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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Há mais vida para além dos accionistas!...

Apesar de ter sido rejeitado pela Assembleia Geral do BCP para Presidente da Comissão de Vencimentos, João Berardo não se coibiu de logo afirmar, no dia seguinte, que os vencimentos dos actuais Administradores serão equiparados aos de Director Geral do Banco, até à eleição de uma nova Comissão.
Como aperitivo, e mesmo derrotado para exercer a função, João Berardo já fixou as regras. Num dia, elegeu os seus Administradores; no dia seguinte, despromoveu-os a Directores Gerais. Dentro de algum tempo, vai querê-los como seus Directores-Adjuntos. No fim, conceder-lhes-á as prerrogativas de Chefes de Sucursal ou mesmo de Caixas das diversas lojas. Não sem antes exigir que devolvam parte do dinheiro que entretanto receberam, pelas funções mais elevadas que desempenharam.
Pois é, quase que adivinho que o grande trabalho dos Administradores eleitos não vai ser a gestão do Banco, que saberão fazer bem, mas a gestão dos accionistas. Não vai ser tarefa fácil!...
O problema é que, num Banco, há mais vida para além dos accionistas!...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A mulher de César e o BCP

Não tenho elementos objectivos para saber se o Governo interferiu muito ou pouco ou nada, de forma directa, indirecta ou oblíqua na feitura da lista dos Administradores do BCP ontem eleitos. O tempo se encarregará de o esclarecer.
Conheço três dos quatro directores do Banco que foram eleitos; trata-se de pessoas com provas dadas e excelente curriculum nas diversas funções desempenhadas. Conheço também o Presidente, que aliás passou pelo BCP, conhece a cultura da instituição e creio não haver dúvidas quanto à sua competência, honradez e independência.
Também conheço bem quatro dos nomes da lista vencida, os quatro excelentes gestores, dois deles com curriculum no Banco.
Posto isto, verifiquei na Assembleia Geral de ontem que a ideia de que o Governo tomara de assalto o BCP ganhou terreno junto de muitos accionistas. Para eles, a lista de Santos Ferreira significava a estatização do BCP, enquanto a de Miguel Cadilhe a independência do BCP face ao Governo. Foram muitas as vozes que o expressaram. E assumiram-no no voto, já que a lista de Miguel Cadilhe, perdendo estrondosamente em função do capital votante, ganhou em número de accionistas presentes.
Mais uma vez se prova que à mulher de César não basta ser honesta, tendo também que parecê-lo.
Mas se o Governo não terá parecido honesto a muitos, a atitude de alguns partidos, entre os quais o PSD, também deixou muito a desejar. Era o mais que faltava ao Dr. Miguel Cadilhe que o PSD parecesse apoiá-lo partidariamente para a eleição de Presidente de um Banco, de mais a mais, privado!...
Neste render da guarda, as minhas homenagens aos três anteriores Presidentes, Eng. Jardim Gonçalves, que agora é de bom tom criticar, mas a quem se deve a criação de um grande banco português e a modernização do sector financeiro, ao Dr. Teixeira Pinto, que assegurou uma transição difícil, e ao Dr. Filipe Pinhal, que saiu com toda a dignidade, como ainda ontem o demonstrou no discurso que proferiu na Assembleia Geral.
Declaração de interesse: Esclareço ter sido quadro do BCP até Fevereiro de 2002, tendo aí desempenhado funções de Direcção Geral e de Administração de outros Bancos do Grupo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Portugal, um "passeio americano"...

Palácio da Pena
A Suzana Toscano escreveu aqui no 4R em 10 de Janeiro sobre a notícia de que “Lisboa está no topo das cidades a visitar em 2008 (…)”. Quem leu o post terá ficado muito agradado com esta classificação que prestigia Lisboa e também Portugal.
Mas as boas notícias continuam. Desta vez os elogios vão para Portugal, considerado pelo New York Times como um destino a conhecer. Mas mais: Lisboa surge como o segundo destino da lista recentemente publicada por aquele jornal “Destinos a visitar em 2008”.
Temos portanto muito boas notícias para Portugal, neste começo de Ano Novo. Confesso que foi para mim uma surpresa o tratamento com que o New York Times brindou Portugal durante 2007. Mas foi uma surpresa muito agradável. Depois do primeiro embate com a leitura da primeira parte do artigo – hoje publicado no jornal Público – fui crescendo na vontade de conhecer mais sobre a imagem positiva de um Portugal que não esquece as suas tradições e aposta no criativo e no moderno. Chegando ao final da leitura, medindo cada pormenor e cada detalhe das oportunidades que fazem de uma viagem turística um passeio de sonho, voltei ao princípio para melhor medir o alcance da afirmação do New York Times sobre o novo retrato de Portugal:
um destino a caminho do futuro, com um pé firmemente assente no seu rico passado”.
Ao longo dos vários apontamentos publicados em 2007 pelo jornal americano são acentuadas as nossas riquezas história e cultural, os nossos elementos naturais o sol, o mar, a praia e o golfe, em particular o rio, a nossa criatividade e a nossa ambição pelo moderno reflectidos por exemplo na vanguarda do design.
Interessante olhar para alguns dos locais tratados ao longo daquela colecção de apontamentos, a demonstrar um trabalho profissional que exige conhecimento aprofundado do País “profundo”. É grande a variedade e a diversidade das recomendações apresentadas, suscitando interesses e gostos múltiplos dos americanos, numa viagem que percorre o País de norte a sul. São disso exemplos, as referências à Vila de Marvão, com o seu castelo a replicar um “conto de fadas”, ao Douro com as suas paisagens únicas, às Pousadas de Portugal, à Casa da Música e à Fundação de Serralves, a Cascais com o seu Farol Design Hotel, a Aveiro com uma nova dinâmica criada pela Universidade e a “experiência como a bicicleta de utilização gratuita”.
É certo que Portugal ganhou uma significativa visibilidade com a Presidência Portuguesa e que a procura pelos americanos de destinos de qualidade com preços mais competitivos num quadro de desvalorização do dólar face ao euro pode também explicar um súbito interesse.
Ainda assim, é admissível pensarmos que alguma coisa poderá estar a mudar relativamente à imagem externa de Portugal e que há publicações estrangeiras que despertam para a necessidade de contarem a “história” e desenhar o “retrato” de Portugal. Esta dinâmica é importantíssima na divulgação do País e determina, a meu ver, uma maior responsabilidade, muito bem vinda, na manutenção e no reforço de uma imagem positiva que parece começar a despontar além fronteiras…
Enfim, estas notícias sempre ajudam a melhorar a nossa auto-estima que tanto precisa. Mas não deixam de ser surpreendentes!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Ambiente, ou mais um caso em que o carro vai à frente dos bois

Imagem furtada ao Milhas Naúticas - Flamingos no Estuário do Tejo

O senhor secretário de Estado do Ambiente defende o alargamento da Zona de Protecção Especial (ZPE) do Estuário do Tejo. E fá-lo porque entende que esta é uma medida de minimização dos impactes ambientais que vão ser provocados pela construção do novo aeroporto, em Alcochete.

Duas notas.

Primeira. Não deixa de ser curioso o protagonismo do senhor Engenheiro Sócrates nas duas últimas tentativas de mexer nos limites da ZPE do Estuário do Tejo. A primeira, em 2002, para reduzir a ZPE. Era o actual Primeiro-Ministro responsável pela pasta do ambiente. Agora, a ser aceite a proposta do senhor Secretário de Estado, para a aumentar.

Incoerências à parte, a segunda nota tem que ver com a credibilidade dos estudos de impacte ambiental e da correspondente avaliação. Nos termos da lei, as medidas de minimização ou de mitigação de impactes ambientais negativos devem ser o resultado do estudo e da avaliação. Não devem constituir pressupostos. Porque se assim for, coloca-se, como é evidente, o carro à frente dos bois, o que vale por dizer, condicionam-se politicamente os resultados da análise técnica.

É por estas e por outras que tantas vezes se descredibilizam as medidas de protecção do ambiente e de conservação da natureza. As medidas de compensação ambiental funcionam como moeda de troca que ora visam obter silêncios, ora servem para à partida neutralizar os efeitos mais adversos de estudos que, estou convencido, só se fazem neste caso do aeroporto em Alcochete porque a Comissão dixit.

O senhor Secretário de Estado bem sabe que não se amplia uma ZPE porque vai existir, na proximidade, um aeroporto. Amplia-se porque razões objectivas de protecção da avifauna e dos seus habitats aconselham essa decisão.

Independentemente da localização do novo aeroporto, será sobretudo acertado o alargamento dos limites da Reserva Natural do Estuário do Tejo. Para o que já existem, ao que julgo saber, os adequados estudos. Ou então reforçar os meios ao dispor desta área protegida de modo permitir uma gestão efectiva ou a combater actividades altamente predadoras da bodiversidade estuarina, como é o caso da criminosa pesca da angula. Essas sim, seriam medidas bem vindas. Não seriam compensações, fruto de qualquer má-consciência. Não seriam contrapartidas de empreendimento algum, mas expressão de políticas sérias, activas, de conservação.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Saudável confissão

A lei, recentemente publicada, da responsabilidade civil extracontratual dos entes públicos e dos seus agentes, já revela efeitos muito positivos.
Soube-se hoje que os senhores magistrados procuram quem os segure.
Na SIC-N ouve-se a explicação: apesar da lei só prever que se responsabilizem juizes e procuradores pelo erro grosseiro e em casos de dolo ou culpa grave, os sindicatos sentem que o melhor é prevenir em vez de terem de remediar à sua custa e não, como até agora, à custa dos contribuintes.
Esta consciência, feita confissão, de que podem os senhores magistrados responder pelo erro, constitui um verdadeiro avanço civilizacional porque, até aqui, era coisa nunca vista a admissão de que os efeitos danosos de uma acusação ou de uma sentença pudessem, ainda que no limite, responsabilizar quem a elas dolosa ou culposamente conduziu, ou com o mesmo grau de censura, as produziu. Mesmo que isso significasse o horror da privação da liberdade sem razão. Ou a perdas patrimoniais irreparáveis.
Conscientes já estão. Mas isso não significa que os sindicatos, e os magistrados que os dirigem, estejam de acordo com a lei que lhes despertou a consciência.
Ouço (confesso que sem qualquer espanto) o presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público dizer que esta lei os vai inibir de fazer o que devem quando pela frente encontrem "ricos e poderosos" porque sabem que estes têm agora a possibilidade de os perseguir pelos erros cometidos e pelos prejuízos que inflingiram. Movendo contra eles, em especial, os "grandes escritórios de advogados".
Explica o Dr. Cluny que isso significará um enorme constrangimento à sua função de aplicar a lei e de perseguir os infractores.
Extraordinária leitura esta! Da lei, mas sobretudo da dignidade e da coragem dos senhores magistrados!
Desde logo porque é suposto que os senhores procuradores estejam habituados a enfrentar no dia-a-dia, com coragem, os mais temíveis "grandes escritórios de advogados". Mas pelos vistos a coragem esvai-se quando são eles, os magistrados, quem tem de se defender. Significativo...
Mais. Reconhecendo-se que a lei só impõe o direito de regresso do Estado contra magistrados que, com dolo ou culpa grave, sejam agentes de um dano moral ou material ressarcível, para o senhor procurador Dr. Cluny é preferível o benefício do infractor (o magistrado relapso) do que a justiça feita aos cidadãos vítimas de actuação grosseiramente errada e culposa de procurador ou juiz, incluindo aos "ricos e poderosos" que por o serem, não têm menos direitos.
A visão sindical do Dr. Cluny, para além do habitual maniqueísmo classista que só aqui ainda se usa, revela uma inadmissível noção de justiça: é boa, a justiça, quando as consequências punitivas da violação dos deveres que a lei impõe se fazem sentir sobre os outros. De outra sorte, quando somos nós os visados, a lei é iníqua e a justiça péssima!
Quanto à ideia de que a lei vai levar à inibição ou ao condicionamento na actividade do ministério público ou da judicatura, estou certo de que se trata da expressão de um sentimento de um procurador da república, não generalizável aos senhores magistrados.
Tenho-os em melhor conta do que o Dr. Cluny os tem porque lhes reconheço, pelo menos a grande parte deles, a dignidade e a coragem no exercício das funções constitucionais que desempenham que os farão imunes ao medo das consequências. Até porque sabem, como qualquer bom magistrado sabe, que num Estado de Direito ninguém pode ficar impune perante o erro intencional.
Adenda: Recebi uma mensagem de correio electrónico chamando-me a atenção para o facto de o sindicato dos magistrados do Ministério Público já ter solução para minimizar os efeitos iníquos da lei. O Estado deve subsidiar o seguro de responsabilidade civil, pessoal, dos senhores juizes e dos senhores procuradores, alegando que é isso que se faz noutros países.
Nada como um subsidiozito do Estado para nos sentirmos mais livres e desinibidos!

Sujidade e saúde...

As imagens televisivas de uma reportagem na Guiné-Bissau, sobre a expulsão dos dois suspeitos da morte dos turistas franceses na Mauritânia, revelaram, a dado ponto, uma rua da cidade com vendedores de pão, entre os quais, um que, orgulhosamente, empunhava duas longas “baguetes”. Condições deploráveis que nem precisariam de uma ASAE para proibir a actividade. Se esta tivesse qualquer jurisdição fechava a venda, fechava a cidade e fechava o país, evitando que os guineenses contraíssem quaisquer doenças, mesmo que acabassem por morrer à fome!
São cinco os principais determinantes que estiveram no aumento da esperança de vida e do bem-estar que hoje desfrutamos: melhoria da alimentação e das condições de alojamento, água de qualidade, rede de esgotos e a vacinação.
Acontece que o organismo humano precisa de ser estimulado a fim de se proteger de determinadas doenças. Esta afirmação leva-nos a equacionar até que ponto devemos evitar as agressões.
Começam a ser devidamente estabelecidas associações entre a falta de agressão e o aparecimento de muitas maleitas. Aumento de alergias, da asma, de certas formas de cancro, da esclerose múltipla, de doenças inflamatórias do intestino e auto-imunes. A não estimulação do sistema imunológico pode ser responsável pelos “novos” fenómenos. Há aspectos curiosos que estão bem documentados, como por exemplo os que trabalham com vacas, em quintas, respirando poeiras contaminadas por bactérias provenientes dos animais, correm menos riscos de sofrer de cancro do pulmão, cinco vezes menos. O ambiente “sujo” e, aparentemente, não saudável, tem destas coisas. O mesmo se passa com os trabalhadores que lidam com o algodão, correm menos riscos de contrair várias formas de cancro e até as crianças, que nos primeiros meses de vida vão para os infantários, sofrem menos de leucemia, por exemplo.
Se um mundo menos séptico é, obviamente, desejável, o mesmo não poderemos afirmar para a crescente assepsia moderna, sobretudo, quando se invoca o argumento da saúde pública.
Afinal, um pouco de “sujidade” até pode ser benéfico à saúde. É pena que noutros quadrantes da vida social e política ainda estejamos a viver num período bastante séptico e muito longe de qualquer “ameaça” de assepsia, tamanha é a “sujidade”, para não dizer outra coisa…

sábado, 12 de janeiro de 2008

Entre fazer alguma coisa e nada fazer...

Portugal tem vindo a registar uma descida preocupante da natalidade. Quando o Instituto Nacional de Estatística o ano passado divulgou o número de crianças nascidas em 2006 – ano que registou o número mais baixo de sempre, 105.449 nascimentos – logo tocaram de novo, como se fosse uma novidade, uma série de campainhas alertando para a gravidade da situação.
Num artigo ontem publicado no Público, são citados os primeiros dados relativos à natalidade de 2007, obtidos através do número de “testes do pezinho” que é um indicador, segundo a Comissão Nacional do Diagnóstico Precoce, bastante fiável das oscilações da natalidade.
Tendo em conta o número de amostras de sangue recolhido no calcanhar dos bebés nos primeiros anos de vida e a manter-se a mesma taxa de cobertura do rastreio verificada em 2006, terão ocorrido em 2007 menos de 103.000 nados – vivos. Este número constitui um novo mínimo histórico e vem reforçar um movimento consistente de descida da taxa de natalidade.
A crise da natalidade veio com o desenvolvimento económico, induzida por alterações importantes no funcionamento das economias e na organização das sociedades e pela mudança de papéis na família e de comportamentos e de valores que marcam a vida das novas gerações. Se acrescentarmos a esta realidade as dificuldades económicas que estamos a atravessar em Portugal, compreendemos que as pessoas “cortem” em ter filhos.
Às dificuldades económicas conjunturais, que teimam em se fixar, junta-se a falta de expectativas positivas quanto à evolução da economia e o medo de que a situação se possa agravar. Poderemos adicionar a este quadro desanimador a ausência de políticas de natalidade duradouras.
Esta é uma daquelas áreas que necessita, do meu ponto de vista, em primeiro lugar, de uma discussão muito séria envolvendo toda a sociedade. Não se trata de mais uma “reforma”, daquelas que se discutem à porta fechada da concertação social como se o assunto fosse exclusivo de um governo e dos parceiros sociais. É um assunto que interessa a todos! Em segundo lugar, seria necessário fazer uma avaliação económica e social dos resultados que nos esperam no médio e longo prazos no pressuposto de que o movimento da taxa de natalidade mantém uma trajectória descendente. Em terceiro lugar, seria igualmente necessário estudar metas de chegada e medidas a concretizar e a manter num alargado horizonte geracional e estudar os impactos desejáveis e possíveis na travagem ou inversão da descida.
O quadro acima descrito deveria constituir uma alerta para reflectirmos e agirmos sobre a natalidade. Dirão alguns que não vale a pena porque é o preço do desenvolvimento ou que não há nada a fazer porque mudaram as mentalidades, dirão outros que se ficarmos de braços cruzados então é que nada acontece e outros ainda há que lembram as medidas tomadas por alguns governos europeus e os resultados obtidos.
As medidas que foram tomadas pelo nosso Governo em 2007 são positivas mas inserem-se, a meu ver, numa abordagem social e não constituem um incentivo à natalidade como foram rotuladas, nem tão pouco uma "reforma". A introdução de uma prestação social para grávidas a partir dos seis meses e o aumento do “abono de família” a partir do segundo filho durante o 2º e o 3º anos de vida das crianças, em função do rendimento das famílias, são medidas de apoio social. As crianças vivem para lá dos 2º e 3º anos de vida. E depois? A vida continua. Não está provado que a natalidade aumente porque há um acréscimo de apoios sociais nos primeiros anos de vida dos filhos!
Uma política de natalidade terá que estar, a meu ver, muito virada para questões que se prendem com a repartição do tempo entre a família e o trabalho, com o acesso facilitado aos infantários e às escolas e aos cuidados de saúde (custos, localização, horários, fiscalidade, etc.) e com o acesso a novas formas de trabalho (organização, flexibilização de horários, etc.).
Uma política de natalidade terá também que estar necessariamente alinhada com muitas outras políticas, de que destaco pela sua actualidade e preocupação, as políticas de desenvolvimento regional.
Todos os anos as campainhas tocam e logo toda a gente manifesta todos os anos muita preocupação! Mas só isto não chega. Valeria a pena tentar fazer mais, discutir este assunto de forma séria, aberta e alargada. Se nada fizermos nunca saberemos o que poderia ter acontecido de diferente se tivéssemos feito alguma coisa!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Uma Ministra Sensata

Esta semana, antes da reunião do Banco Central Europeu que teve lugar ontem, quinta-feira, Janeiro 10, 2008, a Ministra das Finanças francesa, Christine Lagarde, referiu que “se temos que escolher entre inflação alta e crescimento elevado, ou uma inflação estável e um baixo crescimento, a minha clara preferência vai para uma inflação temporariamente elevada com um crescimento mais alto”.

Estou inteiramente de acordo com Christine Lagarde. A subida da inflação é, de facto, temporária e resulta, essencialmente, da alta do preço do petróleo e de outras matérias-primas, entre as quais alguns cereais (milho, trigo, soja, entre outros, em virtude da subsidiação da sua cultura para a produção de biocombustíveis).

E os tempos estão realmente difíceis. Mais nos EUA do que na Europa, sem dúvida. Mas ninguém conhece ao certo o impacto da crise do crédito sobre a economia. A nível global.

Assim sendo, a última coisa que a Zona Euro precisa é de subidas das taxas de juro. Bem como do tom muito agressivo que o Presidente Trichet continua a usar nas suas intervenções, garantindo estar preparado para, em qualquer momento, voltar a subir os juros. Por mais que existam pressões inflacionistas.

Proceder assim é minar a confiança e contribuir para deteriorar (mais) um enquadramento que já é incerto e volátil. Bem sei que o BCE está mandatado para monitorizar apenas a inflação – ao contrário do Fed (banco central dos EUA), que deve acompanhar quer a inflação, quer o crescimento económico. E, portanto, deste estrito ponto de vista, Trichet parece ter razão. Porém, se em todos os momentos da nossa vida é importante não perder o bom senso, em enquadramentos como o que vivemos, isso é absolutamente crucial. Como Christine Lagarde mostrou, dando, esta semana, uma verdadeira lição de sensatez a Trichet.

PS – Não estará na altura de os responsáveis políticos europeus reverem o mandato do BCE, aproximando-o do mandato do Fed? É certo que a economia americana parece estar mais ferida do que a europeia – mas a inflação não é mais baixa… No entanto, o Fed começou a baixar os juros em Setembro – e vai continuar a fazê-lo (um novo corte, de meio ponto percentual, é dado como certo na reunião do final deste mês) . Na Europa, apenas a escalada de subida dos juros foi interrompida, e muito a contra-gosto, como se depreende das declarações de Trichet… Percebe-se a diferença?!...

O boneco de corda


É engraçado como a nossa memória regista as coisas mais improváveis e depois, assim de repente, salta a imagem como se fosse um filme, estivemos lá e já não o saberíamos, não fosse um pretexto qualquer iluminar a cena remota.
Quando, há dias, vi numa montra um brinquedo que me chamou a atenção, experimentei aquela estranheza de, por um instante, me sentir fora do meu espaço e do meu tempo e reconheci-me na menina pequena que, há muitos anos atrás, estava no quintal em Luanda a brincar com um urso tão parecido com aquele que agora estava ali, do outro lado da montra.
Tinha sido prenda de Natal e era o brinquedo sensação, um urso vestido com casaco vermelho, calças às riscas pretas e brancas e sapatos de verniz preto. Para além do pêlo macio da sua cabeça, todo o corpo, escondido sob as roupas, era estranhamente rígido, feito em várias peças de metal articulado. No extremo dos braços, cada mão de luva branca segurava um prato de metal e estava na caixa assim, naquela posição esquisita, como se tivesse sido apanhado a fugir da banda de música antes de terminar o concerto.
O mistério desvendou-se quando se fez rodar a corda, uma espécie de borboleta de lata disfarçada sob o casaco. O urso animou-se, a cabeça virava para um lado e para o outro, os braços aproximavam-se e tóing!, os pratos batiam um ruído roufenho, uma e outra vez, enquanto as pernas lhe permitiam uns passinhos hesitantes pelo chão fora.
Aquele brinquedo era um deslumbramento, uma inovação total no reino da garotada e eu e a minhas irmãs viemos com ele para o quintal, onde podia andar sempre em frente, afastando-se a bater os pratos até se esgotar a corda.
A casa era rodeada de um muro baixinho que a deixava exposta aos olhares de quem passava na rua. Foi por isso que os miúdos negros se foram juntando na rua, colados ao muro, a olhar o boneco como quem vê uma aparição. Estavam silenciosos de espanto, cada um que passava engrossava o grupo e os de trás já começavam a empurrar os da frente para conseguirem apreciar o fenómeno.
Levámos então o urso para cima do muro, não sei se por simpatia se por vaidade, isso já a memória apagou, e pusemo-lo a andar naquela beira estreita, tóing, tóing, a avançar a direito ao ritmo dos pratos. De cada vez que acabava a corda, os miúdos negros faziam um alarido a pedir mais, voltando à admiração muda quando recomeçava a exibição.
Estávamos assim muito entretidas quando veio de dentro da casa a Eugénia, a empregada que se ocupava de nós. Largou aos gritos, aqueles já eram tempos de ameaça e medo, havia perigo naqueles ajuntamentos, mesmo que fossem crianças, tudo o que fosse turbulência era explosivo, e enxotou-nos para casa sem nos deixar recolher o brinquedo.
Olhámos para trás mesmo a tempo de ver o urso a acabar de percorrer o muro e a cair a pique no chão, com o estardalhaço do metal a desconjuntar-se, um prato a rolar pelo chão, a cabeça de lado e as pernas bambas, como se fosse uma marioneta desarticulada. Do lado de fora, um silêncio duro, ressentido, de quem não perdoa uma ilusão desfeita.
Olhei o urso na montra, por altura do Natal, mas o que vi de súbito foi o outro, o de corda, a tocar pratos, em equilíbrio no muro do quintal, e um magote de garotos fascinados, aprisionados na minha memória naquele gesto de pasmo inocente.

The BioDaVersity Code

Original a forma encontrada pela WWF para mais um alerta sobre o emprobrecimento biológico.
Inspirado no filme O Código de Da Vinci, este cartoon merece ser visto.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Francisco José Viegas - mais um livro de poemas

"Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
Chama-se: "Se me Comovesse o Amor", edições quasi.
É mais um dos livros de poemas de que Francisco José Viegas é autor.
Foi hoje lançado na casa Fernando Pessoa e o Autor revelou que era um livro assim que agora lhe apetecia fazer..."pequenino, onde está o que agora exactamente sinto".
Já o li todo...mas é um livro para se ir lendo...a poesia de que gosto vou-a lendo, há sempre um dia em que apetece chegar à estante e ler aquele poema.
Parabéns ao Francisco José Viegas, mais um belo livro na sua extensa obra literária e não só...como Pedro Mexia hoje disse, durante a apresentação, Francisco José Viegas tem uma singularidade: "faz variadíssimas coisas e todas bem"!
Uma das muitas que fez brilhantemente bem...foi o prefácio do "4ªRepública"!
Bairrismos à parte, os Transmontanos são assim!!!

Lisboa no Top Ten


Vá lá, uma boa notícia de vez em quando para animar! O DN de hoje dá notícia de que Lisboa está no topo das cidades a visitar em 2008, recomendada pela editora Shermans e pelo Yahoo Travel. Além de ser a mais barata da Europa Ocidental (como tudo é relativo!) é uma cidade lindissima para passear, com "lugares cheios de charme e cozinha inovadora".
Esta da cozinha inovadora é uma americanice, claro, eles eliminam da história tudo o que não conhecem, de modo que se compreende a "novidade" de nossa cozinha tradicional, se só agora é que deram por ela. Mas que é excelente, isso é, até já está na moda, a competir com o sushi, parece que os portugueses hesitam entre o peixe assado no forno com batatinhas e cebola e o peixe cru às lascas enrolado numas algas verdes. Gostos não se discutem...
O que interessa é que só somos ultrapassados nas recomendações pelo Butão, onde as tarifas para os estrangeiros são de 200 dólares/noite e a Gronelândia, para os masoquistas que queiram ir ver com os seus olhos os efeitos das mudanças climáticas. Por uma vez, acho que somos competitivos, sejam bem vindos os turistas a Lisboa!

"Jamais" aeroporto OTA...

"Jamais" se falará do aeroporto da OTA porque nunca chegará a acontecer! Lembram-se que era ponto assente a OTA!
Nunca a sociedade civil tinha mostrado uma tal força e uma tal capacidade de mobilização - num curto espaço de tempo - para contribuir para o escrutínio de uma decisão política tão importante para o futuro do nosso País. A pressão foi realmente fundamental!
Por isso, é justo relevar o papel vital que desempenhou em todo este processo.
Que grande alívio! Na ausência da sua intervenção teria avançado a OTA, a única localização existente porque as outras eram o "deserto"!
Fica aqui, portanto, a minha modesta homenagem à sociedade civil.

“Regras da selva”

Afinal, as “macacadas” podem ser muito úteis para ascender numa carreira.
Cientistas estudaram os comportamentos de macacos e chimpanzés na selva. Ao compararem este ambiente com o do trabalho concluíram pela enunciação de cinco “regras” que, aplicadas no dia a dia, poderão ser muito úteis para quem queira subir na vida.
1ª Regra – Saber trabalhar em equipa.
Esta conclusão resulta do facto dos macacos trocarem favores para atrair simpatia e obter algo no futuro! Não se esquecem de coçar os amigos!
2ª Regra – Ser amigo do chefe.
É importante ser amigo dos companheiros, mas se for do chefe melhor!
3ª Regra – Não guardar rancor.
“Os chimpanzés geralmente beijam-se e abraçam-se após uma luta”!
4ª Regra – Jogar limpo.
A quarta lição é saber jogar limpo e não ficar com os louros de um trabalho feito em equipa. Pode ser perigoso mais tarde. Os tipos têm boa memória.
5ª Regra – Ser bom chefe.
Evitar provocar stress nos subordinados é muito importante, senão os súbditos ficam desorientados e perdem a motivação.

Quem diria que os macacos podem ser bons mestres?
Mas, pelos vistos, na nossa espécie, as duas primeiras regras são suficientes para subir na vida….

Ratificação Parlamentar = Outra Promessa Incumprida…

E pronto: lá vamos ter ratificação parlamentar do Tratado de Lisboa.

Quero desde já deixar bem claro que sou totalmente favorável ao Tratado Europeu que foi assinado no passado dia 13 de Dezembro em Lisboa. Considero-o um passo fundamental para fortalecer a Europa e consolidar o projecto europeu. Uma Europa unida e vencedora é hoje indispensável – e desse contexto todos os países europeus retirarão vantagens incluindo, naturalmente, Portugal.

Porém, do meu ponto de vista é muito diferente, para os portugueses, que a ratificação do Tratado de Lisboa seja feita através de um referendo ou por via parlamentar.

Nem vou usar o argumento (e poderia fazê-lo) de que nunca foi realizado nenhum referendo europeu no nosso país – e que, portanto, esta seria uma óptima ocasião para o fazer.

Nem o argumento de ser quase a 100% certa a vitória do “sim” num eventual referendo que viesse a realizar-se no nosso país – pois, de acordo com todas as sondagens conhecidas sobre o assunto, é esmagadora a maioria da população portuguesa favorável ao projecto europeu.

Para mim a questão é muito simples: trata-se de uma promessa eleitoral que foi feita na última campanha para as eleições legislativas. E o que é prometido aos eleitores deve – tem que!... – ser depois cumprido. Já estamos todos cansados de ver promessas feitas durante campanhas eleitorais serem depois absolutamente metidas na gaveta porque “as circunstâncias se alteraram”. Lembram-se do “choque fiscal” de 2002 (que, como é sabido, tanto me diz…)? Ou das promessas de não introduzir portagens nas SCUT e de não aumentar os impostos em 2005? Ou, cá está, da promessa de referendar o Tratado Europeu que quer PS, quer PSD, fizeram na última campanha para as eleições legislativas, em Fevereiro de 2005?...

Ora, a propósito de “alteração de circunstâncias”, tem sido referido que o Tratado de Lisboa é muito diferente do Tratado Constitucional que franceses e holandeses fizeram abortar em referendos realizados na Primavera de 2005. E que a promessa eleitoral dizia respeito a “esse” Tratado Constitucional. Porém, basta uma leitura atenta para percebermos que o essencial do conteúdo do Tratado Constitucional está presente no Tratado de Lisboa. Numa percentagem, digamos, não inferior a 90%. Isto é, nada de substancial muda do Tratado Constitucional para o Tratado de Lisboa. “Alteração de circunstâncias”?!...

E também tenho ouvido que o facto de Portugal poder referendar o Tratado de Lisboa poderia tornar mais difícil a vida em outros países “menos europeístas” (cujo expoente máximo é o Reino Unido) no sentido em que poderia ser mais fácil reivindicar a realização de um referendo que poderia levar à rejeição deste Tratado. Com ratificação parlamentar em todos os países da União Europeia (excepto na Irlanda em que, por imperativos constitucionais tem que ser realizado um referendo – mas aí o resultado não será problemático), o problema, evidentemente, não se coloca: não há nenhum exemplo referendário “voluntário” a que recorrer…

Ora, aqui, quero referir apenas dois aspectos.

Primeiro: cada país deve tomar a decisão que julgar mais adequada e não optar por esta ou aquela solução apenas porque outro(s) país(es) a tomou. Não é cada um dos Estado em causa soberano?!...

Segundo: Mesmo tendo o Tratado de Lisboa sido assinado em Portugal, poderá o nosso país ser a referência para a Europa em matéria de referendo? Será o peso e a influência de Portugal de tal ordem que outros Estados-membros se veriam impelidos a imitá-lo?!... Francamente: quem dera que assim fosse…

Sinceramente: por mais argumentos que possam ser invocados, a minha opinião é que nenhum se sobrepõe aos compromissos assumidos internamente entre quem vota e quem é escolhido.
Creio que não andarei longe da verdade se disser que poucos factores existirão que distanciem mais o eleitorado e os eleitos, e que mais descredibilizem a classe política, do que prometer e depois não cumprir. Isto para além de que proceder assim é um total desrespeito para com os eleitores. E que motivos terão as populações para confiar, em eleições seguintes, naqueles que prometeram e depois não cumpriram?!... E se este sentimento for generalizado, que motivos existem realmente para se ir votar?!... Pois é, não há mesmo volta a dar: o que se promete aos eleitores nas campanhas tem mesmo, depois, que ser cumprido. Se assim não acontecer, é a própria democracia que é colocada em xeque.

O deserto de Alcochete!...

O Governo decidiu-se pela localização do aeroporto em Alcochete.
A Quercus, através do seu Presidente, e a Associação para a Protecção da Natureza já contestaram. Seria para admirar, se não o fizessem.
Por outras razões, dentro da ilogicidade em que vivemos e para que o Governo tem generosamente concorrido, também a escolha me parece abstrusa. Na sequência do que já referi, mas não é de mais repetir, Alcochete é, de facto, o pior dos sítios para o aeroporto!....
Primeiro, porque oficialmente existe um deserto no perímetro do Campo de Tiro e não se faz um aeroporto no deserto. Depois, porque vai provocar uma enorme pressão demográfica no deserto, com os malefícios consequentes sobre o deserto.
Segundo, porque se trata de um terreno plano, sem montanhas circundantes. O que impede, no céu, o exercício pleno dos “skills”, conhecimentos e virtualidades da pilotagem e, na terra, o exercício enriquecedor de vastas movimentações de terras.
Terceiro, porque se trata de um terreno seco, não pantanoso e não atravessado por rios. O que impede naturais obras de estacaria e consolidação dos terrenos, e não permite dar continuidade à experiência adquirida em Macau.
Quarto, porque não tem montes por perto que precisem de ser arrasados, ou centrais de combustíveis, que precisem de ser removidas. O que impede a obtenção de recomendáveis sinergias de obras públicas.
Quinto, porque fiz parte da tropa no Campo de Tiro, como aspirante miliciano, durante seis meses, e não posso ver esse local assim desfeito.
Sexto, porque o aeroporto em Alcochete é o aeroporto natural da Estremadura espanhola e de uma parte da Andaluzia. O que implica invasões, por carro e TGV, de milhares de espanhóis, e de lá “nem bom vento, nem bom casamento”.
Sétimo, porque se trata de um terreno do Estado, que não exige expropriações ou elas são diminutas em relação a outros locais. O que implica defraudar legítimos direitos adquiridos.
Oitavo, é que se trata de uma zona com muita caça. O que implicaria que muitos notáveis não mais seriam convidados para aí dar ao gatilho, como no meu tempo de oficial.
Nono, porque implica a travessia do Tejo. Com os problemas de eventuais quedas de pontes, já lucida e sobejamente teorizados por ilustres políticos.
Décimo, porque é um aeroporto para durar cem anos. O que vai retirar aos nossos políticos a oportunidade de construir outro, daqui a meia dúzia de anos!... E aos nossos ecologistas a oportunidade de novamente se expressarem no contra!...
Por isso, e face aos antecedentes, não percebo a posição governamental.

Os "meninós" que nos governam!...

Até ontem, o juízo do Governo, amplamente propagandeado na comunicação social, era dividir o aumento da pensão referente ao mês de Dezembro e o Subsídio de Natal de 2007 por todo o ano de 2008, para beneficiar os pensionistas!...
Ontem, o Governo anunciou que aqueles aumentos serão pagos de uma só vez. Certamente também para beneficiar os pensionistas.
Isto é, o Governo tomou duas decisões contraditórias para atingir o mesmo objectivo propalado: beneficiar os pensionistas.
Tal significa tão só que o objectivo do Governo nunca foi o benefício real dos pensionistas, mas apenas a propaganda, servindo-se das pensões. Tanto assim que o Governo chegou a chamar, pasme-se, aumento extraordinário” à distribuição mensal da pensão referente ao mês de Dezembro e o Subsídio de Natal de 2007!...
Perante as reacções a uma decisão indefensável e a uma argumentação canhestra, o Governo recuou, e bem.
Mas confirma a ideia de que os assuntos de estado e que nos interessam a todos são vistos com a maior das displicências; consideram muitos “meninós” que nos governam que uma boa propaganda consegue sempre transformar decisões à medida das suas fracas cabeças em decisões ponderadas e reflectidas. Aliás, no círculo em que se movem, as suas ridículas decisões tendem a ser vistas como de longa visão e alcance.
O que não foi agora o caso, felizmente!...

Simone de Beauvoir, 100 anos


"É pela mulher, através do que nela há de pior e de melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tirania, que faz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo do mais áspero, do malogro superado; é a vertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo o mundo de significações que só existem pela mulher; ela é a substância das acções e dos sentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéis desmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos. Eis, pois, que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo o que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábia mediadora entre a Natureza propícia e o Homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda a sabedoria. (…)Ele projecta nela tudo o que teme, o que ama e o que detesta (…) ela é todo o Outro. Enquanto Outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado.” Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo, I, Os Factos e os Mitos


Faz hoje um século que nasceu Simone de Beauvoir. A minha homenagem a essa mulher extraordinária, inteligente, que revolucionou o discurso feminista ao apresentar a mulher como um ser inteiro, responsável e livre e não apenas como o outro que almeja a igualdade…
Sempre tive uma enorme admiração por ela, li apaixonadamente os seus livros, primeiro com surpresa, depois com deslumbramento, por fim com sentido crítico, mas sempre com a curiosidade e o encanto de quem encontra algo de novo e de desafrontado. Na minha geração, muito jovens ainda, Simone de Beauvoir foi sem dúvida uma influência marcante, pela afirmação ou pela recusa, e permaneceu depois uma referência, como filósofa e como escritora.
Podia falar sobre ela durante muito tempo sem sequer referir Sartre, cada um apropria-se dos outros à sua maneira, para mim Simone de Beauvoir não precisa de ser associada a mais ninguém, ela não é “o Outro”…"

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Mãos

Mãos de John Coplans

Há algum tempo, no decurso de uma conferência, terminei a minha apresentação com uma série de fotografias de John Coplans, pintor e fotógrafo, que, a partir de 1978 e durante 23 anos, começou a fotografar o seu corpo, mostrando imagens do seu envelhecimento. As mãos constituiu a sua primeira imagem tendo sido alvo de particular atenção ao longo do tempo. Para este autor o envelhecimento é uma arte e que melhor do que as mãos para o provar?
As mãos servem para tudo, amar, matar, escrever, esculpir, pintar, tocar, falar, insultar, curar, teclar, dançar, criar, destruir, beber, comer, bater, acariciar, rir, chorar e cumprimentar só para falar de algumas! A sua aparência é tão diversificada que basta, muitas vezes, olhar para elas para ler a personalidade, a idade ou a actividade do seu portador, até mesmo nos amputados. Ao apertar a mão, vulgaríssimo acto de saudação, podemos ajuizar muito sobre os nossos interlocutores. Não entrando pelas regras de etiqueta e de cortesia, é conhecido a sensação desagradável transmitida pelos excessos, caso dos quebra-ossos ou dos amanteigados!
Recordo que, em miúdo, algumas pessoas evitavam estender a mão no acto de cumprimentar ficando muitas vezes com a minha estranhamente estendida. Olhava, de imediato para os lados, incomodado pela falta de correspondência, tentando disfarçar o melhor que podia, porque a situação era mesmo embaraçante. Ficava furibundo.
Uma das pessoas que tinha este estranho comportamento era um médico, solteiro, de alguma idade, que usava um chapéu sebento, fato coçado, barba de dois dias e que volta e não volta – várias vezes ao dia - ia ao fontenário da Ponte da Praça ou à fonte do Pistolo lavar as mãos, regressando com as asas abertas e a pingar, porque não as limpava. Nos bombeiros, à noite, ou nas tardes dos Sábados e Domingos, o senhor doutor sentava-se, calado – nem me recordo do timbre da sua voz -, pegava, estranhamente, no Diário de Notícias, com as pontas dos dedos nas curtas margens não impressas e lia-o todo, inclusive anúncios. Assim que acabava de ler, levantava-se e lá ia percorrer umas centenas de metros lavar as mãos nos fontenários. Punha-me a pensar: - Como é que ele observaria os doentes?
Só mais tarde, na faculdade, é que fiquei a saber que o senhor, assim como outros, devia sofrer de uma perturbação obsessiva compulsiva.
Lavar as mãos é uma necessidade imperiosa para todos, como é fácil de compreender, sobretudo para os médicos, ao ponto de ainda há algum tempo o senhor ministro da saúde ter dado um “puxão de orelhas”, quando afirmou que “muitas mãos não são lavadas” e, como tal, seriam responsáveis por muitas infecções hospitalares. Não deixa de ter alguma razão, embora a forma peculiar como se debruçou sobre este assunto tenha originado alguns engulhos.
De acordo com um recente estudo, o risco de contrair uma gripe ou uma banal constipação é muito maior através das mãos do que os tradicionais beijinhos. Sendo assim torna-se necessário evitar os apertos de mãos, procedendo à sua lavagem imediata com sabão ou usar desinfectantes que contenham álcool. Na prática não é muito fácil. Não estou a ver ninguém a dizer para o seu vizinho ou amigo: - Eh pá! Estás constipado?! Não me estendas a mão, dá-me um beijinho! Mas se for a vizinha ou uma amiga, então é certo e sabido: - Já sabe que dar beijinhos é muito menos perigoso do que apertar as mãos? É verdade! Está cientificamente provado.
Imagino o que faria o tal médico da terra se tivesse tido acesso a esta informação! Mas também com a barba de dois dias e sem as “mãos”…

Inflação em 2008: Pinho contraria (muito bem) previsão do BdeP

Nas previsões económicas ontem divulgadas, o BdeP aponta para o corrente ano uma taxa de inflação superior em 0,3 pp à que tinha sido anunciada pelo Governo: 2,4% é a taxa prevista pelo BdeP.
Erro claro.
O BdeP parece não ter ainda interiorizado a noção de que a inflação deixou de depender da evolução dos preços em Portugal: é fixada pelo Governo no início do ano e é inamovível nesse período, qualquer que seja o comportamento dos preços.
Assim, fez bem o Ministro Manuel Pinho em ter dito ontem que apesar de o BdeP anunciar uma inflação mais elevada, ele continuava convencido de que ela não seria superior aos 2,1% já fixados pelo Governo.
Julgo que esta inovação tem inegáveis vantagens: (i) reduz a incerteza económica, estimulando as decisões de investimento; (ii) pacifica as relações laborais, uma vez que se torna muito mais fácil ajustar as remunerações a uma inflação certa, que não admite revisões; (iii) agiliza os mecanismos de fixação de preços na medida em que estes, deixando de ter qualquer impacto sobre a inflação, também não constituem motivo de preocupação para as Autoridades que perdem a tentação de travar os preços, em especial os que ainda estão sujeitos a decisão administrativa.
No cenário pouco risonho que se desenha para 2008 e que a derrota de ontem, embora por escassa margem, de Barack Obama no New Hampshire veio tornar ainda mais lúgubre, esta inovação portuguesa que permite esterilizar os efeitos das variações de preços sobre o nível da inflação constitui uma das poucas notícias agradáveis.
Não será também possível conseguir um mecanismo semelhante para o PIB, tornando o respectivo crescimento insensível, por exemplo, às variações da conjuntura externa?
Talvez que, com algum esforço de investigação, se consiga lá chegar.
Então sim, teríamos motivos para nos tranquilizarmos ainda mais.