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terça-feira, 13 de março de 2012

Realidades

Tive contacto pela primeira vez com a filosofia no decurso do antigo sétimo ano do liceu, o equivalente ao atual décimo segundo. Recordo-me do livro de capas azuis de Augusto Saraiva que servia de base ao estudo da disciplina. Foi um pouco complicado entrar nestas matérias. Comecei com uma jovem professora, bonita, que substituíram, ao fim de algumas semanas, por um ex-seminarista que se interessava mais pelas videiras, em cultivar batatas e a apanhar couves do que propriamente ensinar filosofia. Mesmo assim, agarrava-me ao livro, tentando compreender aqueles conceitos. Não foi nada fácil. Aprendi nomes de alguns filósofos e consegui "apreender" uma ou outra ideia. Nunca mais me esqueci de um, Soren Kierkegaard, não sei se pela estranha sonoridade do nome ou se pelo facto de ler que a realidade é condicionada pela nossa forma de ser e sentir as coisas, o que varia, e muito, de pessoa para pessoa. Um conceito simples e útil para quem não conhecia nada do assunto. Chamaram-lhe existencialista. Gostei da palavra. Nunca li nada sobre o dinamarquês, mas agora deu-me para aí, embora não esteja com vontade nenhuma de ler todos os seus escritos, apenas compreender um pouco melhor o seu pensamento. Ainda tenho algum juízo.

Considero como interessante a escalada da "existência", que, segundo Kierkegaard, abrange três conceitos básicos. Começa pela estética, em seguida passa à ética, terminando no religioso. No primeiro, o ser humano procura o que lhe dê prazer, coisa dos sentidos, do agradável, mas que acaba por se esgotar na melancolia. Em seguida surgem os valores éticos que condicionam a nossa forma de ver as coisas. Por fim mergulha-se no religioso ou no seu equivalente, a espiritualidade, em que o mundo dos sentidos não tem lugar, apenas a vivência espiritual.

O “desespero” da fase final da estética abre a porta para a seguinte, em que o indivíduo começa a sentir-se responsável pelas suas ações e a respeitar as normas e convenções. No entanto, Soren considera que só através da religiosidade o indivíduo pode encontrar a satisfação existencial plena. Trata-se da religiosidade individual de cada ser, algo que o relacione com o absoluto.

Interessante esta visão do filósofo a que não é estranho o seu comportamento. Desregrado, passou a eticista e terminou em pastor luterano! Esta "ascensão" fez-me lembrar outras individualidades, casos de Santo Agostinho e de frei Gil de Santarém, diabos na juventude, santos na velhice. Como a vida é breve, cumpriram a regra, viver o máximo possível.

O motivo por que abordo este assunto é fácil de explicar. Na vida em geral, e na política em particular, a realidade que cada um quer mostrar aos outros é fruto da interação entre os acontecimentos e a sua forma de estar, de sentir, de olhar, de cheirar e, naturalmente, de pensar. Acontece que, muitas vezes, os outros ficam incomodados, porque têm formas próprias de existência, criando realidades diferentes. Não havendo justaposição das diferentes "realidades" surgem os conflitos. Então, na vida política, é um ver se te avias! Não podemos esquecer que os políticos, de um modo geral, permanecem na fase estética da existência gozando à brava. Analisando-os bem, parece-me que não ficam muito "desesperados" por isso, embora haja alguns que conseguem sentir o peso da responsabilidade ética e viver em conformidade, o que constitui uma subida na escalada da "existência". Tento ver à minha volta se algum já sentiu a necessidade de se relacionar com o "absoluto", mas por mais voltas que dê só se for com o absoluto do poder, do dinheiro e pouco mais. Religiosidade na política? Não. Há, de facto, pessoas ligadas à religião com interesses neste campo, mas isso é outra coisa. A satisfação existencial na política não chega a esta fase. Mas, também, não queria que chegassem tão longe, bastaria que vivessem eticamente, cumprindo com as regras, com as normas, respeitando os outros e contribuindo para a verdade, seja o que esta for. Não o fazendo originam conflitos e incompatibilidades difíceis de resolver.

Ler o prefácio do último livro do Presidente da República para saber quem foi Sócrates não interessa a muitos, mas mesmo assim incomoda as “realidades” dos apaniguados do ex-primeiro ministro. Quanto ao visado, presumo, pelo simples facto de não responder, que já terá entrado na fase “religiosa” da existência, passando por cima da fase ética. Às tantas já estudou Kierkergaard!

Rating da Grécia sobe 4 níveis...quem diria?!

1.A agência de notação financeira FITCH anunciou hoje a subida do rating atribuído à dívida pública grega em 4 níveis, de RD (incumprimento “refinado”) para B-, após ter sido confirmada a conclusão, com sucesso, da operação de troca de dívida que reuniu a aprovação de 96% dos detentores privados de dívida (a % é em peso de dívida).
2. Segundo a FITCH, a conclusão com sucesso da troca de dívida com perdão parcial (de 53,5% sobre o valor nominal da mesma, como se sabe) melhora substancialmente o perfil da dívida da Grécia e reduz o risco de novas dificuldades de Estado Grego para cumprir o serviço da dívida, pelo menos no curto prazo.
3.A Grécia inicia assim, estoicamente, o longo e penoso percurso de regresso à normalidade nas suas relações com os mercados financeiros...ainda não tem nível “investment grade” mas lá vai a caminho, terá de percorrer ainda algumas etapas, duras mas necessárias, até chegar a esse ponto, do qual caiu há relativamente pouco tempo...
4.E por cá ainda se queixam das agências de rating?

5. Por falar nisso, por onde andará (se é que andou) a investigação do MP na sequência da queixa-crime apresentada há quase um ano por um lustroso grupo de Patriotas indignados com as práticas criminosas das agências de rating?
6.Tenho a percepção de que caso essa investigação não tenha ainda avançado decisivamente, com acusação já formulada para levar a tribunal os malfeitores do Rating, este novo episódio da Grécia vem retirar um pedaço de força à dita queixa...

Da dinamização económica

Qualquer sector da actividade económica precisa de uma regulação pronta e eficaz, de forma a propiciar o investimento e uma leal concorrência.
Pressuposto que, consabidamente, não existia no ramo dos assaltos às Caixas Multibanco, dado o litígio de competências entre duas áreas importantes da regulação da actividade, que disputavam entre si o monopólio para atribuição de sanções a quem actuasse à margem das normas em vigor. Situação que deixava um rasto de incerteza aos operadores do mercado, com repercussões directas no nível da sua actividade e do emprego. A situação era tanto mais limitativa de um normal desenvolvimento do negócio, quanto se sabia que os processos de transgressão por assalto eram eles próprios alvo de assalto por uma das áreas da regulação, o que também não ajudava à delimitação precisa das funções de assaltante e assaltado .
Queixaram-se os operadores ao Sr. Procurador-Geral, fazendo-lhe ver os danosos inconvenientes que tal quadro de incerteza trazia para a sua actividade e para a economia como um todo. Perante a fundamentada queixa, o impasse foi ultrapassado, com a atribuição da regulação da actividade ao DCIAP, em detrimento do DIAP.
Tal medida foi muito bem recebida pelos operadores que de imediato manifestaram uma vontade firme de aumentar rapidamente o seu nível de actividade. Expectativa já confirmada pelo aumento da produção por parte dos fabricantes das Máquinas Multibanco, que viram na ocasião uma oportunidade de colocarem no mercado equipamentos de nova geração, mais fáceis de ser removidos e assim possibilitar um forte arranque da economia e do emprego.
Um exemplo de como um quadro normativo correcto promove o crescimento económico.

Locomotiva alemã terá forças para puxar outras economias do Euro?

1. Quando nos aproximamos do final do 1º trimestre de 2012, as notícias que vão chegando da economia alemã estão a surpreender pela positiva, sugerindo que as previsões de quase estagnação da actividade económica no corrente ano se não confirmam...
2.Foi hoje divulgado pelo Instituto ZEW um importante indicador mensal, de Sentimento Económico, o qual revela uma forte melhoria, passando de +5,4 na leitura do mês anterior para +22,3 na actual, ultrapassando largamente as expectativas dos analistas que apontavam uma subida mais modesta, para +12, e apresentando o nível mais elevado desde Junho de 2010...
3.Esta evolução do índice de Sentimento Económico significa que uma maioria crescente dos investidores nos mercados financeiros acredita numa melhoria das condições económicas no País ao longo dos próximos 6 meses.
4.Outros indicadores, considerados até mais fiáveis do que este como barómetros da evolução da actividade, tais como o IFO Business Survey e o Composite PMI, nas suas mais recentes leituras também antecipam cenários positivos: o 1º aponta para um crescimento económico anual de cerca de 2% em 2012 e o segundo sinaliza uma fase de clara expansão no 1º trimestre do corrente ano, invertendo assim a evolução negativa do 4º trimestre de 2011.
5.Parece pois que, ao contrário da generalidade das previsões avançadas no final de 2011, a economia alemã se mostra pois em condições de ultrapassar os problemas decorrentes da chamada crise da zona Euro, preparando-se para mais um ano de saudável crescimento, bastante acima das referidas previsões...
6.Resta saber se até que ponto esta economia poderá funcionar como Locomotiva das outras economias da zona Euro, em especial daquelas em que a actividade económica é mais atingida pela correcção dos desequilíbrios económicos e financeiros resultantes de uma enorme incompetência (e irresponsabilidade) na condução da política económica dos últimos anos...com Portugal em lugar de (infeliz) destaque...
7.Pelo menos do exterior vão chegando algumas notícias positivas, uma vez que no plano interno tudo indica que estamos de regresso à regra de ouro do REGIME segundo a qual “a confusão é a madre de todas as cousas” - para satisfação dos media, que voltam a esfregar as mãos de contentes, entregando-se à sua actividade prioritária de exacerbar a intriga política..

8. Parece, pois, que só mesmo as exportações nos poderão valer...

A velha tendência de ignorar o que nos pactos se escreve a letra pequena...

segunda-feira, 12 de março de 2012

Magistrada desviante...e magistrada desviada...

Provavelmente saturados da investigação de roubos e desvios praticados por outrém, os serviços do Ministério Público decidiram passar à acção e promovê-los na sua própria casa.
Com efeito, noticiaram os jornais, a responsável pelo DCIAP (Maria José Morgado) acusou a sua colega do DIAP (Cândida Almeida) de desviar processos que não são da sua competência, como foi o caso do assalto do ATM do Pinhal Novo. Pior ainda, é que, para além do desvio, parece que houve receptação dos processos, mantidos em depósito e não entregues pelo Departamento desviante…
Não se conseguindo entender sobre a litigância interna e a propriedade do material, subiu queixa ao Procurador-Geral que, entre desviante e desviada, teve que procurar a ré, matéria de elevado melindre entre as duas altas linhagens da Instituição. Ninguém melhor do que outra senhora, a Vice-Procuradora, valor nobiliárquico acima das disputantes, para investigar o desvio interno,, entendeu sabiamente o Senhor Procurador-Geral.
Depois de vários meses de investigativo labor, certamente mui nobre e mui douto, o Procurador-Geral reuniu as partes, a que ainda juntou a Procuradora Distrital de Lisboa, e ditou a sentença: o processo é do DCIAP. O processo e os respectivos assessórios, um fio de cobre e uma bateria oportunamente apreendidos e com que o DIAP se pretendia locupletar à custa do DCIAP.
Revelou muita frieza e coragem o Senhor Procurador-Geral. Juntar 4 senhoras e decidir a favor de uma é acto verdadeiramente temerário e digno de nota.
Diz o DN que a sentença parece ser o ponto final na “guerra”.
Não me parece. É que falta saber se, depois da sentença desfavorável, não vai o DIAP, à falta de trabalho e de material para desvio, retaliar e desviar o próprio Procurador-Geral. E obrigá-lo a assaltar outro Multibanco do Pinhal Novo para o entregar ao DCIAP. Forma digna de lhe arranjar trabalho, já que tanto o reivindicou.

QUIZ




Quem foi o político que, referindo-se ao anterior PM José Sócrates, revelou o seguinte:

"Tive uma discussão com ele gravíssima, porque queria que ele pedisse o apoio e ele não queria. Falei muito com ele durante muito tempo, duas horas ou três, discutimos brutalmente mas amigavelmente, eu a convencê-lo e ele a não estar convencido".

(1) José Manuel Durão Barroso no último encontro em Bruxelas, após o habitual cumprimento "porreiro pá!";
(2) Manuel Pinho implorando o apoio do PM para a causa do fim das touradas;
(3) Cavaco Silva no roteiro do seu último prefácio;
(4) Mário Soares por ocasião da sua 100ª aparição semanal na RTP1;
(5) António José Seguro tentando convencer o grupo parlamentar de JS a aplaudir com mais convicção as suas intervenções;
(6) Pedro Silva Pereira numa tentativa para convencer o PM a pedir ajuda ao ministro das finanças Teixeira dos Santos;
(7) Francisco Louçã a propósito de uma cunha que metera para a sua tia.

Ninguém nos ensinou a tratar dos nossos velhos

Dizia-me há dias um amigo que tem que fazer um esforço para telefonar todas as noites à mãe, uma senhora já com 80 anos que vive sozinha. Queixava-se de que ela fica a contar as mesmas histórias vezes sem conta, sempre com os mesmos detalhes que a ele não lhe dizem nada, sobre pessoas que não conhece ou que já morreram há muito tempo mas que, quando ele quer mudar de assunto e contar-lhe coisas da vida dele, pelas quais uma mãe se devia interessar, fica irritada e queixa-se de que ele nunca tem paciência para ela. E que as conversas acabam sempre com os dois meio amuados.
Uma amiga minha teve que ir tomar conta do pai enquanto a mãe recuperava de uma cirurgia no hospital. Indignava-se com os hábitos dele, queria mudar e corrigir, até o modo como ele falava da mãe a indignava, até que o pai lhe disse que estava melhor sozinho, o que a magoou profundamente. É óbvio que ela não podia entrar pela vida deles adentro e impor-lhes a sua lógica, por muito boa e sensata que fosse, o mais que temos é que nos fazer leves, não fazer sentir a nossa ajuda, deixar que a sua normalidade se mantenha, a mudança é terrível e baralha-os completamente.
É muito difícil tratar de pessoas com muita idade e o facto é que não estamos preparados para isso. Toda a gente tem imensas teorias e leituras sobre como tratar com as crianças, trocam-se experiências, fala-se com o médico, não há detalhe nenhum que escape à indústria da educação, mas quanto a velhos, estamos conversados, é um vazio absoluto. Mesmo com os médicos, salvo um ou outro caso raro, ficamos muitas vezes mais angustiados do que antes, receitam uma infinidade de medicamentos, de exames tantas vezes inúteis, o dia a dia torna-se complicadissimo e quantas vezes temos a sensação de que uma boa parte daquela trapalhada era dispensável se soubessemos perceber melhor o que é a evolução de uma pessoa na parte final do seu tempo de vida, o que é a decrepitude, e não a doença. E, no entanto, faz muita falta, sobretudo quando temos mesmo que nos ocupar deles um tempo largo das nossas vidas, cada vez maior porque as exigências aumentam exponencialmente com o grau de longevidade. Acontece-me agora com frequência falar sobre isso com outras pessoas que têm os mesmos dramas, e o que verifico é que vamos fazendo o que nos lembramos, e o que podemos, mais por instinto, tantas vezes ditado pelo amor que lhes temos, do que por sabermos com alguma ciência o que fazer. Isto significa que muitas vezes teimamos em fazer o que não devíamos, insistimos, exasperamo-nos, às vezes até nos ofendemos com a falta de resposta, estou eu aqui e esforçar-me por te animar e tu nem respondes, não gostas deste filme?, não viste a revista nova?, também não te interessas por nada!, mas a verdade é que nao percebemos nada do fenómeno do envelhecimento, do que é que se passa naquelas cabeças, o que os afasta de nós e o que pode prendê-los um pouco. A minha mãe diz-me com frequência, não vês que isso já nao me interessa nada? Quando quero que ela caminhe um pouco, para combater a imobilidade quase absoluta, nem levanta os olhos do chão, tanto lhe faz se é o mar se é um monte, se o café está cheio ou vazio, às vezes hesito se devo insistir, revolto-me por achar que não reconhece o meu esforço, mas depois percebo que estou a pensar tudo mal, quero fazê-la parte do meu mundo, interessar-se pelo que eu achei nteressante e estes mundos já não se cruzam, só lá muito atrás, talvez, mas agora não, os círculos não são secantes, com sorte um pouco tangentes, mas a natureza vai fechando o seu ciclo e afastando, protegendo, cerrando os seus braços em torno da memória, a natureza prepara o desprendimento, do mesmo modo que a natureza prepara uma criança para crescer. Com as crianças sentimos o fascínio de os trazer até nós, com os velhos sentimos a angústia de os ver afastar-se, encerram-se porque é assim mesmo, tem que ser, se calhar tem mesmo, o facto é não sabemos como cuidar deles nem percebemos como aprender esta nova forma de amar. É difícil, sim.

domingo, 11 de março de 2012

Os grandiosos feitos da Parque Escolar!

Diz hoje o DN (pág 16 e 17, mas não consegui o link) que “cada metro quadrado da Escola Passos Manuel custou 1618 euros, mais 37 euros do que custa o metro quadrado das secundárias do Dubai, país famoso pelo luxo das suas construções”. No total, diz o DN, as obras custaram 26 milhões de euros!
Independentemente da valia da comparação, não estranhei estes valores, face ao teor de uma conversa que, por mera coincidência, ontem tive com um amigo meu, empreendedor activo e dono de uma importante empresa de construção e obras públicas e que encontrei neste fim-de-semana.
Indo ao que interessa, referiu-me que tinha ganho alguns concursos de remodelação de escolas, a cargo da Parque Escolar. E que essas remodelações ficavam escandalosamente caras. Para o comprovar, elencou-me um nunca acabar de razões, a começar pelos projectos de arquitectura, todos conceptualmente diversos, pelos materiais de construção escolhidos, diferentes de escola para escola, mesmo que próximas, pelo tipo diverso de equipamento, mobiliário ou material decorativo empregue, específico para cada caso, até pela raridade ou luxo dos materiais empregues. Considerou que esses gastos eram um verdadeiro escândalo, só possíveis pelo desprezo do dono da obra pelo dinheiro dos contribuintes. Referiu-me ainda que, com tais projectos, não era possível fazer economias de escala, por exemplo nos aprovisionamentos, dada a singularidade de cada obra. Também li no DN que, entre outros gastos menores e, por certo, despiciendos para a sua grandeza, a Parque Escolar gastou 15.088 euros pela adjudicação de serviços de design e publicidade para lançar a inauguração das obras na Passos Manuel. E mais 20.000 euros para contratar um escritório de advogados para responder ao Relatório do Tribunal de Contas sobre os gastos na mesma escola!...
Também hoje ouvi um sujeito, numa rádio qualquer, a criticar de alto a baixo o Ministro da Educação que denunciou o caso. Que a educação não se pauta por miserabilismos....
Tem razão o sujeito. Por isso é que, com tanta educação, estamos tão educadamente miseráveis!...

Muito diferentes...

As culturas de lá e de cá são diferentes e os níveis de desenvolvimento também. A esquerda nem por isso. O que nos distingue é que lá a população goza de um grau de literacia que lhe permite perceber que a riqueza custa a ganhar e ainda mais a preservar. A conquista de bons níveis de bem-estar não cai do céu, é o resultado de uma união permanente de esforço e trabalho, olhando para o futuro com visão, traçando planos. O facilitismo nunca deu bons resultados, além de que os tempos não estão para facilidades…  

sábado, 10 de março de 2012

O regresso da política


Quantos meses andámos a ouvir que nos faltava política. Que tínhamos à frente dos destinos do país um conjunto de tecnocratas pouco preocupados com os desígnios e inteiramente dedicados aos números. Pois esta semana aí está, em todo o seu esplendor, o regresso da política. Primeiro, foi o episódio do QREN e do ministro da economia, as reações, as especulações, o indisfarçável gáudio de alguns da situação e de todos da oposição por, finalmente, existir um facto político digno de relevo. Depois, o episódio dos pagamentos à LUSOPONTE e a exploração da manifesta descoordenação e inabilidade governamentais. Ontem, o enorme bruá que as verdades escritas pelo PR gerou. Agitam-se os comentaristas, até aqui falhos de material para comentário. Sorriem os analistas agora que lhes devolvem a oportunidade de voltar a mostrar os seus génios, a sua capacidade de prognose e sobretudo quão avisado será seguir os seus conselhos. Dão pulos de satisfação os dirigentes partidários por, finalmente, poderem levantar a voz, graves e sérios, contra as malfeitorias de adversários reais ou imaginários.  
Bastou uma leve sensação de que a crise aliviou nos seus efeitos para se voltar a ouvir intervenções inflamadas e irracionais no parlamento, para o início de uma deriva contestatária do PS que permita finalmente a afirmação do seu lider, para a exploração ad nauseam das vulnerabilidades, orgânicas e não só, do governo. E, no entanto, no concreto da vida, infelizmente nada de substancial mudou – como em breve infelizmente perceberemos... – para que, alegremente, se voltasse a abrir a arena da gritaria política em redor do acessório e do folclórico. 

Há um mínimo que se deve exigir aos políticos. Um mínimo ético que lhes impõe que acima de qualquer divergência circunstancial ou ideológica, deixem de lado a prática habitual da barganha nos media e no parlamento neste particular momento: cabendo-lhes o poder de decidir sobre o destino do país, que não se esqueçam de que nele 35% dos jovens não encontram emprego e correm o risco sério de não o encontrar enquanto jovens, pelo menos no país onde nasceram e têm o direito de viver; que nos aproximamos a passos largos do milhão de pessoas sem trabalho e sem esperança de o encontrar em breve; que há gente com fome, gente que abandona os estudos por não ter recursos; que empobrecemos a cada dia que passa...
Mas neste fim de semana o que importará, no discurso, no comentário e na análise, não vão ser estas realidades. Vão ser os episódios, os que citei e outros, que assinalam o tão ambicionado retorno da política. Da única que a III República já demonstrou que sabe fazer. Da pequena.

Queijadas...

- Senhor doutor? Está aqui na receção o senhor Américo. Não é para o consultar, passou pelo centro para tratar de uns assuntos, mas como soube que estava ainda a trabalhar gostava de lhe dar uma palavra. - O senhor Américo está aí? Mande-o entrar. - Agora?!- Sim, mande-o entrar. Estava no intervalo de duas consultas. Ao ouvir o nome do senhor, comecei a recordar muitas conversas agradáveis que tivemos ao longo do tempo e que acabaram por ser afogadas numa doença de mau prognóstico há cerca de três anos. Apesar de estar muito cansado, era final da tarde, um afluxo anormal de energia invadiu-me, substituindo a fadiga pela apreensão. Não me recordo quando comecei a consultá-lo, foi há muitos anos. Homem simples, de bom porte, educado, humilde, conversador nato, dono de um sorriso suave, quase que diria sedutor, conseguia-me contagiar com uma estranha sensação de tranquilidade e bem-estar. Mais velho do que eu, entrava no gabinete a baloiçar-se como se um fosse um pato; as artroses das ancas eram razão mais do que suficiente para tão doloroso andar. Mesmo assim não perdia o sorriso. Quando a situação se agravou foi necessário proceder a artroplastia. Primeiro uma anca, depois a outra. Melhorou muito, mas não perdeu totalmente a marcha de pato; foram muitos anos a caminhar daquela maneira e não estava para se adaptar às novas condições. Afligiam-no outras maleitas, mas a terapêutica ia fazendo o que podia. Como tinha de tomar muitos medicamentos, vinha amiúde à minha consulta para lhe renovar a prescrição. Dois ou três minutos eram mais do que suficientes para cumprirmos a rotina, o resto do tempo era passado na calhandrice. Confesso que me sabe bem e tenho a certeza de que é, também, muito benéfico para os doentes. Falar só de doenças, de medicamentos, de complicações é muito chato e deprimente. Temas não faltavam. Abordávamos assuntos de interesse nacional ou, mais frequentemente, regionais e paroquiais. Tornámos-nos amigos e aprendemos a envelhecer. Como era de uma terra próxima onde sabia que faziam boas queijadas, meti, um dia, conversa a esse propósito contando-lhe que em tempos tive na faculdade um colaborador que me trazia pacotes delas que me deliciavam. Depois de ter feito o meu comentário, vi que o seu sorriso se tinha alargado um pouco mais do que é costume, baixou a cabeça, abanou-a ligeiramente, e disparou: vê-se logo que nunca comeu queijadas à maneira. Tenho de lhe trazer umas que são as melhores dos mundo. Vai ver que não se arrepende. Passados uns dias, entrou e pediu-me a chave do carro. - A chave? - Sim. É para deixar uma pequena encomenda. Ainda estão quentinhas. Dei-lhe a chave, mas fiquei a pensar por que é que não mas entregou pessoalmente. Às tantas já deveria antever o perigo das "ofertas", não fosse acusado um dia de corrupção. Ri-me com este pensamento. Não, o senhor só não queria que me vissem com um pacote de queijadas debaixo do braço. Passadas umas semanas veio a pergunta: - Então, quem é que tinha razão? São boas, não são? - Se são! Olhe, mamei umas tantas. Sou um alarve. São maiores, mais baixinhas e com um sabor! - Têm segredo. Têm segredo! Estas é que são as filhas da verdadeira receita das freiras, as outras, as que se vendem por aí são imitações. A velha que as faz, guarda, religiosamente, o segredo. A partir daqui, volta e não volta, o meu amigo trazia um pacotinho das ditas. O tempo passava e começou a surgir um problema que não se resolvia. Tive de lhe dizer que precisava de fazer um exame aos intestinos, mas nada o convencia. Ia dizendo que não era preciso, que já tinha tido aquilo em novo, que já estava melhor, enfim, comportamento típico de alguns doentes. Um dia chateei-me e obriguei-o a fazer o exame. - Pronto, se o senhor doutor quer que eu faça, eu faço. Sempre com o mesmo sorriso. Chegou o exame. Fiquei branco e com suores frios. Tive de lhe dizer que havia necessidade urgente em ser operado. Respondeu-me: - Se o senhor diz, vamos a isso. Telefonema, carta, tudo feito com o máximo de rapidez e o Américo foi operado. O meu colega cirurgião comunicou-me dizendo que as coisas estavam muito feias, fígado metastizado e tinha encontrado outro tumor maligno no rim, mas que não pode ser operado naquelas circunstâncias - Outro? Quimioterapia. Andou desaparecido, mas depois de as coisas terem estabilizado um pouco regressou e trouxe-me queijadas, sabendo que não as podia comer. - Não come o senhor doutor, mas há lá em casa quem as coma, não há? - Claro que há! Sempre bem disposto, sem nunca ter perdido o sorriso. Aquela cor térrea é que me começou a inquietar-me, mas dizia que se sentia bem e até tinha apetite. O tempo passou.
O Américo entra no gabinete. Eu julgava que me vinha trazer queijadas, tinha-me prometido há algumas semanas durante a consulta. Olho para as mãos e não vi nada. Nos últimos tempos já não me pedia as chaves do carro. - Então senhor Américo, como vai isso? Olhou-me com o seu típico sorriso mas um pouco mais apertado e algo sofredor. Não gostei. - Venho dizer-lhe que me vão operar novamente, por causa do fígado, apareceu mais uma coisa e também ao rim que, como sabe, tem um tumor. Vão ser dois cirurgiões, um para o fígado e o outro para o rim. Parece-me que vai ser um pouco complicado. Eu não me importo, mas quis vir dizer-lhe pessoalmente. Não o empatei muito. A situação estava a perturbar-me; desejei-lhe boa sorte e disse-lhe que esperava vê-lo o mais depressa possível. Agradeceu-me e dirigiu-se para a porta com um porte majestático, sem o seu tradicional baloiçar. Ao entrar no corredor parou e olhou-me novamente. Estranho, os seus olhos eram terrosos, e, pela primeira vez, vi-o sem o seu sorriso, como que a prever...

Uma surpresa...


Ontem de manhã quando saí de casa encontrei em frente da porta um saco branco que tinha uma tonalidade laranja no interior. Num primeiro olhar estranhei, será que alguém se teria enganado e deixado na casa errada aquele saco. Fiquei surpresa. Instantaneamente, meti a mão dentro do saco e vejo que continha laranjas, muitas laranjas, e uma “carta” que retirei e que por momentos julguei me esclarecesse qual dos meus vizinhos teria dado pela falta das laranjas. Mas não, as laranjas não estavam ali por engano. Todas as casas tinham sido presenteadas com um saco cheio de laranjas. Estava a reler a carta e  lembrei-me de escrever sobre esta saborosa história:

Olá!
O meu nome é T.L., sou o seu vizinho do … andar do bloco …
Os meus Avós têm uma quinta perto de Lisboa com um grande pomar de laranjas biológicas e neste ano de crise decidimos partilhar uma parte da produção com todos. São pequenas e feias, mas são óptimas, principalmente para sumo!
A partir da próxima semana vou deixar às segundas-feiras na garagem da 1ª cave junto à portaria algumas caixas com laranjas. Pode servir-se à vontade.
Deixo aqui uma pequena amostra para que as possa provar!
Obrigado.
T.L.

Foi um gesto muito bonito e tocante. Uma surpresa. A crise e as dificuldades que atingem tantas famílias - hoje são as outras mas amanhã podem ser as nossas - apelam à solidariedade. As pessoas são interpeladas a pensar nos outros, a questionarem-se sobre o que podem fazer para ajudar. Querem partilhar. Vivemos uma época em que valores que pareciam ter desaparecido mostram afinal que estavam apenas adormecidos. É bom que assim seja.
As laranjas da quinta dos Avós do T.L., apesar de feias por fora, são muito doces e sumarentas por dentro. Suspeito que não vou resistir em descer às segundas-feiras à garagem à procura de mais umas laranjas.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um cão filho da mãe!

Internado numa clínica, o cão de Sofia Alves esteve entre a vida e a morte, após septicémia.. Continua ligado às máquinas, a soro e antibiótico, mas está bem-disposto.
"O Chantilly é como um filho. Foi um grande susto. Chorei baba e ranho, mas ele é muito forte e está a recuperar", diz Sofia Alves
Notícia de uma revista da especialidade saída hoje.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Tornar famoso o monstro

Dispense meia hora do seu tempo e assista a este video. Perante o horror é impossível gente de bem ficar indiferente. Vamos contribuir para tornar famoso o monstro.


"Injustiça da justiça"

Supremo Tribunal condena Estado a pagar dez mil euros de indemnização a testemunha - Sociedade - PUBLICO.PT

Aqui está um caso de "injustiça da justiça"!!

Moínhos de orações




Cumpriu-se ontem na Assembleia da República mais uma sessão mensal de perguntas ao 1º Ministro. Palavra por palavra, perguntas já mil vezes feitas, respostas já mil vezes repetidas, num ritual cíclico e infindável.
Nos templos chineses, e funcionando em movimento contínuo, os moinhos de orações inspiram, completam ou substituem as preces dos fiéis, não vão os deuses incorrer em iras tempestuosas se, por um momento, lhes faltar o ritual da prece.
Lembrei-me que tais maquinismos bem poderiam ser implantados no Parlamento português. Basta substituir as preces budistas pelas orações dos deputados, acrescentar-lhes um pouco de som e as vantagens são óbvias. Os Deputados deixam de se cansar com as mesmas perguntas e o 1º Ministro pode trabalhar no que mais interessa para o país. E o ritual fica salvaguardado. Ficaria, até, reforçado.

Dia da mulher

Estava aqui a ouvir um velho disco da Emmylou Harris, “Profile”, uma belíssima colecção de músicas que há muito tempo não ouvia. Aqui fica esta, que me lembrou que se assinala hoje o Dia da Mulher, das mulheres que um dia escreveram uma carta assim, das que nunca chegaram a escrever realmente a carta e das que, por felicidade ou por desistência, nunca sentiram sequer o impulso de a escrever.



To Daddy (Letra de Dolly Parton)

Mama never seemed to miss the finer things of life
If she did she never did say so to daddy
She never wanted to be more than a mother and a wife
If she did she never did say so to daddy
The only thing that seemed to be important to her life
Was to make our house a home and make us happy
Mama never wanted any more than what she had
If she did she never did say so to daddy
He often left her all alone but she didn't mind the staying home
If she did she never did say so to daddy
And she never missed the flowers and the cards he never sent her
If she did she never did say so to daddy
Being took for granted was a thing that she accepted
And she didn't need those things to make her happy
And she didn't seem to notice that he didn't kiss and hold her
If she did she never did say so to daddy
One morning we awoke just to find a note
That mama carefully wrote and left to daddy
And as we began to read it
Our ears could not believe it
The words that she had written there to daddy
She said the kids are older now they don't need me very much
And I've gone in search of love I need so badly
I have needed you so long but I just can't keep holding on
She never meant to come back home
If she did she never did say so to daddy.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Capiroba

Gosto de escrever. Comecei a desenvolver esta apetência quando fui deputado, vai para dez anos, para compensar uma tarde estranha e monótona no hemiciclo. Foi em 2002, tarde de setembro, uma tarde de violenta tempestade, climática, porque politicamente foi de uma sensaboria confrangedora. E a partir daí não parei. Tornei-me num adicto. Aí de mim se não escrever, começo a sentir sinais de privação. Em contrapartida, umas linhas, que demoram por vezes muito tempo a parir, às vezes tenho de usar fórceps ou até fazer uma cesariana à memória, conseguem dar-me a necessária tranquilidade e prazer. Depois, em 2005, houve um amigo que me convidou a participar numa equipa, a dos "quarto-republicanos". Aqui estou eu. No entanto, confesso que já por mais de uma vez estive tentado a abandonar o grupo, devido a alguns comentários menos corretos ou injustos. Intervalo um pouco, mas depois regresso, sinal de dependência? É o mais certo. Tenho que aceitar todas as opiniões, mas esqueço-me sempre de que quem lê nem sempre afina pelo meu diapasão. Alguns têm visões do mundo e formas de ser muito diferentes perante os quais não consigo prever as suas reações. Tento ser correto e utilizar uma linguagem que evite chocar, mas nem sempre consigo. Em contrapartida, como viciado na escrita, tenho de dizer que me apraz ler comentários simpáticos. Mas quem é que não gosta de ser admirado? Eu gosto. E se souber que ajudo ou contribuo com algo de positivo fico muito satisfeito.
Os meus escritos são variados, sou um contador de histórias, gosto de analisar assuntos de natureza social, abordo sempre que posso assuntos de natureza científica e não deixo, de tempos a tempos, de fazer alguma incursão na área política. Já afirmei que, periodicamente, sou alvo de algumas críticas, que o tempo consegue eliminar, talvez mais por cansaço do comentador do que por meu mérito.
O último escrito foi sobre gatos, ratos, um protozoário e alguns efeitos no comportamento humano. Presumo ser a terceira vez que escrevo neste blog sobre o assunto. No entanto, um comentador veio a terreiro insurgindo-se por ter falado sobre este tema e ignorar os "verdadeiros assuntos de interesse nacional". Passo a transcrever o comentário de Caboclo: " ó Dr. Massano ..o que interessam os felinos quando os porcos estão à solta ? Vc viu as noticias do correio da manhã ? as escutas de socrates ? Porque será que este blog não tem noticias sobre tamanha vergonha nacional ? afinal o ex primeiro ministro nunca pôs os pés na faculdade ?????não se lembra da dissertação final ????ahahahahaha kakakakakakakkakaak
não fez um amigo ..um colega ..que farsa nojenta ...vai durar até quando ?
quem não fala no assunto vira cumplice..
e aqui neste blog ..se fala de miados ..miau ..miau ..ffff..miau miau..
Vamos longe sim senhor".
Fiquei sem pio! Ou melhor, não consegui miar! Mas que raio de interpelação foi esta?
Tentei saber quem era o Caboclo, mas nada. Apenas conclui que caboclo ou caboco é o "nome que se dá no Brasil aos indígenas de pele acobreada, geralmente mestiço de branco". Cliquei em cima do Caboclo e consegui descortinar que se tratava de Caboclo Capiroba, nome de um blogue vazio. Tentei saber quem foi Capiroba e verifiquei que se trata de uma personagem de um autor que aprecio, um dos melhores escritores de língua portuguesa, João Ubaldo Ribeiro, na sua obra "Viva o Povo Brasileiro" que, confesso, nunca li.
O caboco Capiroba, antropófago, descobriu as delícias da carne holandesa. Zernike o holandês é aprisionado como se tratasse de gado. A história passa-se no século XVII. Mesmo assim o holandês é obrigado a emprenhar a filha de Capiroba, Vu. Ubaldo pretende, ao parodiar a situação de antropofagia do caboclo ("O caboco Capiroba apreciava comer holandeses. De início não fazia diferença entre holandeses e quaisquer outros estranhos que aparecessem em circunstâncias propícias, até porque só começou a comer carne de gente depois de uma certa idade, talvez quase trinta anos...cujo paladar, antes rude, se tornou de tal sorte afeito à carne flamenga que às vezes chegava mesmo a ter engulhos, só de pensar em certos portugueses e espanhóis que em outros tempos havia comido"... ), definir a origem da identidade do povo brasileiro. Delicioso, no mínimo.
Mas por que razão estou a dar troco ao Caboclo? Por uma simples razão. O cara afirmou que aqui, no Quarta República não se fala e não se critica o Sócrates, mas pior ainda, põe-me na situação de "cúmplice" do dito! Cúmplice a p.q.p.! De todos os insultos que já recebi este é muito forte. Antes de os portugueses o terem escolhido para primeiro-ministro, por duas vezes, já eu andava às turras com ele. Não tenho pachorra para andar a fazer comentários sobre tal personalidade. Na minha terra costuma-se dizer que não se deve gastar cera com ruim defunto, mas não estou na disposição de vir a ser pasto de um Caboclo dos tempos modernos.
Pensando melhor, vou terminar este texto agradecendo ao Capiroba do século XXI. Por que razão? Por ter descoberto talvez a obra prima da literatura brasileira do século XX, "Viva o Povo Brasileiro", que já tenho à minha frente.
Caro Caboclo Capiroba, se não gostar do que escrevo passe em frente. Olhe que eu não me chamo Zernike. Como tudo isto começou com miados, gatos e quejandos digo-lhe o seguinte: se me apetecer "miar", mio, se me apetecer "ladrar", ladro, se me apetecer "grasnar", grasno, se me apetecer "zurrar", zurro.
Meu cara, se tiver fome de "carne humana", vá a Paris e "coma" o Sócrates...


Grécia ameaça não pagar..."bluff" necessário?

1.Decorrem as últimas horas de uma negociação complexa entre a Grécia e os credores privados da República Helénica, visando reduzir a dívida da Grécia em mais de € 100 mil milhões: os credores privados detêm cerca de € 206 mil milhões da dívida pública grega e foi-lhes proposto trocarem essa dívida por nova dívida garantida, com uma perda de 53,5% sobre o valor nominal, o que deverá implicar uma perda superior a 70% sobre os valores a que essa dívida se encontra contabilizada (custo de aquisição, inferior ao valor nominal).
2.Para que seja considerado vinculativo para a universalidade dos credores, a proposta de troca de dívida deverá ter a adesão de 95% dos credores (em peso da dívida detida), não se sabendo nesta altura se será possível atingir essa cifra, até porque entre os credores haverá “hedge-funds” que, encontrando-se protegidos por CDS (Credit Default Swaps) estarão hesitantes em aceitar a troca, pois têm a garantia de receber a totalidade dos créditos...
3.A incerteza quanto ao resultado final transformou-se nas últimas horas num verdadeiro “braço-de-ferro”, com ameaças, públicas e oficiais, por parte da Grécia, de que poderá não pagar NADA aos credores que não aceitarem participar (os chamados “holdouts”) na operação de troca de dívida...
4. A ameaça da Grécia consta de uma declaração emitida ontem pelo “IGCP” lá do sítio, na qual se diz mais ou menos que a Grécia “não contempla dispor de fundos para pagar aos credores privados” que até amanhã não venham a aderir à proposta de troca de dívida.
5.Embora numa linguagem algo eufemística, é clara a intenção de deixar os “holdouts” no deserto...só que nessa situação o “default” da Grécia seria incontornável, lançando o País numa espiral de incumprimento e colocando mesmo em causa o pacote de ajuda oficial, já sancionado pelos líderes europeus, de € 130 mil milhões...
6.Numa tal situação, para além da onda de choque que por certo viria a atingir outras dívidas, nomeadamente a (e a começar na) portuguesa, a principal vítima seria a própria Grécia que se veria a braços com uma situação de extrema gravidade, sendo duvidoso que o BCE pudesse continuar a aceitar dívida pública grega como colateral para o apoio que tem vindo a conceder a bancos gregos...era o fim...
7.Estamos pois perante a ameaça de utilização de uma arma letal, com potencial para disparar em todas as direcções mas com a particularidade de atingir, com especial poder de destruição, o próprio autor dos disparos...
8.É visível o “bluff” desta ameaça, embora os analistas o entendam: os tais credores hesitantes perceberão que, apesar de se poderem prevalecer dos CDS, a situação resultante de um “default” grego será de molde a causar-lhes danos colaterais de grande amplitude, pelo que mais valerá aceitarem a proposta e esquecerem os CDS...
9.Esperemos pois que amanhã, pelo fim do dia, possamos receber a notícia de que a Grécia e os credores privados lá se conseguiram entender...que alívio!

terça-feira, 6 de março de 2012

Paridade e diversidade...

O tema é recorrente. Deve ou não ser introduzido um sistema de quotas? O peso das mulheres nos conselhos de administração é baixo. O desafio lançado há um ano pela Comissária Europeia às empresas europeias cotadas em bolsa para que aumentassem voluntariamente o número de mulheres nos seus conselhos de administração (CA) não resultou. A adesão a este compromisso foi reduzida e o número de mulheres nos CA não registou um aumento significativo. Segundo o relatório da Comissão Europeia ao ritmo da evolução registada neste último ano seriam necessários 40 anos para se atingir uma paridade razoável (pelo menos 40% de ambos os sexos). 
Há, no entanto, contrates muito grandes na Europa. Veja-se o exemplo: Noruega com 36% e Portugal com 5,6%. O contraste tem que ver com a mentalidade, a cultura e a abordagem que é feita ao valor da diversidade do género, por quanto sabemos que sendo os homens e as mulheres diferentes todos perdemos se não formos capazes de uma representação equilibrada que favoreça a complementaridade.
Porque é que as mulheres não chegam ao topo na política e nas empresas? Em parte é explicado pela mentalidade machista mas também pela ausência da cultura do mérito e tem que ver com a cultura instalada que não é favorável a que as mulheres lutem por essas posições e em que é visto com normalidade que as mulheres não cheguem a lugares de topo.
Será que as quotas resolvem o problema? Tenho dificuldade em aceitar que as mulheres ascendam administrativamente a lugares de topo através da imposição de um sistema de quotas, relevando para segundo plano o critério do mérito. É uma desqualificação para as mulheres ascenderem por imposição da lei. O que é fundamental é assegurar o acesso pelo mérito.
A ascensão será um processo lento e gradual, imparável. Com mais mulheres em cargos intermédios a possibilidade de ascensão a cargos de topo aumenta. O caminho bottom up é necessário para alterar a mentalidade instalada e evidenciar os benefícios da diversidade do género.
O relatório Woman Matter da McKinsey vem reiterando que existe uma clara relação entre o desempenho financeiro e organizacional das empresas e o facto de estas terem mulheres nos seus CA. As evidências demonstram que as que têm mulheres em cargos de decisão têm melhores desempenhos  do que as que são exclusivamente geridas por homens. Mais do que a importância do factor feminino, ressaltam as vantagens da diversidade.
Será que se justifica pelos benefícios que advêm da diversidade que o processo seja acelerado com a introdução obrigatória das quotas?

A escola das alparcatas relaxantes

Os alunos das escolas de Rio de Moinhos, Alferrarede e Bemposta trocaram as velhas instalações que frequentavam há anos por edifícios de uma arquitectura minimalista onde o branco impera e os traços são puros. Um ambiente tão puro que para entrar é preciso descalçar e deixar os sapatos num armário à entrada e usar umas sapatilhas brancas…fornecidas pela Câmara Municipal. A escola é especial e ali os alunos absorvem um novo conceito de aprender e de estar na escola. Em nome da limpeza da coerência com o espaço que os envolve e de um ambiente que se tornará mais relaxante, diz a escola.
Transcrito do DN de ontem, não conseguindo deixar o link.
Portanto, uma escola onde se absorve um novo conceito de aprender. Naturalmente sem sapatos, um estorvo à absorção. As sapatilhas facilitam a correnteza da aprendizagem. E, naturalmente, com o barrete que a escola lhes enfia, para não deixar escapar o absorvido. Além de tudo, é mais relaxante!

segunda-feira, 5 de março de 2012

"Atração felina fatal"


"How Your Cat Is Making You Crazy"

March 2012 ATLANTIC MAGAZINE

Confesso que ainda hoje me incomoda saber que em tempos, em grandes civilizações, como a egípcia, os gatos atingiram um estatuto de divindade. Na mitologia egípcia existiu uma deusa com cabeça de gato, Bastet, divindade solar e deusa da fertilidade. Nos templos dedicados à deusa os gatos eram considerados como a encarnação da deusa e tratados em conformidade.

Hoje, face aos conhecimentos científicos, posso pensar que tenha havido motivos para tal atitude.

Sabe-se desde há muito que certos insetos, parasitas e vírus podem condicionar o comportamento dos seus hospedeiros com o objetivo de facilitar a sua sobrevivência e propagação. O exemplo mais bem estudado é de um parasita denominado Toxoplasma gondii que necessita do gato para se reproduzir. Para o efeito consegue alterar o comportamento dos ratos. Os cérebros destes roedores sofrem alterações estruturais e funcionais muito interessantes, perdem o medo aos gatos, inclusive "adoram" a urina destes animais que, só por si, em condições normais, seria alarme mais do que suficiente para se porem a milhas. O cheiro a urina de gatos provoca nos ratos infestados reações idênticas a um estímulo sexual! São inúmeras as experiências que revelam estas mudanças no comportamento, cujo resultado final é fácil de ver, levar o toxoplasma ao intestino do gato para se reproduzir após ter apanhado o rato, aquilo a que alguns cientistas chamam "atracão felina fatal".

Agora vamos aos humanos. O toxoplasma é muito perigoso durante a gravidez, podendo provocar abortamentos ou graves alterações congénitas. Fora desta situação, em princípio, e desde que não haja diminuição do sistema de vigilância imunológica, em que pode provocar a morte, como já aconteceu com os imunodeprimidos, a infestação é assintomática ou idêntica a um quadro pseudo gripal. No entanto, os quistos de toxoplamose, ao localizarem-se no cérebro, podem provocar, também, alterações estruturais e funcionais que começam a ser conhecidas. O toxoplasma não ganha nada em infestar os humanos, porque os gatos não nos comem, mas origina alterações comportamentais, algumas delas muito perigosas, como lentificação ao reagir em situações que exigem reflexos rápidos, aumentando substancialmente o risco de acidentes de viação, duas vezes e meia mais dos que não estão contaminados, diminuição do medo, e sem medo os seres humanos não conseguem aperceber-se dos riscos, aumento substancial do risco de esquizofrenia com destruição da massa cinzenta, além de modificações dos neurotransmissores cerebrais. Em suma, durante muito tempo não se suspeitava que os humanos pudessem ser manipulados como os ratos. Não podemos esquecer que partilhamos muitos genes com estes últimos e que vivemos muitos mais anos, fazendo com que os efeitos possam fazer-se sentir com características não pensadas. Ou seja, a "atração felina fatal" também se observa nos seres humanos e poderá explicar muitas outras coisas, como a "gatomania" tão visível na internet e redes sociais. Há quem pretenda explicar esta propensão para o "amor aos felinos" como uma forma de comunicar em que os gatos, nas suas poses e comentários, substituem a vontade dos promotores e divulgadores, os quais necessitam desta nova forma de comunicação para se exprimirem. Há mesmo teses que apontam para esta explicação. No entanto, de acordo com estudos epidemiológicos e biológicos, não é de excluir que muitos amantes e donos dos gatos possam sofrer de toxoplasmose a qual pode provocar modificações estruturais e funcionais dos seus cérebros nada despiciendos. Sendo assim, quem diria que o toxoplasma chegasse ao ponto de entrar na internet induzindo os "amantes de gatos" a partilhar as suas experiências, usando novas formas de linguagem, mas podendo igualmente ser responsáveis por acidentes, sobretudo de viação, porque o atraso na resposta a certos estímulos é muito significativo, e, até, ser corresponsável por graves doenças psiquiátricas, que não se limitam à esquizofrenia, também aumentam os suicídios e homicídios.

Talvez agora consiga explicar o comportamento dos antigos egípcios que adoraram Bastet, que criaram templos dedicados a esta divindade e que consideravam os gatos como a reincarnação da deusa. Às tantas a toxoplasmose deveria ser muito prevalente naquele tempo...

ENVC: "novela" sem fim à vista?

1.Tenho alguma dificuldade em perceber, com nitidez, o que realmente se passa nesta altura na empresa pública dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC): as notícias vão saindo a conta-gotas, quase sempre de forma pouco clara, apenas se percebe que esta novela parece ainda longe do seu final e, pior, que os contribuintes continuam a financiar uma situação insustentável e imoral...
2. Já aqui escrevi, há alguns meses, que me tinha parecido um erro quase infantil (chamei-lhe “de palmatória”) a decisão governamental de rejeitar a solução que havia sido aprovada pelo anterior executivo e adoptada pelo anterior CA da Empresa, a qual implicava uma forte redução dos custos de estrutura e uma possível saída para os défices de exploração insustentáveis que continuam a acumular-se...
3.Movido quiçá por um populismo fácil, perante as reacções hostis da comunidade local, e por uma ilusória convicção de mestria para resolver problemas empresariais de grande complexidade, o responsável governamental por este dossier prometeu uma solução “definitiva” (i) até final de Julho do ano passado, (ii) depois até final de Setembro (iii) depois até final de Outubro, (iv) depois até final de Dezembro, (v) depois até final de Janeiro do corrente ano...
4. ...estamos já em Março e continua o problema (sem surpresa, diga-se) a não ter uma solução! Ou melhor, a solução continua a ser nós, os contribuintes, funcionarmos como sustentáculo dos elevadíssimos prejuízos de uma Empresa manifestamente inviável...
5. Surgem agora notícias que dão conta de divisões no seio da Empordef, Holding estatal que engloba os ENVC, quanto ao que fazer com esta Empresa, sendo mesmo anunciada a demissão de um dos administradores da Empordef que estaria ligado ao dossier ENVC.
6.Pelo que me foi dado ouvir, não estou convencido que esta demissão tenha sido motivada por muito boas razões...pareceu-me, salvo erro de apreciação, que o administrador em causa alimentaria ideias desenvolvimentistas quanto ao futuro da Empresa, pretendendo envolve-la em diversos projectos de grande vulto...
7....E tenho a noção de que esse suposto envolvimento – que certamente só seria possível com a assunção pelo Estado dos riscos financeiros inerentes aos projectos a concretizar, bem como de um apoio financeiro imediato para permitir o seu arranque - viria em última análise a gerar perdas cada vez maiores, agravando a precaríssima situação em que a empresa se encontra e a dimensão da factura final a pagar...
8.Em suma, a novela dos ENVC parece não ter fim...pelo menos enquanto os nossos bolsos, de contribuintes indefesos, não ficarem integralmente vazios!

sábado, 3 de março de 2012

Dia mundial da mulher

Sedução (Inês Massano)


Há semanas, uma amiga telefonou-me, queria conversar comigo e pedir uma opinião. Claro, respondi, sábado de manhã no meu local favorito. Nem foi preciso indicar onde, os meus hábitos cristalizam-se com a maior naturalidade acabando por ser identificados pelos amigos e conhecidos. Entre algumas lamúrias, naturais, e mesmo pertinentes, motivadas por diversos fatores, acabou por pedir a minha ajuda para o Dia Mundial da Mulher. Queria que a ajudasse a concretizar um programa. Sinceramente não estava à espera de um pedido desta natureza. Surpreendido, comecei a pensar como é que a poderia ajudar. A minha amiga queria uma reunião, um simpósio, uma conferência, enfim, o habitual na comemoração deste dia. Entretanto, já tinha planeado uma exposição de quadros e de desenhos sobre mulheres. A autora é a minha filha do meio, que, numa das suas arrancadas artísticas, tinha começado a desenhar mulheres, sem lhe passar pela cabeça o dia mundial da mulher ou coisa que o valha. Pancadas! A minha amiga teve conhecimento de alguns dos quadros, acabando por a convidar a fazer uma exposição na Casa da Cultura de Santa Comba Dão. Não preciso dizer a satisfação que tive ao tomar conhecimento do convite.

Agora tinha de dar mais um contributo, desta feita em direto. Por que é que não convidas personalidades de áreas e doutrinas de pensamento diferentes para falarem sobre mulheres, mas tem de ser só homens. Homens a falar de mulheres no dia mundial da mulher. Penso que seria muito interessante. Depois tecemos as razões e pessoas para esta abordagem. Ficou convencida. Ao sair disse-me que queria que fosse eu a moderar o debate. Eu? A moderar um debate sobre mulheres? Tentei fugir, mas não me deixou, filou-me de tal forma que não tive qualquer hipótese. Agora que o momento se aproxima, começo a ficar um pouco apreensivo, porque o tema "mulher" não é nada fácil, mesmo nada, e ainda por cima com muito público feminino a focar os seus olhares e ouvidos sobre o pessoal. Nem sei como hei de começar. Às tantas vou socorrer-me de uma resposta que Stephen Hawkins deu no decurso de uma entrevista a propósito do seu septuagésimo aniversário. O entrevistador perguntou-lhe como é que passava as tardes. Hawkins respondeu através do seu computador: a pensar na mulher. Na mulher? Sim. Porquê? Porque é o maior mistério do universo.

Entretanto, tive de ajudar a carregar outras peças de arte da minha filha para a exposição. Quando cheguei, e vi no chão dezenas de quadros, a maioria dos quais já conhecia, como é óbvio, senti uma explosão de sentimentos: inquietação, provocação, esperança, medo, liberdade, sedução, dor, sofrimento, vida, alma, tristeza, alguma alegria e mistério. Muitos mistérios. De facto, a mulher é sem sombra de dúvida o maior mistério do universo...

sexta-feira, 2 de março de 2012

É o "deixa andar"...

Não foi só a justiça que não funcionou. Nada funcionou porque está instalado o mau hábito que temos de procurar a culpa nos outros, de “sacudirmos a água do capote”, de nos sujeitarmos à mediocridade do funcionamento das estruturas sociais, económicas e judiciais que nós próprios criámos. Tudo falhou, também falharam os apoios sociais de uma mão cheia de instituições, umas nacionais e outras locais, que, pelos vistos, desconheciam o caso ou tendo dele conhecimento negaram a evidência.
Mas falhou, também, uma mão amiga, falhou toda uma sociedade por negar princípios e valores básicos. Não houve uma alma caridosa que se interessasse por este caso.
É o país que temos, muito mais interessado em auto-estradas e catedrais do consumo, agora desertas pela crise, do que no verdadeiro bem-estar dos seus cidadãos. Esta história é um péssimo exemplo do que somos, mostra-nos bem a profundidade e a natureza da nossa crise, o quanto temos que mudar se quisermos ser um país decente feito de pessoas decentes.
Alguém falava à hora do almoço que até parece que estas situações são de agora, toda a gente sempre soube que o país está cheio de “contentores”, qual é a novidade, qual é a admiração! Pois, digo eu, é aqui que está justamente o mal. Portugal é um país de conformados. É o "deixa andar" que havemos de sobreviver...

Lá foi tudo o que Krugman fiou!...

«Detesto dizê-lo, mas não faria as coisas de forma muito diferente daquilo que está a ser feito em Portugal». Paul Krugman

Bom, lá se foi todo o investimento da esquerda no Prémio Nobel. Como diziam na minha terra: lá foi tudo o que Marta fiou!...

Give Greece a chance...

1.A quem tivesse lido a edição do F. Times do último fim-de-semana não passou certamente despercebido um enorme ANUNCIO publicitário, ocupando a totalidade da página 5, com o título que encima este Post, subscrito e patrocinado por um grupo de “leading Greek business people”.
2. Na parte final do ANUNCIO pode ler-se, para além da identificação (genérica) do grupo patrocinador, o seguinte “Este anuncio é uma iniciativa de serviço público, financiada por um grupo de...(acima mencionado). O nosso objectivo é assegurar que os sacrifícios que estão a ser feitos por cada grego, ao abrigo do mais duro programa de austeridade da história moderna, não sejam em vão”.
3.No corpo do ANÚNCIO encontra-se um conjunto de frases em que é dado relevo ao programa de austeridade em curso, indicando alguns números mais ou menos conhecidos, bem como ao enorme impacto que esse programa tem na vida diária dos gregos.
4.Especial relevo é colocado na adopção das medidas de natureza estrutural, recentemente votadas pelo parlamento grego, expressando a expectativa de que estas mudanças abrem “a chance to create a new Greece, a modern, productive and creative Greece, with a sustainable future in Europe”.
5.Acrescentam que mais austeridade será necessária ainda, apesar de o desemprego já ter atingido o altíssimo patamar de 21%...e do país entrar no 5º ano consecutivo de recessão económica...
6....que estão disponíveis para fazer mais sacrifícios, que estão certos de que os compromissos agora assumidos vão ser cumpridos, que se sentem europeus que aspiram a desempenhar um papel construtivo dentro da Europa...
7. E a única coisa que pedem, em conclusão, é que...”give Greece a chance”!
8. Curiosa (embora também dispendiosa) forma de intervenção pública da classe empresarial grega, não negando responsabilidades nem fugindo aos sacrifícios...bem diferente por exemplo do "Manifesto dos 30" há poucas semanas divulgado em Portugal e subscrito por um valente punhado de grandes amigos da Grécia, repetindo a habitual catilinária anti-liberal...
9.Pois bem, com a aprovação do pacote de ajuda oficial adicional de € 130 mil milhões e com a negociação do perdão de mais de € 100 mil milhões em vias de ser concluído com os credores privados do Estado Grego,”the chance has been given to Greece”.
10.Cabe agora aos Gregos aproveitar esta “chance”...muito boa sorte é o que sinceramente lhes desejo!

Chuva!



Uf!, hoje chegou a chuva, foi mesmo bonito ver a chuva a cair e voltar a sentir o cheiro da terra molhada. Depois dos “frios polares”, da “seca severa” e dos incêndios serôdios, chegou a chuva. Esperemos que não comecem as inundações por causa da austerida aplicada à limpeza das sarjetas

O recado da vizinha

Vive sozinha no apartamento para onde se mudaram ainda o marido era vivo, em baixo havia um centro comercial pequeno onde podiam facilmente comprar o que precisassem, ambos eram muito ciosos da sua autonomia e independência e a casa nova fazia parte dos planos de uma velhice tranquila e confortável. Não conhece os vizinhos porque as pessoas mal se encontram, é tanta gente, bom dia boa tarde se se cruzam nos elevadores, é tudo e nunca esperou mais do que isso.
Nunca tiveram filhos, ela ficou sozinha, tentando conservar o seu espaço e a sua organização de vida sem depender de mais ninguém, apesar dos seus 81 anos continuou a tratar dos seus assuntos com o cuidado e o método que o marido sempre tinha posto nas coisas. As amigas de sempre foram morrendo ou estão incapacitadas, vai fazer-lhes companhia se a distância ainda lhe permite conduzir o seu automóvel, em alternativa telefona-lhes para pôr a conversa em dia, mas de resto dá pequenos passeios a pé ou aceita um convite para lanchar ao domingo em casa da família mais chegada.
Quando, há dias, a febre lhe subiu aos 39 graus, sentiu o terrível peso da solidão, queria água e não conseguia caminhar até à cozinha, lembrava-se dos comprimidos mas tinha frio, tanto frio, não podia levantar-se de noite para os ir buscar ao armário. De manhã, quando chegou a mulher a dias, gostou pela primeira vez daquela mulher estranha que lá ia fazer limpezas duas vezes por semana, em substituição da velha empregada que se reformara há três meses. A mulher, que até aí parecia de poucas falas e modos secos, revelou-se de um carinho enorme, foi a correr comprar pão, foi à farmácia pedir conselho e avisou a família, não a deixou um minuto até chegar uma das sobrinhas. No dia seguinte, mesmo sem ser o dia de lá ir, tocou à porta. Trazia um recado escrito de outra senhora em casa de quem também trabalha, no prédio ao lado, mandava o nome e o número de telefone, dizia que lhe desejava as melhoras e que não hesitasse em falar-lhe se precisasse de ajuda fosse a que horas fosse, “temos que ser uns para os outros”, dizia ela no papel.
Felizmente não era nada de cuidado, uma gripe apenas, dizia ela depois de passado o susto, mas nesta idade tudo é preocupação, sabes, algum dia temos que ir, o pior é ficar dependente e dar maçadas aos outros, mas o que me animou foi aquele recado, ainda há gente amável, não é como na televisão que só vemos mortos ao abandono e gente que não quer saber de ninguém, ainda há gente boa, não achas?

quinta-feira, 1 de março de 2012

Erro da justiça.

Acabo de ler uma notícia ilustrativa de uma gravíssima injustiça cometida pelo sistema judicial espanhol. Um homem que esteve preso treze anos por um crime que não cometeu. Tinha sido condenado a 36 anos de prisão. Pode acontecer em qualquer país? Com certeza! Mas revela algo que não posso deixar de comentar, a justiça também falha e manda para a prisão inocentes. O milhão de euros de indemnização não vai remediar os estragos.
Erro da justiça. Dói! E muito.

O insustentável erro da funcionalização das empresas públicas

Admite-se a dificuldade, mas a política do governo em relação às empresas públicas não tem sido um sucesso. As reestruturações vão demorando e as privatizações efectuadas foram apenas as óbvias. Não se conhecem contratos-programa que definam o nível de serviço exigido, com direitos e deveres pormenorizados e objectivos estabelecidos. Até ao momento, e para além dos anunciados projectos em curso, nomeadamente na área dos transportes, a medida mais notada, mas também a mais nociva, foi a da diminuição da remuneração dos gestores e a do corte dos subsídios de férias e de Natal aos colaboradores, por equiparação aos funcionários públicos.
Medida, todavia, já excepcionada para os gestores de algumas empresas públicas que se encontram em concorrência com operadores privados, certamente para evitar a fuga dos melhores que, aliás, já começou a acontecer. Mas, também aqui, há uma insustentável contradição na medida. Se se pretendeu, e bem, proteger a remuneração dos gestores, racional, lógico e obrigatório seria também preservar a remuneração dos colaboradores, atingidos pelos cortes nos subsídios. Não se vê qualquer razão lógica para este tratamento diferenciado.
Se todas as empresas devem ser bem geridas, as empresas públicas que se justifiquem deviam-no ser ainda melhor. Porque o capital pertence aos cidadãos e o serviço que prestam reflecte-se na vida diária de cada um. É por isso que deviam ter os melhores gestores, premiados se ultrapassam os objectivos, sancionados se, injustificadamente, ficam aquém do contratado. E ter os melhores colaboradores, devidamente motivados. Mas ter os melhores gestores e os melhores colaboradores é ter gestores e colaboradores bem remunerados.
O Governo tem que, definitivamente, decidir o que fazer com as actuais empresas públicas. Acabe o Governo com as que não acrescentam qualquer valor e remunere bem gestores e colaboradores daquelas que se possam justificar. Fazer o contrário e baixar salários para dizer que se fez é somente medida ilusória e popularucha, além de provocar reacções negativas das boas empresas públicas. Com todos os inconvenientes que daí resultam, para a população ou o para o governo. Declaração de interesses: não sou gestor público nem colaborador de qualquer empresa pública.

Histórias da concorrência

Há dias ficámos sem wi-fi cá em casa porque se avariou um aparelho misterioso chamado router. Ligámos para a empresa fornecedora dessas ligações todas e disseram-nos, à 3ª tentativa, que tínhamos que comprar um router novo, custava € 30 e era fácil de colocar. Demorámos uns dias até ir comprar o aparelho e quis o acaso que, no serão em que nos preparávamos para o instalar, nos batesse à porta um daqueles simpáticos contratados à comissão pela empresa concorrente, a oferecer um “pacote” com tudo o que já tínhamos mas com umas melhorias técnicas de velocidade e mais não sei quê. Antes que entrem nas particularidades técnicas costumo dizer logo que não me interessa, que o jantar está a queimar-se ou qualquer coisa daquelas que desarma os mais teimosos, mas naquele dia lembrei-me de me queixar dizendo que a nossa ligação à modernidade estava ameaçada por se ter estragado um tal router e que, sendo assim, nem queria ouvir falar em upgrades, descontos e velocidades. O rapaz abriu um sorriso cativante e disse logo, “mas nós também pomos um router novo, faz parte da instalação”, aí já quis ouvir a conversa, “ai, sim?”, enfim, para encurtar o post assinei logo o novo contrato, realmente melhor e menos uns trocos que o outro, além de terem aceite a minha condição sine qua non de não implicar nem mais um comando extra, nem pensar!, nem mais modem nenhum em cima dos que já se amontoam à volta do computador, era troca por troca. Apesar das minhas cautelas ainda estive para desistir quando percebi, no dia da instalação, que tencionavam esticar um fio horroroso ao longo das paredes do corredor, não me tinham falado nesse detalhe inultrapassável, mas afinal não foi preciso e tudo acabou em bem.
Uma semana depois, recebo chamadas insistentes do operador anterior, queriam saber o motivo pelo qual tinha cancelado o contrato. Expliquei que me ofereceram uma proposta melhor e mais barata, é simples. A senhora impacientou-se, “então porque é que não nos contactou, nós também temos um pacote desses, ainda melhor porque já era cliente”. “ Contactei, sim, poucos dias antes, quando se avariou o router”, esclareci, “e não me propuseram coisa nenhuma, na verdade mandaram-me comprar a peça e eu que a instalasse se quisesse, ponto final”. Nova impaciência, “isso é porque não ligou para o departamento certo, tinha que ser para a área comercial, a senhora não fez como devia, nós também substituíamos o router sem pagar mais por isso, se quisesse este novo pacote”. “Ai sim, e como é que eu vou adivinhar qual é o departamento que atende o telefone, não me explica? E se tinham uma proposta melhor porque é que não me telefonaram na altura em vez de estarem agora tão preocupados com o meu bem estar?”, e a senhora respondeu-me que lamentava mas que a oferta era só para os clientes que tivessem tido outras propostas da concorrência, cada um olha por si…”
Estou satisfeita por ter mudado de fornecedor, espero ter mais sorte com as noções que tenham de fidelização mas, pelo sim pelo não, vou-lhe ligar de vez em quando a falar das propostas da concorrência.