Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Carta aberta de um Professor (identificado) II

Carta aberta ao Senhor Presidente da República Portuguesa (carta que circula por e-mails)-Continuação
4. …...
Eu quero alunos que não desconheçam a existência de expressões como “obrigado”, “por favor” e “desculpe” e que as usem sempre que o seu emprego se justifique.
Eu quero alunos que ao serem chamados a participar na aula não me olhem com enfado dizendo interiormente “Mas o que é que este quer agora?” e demorem uma eternidade a disponibilizar-se para a tarefa como se me estivessem a fazer um grande favor. Que fique bem claro que os alunos não me fazem favor nenhum em estarem na aula e a portarem-se bem.
Eu quero alunos que não estejam constantemente a receber e a enviar mensagens por telemóvel e a recusarem-se a entregar-mo quando lho peço para terminar esse contacto com o exterior pois esse aluno “não está na sala”, está com a cabeça em outros mundos.
Eu sou um trabalhador como outro qualquer e como tal exijo condições de trabalho! Ora, como é que eu posso construir uma frase coerente, como é que eu posso escolher as palavras certas para ser claro e convincente se vejo um aluno a balouçar-se na cadeira, outro virado para trás a rir-se, outro a mexer no telemóvel e outro com a cabeça pousada na mesa a querer dormir?
Quando as aulas são apoiadas por fichas de trabalho gostaria que os alunos, ao sair da sala, não as amarrotassem e deitassem no cesto do lixo mesmo à minha frente ou não as deixassem “esquecidas” em cima da mesa….
5. No ano passado tive uma turma do 10º ano dum curso profissional em que um aluno, para resolver um problema no quadro, tinha de multiplicar 0,5 por 2 e este virou-se para os colegas a perguntar quem tinha uma máquina de calcular!!! No mesmo dia e na mesma turma outro aluno também pediu uma máquina de calcular para dividir 25,6 por 1.
Estes alunos podem não saber efectuar estas operações sem máquina e talvez tenham esse direito. O que não se pode é dizer que são alunos de uma turma do 10º ano!!!
Com este tipo de qualificação dada aos alunos não me admira que, daqui a dois ou três anos, estejamos à frente de todos os países europeus e do resto do mundo. Talvez estejamos só que os alunos continuarão a ser brutos, burros, ignorantes e desqualificados mas com um diploma!!!
6. São estes os alunos que, ao regressarem à escola, tanto orgulho dão ao Governo. Só que ninguém diz que os Cursos de Educação e Formação são enormes ecopontos (não sejamos hipócritas nem tenhamos medo das palavras) onde desaguam os alunos das mais diversas proveniências e com histórias de vida escolar e familiar de arrepiar desde várias repetências e inúmeras faltas disciplinares até famílias irresponsáveis.
Para os que têm traumas, doenças, carências, limitações e dificuldades várias há médicos, psicólogos, assistentes sociais e outros técnicos, em quantidade suficiente, para os ajudar e complementar o trabalho dos professores?
Há alunos que têm o sublime descaramento de dizer que não andam na escola para estudar mas para “tirar o 9º ano”.
Outros há que, simplesmente, não sabem o que andam a fazer na escola…
E, por último, existem os que se passeiam na escola só para boicotar as aulas e para infernizar a vida aos professores. Quem é que consegue ensinar seja o que for a alunos destes? E por que é que eu tenho de os aturar numa sala de aula durante períodos de noventa e de quarenta e cinco minutos por semana durante um ano lectivo? A troco de quê? Da gratidão da sociedade e do reconhecimento e do apreço do Ministério não é, de certeza absoluta!
7. Eu desafio seja quem for do Ministério da Educação (ou de outra área da sociedade) a enfrentar (o verbo é mesmo esse, “enfrentar”, já que de uma luta se trata…), durante uma semana apenas, uma turma destas sozinho, sem jornalistas nem guarda-costas, e cumprir um horário de professor tentando ensinar um assunto qualquer de uma unidade didáctica do programa escolar.
Eu quero saber se ao fim dessa semana esse ilustre voluntário ainda estará com vontade de continuar. E não me digam que isto é demagogia porque demagogia é falar das coisas sem as conhecer e a realidade escolar está numa sala de aula com alunos de carne, osso e odores e não num gabinete onde esses alunos são números num mapa de estatística e eu sei perfeitamente que o que o Governo quer são números para esse mapa, quer os alunos saibam estar sentados numa cadeira ou não (saber ler e explicar o que leram seria pedir demasiado pois esse conhecimento justificaria equivalência, não ao 9º ano, mas a um bacharelato…).
É preciso que o Ministério diga aos alunos que a aprendizagem exige esforço, que aprender custa, que aprender “dói”! É preciso dizer aos alunos que não basta andar na escola de telemóvel na mão para memorizar conhecimentos, aprender técnicas e adoptar posturas e comportamentos socialmente correctos.
Se V.Excia achar que eu sou pessimista e que estou a perder a sensibilidade por estar em contacto diário com este tipo de jovens pergunte a opinião de outros professores, indague junto das escolas, mande alguém saber. Mas tenha cuidado porque estes cursos são uma mentira…
Permita-me discordar de V. Excia mas dizer que os professores têm de ser dignificados é pouco, muito pouco mesmo…
Atenciosamente
A.(devidamente identificado)
Professor de Ciências Físico-Químicas
ÍLHAVO

Apresentação do livro 4R no Porto


No dia 19 de Novembro, pelas 19 horas e 30 minutos, na FNAC do Norte Shopping!...
Prefácio de Francisco José Viegas
Apresentação de Manuela Ferreira Leite

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Carta aberta de um Professor (identificado) I

Carta aberta ao Senhor Presidente da República Portuguesa (carta que circula por e-mails)
Ílhavo, 22 de Outubro de 2007
Senhor Presidente da República Portuguesa
Excelência:
Disse V. Excia, no discurso do passado dia 5 de Outubro, que os professores precisavam de ser dignificados e eu ouso acrescentar: “Talvez V. Excia não saiba bem quanto!”
1. Sou professor há mais de trinta e seis anos e no ano passado tive o primeiro contacto com a maior mentira e o maior engano (não lhe chamo fraude porque talvez lhe falte a “má-fé”) do ensino em Portugal que dá pelo nome de Cursos de Educação e Formação (CEF).
A mentira começa logo no facto de dois anos nestes cursos darem equivalência ao 9º ano, isto é, aldrabando a Matemática, dois é igual a três!
Um aluno pode faltar dez, vinte, trinta vezes a uma ou a várias disciplinas (mesmo estando na escola) mas, com aulas de remediação, de recuperação ou de compensação (chamem-lhe o que quiserem mas serão sempre sucedâneos de aulas e nunca aulas verdadeiras como as outras) fica sem faltas. Pode ter cinco, dez ou quinze faltas disciplinares, pode inclusive ter sido suspenso que no fim do ano fica sem faltas, fica puro e imaculado como se nascesse nesse momento.
Qual é a mensagem que o aluno retira deste procedimento? Que pode fazer tudo o que lhe apetecer que no final da ano desce sobre ele uma luz divina que o purifica ao contrário do que na vida acontece. Como se vê claramente não pode haver melhor incentivo à irresponsabilidade do que este.
2. Actualmente sinto vergonha de ser professor porque muitos alunos podem este ano encontrar-me na rua e dizerem: ”Lá vai o palerma que se fartou de me dizer para me portar bem, que me dizia que podia reprovar por faltas e, afinal, não me aconteceu nada disso. Grande estúpido!”
3. É muito fácil falar de alunos problemáticos a partir dos gabinetes mas a distância que vai deles até às salas de aula é abissal. E é-o porque quando os responsáveis aparecem numa escola levam atrás de si (ou à sua frente, tanto faz) um magote de televisões e de jornais que se atropelam uns aos outros. Deviam era aparecer nas escolas sem avisar, sem jornalistas, trazer o seu carro particular e não terem lugar para estacionar como acontece na minha escola.
Quando aparecem fazem-no com crianças escolhidas e pagas por uma empresa de casting para ficarem bonitos (as crianças e os governantes) na televisão.
Os nossos alunos não são recrutados dessa maneira, não são louros, não têm caracóis no cabelo nem vestem roupa de marca.
Os nossos alunos entram na sala de aula aos berros e aos encontrões, trazem vestidas camisolas interiores cavadas, cheiram a suor e a outras coisas e têm os dentes em mísero estado.
Os nossos alunos estão em estado bruto, estão tal e qual a Natureza os fez, cresceram como silvas que nunca viram uma tesoura de poda. Apesar de terem 15/16 anos parece que nunca conviveram com gente civilizada.
Não fazem distinção entre o recreio e o interior da sala de aula onde entram de boné na cabeça, headphones nos ouvidos continuando as conversas que traziam do recreio.
Os nossos alunos entram na sala, sentam-se na cadeira, abrem as pernas, deixam-se escorregar pela cadeira abaixo e não trazem nem esferográfica nem uma folha de papel onde possam escrever seja o que for.
Quando lhes digo para se sentarem direitos, para se desencostarem da parede, para não se virarem para trás olham-me de soslaio como que a dizer “Olha-me este!” e passados alguns segundos estão com as mesmas atitudes.
(Continua)

Pobre cultura, pobres museus, pobres visitantes...

Perante a “situação de colapso provocado pela falta de atenção do Instituto dos Museus e da Conservação” – assim fala a Ministra da Cultura – para a necessidade de resolver o problema da falta de pessoal nos Museus que impede o normal acesso dos visitantes às suas exposições, aquela governante declarou que “Não há a mais pequena responsabilidade do Ministério da Cultura neste assunto”, remetendo as responsabilidades para aquele Instituto, que por acaso depende do Ministério da Cultura.
Em questões tão fundamentais da actividade dos Museus, não compreendo como é possível enjeitar responsabilidades desta forma! É que o problema não se coloca, a meu ver, num plano puramente técnico, mas deve antes ser colocado no plano político.
Que sentido faz ter Museus que não podem estar abertos ao público? É este o ponto!
O problema da falta de vigilantes nos Museus é crónico e continua sem solução à vista. Uma gestão do pessoal que assenta em contratos precários não permite a necessária previsibilidade e estabilidade na administração dos Museus. Declara o Director do Museu Nacional de Arte Antiga que “O universo dos museus não se compadece com uma grande circulação de pessoal, a fidelização é importante, até por questões de segurança”. Estou totalmente de acordo, mas não parece ser essa a opinião da sua Tutela.
Não se compreende que perante um tal problema, o governo tenha acabado com a possibilidade de contratar vigilantes através do Instituto do Emprego e Formação Profissional recorrendo a pessoas na situação de desemprego. Porquê? Gostava de saber... Será que é no PRACE que está a “bola de cristal”?
Enfim, um mal nunca vem só!

Recordar o Prestige


Às 15 h e 15 m do dia 13 de Novembro de 2002 um velho e inseguro petroleiro, de casco simples, paradoxalmente matriculado Prestige, navegava em grande dificuldade ao largo da Galiza e lançava um primeiro S.O.S..
À deriva durante seis dias, acabou por partir-se originando uma crise ecológica que muitos temeram poder atingir gravemente as águas e o território de Portugal.
Apesar de se ter deixado de falar no Prestige no imediato momento que se percebeu que a desgraça não atingiria a costa portuguesa (para manifesta e indisfarçada insatisfação de quem, do alto dos seus doutoramentos, garantia a pés juntos que a maré negra chegaria à costa alentejana...), a verdade é que os seus efeitos perdurarão por muitos anos.
Alguns deles jamais serão conhecidos como a afectação dos stocks biológicos, afectação que nunca é localizada e se projecta por uma área muito superior à que é directamente atingida. Outros, os efeitos materiais imediatos na redução do rendimento da pesca ou a despesa com a descontaminação de águas e a zona costeira directamente atingidas, estão contabilizados e cifraram-se por muitos e muitos milhões de euros.
O caso do Prestige alertou para os imensos riscos da navegação e para a fragilidade dos sistemas de prevenção e defesa contra este tipo de acidentes.
Sabe-se que nenhum Estado está ou estará alguma vez preparado para fazer face a um desastre ecológico deste tipo. Mas a cooperação internacional nesta matéria, sendo um imperativo uma vez que os impactos não conhecem fronteira, será tanto mais eficaz quanto os Estados se dotarem de meios de vigilância e defesa dos mares.
Portugal, que tem uma costa especialmente vulnerável atento o intenso tráfego marítimo que percorre as suas águas territoriais, mas também porque o mar foi e sempre será um recurso fundamental para o seu desenvolvimento, necessita como nenhum outro de se prevenir e defender.
O dia de hoje será um momento adequado para fazer o balanço do que foi entretanto foi feito.
Espera-se ouvir dos responsáveis da Defesa e do Ambiente mais do que a notícia do adiamento da entrada em serviço dos navios de combate à poluição, com que o Governo em 2002 decidiu equipar a Marinha. Para que se perceba que, nalguma medida, aprendemos com a amarga lição do Prestige.

Mentes brilhantes!...

De acordo com a notícia da Lusa, a Estradas de Portugal (EP), uma empresa do Estado, vai ser obrigada a reduzir a metade o número de mortes na rede rodoviária que lhe será concessionada, até 2010, e será multada pelo Estado, se não o conseguir, revertendo a multa a favor do Estado!...
Como a empresa não será rentável, receberá naturalmente subsídios do Estado. Assim, bom princípio é este de o Estado receber multas e de atribuir os respectivos subsídios para a empresa as poder pagar!... Que os vivos, em termo final, pagarão em impostos!... Círculo fechado!...
Por este caminho, o Serviço de Emergência Médica também será obrigado a reduzir para metade o número de mortes nas suas ambulâncias, sob pena de lhe ser retirada a licença!...
E nas próximas concessões hospitalares, os Hospitais também serão obrigados a reduzir para metade o número de mortes nas suas instalações, sob pena de multas severas, que naturalmente se repercutirão no preço dos serviços médicos!...
Com tanto zelo governativo, a pouco e pouco, a população portuguesa nem lugar terá onde cair morta!...Enfim, belo conjunto vazio de tecnocracias sócrato-linianas, para entreter o pagode!...
E vai haver mentes , tão "brilhantes" como as anteriores, logo dispostas a comentá-las a sério!...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

"A montanha pariu um rato"...

“A montanha pariu um rato”: é assim que se pode classificar a decisão do governo, anunciada há um ano, de encerrar catorze (14) urgências hospitalares. Passado que está um ano o governo não só não encerrou uma única urgência como não alterou a designação de alguns serviços hospitalares que sendo de atendimento permanente não reúnem os requisitos técnicos para serem consideradas urgências. O encerramento destas urgências foi estudado por uma comissão nomeada pelo Ministro da Saúde cujo relatório apresentado há um ano propunha o encerramento de cinco serviços de urgência na região norte, sete na região centro e dois na região de Lisboa.
À semelhança das maternidades, cujo encerramento acabou mesmo por se concretizar, o Ministro da Saúde encomendou um estudo para escudar a decisão política num parecer técnico independente. Mas o anúncio da medida provocou uma tal onda de contestação política por parte dos autarcas das localidades afectadas e de revolta por parte das populações residentes que não deixou ao governo outra alternativa que não fosse recuar em toda a linha na decisão.
Se razões técnicas ponderáveis existissem para não adiar ou abandonar o encerramento, designadamente no que se refere à segurança dos utentes e à qualidade dos serviços de saúde prestados, não se compreende então porque razão é que as urgências não foram encerradas. Não sendo as razões técnicas ponderosas, então somos tentados a concluir pela existência de motivações de ordem económica. E é aqui que se levanta a questão da razoabilidade da decisão do governo. Com efeito, em decisões desta envergadura política, as questões sociais assumem um papel importantíssimo. Não foi o caso, muito pelo contrário a posição do governo manifestou uma grande insensibilidade social.
Afinal para que servem os impostos que pagamos? Para fazer redistribuição, que não pode deixar de considerar as assimetrias económicas e sociais das regiões que compõem o território nacional. O mesmo governo que anuncia a redução do imposto sobre o rendimento para as pessoas e empresas residentes e instaladas no interior do País, toma decisões de encerrar serviços básicos de prestação de cuidados de saúde indispensáveis para fixar populações. As questões de segurança e de acessibilidade à prestação de serviços essenciais de saúde – que compete ao Estado assegurar, seja directamente seja contratualizando junto de terceiras entidades – são fundamentais, entre outras, nas decisões políticas de reestruturação da rede hospitalar.
A decisão de encerramento das catorze urgências hospitalares foi um desastre que acabou numa desautorização política e numa vitória popular. Beliscar direitos tão sensíveis e fundamentais pode ter este resultado. Não se recomenda. Ainda bem que “a montanha pariu um rato”! A bem do País, a bem da justiça social, a bem dos nossos impostos, a bem das populações e do desenvolvimento económico e social das zonas do interior.
Será que, ainda assim, este dossier tem hipóteses de ser reaberto?

O preço do grátis

Anuncia-se que a RAVE terá na sua posse um estudo que arrasa os fundamentos do que foi elaborado pela CIP em apoio da localização em Alcochete do novo aeroporto de Lisboa.
Segundo os estudiosos pagos pela RAVE (que ninguém parece conhecer, mas lá que existem, existem, a acreditar nos jornais do fim de semana) os estudiosos pagos pela CIP esqueceram-se de contabilizar umas centenas largas de milhões de euros.
Para além de se confirmar uma suspeita minha de que a procissão ainda vai no adro nesta estória do aeroporto, dou comigo a recordar que o Governo, no tempo em que outra opção que não fosse a OTA "jamais, jamais!", garantia que o empreendimento se pagaria entre fundos europeus e receitas da própria exploração sem onerar os orçamentos.

Agora, pelos vistos, o grátis tem preço. E pelos números que por aí vi relatados, que preço!

Impostos: mentalidade e (ir)responsabilidade

O que têm em comum Edward Prescott, Prémio Nobel da Economia em 2004; Joaquín Almunia, Comissário Europeu dos Assuntos Económicos e Monetários; e Teresa Ter-Minassian, Directora do FMI para a área fiscal? Pela cartilha do Governo Socialista, são todos irresponsáveis. E porquê?

Edward Prescott, que no início de Outubro esteve em Portugal, referiu que uma redução de impostos é desejável no nosso país, pois seria uma forma de incentivar mais o trabalho e a produção, e não teria um grande efeito sobre as receitas fiscais. De acordo com Prescott, uma descida de impostos [não especificou quais] beneficiaria os portugueses, porque as actuais taxas são elevadas.

Já Joaquín Almunia, que também recentemente passou pelo nosso país, apontou que, num mundo globalizado, com livre circulação de capitais e concorrência acrescida, a política fiscal deve ter em conta os requisitos do crescimento e da competitividade. Claro, sem descurar o equilíbrio orçamental, que é uma condição necessária ao crescimento. E, portanto, não se opôs a alterações fiscais (leia-se, descida de impostos) que sirvam o crescimento e não comprometam a consolidação.

Finalmente, Teresa Ter-Minassian, que esteve em Portugal no fim de Setembro, mostrou-se favorável – ao contrário da mensagem que a maioria da comunicação social fez passar – a alterações fiscais em que são reduzidas taxas de imposto (com prioridade para o IRC) mas é alargada a base tributária e são eliminados alguns benefícios fiscais.

Basicamente, o que Prescott, Almunia e Ter-Minassian defendem é a urgência do acompanhamento por parte de Portugal das tendências internacionais (e, sobretudo, europeias) em matéria de impostos. E que tal é possível sem comprometer a redução do défice público e a consolidação orçamental.

O problema é que, com o Governo Socialista à cabeça, tem-se tentado instalar na sociedade portuguesa a ideia de que proceder a alterações fiscais é irresponsável por causa do défice. E que baixar taxas de imposto é igual a perder receita fiscal. Mas não é, como Prescott bem referiu. E como Almunia e Ter-Minassian apontaram, é preciso actuar na área fiscal sem comprometer a consolidação orçamental… que deve ser realizada sobretudo do lado da despesa – e para a qual é determinante a vontade política (ou a falta dela…) de um Governo. Como Ter-Minassian disse, “a aceleração da reforma da Função Pública depende da vontade política” e “se o Governo quiser, as coisas podem ser apressadas”. Só que não tem querido, como prova o Orçamento do Estado para 2008, recentemente entregue, em que as metas definidas no famoso PRACE para a despesa continuam todas a derrapar. E isto é que me parece ser uma grande irresponsabilidade!

Tenho chamado a atenção, até de forma insistente, para o facto de, no estado em que Portugal se encontra, ser imperioso resolver simultaneamente dois problemas: (i) consolidar as contas públicas, o que deve ser feito essencialmente do lado da despesa pública, da reforma do Estado, com determinação, coragem e rigor; (ii) criar condições para aumentar a produtividade, promover o crescimento económico e fomentar o emprego. É que sem um dinamismo económico acrescido, que ajude a uma rápida convergência para o nível de vida médio europeu, nenhum outro problema da nossa economia será resolvido. Incluindo o orçamental.

Ora, para tanto, actuar na vertente fiscal é fundamental. Por dois motivos.

Desde logo, para a despesa pública: fixar metas ambiciosas do lado da receita criará a pressão necessária para que a despesa pública possa efectivamente ser reformada e reduzida. O que até agora ainda não aconteceu: os impostos aumentaram em 2002 e 2005 (neste ano, aliás, subiram todos os impostos existentes em Portugal!...), e como a máquina do Estado se apanhou com mais dinheiro, claro, logo arranjou forma de o gastar: o “monstro” garantiu a sua sobrevivência. Trata-se, assim, de uma receita falhada. Que deve, pois, ser substituída pela promoção de alterações fiscais devidamente calendarizadas e articuladas com uma actuação reformadora do lado da despesa pública, para não comprometer a consolidação orçamental. Será irresponsável agir assim?!… Não creio!…

Mas importa também perceber que, como as diferentes experiências europeias bem mostram, o instrumento dos impostos, não sendo o único, é fundamental para dinamizar a economia, atrair investimento e empresas, criar emprego e fazer subir o nível de vida da população. E, para além disto, há reformas fiscais que são neutras em termos de receita, mostrando que é compatível tornar um país mais competitivo e atractivo fiscalmente sem deteriorar as contas públicas.

Chegados a este ponto, a pergunta é: como proceder? Não é preciso inventar nada: só precisamos de adaptar à nossa realidade o que já foi feito noutros países. Que, essencialmente, passa por baixar as taxas dos principais impostos (IRC à cabeça, mas também o IRS e, em alguns casos, o IVA), o que deve ser complementado com uma ampla simplificação do sistema fiscal através da redução drástica, ou mesmo a eliminação, de benefícios, deduções e isenções; e, no caso específico do IRS, pela diminuição do número de escalões (como também aconselhou a Directora do FMI). E, claro, pela continuação do combate à fraude e evasão fiscais.

Baixar taxas de impostos é, por si só, dissuasor da fraude e evasão fiscal – e torna o país mais atractivo aos olhos dos investidores; simplificar significa caminhar no sentido da transparência (aproximar as taxas nominais das taxas efectivas) e tornar a vida mais fácil a quem combate a fraude e evasão, bem como a todos os que pagam os seus impostos. Tornar-se-ia, assim, o país mais competitivo e atractivo, privilegiar-se-ia o crescimento económico, alargar-se-ia a base tributária e os efeitos sobre a receita cobrada poderiam mesmo ser positivos. E seriam criadas condições para uma alteração na filosofia de redistribuição do rendimento, que deveria passar a ser feita muito mais sectorialmente do lado da despesa e da diferenciação quanto ao apoio/pagamento na prestação de serviços (como a saúde ou a educação, por exemplo) consoante o nível de rendimento do utente, do que ao nível fiscal – até porque, como prova o facto de Portugal ser, hoje, o país mais desigual da Europa a 27, o nosso sistema fiscal actual também é desadequado para promover uma mais justa repartição da riqueza.

É, pois, preciso alterar a mentalidade e o status quo instalado em Portugal quanto à actuação na área fiscal e que tanto convém a um Governo e a um Primeiro-Ministro que, é bem sabido, não consideram prioritário agir em matéria de impostos no sentido que há anos defendo e que acima referi.

Eu, por mim, não desistirei deste combate que considero estruturalmente fundamental para retirar a economia portuguesa do estado de letargia em que se encontra. Os resultados positivos obtidos pelos países que, em termos fiscais, avançaram na direcção aqui apontada falam por si… e, como diz o povo “não há pior cego do que aquele que não quer ver”!...

Ah, e já agora caro leitor: acha mesmo que um Prémio Nobel da Economia, um Comissário Europeu e uma Directora do FMI são todos irresponsáveis? Pelo amor de Deus!...

Nota: Este texto foi publicado no "Público" em Novembro 06, 2007

Cegos em duplicado!...

Numa economia de mercado, o mérito de um governo está na escolha e implantação de políticas públicas correctas. E o demérito, ou a culpa, na implantação de políticas públicas desadequadas. As primeiras favorecem o crescimento; as segundas ajudam à estagnação.
Segundo os dados da Comissão Europeia ultimamente divulgados para o ano corrente de 2007, o crescimento da economia portuguesa, 1,8%, vai ser o pior resultado dos Vinte e Sete países da EU. Em 2008, continuará a ser o pior, logo a seguir à Itália.
Esta é infelizmente a realidade, por muito que o Governo, todos os dias, e em cada dia, queira apresentar uma imagem risonha e luminosa de uma situação efectivamente bem negra.
Não podemos então deixar de concluir que a política económica tem sido desajustada. O Orçamento traduz, em parte, a política do governo. Ao aumentar, em termos reais, a despesa pública está a exigir um aumento real dos impostos, porque a capacidade de endividamento está esgotada e o défice é, felizmente, vigiado por Bruxelas.
Ao coarctar assim às empresas os meios financeiros para um investimento empresarial produtivo e ao retirar aos particulares aquela parcela financeira que lhes permitiria algum fôlego de consumo que compensasse as restrições de um alto grau de endividamento, o governo está a persistir numa política pública errada. Os resultados aí estão e não enganam ninguém.
O rei vai efectivamente nu.
Mesmo que os pensadores, os comentadores e os economistas mediáticos, mais mediáticos que economistas, a que se juntou agora o PSD, consonantemente persistam em admirar as vestimentas reais e em elogiar e aplaudir tão belos ornamentos, de facto o rei vai nu. O que não teria grande importância, não fossem as consequências dessa ilusão.
As políticas públicas, designadamente a orçamental, são de molde a restringir o investimento privado e, assim, a favorecer o desemprego e a falta de competitividade que traz mais desemprego. Mas todos aplaudem. São cegos em duplicado: porque não querem ver e, não vendo, querem aparentar enorme visão!...

domingo, 11 de novembro de 2007

A Jihad fiscal


Confesso que não sou apreciador do estilo de Paulo Portas que quase sempre procura impulsionar a mensagem à custa do sound byte. Ainda que entusiasme os nossos habituais comentadores que gostam sobretudo do espectáculo mesmo que convenientemente o neguem (numa atitude, de resto, de auto-defesa, uma vez que é o espectáculo na política que justifica a sua existência), há muito que sustento que quem tem algo de substantivo a transmitir não necessita de sugerir aos jornalistas as parangonas. O inverso é igualmente verdade.
Devo porém dizer que a imagem utilizada por Paulo Portas de que o Estado empreende contra os contribuintes uma verdadeira jihad fiscal é denotativa e retrata bem a actual situação de progressiva desprotecção dos cidadãos face às pulsões agressivas do fisco.
Em Portugal passa-se de oito para oitenta com uma velocidade meteórica. Falta de senso nalguns casos. Noutros – como parece ser, na actualidade, o caso do fisco – passou-se do mais completo laxismo e ineficácia para uma situação em que se revela como em nenhum outro sector, o músculo tendencialmente autoritário do Governo que o main stream e a "escola maoista" de direito fiscal legitimam, fazendo com que o decisor político e o funcionário executor se sintam confortáveis quando ignoram elementares direitos dos cidadãos.
Sob o título ‘5 casos de abuso fiscal’ o Caderno de Economia do último Expresso, traça o quadro do deficit de garantias dos contribuintes perante o fisco. Àqueles 5 casos poderia acrescentar mais 50, assim o permitissem as regras pelas quais se pauta o exercício da minha profissão. Mesmo sem outros exemplos, começam finalmente a transparecer os atropelos dos actos fiscais à lei, mas também as violações da Constituição pela lei fiscal. Algumas gritantes.
Impressivo, porque corresponde à mais dura das realidade, é o registo que no trabalho do semanário se faz da resposta dos serviços fiscais quando confrontados com a ilegalidade de uma liquidação: ´A gente liquida e os contribuintes se quiserem vão para tribunal’. Isto significa muito simplesmente: nas tintas para os direitos dos contribuintes; queremos, custe o que custar, é o imposto aqui, nos cofres do Estado, porque o recurso à justiça fiscal não tem efeito suspensivo e a lentidão favorece quem esbulha. Tanto mais que o monstro não se saceia de leis e de direitos, mas de dinheiro, de muito dinheiro.
A expressão usada por Paulo Portas sublinha, todavia, uma outra verdade. A verdade da completa inoperância do Parlamento na imposição de limites a esta voracidade, pela via da definição dos direitos e garantias dos contribuintes face a novos métodos (muitas vezes de uma inaudita agressividade) da Administração Fiscal. Inoperância não só traduzida na cega obediência da maioria. Traduzida sobretudo na incapacidade das oposições apresentarem propostas que condicionem a impunidade do Governo quando continua a gastar à custa do que o Estado cobra independentemente de como cobra e a quem cobra.

Perante esta manifesta deserção do Parlamento será legítimo esperar que a cidadania empreenda uma intifada?

Por mim, pode ser já em 2009.

Por aqui vamos preparando o arsenal da palavra...

Arroz, pombos e sida...

"Give us this day...our daily bread"
(Kris Litman
)

O arroz constitui a base alimentar de uma percentagem muito elevadíssima de seres humanos.
O seu papel é tão relevante que uma das tradições mais antigas, lançamento de arroz nos casamentos, com origem no Oriente, simbolizando fertilidade, saúde, riqueza e felicidade, ainda continua nos nossos dias. Mas provavelmente tem os seus dias contados. Há pouco tempo o município de Veneza aventou a hipótese de proibir lançar arroz no decurso das cerimónias. Os pombos multiplicam-se a um ritmo impressionante sujando e deteriorando os monumentos. A sua esperteza é tal que assim que vêem aglomerações junto das igrejas já “sabem” que vão ter uma lauta refeição aguardando com muita paciência pelo aparecimento dos noivos!
Os responsáveis da autarquia já adicionaram substâncias com efeitos anticoncepcionais mas sem grande impacto no controlo da população que continua a crescer a bom ritmo. Fiquei, igualmente, surpreendido com os cálculos dos custos efectuados pelas autoridades para remover os detritos das estátuas e áreas públicas, dez mil euros por pombo!
Se Veneza pretende proibir o lançamento de arroz nas cerimónias o município de Cadiz acabou de o fazer no passado mês de Julho. A coima para quem não obedeça é de 300 euros sendo os argumentos subjacentes à proibição os mesmos de Veneza acrescido das quedas motivadas pelo piso “arrozado”.
Num mundo em que a fome é uma realidade muito dolorosa e em constante crescimento é de lamentar o mau uso que se faz com este cereal. Poderão dizer que são apenas algumas centenas de gramas e por isso irrelevante. Talvez seja na nossa perspectiva ocidental, mas a leitura de um artigo sobre a fome a pobreza e a sida associada à imagem de uma fotografia obrigou-me a reflectir um pouco mais sobre o assunto.
Na África o problema da fome, pobreza e a falta de saúde é um drama.
O artigo em questão demonstra a existência de uma associação entre insuficiência alimentar e comportamento sexual de risco nas mulheres do Botswana e da Suazilândia, países em que um em cada três cidadãos está contaminado. As razões não são difíceis de compreender. A luta contra a sida passa pelo arroz contido naquelas mãos, a quantidade média ingerida por uma pessoa que viva nas zonas de fome...
Se de facto o arroz for símbolo da fertilidade, da riqueza e da saúde então “lancem-no” nos locais apropriados, não, forçosamente, sob a forma directa, mas, sobretudo, através do combate à pobreza permitindo a auto-suficiência alimentar.
Melhor sorte têm os pombos!

Ler e tresler


A leitura é a capacidade de decifração. Foi mais ou menos assim que ouvi há uns dias alguém explicar que o grau de literacia não se afere pelo número de livros que se lêem mas pelo género de livros que se lêem. Isto parece bastante óbvio, verdade se diga, por isso o que se pergunta a alguém que queremos conhecer melhor não é –“Quantos livros lê por mês?” mas sim “-Que livros é que leu e gostou mais?” e, com um pouco de sorte, as pessoas identificam afinidades e podem até trocar uns dedos de conversa sobre as respectivas interpretações que fizeram das obras que leram em comum. Este é, a meu ver, um dos grandes prazeres da leitura.
Quero com isto dizer que, quando se escreve, se procura captar a atenção de um determinado tipo de leitores, sendo certo que, se não for o simples relato de um facto, mas uma reflexão, o escrito vai certamente suscitar outros pensamentos, levar a outros caminhos que podem não ser os que estavam na mente de quem os escreveu. Quanto mais elaborado for e mais literato o leitor, maior será a amplitude que pode alcançar. Ora, as diferente leituras, erradas ou certeiras, são certamente do leitor, e não de quem as escreveu.
Uma vez perguntaram a António Lobo Antunes qualquer coisa sobre as “mensagens” dos seus livros, se ele queira dizer isto ou aquilo, e ele respondeu que nada o surpreendia tanto como a quantidade de interpretações que faziam dos seus romances, dos sentidos profundos e subtilezas que lhes encontravam, quando ele o que fazia era escrever histórias e contar as coisas à sua maneira.
Mas uma coisa é interpretar, tentando tirar do que se lê o seu sentido útil, outra é misturar alhos com bugalhos, distorcer o que se lê para provar o que se quer afirmar, atribuindo a quem escreveu uma coisa bem diferente do que foi escrito.
Este tipo de “literacia” é infelizmente bem comum e encontra-se muitas vezes convertido em notícias de jornal que atribuem a outros não o que foi dito, mas o que foi lido. Sendo intencional, é pura má fé. Não sendo, é falta de leitura, da tal que aumenta o grau de literacia.

sábado, 10 de novembro de 2007

Apresentação do livro 4R no Porto


No dia 19 de Novembro, pelas 19 horas e 30 minutos, na FNAC do Norte Shopping!...
Porque não se dirige apenas aos portuenses de Boavista, o Convite pode e deve ser ampliado!...

Não arredam pé!...

Arménio Santos, há 20 anos líder dos Trabalhadores Social Democratas, recandidatou-se novamente ao cargo máximo de Secretário-Geral. Será reeleito, amanhã, no Congresso dos TSD.
O Doutor Carvalho da Silva é o eterno Secretário-Geral da Intersindical.
O Eng. João Proença é, de há tempos imemoriais, o Secretário-Geral da UGT.
Podia estender a lista aos Sindicatos da Função Pública, por exemplo.
Também nos órgãos sindicais não há renovação nem ar fresco. As figuras são sempre as mesmas, a linguagem é sempre igual, a mensagem ultrapassada, a liderança já só congrega os fieis de sempre.
Todos se agarram, como lapas, à "defesa" dos trabalhadores. Mas cada vez há menos trabalhadores sindicalizados, o que indicia que não querem ser defendidos por tais líderes.
Não há renovação nos políticos, não há renovação nos autarcas, não há renovação nos sindicatos, não há renovação das lideranças. A cultura instalada é velha, não arreda pé e impede qualquer movimento modernizador.
Por isso, estamos como estamos!...

Pessoas idosas: podemos fazer melhor!

A comunicação social deu quinta-feira grande cobertura ao caso do encerramento de um lar de idosos em Valongo. Os media preocupados em vender a notícia, em mediatizar um caso de polícia e à procura de mais um “crime”, concentrou o essencial da sua reportagem à porta do Tribunal de Valongo onde deu entrada a proprietária daquele estabelecimento para ser presente a um juiz, que, depois de largas horas de interrogatório noite dentro, acabaria por a deixar sair em liberdade, fixando-lhe o pagamento de uma caução de 5.000 € e decretando a suspensão da actividade de exploração do lar. Tudo acompanhado pelas televisões em directo!
Muito mais importante que um directo no Tribunal, teria sido aproveitar o facto para informar a opinião pública sobre o que se passa por esse País fora com os lares e outro tipo de estabelecimentos que acolhem pessoas idosas e sobre como é que o Estado regula e fiscaliza a sua actividade, sobre como previne e actua em relação a estabelecimentos ilegais e quais as políticas que prossegue para assegurar com efectividade a segurança e a qualidade de vida das pessoas que aí encontram uma morada para os seus últimos anos de vida. Mas não! Para quê?
Muito mais importante que transmitir em directo a leitura por um auxiliar do Tribunal das medidas de coação impostas à proprietária, teria sido saber da vida das pessoas idosas alegadamente mal tratadas naquele estabelecimento. Mas não! Para quê?
A história infeliz das pessoas idosas deste lar de Valongo, e de milhares de muitas outras – anónimas, esquecidas, indefesas, silenciosas, vítimas de violência física e psicológica – deveria justificar algum “dispêndio” de tempo a pensarmos sobre os erros cruéis que a sociedade de hoje comete ao esquecer-se que as pessoas idosas são seres humanos e não fardos. São pessoas que no final das suas vidas mereciam ser acolhidas e incluídas na sociedade preferencialmente através de soluções de proximidade familiar e cultural, respeitando o seu passado e valorizando a dimensão afectuosa.
Deveríamos promover soluções que privilegiassem o apoio familiar, designadamente o apoio domiciliário. Sucessivos governos, e este governo não escapa, fizeram apostas fortes em investimento em lares residenciais para pessoas idosas, fomentando a sua vida longe das suas famílias.
A par desta política de “quantidade”, a qualidade, como vem sendo habitual em muitos domínios das nossas políticas públicas, foi deixada para segundo plano, criando campo para abusos e aproveitamentos indevidos dos dinheiros do Estado e da condição de vulnerabilidade das pessoas idosas.
A qualidade da prestação de serviços sociais, que o Estado deve promover, regular e fiscalizar, é um factor fundamental para a concretização da equidade e da justiça social. Compete ao Estado assegurar que as pessoas que apresentam fragilidades sociais e económicas, e portanto diminuídas na sua capacidade para se imporem e defenderem, têm acesso a serviços capazes de satisfazer com elevada protecção e bem estar as suas necessidades e carências e que os dinheiros públicos são correctamente utilizados.
O que não é admissível é que o Estado continue a financiar as instituições de solidariedade social através de um subsídio per capita igual para todas, não descriminando positivamente as instituições que prestam serviços de maior qualidade. Incentivar a qualidade é uma parte do caminho para assegurar que as pessoas idosas acolhidas em instituições têm uma vida digna. É um aspecto que embora tenha uma dimensão material, não deixa de contribuir positivamente para não agravar as carências afectivas que normalmente andam associadas à vida nos lares, a que acrescem os problemas próprios do envelhecimento.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A promessa falhada do crescimento de 3% em 2009

Foram hoje conhecidas as projecções económicas de Outono das Comissão Europeia (CE), que apresentam as primeiras previsões para 2009.

No que a Portugal diz respeito, para além das dúvidas de Bruxelas quanto ao défice público de 2008 e 2009 (projectados em valor superior ao que o Governo prevê), da manutenção da taxa de desemprego em redor de 8% neste horizonte temporal (também um número superior às projecções do Executivo), e do défice externo continuar em redor de 9% do PIB, o maior destaque vai, em minha opinião, para o crescimento projectado para o PIB em 2009: 2.1%, depois de 2% em 2008 (também abaixo dos 2% previstos pelo Governo). Confirma-se, assim, que, pelo menos até final da presente legislatura, o nosso país continuará a divergir da média europeia (UE-27: 2.4% de crescimento quer em 2008, quer em 2009), isto é, continuaremos a ficar mais longe da Europa e a empobrecer face aos nossos parceiros. O que, infelizmente para todos, creio que poderá continuar bem para além de 2009…

Mas para mim o mais importante é que estamos perante o primeiro cenário que deita por terra qualquer possibilidade, por mais ínfima que ela pudesse ser, de Portugal crescer 3% em 2009 – como José Sócrates, na campanha para as eleições legislativas de 2005, tinha prometido.

Já nessa altura era possível prever que essa promessa não iria ser cumprida, dadas as debilidades estruturais que a nossa economia atravessava – e ainda atravessa. E isto por mais que o Governo estivesse a governar bem, porque quaisquer reformas que sejam realizadas levam tempo até produzirem efeitos. Ora, não estando o Executivo Socialista a governar bem em diversas áreas – pelo menos em minha opinião – claro que atingir esse objectivo ficava ainda mais difícil… como, repito, infelizmente, tenho a firme convicção que sucederá em 2009.

Espero também que, tratando-se uma vez mais de uma promessa eleitoral que não será cumprida (e prometer um determinado nível de crescimento é um perfeito absurdo, porque, como facilmente se percebe, o crescimento económico não se pode decretar…), este caso sirva novamente como exemplo da postura que os responsáveis políticos não devem ter na proximidade de actos eleitorais. Prometer algo que depois não se pode cumprir é, em termos de credibilidade, o pior que pode haver. E é dos factores que mais contribui para cavar um fosso ainda maior (ao já existente) entre a população e a classe política.

Infelizmente, trata-se de algo que, como se sabe, não serve apenas para o Partido Socialista…

Vagueando II


Não falando em razões de trabalho, muitas das minhas viagens são decididas em função dos livros que li e que me deixaram a curiosidade e a vontade de conhecer os sítios e o meio envolvente onde os “dramas” se passavam, em Portugal ou no estrangeiro.
Uma das minhas primeiras viagens, obtida independência económica, foi a ida a Marselha, atraído simplesmente pelo desenho de conhecer a cidade onde se iniciou a acção do fabuloso romance Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, que li na minha juventude, e o Castelo de IF, de cujas muralhas, que serviam de prisão, Edmundo Dantès, mais tarde Monte Cristo, se substituiu na mortalha ao sábio Abade Faria, para ser lançado ao mar e assim escapar aos largos anos de uma condenação injusta.
Por esse tempo, lia grandes romances, portugueses e estrangeiros. Um dos que li, um livro grossíssimo de umas largas centenas de folhas, e de que não recordo o autor (não, não era a obra de Shaskspeare), versava a história romanceada de Romeu e Julieta, em que se descrevia todo o bulício e ambiente de Verona do século XVI, as lutas das famílias poderosas, o trabalho sacrificado do povo, os amores correspondidos e traídos, a lealdade dos criados, as traições dos iguais. Apesar de já ter andado perto, foi agora a primeira vez que estive em Verona. Estava lá intacta, a Verona que vi descrita no livro: a rua principal, a praça da erva, a praça dos senhores, os palácios, as igrejas, a arena, a ponte scaligero, o castelo velho, a casa dos Capuletos e a varanda da qual a Julieta correspondia aos amores de Romeu, até o local onde Julieta, dada como morta, depois de uma bebida que lhe suspendia as funções vitais por uma horas, para fugir à família, foi “sepultada”, e de onde foi libertada “in extremis” pelo amado Romeu, após peripécias de enorme suspense que retardavam a sua chegada e quase implicaram a morte certa de Julieta. Aqui, o romance desviava-se da peça, pois nem Romeu bebeu o veneno, nem Julieta sacou da adaga e se suicidou, pois até viveram juntos e muito felizes.
Verona encantou-me, pelo ambiente, pela preservação da cidade, pelos monumentos, pelo movimento e cor. E fez-me recuar muitos e muitos anos, o que é sempre bom e saudável.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Descida dos impostos: hostes já se agitam para 2009...

Segundo ontem se apurou, a posição oficial do Governo quanto à baixa de impostos, será balizada pelos seguintes princípios:
- Nunca antes de 2010, quando o défice público se mostrar suficientemente baixo;
- Mas não abdicando de o fazer em 2009.
Trata-se de uma posição relativamente à qual, concordando-se ou discordando-se, cumpre reconhecer que se apresenta com clareza meridiana, não suscitando a menor dúvida de interpretação.
Esta claríssima posição foi expressa em duas declarações do Ministro das Finanças, proferidas nos últimos dois dias, com escassas horas de intervalo.
Avanço desde já que tenho o actual Ministro das Finanças na conta de uma pessoa responsável, embora discorde de algumas das suas opções de política.
O Ministro começou por proferir uma declaração em que afirmava o primeiro dos princípios acima enunciados – descida de impostos nunca antes de 2010- em linha com uma posição que é pelo menos coerente.
É claro que esta posição não deve ter caído bem na Central do Marketing Político (CMP) que trabalha já, com notável afã, na montagem dos melhores cenários para 2009.
Compreende-se que, após muito provável chamada de atenção da CMP, o Ministro tenha vindo corrigir o tiro, dando o dito por não dito e criando esta fórmula de quadratura do círculo.
Tenho por quase certo, após este episódio, que vamos ter mesmo descida de alguns impostos – avanço como mais prováveis o IVA e o IRS – em 2009.
É claro que essa descida de impostos será saudada por laboriosos media como o resultado da excelente consolidação orçamental (por muito precária que esta se mostre).
E será oficialmente justificada como a natural sequência do trabalho de saneamento das finanças públicas encetado em 2005 e em nome do interesse da economia nacional.
Uns e outros contradizendo posições anteriormente assumidas na matéria, mas sem qualquer problema que a memória dos povos é curta como se sabe.
O maior embaraço estará nas vestais do regime que, em cega obediência ao politicamente correcto, vêm advogando com tanta energia a insanidade que representaria uma descida de impostos - e que, sejamos objectivos, daqui por um ano muito dificilmente terão motivos suficientes para abandonar essa posição.
É capaz de ser interessante assistir a formidáveis acrobacias de algumas vestais menos pudicas, descobrindo obra de consolidação suficiente nas entranhas mais profundas das contas públicas e aplaudindo a descida dos impostos…
Outras, mais pudicas, mesmo assim resignar-se-ão, dizendo que esperam para ver…
E que fará também o PSD agora convertido, nesta matéria, ao politicamente correcto?
Vai dizer que não à baixa de impostos? Cair-lhe-á então toda a gente em cima, parece que ainda não perceberam…

Promete muito este espectáculo…Espero comentar da bancada, pode vir a ser mesmo empolgante.

Em época de mais um orçamento...

A riqueza e a pobreza das nações
... de estado, decidi reler este livro.
Recomendo-o vivamente.
Normalmente as segundas leituras, são mais interessantes.
Neste caso, o exercício reavivou-me a memória para uma passagem que tenho que reproduzir:
"Vivemos num mundo de desigualdade e diversidade. Mundo esse que está dividido, grosso modo, em três espécies de nações: aquelas em que as pessoas gastam rios de dinheiro para não aumentar de peso, aquelas em que as pessoas comem para viver e aquelas cuja população não sabe de onde virá a próxima refeição."
Em Portugal, é cada vez mais frequente encontrarmos as duas últimas realidades.

O tempo não perdoa...

“O tempo é a substância de que sou feito”
(Jorge Luís Borges)


A análise de diversos estudos apontam para a existência de interessantes associações entre certos comportamentos e exposição a diferentes factores com muitas doenças. Consumo excessivo de sal e hipertensão, obesidade e diabetes, tabaco e cancro do pulmão, hipercolesterolemia e enfarte do miocárdio, poluentes atmosféricos e doenças pulmonares, radiações e malformações são alguns de inúmeros exemplos que poderíamos descrever e que reforçam este conceito. Deste modo estamos mais aptos a tomar adequadas medidas de prevenção. Só que prevenção não significa, forçosamente, “evitar” o aparecimento da doença mas sim “adiá-la” para mais tarde.
As formas como são transmitidas certas mensagens e notícias dão a impressão de que é possível evitar as doenças, o que não é totalmente verdade. No entanto, são suficientes para modificar o modo de pensar de muitas pessoas ao ponto de ficarem admiradas quando acabam por adoecer. Cumpriam com todas as regras e recomendações, e mesmo assim...
Em toda esta problemática há um ponto que importa focar, o envelhecimento. Consideramos como “normal” viver a maior parte da nossa existência num estado de excepção do qual se destaca a velhice. É bom viver muitos anos, sobretudo com o mínimo de capacidades, mas o risco de adoecer e de morrer aumenta exponencialmente com a idade. Os diversos factores que, diariamente, são enunciados como responsáveis por muitas doenças devem ser analisados em função do tempo.
A este propósito convém informar que quando comemoramos o nosso aniversário não fazemos mais um ano, mas sim “um ano e mais qualquer coisita”, “qualquer coisita” que vai aumentando de ano para ano! O tempo biológico acelera enquanto o cronológico se mantém constante. Este fenómeno foi quantificado no século XIX por Benjamin Gompertz, matemático judeu, que criou uma interessante equação segundo a qual seria possível calcular o risco de morte com a idade. Como estava ligado a seguradoras viu aqui uma forma interessante de calcular os prémios de seguro em função da idade. Mas o que é curioso é o facto de que através desta lei, Lei de Gompertz, que se aplica às outras espécies, ser possível calcular o tempo de duplicação da taxa de mortalidade que é cerca de uma semana nas moscas, três meses nos ratinho e de oito anos nos seres humanos. Deste modo, partindo da “idade em que não se morre”, que na nossa espécie oscila ao redor dos 10/11 anos, é fácil de calcular que a taxa de mortalidade é duas vezes superior aos 18 anos, quatro vezes aos 26 anos, oito vezes aos 34 anos, dezasseis vezes aos 42 anos, trinta e duas vezes aos 50 anos, sessenta e quatro vezes aos 58 anos e o melhor é ficar por aqui para não assustar mais!
Por cada dia que passa envelhecemos mais rapidamente do que no anterior, numa aceleração preocupante que, curiosamente, parece diminuir em idades muito avançadas, não se sabendo se é por falta de combustível ou por esquecimento de São Pedro!
Este fenómeno biológico é curioso e tem como correspondente a percepção da passagem do tempo. Em criança e na adolescência o tempo demora a passar, depois começamos a ter a percepção de que acelera, mas a partir de certa altura nem damos pela sua passagem.
A prevenção das doenças tem como objectivo “empurrá-las” para mais tarde, de preferência para o “fim” da vida, porque apesar de conhecermos muito sobre os principais factores de risco, há um, o mais importante de todos, que não perdoa: o tempo.

Vagueando


Vagueei mais uma vez pela Itália. As cidades italianas são um verdadeiro espectáculo das artes.
A Cartuxa (Certosa) de Pavia é um monumento impressionante de arquitectura gótica e renascentista (levou 200 anos a construir), a que as estátuas, os retábulos, os altares, os frescos, a ornamentação em pedra dura, toda a decoração, do chão ao tecto, trazem a harmonia que faz um conjunto de rara beleza.
Numa das alas laterais, e bem lançada, a fachada que abriga as instalações da exploração agrícola que servia de base à sobrevivência do convento. Na outra, a fachada que abriga o enorme claustro, rodeado pelas celas, verdadeiros apartamentos, cada um com a sua chaminé ricamente trabalhada, em que os monges fazem solitariamente a sua vida. Aí se encontra também a loja do mosteiro, em que é possível encontrar uma série inesgotável de produtos naturais, fabricados pelos monges, para todas as doenças possíveis, bem como outros para as provocarem, como licores diversos e chocolates. Produção integrada, pois, e toda com o devido rótulo de Cartuxa de Pavia.
Perguntei se os chocolates, também devidamente rotulados, eram mesmo feitos no local. Um dos irmãos, e eram 3 ou 4 na loja, respondeu-me que não, que eram feitos pelos “fratelli di Roma”, uma cartuxa porventura menos conhecida. Pelo que concluí que, não só as técnicas de marketing, como a deslocalização da produção, também já chegaram aos Conventos da Cartuxa.
Também perguntei quantos monges viviam na Cartuxa. Doze, e somos suficientes!...foi a resposta, creio que bem humorada, de um “irmão” falador e bem disposto.
E eu pensei como é que é possível andar bem disposto com o programa diário a que os monges se obrigam, só explicável por uma natureza humana tão una na sua essência, como diversa nos seus predicados. Um horário impressionante, como a seguir se pode ver.
18h 45m-recitação de oração e recolher
22h 45m-1ª alvorada, recitação do Ofício de Nossa Senhora e oração na cela
23h30m- meditação na igreja e cantar do Ofício
01h 30m- retorno à cela, oração individual e deitar
05h 45m- 2ª alvorada, recitação na igreja do Ofício e leitura na cela
07h 00m- missa e canto conventual na igreja, seguido de oração na cela, de leituras espirituais e de estudo das ciências sagradas.
10h 30m- oração, almoço e trabalhos manuais
13h 30m- oração e trabalho manual
16h 00m- jantar, que consiste geralmente de pão e vinho diluído. Oração
17h 00m- oração na igreja, recolher à cela e oração individual
18h 45m-recitação de oração e recolher
Querem experimentar? Há muita vaga!...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Medicina Preditiva

Comprei o livro de Jaques Ruffié, Naissance de la médecine prédictive, no Luxemburgo, em 1993, onde, durante alguns anos, fui regularmente. Aproveitava sempre o final da tarde para frequentar boas livrarias adquirindo obras de ensaístas franceses.
O assunto abordado por Ruffié despertou-me particular atenção pelas implicações em termos de medicina preventiva resultante do potencial emergente de uma futura descodificação do genoma humano que, entretanto, já é uma realidade. O ensaísta focava a importância em conhecer eventuais riscos de contrair certas doenças motivadas, desencadeadas ou favorecidas por determinado perfil genético. Ao conhecer as “tendências” o portador poderia optar por estilos de vida que contrariassem o “fatalismo” dos genes ou então submeter-se-ia a medidas de rastreio precoce e frequentes de forma a evitar situações mais graves. Além do impacto em termos de saúde pública as vantagens económicas desta abordagem seriam muito grandes para a sociedade. Mas como não bela sem senão, Ruffié não deixou de focar o mau uso que se podia fazer na área laboral, nas seguradoras, além da angústia por sabermos ser portadores de algo que nos limitaria ou nos eliminaria precocemente no futuro.
Hoje já é possível saber qual o risco de podermos vir a sofrer algumas doenças. É simples, embora um pouco dispendioso. Os testes disponíveis focam as doenças cardiovasculares, cancro da mama e do ovário, cancro da próstata, tomboses, hipertensão, problemas metabólicos e obesidade, reacção a certos medicamentos, homocisteinemia, problemas hormonais e doença de Alzheimer.
Os benefícios decorrentes deste conhecimento parecem ser uma realidade para muitos. No entanto, a opção conhecer o risco de doença de Alzheimer é meramente opcional. São muito poucos os que querem conhecer se correm ou não o risco de contrair tão grave doença. Afinal quem quer conhecer o pior?
É muito provável que nas próximas gerações a implementação de testes deste tipo se vulgarize e seja acompanhada de modificações inimagináveis a todos os níveis. Muitas serão perigosas, sem qualquer espécie de dúvida.
Quando abordo este tema costumo dizer que recuso saber o que me “espera”. Medo? Claro! Viver numa angústia permanente e ser “obrigado” a “condicionamentos” forçados não joga bem com a minha maneira de ser.
Tudo bem! Agora imaginem receber um telefonema de uma prima direita dizendo que sofre de duas doenças genéticas, e que os filhos são portadores de um gene mutado. Teve de comunicar aos familiares a existência destes problemas. Fiquei de boca aberta. Só me faltava esta. Fui inteirar-me do assunto. Depois de ter feito a sua exposição, concluí que uma das doenças é de origem italiana e por esse motivo deveria estar excluído. Quanto à outra, de origem céltica ou nórdica, expliquei-lhe que uma pessoa em dez tem essa mutação e uma em 220 sofre da doença. Na prática o tratamento adequado irá permitir-lhe ter uma vida normal e uma esperança de vida idêntica aos demais. Advertiu-me muito carinhosamente que deveria fazer os testes assim como os meus filhos. Agradeci-lhe, naturalmente. Até posso ter, também, uma mutação de um dos dois genes. Dos dois é pouco provável, porque senão já deveria ter manifestações da doença. Mas c´os diabos, eu já tinha dito que não queria saber nada sobre o meu genoma e vem logo uma familiar a dizer que estou sob suspeita...

A boa saúde do “monstro”

É nas despesas públicas correntes primárias (que excluem os juros da dívida pública) que reside o famoso “monstro”, isto é, as despesas de funcionamento do aparelho do Estado. Ora, sabendo-se que uma consolidação orçamental saudável e duradoura só pode ser conseguida do lado da despesa pública, o que se passou com o valor da despesa corrente primária prevista para 2008 entre o Relatório de Orientação da Política Orçamental (ROPO), de Abril deste ano, e o Orçamento do Estado para 2008 (OE’2008), apresentado em Outubro último, é elucidativo quanto ao falhanço da (pretensa) consolidação orçamental que o Governo Socialista tem vindo a realizar. Vejamos:

- No ROPO, em Abril deste ano, o Governo projectava que a despesa pública corrente primária deveria ascender, em 2008, a 37.9% do PIB;

- Contudo, no OE’2008, essa mesma despesa pública corrente primária deverá, em 2008, situar-se em… 38.8% do PIB.

A diferença, de 0.9 pontos percentuais do PIB, é superior a EUR 1500 milhões… que agora são previstos, a mais, na despesa corrente primária no próximo ano.

O “monstro” está, pois, de boa saúde – e a velha cartilha socialista de gastar mais, sempre mais, está viva e bem viva, para mal dos nossos pecados… porque, assim, é evidente que esta história de sucesso de redução do défice que o Governo quer à força fazer passar, assenta muito mais na cobrança de receita (que se tem situado sempre acima do previsto) e no esforço que tem sido pedido aos contribuintes. E, como tal, tem tudo para acabar mal…

Uma grande tragédia humana!...


Faz hoje 90 anos (pelo calendário ortodoxo, 24 de Outubro), que Lenine e o Partido Bolchevique tomaram o poder na Rússia, e deram início a uma das mais ferozes e sanguinárias ditaduras da história, a ditadura comunista da União Soviética.
Milhões de cidadãos foram assassinados pelo rolo compressor do regime; os trabalhos forçados e a tortura campeavam nos campos de concentração e nas prisões; a denúncia instituía o terror.
Muitos dizem agora, em auto justificação, que o ideário comunista estava certo e continua actual; a culpa foi dos homens, os seus antigos heróis, que o interpretaram e executaram mal. As ideias eram boas, os líderes é que foram maus.
Mas não; o mal está logo na própria ideia comunista, aparentemente atractiva, mas profundamente anti-natural e violentadora da personalidade e das consciências. Por isso, só com extrema violência física e psíquica era, como foi, possível concretizar tal ideário. Na Rússia, na China, em Cuba, na Coreia, onde quer que se queira.
O seu destino era desfazer-se, como felizmente aconteceu.
Mas a data em que tudo começou não pode ser esquecida. Como memória de uma das maiores tragédias humanas.

Feira de velharias...

Um debate parlamentar sobre o orçamento de estado foi mimetizado por uma palavra: passado.
O PS falou do passado.
O PSD ficou preso ao passado.
O resto da oposição falou da discussão a que assistiu... sobre o passado.
Das outras questões relevantes que mexem com a nossa vida, pouco ouvimos, por causa da importância dada à discussão... sobre o passado.
Há uma lição que o PSD tem a obrigação de tirar do que se passou neste debate no Parlamento: não se pode querer lançar um "novo ciclo", fazendo reaparecer um velho figurante.
Pedro Santana Lopes, para o bem e para o mal, é a pessoa errada, no momento errado e no sítio errado, para ajudar Luis Filipe Menezes e o PSD.
A sua presença é suficiente para que a discussão descambe para futilidades e inutilidades e que a mensagem do PSD se fique por umas justificações sobre o passado.
Será que conseguem tirar consequências desta lição?

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Uma questão de qualidade!...

Regressado de sete dias no estrangeiro, ouvi os ecos do debate do Orçamento. Parece que Sócrates passou mais de metade dos seus trinta minutos a falar dos orçamentos anteriores. E ouvi que Santana gastou os cinco que tinha para do passado também falar, ao ponto de ficar sem tempo para completar as suas três perguntas sobre o futuro.
Agora, à noite, ouvi-o dizer que este primeiro debate era para o Primeiro-Ministro ganhar, já que tinha apenas cinco munições ao dispor, contra as trinta do Primeiro-Ministro.
Pois é!... Em vez de se falar do futuro, continuou-se a falar do passado; e em vez de se apresentarem propostas que interessem aos portugueses, apresentam-se queixas por falta de munições. Tudo se resumiu, então, a uma questão de quantidade.
Mas que falta faz a qualidade!...

Da temerária profecia de Ricardo Reis...à realidade

Em 29 de Agosto último, referi aqui declarações de Ricardo Reis, (muito) jovem Professor da Universidade de Princeton, em entrevista ao D. Económico, na qual o jovem Professor arriscava uma surpreendente profecia: dentro de um mês não se falará mais da crise dos mercados financeiros.
Acrescentava o Professor R. Reis que a crise de que então se falava diariamente era apenas monetária, não verdadeiramente financeira, pelo que seria de muito curta duração e os seus efeitos rapidamente se desvaneceriam.
É claro que para os laboriosos “media”, preocupados como estavam em encontrar suporte para a tese oficial de que a economia portuguesa em nada seria afectada pela turbulência dos mercados, a profecia do jovem Professor caía como “sopa no mel”.
O entusiasmo com a profecia foi ao ponto de Ricardo Reis ter sido logo apelidado de “nova estrela da economia nacional” entre outros epítetos.
No post então editado “Crise financeira: Ricardo Reis versus mercados”, mostrei surpresa por tão ousada profecia mas, como é evidente, não quis deixar de conceder ao Professor Reis o benefício da dúvida, esperando, com então referi, que a sua profecia se cumprisse.
Passaram os 30 dias da arriscada profecia, já lá vão mais 40 dias e a crise não só não passou como se mostra actualmente bem mais grave do que então se suspeitava.
Nos últimos dias assistimos a uma quase hecatombe nos resultados dos maiores bancos americanos, com destaque para a gigante Merrill Lynch, que de um golpe apenas foi obrigada a reconhecer perdas de USD 8 mil milhões decorrentes da desvalorização de activos hipotecários e seus derivados.
Outro gigante, o Citigroup sofreu também perdas elevadíssimas.
Em ambos os casos a situação foi considerada de tal modo grave que os seus Presidentes executivos foram forçados a resignar – no caso da Merrill Lynch com uma modesta (para os padrões portugueses, claro) indemnização de USD 160 milhões...
O pânico instalou-se nos mercados e a cotação das acções dos bancos, tanto nos USA como na Europa tem sofrido pesadas perdas.
Assiste-se a uma novo episódio de aversão ao risco, caracterizado pelo downgrading de extensas áreas de risco financeiro até agora tidas por muito seguras – por exemplo as obrigações municipais e estaduais nos USA.
Podemos assim concluir que a crise, além de monetária como referia Ricardo Reis, é também financeira e bastante profunda.
Resta saber quais serão as suas implicações no comportamento das economias dos países mais afectados por esta nova fase de aversão ao risco.
Quererão os laboriosos "media" habilitar-nos com nova profecia para nos tranquilizar?

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

6 de Novembro: NÃO à utilização do ambiente como arma de guerra


Na Sessão Plenária de há precisamente 6 anos a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma Resolução (56/4) dedicando o dia 6 de Novembro de cada ano à prevenção dos efeitos dos conflitos no ambiente e à condenação da utilização do ambiente como arma.

Apesar dos temas ambientais estarem na ordem do dia, é ainda pouco desperta a consciência global sobre os efeitos devastadores das guerras no meio ambiente.

Por regra, os custos dos conflitos contabilizam-se nas perdas directas de vidas humanas, de entre militares envolvidos e civis sacrificados. Não se contam os efeitos que perduram pela utilização do ambiente como arma. E no entanto esses efeitos revelam-se bem mais mortíferos do que os métodos convencionais.

O caso mais conhecido e sempre recordado é o das bombas atómicas largadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Para além das centenas de milhar de vidas imediatamente ceifadas, a contaminação nuclear encarregou-se de marcar as gerações com horríveis sofrimentos e morte prematura de muitos. Mas existiram e continuam a existir conflitos em que o genocídio é real ainda que menos impressionante porque a morte se espalha pelos anos de paz e não tem, por isso, o efeito de choque que causa a devastação imediata do tempo de guerra.

Todos os dias nos chegam notícias de experiências para desenvolvimento de novas armas. As "novas guerras" têm de comum a neutralização das forças inimigas pela utilização de agentes (químicos as mais das vezes) capazes de tornar impossível a vida em determinadas zonas. Para além dos terríveis efeitos imediatos, a permanência por muitos e muitos anos desses agentes no ambiente, continuará a matar, quase sempre, exactamente como continuam a matar os milhões de minas em zonas do mundo onde se diz que governa a paz. E pior do que isso, esses agentes, infiltrados no solo ou arrastados pelos elementos, não conhecem fronteiras nem as partes no conflito.

O significado que as NU quiseram atribuir ao 6 de Novembro merece, por isso, ser bem sublinhado.

Este é o País em que vivemos...

Têm sido frequentes as denúncias públicas por parte de famílias que se defrontam com dificuldades acrescidas para cuidar dos seus familiares que sofrem de deficiências mentais e físicas, sem as ajudas e os apoios que o Estado tem obrigação de assegurar.
Para além dos problemas humanitários que se colocam, estas famílias vêem-se a braços com carências económicas que não lhes permitem, na falta de apoio público, pagar a entidades privadas a prestação de cuidados especiais educativos e de saúde, o apoio domiciliário ou as ajudas técnicas que as pessoas com deficiência requerem.
São chocantes as histórias que contactamos, seja através dos media seja por conhecimento directo, de desespero e de impotência das famílias para proporcionarem às suas crianças, jovens ou idosos deficientes a qualidade de vida e a dignidade que merecem.
Compreendemos, portanto, o seu sofrimento e admiramos a sua força e a sua determinação para se entregarem àqueles que dependem totalmente da sua entrega e do seu amor.
Recentemente, prestei atenção a duas situações divulgadas pelos media que ilustram bem a incapacidade do Estado para responder a direitos absolutamente elementares. O que se passa? Insensibilidade política? Social? Défice orçamental? Ineficiente e injusta redistribuição do rendimento? Incompetência? Sejam quais forem as razões, muito provavelmente todas e não apenas uma, é nestas áreas de intervenção que concluímos pelo País atrasado em que vivemos, incapaz de resolver e colmatar os graves problemas que afligem aqueles que a vida penalizou pela redução das suas capacidades mentais e físicas, impossibilitando a sua sociabilização e o acesso à igualdade de oportunididades.
As duas situações que mereceram "tempo de antena" nacional ilustram uma pequeníssima parte de um mundo de muitos outros casos infelizes que o País não é capaz de resolver:
- Recentemente, a história de uma mãe de Barcelos, cansada e desesperada, viúva e desempregada, em situação de pobreza, que há cinco anos que espera da Segurança Social a atribuição de uma cadeira de rodas nova para a sua filha menor deficiente profunda.
- Mais recentemente, a história de seis crianças portadoras de deficiências físicas que estão sem aulas porque o Agrupamento de Escolas Infante D. Henrique não tem resposta para lhes dar, invocando que não tem recursos financeiros para fazer face aos apoios que exigem as necessidades educativas especiais.
Este é o País em que vivemos, pouco solidário, que nos deveria pesar na consciência, em particular àqueles que têm responsabilidades políticas...

A nova morte de Tutankamon


Vi ontem a notícia sobre as vicissitudes que ainda está a sofrer a múmia de Tutankamon. Não costumo partilhar de superstições nem crendices, mas a verdade é que me senti como se estivesse a devassar o que devia ser respeitado e não consigo alcançar o grande benefício que virá do facto de terem tirado o corpo do seu sarcófago, deixando-o exposto ao público, numa redoma de vidro, tapado com um lençol.
Pode haver muitas razões científicas, parece que se receava que a múmia se fosse deteriorando com o tempo, a humidade e mais mil e outros factores que, no entanto, não impediram que ela resistisse uns míseros milhares de anos…
O facto é que se assistiu em directo àquilo a que poderemos chamar uma profanação, à exposição do que outras crenças e outras ciências tinham cuidadosamente ocultado, talvez precisamente para que, no imaginário “para todo o sempre”, o belo rei conservasse eternamente a sua imagem majestosa, os seus ouros, a sua túnica e, sobretudo, a sua juventude.
Podia ter-se talvez garantido a preservação do corpo sem o expor, dizendo ou calando que se tinha feito, mas respeitando na essência o sentido transcendente do ritual que o determinou. Mas não. Sejamos práticos. De um lado, a grandiosidade do que é terreno, o sarcófago e a máscara de ouro. De outro, miserável, negro, carcomido, o esqueleto de um ser humano que morreu de uma infecção na perna.
Tutankamon será talvez preservado, mas como um pobre mortal. Tínhamos que matar a ilusão da perenidade, tínhamos que matar outra vez o rei.

domingo, 4 de novembro de 2007

A odisseia da penúria

O Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, anunciou em entrevista que o Município já pagou todas as dívidas inferiores a 10.000 euros.
E que, assim, já reduziram 60 milhões de euros de dívidas.
Parece um facto notável.
Mas afinal quanto deve a Câmara de Lisboa?
O passivo é de 1,5 mil milhões de euros.
Destes, 637 milhões são dívidas a médio prazo e 444 milhões dívidas a curto prazo.
Neste último valor estão as dívidas a fornecedores, que ascendem a 350 milhões de euros.
E o que é estão a fazer para pagar este balúrdio?
Reduziram umas quantas despesas e contraíram um empréstimo de 500 milhões de euros...
Quem não andou por cá nos últimos 10 anos, teria razões para estranhar estes números.
Mas depois do que vi nas várias vereações desde o mandato de Jorge Sampaio (inclusivé), esta situação não me surpreende:
  • Empresas e agências municipais falidas e inúteis;
  • Gente a mais;
  • Desorganização e desorientação;
  • Aquisições de serviços à tripa forra;
  • Impostos e taxas quase sempre a aumentar;
  • Obras faraónicas...
... abandono dos mais elementares critérios de boa gestão.
Quanto mais dinheiro entrava nos cofres da Câmara de Lisboa, pior se investia na cidade.
E a fartura deu estes resultados: esbanjamento!
António Costa bem pode anunciar que pagou 60 milhões de dívidas nos 100 dias que leva de mandato.
A triste realidade é que a Câmara não gera receitas para pagar a monstruosidade criada.
E a cada dia que passa, comporta-se como aquele taxímetro ligado.
Está sempre a somar.
Será que ainda não perceberam que estão a "usar fisgas para matar elefantes"?

Diz-me o que lês, ... - 3


Mais de trinta anos passados sobre o processo de descolonização, a história de Portugal e dos Portugueses em África continua a revelar as grandes e as pequenas marcas que, de lado a lado, parecem não estar completamente saradas. Se o trabalho de Joaquim Furtado, "A Guerra" (RTP1), teve o condão de mediatizar o debate e a reflexão sobre essa história e essas marcas, há que não esquecer o esforço que uma nova geração de historiadores tem vindo a desenvolver para desmistificar algumas dessas histórias.
Augusto Nascimento é um desses historiadores. Os trabalhos que tem vindo a publicar sobre S. Tomé são um referencial de investigação séria e rigorosa, sem complexos e com muito esforço de inventariação, sistematização e análise de fontes sobre a história colonial Portuguesa.
O "Fim do Caminhu Longi" é um estudo diferente. É um tributo feito de testemunhos vivos aos serviçais e contratados caboverdeanos que migraram para o trabalho das roças em S. Tomé. Contam-se por alguns milhares aqueles que envelhecidos, empobrecidos e socialmente excluídos, ficaram-se por terra estranha corroídos pela saudade de quem se sente mais exilado do que emigrado.
Este é um dos pilares da diáspora caboverdeana e uma marca de identidade que nem sempre a história consegue destapar. O estudo de Augusto Nascimento permite, com alguma crueza e incomodidade, destapar um pouco dessa história que também é nossa.
Finalmente percebi a letra da canção "Sodade", imortalizada pela voz de Cesária Évora:
Quem mostra' bo / Ess caminho longe? / Quem mostra' bo / Ess caminho longe? / Ess caminho
Pa São Tomé.
Sodade sodade / Sodade / Dess nha terra Sao Nicolau
Si bô 'screvê' me / 'M ta 'screvê be / Si bô 'squecê me / 'M ta 'squecê be / Até dia / Qui bô voltà
Sodade sodade / Sodade / Dess nha terra Sao Nicolau.

sábado, 3 de novembro de 2007

Significados complicados


Surpreendi-me outro dia a ouvir um amigo falar sobre a diferença entre uma coisa complicada e uma coisa complexa. Vinha isso a propósito da burocracia e das regras rígidas que se multiplicam a propósito dos actos mais simples, levando a que muitas coisas complexas se tornem complicadas e com isso percam a sua capacidade de se ajustar à medida das necessidades.
Uma coisa complexa tem um conjunto de interacções, de cuja harmonia depende o seu regular funcionamento e, portanto, o cumprimento da sua missão. Já uma coisa complicada obedece a uma multiplicidade de regras que têm que ser minuciosamente cumpridas para que todo o mecanismo funcione na perfeição. Ditar leis para uma realidade complicada torna-a ainda mais difícil de gerir mas é desperdício, porque só vão ser utilizadas as regras necessárias para o mecanismo funcionar. Já os complexos, limitados por leis que lhe tolhem as interacções, perdem agilidade, reduzem a sua eficácia, e acabam complicados e inúteis. Bloqueiam, em resumo.
Por isso se, por exemplo, tratarmos uma organização de pessoas como se ela fosse um relógio, ficamos sem horas e sem pessoas, ficam como ponteiros a girar que nem doidos sem saber a quantas andam. Se montarmos uma roldana sem medir a corda nem ajustar as engrenagens, deixando que elas procurem livremente a tensão e os pontos de apoio, o mais certo é não conseguirmos tirar a água do poço...
É engraçado ver as consequências de confundir o significado das palavras.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Simplex

O Simplex desburocratizou, desmaterializou procedimentos, presenteou-nos com a possibilidade de requerer certidões pela Internet.
Procedi de acordo com as novas normas, confiado no anúncio de que em 10 dias receberia o papel em casa.
Passou-se um mês e nada.
Reclamei por e-mail, uma e outra vez depois de constatar a impossibilidade de o fazer pelo meio expedito que é o telefone. Ninguém o atende. A resposta aos repetidos e-mails é dada automaticamente pelo servidor anunciando que a reclamação foi processada e será ponderada.
Por fim, a desesperada certidão. E no outro dia, um outro papel com o mesmo conteúdo porventura motivado pela reclamação. E nesse mesmo dia ainda outro envelope contendo novo original da requerida certidão. Convenci-me que nesta reforma dos procedimentos administrativos a fome dá lugar à fartura. Até os ler a todos e constatar que, de comum, os papeis continham informação grosseiramente errada.
O que obrigou a uma deslocação penosa (quase uma manhã perdida) ao balcão do serviço para entregar reclamação perante funcionária que se espantou com o erro dos colegas e logo prometeu reparação simples e rápida.
Pois o resultado foi este: novo papel recebido na 4ª feira passada. E hoje, aberta a caixa do correio - surpresa! - um outro igualzinho ao primeiro! De comum...estarem os dois errados!
Prepara-se mais uma manhã ao balcão. Com uma disposição bem diferente.
Pormenor. O papel passado pela Administração é necessário para instruir um procedimento na...Administração.
Simplex!

Coisas sem importância...

... estudos.
O Sr. Ministro Mário Lino "ainda não teve tempo de ler o estudo" da CIP sobre o novo aeroporto de Lisboa.
Mas já assegurou que lhe dará "uma vista de olhos".
Aliás, o Sr. Ministro recebe todos os dias muitos estudos.
Obviamente, não tem tempo para os ler.
Será que o Sr. Ministro também terá dado "uma vista de olhos" naqueles estudos irrefutáveis sobre a OTA?

A verdade da mentira política...

Li com muito interesse o artigo do António Barreto “Da mentira como virtude política” – publicado no Público no passado dia 28 de Outubro – que nos obriga a reflectir sobre o que é hoje a mentira enquanto instrumento de estratégia de acção política e sobre o seu significado enquanto verdade.
A mentira é, ainda nos tempos que correm, pese embora o seu sentido tenda a ser banalizado, um comportamento reprovável e condenável quer no seio da família e nas relações de amizade quer no emprego e castigado pela justiça. Ao contrário, refere António Barreto, a mentira “Na política… É apreciada. Se um político mente para dar emprego aos seguidores, derrotar os adversários ou enganar parceiros, o seu gesto tem todas as probabilidades de ser elogiado”.
Acrescentaria que a intervenção política recorre também à mentira, por receio que a verdade traga consequências negativas ou perdas, ou pela necessidade de obter ganhos e vantagens que a verdade não permitiria obter.
Mas, se a mentira é uma arma de intervenção política para esconder erros ou para obter ganhos, inserida numa lógica demagógica e numa espiral de competição e radicalismo político partidários, e se a mentira é susceptível de ser castigada através do mecanismo das eleições pelos mesmos cidadãos que não toleram a mentira àqueles com quem tem uma relação mais próxima, impõe-se então perguntar porque razão a mentira dos políticos é tantas vezes desculpada: Memória curta dos cidadãos? Todos os políticos, da direita à esquerda, mentem? Indiferença e descrença face à mentira banalizada? Os “mentirosos” confessam a sua ignorância, confessam que foram vítimas da mentira dos seus adversários? “Branqueamento” da mentira? Ingenuidade cívica?
São clássicos de mentiras recorrentes de candidatos a primeiros-ministros as promessas de não aumentar os impostos ou, numa outra variante, de baixar os impostos, de aumentar as pensões, de aumentar ou criar benefícios fiscais.
Mas nesta matéria, novidade e inovação recentes encontramos na promessa do actual governo, antes de o ser, de criação de 150.000 empregos. Disse uma verdade ou uma mentira? Se disse uma verdade, a verdade é que já era uma mentira. Portanto, há uma mentira, embora para alguns seja uma “verdade”. Muito provavelmente, esta “verdade”, como muitas outras, será esbatida e esquecida no julgamento através das eleições.
A mentira parece transformar-se assim num comportamento normal, como se fosse normal não pugnar pela verdade!
António Barreto afirma mesmo que “Não fazer o prometido, deixar de o fazer ou fazer outra coisa é uma forma de sublinhar a mentira original. Mas também passa, na política, por benigno constrangimento”.
Seja a mentira um instrumento de estratégia política ou um traço de carácter ou de estilo pessoal, que também é frequente encontrar nos políticos de hoje, a verdade é que a mentira não deveria ser aceite impunemente como uma banalidade benigna.
Num contexto em que abanam os alicerces dos princípios e dos valores que fazem a sociedade mais forte, mais exigente, mais rigorosa e mais vigilante, deveria ser motivo de preocupação a corrosão da fronteira da ética e da moral no exercício da política e no julgamento popular, que tende a deixar os políticos em rota livre e cegos e complacentes quem os elege.
Este é, pois, mais um elemento negativo a contribuir para a descrença que hoje se vive na sociedade portuguesa em relação à classe política e à política em geral. [tema sobre o qual escrevi aqui no 4R, em "Pensamentos de mudança..." http://quartarepublica.blogspot.com/2007/10/pensamentos-de-mudana.html#comments].

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

As regras e os princípios, ou a incerteza das coisas

Não sei nada de quântica, ao contrário de Tonibler, que de forma cristalina comenta o post de Massano Cardoso, mas esse texto e a teoria da incerteza suscitaram-me a questão da tendência para desenhar regras, com a ilusão de que, se as desenharmos e lhe dermos forma de lei, elas hão-de impor-se à realidade e conduzirão esta rebelde para onde queríamos que ela parasse.
Ora, na natureza não é assim, e, na maior parte das vezes, ainda bem.
Uma coisa é estudar os fenómenos, perceber o seu movimento determinante e apreender-lhe as regras. É de acordo com esse conhecimento que se poderá depois orientar mais ou menos a sua direcção, ou modificar os comportamentos de modo a tirar deles proveito, mas não podemos ter, nem dar aos outros, a ilusão de que passamos a dominar o fenómeno.
Outra coisa, bem diferente mas muito comum, ditada pela ignorância ou pela sua forma particular que é a arrogância, é pensar que é a regra que vai impor-se, tornando rígido o que era adaptável, de acordo com o que supomos ou desejamos fixar, ignorando a tal instabilidade essencial que não nos deixa dominar mas apenas apreender. A incerteza intrínseca das coisas, de que fala Tonibler, será talvez uma capacidade permanente de adaptação que a natureza contém, e que a preserva, a diferença e a vantagem estará do lado de quem consiga melhor captar esses movimentos e o seu sentido, reconhecendo-lhe uma mutabilidade permanente ou uma infinidade de combinações que, a cada momento, deitam por terra o que tínhamos como certeza absoluta. Quem não vê isto, e se fixa em regras imutáveis, confundindo-as com princípios, não evolui. Como diria Karl Popper, “all life is problem solving”...

“Quando for grande quero ser físico”!


Se me perguntassem hoje o que é que eu queria ser “quando for grande” responderia inequivocamente: físico! Aos 56 anos dizer isto parece ser uma sensaboria que contrasta com o que dizia quando era miúdo.
Recordo que quando me fizeram pela primeira vez essa pergunta – presumo que a fazem a todas as crianças – ter respondido: policia sinaleiro!
Quando ia à cidade ficava fascinado pela aquela figura imponente ostentando capacete pontiagudo, cinturões, luvas e armações brancas nos braços e pés que, no alto de um palanque, gesticulava, dançava, mandando parar ou avançar os carros e peões apitando de forma prolongada e estridente. Sentia um grande fascínio ao ponto de o imitar em casa ou na rua com os meus amigos e carritos. Mas as vocações evoluem e, um pouco mais tarde, não muito, substitui esse desejo pelo bombeiro. As razões prenderam-se com o fascínio causado pelo facto da “Bomba” da altura, descapotável com os assentos dos bombeiros ao redor da bomba localizada na parte central do veículo, passar a “100” à hora, com o bombeiro ao lado do condutor a tocar a sineta, sinalizando a sua presença (não havia sirenes), mas também do episódio de ter assistido ao funeral de um familiar afastado cuja urna foi transportada na mesma, ao contrário da habitual carreta puxada a braços. Fiquei de boca aberta e não compreendi todo aquele ritual de bandeiras, bombeiros fardados a rigor e a “Bomba” a ser utilizada para aquele fim. Disseram-me que só os bombeiros tinham direito a ser transportados daquela forma. Fiquei triste porque os que não podiam ir na “Bomba” tinham que ir na velha e horrorosa carreta preta. Argumentei de imediato: - Mas o que vai ali não era bombeiro! Então como é? Responderam-me: - Não era bombeiro mas era sócio. Ah! Os sócios também podem ir! Cheguei a casa e pedi de imediato para ser sócio dos bombeiros. Ficaram surpreendidos pelo meu pedido e perguntaram-me qual a razão. Disse: - Assim, quando morrer já posso ir na “Bomba”. Ficaram de boca aberta. Nunca lhes disse que tinha horror à maldita carreta preta que um dia levou a minha melhor amiga.
Passados todos estes anos a velha relíquia continua a exercer estas funções.
Confesso que gostaria mesmo de “ser” físico. Considero que são uns “privilegiados” porque estudam, analisam e compreendem os fenómenos que ocorrem a todos os níveis, em todos os tempos e dimensões.
Uma das áreas mais sedutoras é a área da mecânica quântica. Faço todos os possíveis para a compreender, mas não consigo ir mais além do que desejaria. De qualquer modo, a ideia de que certas partículas poderem existir numa multiplicidade de estados contraditórios “colapsando” numa das opções quando são observadas é espectacular. Esta reflexão resulta da leitura de um artigo em que o autor tenta explicar a natureza da consciência numa perspectiva quântica. Perante uma imagem ambígua – possibilidade da leitura de duas interpretações – o cérebro não consegue lê-las simultaneamente, “optando” por uma. Afirma o autor que existirá uma “consciência potencial” e uma “consciência actual”. A primeira representará o estado em que o cérebro recebe as imagens simultaneamente como se tratasse de uma “função de onda”. A segunda corresponderá à fase quando a tal “função de onda” “colapsa” passando o cérebro a reconhecer apenas uma das duas imagens.
Achei deliciosa esta interpretação sobre o “funcionamento da consciência” que alguns consideram como plausível e merecedora de atenção enquanto outros, naturalmente, põem em causa.
De qualquer modo, vou reter o conceito de “consciência potencial” e “consciência actual”. Mas a pergunta que gostaria de ver respondida é a seguinte: o que é que determina o momento do “colapso” levando à percepção de uma imagem e não da outra, apesar de serem as mesmas?
Se me perguntassem o que é que gostaria de ser “quando for grande” responderia: físico! Pois é! Tenho que me contentar com as memórias de querer ter sido polícia sinaleiro ou bombeiro. Afinal não fui nem uma coisa nem outra! A minha “consciência quântica” não deve ser lá grande coisa...