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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Daquelas cabeças é que não sai nada!...

O bom futebol é jogado com os pés, e atirar bolas à toa para o ar é próprio de quem não nasceu para a arte. Esses artistas não costumam ter grande futuro na profissão.
Ao contrário, a política deve ser jogada com a cabeça. Mas a grande maioria dos artistas da área, julgando-se futebolistas, só sabem tratá-la com os pés. Paradoxalmente, são os mais procurados para o jogo. No terreno, ou como treinadores, técnicos ou consultores.
Utilizar no jogo os pés em vez da cabeça é o que mais têm feito jornalistas e politicos, quando diariamente se defrontam a propósito do pós-troyca. Partindo, claro, do princípio que há pós.
Sempre, sempre, a repetitiva jogada jornalística inicia-se  com o lançamento do futuro modelo de jogo: se é jogado em terreno livre e com arbitragem nacional, ou com estádio vigiado e trio de árbitros de fora, ou em regime de semi-liberdade, com um fiscal à distância, a ver o que dá. Sem preparação técnica adequada devido a falta de treino consistente, ou até falta de treinador, a resposta em campo é variada e multiforme , consoante o impulso e perfil do jogador. Torna-se mesmo caótica, concitando assim os assobios do publico e só  um espectador  muito paciente é que não desespera perante o sucessivo desacerto das jogadas.
Bom, tudo isto a propósito do decisivo Portugal-Suécia de daqui a bocado. Os que trabalham  com os pés até têm tido cabeça acertada e não têm dito despropósitos; mas os que deviam trabalhar com a cabeça, trocam os pés pelas mãos, o que é dizer planos de resgate por planos cautelares, planos cautelares por cautelas sem plano ou sem resgate, resgate sem cautela ou sem plano, ou tudo ou nada disso.
Se não sabem qual a jogada, porque ninguém ainda pode saber, pois que não joguem e se calem. No entanto, divertem-se a chutar para o ar e os outros que apanhem as bolas.
E ainda há quem aplauda estes tristes assim felizes, do governo ou das oposições. Dali não sai mesmo nada. E ainda dizem mal do futebol!...
(o meu comentário ao post do Ferreira de Almeida)

"Trabalho"...


Trabalhar é cada vez mais difícil e complicado, porque não há, ou se há, então, torna-se violento e pouco recompensador, como que a lembrar os velhos tempos em que para ganhar uns miseráveis vinténs se tinha de "dar o couro e o cabelo". Um esforço pouco reconhecido, por vezes humilhante, mas mesmo assim capaz de criar relações de simpatia e de respeito a quem manifesta profissionalismo e vontade de vencer a vida, vencer a vida e não vencer na vida. Olhando em redor, sente-se, apalpa-se e entristece as formas como o trabalho está a ser encarado. É preciso muito esforço, muita dignidade e muita dedicação para continuar a produzir e dar de si o melhor que guardamos na profundidade do nosso ser, uma espécie de mina de ouro que se esgota com a passagem do tempo. Angustia-me o momento em que não irei conseguir descortinar o brilho dourado de uma ideia, conselho ou ajuda. Sofro antecipadamente com o momento em que ao procurar uma reserva de energia, de criatividade ou de esperança, passo a encontrar o desespero, a tristeza, a indiferença e a imagem cínica e tenebrosa do meu semelhante a gritar, a insultar e a rir do meu esforço e dedicação. Olho em redor e vejo os sorrisos mefistofélicos de seres que roubaram a minha esperança, atormentando-me com a dureza do trabalho, que me cansa, que dói, mas que mesmo assim ainda consegue alimentar uma alma desejosa. De quê? De muitas coisas, tantas que as minhas pálpebras inebriadas acabam por aproveitar para se deixarem cair languidamente numa noite de descanso.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A fábula do macaco e do queijo

A propósito  das recomendações inultrapassáveis dos nossos credores sobre salários altos e baixos, lembrei-me da fábula do macaco e do queijo. Se bem se recordam, dois animais que tinham encontrado um queijo não se entendiam sobre o modo de o dividir. Decidiram então procurar o macaco, conhecido pela sua inteligência e sentido de justiça, pedindo-lhe que fosse ele a dividir o queijo em medidas iguais e, portanto, justas. O macaco fez uma primeira divisão e o resultado foi uma metade maior do que a outra. Para equilibrar, cortou uma fatia à parte maior e comeu-a. Depois foi a outra metade a ficar maior, cortou nova fatia, dessa vez do outro lado, e comeu-a. E assim prosseguiu, emagrecendo cada um dos lados sucessivamente, comendo fatia atrás de fatia até que não sobrou queijo nenhum para os animais desavindos.
No caso actual, se bem se lembram, tudo começou com o custo do trabalho no sector privado, a inevitável necessidade de as empresas aumentarem a produtividade, a competitividade, etc, seguiu-se um tsunami de desemprego, depois concluiu-se que "o privado já tinha feito o ajustamento" e o sector público era o que faltava. Tinham mesmo era que seguir o mesmo caminho, se muitos deles não podiam ser despedidos isso valia dinheiro, baixam-se os salários, tiram-se muitos outros custos laborais, etc, em muitos casos até se reduzir 30%. Chega-se agora à conclusão de que afinal o sector privado tem que reduzir o mesmo que os do público já reduziram, afinal os salários mínimos são altíssimos, os dos menos qualificados altíssimos são, está visto que temos que cortar mais uma fatia, a balança do macaco não falha, os pratos vacilam, ora para um lado ora para outro...

Relatório do FMI e uma certa liturgia da insensatez...

1. Fui esta manhã surpreendido por uma chuva de opiniões, em versão radiofónica, acerca de uma recomendação supostamente inserta no último relatório do FMI, ontem divulgado, relativo á 8ª/9ª avaliação do PAEF, apontando uma redução salarial em Portugal...

2. Foram inúmeras as personalidades que debitaram a sua habitual sapiência sobre a matéria, com pronunciamentos nalguns casos nacionalistas, rejeitando liminarmente a suposta recomendação do FMI, que o tempo dos salários baixos já lá vai (curiosamente ainda não lá vai o tempo do desemprego altíssimo...), que o Governo deveria rejeitar expressamente tal recomendação, que isto constitui quase um insulto ao orgulho dos portugueses, etc,etc,etc...

3. Até o “pobre” do Ministro da Economia não foi poupado, parece que conseguiram extorquir-lhe uma declaração qualquer sobre o tema e, sobre tal declaração, bastante vaga se bem entendi, criaram logo a história de que também o Governo se opunha patrioticamente a tal ingerência...

4. Tive a curiosidade de ler entretanto o dito relatório do FMI e o que lá encontrei (págs 6 e 8), é algo de bem diferente da conversa nacionalista desta manhã, e até faz bastante sentido...

5. O que o FMI faz é chamar a atenção para o facto de os elementos de rigidez ainda subsistentes no mercado de trabalho – nomeadamente a rigidez salarial – terem tido como consequência (e voltarem a ter, se tudo ficar na mesma) o alto desemprego como válvula de escape para a forte quebra da actividade económica...

6. O caso recente do BCP permite ilustrar este dilema: defrontado com a necessidade de reduzir os seus custos de funcionamento, o Banco propôs uma redução salarial precisamente para evitar um maior número de despedimentos (os sindicatos do sector até parecem receptivos a tal medida); se tal redução não for aceite, o Banco será forçado a avançar com mais despedimentos...

7. O comentário do FMI, especialmente direccionado aos sectores expostos à concorrência (nos chamados produtos e serviços transaccionáveis), parece pois fazer todo o sentido e ser até socialmente equilibrado: será certamente muito menos penoso, do ponto de vista social, se uma empresa for capaz de sobreviver com uma redução dos custos salariais de 10% ou de 20%, por hipótese, que ela tenha a possibilidade de negociar tal solução como alternativa à insolvência e encerramento...

8. Mas bastou isto para desencadear uma torrente de comentários nacionalistas e de acusações ao FMI por vir propor baixas de salários, ofendendo esta pobre Nação já tão vilipendiada pelos credores internacionais...

9. Não têm mesmo cura, estes “media”; mas aqueles que aceitam colaborar nesta liturgia da insensatez, não resistindo ao microfone, também não se saem muito brilhantemente...

É por estas e por outras...

... que grande parte dos portugueses perde a esperança.
O Dr. Marques Guedes, ministro da Presidência que reconheço como pessoa sensata e ponderada, teve há pouco uma intervenção que me deixou perplexo (sim, ainda não estou suficientemente anestesiado), por ser ele a protagonizá-la e pelo alcance do que disse. E disse duas coisas espantosas. A primeira, que por não envolver mais transferência de dinheiro para Portugal, um eventual programa cautelar não tinha que contar com consenso partidário alargado. A segunda, que a decisão da Irlanda de dispensar este tipo de apoio, deixou Portugal sem "referência".
A primeira afirmação é, em qualquer contexto, um absurdo. O Governo que toma a iniciativa de propor uma reforma do Estado como condição para furtar Portugal a mais intervenções externas a prazo, que sabe que essa reforma não será possível sem um amplo consenso partidário, considera dispensável esse consenso quanto às medidas que viabilizem uma ainda relativa autonomia face aos mercados que nos têm de continuar a alimentar? É um paradoxo, não faz sentido, sobretudo depois do Senhor Presidente da República ter há já alguns meses chamado a atenção para a necessidade estrita de a classe política se convencer que o pós-troika terá de assentar no maior denominador comum possível.
Pior só mesmo o único significado que se pode extrair da afirmação de que Portugal ficou sem referência para negociar um programa de transição, dado que a Irlanda vai subscrever nenhum. Este desapontamento do Governo, manifestado pelo Senhor Ministro da Presidência, faz-me lembrar o do aluno que não estudou na certeza de que o colega que se senta ao lado o vai deixar copiar a prova, sem por a hipótese de este ficar dispensado dela!
Mas o que me deixa mais abismado é a perceção de que, afinal, o senhor PM e a senhora MF falavam a sério quando diziam que nada estava "em cima da mesa" em matéria de programa cautelar, pese embora estarmos a escassos meses do fim do programa de assistência financeira. Nada, pelos vistos. Nem um guiãozinho. Somente a expetativa de a Irlanda nos mostrar como seria.
Enfim...

No bom caminho!...


Temporários até ser preciso ou permanentes enquanto for necessário?

Eis a magna questão que ocupa confrontos políticos, debates parlamentares, comentários mediáticos e notícias, muitas notícias. Os "cortes" vieram para ficar ou ficam até se irem embora? Mentem uns e desconfiam outros? Escolham uma delas e passem ao assunto seguinte, por favor. De certeza que ninguém vai notar a diferença.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Inconsistências políticas...

A proposta do Orçamento do Estado para 2014 inclui uma medida de segurança social que tem passado despercebida. Tem que ver com as contribuições para a Segurança Social dos membros dos órgãos estatutários das empresas. Até agora a base de remuneração sobre a qual incidem as contribuições tem um limite máximo mensal - " plafond" - correspondente a 12 IAS - 5.030 euros. A este plafonamento nas contribuições corresponde um plafonamento nas pensões. Ou seja, a parte da remuneração auferida superior ao limite máximo não é pensionável pelo sistema de pensões público. 
Pois a proposta do OE vem estabelecer que a base de incidência de contribuições deixa de estar sujeita aquele limite. É uma medida que vai transferir mais responsabilidades com pensões para a Segurança  Social e, consequentemente, aumentar a despesa com pensões, quando são conhecidas as dificuldades para lhes fazer face. Dificuldades que têm levado a cortes nas pensões, a alteração das regras de cálculo e acesso às pensões. Tudo em nome da sustentabilidade. A contrapartida é, no curto prazo, aumentar a receita da Segurança Social e, consequentemente, ter um impacto imediato positivo nas contas orçamentais, embora o OE não quantifique os impactos. 
Mas o que é mais espantoso é que o governo defende no "Guião da Reforma do Estado" uma reforma da Segurança Social que deve admitir um "plafonamento" das contribuições e das futuras pensões, embora dizendo que a mesma só poderá  ser feita se o PIB atingir 2%. É claro que se trata de uma não reforma, atenta a condição imposta. Mas o princípio do "plafonamento" é defendido e apresentado como o único para levar por diante uma reforma do sistema de pensões. É, portanto, normal que se questione a medida avançava na proposta do OE, que vai justamente em sentido contrário. 
Muitos membros de órgãos sociais - conheço alguns - constituíram planos complementares de reforma. Vêem-se agora confrontados com uma medida que não só altera subitamente as suas expectativas, como lhes pode criar dificuldades financeiras e, porventura, contratuais em relação a escolhas racionais que oportunamente fizeram em termos de protecção na reforma. Acresce que as empresas verão os seus custos aumentados, num tempo em que toda a gente fala da necessidade de os reduzir. 
As inconsistências em nada ajudam a confiança nas decisões políticas, fazem pensar que há ausência de um plano, de consistência e coerência das escolhas...

Investidores asiáticos não prestam a devida atenção à imprensa lusa?!

1. Foi ontem notícia: o Tesouro italiano pagou o juro mais baixo desde a criação do Euro, numa emissão de BT´s a 1 ano...

2. Concretamente, tratou-se de uma emissão de dívida no montante de € 6,5 mil milhões, colocada a uma taxa média de 0,688%...

3. Ao que consta, tem existido forte procura de activos em Euros, nomeadamente de dívida pública – com relevo para os emitentes Espanha e Itália – por parte de investidores asiáticos que pretendem diversificar as suas carteiras, reduzindo o peso dos USD e aumentando o peso dos Euros (dos activos expressos em)...não temendo o risco (“tail-risk”) do Euro, ao que parece...

4. Enquanto estas coisas vão acontecendo, multiplicam-se na imprensa portuguesa as opiniões, sempre muito profundas e impressionantes, sobre a crise existencial do Euro, as políticas erradas (neo-liberais) que condenam esta zona monetária, a inexistência de futuro para este projecto sujeito a tais políticas (com a vantagem de não se perceber quase nunca que alternativa seria viável, mais dívida certamente?)...

5. Porque estranho motivo esses investidores asiáticos não prestam a devida atenção à imprensa lusa? Ou será que em matéria de “media” e de “opinion-makers”, estamos demasiadamente avançados...na rectaguarda da rectaguarda?...

Vanitas vanitatum, et omnia vanitas

As eleições presidenciais ainda vêm longe e o País tem mais com que se preocupar. Mas sucedem-se as candidaturas a candidatos seguindo a velha estratégia "a-ver-se-pega". Outros preferem a tática "olhem-para-mim-que-sou-tão-bom". Quando são os próprios a afirmar que têm currículo, então a vaidade muda de figura e passa a ser coisa risível.
 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"Escrever"...

Escrever dá-me prazer. Escrever justifica a minha existência, permite-me pensar, divagar, inventar, recordar, profetizar, emocionar, amar e até esquecer. Vale a pena escrever, sobretudo à hora habitual, ou melhor, à hora em que deveria estar a descansar. Mais um motivo para escrever, descansar o espírito de um corpo cansado e desejoso de sentir o vigor da força da juventude. Outra razão para escrever, rejuvenescer, ainda que momentaneamente. O peso nas pálpebras começa a surgir. Não me incomoda, pelo contrário, leva-me a voar e a fugir da realidade. Escrever também serve para isso, voar, fugir e descobrir. As ideias esvoaçam sem formas, sem sentido, sem calor, sem frio. Deixo-as andar à vontade, são livres de fazer o que entendem, mas elas não se entendem, porque não sabem que existem, mas têm instinto e procuram almas para poderem renascer e viver como se tivessem também uma. Rondam-me constantemente, chegam por vezes a perturbar-me, sussurram, gritam, cantam, dançam, choram, riem, insultam e amam. Lanço a mão a uma delas. Tenho medo do que me vai sair desta vez na lotaria dos pensamentos. Deixo que as pálpebras caiam. Fecho os olhos e vejo que é uma ideia ligada ao ato de escrever. Já escrevi muitas coisas, coisas lidas por muitas pessoas que, na sua gentileza, me agradecem. Agradecem-me com uma palavra, com uma reverência, com um dito airoso e bem cheiroso, com o despoletar de uma lembrança, com alguma emoção, com uma pequena conversa que alivia o coração, com um sorriso de cumplicidade ou com a alegria de um escrito desenhado num pequeno cartão. Sei lá que mais. Castanhas? Pois então! Até quadros, objetos, desenhos e pequenas obras de arte aparecem quando menos espero. E depois? Depois guardo tudo, embrulho tudo e faço tudo por recordar o que já recebi, li, e ouvi a propósito do que já escrevi. Escrevo, e a ideia, que apanhei há pouco na minha teia, começa a ter forma, cor, cheiro e no fim sabor. Engulo pequenas gotas e sinto a despertar em mim um calor e o ressuscitar de um vigor, tudo por causa de uma bebida que me faz companhia ao fim de um longo dia de trabalho. Alguém leu um pequeno escrito em que falava de uma bebida que foi considerada como a preferida de Napoleão. Curioso pensar neste homem, não em função da sua mania, mas por partilhar o mesmo prazer que é apreciar uma boa bebida. Aqui estou, aprisionado a uma ideia que acabou por adquirir a forma, a cor e o calor de um pequeno escrito que acabou por ser deliciosamente bebido.
Escrever é também dar corpo e alma a uma ideia que anseia por saber o que é a vida e que acaba por se transformar na própria vida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Todos comentam Machete...ninguém fala da Moody's?

1. Desde ontem à noite, salvo erro, que os media andam afadigados a repetir a toda a hora as peculiares afirmações do MNE, apontando um determinado nível das taxas de juro da dívida pública portuguesa a 10 anos (4,5%) como sinalizador de um regresso feliz aos mercados ou...da necessidade de um 2º resgate...

2. E quase todos os comentadores de serviço, incluindo destacados pirómanos financeiros, já emitiram, como lhes cumpre, a sua douta opinião acerca de tais declarações, umas mais outras menos causticas...

3. Achei particular graça ao facto de no início desta manhã, na abertura dos mercados, um jornalista de rádio ter inquirido um profissional do mercado financeiro acerca do impacto que as declarações do MNE tiveram sobre a cotação da dívida pública portuguesa: nenhum, foi a resposta pronta do dito profissional...

4. ...que não se limitou a esse comentário, tendo acrescentado que bem mais importante foi a notícia da melhoria da apreciação da dívida portuguesa pela agência de notação financeira Moody’s, tendo a notação da dívida que se mantém no nível Ba3 passado de “Outlook negativo” para “Outlook estável”...

5. Não é muita coisa, mas para um País que se habituou a um percurso pela “escada abaixo” das notações de rating, desde há mais de 3 anos a esta parte, esta mudança é um importante “turning point”...

6. Curiosamente, apesar do seu significado para os mercados, esta mudança positiva na percepção do risco da dívida portuguesa por uma agência como a Moody’s passou quase despercebida junto dos prestimosos “media”, enquanto as declarações quase inócuas (e felizmente pouco convincentes) do MNE ocuparam horas de noticiário e de comentário, foram repetidas quase até à exaustão...

7. Mas agora rectifico: a notícia da Moody’s quase despercebida? Qual a surpresa, se é uma notícia positiva?...



Inconstitucionalidade latente

João Salgueiro saiu-se com uma boa frase. Disse que Portugal vive em "inconstitucionalidade latente". Também penso assim. Mas não tanto pelas razões que adiantou para explicar este estado que para ele se situam no domínio da falta de esclarecimento e de discussão e de uma estratégia a mais ou menos longo tempo. Não. A explicação é bem mais simples e tem que ver com a realidade. E a realidade tende a ser impiedosa. Até para as melhores intenções constitucionais.

domingo, 10 de novembro de 2013

Há muros que não derrubámos

Dia 9 de novembro de 1989, 23 horas e 17 minutos. O regime comunista cedeu e o muro ruíu.
Com ele, um modelo de sociedade sem liberdade, de ditadura feroz, de assassínios em massa, de deportações, de goulags hediondos, de nomenklaturas poderosas, de desigualdades gritantes, de castração continuada dos espíritos mais resistentes.
Comemorou-se ontem o 24º aniversário. Porventura terá havido notícia do acontecimento, mas tão discreta ou modesta que não dei conta que tivesse existido.
Vi e ouvi, sim, enormes reportagens e gigantesca propaganda sobre os 100 anos do nascimento de Cunhal. Um dos mais lídimos defensores do Muro e do regime que caíu com o Muro.
Na mesma data em que, lá fora, se festeja a queda de um muro de vergonha, por cá a imprensa glorifica a data de nascimento de Cunhal. O que, só por si, também ajuda a explicar as razões do nosso atraso e da situação que vivemos.

As lavagens de cérebro

Todos os dias, e há muitos, muitos, todas as vezes que abro a televisão ou a rádio logo ouço falar dos 100 anos do nascimento de Álvaro Cunhal.
Mas, afinal, quantos dias levou ele a nascer? E quantos mais levará?

sábado, 9 de novembro de 2013

Calçada à portuguesa em risco?

A Câmara Municipal de Lisboa anunciou a intenção de retirar a calçada à portuguesa das ruas de Lisboa, mantendo-se apenas em algumas zonas históricas. 
É uma perda, a calçada à portuguesa é uma imagem de marca de Lisboa, faz parte do património histórico e cultural da cidade. 
Lembrei-me de há uns anos ter escrito sobre a calçada portuguesa aqui no 4R, a propósito da inauguração da estátua do Calceteiro de Lisboa:
"Seria importante que a Câmara Municipal de Lisboa não se ficasse por esta homenagem e invertesse a redução drástica do número de profissionais calceteiros ao seu serviço e promovesse esta profissão, de modo a que a calçada à portuguesa continue a brilhar como nos tempos antigos.
Não é com os 20 calceteiros actualmente ao serviço da Câmara e com o trabalho dos empreiteiros cuja aptidão técnica é muitos vezes deficitária que iremos manter o ex-líbris nacional que é a calçada à portuguesa.
Se por um lado, a calçada à portuguesa nos põe de cabeça baixa, pedindo-nos que olhemos para o chão, por outro lado, é-nos exigido que saibamos estar com a cabeça bem levantada, que tiremos partido deste e de todos os outros valores nacionais."
É pena que não valorizemos as marcas identitárias na nossa história e cultura. Deveríamos insistir no que de positivo temos. Espero que prevaleça o bom senso e que se encontrem soluções que permitam manter a traça da calçada de Lisboa. "Cortar" não é solução...

"Castanhas"...

Frio. Nevoeiro. Sinto o cheiro de castanhas a serem assadas. Olho e vejo o dançar do fumo a subir, a cantar e a alegrar na noite escura. Passo. Vejo o assador, a chama deslumbra um miúdo e o odor convida-me a tocar-lhe. Aproximo-me, o fumo irrita o nariz. Pergunto o preço e o senhor diz. Olho para a moeda que trago na mão. Com pena minha troco-a pelo cartucho onde cabem uma dúzia de castanhas, quentes, saltitantes, esbranquiçadas, suaves, doces, carnudas, prestes a fazer as delícias de qualquer um. Fiquei sem a moeda. Fiquei triste. Fiquei com um cartucho feito de páginas de um jornal cheio de castanhas quentes, doces, carnudas, maravilhosas. Uma após outra ia enchendo a boca. Mordia-lhes com prazer. Dançava com elas na boca. Deglutia-as depois de as mastigar como devia. Cheguei a casa ainda com algumas. Empanturrado pela secura causada pelas castanhas, atrevi-me a pedir qualquer coisa para beber. Recebi autorização para beber o mais adequado. Bebi jeropiga. Combinação pura, doce, suave, que ainda perdura. Foi há tanto tempo que ainda me lembro. Lembro a noite fria e escura. Lembro-me do assador vermelhos, do fumo que provocava estertor e que me fazia chorar de dor. Lembro-me como se fosse hoje. Lembro-mo do seu sabor e do seu calor. Lembro-me da mistura das castanhas com o suave ardor da jeropiga. Uma delícia. Perdi a bela moeda de alpaca, mas fiquei com um das mais belas recordações da minha vida, comer uma dúzia de castanhas a anunciar outras ocasiões em que a castanha passou a ser rainha e senhora das minhas ambições. Uma maldição que atormenta o meu coração. Maldita seja a doença que impede que saboreie a maior perdição da minha vida.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Olhem a nossa cara de admiração

Afinal ainda nenhuma das grandes superfícies pagou, mas mesmo assim já se arrecadaram três milhões. Falta contabilizar o que se gasta com a litigância em curso.

Congratulations, Irlanda...

1. Tudo parece indicar que a Irlanda passou o último teste (avaliação) do Programa de Assistência Financeira negociado com o FMI e a UE, recebendo luz verde para uma conclusão bem sucedida desse Programa, a 15 de Dezembro próximo.

2. Há muito que os mercados vinham antecipando este desfecho, que se percebia através da evolução da taxa de juro implícita na cotação das obrigações da dívida pública irlandesa ao prazo de 10 anos (yield), que nos últimos tempos tem andado em torno de 3,5%, claramente abaixo (mais de 50 bps) das yields da dívida espanhola e italiana para o mesmo prazo...e muitíssimo abaixo da yield da dívida portuguesa, agora nos 5,80%...

3. Resta saber se a Irlanda irá solicitar ao FMI e à UE (como parece) uma linha de financiamento cautelar (back-up) a fim de assegurar transição pacífica para uma situação em que contará apenas com o mercado para se financiar. Mas isso será quase um detalhe, um tipo de tranquilizante para os mercados, uma vez que uma yield de 3,5% nos 10 anos é por si suficiente, em princípio, para garantir condições de financiamento normais.

4. Este muito provável sucesso do Programa de Assistência da Irlanda constitui um sério contratempo para os adversários das políticas ditas “neo-liberais”: para estes incansáveis apóstolos de um Estado tão extenso, tão gordo e tão social quanto possível, como condição para a felicidade perfeita, o sucesso deste Programa constitui uma heresia insuportável...

5. ...devendo como tal ser rapidamente apagado dos títulos noticiosos – ou tampouco ser mencionado – não vá existir o risco de a heresia vir a espalhar-se para outras geografias mais para ocidente ou para sudeste...mas nesse capítulo os nossos “media” não deixarão por certo de cumprir o seu papel, o silêncio estará assegurado...

6. Já imaginaram a desgraça que seria o Programa de Assistência (PAEF) de Portugal ter sucesso como o da Irlanda? Isso seria um suplício para estes abnegados lutadores pela gordura do Estado, uma cedência ignominiosa às políticas “neo-liberais”...antes a morte que tal sorte, diria o sempre bem-humorado Prof. Miguel Beleza...

7. Assim sendo, está na hora de todos os lutadores do bom combate anti-“neo-liberal” – Crescimentistas “soft” e “hard”, radicais bloquistas e de outras famílias, “que se lixe a Troika” e outros valorosos combatentes – cerrarem fileiras para impedir por todos os meios que tal infausto evento possa concretizar-se...

8. Neste momento todas as esperanças se concentram no TC, que deverá vir a ter nas mãos a possibilidade de salvar o essencial desta nobre cruzada sócio-política. Esperemos pois que o TC se mostre à altura dos acontecimentos e não frustre as expectativas de tão cintilantes combates...

9. Entretanto, permitam-me que diga, sem com isto significar qualquer cedência ao credo “neo-liberal”: congratulations, Irlanda.



Nós e os outros

https://www.youtube.com/watch?v=S09zpRXm1U8

Vale a pena ver este video, muitos de nós já passaram por angústias semelhantes em relação aos nossos pais ou avós, e o mais certo é as coisas não irem para melhor. Por isso, quando se alimentam discursos de aberta hostilidade em relação aos mais velhos, quando se toleram comentários e insinuações que preferem colher no curto prazo do que estruturar o futuro, quando se segue a via do desrespeito e da humilhação dos mais velhos, privando-os da sua identidade passada, então o melhor é começar a pensar que "nas costas dos outros vemos as nossas", por que motivo havia de ser diferente?