1. Foi esta semana noticia, rapidamente omitida, uma história curiosa que ilustra bem como se continua alegremente a desperdiçar recursos neste encantador País - sempre em nome do interesse público e de estratégias de desenvolvimento que, apesar de perfeitamente obscuras, são proclamadas como verdades indiscutíveis...
2. Pois bem, esta notícia dizia que o comboio Celta, que faz 2 X dia a ligação directa Porto-Vigo, entre Julho de 2013 (altura em que recebeu beneficiações importantes, ditadas por razões de “desenvolvimento estratégico”, muito impulsionado pelas autarquias da região) e Março de 2014, transportou em média 26,9 passageiros por viagem (representando uma taxa de ocupação de 12%) e acumulou prejuízos (apenas operacionais, suponho, não contará os financeiros) de € 1,2 milhões.
3. Não é evidentemente por causa dos prejuízos acumulado pela Comboios de Portugal (ex-CP até 2009) com esta patética exploração do comboio Celta, como tb não é por causa dos prejuízos que a Câmara de Sintra acumula com a manutenção do comboio que liga a cidade até à encantadora praia das Maçãs, nem é por causa de cada uma das rotundas que enchem o País de norte a sul e de leste a oeste...
4. ...nem é por causa de cada uma das muitas outras infra-estruturas que proliferaram neste País nos últimos 15 ou 20 anos, desde AE quase sem tráfego até aos estádios de futebol quase sem utilização ou até à miríade de pavilhões multi-usos e muitas outras obras sumptuárias...
5. ... que o País chegou ao ponto de sobre-endividamento que nos sufoca e impõe níveis de tributação claramente excessivos e desalinhados do nosso estádio de desenvolvimento.
6. O País chegou aonde chegou por causa disso tudo junto, e sobretudo por causa do permanente equívoco em que temos vivido e em que pelos vistos queremos continuar a viver em relação às prioridades da política económica – basta atentar na esmagadora vaga das mensagens de fantasia e promessas de ilusões que se vão ouvindo nesta folclórica e pouco inspirada campanha eleitoral que hoje atinge o seu termo.
7. O infeliz episódio do comboio Celta é exactamente apenas mais um episódio ilustrador do nosso talento para desperdiçar recursos e de contrair encargos para o futuro, indefinidamente, sempre a coberto de excelentes slogans – desenvolvimento regional, solidariedade nacional, estratégia de desenvolvimento, etc, etc.
8. E não esqueçamos que a dívida financeira da desamparada Comboios de Portugal lá teve de ser integrada no perímetro da dívida pública, agravando os indicadores desta, exactamente por não ter receitas que cubram minimamente os seus custos...pudera, tem de levar às costas estes investimentos estratégicos...


