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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Comboio CELTA: interessante exemplo de investimento "estratégico"...

1. Foi esta semana noticia, rapidamente omitida, uma história curiosa que ilustra bem como se continua alegremente a desperdiçar recursos neste encantador País - sempre em nome do interesse público e de estratégias de desenvolvimento que, apesar de perfeitamente obscuras, são proclamadas como verdades indiscutíveis...

2. Pois bem, esta notícia dizia que o comboio Celta, que faz 2 X dia a ligação directa Porto-Vigo, entre Julho de 2013 (altura em que recebeu beneficiações importantes, ditadas por razões de “desenvolvimento estratégico”, muito impulsionado pelas autarquias da região) e Março de 2014, transportou em média 26,9 passageiros por viagem (representando uma taxa de ocupação de 12%) e acumulou prejuízos (apenas operacionais, suponho, não contará os financeiros) de € 1,2 milhões.

3. Não é evidentemente por causa dos prejuízos acumulado pela Comboios de Portugal (ex-CP até 2009) com esta patética exploração do comboio Celta, como tb não é por causa dos prejuízos que a Câmara de Sintra acumula com a manutenção do comboio que liga a cidade até à encantadora praia das Maçãs, nem é por causa de cada uma das rotundas que enchem o País de norte a sul e de leste a oeste...

4. ...nem é por causa de cada uma das muitas outras infra-estruturas que proliferaram neste País nos últimos 15 ou 20 anos, desde AE quase sem tráfego até aos estádios de futebol quase sem utilização ou até à miríade de pavilhões multi-usos e muitas outras obras sumptuárias...

5. ... que o País chegou ao ponto de sobre-endividamento que nos sufoca e impõe níveis de tributação claramente excessivos e desalinhados do nosso estádio de desenvolvimento.

6. O País chegou aonde chegou por causa disso tudo junto, e sobretudo por causa do permanente equívoco em que temos vivido e em que pelos vistos queremos continuar a viver em relação às prioridades da política económica – basta atentar na esmagadora vaga das mensagens de fantasia e promessas de ilusões que se vão ouvindo nesta folclórica e pouco inspirada campanha eleitoral que hoje atinge o seu termo.

7. O infeliz episódio do comboio Celta é exactamente apenas mais um episódio ilustrador do nosso talento para desperdiçar recursos e de contrair encargos para o futuro, indefinidamente, sempre a coberto de excelentes slogans – desenvolvimento regional, solidariedade nacional, estratégia de desenvolvimento, etc, etc.

8. E não esqueçamos que a dívida financeira da desamparada Comboios de Portugal lá teve de ser integrada no perímetro da dívida pública, agravando os indicadores desta, exactamente por não ter receitas que cubram minimamente os seus custos...pudera, tem de levar às costas estes investimentos estratégicos...

A trovoada e as eleições europeias

No fim da campanha para as Europeias, e depois de palavras e mais palavras, comícios, almoços, jantares, arruadas, algum candidato a deputado explicou a importãncia do Parlamento Europeu, o que pretende lá fazer, os seus propósitos e objectivos, o que daí pode resultar para a UE e para Portugal? Para além de aprofundar a Europa (ou afundá-la de vez com tamanha verborreia)?
Referiu algum que o Parlamento Europeu pode ser mais do que um grupo excursionista entre Bruxelas e Estrasburgo, no intervalo de constantes deslocações deputacionais por todo o mundo nas mais esotéricas missões?
Ou que o Parlamento Europeu serve para mais alguma coisa do que traçar directivas sobre o tamanho dos rótulos dos refrigerantes ou sobre o jacto de água nas sanitas, talvez das mais relevantes entre as suas inúmeras e pitorescas preocupações? 
Noutros tempos, quando trovejava, rezava-se a Santa Bárbara para afastar a trovoada para onde não causasse prejuízos. Depois dos raios e coriscos desta campanha, dizem muitos que a abstenção irá ser colossal. Mas eu rezo para que a votação seja maciça. De forma, como na trovoada, a enviá-los para bem longe, tão longe que não chegue cá o prejuízo. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Teresinha



A Teresinha faz parte dos meninos especiais. Nasceu num dia de primavera, lindo, quente, luminoso e muito cheiroso. 
A menina pintou com cores de alegria o quadro de uma família feliz. O desejo de beijar e acariciar um novo ser que perseguiam há muito surgiu naquele belo e inolvidável dia. 
Sempre que alguém nasce as almas dos mais velhos sentem renascer o maior bem da vida, o amor sem limites. O amor de um poço sem fundo, o amor que apaga qualquer tipo de dor, o amor que, transformado na mais bela cor jamais vista, a cor da felicidade, onde todas as outras cores querem mergulhar, é o maior hino de louvor ao criador. 
Teresinha nasceu. Ao fim de algum tempo a dor da diferença provocou sofrimento e temor sobre o futuro de alguém que também é gente. 
Depois surgiu o sorriso. Um sorriso nunca visto, nada igual aos demais, era algo sedutor, brilhante e confiante, porque mostrava a sua forma de ver, cheirar e amar o mundo como nunca tinha sido observado pelos familiares. 
Sorriso diferente. Sorriso de inocência e de esperança, sorriso próprio de um ser confiante, sorriso que acalenta amor, afasta o temor, apaga a dor e faz pensar que o melhor da vida é mesmo ser diferente...

Barbeiro

Um dia meio estranho. O sol desapareceu e deu lugar a nuvens de maio carregadas de tristeza que depois do almoço se puseram a chorar aos gritos. Um dia estranho para ir à baixa onde me enfiei no barbeiro. Esperei um pouco mais do que é costume, mas deu para ver a arte de usar a navalha nos pelos compridos, encaracolados e despenteados que emergiam de uma face magra, esquálida e castanha escura revelando que a maioria dos dentes já foram à vida, uma vida "dura" sob o sol da vida. Os gestos bem estudados do artista da tesoura e da navalha eram bem visíveis. A forma de colocar a mão, a cabeça descaída, a língua a querer a sair, revelavam cuidados e gosto no que fazia. O operado, deitado com os olhos fechados, gozava com o calor da espuma do sabão e o frio cortante da lâmina a percorrer a sua cara. Tratava-se de alguém que podia bem ser um arrumador de carros profissional. O processo de barbear conseguia ser mais lento do que o cortar do cabelo. Era muito magro e tinha uma maçã de Adão muito saliente. Quando a lâmina chegava àquele sítio até tremia com receio de poder sacá-la com um simples gesto. Mas não, subia delicadamente como se fosse uma prancha de surf a cavalgar uma enorme onda. Só na parte final é que o barbeiro se meteu com ele, certo de que qualquer reação mais intempestiva, no decurso do ato operatório, poderia sangrá-lo. O silêncio da escultura deu lugar a uma conversa mais animada em que a aguardente veio à superfície. - Não, não bebo nada disso. Aqui não entra. E faz o gesto apontando para glote. - Não. Nem pensar. Há muito que não bebo isso. De quando em vez vai um Porto, isso sim, mas nem sempre. Calou-se durante algum tempo, até que rematou, mostrando um sorriso desdentado:- Só sumo de uva prensada, mas negra, só negra. A forma como disse revelou que devia beber bem. A magreza que passeava era a sua sombra, e a colherada do outro barbeiro deu para perceber que comia pouco. - Pois é. Como apenas para sustentar o esqueleto. Não tenho muita fome. Como porque tenho de comer. Claro, nem que seja para absorver os litros de tinto que deveria ingerir. Mas a sua observação, de que o dito deveria ser negro, tinto, fez-me recordar alguém que mereceu o apodo de conselheiro Acácio, e que na sua verborreia, mais típica de um feirante a vender a banha da porca do que a sua sua condição de médico, dizia sempre, vinho sim, vinho faz bem à saúde, mas só do tinto, tinto, repetia com uma surpreendente e arrogante sabedoria que acabava por por os meus cabelos numa raiva a raiar a histeria. Levantou-se sem barba, apenas com um tecido brilhante e acastanhado a tapar a sua caveira em que faltavam pelo menos os incisivos, com o cabelo sujo e descabido para o ambiente de uma barbearia e,na perspetiva de ter de pagar o serviço, adiantou: - Agora é que é o pior! O barbeiro, matreiro e velho, na idade e na experiência, que abanava a bata, limpando-a dos resíduos pilosos, disse: - Qual quê! O cliente enfiou um boné roto e sujo, tapando a miséria dos seus cabelos e tirou do bolso das calças um maço, grosso, de notas de vinte euros, no meio das quais boiavam algumas de dez. - Chiça! O gajo até parecia um americano a sacar das notas. Retirou uma, de vinte, e disse: - Chega? O barbeiro sorriu e nem lhe respondeu. Fez o troco e deu-lhe.
Deve ter ido beber um Porto.

Mais um seguro tóxico

Mais uma vez, agora em Santa Maria da Feira, Antonio José Seguro prometeu, "sob palavra de honra", acabar com a TSU dos pensionistas. Textualmente: "fizemos as contas e quero mais uma vez garantir-vos sob palavra de honra que, uma vez chegados ao Governo, voltaremos a dar aquilo que é um direito dos pensionistas e dos reformados e devolveremos as reformas, acabaremos com a TSU (taxa social única) dos pensionistas".
Mas por que é que Seguro promete sempre acabar com o que não existe (a TSU dos pensionistas), e não promete acabar com o que realmente existe, que é a CES-Contribuição Extraordinária de Solidariedade- ou, na nova versão, Contribuição para a Sustentabilidade da Segurança Social? 
Para, depois, poder dizer que nunca prometeu acabar com a CES? 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Entre o direito e o dever...

É uma iniciativa de muito mau gosto. Protestarem nos aeroportos para chamar a atenção dos turistas que nos visitam que os polícias são mal pagos em Portugal e que trabalham desmotivados. Não duvido, acompanhei, aliás, com muita preocupação, as manifestações dos polícias em frente à Assembleia da República. Mas não vale tudo. Somos conhecidos por sermos um país seguro, com baixa criminalidade, uma vantagem competitiva e um ponto muito importante para quem nos procura para fazer umas férias seguras. É uma campanha que dá uma má imagem de Portugal. Um péssimo "cartão de visita". Tenho pena que tenhamos chegado a este estado de coisas: pelos polícias, que prestam um serviço público fundamental, mas também pelo país que merece melhor. Esperemos que este triste episódio não seja muito mediático e não tenha cobertura estrangeira...

Um seguro mais que tóxico!

"Fizemos as contas. Não aumentaremos os impostos".
António José Seguro, sábado, 17 de Maio, no encerramento da Convenção Novo Rumo
Nessa mesmíssima sessão, AJSeguro assumiu 80 compromissos. Entre eles, dois novos impostos, sobre  fundos de investimento e sobre transacções financeiras. 
No mesmo dia e à mesma hora, um retrato Seguro 
(Retirado da edição impressa do DN de hoje, 20 de Maio, página 8, não sendo possível incluir link)

Fé na Europa...ma non troppo.

Exibe-se nas redes sociais o "curriculo" de Francisco Assis como deputado europeu no último mandato. Dizem que o repetente candidato do PS não foi particularmente assíduo nem contribuiu com grande esforço para o trabalho do Parlamento Europeu.
Não sou capaz de avaliar o rendimento de um parlamentar europeu. Que Francisco Assis não terá uma fé tremenda nas instituições da Europa, isso eu compreendo. Eu também não tenho e julgo que por essa Europa fora são cada vez mais os que olham para os órgãos da União como centros institucionalizados de uma aristocracia que não manda na burocracia, antes convenientemente se vê mandada por esta.
Conhecendo os candidatos e os tiques da política interna, atrevo-me a dizer que Assis e os demais candidatos, exceção feita a Carlos Coelho, têm a ambição de regressar a lugares na política deste pequeno mas apetecido retângulo, compatíveis com o (que julgam ser) seu estatuto partidário. 
Bem pago, sem excessiva exigência até porque os apoios ao trabalho parlamentar facilitam as tarefas, muita mobilidade para trabalho político-partidário e exposição mediática q.b., o lugar de deputado europeu é o ideal para quem se vê ou forçado a um exílio partidário ou considera um afastamento tático a melhor das opções de vida...

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Um seguro para incautos: tóxico e com prémio elevado II

Um político seguro de si teria vergonha de apresentar publicamente os compromissos que ontem Seguro assumiu. É que eles, ou não alteram uma vírgula da política que tanto criticou, ou são conceitos vazios, meras palavras sem significado real.
Seguro criticou o roubo praticado pelo governo ao subir os impostos, mas agora não os diminui, limita-se a dizer que não os aumenta. Toma assim posse do roubo.
Seguro criticou a CES, considerou-a mesmo inconstititucional.  Mas agora propõe-se mantê-la, embora diga que a vai anular, usando o vergonhoso sofisma de dizer que acaba com a TSU dos pensionistas, simulando que uma figura não existente significa o mesmo que a CES, que existe mesmo. O que era inconstitucional passa rapidamente a constitucional.
Mas Seguro compromete-se a "lutar por uma nova agenda para a Europa”. Qual seja, não o diz, foca-se na “agenda”, termo tão vago que, nele tudo cabendo, acaba por nada caber. E, sobretudo, agenda que nada resolve no curto prazo que possa aliviar os portugueses. Claro que empunhará o facho dos eurobonds, mas aí nem agora o camarada Martin Schulz, Presidente do PE e candidato a Presidente da CE , nem, antes, o camarada Hollande, já o suportam. 
Um compromisso, no entanto, estou certo que é seguro conseguir, essa façanha de “reduzir para metade a taxa de abandono na escolaridade obrigatória”. Basta impor à escola a inclusão na perpetuidade e a coisa fica feita. É bem seguro. E bem asseguradas ficam umas ligeiras infracções disciplinares, género violações de colegas, como vem sendo noticiado, e o compromisso fortalece. 

O velho norte e o novo sul.


Esta impressiva imagem sintetiza o crescimento do produto nos vários países e regiões do mundo (fonte indicada na imagem). A sul, quase todas as economias crescem a um ritmo superior a 3%, enquanto a América do Norte e a velha Europa apresentam taxas de crescimento dos produtos internos abaixo, e em muitos casos, muito abaixo deste valor. E pensar que ainda há um par de anos o discurso oficial era o de um diálogo com vista à ajuda do sul pelo norte! Discurso que, por este caminho, tal como o mundo, corre o risco de rapidamente se inverter...

A crise descrita por Zapatero - um testemunho impressionante

"As medidas poderão adoptar, segundo as situações nacionais, a forma de um aumento da despesa pública, de reduções prudentes da pressão fiscal, de uma diminuição das cargas sociais e de apoio a determinadas categorias de empresas e de ajudas directas às famílias, em particular as mais vulneráveis." - Plano Europeu de Recuperação Económica,Dezembro 2008 (in EL Dilema, pág. 162)

Tenho estado a ler, interessadíssima, o livro El Dilema, de Jose Luis Zapatero, um emocionante - e muitas vezes emocionado - relato dos anos quentes da crise, desde 2008 a 2011. Aí se conta, na 1ª pessoa, é certo, mas de forma muito documentada, todo um processo político que começou com a aparência de uma serenidade firme, todos unidos a governar esta região europeia que se auto proclamava líder do futuro, depois o modo como foram recebendo e reagindo com pouca preocupação ao descalabro financeiro do EUA, mesmo a Grécia, já a apresentar pedidos de socorro alarmantes, a merecer apenas um apagado lugar na lista da prioridades, depois a aceleração, a confusão, as entrelinhas, o pânico e a mudança brutal de discurso, mas não só de discurso, as baterias apontadas para novos "culpados", as taxas de juro enlouquecidas, os números que antes eram tão elogiados e agora recebidos de cenho cerrado, enfim, uma agonia aquelas reuniões europeias sucessivas, com declarações ambíguas e mortíferas, um garrote a apertar-se cada vez mais. É assim o livro, deixa-nos sem fólego, aí a meio já somos nós, os leitores, a angustiarmo-nos antes de cada reunião, a desesperar com aquela conversa, a não perceber nada a não ser que tudo pode acontecer sem que se perceba bem porquê ou como evitá-lo.
Haverá certamente muitas coisas que Zapatero embrulha na sua própria visão das coisas mas há muitas outras, talvez as principais, em que nos deixa campo largo para a nossa própria avaliação. É um livro de suspense apesar de já sabermos o fim daquele episódio temporal, até 2011, sabemos até muito depois disso incluindo que a Espanha conseguiu à justa evitar o resgate que ele nunca imaginou possível, mas que cada dia era mais evidente. Conta até como houve três insistências diferentes para que formalizasse o pedido, sempre em alturas em que ele suspirara de alívio pensando que tinha esconjurado o perigo. Conta também que os testes de stress aos bancos espanhóis, efectuados a todo o sistema quando outros países, como a Alemanha e a França, se recusaram a aceitar tal amplitude, deram em Julho de 2011 que apenas seriam precisos 1564 milhões de euros para acorrer a cinco bancos, que o próprio Banco de Espanha considerou que nem isso seria necessário, que essas auditorias foram confirmadas e reconfirmadas mas que, em Maio de 2012, veio a determinar-se que afinal eram necessários 60 mil milhões para acudir ao sistema financeiro. Diz Zapatero que esse é um dos grandes mistérios, entre muitas outras perplexidades, de todo este processo e, ao longo do livro, somos nós que confirmamos tais espantos, com a certeza de que muito se dirá mas pouco se saberá como, de facto, foi possível este terramoto e se a reação a ele foi um remendo mal amanhado ou se chegará a lançar as bases de uma sociedade mais justa e equilibrada, como temos o direito de ambicionar.

domingo, 18 de maio de 2014

Um seguro para incautos: tóxico e com prémio elevado

Seguro não faz promessas, mas diz que assume compromissos, oitenta no total. Deu agora 15 a conhecer, não fosse a publicitação simultânea de todos causar forte indigestão. 
Um compromisso é não aumentar a carga fiscal. Creio tratar-se do cúmulo da hipocrisia. É que, se o Partido Socialista sempre verberou veementemente o colossal aumento de impostos levado a cabo pelo actual governo, considerando-o injustificado e até um "roubo", agora assume o "roubo" por inteiro, já que foi feito, feito fica, não se restitui, não se mexe. E o que era injustificado justificado se torna, agora que Seguro pensa ir gerir o despojo. 
Compromisso pitoresco, para não chamar vergonhoso, é também aquele em que assume acabar com a TSU dos pensionistas. Isto é, assume acabar com um nada, pelo simples facto de tal figura nem sequer existir. Repare-se que Seguro não diz acabar com a Contribuição Extraordinária de Solidariedade ou, na versão futura, Contribuição de Sustentabilidade das Pensões, que tanto criticou e até achava, e bem, inconstitucional. Mas, num passe digno de filibusteiro, Seguro assume acabar com o que não existe, mantendo uma CES que existe e tanto criticou. 
Enfim, um seguro para incautos. Tóxico, altamente tóxico e com prémio elevado. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

PIB no 1º trimestre de 2014: nem "excepção" nem "sinal de alarme" - um SINAL, apenas, mas um SINAL...

1. Um dos mais conhecidos jornais “on-line” questionava-se ontem quanto à interpretação da estimativa rápida divulgada pelo INE para o PIB do 1º trimestre/2014: tratar-se-ia de uma “excepção”, como terá sido a interpretação do Governo, ou antes um “sinal de alarme” como sugeriram sectores opostos?

2. A 1ª estimativa rápida do INE para o PIB do 1º trimestre apontou ontem, como se sabe, para uma queda, em cadeia (1º trim de 2014/4º trim 2013) de 0,7% e para uma subida, em termos homólogos (1ºtrim 2014/1º trim 2013), de 1,2%...

3. ...sendo que a queda em cadeia interrompe 3 subidas sucessivas, desde o 2º trimestre de 2013, e que a subida em termos homólogos, é a segunda positiva desde o último trimestre de 2009 (a primeira foi exactamente no 4º trim/2013)...

4. O que se poderá dizer destes números que ficam aquém do que apontavam previsões de entidades independentes? A primeira conclusão é de que não foram produto apenas de uma evolução menos favorável das exportações no 1º trimestre, ditada em especial pela suspensão temporária da Refinaria de Sines como foi sugerido por fonte governamental...

5. ...esse factor terá certamente pesado, mas não se pode esquecer o contributo do forte incremento das importações de bens, a que já aqui fizemos referência, arrastado pela recuperação da procura interna (consumo+investimento)...

6. ...não deixando de ser verdade que, se excluirmos os combustíveis na balança de bens, as exportações teriam crescido 5% no 1º trimestre de 2014 (em vez dos 1,7% globais), o que é certo é que as importações cresceram bem mais, concretamente 8,1%.

7. Mas também não se justifica considerar este resultado como um “sinal de alarme”: apesar do forte incremento das importações de bens, tudo indica que em termos de contas com o exterior se irá manter em 2014 um padrão positivo - talvez não tão positivo como os de 2013, mas ainda bem positivo, não justificando alarme...

8. Assim, este resultado deve ser tomado, em nossa opinião, como um SINAL: o SINAL de que temos de evitar derrapagens, sobretudo na despesa pública, que façam acelerar ainda mais a procura interna, ao ponto de poder vir a inverter de novo o sinal positivo das contas com o exterior...

9. Nesta óptica, não deixa de ser paradoxal que os que opinam “sinal de alarme” sejam exactamente os mesmos que advogam carregar mais e mais no acelerador da despesa pública, que clamam a toda a hora contra a dita austeridade...

terça-feira, 13 de maio de 2014

Consultório político-sentimental!...

Doutor, não sei o que se passa comigo. Tenho amigos da esquerda muito esquerda, da esquerda, do centro e da direita, comunistas, socialistas, sociais-democratas, centristas, liberais, neoliberais e até anarcas,  penso eu. Quase todos crticam o governo, mas ainda há muitos que o defendem e elogiam. E aqui começa a minha angústia. 
É que, quando ouço os que falam mal do governo e criticam o Passos, salto logo a defender o governo e a desculpar o Passos. Mas quando ouço os outros que elogiam o governo e louvam os passos do Passos, desato logo a desancar no governo e a criticar o Passos. 
É grave, doutor? O que devo fazer?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quem muito fala pouco acerta.

Abro a televisão e no primeiro canal está o Seguro, passo ao segundo e aparece o Jerónimo, ligo ao terceiro e deparo com o Semedo, rapidamente e em força vou para o quarto e aparece-me a Catarina , fujo para o quinto e apresenta-se-me o Passos, volto ao primeiro e lá está o Arménio, bato com a porta e aparece-me o Portas, tento um novo canal e vejo a Apolónia a entrar-me em casa sem pedir licença... 
Das oito da manhã de um dia às oito da manhã do dia seguinte. Todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todo no ano, todos os anos!...
Falam, falam, sem nada terem para dizer. Mas falam e ininterruptamente continuam a falar. Desconfio que nasceram exclusivamente para falar. Sòzinhos.
Quem muito fala pouco aprende e menos acerta, diz o provérbio. Foi optimista o autor!... É que nenhum acerta seja o que for. A não ser que, pelo cumprimento da lei das probabilidades, tantas dizem que lá acabam por acertar uma. De quando em vez, por mero acaso, e sem saber!... 

domingo, 11 de maio de 2014

"Passado"...


Os domingos permitem fugir às rotinas e aos compromissos. Cada vez mais uso e abuso dos domingos fugindo da depressão típica que costuma atingir muitos da parte da tarde. Depressão por depressão já chega a que a semana frequentemente me oferece. 
De manhã vi um pouco de televisão. Saltitei canais e deparei-me com um reportagem sobre Nicolas Winton, que, em 1939, teve de alterar as suas férias a pedido de um amigo. Acabou por ir até à Checoslováquia. Conseguiu, após muitos contactos, retirar 669 crianças salvando-as das garras nazis. O comboio que deveria partir no dia 1 de setembro não saiu do país, pois foi o dia da declaração de guerra. Nunca se soube o que lhes aconteceu.
Um herói? Sim, um herói desconhecido. Só ao fim de cinquenta anos a mulher descobriu fotografias, telegramas e outros documentos sobre este período da sua vida. O jornalista, ao interrogá-lo, perguntou por que razão manteve segredo deste gesto humanitário. Winton, que ainda é vivo, e já ultrapassou os cem anos, respondeu: - Eu nunca mantive segredo nenhum, nunca ninguém me perguntou! Deliciosa tirada a revelar a sua personalidade, simples, mais do que humana, quase que me apetecia dizer, verdadeiramente divina. Fiquei magnetizado pela sua maneira de ser e registei várias passagens, entre as quais a seguinte: - Falamos demasiado do passado, o que interessa é o presente e o futuro. Sorri. Compreendi o seu alcance.
Durante a viagem não me saiu da cabeça a entrevista de Winton. Nem a serra de Montemuro, nem as belezas urbanas, paisagísticas e humanas conseguiram apagar o som e as sensações do seu pensamento. 
Tantas voltas dou que acabo por ir onde sempre quis. Encontro coisas sem premeditação. Elas aparecem sem dar conta. Vi a tabuleta, Mosteiro de Paços de Sousa, e embiquei na sua direção. Lembrei-me de Egas Moniz. Sabia que estava naquele local. Ao chegar senti uma certa angústia, não por causa da tranquilidade e dos cuidados do local e do próprio mosteiro. Fiquei com a sensação de que estaria fechado, aliás é muito comum esbarrar em monumentos cerrados a sete chaves. Neste caso concreto, "Rota do Românico", vi dezenas e dezenas de placas a anunciar uma zona e um património que vale a pena ver. Só tenho pena de muitos monumentos não serem passíveis de fruição por quem gosta de beber cultura e a história de um povo. No entanto, na torre, um diligente e muito simpático funcionário, explicou-me que tinha muito gosto em mostrar-me o túmulo e o interior da igreja do mosteiro, mas, infelizmente, não tinha a chave. - O padre não a deixa. Para poder entrar no templo é preciso pedir a chave ao pároco, mas não sabe se nesse dia estará ou não disposto a isso. Pela conversa fiquei sem dúvidas sobre o dito "dono" ou zelador da igreja. Abstenho-me de escrever o nome que lhe chamei. No entanto, o culto e simpático funcionário mostrou-me, virtualmente, tudo sobre o mosteiro e o túmulo de Egas Moniz. Afinal são dois túmulos e a forma como descreveu a "linguagem" das pedras foi extraordinariamente rica. Recordou que os monges beneditinos consideravam o túmulo exagerado, "próprio de um gigante". - Gigante? Filho de gigante... - Gigante é! Riu-se, porque já sabia que era de Coimbra, onde está o túmulo do Afonso Henriques. Depois, conversámos sobre as "lendas", ou não, da fundação da nacionalidade e a ida de Egas Moniz com a família a Toledo, que está tão bem representada no seu túmulo, assim como a saída da sua boca, no último suspiro, de uma criança. Enfim, não dei por perdido o dia e sobretudo por "ter falado no passado". Não falei demais, tentei ver o presente com base num passado que me foi recusado ver. Neste caso, ao contrário do que disse Winton, "falamos demasiado do passado, o que interessa é o presente e o futuro", penso que o humanista concordaria plenamente, é preciso ver o passado para poder compreender o presente, mas quando este nos é negado...

Dedos nas feridas

Na sua coluna habitual no caderno de economia do ´Expresso´, a Sr.a Dr.a Manuela Ferreira Leite interroga-se sobre o facto de não se arranjar interessado em ocupar aquele que outrora era considerado um dos lugares mais prestigiados da função pública e é hoje um dos melhores remunerados de entre os cargos superiores públicos: o de dirigente máximo da administração tributária.
De entre as razões que a Dr.a Manuela enuncia, há uma com que concordo de pleno, ainda que dela faça uma interpretação própria. Com efeito, o desinteresse pelo acesso aos mais altos cargos da Administração Pública é uma consequência da atitude política dos últimos tempos que, deliberadamente ou não, degradou fortemente a imagem dos funcionários públicos a todos os níveis, incluindo os dirigentes.
Dirão alguns que o ajustamento em curso, nas suas fases mais violentas, provocou danos colaterais e sempre teria de os provocar. O desprestígio social e a desvalorização da função pública é um deles. Pois eu tenho dúvidas sobre a inevitabilidade, e não penso que as medidas de redução de efetivos e dos rendimentos dos que se manterão nos quadros das entidades públicas tenham necessariamente de ser justificadas por uma atitude política que, por ação e omissão, criou na opinião pública a ideia de que os funcionários são privilegiados, improdutivos e até responsáveis pelo estado a que isto chegou...
O dano não é, pois, colateral. É um dano direto por não se ter feito o discurso inverso, mas sobretudo por não se ter valorizado o esforço feito pelos trabalhadores das Administrações Públicas. O preço está aí, figurado na deserção dos melhores e nas dificuldades de recrutamento de quem se lhes substitua.
Atrevo-me a uma sugestão. No guião da reforma do Estado que se  abra de um tópico mais, devidamente calendarizado: reabilitação dos funcionários públicos. E não, não basta prometer-lhes - muito menos na atual conjuntura pré-eleitoral - a reposição de rendimentos perdidos. Será melhor prometer a recuperação do prestígio e do orgulho que se atiraram para as ruas da amargura. 
Assim, talvez daqui a uns anos seja possível voltar a encontrar com facilidade algum dos muitos capazes de se desempenharem do cargo de diretor geral da administração tributária,  disposto e  estimulado a servir um Estado que não o rebaixe.

"A política é a arte de simular e dissimular"

Guião da conquista do poder: “Fala sempre com um ar de sinceridade. Faz crer que cada frase saída da tua boca vem directamente do coração e que a tua única preocupação é o bem comum”, a ler de Celso Filipe, publicado no Jornal de Negócios. 
Estamos como estamos, o divórcio entre o eleitorado e o poder político é cada vez maior, é fácil de perceber porquê. Desmantelar o “porquê” é a parte difícil.

Quer compreender o que significa a saída limpa do programa de ajustamento económico e financeiro que Pedro Passos Coelho anunciou no domingo? E como foi possível ao primeiro ministro metamorfosear o aumento de impostos constante no DEO Documento de Estratégia Orçamental numa redistribuição de sacrifícios?
A resposta está numa reportagem publicada na última edição da revista Sábado sobre o dia a dia de Paulo Portas. O jornalista Vítor Matos relata o encontro que teve com o vice primeiro ministro no dia 18 de Abril no Hotel da Lapa. Em cima da mesa Paulo Portas tem um livro “Les Procès Fouquet” sobre o processo que levou à prisão perpétua de Nicolas Fouquet um fidalgo francês que foi protegido do cardeal Giullio Mazzarino e que lhe sucedeu na gestão das Finanças do rei Luís XIV. Portas conta que pertence a Mazzarino um dos seus aforismos preferidos “A política é a arte de simular e dissimular”. O pensamento de Mazzarino que faz as delícias de Paulo Portas descodifica o essencial do que se passou na última semana.
Pedro Passos Coelho simulou uma redistribuição de sacrifícios para dissimular um aumento de impostos. O primeiro ministro simulou a saída limpa como uma decisão certa resultante do facto de o País ter recuperado a sua credibilidade mas dissimulou o facto de Portugal continuar sob vigilância dos credores até pagar o essencial das dívidas.
António José Seguro simula que desconhecia que os compromissos de Portugal coma troika se estendiam além do programa de ajuda, já a pensar no dia em que poderá ser primeiro ministro. ”O PS sempre desejou que Portugal regressasse a mercados sem necessidade de ajuda financeira mas é bom lembrar que a taxa de juro não está garantida, é necessário prudência e não entrar em triunfalismos” Uma simulação do líder do PS que dissimula a sua dificuldade em encontrar argumentos para criticar esta saída limpa.
O Presidente da República confrontado com o anúncio da saída limpa simula ironia. “O que mais me vem à memória no dia de hoje são as afirmações peremptórias de agentes políticos comentadores e analistas nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora’” questiona Aníbal Cavaco Silva num texto publicado na sua página oficial do Facebook.  O chefe do Estado dissimula, assim, o que escreveu em Março deste ano no Roteiros VIII. “Em termos gerais, para um país que conclua com sucesso um programa de assistência financeira é possível que um programa cautelar seja preferível a uma saída dita à “irlandesa”, até porque uma saída limpa deixaria o País inteiramente à mercê da volatilidade e das contingências típicas dos mercados”.
Paulo Portas, que a “Sábado” classifica como mestre destas astúcias, claro que não podia desperdiçar esta sua destreza. Comentando o final da 12ª avaliação da troika, o vice primeiro ministro simulou uma recuperação da soberania. “ Fecha-se uma página, que tenho definido como protectorado. Significa ainda que Portugal fez o caminho muito importante para a recuperação da sua autonomia financeira e dá sentido útil aos sacrifícios que a sociedade portuguesa como um todo tem feito para tratar de um bem comum maior: Portugal enquanto Estado e como nação”. Pelo caminho, Paulo Portas dissimulou o aumento de impostos, caminho político do qual sempre discordou.
A simulação de um Portugal novo começou agora e dissimula o que realmente está em jogo. Fazer parecer real a saída limpa ou apostar em sujar esta limpeza, consoante a posição em que se está disfarça aquilo que realmente importa: as eleições legislativas de 2015. Não é por acaso que Pedro Passos Coelho diz que “o dia 17 de Maio ficará na história como um dia de homenagem a todos os portugueses” e que António José Seguro avisa que o programa acaba mas os sacrifícios continuam.
Afinal, cada um deles e todos os outros não fazem mais do que seguir o sábio conselho de Mazzarino: “Fala sempre com um ar de sinceridade. Faz crer que cada frase saída da tua boca vem directamente do coração e que a tua única preocupação é o bem comum”. O poder conquista-se assim.

Pensões - notas breves

A confusão e a desinformação não são boas conselheiras. É o que se tem passado com o tema da sustentabilidade financeira dos sistemas de pensões.
Em primeiro lugar, fala-se de sustentabilidade sem precisar efectivamente do que se trata. A informação disponível é incompleta, complexa e opaca. Sem apresentar um diagnóstico completo e transparente não é possível conhecer qual é a dimensão dos desequilíbrios financeiros futuros de ambos os sistemas – Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações. Conhecer a dimensão do problema implica assumir projecções para as variáveis críticas destes sistemas – demográficas e económicas – trabalho que exige consistência e rigor para evitar a manipulação de resultados com o objectivo de melhorar temporariamente as perspectivas de sustentabilidade. A consequência desta prática é adiar decisões políticas e deixar o país no desconhecimentosobre a real dimensão do problema.
Não se conhecendo a real dimensão do problema não será possível estudar um mix de soluções possíveis, adequadas e exequíveis, tendo em conta que o problema é composto por responsabilidades com pensões em pagamento e responsabilidades com pensões em formação. Sem contas, não é possível tomar medidas fundamentadas.
Em segundo lugar, são anunciadas e implementadas medidas sem que se conheça qual o seu impacto na melhoria da sustentabilidade financeira dos sistemas de pensões. Recentemente, o Documento de Estratégia Orçamental apresenta um conjunto de medidas “no sentido de caminhar para a reforma do sistema de pensões públicas e garantir a sua sustentabilidade” e acrescenta que “deverão permitir evitar o agravamento da situação, bem como promover o início do processo de amortização da dívida implícita do sistema”.  
Há dias foi a vez do ministro Paulo Portas afirmar que se aproxima a hora de proceder à reforma da segurança social através da introdução do “plafonamento”, uma reforma que permitirá uma sustentabilidade acrescida do sistema de pensões a longo prazo. Para já não falar do aumento da idade legal de reforma para os 66 anos a partir de 2014, medida tomada em Dezembro do ano passado a bem da sustentabilidade. Quanto valem todas estas medidas?
Em terceiro lugar, é necessária uma solução duradoura que permita equilibrar no médio e longo prazo o sistema de pensões. Uma reforma implica que se integre no processo elevada capacidade técnica e várias sensibilidades sociais e políticas. Sem competência técnica e consenso social e político não haverá reforma.
Nada pode ser pior para uma sociedade do que a perda de esperança e a falta de confiança em si mesma e no Estado. A incerteza sobre as pensões tomou conta das actuais gerações de pensionistas e das gerações no activo.
Vivemos num clima de deterioração do capital de confiança nos sistemas de pensões. Está esgotado o caminho das medidas paramétricas, que sem prejuízo da sua importância vão iludindo a (in) sustentabilidade financeira e agravando a iniquidade entre gerações. Sem estabilidade, não haverá confiança...

sexta-feira, 9 de maio de 2014

"Primavera"...

Primavera é o título de um belo quadro que adquiri há muitos anos. Mais tarde ofereci-o a uma filha. Hoje, chamaram-me a atenção. - É muito belo! - O quê? Respondi. - Aquele quadro. - Pois é. Muito belo, mesmo. Tem uma história.
Há muitos anos, na altura do Natal, pedi a uma senhora, que costumava fazer limpezas, se não se importava de ir a um pinhal meu cortar um pequeno pinheiro, jeitoso, para fazer a árvore do Natal. Ela sabia o local, não era muito longe. Respondeu-me que sim. Passados dois ou três dias apareceu com um delicado e harmonioso exemplar. Felicitei-a pelo gosto, o que me surpreendeu sobremaneira, dado a sua falta de jeito e alguma brusquidão. O pinheiro foi alvo de atenções e enfeitado à maneira. O pessoal ficou satisfeito e orgulhoso da árvore de Natal, talvez a mais bela que alguma vez entrou em casa. 
O Natal passou e o novo ano nasceu normalmente, sem grandes dores. Passadas algumas semanas, já o sol aquecia com volúpia os corpos e as mentes dos mais carenciados, a senhora surgiu-me em casa, muito nervosa, dizendo que tinha sido notificada para ir à GNR. Estranho. - O que é que aconteceu? Não foi difícil saber a causa de tão inusitada convocatória. Nas terras pequenas sabe-se tudo, mesmo antes do seu tempo. Foi acusada de ter furtado o pinheiro. Afinal, talvez para não se deslocar ao meu pinhal, optou por arranjar um nas proximidades da sua casa. Viram-na e denunciaram-na ao dono, o qual, por sua vez, foi à GNR participar o ocorrido. Fiquei incomodado pelo facto, mas como o pedido de indemnização poderia ser avultado para as suas posses, senti que tinha a responsabilidade de arcar com as consequências. Se não tivesse feito o pedido, a taralhoca não teria feito o que fez. No dia aprazado, sem estar notificado, também compareci no posto, onde já se encontrava o queixoso, com tiques de demandante, a taralhoca responsável pelo situação e o militar que, num fastidioso interrogatório, ia batendo as teclas da velha máquina de escrever, mas apenas com o indicador da mão direita. Pelo andar do matraquilhar as coisas iriam levar muito tempo. Quando chegou à matéria de prejuízos, virou-se para o proprietário e perguntou-lhe o valor. O demandante disse uma cifra avultada, atribuindo ao pequeno pinheiro qualidades e uma raridade botânica perfeitamente ridículas. O militar, que tinha o dedo indicador no ar, ficou de cara à banda. Repetiu a pergunta duas ou três vezes para ter a certeza que tinha ouvido bem, mas o dono, cara sisuda, confirmou. 
Há certas situações e comportamentos que não consigo compreender. Face ao pedido, algo desmesurado para o pinheiro em causa, reagi da melhor maneira. Saquei de um cheque e comecei a preenchê-lo com a cifra indicada, pronto para o entregar ao proprietário em nome da acusada. Ficaram todos surpreendidos com o facto de ter aceitado sem discussão o dinheiro solicitado. A taralhoca ficou de boca aberta, até me pareceu que abriu as pernas como a querer equilibrar-se, e o militar parecia que tinha sofrido uma espécie de paralisia e gaguez, sempre com o indicador da mão direita no ar. Pobre dedo, não sabia qual a tecla a martelar. O queixoso de maus fígados avermelhou-se e encolheu-se perante a minha reação. - Aqui tem o cheque e peço desculpa pelo incómodo provocado pela senhora. Olhou-me, gaguejou, disse qualquer coisa, não foi muito preciso, mas desistiu da queixa. O militar suspirou de alívio e o indicador da mão direita finalmente acabou por descansar. Já merecia. A senhora, a taralhoca, suspirou. Eu recolhi o cheque, dei os bons dias e fui-me embora. Ao final da tarde, de regresso a Coimbra, passei por uma galeria de arte, onde estavam alguns quadros do Monsenhor Nunes Pereira. Olhei para a "primavera", tão bela. Preço? O mesmo que o dono do tal abeto raro e "extraordinariamente valioso" queria. Tirei o cheque do bolso e adquiri a bela obra de arte. 
Se não fosse este episódio não teria a oportunidade de saborear a arte de um artista excecional. A árvore do Natal foi a mãe da "Primavera". Acabei por o ofertar à primavera de uma vida...

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Missão cumprida, muito bem; euforia independentista, nada bem...

1. As declarações de responsáveis políticos a propósito da iminente conclusão do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro e da chamada “saída limpa” ou “à irlandesa” tiveram uma parte de bom senso e outra parte que me pareceu menos feliz.

2. Pareceu-me bem a parte em que foi salientada a ideia de Missão Cumprida bem como o crédito por esse cumprimento reconhecido ao Povo Português, no seu todo, embora com pena de que não tivesse havido uma palavra muito especial para os muitos milhares de desempregados e para os muitos milhares de emigrantes (muitos deles tb desempregados no País)...

3. ...desempregados e emigrantes que foram, na minha análise, as principais vítimas do duro processo de ajustamento que sucessivos anos de desvarios de política acabaram por impor ao País, de forma irrecusável – um processo de ajustamento apesar de tudo controlado, cuja única alternativa seria, certamente, um ajustamento bem mais duro, ditado fundamentalmente pelas condições do mercado financeiro.

4. Noutro registo, pareceu-me de mau gosto a ênfase na ideia de reconquista da “independência financeira”, de autonomia na decisão das questões financeiras: em 1º lugar por não corresponder à situação real do País e, em 2º lugar, pela má experiência do passado com semelhantes triunfalismos...

5. Quanto ao 1º ponto, a situação de vigilância reforçada a que vamos ficar sujeitos durante bastantes anos, enquanto devedores a instâncias oficiais, FMI e União Europeia (recordo que só ao FMI ficamos a dever o equivalente a mais de 2.200% do valor da nossa quota no Fundo), acrescida das obrigações inerentes ao cumprimento do chamado Tratado Orçamental, dificilmente se compaginam com um real conceito de “independência financeira”...

6. E relativamente ao 2º, basta lembrar as péssimas consequências de estados de euforia como aquele que acompanhou a adesão ao Euro, em 1998/9, (oficialmente) convictos de que tínhamos conquistado o direito a uma prosperidade sem limites e sem esforço...o único esforço seria o de gastar, gastar sempre mais e sem preocupação quanto ao futuro...

7. Uma nota de mau gosto, que conseguiu no entanto ser excedida pelo ousado desconchavo das declarações que este mesmo episódio mereceu ao principal partido da oposição...

terça-feira, 6 de maio de 2014

Alternativa segura? Nem com um milhão de lanternas!...

Ouvi há pouco um excerto de uma entrevista à SIC em que António José Seguro, interrogado se iria baixar impostos no caso de ser eleito, afirmou e reafirmou que apenas se comprometia a não aumentar a carga fiscal. 
Talvez ninguém mais do que Seguro e os seus brilhantes acólitos criticaram o "roubo" descarado que o governo fazia, através de impostos de todas as naturezas, através da CES, e recorrendo a todas as "manigâncias" possíveis que pudessem retirar uma parte dos salários e das pensões aos portugueses.
Ainda há dois dias, Seguro criticou violentamente  o governo pelo injustificado aumento do IVA e da TSU. 
Pois, agora, aquilo que era condenável passou a ser tão virtuoso que Seguro nem pensa em mexer-lhe. O roubo é para ficar, agora que Seguro está a pensar em ser ele a meter-lhe a mão, quer dizer, a geri-lo.
Há 2300 anos, deambulava Diógenes pela ruas de Atenas e Corinto com uma lamparina na mão a ver se encontrava um homem honesto. Poderia bem fazê-lo agora em Portugal, à procura de alternativas políticas sérias e honestas. Estou bem seguro de que não encontrava. Nem, seguramente, com um milhão de lanternas. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Saída limpa...e o tempo das raposas

Ainda na semana passada se multiplicavam os debates sobre a "saída limpa" ou "programa cautelar", com uma criatividade de oca argumentação verdadeiramente assinalável. Uma forma de encher chouriços na programação das rádios e televisões e nas páginas dos jornais. 
Como que por encanto, desde ontem que só ouço que "saída limpa" era coisa óbvia, evidente, só já não tinha entendido quem era burro, não tinha nada que saber. Porque assim o determinava a Europa, que não queria sarilhos antes das eleições europeias. Porque assim o ordenava a Troyca, como consagração das medidas que preconizara. E porque era isso que convinha ao Governo, para justificar o êxito da sua política. 
O que era, há dois dias, assunto de enorme complexidade e objecto de profundíssima reflexão, tornou-se assim, do pé para a mão, coisa que nem merecia qualquer discussão.
O que me faz lembrar a velha fábula de Esopo, retomada por La Fontaine: estão verdes...não prestam...  
O tempo está para as raposas matreiras, sempre boas a enganar papalvos. 

O melhor Seguro da situação...

Não foi só uma figura  fraca aquela que ontem o líder da oposição fez ao comentar o anúncio das condições de saída de Portugal do Programa de Ajustamento, foi a confirmação de que Seguro é o que melhor convém à situação. Bastava-lhe que viesse congratular-se pelo anúncio do PM até porque foi por este desfecho que se bateu nos últimos meses. Ninguém lhe exigiria mais, nem os seus críticos dentro do PS. Mas não resistiu a um estilo de oposição que prenuncia o pior, caso algum dia António José venha a ter responsabilidades na condução do País, a oposição sem fundamentos, pelo tudo e pelo nada. 
A reação de Seguro, num estilo que se tornou comum nos porta-vozes do PS, foi pouco menos que risível. Primeiro quanto à razão da sua desconfiança sobre o que o PM considera um êxito. Se bem percebi, Seguro desconfia porque o futuro aos mercados pertence, por isso não há garantias de limpeza total na saída. Fica clara a fé do líder do maior partido da oposição nas capacidades do País. Mas o que mais me chamou a atenção foi a análise dos porquês da saída sem apoio em programa cautelar. Para António José isso só foi possível porque existem excedentes de liquidez dos investidores que só por isso se satisfazem com uma remuneração relativamente baixa do dinheiro que emprestam. De carrascos, os credores - agora no estatuto menos estigmatizante de "investidores" - passaram num ápice a autores de liberalidades extremas. Um novo Cícero, este Seguro: largitionem fundum non habere...
Encimar o bolo com a cereja, somente se Seguro tivesse sugerido que a saída do programa, contra o seu vaticínio, apenas teria sido possível porque os juros da dívida soberana portuguesa baixaram nos últimos tempos. E não é que não o sugeriu, disse-o mesmo? Vão ver que da próxima vez Seguro descobre que o resgate da República aconteceu porque os juros da dívida pública tinham subido!

"Facas cruzadas"...


Não sou dado a superstições, embora em certas ocasiões dou conta de que estou a atuar de uma forma irracional, meio estereotipada. 
Recordo muitas dessas iniciativas que me foram transmitidas com tal solenidade a ponto de ter que acreditar nelas e na sua importância. Foram tantas que sou incapaz de as elencar com propriedade. Nalgumas circunstâncias cheguei mesmo a ser vítima delas. A minha avó e tias, tão ou mais velhas do que ela, foram mestras, transmitindo ideias e superstições que vinham de outros tempos e que, talvez alarmadas com a ameaça de um fim anunciado, começaram a reviver com intensidade. 
A minha avó abria a boca e fazia sistematicamente o sinal da cruz para evitar que o demónio entrasse. Era o que me dizia. Não deixava que abrisse o chapéu em casa, não permitia que lançasse sal na mesa e dizia que dava azar passar debaixo de umas escadas. Benzia-se ao toque das trindades e ensinou-me formas de esconjurar os maus espíritos e o diabo. Tudo servia para me instruir em práticas ancestrais. Mas havia uma que a incomodava bastante, era cruzar as facas. Ficava, não digo possessa, mas incomodava-se bastante e desfazia de imediato tamanho sacrilégio. Perguntava-lhe as razões porque não podia cruzar as facas, nunca me soube responder cabalmente, ficava irritada, coisa que não era muito habitual. Pronto, pensei, esta gente lembra-se de certas coisas e depois é o que se vê. O pior é que não era só a minha avó. Todos, lá em casa, ficavam meio possessos sempre que se cruzavam as facas, até o meu avô, que parecia nunca ligar a estas coisas, também dizia que não se podia fazer isso, e não era só ele, outros familiares, digamos mais liberais e de espírito aberto, diziam a mesma coisa. O que é certo é que eu, com o tempo, sempre que dava conta que as facas estavam cruzadas, desfazia-as de imediato com receio de acontecer alguma coisa. Ainda hoje, instintivamente, faço isso, evito cruzá-las. Fico surpreendido com este comportamento, que reflete o efeito da "educação", ou melhor, da importância do moldar do pensamento numa idade facilmente influenciável. Sempre que perguntava as razões para essa atitude, tinha como resposta que dava azar, como se o que "desse azar" fosse suficiente para não as cruzar. Nunca me incomodei com as origens desta superstição, mas hoje, depois de uma visita a uma sinagoga, onde comprei um excelente livro, pequeno, mas muito interessante, fiquei a saber práticas e expressões de origem judaica. Algumas já conhecia, mas havia uma ou outra que não. Foi então que li que as "facas cruzadas" está, de facto, ligado ao azar, "pois os cristãos-novos tinham repulsa a tudo o que estivesse relacionado com uma cruz". Sabendo da violência a que foram sujeitos, continuarem a ser judeus por dentro e cristãos por fora, um atentado à identidade humana praticada pelos cristãos da altura, é fácil de compreender o horror que deveriam sentir quando viam sinais da força e da falta de misericórdia ligados ao catolicismo fanático. Parei na leitura e comecei a imaginar o que diriam a minha avó e as velhas tias se eu lhes dissesse: - Que raio. Então vocês são católicas ou judias escondidas? Não me digam que ainda são judias. Divirto-me a ver as suas caras, repletas de surpresas e incomodadas com tamanha afronta. 
Bom, sendo assim, vou tentar não descruzar as facas para ver qual o efeito. O mais certo é não conseguir, porque a força do hábito é muito poderosa...

sábado, 3 de maio de 2014

Espiral recessiva entrou em recessão? Será possível?...

1. Os estimados Crescimentistas, tanto da ala "soft" como das alas "hard", têm incansavelmente denunciado os malefícios das políticas "neoliberais" que, na sua perspectiva, têm imposto ao País sacrifícios perfeitamente desnecessários...e, em especial, uma espiral recessiva, de duração indefinida enquanto as ditas políticas não forem erradicadas.
2. Trata-se de uma espiral recessiva muito peculiar, tão peculiar que a partir do 2º trimestre de 2013 passou a traduzir-se em variações trimestrais positivas do PIB e, no 4º trimestre, por uma variação positiva não só trimestral mas também em termos homólogos, de 1,7%...e, no 1º trimestre de 2014, parece ser razoável antecipar uma nova variação positiva, em termos trimestrais e homólogos, neste último caso com uma expressão talvez não inferior à do 4º trimestre de 2013...
3. Indicadores de actividade mais recentes, já do 2º trimestre de 2014, parecem confirmar esta característica peculiar da espiral recessiva e das nefastas consequências das políticas "neoliberais": ontem mesmo foi notícia o aumento (homólogo) de 54%, em Abril, das vendas de veículos automóveis, com destaque para o aumento de 65,5% nas vendas de veículos comerciais ligeiros...
4...e, nos primeiros 4 meses do ano, as vendas de automóveis terão crescido 46,4% em relação ao período homólogo de 2013.
5. Também em Abril se verificaram novas melhorias nos indicadores de confiança dos consumidores e do clima de negócios...
6. Os tempos não andam nada propícios para a temível espiral recessiva, apesar das malfadadas opções "neoliberais" persistirem, teimosamente, em dominar a política económica como foi eloquentemente destacado em inflamados discursos no 25 de Abril...
7. Há qualquer coisa que não está a bater certo em tudo isto...ou será que de tanto perorarem sobre a espiral recessiva, até esta sucumbiu às políticas "neoliberais" e acabou por entrar em recessão?

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Novelo de vida...

Após o almoço calcorreamos velhas ruelas sob um suave e doce calor, a fazer horas para ver o que não vimos de manhã. O almoço decorreu sob a égide dos produtos da serra, enchido, carne e vinho. O cansaço, despertado pelo tempo de espera, levou-nos à procura de um banco. Sabia que nas redondezas havia um pequeno jardim. Abalei convicto de encontrar um assento que propiciasse brincar com o relógio e falar sem tempo. Debaixo da árvore estava um pequeno banco. Olhei e vi um novelo cinzento e negro a querer rebolar-se e saltar para o chão. Pequeno, muito pequeno e negro, o novelo humano começou a descer, andando à pato, cabeça pendida e bossa dorida. Aproximou-se atraída por tão inusitada figura e baixou-se. Começaram a falar. Ouvi: - Sim, ando a passear um pouco, mas moro ali em baixo no início da rua. Vou para casa. A fala era excelente e as ideias fluíam-lhe na razão inversa do seu corpo meio mirrado e que deverá ter perdido muitos centímetros à sua estatura inicial. Simpática, e desejosa de dois dedos de conversa, parou e começou a contar muitas coisas. Tinha que ser, pensei. Interrompia-a e perguntei-lhe qual era a sua graça. - Maria dos Anjos. - Posso saber a sua idade? - Sim. Tenho 94 anos. Nasci a 13 de junho, no dia de Santo António. A felicidade de ter nascido num dia tão importante levou-a a uma tentativa de levantar a cabeça, e sorriu, mostrando dois velhinhos caninos a ornamentar um enorme diastema avermelhado. Entretanto, algumas repas de cabelo branco e fino teimavam em mostrar-se fora do velho lenço negro. - O cabelo está a incomodá-la? - Não. Eu tive sempre um cabelo muito comprido, quase que me chegava aos pés. Mas sabe, naquela altura os pais não deixavam cortar os cabelos às filhas. Ainda tenho o cabelo comprido, mas tive que fazer tranças, porque não consigo levantar os braços para trás. Enquanto dizia isto, para provar, tirou o lenço negro para que pudéssemos ver duas tranças entrelaçadas numa espécie de rodilha. - Afinal, a senhora vive com quem? - Com o meu irmão e a minha cunhada. - Que idade tem o seu irmão? - Oitenta e seis anos. Olhe, meu senhor, eu já não consigo fazer o comer. Disse com muita pena. - Mas sempre tem quem o faça para a senhora. - Pois. Sabe uma coisa? Vou-lhe confessar. Não sei o que ando a fazer. Já estou cansada de viver. São muitos anos. - Não diga isso. - Digo, digo. Já tenho muita idade. - Mas ainda se mexe bem e fala com tanta desenvoltura. Tem uma cabeça a trabalhar como deve ser. - Pois! Como quem diz, tens razão, mas por isso mesmo é que ando cansada de viver. Mais uns momentos de conversa, assuntos de outros tempos, uma quinta onde cresceu, viveu e trabalhou e despediu-se. A casa não ficava muito longe, segundo disse. Espero que o seu fim esteja, apesar de tudo, muito mais longe.
No dia de Santo António vou lembrar-me da Maria dos Anjos, um delicado novelo de vida.

O nosso grande passivo

Não tendo efectuado as reformas que deveria ter feito de modo a diminuir a despesa de forma permanente e tornar atractivo o investimento, o governo vai substituindo uns impostos por outros, mudando alguma coisa para que tudo fique na mesma. Isto é, na mesma continuam os cidadãos e a economia a pagar a factura. Nesta questão fundamental o governo iniludivelmente falhou.  O DEO comprova-o.
Mas, quando também ouço as Oposições, maxime o PS, a criticar as políticas, exigindo chuva no naval e sol na eira, equilíbrio orçamental, menos juros e menos impostos, mais despesa e menos dívida pública, vejo que a nossa classe política não é séria, nem competente. No geral formada e promovida nas jotas e universidades de verão, enquanto o processo de selecção não mudar, dela não pode esperar muito o país.
Se o governo engana, o PS promete e ilude. Se o governo não reforma, o PS nem pensa em tal, apresentando como solução mutualizações de dívida, eurobonds, pagamento do desemprego pela União Europeia.  
Se o Governo é mau, o PS é bem pior. Esse é o nosso grande passivo. Uns minutos do debate de hoje no Parlamento comprovam-no à saciedade. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Viajar...

Viajar por Portugal é o melhor que me pode acontecer. Sair de casa sem destino definido e encontrar locais adormecidos é a melhor oração para quem tem necessidade de acalmar o coração. Encontro tudo, por vezes até demais. Encanto atrás de encanto, sedução atrás de sedução e, sobretudo, muita fonte de inspiração. É tão fácil. Basta andar e de repente desviar para locais inesperados. Depois é só esperar, e encontro.
Entrei em ruelas que eram mais apropriadas para carros de bois, e devem ter sido eles que desenharam aqueles caminhos. No meio de pedregulhos desnudados apareceram à minha frente duas perdizes. Descaradas, não se desviaram um milímetro. Caminharam à frente do carro sem medo. Eu abrandei e fui atrás delas. Belas, encantadoras, frescas e provocantes. A certa altura, talvez cansadas da minha presença, saíram delicadamente do carreiro e embrenharam-se nas moitas. Sorri. Continuei a andar e fiquei deslumbrado com os afloramentos rochosos e o odor de um passado rico e cheio de histórias. Tudo mergulhado num silêncio humano delicioso. Até o meu velho amigo, o rio Mondego, corria feliz e puro como convém a quem não vê e não necessita de seres humanos. Uma velha ponte, rude, mas com um escudo nacional, impôs-se pela beleza e nobreza das suas funções a que não era alheio a delicadeza de um delicado cruzeiro. Tudo perdido no meio do mistério. Senti-me em casa. Os odores eram os mesmos, as imagens já as tinha guardado, o sol aquecia da mesma maneira e o silêncio devorava-me cheio de prazer. Há locais que não são estranhos, são locais onde a imaginação já viveu, amou e morreu. Todo o percurso estava cheio de mistérios, muitos, velhos como o mundo e novos como os meus sentimentos. São locais sagrados que teimam em desaparecer. São locais que gostam de falar. Basta estar atento ao vento, à luz, à sombra e, sobretudo, às pedras que guardam no seu ventre o gérmen da vida e da felicidade. Basta tocar-lhes para sentir o que guardam, o que viram e ouviram. É fácil ouvir e falar com as pedras, mais fácil e compreensível do que lidar com os humanos. São sinceras, são ricas e sabem poesia. Eu sei falar com as pedras. Eu sei como elas guardam os nossos sentimentos. Guardam-nos porque é a forma que têm de se alimentar e justificar a sua existência. Os seus ventres vazios, escavados e sombrios continuam a abrigar as almas de corpos que ali foram depositados. Sabem tratar com respeito e amor as almas perdidas que por ali andam e encantam quem sabe falar com elas.

1.º de maio, 2014

"To refer nowadays to the ´working class´ in the singular is sociologically inappropriate. It has to be recognized that the numerical shrinkage of this working class has been accompanied by the growth of poverty as result of unemployment, social exclusion and reduction of income. This poverty is creating a new social stratum, a sub-proletariat, a significant proportion of which is ethnically different from the majority of the population. Compared with this sub-proletariat, the old working ´class´ is becoming a relatively privileged category" (Mattei Dogan, Class, religion, party - triple decline of electoral cleavages in Western Europe)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Contas Externas: que nos dizem os dois 1ºs meses de 2014?

1.Os dados referentes às contas com o exterior, para os 2 primeiros meses de 2014, há poucos dias divulgados pelo BdeP, já nos vão dando algumas indicações quanto ao que poderá acontecer com esta variável crítica no corrente ano.
2. Recordo que o ritmo de correcção dos desequilíbrios com o exterior - o ajustamento externo de que se tem falado - tem sido a mais notável consequência do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) em vigor desde Maio de 2011...
3. ...concretamente, em 3 anos apenas, foi possível converter um enorme défice corrente (superior a 10% do PIB ainda em 2010) num superavit: isto surpreendeu muito boa gente, incluindo os credores internacionais que, valha a verdade, nunca regateiam elogios a esta radical mudança...
4. Em 2013 foram apurados os seguintes saldos nas contas com o exterior:
- Balanças Corrente + Capital = 2,6% do PIB
- Balança de Bens + Serviços = 1,7% do PIB
- Balança Corrente = 0,5% do PIB

5. Tratou-se de resultados excepcionais, muito melhores que o esperado, que revelam o formidável esforço (ou sacrifício) que Famílias e Empresas foram capazes de realizar, em impressionante contraste com o estilo anafado e reivindicativo das Administrações Públicas, de um modo geral, que defendem "à outrance" os privilégios alcançados à custa dos demais sectores..empurrando para estes todos os sacrifícios e, para cúmulo, queixando-se como se fossem as grandes vítimas!

6. Ora bem, aqui chegados, os primeiros resultados de 2014 (Jan e Fev) dizem-nos o seguinte:

- O saldo conjunto das Balanças Corrente e de Capital (- € 132 milhões) tem uma expressão ligeiramente pior que no mesmo período de 2013 (- € 28 milhões);

- O saldo conjunto das Balanças de Bens e de Serviços também se agravou, passando de - € 25 milhões em 2013 para - € 217 milhões em 2014;

- O saldo da Balança Corrente sofre igualmente um ligeiro agravamento, de - € 377 milhões em 2013 para - € 465 milhões em 2014

7. Estes dados não são muito significativos, ainda, mas permitem-nos antever que não será fácil, ao contrário do que algumas previsões sugerem, uma nova melhoria dos saldos das contas com o exterior em 2014...se forem como os de 2013, será muito bom.

8...não podemos esquecer que o ritmo crescente da actividade económica, com o consumo e o investimento a recuperarem, tem inevitável impacto neste plano; basta referir que apesar de as exportações de bens continuarem a evoluir a bom ritmo (+4%) as importações crescem mais rapidamente (+7,2%), do que resultou nestes dois primeiros meses um défice na balança de bens superior em € 314 milhões ao de 2013, embora parcialmente compensado por uma melhoria de € 122 milhões no superavit dos Serviços.

9. Como dizem os ingleses, "one cannot eat the cake and have it too"...
   

"Diferente"...

Entrou com um ar diferente. Jovem, pele clara, cabelos louros, fresca e com um sorriso social. Sentou-se, revelando uma tendência aristocrática pouco habitual para a localidade e função. Estava nervosa, uma certa crispação inundava-lhe o ar, mas mesmo assim foi dizendo que andava bem e que não tinha problemas de saúde. - Está um pouco nervosa. - Ah, é o acumular de muitas coisas, trabalho e responsabilidade. - Anda a tomar qualquer coisa. Não anda? - Sim, o meu médico mandou-me tomar um calmante. - Pois, vê-se. - Vê-se?! - Sim, a sua face fica parada, sem expressão. Corou. O exame continuou e perguntei-lhe pela saúde dos pais. - Vivo com o meu pai. Esperei uns segundos. Queria saber o que se passava com a mãe. Entretanto ia escrevinhando as minhas notas. Estava a demorar, a fácies tornou-se mais pálida e ficou mais triste. - A minha mãe morreu há nove anos. Desconfiei de uma eventual causa e perguntei-lhe o que tinha acontecido. Explicou-me à sua maneira, com alguma dificuldade, um tumor na barriga, presumi que tivesse sido um carcinoma do pâncreas. Morreu ainda jovem. - Tem irmãos? - Quatro. - Mais novos? - Sim. Feitas as contas, na altura da morte ainda eram pequenos. - É a mais velha. Deve ter tido muito trabalho ao longo destes anos. A cabeça e a expressão facial confirmaram. Baixou os olhos, baixou a voz e disse: - Tem sido muito difícil. Muito. Subitamente, pareceu-me arrependida da confissão. Levantou a cabeça, levantou a voz e rematou: - Tem que ser. Uma estranha e profunda coragem emergiu das suas profundezas. - É nova. Já tem planos para a sua vida? Olhe que o tempo passa depressa e tem direito a viver a vida. - Olhou-me, surpreendida, corou ligeiramente, uma expressão de alegria surgiu-lhe vinda de músculos faciais que há muito tempo não sabiam qual era a sua missão e respondeu-me: - Estou a pensar nisso. Estou a fazer algumas tentativas. - Então faça, não se esqueça. Levantou-se e despediu-se com um ar diferente, mais tranquilo, mais esperançoso, mas aristocrático, algo difícil de encontrar naquele meio e nas suas funções.
Gente nobre, perdida no meio das serras, lutadora, sofredora e merecedora de uma atenção e carinho inesperado. Falta de carinho, foi o que me confessou no meio da nossa conversa. Nem se apercebeu da confissão que fez. Uma mulher diferente. Uma jovem diferente, que, presumo, saiu diferente. Eu fiquei.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Fazer por fazer...que seja em grande!...

Em 2006, a Petrobrás comprou por 360 milhões de dólares 50% de uma refinaria belga nos Estados Unidos que uns meses antes tinha custado 42 milhões, por inteiro. Passados 6 anos, em 2012, a mesma Petrobras adquire os restantes 50% por 820 milhões de dólares, elevando-se o custo total a 1,180 mil milhões de dólares, 28 vezes mais do que os belgas tinham investido. 
Azar, corrupção, incompetência? Um misto de tudo? Boa gestão? 
Bom, a Petrobrás era na altura presidida pela Drª Dilma, actual Presidente do Brasil, que atribui o caso a incompetência. Não dela, claro está. A culpa da decisão atribui-a a "um relatório técnica e juridicamente incompleto" do Director da Área Internacional.  A um relatório, diga-se, que o autor até foi promovido na Petrobrás.
E a Senhora também...e mais alto...no Brasil. A "esquerda" fina e finória é mesmo outra coisa...
(Notícia recolhida no Expresso de 25 de Abril de 2014, página 34)

"A senhora"...

Em pequeno comecei a visitar a senhora, quase sempre vestida de negro até aos pés, rendas brancas nos punhos e no colo, cabelo branco apanhado com maestria atrás onde se destacava uma espécie de travessa, escura com estrias de ouro, fazendo com que ao redor da cabeça ficasse com a sensação de que trazia uma coroa escondida. A face, envelhecida, não transmitia alegria e emudecia qualquer um graças ao distanciamento e à firmeza do seu olhar. Na mão esquerda habituei-me a ver uma bengala cuja cabeça, enigmática, brilhava sozinha, não precisando de luz ou do sol. Era um estranho e belo prolongamento da senhora a quem me habituei chamar a "madrinha velha". Havia em todo aquele ritual algo de pouco habitual, convenções a que não estava habituado, falas e cumprimentos adequados às circunstâncias em que pontuava a enorme sala repleta de móveis, mesas, pratas, porcelanas, quadros e fotografias que me causavam muita confusão e até algum receio, não fosse agente do diabo e deitasse abaixo belas e quebradiças peças. Não dava atenção a grande coisa, estava sempre com medo. Com o tempo fui crescendo lentamente e acabei por ir sozinho. Gostava da minha companhia. Tocava à porta e, invariavelmente, aparecia passados alguns minutos depois de ouvir a estranha sineta que tinha de puxar e que se fazia ouvir ao longe, no corredor, escuro e comprido. Assim que abria a porta tinha de lhe beijar a mão que colocava à minha frente. Dava-lhe os bons dias com muito respeito e seguia-a até à sala grande, atulhada e muito escura. Junto à janela, que dava para o Rossio, sentava-se num longo canapé repleto de inúmeras almofadas de veludo. Depois de se sentar era a minha vez. De forma delicada pedia-lhe autorização e a mão direita, volteando-se no ar, dizia-me, no seu habitual silêncio, senta-te. Gostava de ficar na direção dos raios do sol que esburacava atrevidamente aquele canto, iluminando-o e aquecendo-o de forma muito agradável. Enquanto não falasse ficava calado, juntava os joelhos, estendia as mãos à espera das perguntas do costume e divertia-me com os efeitos das partículas do pó a dançar no feixe da luz. - Foste à missa? - Fui sim, madrinha. - Tens-te portado bem? - Eu penso que sim, madrinha. - E a escola? Como vão os teus estudos? Já sabes ler sozinho? Sei sim, madrinha. Entretanto agarrava no jornal, o "Diário de Coimbra", e punha-se a lê-lo usando uma lupa gigante. Era a altura de virar a cabeça e ver as letras monstruosas a sair daquele vidro. Adorava ver o efeito que produzia nas letras. Com o tempo cansava-se e colocava-me o jornal nas mãos. - Lê esta notícia! Eu lia, inicialmente ficava nervoso, não queria fazer má figura, mas depois engatava e fazia de conta que estava a ler o texto na escola. De quando em vez corrigia-me. Voltava atrás e continuava a ler. Durante esse período recostava-se, fechava os olhos e eu ficava com a sensação de que estava a dormir. Abrandava a leitura mas ouvia-a dizer: - Continua. Estás a ler muito bem. Era o momento em que a via sorrir, no final da manhã do domingo, após a missa. Ficava bela, não me assustava, e ainda me elogiava. - Muito obrigado, madrinha. - São quase horas do almoço. Espera aí. Levantava-se, agarrada ao bastão de cabeça de prata, e ia, silenciosamente, pelo longo corredor escuro, que me metia medo, até aos seus aposentos. Era o momento para saltar sobre o canapé e agarrar na lupa. Fazia tropelias com ela tentando descobrir tudo o que andava por ali. Uma maravilha brincar com a lupa. Quando me apercebia que a sua sombra começava a desenhar-se à entrada da sala colocava as coisas nos seus lugares e ficava com a postura nobre em casa da senhora nobre. Costas direitas, joelhos juntos e mãos sobre os mesmos. Quando se aproximava levantava-me e só voltava a sentar-me depois de ter recebido a sua autorização, a mão direita que volteava como se tivesse vida. Permanecia em silêncio durante alguns segundos, a sua cara de mulher austera e distante voltava a assustar e colocava na minha mão esquerda a desejada, a querida, a bela moeda de prata de dez mil réis. - Vá, são horas de ires. Não quero que a tua mãe fique preocupada. Dá-lhe um beijo meu, se faz favor. - Sim, madrinha. Levantava-me, beijava-lhe a mão direita, a mão misteriosa, e, de costas, saía até ao início do corredor escuro onde fugia à procura da porta e do sol. Na mão brilhava a moeda de prata. Uma bela moeda que nunca tinha visto o sol. E assim se passaram muitos finais de manhãs de domingo da minha infância.
Eu gostava da bela peça de prata, mas também gostava da senhora, que tinha um lindo nome e que me tratou sempre pelos meus dois nomes. A única pessoa que me tratava daquela maneira. Uma sonoridade única. Aprendi muito com ela. Muito mesmo. Era uma personagem viva de épocas remotas.
Tenho saudades da minha "madrinha velha".

Antecipadamente grato

Alguma das muitas alminhas generosas que circulam por aqui, que conheça dirigentes do CDS-PP, pode fazer o favor de os esclarecer que as ações violentas e degradantes que resultam das praxes académicas têm todas, todinhas, há muito tempo, enquadramento na nossa lei penal? E que por isso não se torna necessário maçar os deputados da Nação com a invenção de mais um tipo de crime?

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Saída limpa, conceito vazio!...

Saída limpa e programa cautelar perseguem-nos até à náusea em todos os noticiários, programas, comentários de jornalistas e equiparados, economistas e doutores de todas as etiologias. Ficam os sábios pelas palavras, que palavreado abundante é sempre o melhor meio “pour épater le bourgeois”. Que, pode passar todo o tempo, mas é bem que nunca escasseia.
Claro que ao governo interessa uma saída limpa: aprovisionada que está a tesouraria até às eleições, é trunfo que tem nas mãos e que lhe pode dar a sorte no jogo eleitoral. E à Troyca também interessa, para comprovar a excelência das medidas preconizadas.
Convém é explicar que saída limpa só o seria se significasse a dispensa definitiva da Troyca, ou de cada uma das entidades que a compõem. E que essa dispensa definitiva traduzia a possibilidade de Portugal conseguir financiar sustentadamente os seus défices, que persistirão.
E que, para os poder financiar sem auxílio alheio, eles terão que ser reduzidos. E que, para serem reduzidos, a despesa pública, se não diminuir, pelo menos não pode crescer. E, não podendo crescer, haverá que transformar o efeito transitório das transitórias medidas de cortes de salários e de pensões em efeitos definitivos. O que significa que, porventura com recurso parcial a outras naturezas de despesa, as restrições aos orçamentos familiares persistirão.
Tudo isto se tornou claro para os mercados. Para eles pouco interessa que as medidas tomadas possam ter sido as mais fáceis e porventura as piores e mais penalizadoras para os cidadãos e para a economia. Porque eles sabem que se chegou a um ponto de não retorno. E tomam as palavras de Seguro como mero folclore, certos que estão que, seguramente, ele não modificará, a ser eleito, seja o que for.
E, porque sabem que não há alternativa ao controle do défice e que este se aproxima do valor aceitável, abriram as portas do financiamento, possibilitando assim a tal saída limpa. Mas que trancarão de novo portas e janelas a um que seja leve deslizar da política de contenção orçamental.
Óbvio que a posição do BCE de activar políticas agora eruditamente chamadas de “quantitative easing” , traduzidas na compra de activos , eufemisticamente dívida pública, como forma de estímulo à economia, ajuda à queda das taxas de juro. Acontece que esta política de estímulo monetário tem como causa próxima a deflação que se começa a sentir, pelo que, esta resolvida, lá se irão as políticas não convencionais e ficamos novamente dependentes de nós próprios.
Pelo que, “pour épater le bourgeois” uma saída limpa é bonita, mas esquece que o substracto se mantém. E que um programa cautelar, porque nada modifica, sempre seria um anteparo no caso de turbulência interna ou externa. Porque muitos de nós continuaremos por cá. 
Claro que nada disto se diz ou vai ser dito. O Governo falará de vitória, o PS de derrota, qualquer que seja a solução. E muitos dos media ampliarão o barulho, potenciando a confusão. 
Assim continuaremos a viver. Com politiqueiros promovidos a políticos reciclados em universidades de verão.  E grande parte dos jornalistas e comentadores como bons acompanhantes.

domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura


Uma grande recordação que Vasco Graça Moura nos deixa, entre tantas outras, é a grande luta que travou contra o famigerado acordo ortográfico da qual não chegou a ver, infelizmente, o resultado que pretendia. Agora, sem o apoio deste Grande Português, temos que unir esforços para continuar a batalhar...

No 25/IV, esconjurar os Efeitos da crise, esquecendo as Causas?

1. Aparte compreensíveis manifestações de saudosismo por parte de Velhas-Guardas de Abril de 74 e os delírios verbais de antigos altos dignitários do Estado agora convertidos em temíveis revolucionários, a nota dominante das manifestações públicas do dia 25 de Abril foi o protesto, veemente, contra "o estado a que o País chegou".
2. Curiosamente, não me recordo (pode ser falha de memória minha, mas não tenho a mais pequena lembrança, mesmo) de que no 25 de Abril de 2010 ou de 2009, por exemplo, se tenham verificado manifestações semelhantes, de protesto pelo "estado a que o País estava a chegar"...
3. Manda a verdade dizer que , caso tais manifestações se tivessem verificado em 2009 ou 2010, elas teriam feito todo o sentido nessa altura: quem tivesse os olhos semi-abertos (não era preciso mais) percebia perfeitamente que estávamos a caminho de um beco sem saída, tão evidentes eram os erros da política económica e financeira que nos era imposta...
4. Aqui mesmo, no 4R, ao longo desses anos, foram feitas repetidas e severas denúncias contra tais erros e suas nefastas consequências, e ainda não sabíamos, com precisão, da imensa factura que nos esperava em Abril de 2011...
5. Um clamor de protestos, no 25 de Abril de há 4 ou 5 anos, teria pois feito todo o sentido, talvez ainda fosse possível corrigir alguma coisa no percurso para o abismo que demencialmente estávamos trilhando - estar-se-ia atacando as CAUSAS da crise que acabou por nos atingir em cheio, poderiam, quem sabe, ter-se minorado alguns dos seus EFEITOS...
6. Agora, em 25/04/2014 é que se lembraram de protestar, lamentando ruidosamente os efeitos dos erros cometidos até 2011?
7. Mas isso é o equivalente a chorar sobre o leite derramado ou andar a correr atrás do prejuízo, adianta tanto como coisa nenhuma...
8. Mas, pior do que isso, é terem-se ouvido, de forma bem audível, discursos de fino recorte literário, clamando, qual promessa salvífica, pelo urgente regresso aos erros de política que nos arrastaram para a ruína financeira da qual estamos finalmente a sair, depois de incontáveis sacrifícios suportados por Empresas e Famílias...
9. Não há mesmo pachorra para aturar tanta falta de senso!
   

sábado, 26 de abril de 2014

O dia seguinte

Estas palavras, escritas por Pedro Santos Guerreiro na edição de 25 de abril do 'Expresso', merecem ser meditadas agora que vai ficando longínquo o som das proclamações:
"É constrangedor assistir a um sistema de poder que faliu mas em que a porta giratória recoloca as mesmas pessoas nos mesmos lugares que antes destruíram. A crise das elites. A crise das instituições. Bah!, o sistema rebola-se na sua própria sobrevivência. A banca rebentou por todos os lados, os governos levaram a dívida pública à insustentabilidade, há cortes permanentes de pensões, há impostos cavalares, mas o sistema permanece. "E o povo, pá?" é uma pergunta retórica. A economia é hoje quase tudo porque a política é quase nada. Um beco tem sempre saída andando para trás. Para a política, de novo. Mesmo nas crises económicas, financeiras, de dívidas soberanas.
A política portuguesa tornou-se a arte de preservação dos mais fortes, que habitam uma espécie de condomínio privado ladeado de arame farpado no meio de uma ilha num mar de minas submarinas. Não porque tenham medo dos pobres e dos excluídos, mas porque não os querem ver. O negacionismo é um soluto para a consciência. O resto do mundo passa a ser uma estatística. "O flagelo do desemprego", "O estigma da desigualdade". Essas frases, banalidades. E seria tão fácil sair da temperatura morna, mais do que ver, apalpar o real, senti-lo com as mãos. E depois mudar. Mudar devagar por dentro antes que tenha de mudar à bruta por fora. Afinal a liberdade não falhou. A liberdade de expressão. A liberdade de pensar, a liberdade de dizer. E de votar. E de fazer? E de fazer. O 25 de Abril é hoje. Sempre".

Cidadania dos direitos e dos deveres...

Muito interessante a iniciativa do Pordata de construir um portal sobre os direitos e os deveres dos cidadãos. Uma iniciativa que reforça a importância da cidadania. Muito útil a mensagem de que qualquer cidadão beneficia de direitos e garantias a que correspondem também deveres e responsabilidades.
Espreitei, já tem um vasto número de temas tratados e muitas perguntas e respostas. Perguntas daquelas que por serem tão simples parecem de difícil resposta.
Assim todos os cidadãos tenham a possibilidade de aceder ao portal e assim este tipo de iniciativas sirvam, também, para promover uma sociedade civil mais participativa e um Estado mais responsável. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O 25 de Abril agora e depois...

Ontem ao jantar estavam representadas quatro gerações: avós, pais, filhos e netos. Foi muito engraçado ouvir o que uns e outros tinham para dizer sobre o que de mais importante atribuem ao 25 de Abril e aos quarenta anos que entretanto decorreram de lá para cá.
Depois de muitas críticas e desabafos sobre a situação a que o país chegou, especialmente vividos nos últimos anos, todos foram capazes de eleger o que de mais importante aconteceu e foi conquistado. A crise da classe política recebeu a unanimidade dos votos.
Chegada a minha vez para me pronunciar, elegi o Estado Social como a principal realização colectiva que fomos capazes de construir. A educação, a protecção social e a saúde transformaram a vida do país, chegaram a milhões de pessoas. Fomos capazes de criar uma sociedade inclusiva, tanto mais impressionante quanto partimos de um patamar muito baixo. Mas não podemos estar totalmente satisfeitos. Não fomos capazes de incluir todos os portugueses, os níveis de pobreza atingem, depois de quarenta anos de democracia, mais de dois milhões de pessoas. 
Esta realidade mostra que nem tudo correu bem e que temos a obrigação colectiva de fazer muito mais. O Estado Social continuará a ser fundamental para uma sociedade inclusiva e para uma economia de todos. Temos que o reinventar, não se trata de ser menor ou maior, trata-se de ser melhor, na gestão e utilização dos recursos  Assim saibamos produzir mais riqueza, com o envolvimento de todos,  e promover a sua justa e equitativa redistribuição. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Liberdade

Comemora-se amanhã o dia da Liberdade. O dia de uma revolução feita para restituir a dignidade perdida, o dia que prometia o fim de todas as injustiças, o dia da redenção de um País que tinha sacrificado até então a liberdade à autoridade. Hoje, 24 de abril, véspera da comemoração desse dia, lembro com profundo desgosto que faz um ano que um Amigo perdeu a sua liberdade para proteção - dizem alguns - da liberdade dos outros. Um companheiro daqueles bancos da escola que ensinava o Direito em nome do qual, desgraçadamente para ele, para a família e para os que lhe querem bem, sofre no cárcere e no espaço público a injustiça de o julgarem como não julgam o mais odioso dos criminosos.
Com metade da pena cumprida, continua destituído dos mais elementares direitos, acossado pelos bufos reciclados do antigamente e pelos Torquemadas que esta democracia fez proliferar. Sente na pele a lógica de um sistema que, para sua própria proteção, faz prevalecer a autoridade à liberdade. Continua o juiz a dizer que assim tem de ser em nome da defesa da liberdade dos outros. Assim dizia, também, o juiz dos tempos que o 25 de abril prometeu acabar...

Isaltino Afonso Morais, não tenho muitos púlpitos. Mas neste que partilho com quem por certo compreenderá que faça dele o uso que só a mim responsabiliza, quero enviar o abraço do amigo que nunca perdeste. 
Como cidadão que celebrará, como sempre celebrou, o dia consagrado à Liberdade, deixo aqui a denúncia do crime que constitui não te devolverem o que há de mais precioso. Certo de que, neste Portugal que se transformou num areópago de carrascos, não se encontrará juiz com coragem para julgar esse crime.