária, escola de ficção!...
Nas funções de Inspecção revelam-se uns acabados ficcionistas, compõem personagens a jeito e aguentam novelas com mais de trezentos capítulos. Contudo, não conseguem solução aceitável para a trama imaginada e a obra acaba por exaustão.
Em contrapartida, quando passam à peluda, revelam-se polícias despachados e expeditos e, em três tempos, apresentam a versão autêntica dos factos e a resolução do enigma.
Sao ficcionistas na profissão e apresentam-se como "inspectores" fora dela.
Depois dos romances da Joana, os romances de Maddie: a Judiciária reconverte-se em escola de ficcionismo!...
terça-feira, 22 de julho de 2008
Políticos e mensageiros ou de como só o espectáculo é notícia
Clima de euforia económica...será verdade?
Vejamos apenas alguns exemplos:
1) Compras pela Internet em Portugal disparam 50% em 2007, contrariando a ideia de que se regista um abrandamento no consumo privado...
2) Défice do Estado diminui quase 30% no 1º semestre de 2008, sendo irrelevante que tenham sido consideradas as receitas de uma nova concessão do Estado à EDP sem inclusão na despesa dos encargos do pagamento à REN (fica para mais tarde)...
3) Saldo positivo da Segurança Social quase duplica até Maio - não interessando que uma parte significativa desse saldo consista em aumento de transferências do Orçamento do Estado...
4) Financiamento das Autarquias foi negativo em € 274 milhões (até Maio), significando que as Autarquias foram capazes de reduzir dívida financeira no mesmo montante, apesar do agravamento generalizado da sua situação de tesouraria...
5) Receitas do Estado aumentaram 4,48% nos primeiros 6 meses do ano, com a EDP, o BP e a CGD a darem uma ajuda decisiva, sendo indiferente que a receita fiscal continue a abrandar...
6) Indústria farmacêutica exporta € 400 milhões em 2008, demonstrando que o sector dos bens transaccionáveis se encontra de boa saúde...até exporta factores de produção para serviços de saúde...
7) Pagamentos por Multibanco aumentaram 10,5% nos primeiros 6 meses de 2008, desmentindo também as notícias de arrefecimento do consumo...
8) Empresas de cobrança de dívidas empregam cada vez mais pessoas, mostrando como o suposto agravamento do endividamento das Famílias e Empresas pode ter, a final, um efeito positivo sobre a economia ajudando à redução da taxa de desemprego...
9) Despesas com subsídio de desemprego diminuem 13% nos primeiros 5 meses do ano, podendo concluir-se que os desempregados/deserdados em Portugal podem finalmente – já não era sem tempo – viver sem a ajuda do Estado, bastam-se com a ajuda de Deus...
10) Como corolário de todos estes dados positivos, o índice PSI-20 da Euronext-Lisboa registou mais uma subida, de 1,63%...
Querem melhor? Não há nada como ter uma eficiente, bem lubrificada (com os nossos impostos, convém lembrar) e permanentemente disponível industria de notícias rosa...
A oposição que se acautele, pois ao contrário do que estará a pensar somos capazes de chegar a 2009 com a percepção de que temos uma das economias mais prósperas do Mundo, fazendo inveja não só aos nossos parceiros da zona Euro e da União Europeia, mas até aos "tigres" da Ásia...
É o País que temos, dirão os habituais pessimistas.
É só propaganda, dirá Medina Carreira...
Mas é o que vai ficando no ouvido e na memória da legião de pobres incautos, acrescentarei.
Massacre por massacre...ao menos que não o pague!...
Ora eu pergunto se não é busca de sensacionalismo rasca e barato ir à procura de revelações estrondosas precisamente junto do responsável da equipa que, por nada ter conseguido descobrir, provocou o arquivamento do processo?
Ao canal público de televisão exige-se, no mínimo, que afaste o sensacionalismo doentio e a especulação mórbida, que não são informação, mas espectáculo rasteiro; ao canal público exige-se verdade, sensatez, rigor. Tudo aquilo de que nunca deu mostras consistentes no tratamento do caso em apreço.
Ontem, as televisões privadas até conseguiram despachar o assunto mais cedo do que a RTP. Não contente com isso, o telejornal, depois dos vinte minutos iniciais, ainda voltou ao caso, pelas 20 horas e 40m, logo após um intervalo. Para melhor massacrar os espectadores.
Com política informativa como esta, a RTP demonstrou, mais uma vez, a razão por que não deve existir. Para injecções de sensacionalismo, até em dosagem menor, bastam os outros canais.
Massacre por massacre, ao menos que não tenhamos que o pagar!...
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Contracepção

Um artigo de opinião, publicado hoje, sobre a encíclica “Humanae Vitae”, que vai fazer 40 anos no próximo dia 25 de Julho, despertou-me muitas lembranças e uma certa estupefacção face a certos comentários.
Subentende-se que o controlo de natalidade através da pílula (e outros meios, menos o dito “natural”) continua a ser considerado como contrário à vontade divina!
É curiosa a comparação que o autor faz entre os casais praticantes que não seguem a encíclica com os “que ao longo dos séculos milhões de católicos disseram mentiras, faltaram à missa ou desviaram fundos”. Ficamos a saber que tomar a pílula é idêntico a mentir, a não praticar e a roubar! Nada mau! Mas não fica por aqui. Afirma que o Papa antecipou e viu as consequências da regulação artificial da natalidade, que estariam abertos os métodos para a infidelidade conjugal, à degradação da moralidade, à perca de respeito pela mulher que acabaria por ser considerada como simples instrumento de prazer! Ficamos a saber que a pílula é responsável pela baixa taxa de natalidade, pela degradação dos costumes e pela falta de respeito com as mulheres. Nada mau! Mas não fica por aqui. Porquê? Porque na sua opinião a pornografia em massa, a promoção do aborto, o divórcio, o deboche, a perversão, o descalabro da educação, a traição, a solidão, a depressão e o suicídio têm a ver com a tal modernidade pós revolução sexual que se estende também à sida e ao insucesso escolar! É de bradar aos céus. Como é possível tamanha catilinária? Antes da “contracepção artificial” o divino céu era na terra! Após a “contracepção artificial” o inferno! Como é que ninguém viu isto até hoje?
Recordo que tinha 17 anos e na esplanada do Café Arcada discutia-se muito sobre a nova encíclica. Ouvia os comentários dos mais velhos. Ouvia e calava, porque naquela altura não nos era autorizado a debater certos assuntos. De qualquer modo, ouvia com muita atenção o que diziam. Segundo eles o Papa fez muito bem, porque com essa coisa da pílula as mulheres passariam a “encornar” os maridos a torto e a direito. Diziam que iam apanhar graves doenças. Que quem tomasse a pílula não podia comungar, que seria excomungada, nem teria funeral cristão, porque era um pecado muito grave e Deus castigaria todas que a tomassem e iam para o inferno. Ouvia e pensava com os meus botões: Ora aqui está a melhor solução do mundo para que as desgraçadas das mulheres não tenham filhos uns atrás dos outros, não terem que fazer desmanchos, alguns dos quais eram fatais, e não serem vítimas das borracheiras orgásticas de maridos, mais que brutos, cuja violência não se esgotava na violação sexual, como ainda lhes cascavam forte e feio.
Nunca consegui habituar-me a ver mulheres com muito filhos na ordem dos seis, sete, oito, nove, dez, doze... Uns atrás dos outros. Todos os anos pariam. A fome e a miséria era tal que ainda hoje recordo ver crianças descalças em pleno Inverno, algumas delas sem calções, com os rabos azuis de frio, com o recto a balancear tipo torcida, sem testículos, porque estes com o frio deviam “subir” para o pobre aconchego da parede abdominal, raquíticos, sujos, olhos esbugalhados de fome, a mendigarem pão. A solidariedade dos pobres levava-os a partilharem o pouco que tinham com os ainda mais pobres, sobretudo crianças. Levei muitas vezes pequenos caixões para o cemitério. Outras vezes já nem perguntava por quem é que o sino tocava! Quantas e quantas vezes a mulher engravidava, queixando-se da sua má sorte, amaldiçoava a besta do homem e tentava, obtendo uns escudos de empréstimo, ir a uma mulher para fazer um desmancho. Nem sempre resultava e às vezes resultava mesmo muito mal.
Enquanto pensava nisto, na futura “libertação” das mulheres, os “machos” dos cafés continuavam a dissertar sobre os perigos da contracepção, profetizando dias horríveis para a Humanidade. Quarenta anos depois, as palavras que hoje li fizeram reviver os velhos “profetas” que, sob a arcada, protegendo-se do sol, teciam conceitos diabólicos sobre o futuro das mulheres.
Viva a pílula! Viva a contracepção! Viva a libertação das mulheres!
Graças a Deus, também dei o meu contributo, ensinando, prescrevendo e esclarecendo...
Quanto aos que não fazem “contracepção artificial”, sendo uma questão de opção individual, não tenho nada a dizer, nem a comentar.
Bolsas Pós-Doc: meus amigos, é aproveitar!...
O Estado aceita propostas e vai pagar Bolsas para trabalhos necessários, urgentes e inadiáveis que todos podemos fazer!...Uma pechincha, várias pechinchas!...
Trabalhos sobre a “construção do mundo contemporâneo”, por exemplo!...
Também sobre “cidadania e instituições democráticas”!...
E ainda sobre “identidade, migração e religião”!...
Cá por mim, vou candidatar-me ao módulo “família, estilos de vida e escolaridade”, privilegiando o módulo “estilos de vida”, naturalmente na versão de alto standard. Confio que o Estado não seja "michuruca" na Bolsa, para investigar à fartazana e à tripa forra!...
Meus amigos, é aproveitar!...
Bem sei que o Programa se destina a Candidaturas a Pós-Doutoramento e a Cientistas Sociais! Não importa!...
Peço outra Bolsa para doutoraramento em processo acelerado e vou já tomando lugar para o pós-doutoramento.
Meus amigos, é aproveitar, enquanto é tempo!...
PS: Candidaturas a enviar para Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, goretti.matias@icl.ul.pt. Até 5 de Setembro!...
Avante, Camaradas!...Todos aos Pós-Doc de Cientistas Sociais!...O país agradece que se esgote a "massa" do Programa!...
O interesse da fachada!...
Por sentença do Tribunal, as acusações de corrupção do Ministério Público foram liminarmente afastadas, dos 24 réus, 8 foram totalmente absolvidos (e um era acusado de 19 crimes), seis dos 11 árbitros acusados foram abolvidos, e de nenhum crime resultou prisão efectiva.
No fim, os réus condenados foram-no por crimes de que não tinham sido acusados e para os réus serem condenados teve que ser alterada a acusação.
Censurados os réus por sentença do Tribunal, também forçoso é concluir por uma forte censura ao Ministério Público.
Por não saber hierarquizar os processos, queixando-se da falta de meios para investigar a alta criminalidade, mas desviando-os para processos de êxito mediático garantido, mas cujas “consequências para o bem jurídico protegido foram diminutas”, segundo o próprio Tribunal.
E pela ligeireza das acusações, de que não conseguiu prova em Tribunal. Coisa de pouca monta, já que conseguiu, com o prestimoso e entusiástico apoio da comunicação social, o aplauso popular. De facto, também para o Ministério Público o que pareceu interessar foi a imagem e a fachada!...
domingo, 20 de julho de 2008
Horas de aperto
- «Olho para o passado e não me lembro de um período que o PS estivesse no Governo e que em três anos tivesse deixado tanta marca no domínio da civilização, da forma como vemos a sociedade, das escolhas políticas pela autonomia, pela liberdade, das escolhas políticas progressistas, sem imposições morais nem tabus, por mais liberdade e melhores condições de autonomia individual, mas também mais liberdade e responsabilidade».
As 18.000 escutas do Major!...
Mas, na malha das 18.000 escutas desportivas, verificou-se que o Major, nas suas funções de Presidente da Câmara, adjudicou, por 19.500 euros, um trabalho para o site do Município, a pedido de um amigo. Esta “cunha” teria forçado a anulação de adjudicação anterior, referente a uma proposta mais barata, de 10.000 euros. O Tribunal deu como provado o crime e condenou Valentim Loureiro por prevaricação.
Depois disto, considero que o Major é um Autarca verdadeiramente exemplar!...
Pois, que político se pode gabar, depois de 18.000 escutas e de uma devassa total da sua vida pública e privada, de se ver surpreendido apenas por uma irregularidade num concurso de 19.500 euros?
Vi e ouvi o Major zangado com a sentença. Não me parece que tenha razão: a sentença foi um prémio. Que melhor arma pode brandir numa disputa eleitoral? Uma irregularidade de 19.500 euros, depois de ser escutado 18.000 vezes, durante meses e anos? Dificilmente vejo alguém a fazer melhor. Fosse eu eleitor em Gondomar e o meu voto era p´ró Major!...
sábado, 19 de julho de 2008
“D. Augusta e a vacina contra a gripe”...
A D. Augusta, que já ultrapassou há alguns anos os oitenta, com bom ouvido e melhor cabecinha, apesar do cansaço do seu coração, procurou-me para fazer o seu reabastecimento farmacológico, desta feita reforçado, pelo facto de saber que vou entrar de férias no próximo mês de Agosto. - Então senhor doutor vai tirar férias em Agosto como é habitual, não é verdade? Mas olhe lá o que é que se passa consigo? Está tão magro! Anda doente? - Hum! Mais ou menos! Tenho feito dieta e muito exercício. Por isso estou com este aspecto. - Pois é! Disse a D. Augusta, meio desconfiada. Delicadamente, aumenta o tom de voz e adverte-me para que em Setembro ao lhe passar a vacina contra a gripe lhe prescrevesse uma melhor do que a do ano passado. - Melhor?! São todas iguais! - Desculpe senhor doutor mas não devem ser. O senhor lembra-se das gripes que apanhei este ano. - Gripes?! Mas a D. Augusta não apanhou gripe nenhuma! O que teve foram umas constipações que não tem nada a ver com as gripes. São coisas distintas, até os vírus responsáveis são tão diferentes. O povo é que tem muitas vezes o hábito de dizer que anda “engripado”, mas na realidade anda mas é “constipado”. Oh D. Augusta, às tantas a senhora nunca teve uma gripe, das valentes. - Mas pode matar, não pode? Claro que pode. É muito sério adoecer com gripe, sobretudo se for de uma certa idade, se sofrer de algumas doenças, como é o seu caso, do coração, dos pulmões e dos brônquios, de diabetes, enfim sempre que estejam diminuídas as nossas defesas. - Compreendo, mas o senhor doutor tem que passar a receita logo no princípio, porque tenho receio de que possam esgotar. Afinal, porque é se esgotam as vacinas? - Porque a maioria quer vacinar-se! - Mas não deviam ser só os doentes e pessoas de idade? Bom, em princípio nada impede que um cidadão jovem e saudável se vacine, sobretudo se, devido à sua actividade, correr mais riscos de a contrair. - Caso dos médicos? - Dos médicos e do restante pessoal de saúde ou profissionais que lidam com grupos de pessoas mais vulneráveis, caso de idosos, lares e instituições para deficientes, centros de reabilitação ou que exerçam actividades prioritárias. - Então o senhor doutor vacina-se todos os anos? - Não! Nunca me vacinei. E olhe que devo chegar a levar com "toneladas" de vírus. Sabe, os seres humanos têm necessidade de ser “agredidos” de forma a manter em bom funcionamento o organismo. Em princípio, se formos saudáveis e não muito entradotes, não vejo grande necessidade na vacinação, a não ser que o vírus deste ano seja particularmente virulento. Se for esse o caso, as autoridades mundiais e nacionais darão os conselhos necessários se valerá ou não a pena em estender a vacinação aos grupos de baixo risco. - Isso tem a ver com a gripe das aves? - Nada. Rigorosamente nada. Essa é outra história. - Mas agora ninguém fala dela! - Pois não! Com tantos acontecimentos que andam por aí, "esqueceram-se"! Não faltam notícias! Mesmo que morram patos nos lagos dos jardins já não atraem as televisões! A senhora riu-se do comentário. - Diga-me lá uma coisa. O senhor doutor disse que nunca se vacinou contra a gripe. E este ano? Vai vacinar-se? Estupefacto, questionei: Mas, por que é que pergunta? - O senhor doutor não disse, ainda há pouco, que andava mais ou menos doente e que por esse motivo começou a fazer dieta e exercício? - É verdade! - E não é médico? - Sou! Perante a subtileza da senhora, lá lhe confessei que tive conhecimento, há pouco tempo, de que sofria de diabetes, e que agora tinha que me cuidar como deve ser. – Bom, nesse caso, em Setembro, quando vier buscar a receita para a minha vacina eu lembro-lhe de que também tem que a tomar. E, pelo sim pelo não quero uma igualzinha à sua. Boa saúde e óptimas férias, senhor doutor. - Obrigado D. Augusta. Também para si. Até Setembro, e não se esqueça de tomar os medicamentos. – Não esqueço, graças a Deus eu ainda tenho uma boa cabecinha!
A "longa metragem" da pobreza (I)
Foi publicado recentemente o Estudo sobre a “Pobreza e Exclusão Social em Portugal” sob a coordenação do Professor Alfredo Bruto da Costa. Têm sido aliás divulgados aqui e ali resultados deste Estudo, mas sem o necessário enquadramento.Este Estudo há muito que fazia falta porque não só não eram tratadas de forma compreensiva as estatísticas sobre a pobreza, mas também porque faltava uma perspectiva fundada sobre as dimensões estruturais do problema, procurando, fazer a necessária distinção entre os aspectos conjunturais e os aspectos estruturais que explicam as características da pobreza.
De entre os muitos indicadores apresentados, cuja total compreensão implica a sua leitura integrada, o Estudo conclui que a taxa de pobreza anual continua persistentemente na ordem dos 20% e que no período de 1995 a 2000 passaram pela pobreza, em pelo menos um desses seis anos, 47% das famílias ou seja quase metade das famílias portuguesas e que 72% dessas famílias foram pobres em dois ou mais anos desse período.
Estes resultados são bem demonstrativos da gravidade da dimensão da pobreza. Um outro dado preocupante é que cerca de 52% dessas famílias tem o trabalho – por contra de outrem ou por conta própria – como fonte de rendimento e 38% é proveniente de pensões
De entre os factores estruturais que explicam a dimensão da pobreza, encontra-se a educação. Não constitui novidade o baixo nível de escolaridade da população portuguesa. Apesar dos significativos progressos alcançados na educação, quando comparamos a situação actual com a que tínhamos há duas décadas atrás, a evolução não foi suficiente para contrariar a elevada taxa de pobreza
Com efeito, os dados apresentados no Estudo demonstram a nossa incapacidade acumulada de actuar sobre a redução da pobreza através da educação. A situação de pobreza que afecta os trabalhadores por contra de outrem – 30%, ou seja, 1/3 dos pobres – é explicada, segundo o Estudo, pelo baixo nível dos salários praticados, assim como refere que “existe uma forte relação entre o nível de escolaridade atingido pelos pobres e a idade em que começam a trabalhar, sendo que aquele nível é tanto mais baixo quanto mais cedo as pessoas entraram na vida do trabalho”.
Com efeito, segundo o Estudo, “da análise dos níveis de escolaridade completa da população pobre em dois momentos – 2000 e 2004 – verifica-se, …, que o baixo nível de escolaridade continua a ser uma característica estrutural da sociedade portuguesa”. Os dados de 2004 demonstram que entre as pessoas pobres 30% não completaram qualquer nível de ensino e 47% atingiram, no máximo, o 2º ciclo do ensino básico. Apenas 2,7% tinham completado o ensino superior.
É patente nos dados trabalhados a forte relação existente entre a pobreza e o capital escolar. Os baixos níveis de escolaridade conduzem a situações profissionais pouco qualificadas e geradoras de baixos níveis salariais, contribuindo para a precariedade do emprego, quer no que se refere à estabilidade do rendimento quer no que se refere ao nível do rendimento. Embora não sendo uma característica da situação da maioria das pessoas pobres, a precariedade laboral é apresentada como um factor de vulnerabilidade da pobreza,
A educação assume por isso um papel fundamental no caminho do desenvolvimento, sem o que não conseguiremos quebrar o ciclo vicioso da pobreza. Esta constatação também não é novidade, mas os dados demonstram que a ineficácia das políticas prosseguidas.
Estão em causa políticas que assegurem efectivamente condições (1) de acesso normal das crianças pobres ao sistema educativo, para o que se torna necessário conceder apoios sociais ajustados às efectivas necessidades das suas famílias, e (2) de aproveitamento escolar, através de medidas concretas de combate ao abandono e insucesso escolar. O acompanhamento prolongado, desde tenra idade, do percurso das crianças no meio escolar e a estabilidade dos apoios em meio familiar em situações de manifesta dificuldade financeira são fundamentais.
A estabilidade e a sustentabilidade destas políticas são fundamentais. As intervenções conjunturais ou no topo da pirâmide escolar não resolvem o problema, como está bem provado na caracterização da pobreza. A esta necessidade não pode estar dissociada a ideia central de que é preciso actuar sobre as pessoas e não sobre números. Uma actuação eficaz sobre as pessoas resultará positivamente sobre estatísticas sustentáveis.
Temos que ser capazes de elevar o nível de escolaridade do País, pois de outra forma não só continuaremos a sentir grandes dificuldades em obter ganhos sustentáveis de produtividade como não seremos capazes de reduzir estruturalmente o fenómeno da pobreza.
Actuar, em geral, sobre o nível educacional e, em particular, sobre a educação das crianças e jovens das famílias pobres é um caminho estruturante e sustentável, capaz de ajudar a quebrar o ciclo vicioso da pobreza. A política do subsídio, só por si, não resolverá o problema, antes contribuirá para o empobrecimento da pobreza.