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domingo, 9 de janeiro de 2011

Nem os socialistas o querem!...

Segundo a sondagem do Correio da Manhã/Aximage hoje publicada, 35% do eleitorado socialista vota em Cavaco, e apenas 27,5% em Manuel Alegre.
Cavaco vai ainda buscar o voto de 24% dos tradicionais apoiantes da CDU.
Quanto a Alegre, parece que nem já os socialistas suportam retórica tão vazia de substância e sentido.

Que as há, há!



"Na Roménia, uma parte dos impostos pode estar amaldiçoada. Pelo menos a acreditar num grupo de bruxas do país, que decidiu lançar um feitiço contra o presidente e o governo, depois da entrada em vigor de leis que obrigam os profissionais das ciências ocultas a pagar taxas sobre os vencimentos" noticia-se aqui.

A noticia revela que as bruxas foram oficialmente reconhecidas na Roménia (de par com os instrutores de condução!) e a sua actividade é agora legal - razão para a tributação dos seus rendimentos -, mas terá sido sempre levada a sério naquelas paragens.
Entre nós a coisa é um pouco diferente. Ninguém oficialmente reconhece que existem, poucos são os que admitem recorrer a elas. Mas o que é verdade é que só por artes mágicas se pode explicar a velocidade a que, em Portugal, se multiplicam impostos, taxas e contribuições, ritmo só comparável ao do desaparecimento dos cofres do Estado do chorudo produto das colectas. E isto sem que se conheça bola de cristal capaz de surpreender o destino que justifica o acelerado sumiço dos dinheiros públicos. Donde só se pode concluir que em Portugal os impostos estão mesmo amaldiçoados.
Acresce que as próprias contas do governo português não resistem a qualquer das ciências conhecidas, sendo alérgicas, até, à matemática e à lógica como chamam a atenção Miguel Frasquilho e Pinho Cardão nos posts antecedentes. Só podem, pois, ver-se explicadas pelas ciências ocultas. Pelo que, mesmo que por cá não as haja, só podemos acreditar nelas.

A Nova Matemática de Sócrates

A receita de 2010 ficou acima do valor previsto.
A despesa de 2010 ficou abaixo do valor previsto.
O défice de 2010 fica no valor previsto de 7,3%.

Sócrates no Debate de 6ª feira, dia 7 de Janeiro, na Assembleia da República

Alguém me explica esta nova e sofisticada matemática, que só por mim não atinjo?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Extraordinário e inesperado...

... o anúncio de um Congresso das Exportações.
No meio da maior crise que o país já viveu - e que infelizmente está para durar - vamos assistir no próximo mês de Fevereiro a uma iniciativa tão inédita quanto desajustada aos tempos que vivemos.
Que podemos esperar de um congresso no meio desta crise ?
Discursos, notícias, anúncios, medidas e a continuação do showoff do combate à crise.
Até porque a melhor coisa que este Governo sabe fazer para combater esta crise, é falar dela !
E tentar distrair a malta durante mais um dia...

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

“Três boas notícias”?!...

No debate quinzenal hoje realizado no Parlamento o Primeiro-Ministro apresentou o que, no seu entender, se trata de “três boas notícias” relativamente às contas públicas de 2010.

Primeiro: a receita fiscal cresceu acima do previsto.

Segundo: a despesa cresceu abaixo do que inicialmente constava do Orçamento para o ano passado.

Terceiro: o objectivo de 7.3% do PIB para o défice público será cumprido.

Ora, a verdade é que estas supostas “três boas notícias” são, na verdade… uma boa notícia, uma “não notícia” e uma má notícia. Vejamos.

A receita fiscal ter crescido acima do previsto é, de facto, uma boa notícia.

Contudo, a despesa ter ficado abaixo do inicialmente orçamentado nada indica – e isto porque, com o PEC-2 e o PEC-3, e os cortes de despesa que lhes estavam subjacentes, o objectivo deixou, naturalmente, de ser o do Orçamento inicial… A comparação não pode, pois, ser feita, nos termos apresentados por José Sócrates. Trata-se, assim, de uma “não notícia”.

Finalmente, acompanhe o meu raciocínio, caro leitor: se a receita cresceu acima do previsto e a despesa cresceu abaixo do previsto, não seria lógico admitir que o objectivo para o défice, afinal, tivesse sido melhor do que o esperado?!... Isto sim, isto é que seria uma boa notícia!... E já nem vale a pena referir que o objectivo de 7.3% só será cumprido porque se lançou mão de uma receita extraordinária: a integração do fundo de pensões da Portugal Telecom nas contas públicas (como todos, incluindo os “mercados” bem sabem). Não fora isso, e o défice situar-se-ia acima dos 8.3% inicialmente projectados no Orçamento para 2010.

Além disso, falar de uma “boa notícia” quando a despesa pública continua a subir só pode ser mesmo uma brincadeira. E de mau gosto, porque o que precisamos é que a despesa pública se reduza (e não que aumente, mesmo que abaixo do originalmente previsto). Em 2010, dos países europeus periféricos em dificuldades financeiras, a despesa pública apenas subiu face a 2009 em Portugal. Desceu em Espanha, na Irlanda e até na Grécia. Sinceramente, é difícil de perceber como é que se pode falar em “boas notícias” com este panorama e esta realidade. Não me parece que seja assim que se vá aumentar a confiança de quem quer que seja… E a trajectória ascendente dos juros da dívida pública (já bem acima de 7% na maturidade de 10 anos), mesmo durante a apresentação destas “boas notícias” é a prova disso mesmo…

Extraordinário!

Não alimente esta ideia! Vivemos um tempo em que os senhores políticos tudo decretam, como se a lei fosse solução para tudo, como se o Estado tivesse vocação para tudo fazer. Que não tem. Melhor seria que fizesse o que lhe compete fazer. Mais palavras para quê?

Mais um alerta...

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz no relatório de "Avaliação do desempenho do sistema de saúde Português", elaborado em 2010, “que as famílias portuguesas mais pobres têm maiores gastos com a saúde e arriscam, por isso, vir a ter um acesso mais limitado a cuidados”. De acordo com a OMS, Portugal tem de reduzir as barreiras à capacidade de pagamento por estes cuidados, afirmando que "o peso dos custos directos das famílias é demasiado elevado em Portugal", em comparação com outros países.
Com este relatório da OMS, torna-se ainda mais pertinente questionarmos sobre a justiça de algumas das medidas tomadas recentemente pelo governo na área da saúde: pensionistas e desempregados que auferem o rendimento mínimo deixaram de estar isentos das taxas moderadoras do SNS; pensionistas com baixos rendimentos deixaram de beneficiar de medicamentos totalmente comparticipados pelo Estado. Medidas que contribuem para acentuar as dificuldades de acesso aos cuidados de saúde em especial das pessoas mais desfavorecidas. A OMS está bem informada!

Faz-nos bem a claridade...

"(...) a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avaliação das situações, por tudo e nada reanima a atenção dos outros com os seus conselhos. Depressa é tratada como inoportuna e terá que recuar ao abrigo da frivolidade".

Agustina Bessa Luís

As contradições insanáveis da política económica...

1.Foi objecto de muita controvérsia a antecipação para Dezembro de 2010 do pagamento de dividendos por parte de algumas empresas de nomeada, com especial relevo para o caso da PT - para evitar um tratamento fiscal mais desfavorável desses mesmos dividendos em 2011.
2.No caso da PT a controvérsia decorreu da forte associação da Empresa ao poder político: a decisão de antecipar os dividendos, se bem que compreensível no plano empresarial, suscitava as maiores dúvidas no plano político...no fim valeu a lei do “mais forte”...
3.Controvérsias à parte, aquilo que nos importa aqui assinalar é o sinal completamente errado que esta medida de agravamento fiscal dos dividendos distribuídos pelas empresas (quando os beneficiários sejam sujeitos passivos de IRC) representa no plano da política económica.
4.Com efeito, a nova disciplina entrada em vigor em 2011, constitui um sério retrocesso em matéria de dupla tributação dos dividendos.
5.Assim, enquanto até final de 2010 os beneficiários de dividendos respeitantes a resultados que tivessem sido já tributados na origem podiam evitar a dupla tributação, essa possibilidade fica agora restringida apenas àqueles que detenham participações sociais superiores a 10% na sociedade pagadora...
6.Alarga-se assim o fosso entre o tratamento fiscal do capital social (equity) e da dívida das empresas...enquanto que os juros pagos por estas por exemplo a título de remuneração de suprimentos evitam a dupla tributação, o mesmo não se passa com os dividendos...
7.Para já não falar no tratamento fiscal da dívida VERSUS capital social das empresas, pois enquanto os juros suportados são contabilizados como custo, os dividendos que remuneram o capital social não têm esse benefício...
8.Numa altura em que o País precisa desesperadamente que as empresas, tanto financeiras como não financeiras, reforcem os seus capitais próprios e invistam, esta medida agora entrada em vigor representa uma tremenda machadada neste objectivo fundamental...
9.Confesso que não entendo medidas deste tipo...existe contradição insanável entre os objectivos de política e as medidas que depois são adoptadas...
10.Será que os objectivos de política económica não passam de propaganda? Custa-me a crer, mas se assim for, estamos mesmo perdidos...
11.Nem o habitual argumento da “fome de receitas” convence...se existe “fome de receitas”, medidas como esta vão contribuir para que a prazo a “fome” se transforme em MISÉRIA extrema...repito, confesso que não entendo!

Uma alegre tosquia

No mesmo dia em que Cavaco ordenou a venda das suas acções da SLN a 2,4 euros, foi vendido um lote bem superior pelo valor unitário de 2,75 euros.
Há quem vá por lã e saia tosquiado. O que, no inverno, pode dar maleita séria.
Mas aposto em que ainda não é desta que metem a viola no saco. É que argumentar com fundamento dá muito trabalho.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Perdão?!... Importam-se de repetir?!...

Ontem, dia 5 de Janeiro, Portugal emitiu pela primeira vez dívida pública em 2011, tendo colocado 500 milhões de euros num prazo de seis meses, a uma taxa de 3.686%. A procura foi 2.6 vezes superior à oferta.

Para o Secretário de Estado do Tesouro, Costa Pina, “o resultado reflecte a confiança dos investidores, nacionais mas sobretudo dos investidores estrangeiros (…) nas medidas do Governo de consolidação orçamental”.

E para o Secretário de Estado do Orçamento, Emanuel dos Santos, a taxa de juro de 3.686% paga por Portugal para emitir 500 milhões de euros em bilhetes do Tesouro a seis meses, foi “muito alta”, tendo em conta a maturidade. Mas destacou que “tivemos procura para colocar mais de mil milhões de euros”, “não obstante o preço ter subido.”

Dá vontade de perguntar: perdão?!... Importam-se de repetir?!...

A questão é esta: Portugal não conseguirá pagar taxas a este nível se elas perdurarem no tempo Depressa se percebe porquê: Ainda há cerca de um ano, para o mesmo prazo, o juro foi de 0.592%; e mesmo em Setembro último, também para uma emissão a 6 meses, a taxa foi pouco superior a 2%.

Ou seja, face a Setembro (nem vale a pena comparar com o sucedido há cerca de um ano…), o custo de financiamento para o Estado agravou-se em mais de 80%. Sim, não há engano: 80%. Claro que com os juros a este (elevadíssimo) nível, a procura só podia ser... robusta!... pudera!... Mas pior: a taxa paga está na vizinhança do que, aqui ao lado, Espanha pagou para se endividar… a 3 anos em Dezembro (para o prazo de 6 meses, o juro pedido aos espanhóis foi de 2.597% há duas semanas)!...

Tendo em conta que teremos que emitir cerca de 46 mil milhões de dívida em 2011, como será, sobretudo, quando tivermos que emitir em maturidades maiores, por exemplo a 5 e 10 anos? Que níveis de juros iremos pagar?!...

… Na próxima semana já saberemos: o IGCP anunciou hoje que tentará colocar dívida a 3 e 10 anos na próxima quarta-feira, dia 12. Mas independentemente do que vier a acontecer, o que é lastimável é a falta de bom senso e de adesão à realidade dos dois responsáveis políticos do Ministério das Finanças.

Não, não é preciso ser miserabilista, nem trágico ou catastrófico… Trata-se apenas de ter a dose necessária de realismo que é sempre tão necessária a quem exerce o poder e tem responsabilidades políticas. Porque só dessa forma será possível mostrar aos nossos credores (esses terríveis “mercados”) que percebemos o que se passa e estamos, por isso, aptos a apresentar soluções. Agora, reacções daquelas, bem que todos as dispensávamos…

O falso tiro da Purdey

Trata-se de “uma questão do foro privado…não há ali qualquer dose de ilegalidade ou de comprometimento no plano da corrupção…há que ter sentido da medida… pois foi um negócio privado”.
Jerónimo de Sousa
, durante uma iniciativa da CDU em Braga, Público de 30.05.09, referindo-se às acções da SLN adquiridas por Cavaco Silva.
“…É sabido que no BPN, muitas pessoas dos círculos do PSD e na altura do cavaquismo, quando o cavaquismo era Governo, se interessaram por esse banco, mas, também até prova em contrário ainda não é pecado ter sido accionista do BPN, coisa que actualmente o Presidente da República não é”.
Miguel Portas
, no final de uma iniciativa de campanha, na Marateca, Público de 30.05.09.

De facto, Alegre não acerta uma. Até os seus correlegionários do Bloco lhe corrigem o tiro. Usa mal a Purdey: é que a arma serve para caçar, não para enlamear.
Nota: A Purdey, publicitada por Manuel Alegre, é considerada a mais sofisticada e cara espingarda de caça do mundo. Tem bom gosto, que a arma é de qualidade.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Terei arte, ou serei, apenas, vítima da arte?

Em jovem, tive a oportunidade de ver o filme “2001 Odisseia no Espaço”, devia andar no primeiro ano da faculdade. Recordo a dificuldade em comprar o bilhete, mas consegui um, no pior sítio possível, na primeira fila, no último lugar do lado esquerdo. Como é curioso a memória mostrar-se tão fresca com estes momentos, talvez tenha sido devido ao torcicolo que apanhei e que me perturbou durante alguns dias, porque para poder ver todo o ecrã, já que o filme era “panorâmico”, fui obrigado a fazer um esforço dos diabos.
A parte inicial do filme, sob o tema, “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, provocou-me um calafrio intensificado pela simbologia do monólito negro e o comportamento dos nossos antepassados, pré hominídeos, a revelarem a futura faceta humana, a violência, base da sobrevivência e marca de água que ainda perdura.
Se “2001” me marcou, mais mossa me fez o “2010”, como ponto de passagem para o futuro, para a emergência de novas existências e de novas esperanças, como o aparecimento de uma nova estrela, de um novo sistema solar dentro do nosso. Uma explosão. É isso, ainda 2010 vinha longe, muito longe, e eu associava-o a uma explosão, a uma nova existência. Talvez por isso, no primeiro dia de 2010 me tenha lembrado de tantas coisas, e comecei a analisar o que me faltava ainda por fazer. Uma boa data para começar a contagem decrescente, atento ao momento da partida, à procura de novos mundos...
Sentado, tranquilamente, a ver televisão sem a ver, lembrei-me de um convite que me fizeram há alguns anos para proferir uma conferência sobre a polypill, como meio de prevenir doenças degenerativas do foro cardiovascular. Uma mistura de várias substâncias cujos efeitos estão bem documentados. Sendo assim, há quem preconize o seu uso como forma de prevenção primária. É aqui que se discute se vale ou não a pena o seu uso. Há quem diga que sim e há quem diga que não, porque as doses utilizadas são subterapêuticas. No fundo, o que o ser humano pretende é viver com saúde o máximo de tempo possível, usando tudo o que a sua rica imaginação concebe produzir.
Recordo-me de ter feito uma apresentação interessante, e meio problemática, que despertou a atenção dos presentes. Ao terminar apresentei algumas fotografias de John Coplans, fotógrafo britânico, entretanto falecido aos 83 anos, que tinha passado os últimos vinte anos a captar imagens do seu corpo, à medida que envelhecia. Curioso ver as diferentes imagens ao longo do tempo. O artista quis demonstrar que existe uma arte de envelhecimento, traduzida na estética dos anos a passear pelo seu corpo, e, também, na forma como o mesmo deve ser encarado. Com naturalidade, com beleza e sem medos.
Não sou fotógrafo, mas registo, também, uma necessidade crescente de “fotografar” os meus últimos anos de vida, não através das modernas máquinas digitais, ao alcance de qualquer um, mas pelo velho processo da escrita. Não sei o que Coplans pensou quando tinha, praticamente, a minha idade. Presumo que estaria recetivo a aceitar as alterações que, entretanto, iam surgindo. Eu não sou tão otimista quanto Coplans. Posso aceitar o que irá acontecer como natural, mas tenho dúvidas se o farei com naturalidade. A ansiedade, filha dos acontecimentos, muitos dos quais incontroláveis, assusta-me. Olho, penso, questiono e só encontro uma forma de resolver o problema, escrever. Quem sabe se não conseguirei encontrar um pouco de tranquilidade, abafar a ansiedade e, até, encontrar alguns restos da beleza, a forma mais sublime de justificar a existência.
Não nego que haja uma arte de envelhecimento, mas também é preciso envelhecer com arte. É aqui que reside o cerne da questão. Terei arte, ou serei, apenas, vítima da arte?
Talvez um dia destes reapareça para dar a resposta...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A herança de Torquemada

Se observaste que o teu vizinho alguma vez se cruzou no caminho com alguém que aplicou dinheiro no BPN, denuncia-o, porque é judeu.
Se observares que o teu vizinho cumprimenta alguém que teve funções no BPN, denuncia-o, porque é judeu.
Se sabes que o teu vizinho alguma vez passou em frentre de uma Sucursal do BPN, denuncia-o, porque é judeu.
Se sabes que o teu vizinho emprega alguém que já foi do BPN, denuncia-o, porque é judeu.
Se sabes que o teu vizinho algum dia pensou ter relações financeiras com o BPN, denuncia-o, porque é judeu.
Porque, se não denunciares, tu próprio és judeu.
Tomás de Torquemada, Inquisidor-Geral dos Reinos de Aragão e Castela, ficou como símbolo das atrocidade dos processos de intenção, dos julgamentos e das condenações inquisitoriais. Para o efeito, fez mesmo publicar um conjunto de orientações no sentido de levar a população a reconhecer os possíveis sinais de heresia e de judaísmo, forma prática de não faltar matéria-prima humana para alimentar os processos condenatórios.
Pelo que se vê e ouve nesta Campanha Eleitoral, proliferam os candidatos a Torquemada, e só não acendem a fogueira porque os tempos e o ambiente são diferentes dos do século XV.
Mas, no espírito, permanece indelével a herança de Torquemada.

Fugir da civilização...

A foca-monge-do-Mediterrâneo é uma espécie ameaçada. Estas focas descobriram uma ilha no Mar Egeu onde agora vivem, para se protegerem das agressões da civilização moderna. O instinto de sobrevivência é muito forte. Mas o segredo, pelos vistos, foi descoberto por um grupo de cientistas que quer manter o local incógnito. Por quanto tempo poderão estas focas viver em paz?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pobre gente, pobre país!

Três de janeiro de 2011, segunda-feira. Tive de madrugar para ministrar a minha aula. Correu bem, sem problemas. Em seguida fui dar consultas. Logo por azar, o primeiro trabalhador despertou-me a atenção, porque com aquela cara era impossível não o reconhecer. A última vez que o vi foi em novembro de 2009. Não tenho por hábito fazer apreciações muito negativas ou jocosas quando estou investido nas minhas funções profissionais, mas, neste caso, tenho de abrir uma exceção; o senhor apresentou-se com umas trombas capaz de fazer inveja ao mais neurótico dos porcos, com licença das senhorias que estão a ler este texto. Consegui recordar a última vez, porque fiquei com a nítida sensação de que não tinha mudado de expressão. Só realço agora as “trombas”, por causa do que aconteceu a seguir.
O senhor sofre de diabetes, e, como me lembrei das recomendações e cuidados que lhe fiz, a propósito, em 2009, perguntei-lhe, com a maior naturalidade: - Então, o senhor tem controlado como deve ser a sua diabetes, e tem feito medições diárias do açúcar no sangue? Ao fazer estas perguntas, estava à espera de respostas positivas que fossem de encontro ao meu natural anseio. Mas o senhor não respondeu à primeira, pelo que tive de repetir mais do que uma vez. Comecei, então, a sentir algum desconforto, que me alertou para eventuais respostas negativas. Só depois de muita insistência, e quando as minhas palavras já revelavam evidente frustração, é que o senhor respondeu, “Tenho-me descuidado um pouco”. Ao dizer isto, as suas “trombas” ingurgitaram-se, revelando, sem ter necessidade de dizer mais nada, que não tem ido ao médico, nem feito dieta ou qualquer tratamento. Fiquei estarrecido com a resposta e com o silêncio. Na última consulta, o senhor já sofria de diabetes há mais de dezassete anos e, agora, com mais um ano cima, estava a atingir a segunda década da doença. Perguntei-lhe se sabia quais os riscos que corria. Respondeu-me com um silêncio angustiante. Só após alguma insistência, é que disse: - Sim, já ouvi dizer alguma coisa. Foi então que lhe expliquei, detalhadamente, os riscos que estava a correr, sempre de trombas, sem dúvida o maior trombudo que já vi em toda a minha vida, e não se pense que o senhor sofre de algum défice cognitivo, nada disso, pelo menos a testemunhar pelas funções que exerce. Por esta razão, até lhe disse que pessoas com debilidade intelectual não só compreendem a situação como tentam corrigi-la, seguindo os conselhos do médico. - Será que o senhor é um suicida lento? Perguntei-lhe. Ainda tentei saber se era uma questão pessoal, porque qualquer pessoa tem o direito a se tratar ou não, ou se era uma forma de negação da doença. Não tive sucesso. Fiz-lhe ver os problemas que iria acarretar para a família - aqui ainda fui capaz de o obrigar a dizer que era casado e que tinha filhos, mas, depois, nada. Deixou-se examinar sem qualquer obstáculo e, no fim, fiz uma derradeira tentativa, dizendo-lhe que não lhe ia desejar um bom ano, mas um sincero voto de que consultasse o seu médico assistente e seguisse os seus conselhos. Para reforçar o meu voto, socorri-me da minha pessoa, coisa que raramente faço, penso que é a segunda vez na minha vida, dizendo-lhe que sofria da mesma doença, que fazia medicação, dieta e exercício e sentia-me bem, sem problemas de maior. Nada. É a primeira vez que me acontece algo de semelhante. Ao fim de 36 anos de clínica ainda há quem consiga surpreender-me. Também lhe disse que da próxima vez que o visse não ia incomodá-lo mais.
No momento em que o senhor ia a sair, despedindo-se com as suas inconfundíveis trombas: - Então, bom dia! Pensei: - Mau começo do ano. Só espero que fique por aqui. Infelizmente não ficou, porque, passados uns minutos, um telefonema de uma familiar anunciava, com uma voz muito triste, o seu despedimento. Mais uma a engrossar o bando de desempregados e com futuro incerto. Pobre gente, pobre país! Ainda estive tentado a perder o apetite, mas a raiva, com que me espetei à hora do almoço, obrigou-me a comer e a pensar que ainda tenho de lutar...

Cenário pesado: (i) sobrecarga de juros, (ii) crescimento zero, (iii) risco de insolvência

1.A zona Euro conseguiu sobreviver em 2010. E, muito provavelmente, sobreviverá também em 2011...
2.A questão que se pode colocar é a de saber como, a que preço, a zona Euro conseguirá essa sobrevivência.
3.Esta questão é abordada num interessante artigo de Wolfgang Munchau, publicado no F. Times de 30 de Dezembro – as afirmações do nº1 supra constam exactamente desse artigo.
4.W. Munchau diz esperar que Portugal seja o próximo país do Euro a recorrer à assistência do Mecanismo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF) e do FMI, na sequência da Grécia e da Irlanda, enquanto a Espanha (para já pelo menos) deverá passar sem essa ajuda...
5.O articulista sustenta que, mesmo com o apoio do EFSF/FMI, os países assistidos dificilmente conseguirão evitar uma situação de insolvência mais tarde ou mais cedo.
6.A assistência EFSF/FMI resolve um problema de financiamento, temporariamente, mas não assegura uma situação de solvabilidade que, com o tempo, tenderá aliás a agravar-se.
7.O ponto fundamental do argumento está nas enormes perdas de competitividade sofridas pelas economias dos periféricos, que agora, sem dinheiro e em regime de austeridade muito prolongada, as impede praticamente de crescer: a dívida, vencendo taxas de juro nominais (6%, 7% ou mais) bastante superiores ao crescimento nominal do PIB, condenará essas economias, de modo irreversível, a uma situação de insolvência...
8.A conjugação de (i) um endividamento altíssimo, muito acima de 100% do PIB, vencendo taxas de juro muito elevadas e de (ii) um enorme défice de competitividade -constitui um problema praticamente sem solução se não houver recurso a desvalorização da moeda e/ou inflação...
9.Mas, continuando no Euro – sendo a saída um cenário de terror, sobretudo para os políticos dirigentes – não existe qualquer hipótese de desvalorização e/ou inflação...
10.Um cenário imensamente complexo, sem dúvida, a seguir com a máxima atenção ao longo de 2011...

domingo, 2 de janeiro de 2011

As faces das redes sociais...

O caso da ENSITEL que nos últimos dias de 2010 originou uma avalanche de críticas nas redes sociais à sua actuação comercial, veio de novo evidenciar o poder destas redes, designadamente a capacidade de mobilização global de pessoas em torno de causas e o poder sancionatório que delas pode emergir.
Este poder sancionatório é tanto mais importante e, eventualmente, perigoso quanto o mesmo se pode substituir ao poder da Justiça, seja porque a Justiça tarda em decidir seja condicionando a actuação de quem aos olhos das redes sociais procedeu mal ou deve proceder num determinado sentido. Mas é também perigoso porque as causas podem não ser meritórias, o que não impede o efeito de contaminação de simpatia ou antipatia próprio dos fenómenos de imitação.
Este novo poder sancionatório é uma realidade que as empresas e o mundo dos negócios devem considerar nas suas actuações perante os mercados, designadamente accionistas, clientes e fornecedores, ajudando a balizar, inclusive, a sua actuação comercial e de marketing.
Sabemos que hoje os consumidores estão no centro das estratégias das empresas, quer criando e produzindo de acordo com as suas necessidades e preferências, quer mantendo com estes uma relação comercial que, não se esgotando no momento da venda, lhes assegure um elevado padrão de satisfação e, indo mais longe, conquiste a sua fidelização. Uma marca vale pelo valor que os mercados lhe atribuem, pelo que a imagem das empresas está inevitavelmente associada à satisfação dos seus clientes. Ignorar este facto pode ser fatal nos tempos que correm.
Depois do tsunami de críticas à actuação da ENSITEL através das redes sociais, a empresa acabou o ano a pedir desculpas ao cliente e ao mercado. Os eventuais danos de imagem, causados pela onda de protestos e de apoios ao cliente, parecem ser, a meu ver, desproporcionais face à perda que aparentemente levou a empresa, no início, a agir judicialmente contra o cliente por causa de um equipamento de telemóvel. A empresa acabaria por ganhar a acção, com a qual o cliente não se conformou.
É já visível o poder das redes sociais, para o melhor e para o pior, pelo que as empresas não podem ignorar a sua força e deverão, como tal, sem prejuízo de defenderem os seus legítimos interesses, adequar a sua gestão a esta nova realidade, encontrando nela oportunidades e retirando dela benefícios que devem ser partilhados com os clientes...

Novos (e curiosos) caminhos de sustentabilidade


Um dos problemas mais sérios que se colocam às políticas de sustentabilidade ambiental, em especial as que visam garantir a manutenção de espécies e habitats, é lidar com espécies não-autoctones, resistentes e muitas vezes predadoras de elementos da biologia local que assim vai desaparecendo. Pois o NYT dá nota de uma nova ideologia: a da preferência pelo consumo de espécies invasoras como forma de controlo.

A década que agora terminou dedicou-a a Europa à defesa das várias formas de vida, e o ano que passou consagrou-o à biodiversidade. Duas iniciativas que, atentos os números que apontam para a continuidade das perdas de espécies e para a redução de indivíduos de grupos em risco sério de extinção, não parecem ter-se saldado por resultados de que as autoridades responsáveis pela condução das políticas de conservação da natureza se podem orgulhar. É, pois, preciso mais empenho e mais imaginação para estancar o progressivo empobrecimento no que ao património genético diz respeito. Esta medida de que dá nota o NYT não peca pela falta de imaginação...




Religião e Suicídio

Com a idade aprende-se muita coisa, até deixar de apreciar os dias festivos. Em pequeno julgava que eram a coisa mais natural do mundo, uma espécie de sorte que nos calhava de tempos a tempos, e sempre menos do que desejaria. Agora, confesso que sofro deste destempero há algum tempo.
A necessidade de encontrar explicações para tudo levou-me a inventar uma, sempre vale mais do que nenhuma, ou os dias festivos são demasiados artificiais, ou, então, sou eu que me tornei insensível ao natural. E se ambas estiverem corretas, tanto melhor, assim reparto as culpas.
Por esta altura, no ano passado, escrevi um pequeno texto sobre a solidão, o que faz todo o sentido, porque este tipo de dor de alma faz-se sentir com mais violência nas datas festivas. Também me recordo das circunstâncias em que a escrevi e da leitura de um artigo sobre suicídio, depressão e formas de prevenção.
É do conhecimento geral que as depressões se agravam nestes períodos. Sendo assim, não é de estranhar que uma das consequências, o suicídio, aumente. Para o efeito, nalguns países, existem planos de atuação para prevenir este problema. Sinceramente, sei que existe uma catrefada de planos de prevenção em Portugal, bem elaborados, verdadeiros exemplos de retórica académica, difíceis de igualar, para tudo e mais qualquer coisa, mas para o suicídio desconheço. Às tantas até deve haver, mas mesmo que haja, sabendo como somos e como andamos, o resultado deverá ser o mesmo, ineficiente.
As alterações sociais e económicas que estão a violentar os portugueses não serão inócuas em termos de saúde mental, longe disso, espera-se mesmo um agravamento substancial, a que não faltará um incremento de suicídios. Não quer isto dizer que somos um povo de suicidas, se bem que Unamuno nos tenha caracterizado como tal. “Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver.” Unamuno não era epidemiologista e, como tal, desconhecia que, até, nem nos matamos como outros povos. Mas agradeço-lhe a sua análise sobre nós, porque nos conhecia muito bem.
Quanto mais baixa for a integração social maior é o risco de suicídio. Durkheim, no século XIX, fez interessantes estudos nesta área e até demonstrou que as comunidades católicas se suicidavam menos do que as protestantes. Os seus estudos enfermavam de alguns vieses, porque foram feitos numa base ecológica, de análise de grupo, mas, agora, um interessante estudo epidemiológico efetuado na Suíça, numa base individual, demonstrou inequivocamente que as taxas de suicídio são substancialmente mais baixas entre os católicos do que nos protestantes e nos indivíduos sem filiação religiosa. Este fenómeno ocorre em todos os grupos etários, sendo muito mais intenso entre as pessoas mais idosas e nas mulheres, e, particularmente, no caso de suicídios assistidos. Todos os fatores que possam influenciar estes achados, de natureza educacional, económica, sexo e outros, foram devidamente ajustados, permitindo afirmar que a religião constitui uma força social muito importante na análise do modelo dos suicídios, sendo o catolicismo superior ao protestantismo e, naturalmente, aos não afiliados.
Apesar de não estar provada a teoria social de integração, a religião constitui uma importante força social, pelo que é muito provável que, entre nós, irá ocorrer, nos próximos tempos, um reforço e reativar do fenómeno religioso, ante as expectativas de miséria que já está a atingir muitos portugueses. Não sei se os nossos compatriotas irão, mesmo assim, partilhar da alegria inerentes a algumas festividades, mas se alguém os ajudar a controlar a depressão e o negrume do futuro, tudo bem. Resta saber até onde e quais as consequências, porque em matéria de religião há sempre vontade de ir mais longe ao impor certas ideias e princípios. O tempo se encarregará de esclarecer estes comportamentos.