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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um governo de negação

O PSD apresentou ontem no Parlamento uma proposta de redução da despesa no valor de 1,7 mil milhões de euros. Um Governo decente e responsável tinha por obrigação analisar e discutir a proposta, sobretudo numa situação difícil, como a actual. E, se cortes orçamentais são sempre politicamente difíceis, teria melhores condições para os executar, face ao apoio do maior partido da Oposição.
Acontece que o Governo, de forma tão arrogante como irresponsável, de imediato rejeitou o plano, classificando-o como “uma mão cheia de nada”. E logo tratou de usar os clássicos, tão abomináveis como detestáveis, processos de intenção, de forma a transferir a discussão para outras áreas. Então, a verdadeira proposta do PSD não era a que tinha sido apresentada; a verdadeira proposta era uma "agenda escondida", que tinha a ver com despedimentos na função pública, com o fim do SNS, com o fim da segurança social pública.
Enfim, o Governo e o Partido Socialista criticaram uma proposta virtual por eles próprios criada, de modo a evitarem a discussão de uma proposta concreta, aproveitável ou rejeitável, mas depois de devidamente estudada e analisada.
O Governo e o Partido Socialista não se deram ainda conta da situação crítica do país para a qual as suas políticas abundantemente contribuíram. E persistem em apelidar sumariamente de ignorantes ou disparatadas ou preguiçosas, por falta de trabalho de casa, tanto reputadas vozes internacionais como a voz do maior partido da Oposição.
Um Governo de negação, como tão bem um seu ministro foi qualificado pelo ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional, Simon Johnson.
Que terá o fim lógico e óbvio de ser rápida e definitivamente negado pelos portugueses.

O que terá acontecido?

Porque é que em Portugal as coisas não funcionam? Funcionam lá fora, mas cá não…
Não deixa de espantar que a exposição “Encompassing the Globe” realizada em Washington tenha sido fortemente patrocinada por mecenas portugueses, ao contrário do que aconteceu em Lisboa.
Quer dizer, a mesma exposição em Washington - realizada entre Julho e Setembro de 2007 - foi financiada em parte (segundo a notícia, num montante de 1,2 milhões de euros) por mecenas portugueses, de entre os quais estão a Fundação Gulbenkian, a CGD, o BPI, o BES, os investidores Joe Berardo e André Jordan, as Águas de Portugal, as Pousadas de Portugal, REN, FLAD e EDP. O Ministério da Economia também consta, através do Turismo de Portugal, da lista das entidades financiadoras.
Por cá, a “Encompassing the Globe” que decorreu no Museu Nacional de Arte Antiga - entre Julho e Novembro de 2009 - precisou de mais de 2 milhões de euros, pagos com dinheiros públicos, e apenas teve um patrocinador, a Fundação Gulbenkian, que avançou com um montante de 55 mil euros.
Segundo a notícia – lembro-me aliás de ter ouvido isso mesmo quando do anúncio da iniciativa – o ex-Ministro da Cultura do anterior governo informou que a Exposição seria realizada sobretudo com recursos a fund raising e que ele próprio se encarregaria de desenvolver os contactos de angariação de patrocínios junto das empresas portuguesas.
Olho para este caso com espanto, mas ao mesmo tempo com um sentimento de que já nada nos deve admirar. A ser verdade o que agora vem a público, é um absurdo o que se passou por cá com a organização desta emblemática e importante Exposição, dedicada à presença de Portugal no Mundo nos séculos XVI e XVII.
Mais uma vez se conclui que nem sempre os problemas são de natureza financeira, mas encontram explicação noutras causas, não menos importantes, uma delas que dá pelo nome de “organização”.

Banco de Portugal: Um homem com currículo

Num dos noticiários televisivos da manhã, um jornalista comentava a nomeação do Dr. Carlos Costa para Governador do Banco de Portugal. Apontando embora alguns aspectos positivos do seu currículo, salientava duas manchas negras: não ser conhecido do grande público e não ter experiência da supervisão bancária. Conhecido o modo como são replicados os comentários feitos nas televisões, a figura em questão corre o risco de ficar a ser conhecida não pelos seus méritos substanciais, mas pelos deméritos virtuais que o comentador lhe atribui.
Ser conhecido do grande público, em todo o lado e nomeadamente no sector financeiro, não é qualidade que corresponda a competência. Tirando os Presidentes dos grandes Bancos, por razões de ofício, mais ninguém é conhecido do grande ou do pequeno público. Mas o sector financeiro português é um dos mais modernos a nível mundial, o que atesta a competência dos seus gestores e quadros.
Ora o Dr. Carlos Costa tem um vasto, rico e bem qualificado currículo, quer como quadro e director do antigo Banco Português do Atlântico, como negociador e membro da representação permanente de Portugal na antiga CEE, como director de organizações comunitárias internacionais, como director-geral do BCP, como administrador da Caixa Geral de Depósitos e de outros bancos, ou vice-presidente do banco europeu de investimentos.
Entre tal currículo e ser conhecido do grande público, mesmo sem currículo, o atributo recomendável para esta sociedade virtual mediática seria o segundo. Claro que muita gente, por esta via, se torna competente e qualificada de um dia para o outro: meia dúzia de presenças na televisão e aí está um sujeito considerado e com opinião. Nesta ordem de ideias, também a ausência de currículo na área da supervisão seria um óbice, como se alguém o tivesse, a não ser que tivesse feito carreira, em tal área do Banco.
Não é por falta de currículo que o Dr. Carlos Costa não vai ser um bom governador do BP e, muito menos, pela ausência do que lhe foi apontado. A tal currículo profissional alia ainda um perfil e um conjunto de qualidades humanas que traduzem uma boa escolha.
Por uma vez, e não me lembro de muitas, o Ministro das Finanças pode ter acertado!...
Declaração de interesse: Conheci e fui colega do Dr. Carlos Costa no BCP, com quem fiz amizade.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Quase morte

Os fenómenos de “quase morte” aliciam qualquer um, sobretudo devido aos relatos de algumas pessoas que os contam e vivem com particular intensidade, uma luz maravilhosa, um túnel no fim do qual vislumbram luminosidades difíceis de explicar, traduzidas como sendo receções ou portas divinas para o paraíso. Já ouvi alguns relatos. Um deles marcou-me, porque foi contado com um sentimento de revolta por o terem ressuscitado, impedindo-o de ir para aquele espaço deslumbrante. Quando o ouvi, num programa televisivo, fiquei estupefacto pela forma como o ex-doente e quase morto criticava os que o salvaram. Este episódio fez-me recordar várias coisas, as razões destes tipos de fenómenos e um caso ocorrido comigo há muitos anos.
Numa noite, nas urgências do velho hospital, vi um senhor com graves dificuldades respiratórias. Solicitei uma radiografia do tórax, que se fazia na última sala. Não tinha decorrido muito tempo quando me chamaram. O senhor acabava de entrar em paragem cardíaca. Estava ainda na maca e comecei a tentar ressuscitá-lo sem convicção, porque de todas as vezes que o tinha feito, morreram todos. Era muito novo e voluntarioso. Os enfermeiros que me seguiram, ao fim de algum tempo de manobras de reanimação disseram-me: - Está morto, senhor doutor. Já está morto! Não me intimidei. Continuei com as manobras e, subitamente, verifiquei que o coração retomava os batimentos. Fiquei atrapalhado, porque não estava à espera. E agora? Agora tenho que o intubar, porque as dificuldades respiratórias mantinham-se. O pior é que nunca tinha feito essa manobra. A noite começava a ser cumprida e pedi que chamassem o colega da reanimação. Mas podia demorar e por isso tinha que avançar. Naquele tempo as coisas eram muito diferentes de agora. Já estava, meio nervoso, a iniciar a intubação, e ao mesmo tempo a tentar vigiar a parte cardíaca, quando o meu professor e diretor da reanimação passou, ocasionalmente, pelas urgências. Não estava de serviço. Olhou-me e perguntou face à minha mais do que visível ansiedade: - Oh S. o que é se passa?! Eu expliquei-lhe. Num ápice correu para mim e pediu-me para continuar com a vigilância cardíaca enquanto lhe enfiava o tubo pelas goelas abaixo, o que conseguiu logo à primeira tamanha era a sua experiência. Em seguida comecei a aspirá-lo, intervalando com uma ventilação manual. Não sei quanto tempo se passou, mas foi muito, até estar em condições para ir para o serviço de reanimação. Fiquei exausto. Nem sei como aguentei o resto da noite. Tinha conseguido, pela primeira vez, ressuscitar alguém. Recordo-me de na altura ter pensado: - Se o senhor se safar gostava de lhe perguntar se viu ou ouviu qualquer coisa durante esse período. Mas como muito provavelmente nunca mais o iria ver, dei por terminado este episódio.
Um interessante estudo esloveno efetuado em dezenas de pessoas que experimentaram o fenómeno quase morte revelou que os tais fenómenos, luz intensa e brilhante, “saída do corpo”, sensação de paz e de tranquilidade se devem a elevadas concentrações de dióxido de carbono. O que os autores não sabem é se os altos níveis de dióxido de carbono são devidos à paragem cardíaca ou se já existiam antes da morte iminente. É certo que algumas experiências demonstraram que a inalação de dióxido de carbono pode originar alucinações similares aos casos de quase morte. É uma associação e dificilmente se pode estabelecer nexo de causalidade e nem sei se algum dia poderá ser estabelecido, mas não deixa de ser interessante.
Voltando à minha vivência de há muitos anos, acabei, passados uns dias, ao chegar de manhã à minha enfermaria, de ver o doente numa das três camas que estavam sob a minha responsabilidade direta. Tinha tido alta do serviço de reanimação. Nunca tive a coragem de lhe fazer a pergunta. Achei que não devia. Recuperou e bem. Não sabia que era um paraplégico. Muito amável, educado e discreto. Afinal vivia no meu bairro. Diariamente fazia o seu percurso com a ajuda de familiares e contava a sua história quando tinha morrido às pessoas amigas ou conhecidas. Lembrava-se de, com muita falta de ar, ter ido ao banco e depois ficar tudo negro. Não viu nenhuma luz. Só ouviu vozes: - Está morto. Está morto. É preciso reanimá-lo. É preciso reanimá-lo. Já bate. Já bate. E contava a história repetidamente dizendo que o Salvador tinha sido o seu salvador. Cruzei-me com ele durante alguns anos, mas nunca fui capaz de lhe perguntar o que é que viu ou ouviu. Acabei por saber através de terceiros que, nas conversas do café, recontavam a história uns aos outros sem saberem quem eu era, naturalmente....

Para lá das análises, o interesse da Pátria

Todos os dias se sucedem as análises sobre a preocupante situação da economia portuguesa, vindos de "insuspeitos" analistas internos e externos.

Há muito que por aqui - e não só - se alertou para os erros das políticas de ilusão dos últimos anos. Acabaram-se as ilusões. É por isso chegada a hora para que, para lá das análises e dos diagnósticos, fazer tudo para desiludir os que apostam na ruína do País, estimulando a especulação.

Tem a primeira palavra o governo. Mas não só o governo...

Tarde piaram!...

Agora é o "conservador" economista e Prémio Nobel Joseph Stiglitz que chama a atenção para a vulnerabilidade das finanças públicas e da economia portuguesa, dizendo mesmo que correm o risco de falência.
De facto, face à crítica situação em que nos encontramos, torna-se agora fácil dar este tipo de alertas. Basta olhar para os dados fundamentais das finanças públicas e as conclusões são óbvias, independentemente do maior ou menor alarmismo.
Também muitos "pensadores" e muitos dos "grandes economistas" portugueses, que sempre defenderam e sustentaram a bondade das políticas governamentais, começam a tomar lugar na primeira linha daqueles, poucos, que sempre as contestaram.
Se, na altura oportuna, em vez de suportar os erros e as asneiras do governo, tivessem erguido a voz que agora exibem, por certo as coisas não teriam chegado a este estado.
Piaram tarde e a más horas!...
E não é bonito que, tendo ajudado a arrombar a casa, queiram ser agora ser vistos como os primeiros a meter trancas à porta!...

Criança com duas mães...


É a 1ª vez - Reino Unido: Casal de lésbicas regista bebé com o seu nome. Ambas são pais e mães... http://tinyurl.com/y5hvyau
Agora é uma questão de tempo para se propagar a outros países.
O conceito de família vai sofrer transformações impensáveis há meia dúzia de anos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

O 4R Memória I: Desastre mais que previsto!...

Multiplicam-se os sinais de alerta sobre a situação das finanças públicas portuguesas. Hoje, mais um foi lançado por um antigo responsável pelo FMI. Embora por vezes exagerados, não podemos deixar de concordar que eles têm fundamentação substancial, já que os défices públicos são muito elevados e a dívida pública, em 2013, será bastante superior à actual.
O 4R já perfez 5 anos em Novembro passado. Neste Blog, muitos textos previam o desastre que as políticas do governo iriam provocar.
Recordo um excerto de um post meu de há 5 anos, de Abril de 2005, plenamente actual, até porque, na altura, outro Pacto de Estabilidade e Crescimento era apresentado a Bruxelas.
“…Na sequência da revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento, o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças…já anunciaram as grandes linhas da política orçamental e financeira do Estado para a presente legislatura, que se poderão sintetizar nos seguintes princípios: o défice orçamental ultrapassará os 3% nos próximos anos, o défice de 2005 será de 6%..., o Governo não recorrerá a receitas extraordinárias, a tendência para um défice próximo dos 3% advirá primordialmente do crescimento económico e da luta contra a fraude e evasão fiscal…”.
Estes eram os factos. De que tirei as conclusões que se seguem:
“…Ou me engano muito, ou daqui a quatro anos, com esta política, estaremos em situação pior do que hoje, em termos de défice, e muitíssimo pior, em termos de dívida pública.
Pelo que se conclui da política governamental, a diminuição da despesa pública não assume carácter prioritário: por um lado, o Governo desistiu de um défice dentro do limite máximo do Pacto de Estabilidade, que continua a ser de 3% do PIB e, por outro, o Governo pensa que uma tendência para se chegar a 3% será assegurada automaticamente pelo crescimento e pelo aumento das receitas. Trata-se de um equívoco medonho, que um dia tratarei…”
Escrito em Abril de 2005. Não era preciso ter grandes qualidades de economista para prever o que se iria passar com tais políticas. A crise agravou, mas não pode servir de desculpa para o desastre.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Na esplanada

Àquela hora a esplanada estava vazia. Ele era o único ali sentado, com um prato de tremoços e uma cerveja, a falar alto ao telemóvel para que pensassem que estava a ultimar um assunto urgente.
As poucas pessoas na rua apressavam-se a ir para casa jantar e os colegas do trabalho ainda estavam no escritório, em reuniões prolongadas ou a acabar os trabalhos que sempre sobravam ao fim do dia. Ele também tinha tido esse hábito, chegar tarde a casa, o miúdo já deitado à espera do beijo apressado de boa noite, amanhã vens mais cedo, pai? Eu queria jogar contigo o jogo que me compraste no Natal. E ele, rápido, prometia, talvez, filho, vamos ver, o pai tem muito trabalho mas vamos ver. E o garoto adormecia a fungar, já não acreditava mas insistia sempre, na esperança de que um dia fosse verdade.
Não era capaz de dizer quando é que tudo começou a correr mal, os colegas a esquecerem-se de o chamar para as reuniões, o director a falar-lhe com distância, ele, que tinha sido o mais temido, o mais presente. È verdade que tinha começado a beber, um dia um almoço mais prolongado, depois mesmo antes do almoço, e a seguir também, precisava daquilo, daquele tónico da alma, ao princípio era para se sentir bem, depois já não sentia nada sem aquilo. Chegava a casa com um humor desgraçado, largava aos gritos por tudo e por nada, lembra-se até dos ímpetos de violência, o filho refugiava-se no quarto e já não queria brincar com ele, a mulher perguntava-lhe, o que foi, o que foi, e ele fazia um gesto largo, deixa-me em paz, são preocupações, nada que te interesse, e ia preparar outra bebida.
Por uma ou duas vezes avisaram-no de que era melhor não ir à reunião, da vez que teimou saiu-se tão mal, disparatou, as veias do pescoço salientes e os olhos enevoados do álcool, gostava daquela sensação de que era tudo à distância, de que nada o atingiria, mais um copo e nada lhe importava, só mais um copo.
Quando lhe tiraram o cargo de responsabilidade disseram-lhe que devia tratar-se, era uma pena que se deixasse afundar daquela maneira, que não desse cabo da vida. Começou a sair mais cedo mas não ia para casa, a mulher e o filho não podiam saber, gastava as horas sem saber como e justificava a bebida como sendo o seu consolo e a sua única companhia.
E agora, que no emprego nem davam pela falta dele, agora que ficava a vaguear depois de almoço sem saber para onde ir, agora não podia chegar a casa e abraçar o filho, que ficou a viver com a mãe quando ela lhe arrumou as coisas numa mala e o mandou sair. Disse-lhe assim mesmo, sai, agora, nunca mais te quero ver. Imperiosa, desapiedada, numa fúria fria que não lhe deu espaço para mais nada. Pegou nas coisas, incapaz de se opor, lembra-se agora que até sentiu alívio por poder ir beber um copo sem ouvir recriminações. Ouviu vagamente o choro do filho, lá longe, no quarto, ainda se voltou para lhe ir dar um beijo e prometer que voltava mas esbarrou nela, na determinação daquele olhar duro e inclemente, disse em voz alta, até logo, filho, o pai já vem, e desceu as escadas apressado, como um fugitivo.
Escolheu aquela esplanada porque dali via as janelas da casa, àquela hora já a mulher e o filho estavam em casa, podia saber se estavam na sala ou na cozinha pela posição dos estores, não tardava já acendiam as luzes e até conseguia ver as sombras esbranquiçadas do écran da televisão na parede.
Bebeu o último golo de cerveja e levantou-se, entorpecido, para ir apanhar o metro para o outro lado da cidade. Ao deixar as moedas na mesa de metal manchado, reparou que a mão lhe tremia. São saudades, pensou, não posso continuar assim. Amanhã deixo de beber, vou prometer-lhe que deixo de beber. Boa noite, filho, o pai promete que volta depressa, espera por mim.

Jamais, jamais e jamais!

Então, no prosseguimento da audição a Mário Lino, no âmbito do Inquérito sobre a alegada intervenção do Governo na compra da TVI pela PT, aqueles inocentes deputados perguntaram:
- Sr. Eng., V. Excia abordou alguma vez o processo PT/TVI nas reuniões que manteve com o CA da PT?
-Jamais! "A PT/TVI nunca foi matéria abordada, nem podia ser, porque nunca foi abordada nas reuniões dos Conselhos de Administração e Executivo...", respondeu ainda mais inocentemente Mário Lino.
Claro!...Jamais Mário Lino abordaria questões que previamente tivera que abordar para saber que não tinham sido abordadas, muito menos para sugerir uma qualquer abordagem.
Não, jamais!...

Decisões de política económica: estranha sensação de ligeireza...

1. O episódio recente da mudança de opinião, num curtíssimo espaço de tempo, no tratamento fiscal das mais-valias bolsistas, ilustra bem a leveza com que importantes decisões de política económica são hoje tomadas – e que explicam, em boa parte, o estado de degradação dos indicadores e das expectativas económicas.
2. Devo dizer, para começar, que o facto de a taxa de tributação das mais-valias (líquidas) passar de 10% para 20% não constituiria em si mesmo uma questão muito controversa, em tempos normais.
3. Até posso entender que, sendo a taxa de tributação dos dividendos de 20% e dos juros sobre activos financeiros tais como depósitos e obrigações também de 20%, é capaz de fazer sentido que a taxa de tributação dos ganhos de capital seja alinhada com essas.
4. A questão não é pois essa...a questão é outra e tem a ver com o estado de submissão em que as decisões de política económica hoje se encontram em relação às conveniências mediáticas do momento.
5. Com efeito, a decisão de manter a tributação das mais-valias em 10% tinha sido justificada pelo Governo, há pouco mais de 15 dias, com fundamento na situação do mercado de capitais...só quando o mercado de capitais desse sinais claros de ter superado a crise que o marcou desde há cerca de dois anos, essa questão poderia ser revista - era a posição oficial há 15 dias...
6. Agora, com a situação do mercado de capitais inalterada (na melhor das hipóteses...) decide-se, de um golpe, voltar atrás e aceitar que as mais-valias sejam tributadas em 20%...que sentido faz isto?
7. A principal consequência do aumento da tributação das mais-valias só poderá ser, naturalmente, a de encarecer o custo do capital para as empresas.
8. Não se pensou, ao decidir assim, que o custo do capital (factor entre nós cada vez mais escasso) já constitui hoje uma desvantagem relativa das empresas portuguesas, com tendência de agravamento a curto prazo?
9. Não se pensou que com esta decisão se pode estar a dar aos investidores do mercado de capitais um sinal de que devem procurar outras praças para investir? Chamem-lhe especuladores ou outros nomes, se quiserem, mas a verdade é que o seu menor interesse pelo nosso mercado só nos pode trazer custos adicionais...
10. Nada disto, nem a opinião tão firmemente sustentada há apenas 15 dias, contam pelos vistos: a agenda mediática ditou que agora era mais “bonito” aumentar a tributação das mais-valias, e pronto, aumenta-se a tributação das mais-valias fazendo tábua rasa de argumentos que apenas há 15 dias eram tão importantes...
11. Impressiona bastante esta ligeireza com que se vão tomando decisões de política económica...ao sabor de impulsos mediáticos do momento, neste caso da opinião mais ruidosa de uma facção do espectro político que encara as mais-valias como um alvo a abater...
12. A economia, essa, parece pouco ou nada relevar – depois não se queixem, como já aqui tenho dito...

domingo, 18 de abril de 2010

O Perfil!...

Até hoje, confesso que não percebia bem para que serviam os perfis traçados nos estudos científicos ou em teses de doutoramento em sociologia, normalmente utilizados para ilustrar os temas objecto de estudo. Lamentavelmente, não conseguia ver o alcance do perfil do corrupto, apresentado nos estudos sobre a corrupção, o perfil dos assaltantes a bancos ou bombas de gasolina apresentado nos estudos sobre ladroagem, ou o perfil dos sem-abrigo, inserido nas teses sobre quem dorme na rua. Pensava mesmo que o seu préstimo se esgotava no facto de, à míngua de ideias, dar uma dimensão razoável ao livro ou à tese.
Mas hoje, ao ler uma notícia sobre um trabalho que apresentava o “perfil" do corrupto, tive um clic e fez-se luz no meu mal iluminado espírito. E vi, como a partir daí, se pode acabar com a corrupção.
O perfil científico indicado para o corrupto é o seguinte: homem, casado, entre 36 e 45 anos, sem antecedentes criminais, com vínculo profissional a tempo inteiro.
Ora aí está a forma simples de acabar com a corrupção nos serviços públicos: demitir todos os homens casados dos 36 aos 45 anos, e sobretudo aqueles que não têm antecedentes criminais, por serem os mais perigosos. E membros do Governo com essa idade, nem pensar!... Se, por necessidade inadiável e permanente de serviço, se justificar qualquer excepção, pois que fiquem os que já têm vastos antecedentes criminais, que são os que, face ao perfil, dão maior segurança.
Claro que se o sujeito se divorciar, já deixa de ser casado e perde o perfil. Pode continuar, à vontade, funcionário ou Ministro. Mas, quando perfaz 36 anos, meus amigos, rua com ele. Sob pena de o chefe ficar associado à corrupção!...
Depois disto, até me arrepio ao pensar que um dia pensei que os perfis não serviam para nada!...
Nota: Ah, e altere-se a Constituição: Presidente, casado, dos 36 aos 45 anos, nunca!...

E é só fumaça...!

É uma espécie de jogo da estátua, de repente alguém dá sinal e tudo fica parado na exacta posição em que estivesse quando soou o apito. Interrompe-se a inércia que ia levar ao movimento seguinte, ao que se seguiria naturalmente para recuperar o equilíbrio e continuar a acção até se chegar ao destino e fica-se assim parado, um pé no ar, o braço avançado, o pescoço torcido em posições tão incómodas e arriscadas quanto a liberdade dos gestos que se ousou durante jogo.
A nuvem que tolda a Europa bloqueou os movimentos incessantes, a gigantesca inércia das deslocações, dos transportes, da rapidez e da pressa das agendas. De repente, tudo se suspende, amontoa e bloqueia, como por magia, uma nuvem, imagine-se, ainda por cima vinda dos fundos do mar, parece ficção científica, se houvesse um filme com este tema diríamos que já não se sabe o que mais inventar para atrair multidões. É bem certo que a realidade muitas vezes ultrapassa a ficção.
Já estávamos convencidos de que era possível dominar tudo, controlar tudo, prever quase tudo, e é um espectáculo impressionante ver como não há transição, não há tempo de adaptação, tudo acontece tão depressa que as distâncias que a modernidade já tinha vencido de repente lembram-nos a sua real dimensão.
Não houve mortos nem feridos, felizmente, quase passa despercebida a tragédia do terramoto algures na China, onde o socorro tarda em chegar, aqui é só fuligem e passageira, mas para quem está habituado a viver na organização e na segurança este caos é intolerável. As pessoas estão zangadas e impacientes e reparam assustadas que as respostas tardam e que “não há responsáveis” a quem exigir protecção ou dirigir o pedido de indemnização. Bem vistas as coisas, é apenas uma gigantesca contrariedade, muitas das coisas inadiáveis são adiadas, muitas urgências podiam afinal esperar uns dias, outras passam sem nós, os prejuízos materiais de uns são a galinha dos ovos de oiro para outros. O nosso mundo evoluído e confiante é afinal tão frágil, mas uma nuvem que deixa os aviões em terra é talvez a mais suave das maneiras de nos lembrar o grau de conforto e de liberdade de movimentos com que nos habituámos a viver e de que usufruímos com a naturalidade de uma rotina garantida. De vez em quando, lá vem a natureza lembrar que “o céu nos pode cair na cabeça”…

Uma entrevista para ler...

Gosto de ler as entrevistas de António Barreto. Aprecio a sua independência e liberdade. Embora não concorde com todas as suas opiniões e avaliações, é séria e realista a abordagem sobre os problemas que o País enfrenta, é grande a variedade dos temas tratados - a sociedade, a ética, a política, a justiça, a educação - e interessante a visão sociológica.
Não apresenta soluções. A frase "A situação é muito difícil. Há fragilidades muito grandes nas instituições. As pessoas não têm confiança." tem sido dita e redita. Não tem nada de novo. Está perigosamente velha. Sendo a falta de confiança um grande obstáculo, uma grande questão é saber o que é preciso transformar para recuperar a confiança!

sábado, 17 de abril de 2010

A nuvem que nos assombra!...

Um vulcão na Islândia gelada está a deixar a Europa sem transporte aéreo. As televisões montaram serviço permanente nos aeroportos. De dez em dez minutos os canais de noticias gastam meia-hora a focar as multidões nas salas de espera, apontam às filas para os balcões ocupados e aos écrans com os voos cancelados, registam o número de aviões que não puderam aterrar ou descolar, divulgam dramas pessoais de gente que não consegue chegar ao seu destino, entrevistam tudo o que mexa e lhes passe a um metro de distância.
Os canais generalistas, esses fazem do acontecimento um verdadeiro festival nos telejornais. Passam por todos os aeroportos da Europa, entrevistam cientistas e meteorologistas, pilotos e comandantes, políticos e responsáveis aeronáuticos e mostram-nos aviões e mais aviões em pista e passageiros nervosos. E mostram gráficos e imagens e figurações da nuvem de poeira que avassala os céus europeus.
Eu até admito isto tudo, embora as imagens ou os depoimentos sucessivos não tragam qualquer valor acrescentado em relação ao que anteriormente ficou dito. Mas é a lógica actual da informação, uma informação de encher chouriços. Claro que as pessoas gostam de chouriços.
Mas o que eu não posso compreender é a pergunta repetitiva, constante, permanente, incessante, contínua e massacrante, que os jornalistas das televisões fazem a quem lhes aparece pela frente se porventura a TAP os tem informado devidamente do momento da partida.
Então depois de todo o arrazoado anterior, dos gráficos e dos esquemas da deslocação errática pelos céus de parte de uma boa parte das entranhas islandesas é a TAP que vai dizer onde chegam ou não chegam ou a que horas chegam? E não é que muita gente responde que a TAP não os informa?
Pior que a nuvem islandesa é a nuvem que nos assombra!...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

“Seres que outrora foram humanos”

Dizem que os animais não têm alma, só os humanos. Quando é que começaram a ter alma? Quando começaram a usar instrumentos, a planear o futuro, a utilizar a linguagem e a fazer uma série de coisas que os animais parecem não ser capazes? Mas há animais que usam instrumentos, têm uma forma de linguagem e até conseguem planear e antecipar o futuro de tal modo que, hoje em dia, é suficientemente óbvio que a linha que os separa é cada vez mais ténue. Esta perspetiva resulta da aceitação de que alguns animais apresentam capacidades cognitivas ao ponto de alguns cientistas construírem a seguinte interrogação: deverão essas criaturas ser consideradas como pessoas?
Quando um animal mata o seu tratador será que é um ato premeditado? Terá consciência e vontade de o fazer? Animais considerados inteligentes têm tido este comportamento. Afirmam alguns cientistas que estes tipos de animais não têm sentido da moralidade como os seres humanos, mas como classificar muitos homens e mulheres que também não o têm?
O debate sobre se algumas espécies animais deverão ou não ser consideradas como pessoas está em curso e, decerto, irá levantar muita celeuma, mas, no futuro, a posição dos humanos face às outras espécies irá modificar-se radicalmente. Quando e como? Não sei, mas “sente-se” algo nesse sentido. Os próprios direitos dos animais têm vindo a avolumar-se e a intensificar-se nos últimos tempos. Acresce que muitos estudos efetuados em algumas espécies revelam que estamos perante seres inteligentes, com interessantes capacidades cognitivas e até sentimentos que julgávamos ser os únicos detentores.
Em simultâneo com esta apreciação, a leitura de uma obra de Máximo Gorki, “Seres que outrora foram humanos”, levou-me a refletir mais uma vez sobre a natureza humana e a sua tendência. Seres que vivem em condições particulares, ao arredio da sociedade, que os teve e utilizou, mas que o tempo humano despejou numa iniquidade difícil de aceitar, retirando-lhes todas as prerrogativas. Na introdução, Chesterton afirma que “... a perda da humanidade ou a perda aparente da humanidade, para ele (Gorki), não é apenas enorme e lamentável, como também essencial e mística. A linha que separa o homem dos animais é uma das essências transcendentais de cada religião...”. As teologias definem essa linha não como algo esbatido mas sob a forma de um abismo inultrapassável entre o animal e o homem. Mas a história, a reflexão e análise dos homens demonstram, e bem, que o mesmo pode ser ultrapassado. Não há abismos intransponíveis.
São muitas as pessoas que viveram e vivem num contexto idêntico ao descrito por Gorki, meros “seres que outrora foram humanos”. As espécies animais não podem transpor esse abismo, a não ser que consigam ser religiosas, uma grande diferença entre humanos e animais. Que eu saiba não existe qualquer elemento que aponte para uma qualquer religiosidade animal, embora muitos humanos não acreditem e nem necessitem da religião.
De facto, em termos práticos é muito difícil estabelecer a tal linha...

Contrato espontâneo e apoio generoso

"Como apoiante espontâneo e fervoroso, (Figo) quer assinar primeiro o contrato..."
Paulo Penedos, citado no artigo Isto anda tudo um bocado pornográfico, de José Manuel Fernandes, no Público de hoje.

"O apoio que Figo deu ao PS e a mim próprio foi um apoio livre e generoso e independente de qualquer contrato..."
José Sócrates, no Programa de Miguel Sousa Tavares, citado no artigo de José Manuel Fernandes, no Público de hoje.

Os novos 50 anos

É um facto que, dobrados os 50 anos, as conversas nas reuniões entre amigos mudam completamente de temas. Durante os primeiros anos da juventude era o fascínio da mudança, da autonomia, a fantástica experimentação da vida “verdadeira”, acabar os cursos, casar, arranjar emprego, casa, automóvel, o nascimento dos filhos quase todos em poucos anos. Sempre que falávamos, e falávamos sempre, havia imensas novidades, perguntas ansiosas, um entusiasmo cúmplice de quem fazia o caminho a par e passo. Depois foi o tempo dos encontros cada vez mais espaçados, não havia tempo para nada, absorvidos até ao limite com o intenso ritmo de vida.
A fase dos filhos adolescentes é talvez a mais complicada, junta-se com a altura de maior esforço profissional, cada um precisa do seu espaço mas é preciso guardar um espaço comum, um equilíbrio exigente e diário, é preciso dar atenção a tudo e muitas vezes distraímo-nos do que dantes era tão importante, adiando um dia e outro, na esperança de poder retomar o fio quando houver um pouco de sossego.
Então, quase sem repararmos, celebramos os 50 anos, num instante os seguintes, e olham-se as muitas etapas já concluídas, quase todas as que nos consumiram energias, entusiasmo, alegrias e desilusões. Nessa fase da vida já renderam as qualidades e assumem-se sem complexos os defeitos, já se esgotou a paciência para muitas cedências, para nos esquecermos de nós próprios, para esperar oportunidades.
Depois dos 50 há balanços, com o seu cortejo de confirmações e ajustes de contas. Mas o declínio da juventude é hoje mais lento, acredita-se mesmo que é possível adiá-lo, e a necessidade de reajustamento resulta também da ânsia de aproveitar plenamente uma nova fase da vida, que se perspectiva cada vez mais longa.
Se foi possível uma relação afectiva profunda e um estilo de vida em que ambos se sintam bem, esta fase traz o gosto de uma nova liberdade, uma sensação de dever cumprido, que permite que se usufrua do que se construiu ao longo da vida, não só materialmente mas também emocionalmente. No entanto, obriga a que se procurem novos centros de interesses e exige uma espécie de recomeço interior, reorganiza-se o tempo, aceitam-se as diferenças, recuperam-se gostos esquecidos de partilha e companheirismo que preencham numa nova harmonia o vazio e o silêncio que ficou.
Mas outras vezes essa reconstrução não é possível porque o que sobra é apenas um monte de estilhaços que se encara com desânimo e sem fé na sua regeneração. Confrontadas com o tempo que corre veloz, recusam renunciar à felicidade e decidem-se pela mudança radical, partindo para a renovação dos três “cês”, como li há dias numa revista,”casa, carro, cônjuge”, muitas vezes o emprego também, arriscando começar tudo do zero rumo a uma nova vida.
Depois dos 50, seja qual for o lastro de realização ou frustrações com que cada um aí chegue, as conversas entre amigos voltam ao tema das motivações pessoais que determinam o modo como se encara o futuro.

O vulcão da vida moderna...


Vulcão Glaciar Eyjafjallajokull - Islândia

É impressionante como os fenómenos naturais perturbam a globalização, o desenvolvimento económico e social que construímos, como se limites não existissem ou como se as tecnologias que sucessivamente inventamos tudo permitirão controlar ou condicionar. E de repente parece que ficamos como que paralisados. É como se o mundo parasse.
Felizmente que não é assim. Os vulcões continuarão a proporcionar-nos espectáculos extraordinários e perante a sua grandeza resta-nos admirá-los e protegermos a vida das pessoas que vivem perto do seu epicentro.
Nada é absoluto. O que não é bom (ou aparenta não ser) também tem as suas virtudes...

Recuperar o tempo perdido...

Têm surgido vários avisos sobre as dificuldades das famílias, que se poderão agravar, em fazer face às despesas com a educação dos filhos, inclusive tratando-se de escolaridade obrigatória. Mas os avisos são acompanhados de situações concretas que vamos conhecendo. Não é de estranhar que numa fase de dificuldades económicas, em que sobressai um elevado nível de pobreza e a que se junta um significativo aumento do desemprego, a capacidade para fazer face às despesas com a educação se ressinta face a orçamentos familiares mais apertados e em muitos casos insuficientes para satisfazer necessidades básicas.
E as preocupações adensam-se quando o PEC prevê que serão revistos os limites de deduções fiscais em função dos escalões de rendimentos. Se por um lado é justo que as deduções à colecta do IRS sejam diferenciadas em função do rendimento colectável das famílias, é fundamental que os limites sejam realistas tendo em consideração o custo da educação e a capacidade e a elasticidade do rendimento das famílias.
Se pensarmos que Portugal tem necessidade de investir em educação, então o Estado deve preocupar-se com políticas que não aumentem o custo da educação por via fiscal. Muito pelo contrário, é normal que o custo com a educação seja subsidiado pelo Estado, por se tratar de um benefício fundamental para a sociedade, do qual o desenvolvimento económico está dependente.
São inúmeros os estudos que mostram que a educação tem um papel fundamental no desenvolvimento económico e social moderno. A realidade é, a este respeito, uma evidência. Não será o único factor, mas baixas qualificações constituem uma dificuldade para responder aos desafios da inovação. Inovação não apenas no sentido tecnológico, mas em múltiplos aspectos que envolvem, por exemplo, gestão e organização.
Os países que mais progrediram ao longo do século XX foram aqueles que investiram fortemente na educação, tendo proporcionado à população activa níveis de escolaridade elevados e obtido por essa via vantagens competitivas geradoras de desenvolvimento económico, de bem estar económico e social.
Um estudo recente, publicado no Boletim da Primavera do Banco de Portugal – “O Investimento em Educação em Portugal: Retornos e Heterogeneidade” – lembra que Portugal entrou no último quarto do século XX com a população activa menos escolarizada de entre os países da OCDE e que a educação está no primado das decisões individuais, sendo a que tem mais impacto na produtividade do trabalho e no retorno que os trabalhadores obtêm no mercado de trabalho sob a forma de salários mais elevados.
Se é verdade que em Portugal as mudanças tecnológicas nas últimas décadas se acentuaram, fruto da crescente abertura e integração económica mundial, também é um facto que os benefícios daí decorrentes foram apropriados de forma assimétrica pela população activa. É que as oportunidades surgidas no mercado de trabalho estiveram apenas ao alcance de uma reduzida percentagem, constituída pela parte da população activa com maior nível de escolaridade. Esta realidade, segundo o estudo, explica como o crescimento económico em Portugal originou uma maior desigualdade na distribuição do rendimento. Ou seja, o acesso a oportunidades profissionais mais produtivas é condicionado pelos níveis de escolaridade.
Portugal fez importantes progressos, quer em termos de cobertura da população pelo sistema de educação quer em termos de melhoria de qualificações. Apesar desta evolução positiva, “o actual nível de escolarização da população portuguesa permanece particularmente baixo face ao conjunto de países desenvolvidos.” Em 2007, Portugal apresentava de entre os países da OCDE a mais baixa proporção da população activa com o ensino secundário completo e uma das mais baixas proporções de cidadãos com o ensino superior completo.
Este panorama condiciona as mudanças de padrão de desenvolvimento que precisamos de realizar e mostra que é necessário fazer um grande investimento na educação das gerações mais novas e que, ainda assim, os resultados não serão imediatos.
Num tal contexto, o investimento em educação é uma prioridade que o Estado deve acarinhar, olhando para o esforço que é exigido às famílias para fazerem face às despesas com educação, numa perspectiva de que está em causa um bem público sem o qual continuaremos a ter grandes dificuldades em criar riqueza sustentável.