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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Cartas de namorado

Londres, 15 de Agosto de 1885
Minha Senhora
A sua carta não diz “nem de mais nem de menos”. E se bem interpreto a sua natural e delicada reserva ela exprime um consentimento que me enche de uma incomparável felicidade e da mais absoluta gratidão. E, neste momento, no meio desta grande emoção que me causa a repentina possibilidade que se unam os nossos destinos, eu só posso responder sem mais palavras ofertando-lhe a afeição e a dedicação de uma vida inteira.

Londres, 30 de Setembro de 1885

(…) Aqui está, minha querida amiga, o que é uma mulher lidar com homens de imaginação! Eles vibram facilmente demais, e são de uma natureza tempestuosa. Ah, se eu fosse mulher eu bem sei que homem escolhia! Escolhia-o grave e fleumático, tão meticuloso nas suas palavras como no arranjo das suas gravatas, sem a menor possibilidade de exaltação nem a menor pontinha de ideal, medindo os sentimentos a compasso, correcto, ligeiramente majestoso e leitor embevecido dos artigos de fundo do Ilustrado. Tal seria o meu doce bem-amado. Que lhe parece? Não me arrebataria ao céu nas rajadas da sua paixão, bem sei; nem me faria jamais palpitar divinamente de emoção. Paciência! Mas também não me arrastava pelos cabelos através dos caprichos da sua fantasia, nem me sacudia o coração a ponto de mo quebrar, nem disparatava por causa de subtilezas de sentimento. E talvez não deixasse de haver felicidade nessa apática e morna tranquilidade. Ora se eu fosse como um noivo ideal não lhe teria escrito ontem num tom arrebatado e un peu tragique. É verdade que, por outro lado, também, não a adorava com a mesma adoração. E esta é a moral do caso: é que me impressionei tanto com as suas menores palavras – porque a adoro. Et il faut toujours pardonner bien à qui nous aime bien. (…)
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(Eça de Queiroz a sua noiva, Emília de Castro) in Cartas de Autores Portugueses coligidas por José Ribeiro da Fonte, ed. CTT

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Omnipresente...e a todo o tempo.

O homem é, de facto, super-homem. Omnipresente. Na Sardenha, em Roma, em Milão, em Bruxelas. No Conselho de Ministros, no Parlamento, no Tribunal e no Senado. Nos comícios partidários e nas festas particulares. No futebol do Milão e nos negociações com Bruxelas. Nas visitas oficiais por todas as partidas do mundo. Nas reuniões do G7 e no Forum de Davos. Nos Conselhos da CE. Nas reuniões com o patronato e com os sindicatos. Nas negociações partidárias. Com o Povo da Liberdade e com a Liga Norte, com o Povo Democrático e com a Esquerda Arco-Íris.
Só me espanta como é que tem tempo e mais tempo e mais tempo e mais tempo e mais tempo!...
Nota: Acabei de ler no Expresso que Berlusconi "já esteve presente em 2568 audiências".
Tempo para acusar também não falta à justiça italiana.
Enfim, nada para levar a sério...

Que parvo que ele é!


Cartoon do The Economist

Brunetta é o seu nome, é ministro italiano da administração pública e comprova com esta tirada que a Itália se transformou numa enorme "bota". Que substância estranha é que esta gente andará a tomar?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Rua!...

Um grupo de "amigos e admiradores" de Carlos Castro vai propor à Câmara de Lisboa que seja dado o nome do cronista social a uma rua da cidade, diz o Expresso.
A propósito da informação sobre Carlos Castro, um artigo de João Caupers, Prof. de Direito da Universidade Nova.
Que raio se ensina nos cursos de comunicação e de jornalismo?
Não se lhe conhecia qualquer actividade social, intelectual, científica, artística ou política meritória ou, sequer, relevante. Era um personagem medíocre, de cujo perfil apenas pude recolher dois traços, que alguma comunicação social considerou merecedores de referência: era homossexual e era "cronista social".
O primeiro traço deveria ser completamente irrelevante, já que emerge da liberdade de orientação sexual, que apenas a cada um diz respeito. Todavia, considerada alguma prosa que a ocasião suscitou, terá tornado a vítima mais digna de dó – vá-se lá saber porquê!
O segundo, considero-o pouco menos que desprezível: significa que a criatura “ganhava” a “vida” a escrevinhar coscuvilhices e a debitar maledicências, chafurdando nos dejectos dos socialites.
A viagem que o levou a Nova Iorque tinha um óbvio móbil “romântico”, que a comunicação social preferiu apenas insinuar, não por pudor, mas porque a insinuação vende melhor do que a afirmação: tratava-se, simplesmente, de seduzir um jovem de 21 anos.
Quanto a este, também os seus motivos parecem evidentes: “pendurou-se” no idoso para, explorando as suas “inclinações”, beneficiar dos seus supostos contactos internacionais, iniciando uma carreira no mundo da moda.
Estavam, pois, bem um para o outro.
Nada me interessam os pormenores abjectos que rodearam o assassinato. Deixo-os aos media, lambendo os beiços com a sordidez da história, muito melhor do que o criador de qualquer reality show poderia inventar.

A geração que querem fazer de parva


Está aí a fazer furor uma canção chamada “Parva que sou”, porque exprime em meia dúzia de quadras a desilusão de uma geração que estudou e que vê indefinidamente adiada a sua realização pessoal e profissional. O mote serve para colar logo o rótulo “geração parva”, que isto de rotular gerações é o que há de mais cómodo.
Que há um enorme desajustamento entre a procura e a oferta de empregos qualificados, isso é uma evidência. Que as empresas preferem explorar essa abundância oferecendo sobretudo empregos temporários e mal pagos ou admitindo apenas “estágios gratuitos”, também parece inegável, seria até muito interessante ver o impacto que a dimensão dessa “flexibilidade” trouxe às empresas, em pelo menos dez anos seria já altura de fazer o balanço entre a tão criticada rigidez laboral e a total ausência de compromissos de parte a parte.
Mas, apesar de tudo isto ser verdade, também não me parece que os jovens desiludidos se possam dar ao luxo de se considerar parvos. Parvos porquê? Porque acham que foram enganados por quem os estimulou para estudar mais? Parvos porque andaram a aprender, a ganhar qualificações, a valorizar-se? Parvos porque podiam ter andado a trabalhar desde os 16 anos com a escolaridade mínima e afinal andaram a maçar-se na Universidade? Desculpem lá mas parvos é que eles não são. Por muito difícil que seja a situação que hoje vivem, por muito que lhes custe ver adiada a sua vida e os seus projectos, por muito injusto que seja o enorme desperdício das suas qualidades e da sua capacidade de trabalho, terem estudado é o melhor que podiam ter feito, é um valor que vai sempre para onde forem e que poderá, mais dia menos dia, dar os seus frutos. Não ter expectativas frustradas por não se ter nada, seria certamente muito pior.
Não são os jovens diplomados que são parvos por terem um diploma e ambicionarem um emprego compatível, parva é a sociedade que não lhes dá o valor e os deixa esmorecer por falta de oportunidades.

As revoltas na rede

Há dias, no telejornal, o locutor passou a palavra à enviada especial no Cairo, pedindo-lhe para relatar os acontecimentos que aí se viviam, logo a seguir à renúncia de Moubarak. A repórter quase saltava de alegria, toda ela resplandecia de emoção, os jovens tinham libertado o Egipto, a hora era de alegria perante a vitória, a revolução mobilizada através das redes sociais era um sucesso, etc, etc. O locutor, do lado de cá, parecia de repente pouco à vontade, sim, vê-se a alegria na praça, mas podes detectar alguns sinais de apreensão, como é que as pessoas aí encaram o futuro, quais as preocupações que ouves? Nada, a senhora nem compreendeia bem, ela só tinha falado com os jovens revolucionários na praça, que alegria, que esperança, o povo vai construir a democracia. Nas capas dos jornais também aparecem fotografias enormes, o Egipto libertado. Depois, em letras muito pequeninas, lê-se aqui e além que a democracia não é assim tão fácil de construir e que os empregos para estes jovens vão levar muito tempo a chegar. E temos a sensação de que falta contar uma parte importante da história.
O problema de já não sermos assim tão jovens é que nos lembramos de coisas que já aconteceram, e duvidamos ou, pelo menos, não aderimos logo à alegria esfuziante. Duvidamos logo em primeiro lugar do que possa ser isso de uma revolução “guiada” pelas redes sociais, assumida pelos “jovens na rua”, no mínimo nunca ninguém viu nenhuma, e muito menos quando ela faz o seu caminho de repente, como uma corrente, através de vários paises sensíveis ao mesmo tempo. O que se segue a uma revolução através do faceboook? Quem a lança e comanda, quem estará pronto para tomar o poder, mesmo que venha a haver eleições que as Forças Armadas hão-de talvez preparar? Porque é que o discurso de Obama, sempre cheio de floreados e de frases emocionantes, me pareceu tão cauteloso, para não dizer inseguro?
É um facto que os ditadores se consideram eternos e tardam em preparar a sua sucessão, confiando que basta ir anulando os opositores, fazer propaganda e controlar os pontos esssenciais do poder. Até um dia...
Espero sinceramente que os amanhãs que cantam no Egipto possam confirmar toda esta explosão de alegria, mas que as redes sociais me parecem um universo demasiado vago para garantir alguma coisa, isso parecem.

Pedra-memória

- Hoje à tarde escusa de vir. Não vai haver consultas. – Não?! Porquê? - Greve. Os trabalhadores estão em greve e as consultas tiveram de ser desmarcadas a pedido da entidade patronal.
Logo que ouvi esta informação, senti o disparo de um corisco luminoso entre os meus hemisférios, acendendo o desejo de ver uma amada que tenho andado a desprezar há algum tempo. O sol, que queria romper através das cortinas das largas janelas do consultório, acenou, brilhantemente, que sim, que deveria ir. O destino da tarde estava traçado: Buçaco.
Almocei, e ao sair de casa verifiquei que o sol continuava a brilhar, mas à medida que me afastava, reparei que, do lado do ocidente, tinham aparecido, inesperadamente, nuvens carrancudas, escondendo o safado do astro que falta à palavra como se fosse um ser humano. Tantas promessas para nada. Não me importei, porque a mata, com sol, com frio, com chuva, com vento, seja qual for a circunstância, seduz-me sempre. Parei o carro junto do museu, decidido a enfrentar os elementos e andar cerca de quinhentos metros para fazer exercício. Olhei para o lado e vi duas senhoras a conversar no pátio. Apercebi-me de que estava aberto. Durante muitos meses, em 2010, esteve encerrado para obras para a comemoração do bicentenário da batalha. Já o tinha visitado mais do que uma vez, mas foi em tempos, há longos anos. Como era ainda cedo, tive de saciar a minha curiosidade e entrei. Contornei uma pequena estátua equestre, de bronze, do feio D. João VI, mas nem lhe liguei patavina. Já estou farto de o ver, sempre que me sento na sala dos capelos, ou quando tenho de ir à faculdade de medicina do Porto em provas académicas. Adquiri o bilhete, depois de conversar um pouco com a simpática funcionária, que quis saber se era a primeira vez que visitava o museu. Ficou a saber mais do que eu queria que soubesse acerca dos meus hábitos, mas há pessoas que tem o condão de nos dissecar, e eu deixei. Não senti qualquer dor!
A simplicidade do primeiro espaço era mais do que evidente, vitrinas com armas diversas e muitas gravuras da época a ilustrar os feitos de Napoleão, batalhas e personalidades ligadas às invasões francesas. Ao entrar no espaço maior, onde se encontravam muitos e interessantes elementos a recordar a batalha, inclusive uma miniatura à escala, que eu desconhecia, chamou-me a atenção a pedra-memória alusiva à destruição e reconstrução da ponte do rio Criz, ocorridas em 1810 e 1826, respetivamente. Senti um baque, porque não a via há muitos anos. Esta memória, assim como a que se encontra junto da ponte sobre o rio Dão, a relembrar a invasão de Massena, fazem parte do meu imaginário.
Há muitos anos, passava diariamente, e mais do que uma vez, sobre a ponte do rio Dão, mas lembro-me de ter passado apenas duas vezes a pé a ponte do rio Criz, que tinha uma pequenina capela do lado de Santa Comba. Era um local ermo e bastante afastado da minha residência. Em miúdo ouvi histórias fantasmagóricas passadas neste local e que me encheram a cabeça. Associava o local a lobos, ursos, caçadas, desaparecimentos, fantasmas e sei lá o que mais.
A primeira vez que a atravessei a pé foi numa quinta-feira de Ascensão, dia do Buçaquito, o dia mais santo do ano, dia de festa, de convívio, de confraternização com partilha de merendas, dia em que não se podia trabalhar, o dia em que entre as dez e as onze horas, Hora da Ascensão de Nosso Senhor, as folhas de oliveira se dispunham em cruz, e eu, à hora aprazada, corria para o quintal, onde havia uma pequena e jovem oliveira, para ver o fenómeno, mas não via nada. Voltava fulo para a cozinha, protestando, porque as folhas ficavam na mesma. A explicação da minha avó contentava-me: - Não vês que ainda é uma oliveira nova e pequenina? Tem de ser uma mais velha. E como não tinha mais nenhuma à mão convencia-me de que tinha razão. E, para reforçar a convicção nos sinais da santidade do dia, continuava na sua lengalenga: - Já viste, algum passarinho no chão? Fazia um pequeno esforço de memória e respondia: – Não! – Claro! Hoje é o dia em que eles não põem as patinhas no chão, porque é o dia em que Nosso Senhor sobe ao Céu.
Com o tempo, o hábito de merendar e descansar durante a tarde, num pequeno bosque da localidade, foi-se esfumando.
Num dia de quinta-feira feira de Ascensão, da parte da tarde, um dia de calor infernal, andei, com um amigo, cinco quilómetros bem medidos até às Pedras Negras onde as pessoas costumavam comemorar este dia. Chegados ao local não vimos uma única família. Frustrados, por esta falta de respeito à tradição, propus: - Por que é não vamos até Mortágua? Depois apanhamos o comboio de regresso e saímos mesmo em frente das nossas casas. Só temos de descer até o Criz, porque a subida até Mortágua não é tão íngreme como em sentido inverso. Antes de nos pormos a caminho, verificámos, após termos contado as moedas de cinco, dez e vinte e cinco tostões, que tínhamos dinheiro mais do que suficiente para comprar os bilhetes, permitindo, ainda, beber umas laranjadas assim que chegássemos à estação para matar a sede anunciada. Na altura, a distância era consideravelmente superior à atual. Quase três horas de marcha. O pior foi o calor e, ao chegar à ponte do Criz, estremeci com receio. O rio corria entre salgueiros esmagado por uma estranha escuridão, sombras e mais sombras, luzes estranhas afloravam à superfície das águas, acompanhadas de uma brisa muito fresca que me provocou arrepios de frio. Tive receio de olhar para aquele silêncio e procurei a pedra-memória que, exposta ao sol, me aqueceu. Descansei um pouco sentado junto dela. Foi a única forma de aliviar os efeitos das histórias que viviam dentro de mim. Ao olhar para a imponente pedra-memória recordei todos estes momentos, e toquei-lhe. Tive a sensação de que a pedra estava quente como se estivesse ainda a devolver o sol que a aqueceu durante tantos anos, antes das águas da albufeira terem submergido aquele lugar. Passado uns anos, estava em Mortágua, em casa de um amigo a passar férias, quando um grupo de jovens se lembrou de ir a pé até ao Criz tomar banho. Não me agradou, mas fui. Entrei na água precisamente naquele ponto que tinha fixado antes. O rio não tinha areia. O fundo era de lodo. Ao calcá-lo arrepiei-me e para agravar mais a situação nunca tinha sentido uma água tão gelada. Nadei um bocadinho e logo que pude, saí, limpei-me, vesti-me e corri para junto da pedra-memória à procura do seu calor. Acalmei-me. Voltei a tocar a pedra, pela segunda vez, no museu militar onde foi parar. Senti o mesmo calor de sempre.
Calmo, trabalhei com afinco o resto da tarde no Palace Hotel.
Uma bela e quente pedra-memória a revolver-me as memórias.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Declínio demográfico e social...

A Revista Única deste fim-de-semana publica um artigo “Portugal, um país em declínio demográfico e social”, que chama a atenção para o impacto da dimensão do desemprego jovem no fenómeno do declínio demográfico.
Para além do debate recorrente que é feito sobre o envelhecimento da população - em que sobressai a redução da natalidade e o aumento da esperança de vida - sobre a sustentabilidade da segurança social - com um cada vez maior número de reformados para um cada vez menor número de activos - ou sobre a capacidade de o sistema de saúde dar resposta ao aumento da esperança de vida, o professor Mário Leston Bandeira (professor do ISCTE que está envolvido num projecto de investigação sobre o envelhecimento em Portugal) chama a atenção para um outro fenómeno, mais recente, que é em seu entender responsável pelo declínio demográfico e social em Portugal.
Segundo o Professor, o nosso declínio demográfico tem a ver com a incapacidade de o país criar empregos e dar oportunidades aos mais jovens. “O nosso declínio demográfico é menos o problema do envelhecimento e mais o problema do desemprego. O que quer dizer que é também declínio social, devido ao elevado desemprego juvenil e à idade com que os jovens conseguem o primeiro emprego.” Com efeito, sem emprego e estabilidade, os jovens são obrigados a adiar a sua independência económica e financeira e a adiar o início de um novo ciclo de vida que passa por casar e constituir uma família. Muitos deles são forçados a construir o seu futuro fora de Portugal, levando consigo a força, a energia e a criatividade que tanta falta faz para rejuvenescermos a nossa sociedade e ganharmos competitividade para a nossa economia. Levam consigo a esperança na qual o país investiu, que outros saberão aproveitar.
Se o desemprego é um grande flagelo, a fuga de jovens para o estrangeiro é uma tragédia nacional. No imediato podemos não sentir os seus efeitos, preocupados que andamos com a crise financeira, mas no médio e longo prazo será muito duro. Ver longe tem sido um défice crónico nacional...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Esquerda...direita...destroçar!...

Até há pouco tempo, em união de facto na defesa de um projecto comum simbolizado num candidato presidencial comum, a esquerda da esquerda decidiu romper o enlace com a direita da esquerda e usar da máxima violência doméstica. Publicamente, e em plena sessão parlamentar. Não satisfeita, a esquerda da esquerda anunciou já o golpe fatal e decisivo para daqui a um mês.
Acontece que a esquerda da esquerda também diz que o golpe não é contra a esquerda, mesmo que da direita, mas sim contra a direita tout court, pelo que a direita da esquerda deixa de ser da esquerda e passa a ser simplesmente direita.
O que não deve agradar muito à direita, que sempre lutou contra essa esquerda que agora lhe vê impingida como direita. Para evitar confusões, lá vai a direita ser obrigada a distinguir a esquerda da direita, o centro da direita e a direita da direita.
Todavia, sempre se tem dito que a direita é capaz de alianças, ao passo que na esquerda elas são impossíveis. Pelo que, das duas uma: ou se verifica a tese, e lá teremos todas as direitas a defender a esquerda das direitas do golpe da esquerda das esquerdas, ou não não se verifica, e temos o centro da direita e a direita da direita em aliança com a esquerda das esquerdas, tudo à esquerda para derrubar um governo da direita, embora da esquerda ou, noutra versão, da esquerda, embora da direita.
Enfim, um verdadeiro beco sem saída.
Resta é saber se os protagonistas dele vão sair pela direita alta ou pela esquerda baixa.
Ou, o mais provável, se continuam todos no palco, em trágica representação.

"Estabilidade" ou "instabilidade" política: venha o diabo e escolha...

1.Estabilidade” ou "instabilidade" política? A grande discussão está entre nós outra vez lançada, após o anúncio de uma próxima moção de censura ao Governo por parte do BE.
2.Os partidários do regime e os colaboracionistas de vários matizes apressam-se, como lhes compete, a estigmatizar um possível cenário designado de “instabilidade" política – é a sua função, compreensível, defendem os interesses instalados.
3.Os apaniguados dos partidos da Oposição ganham novo alento com o cenário de “instabilidade” pois vêm nele uma possibilidade de conquista do poder central do qual estão arredados há muito tempo – é também compreensível, os partidos políticos aspiram à conquista do poder.
4.E aqueles que vivem preocupados com o chamado País real, como deverão pensar sobre este tema? Deverão preferir a “estabilidade na continuidade” ou pelo contrário apostar num cenário de aparente maior risco, que agora se designa por “instabilidade" política” ?
5.Apenas de passagem, é bom lembrar que este qualificativo “instabilidade" política é de geração relativamente recente, ainda não existia por exemplo quando o ex-Presidente Sampaio decidiu dissolver a AR em 2004 na vigência de um Governo que dispunha de apoio maioritário na AR...
6.Muito em resumo, a “estabilidade” garante-nos a continuidade de uma política que tem como emblemas:
(i)o crescimento contínuo do Estado e dos recursos a este afectos;
(ii) o agravamento das obrigações fiscais de cidadãos e empresas;
(iii) o contínuo aumento da dívida pública, a preços que vão punindo o País duma forma escandalosa, num exercício que já é apenas de sobrevivência, seguindo uma táctica de “tudo por tudo” para adiar o ponto de bloqueio financeiro da economia;
(iv) o controlo de todo o aparelho do Estado e suas ramificações empresariais por apaniguados do regime;
(v) a manutenção de um modelo económico e social em que ao Estado continua a caber um
papel determinante, deixando para os demais sectores, privado e social, uma função
supletiva (vide o caso do ensino);
(vi) a utilização obsessiva do marketing para esconder até ao limite do (im)possível os reais problemas do País;
- Em suma, do lado da “estabilidade” temos a segurança da prossecução, sem grandes
alterações e agitações, de um rumo de decadência e de empobrecimento ...
7.Do lado da “instabilidade” o que temos? Em resumo:
(i)incerteza quanto à possibilidade de formação de uma maioria absoluta de apoio a um novo Governo no quadro parlamentar;
(ii)angustias de manter os escassos canais de financiamento externo disponíveis e que num cenário de “instabilidade” podem ser encerrados;
(iii)dúvidas que a cada passo se ouvem sobre as capacidades de uma nova equipa governativa para enfrentar os gravíssimos problemas que o País enfrenta, sobretudo na área económica e social
- Em suma, as incertezas e contingências próprias de um cenário dependente dos
resultados de novas eleições em período de crise económica e social acentuada...
8.Ironicamente, encontramo-nos num cenário em que o grande trunfo do Governo e dos que o apoiam é a gravíssima situação do País - mas uma situação em boa parte resultante dos erros de política que cometeu e que convictamente prossegue!...
9.Então, como escolher entre “estabilidade” ou “instabilidade” política? Melhor que venha o diabo e escolha...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Deplorável!

Deplorável! É impossível que não nos toque a todos!
“Durante nove anos lutei para saber o que era feito da minha vizinha. Nunca tive ajuda da GNR, nem da PSP, nem dos tribunais”. Foi preciso uma penhora das finanças, para se fazer pagar das dívidas dos impostos que se foram acumulando, para se descobrir que a senhora idosa desaparecida há nove anos estava morta na sua própria casa.
GNR, PSP, Polícia Judiciária e Tribunal de Sintra foram avisados ao longo dos anos pela vizinha e por familiares do seu desaparecimento. Mas de nada valeu porque nada fizeram. Dizem que actuaram de acordo com a lei. Mesmo a Segurança Social que processava a pensão desta senhora ano após ano, limitou-se a interroper o seu pagamento. Também informou que actuou de acordo com a lei.
Ninguém se interessou por saber desta senhora, ninguém investigou o seu paradeiro, ninguém se preocupou em verificar se estaria em casa, se precisaria de ajuda. Vivia sozinha, entregue à sua própria sorte, sem apoio familiar, desinserida da comunidade e sem assistência por parte da segurança social. Excepção feita à vizinha que tudo fez para a encontrar, que não se cansou de avisar as autoridades, mas em vão.
Triste retrato de indiferença e irresponsabilidade a que chegámos. Tudo falhou porque estamos a construir uma sociedade que não pensa nas pessoas, que maltrata os seus velhos. É uma prova da crise de valores, de cultura e de comportamentos que estamos a viver. Uma crise que não rima com desenvolvimento…

"A anarquia mansa que nos tolhe"

Há muito que ando para prestar uma homenagem sentida à beleza lapidar e poder inspirador do lema, ou mote, do 4R. Faço-o agora; não sei bem porquê!

Hoje, as taxas de juro das obrigações do tesouro (OTs) a dez anos superaram 7,6%, o valor mais elevado desde a criação do euro (obrigando o BCE a voltar a comprar dívida portuguesa, segundo o Financial Times). Tal marca resultou do aumento das taxas de juro à escala global, mas sobretudo, do agravamento dos prémios de risco exigidos pelos investidores para deter dívida pública portuguesa. A que devemos atribuir, desta feita, o mau feitio dos mercados? A resposta: a anarquia mansa que grassa por aí, consubstanciada na falta de progresso material nas políticas que se impõem para resolver o excesso de endividamento - externo e público – e o défice de competitividade. Os mercados já se cansaram de grandes proclamações, como a que ontem, com grande alarido, prometia uma execução orçamental de 2011 mais próxima do objectivo tendo por base o forte crescimento homólogo das receitas fiscais em Janeiro.

Para acreditar na solidez financeira de Portugal, não chegam medidas pífias, “para português ver”. Os investidores querem ver reduzido o peso do estado, implementadas reformas estruturais que flexibilizem o mercado de trabalho e libertem os sectores económicos mais fechados e regulamentado. Sobretudo, esperam um sentido de urgência e responsabilidade totalmente ausente da actuação do governo desde a eclosão da crise europeia na transição de 2009 para 2010. Basicamente, os investidores querem Portugal “Longe da Anarquia Mansa que [o] Tolhe”.

Enquanto assim não for, o custo da dívida pública continuará a subir até que alguém se disponha a “arranjar-nos” uma utopia que nos retire do limiar do abismo.

Agenda Europa, desculpem lá qualquer coisinha

A “Agenda Europa”, publicada anualmente pela Comissão Europeia e destinada a ser gratuitamente distribuída a todas as escolas da EU, teve este ano a extraordinária novidade de não incluir as festas cristãs no seu calendário de festividades. Nem Natal, nem Páscoa, inexplicavelmente eliminados, como se fossem coisa menor, de entre as festividades que se celebram em todos os países da União Europeia e que incluem festas religiosas hindus, muçulmanas, sikhs e judaicas, essas devidamente assinaladas no calendário da agenda.
Esta omissão provocou uma justificada onda de protestos junto da Comissão Europeia a qual veio, segundo hoje se noticia, reconhecer o “lamentável engano” e garantir que fará uma errata que será distribuída com o livrinho.
A Europa de todas as uniões minimiza, pelos vistos, um dos pilares da formação europeia, a religião cristã, que está na sua matriz e que impregna, queira-se ou não, a cultura e a identidade de grande parte desses povos. Um lapso, paciência, e mesmo assim só deram por ele depois de petições e milhares de protestos.
O que não seria se o “lapso” tivesse ignorado outras religiões! O que não seria remeter para uma errata outras festas religiosas centrais, desculpem lá o esquecimento, também não podemos lembrar-nos de tudo! Não será por esse detalhe que os países que ainda teimam nessas festas religiosas deixarão de distribuir zelosamente a preciosa agenda…
A propósito, o responsável da Agenda Europa, Jonh Dalli, declarou que “este episódio é a oportunidade de recordar que não se tolera nenhuma discriminação religiosa na União Europeia”. Há episódios muito tranquilizantes, sem dúvida!

Palavras que parecem esquecidas

Livro de Salmos 15(14),2-3.3-4.5.
Aquele que leva uma vida sem mancha, pratica a justiça e diz a verdade com todo o coração; aquele cuja língua não levanta calúnias e não faz mal ao seu próximo, nem causa prejuízo a ninguém; aquele que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo; aquele que não empresta o seu dinheiro com usura, nem se deixa subornar contra o inocente. Quem assim proceder não há-de sucumbir para sempre.

O desejo de permanecer é um dos maiores impulsos que dita o comportamento. O desejo de permanecer no poder, o desejo de permanecer no coração dos que amamos, o desejo de permanecer no círculo de amigos, o desejo de permanecer enquanto parte de uma empresa ou de um ambiente de trabalho, o desejo de permanecer enquanto cidadão, membro de um clube ou de um partido. É o desejo de permanecer que nos move, que nos obriga a melhorar, a trabalhar mais, a ser atentos e generosos ou a lutar contra o que nos pode ameaçar. Permanecer significa continuar lá, estas palavras esquecidas dizem-nos que só se permanece quando se age com nobreza, quando a nossa marca é de valor e não de força ou de destruição. Pode-se possuir muita coisa, pode-se mesmo dominar e impor, mas não é isso que faz vencer a circunstância ou a passagem do tempo. Para existirmos para além de cada momento é preciso lembrar as palavras que às vezes parecem esquecidas.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Cartas de amor

Tenho, por vezes, necessidade de fugir ao trabalho; outras, consigo saborear estreitos períodos sem responsabilidades sociais e ainda liberto a família da minha presença. Nestas alturas, faço os possíveis por medir o tempo sem tempo, numa espécie de viagem ao limbo. Depois, navego sem rumo ou com objetivo específico de encontrar algo inesperado e que me dê prazer. Muitas vezes não encontro nada, mas também não recordo esses momentos. Em contrapartida, tenho histórias e vivências de achados que me marcaram vivamente. Andam lá por casa ao deus-dará, como é meu hábito, e que me obrigam a ouvir das boas, de quando em vez. Outras perdem-se, por culpa minha, ou então não são mais do que frutos de um caos permanente, que, posteriormente, me premeia com reencontros, despertando velhas sensações, sempre diferentes e que alimentam a fome das emoções.
Acabei o dia mais cedo e vi que tinha pelo menos duas preciosas horas para navegar no nada sem nada que me inquietasse. O ideal para procurar o inesperado. Estava perto de uma loja de velharias, onde já tinha ido algumas vezes. Entrei, saudei o dono, reparei que tinha dado uma nova orientação na desorganização típica destes locais e comecei a procurar algo que me chamasse a atenção. Estava a acabar de dar a primeira volta quando vi uma pequena caixa de resmas de papel, meio desconchavada, com papéis e mais papéis, no meio de louças, jarras de vidro, cerâmica diversa, candeeiros, velhos gira-discos, e pensei: - O homem deve querer isto limpo e, para o efeito, lembrou-se de colocar um caixote de papelão. Mas podia arranjar uma coisa mais decente para as pessoas deitarem fora os seus papéis. Mas quem é que se lembra de deitar papéis no caixote numa loja destas? Não liguei mais e continuei na minha exploração sem encontrar nada de especial. Nada. Dei a segunda volta, não fosse o diabo tecê-las e perder algo que me tivesse escapado, quando volto a embirrar com o caixote. Olho atentamente e consigo vislumbrar muitos envelopes com marcas de anos, manchados, com letras desfeitas pela humidade ou algum banho de água, carregados de pó e cadáveres de aranhas à mistura. Retirei o primeiro envelope, tinha o nome de uma mulher, não estava rasgado, quem o abriu cortou a aresta cirurgicamente e pensei de imediato: - Uma carta de amor! Retirei as folhas apergaminhadas, com cuidado, desfraldei-as e comecei a ler; era de facto uma carta de amor. Bem escrita, deliciosa, ternurenta e eivada de paixão. O autor descrevia o seu dia-a-dia, o sofrimento da ausência e a sua doce loucura amorosa. Para escrever daquela maneira só mesmo um apaixonado. Rebusquei as restantes, muitas em mau estado, dirigidas sempre à amada, em diferentes lugares. Muitas cartas, à mistura com folhas, pagelas, cartões de natal, marcadores de livros, tudo embebido no pó de décadas, comprovando o seu efeito alérgico, porque não consegui evitar alguns espirros. Ainda retirei uma segunda do molhe, do fundo e não resisti a lê-la. Escrita no decurso de uma viagem de comboio. Tinha comprado a carta na estação e estava agora a terminá-la à pressa porque o dono da esferográfica ia sair na paragem seguinte. Pedia-lhe desculpa pela escrita, meio tremelicada, a ponto de não se perceber bem a assinatura. Presumo que não terá sido só o dançar do comboio o responsável, mas também o tremor da paixão. Agarrei na caixa, que se desmembrou, e com alguma dificuldade, e embaraço, aproximei-me do lojista. Olhou para mim, curioso por trazer a caixa nos braços e, ao pespegar-lhe em frente, perguntei: - Quanto quer por isto? Desconfiado, meteu as mãos nos envelopes, retirando-as logo em seguida, sujas, como é óbvio, e propôs-me um preço. - O quê? Refilei. Coisa que não tenho hábito fazer. Respondeu de imediato, justificando-se com os selos... - Selos? Estes? Oh! homem fique com os selos, a mim só me interessa as cartas. Deve ter-me achado meio maluco, pensando por que razão eu quereria aquilo, velho, a desfazer-se, cheio de humidade e de pó. Baixou para 5 euros! E ainda deverá ter-se ficado a rir.
Levei-as para Coimbra. Estão na bagageira do meu carro, à espera de um destino.
Já encontrei muitas coisas nas velharias, mas é a primeira vez que me deparo com cartas de amor. “Cartas de amor, Quem as não tem, Cartas de amor, Pedaços de dor, Sentidas de alguém.”
Antes de abalar, passei pela morada da destinatária de há cerca meio século. Cheguei a Coimbra e passei pela rua onde também viveu.
Tenho de as devolver. Sei que está viva. Independentemente do que tenha acontecido, e levado a esta exposição, a amada é a legítima proprietária de tantas emoções, sentimentos, esperanças, desejos e alegrias numa época em que as mesmas viajavam mais lentamente, mas com muito amor. São pedaços de alma perdidos que têm de encontrar repouso, e eu só vou descansar quando lhes der destino. Se a amada as aceitar... enviar-lhas-ei acompanhadas de um ramo de flores.
Sou, temporariamente, “proprietário” de uma paixão. Prometo que não irei ler mais nenhuma carta. Afinal, cartas de amor, quem as não tem?

Ele há cada negócio!...Ele há cada negociante!...

Começar um negócio incluindo como sócio de referência uma empresa em situação de pré-falência, não augura grandes êxitos, nem é, com certeza, o melhor cartão-de-visita ou garantia de credibilidade.
Pois é este o terrível e temerário Projecto de dois cidadãos portugueses, Rui Pedro Soares e Emídio Rangel, que procuraram a MEDIAPRO, grupo espanhol sob administração judicial, para lançar um grupo multimédia em Portugal, englobando um semanário, a sair em Abril, uma rádio (Rádio Europa, em negociação), e uma estação de televisão, que já terá assegurado a transmissão de jogos da Liga Espanhola e se posicionará para transmitir os jogos do Benfica.
Como atitude fundacional, o novo Grupo irá situar-se muito próximo do Partido Socialista, agindo como sustentáculo e divulgador das suas posições ideológicas. Não se sabe se também na área futebolística.
Louva-se o arrojo dos dois cidadãos: escolher como parceiro estratégico uma empresa falida, com dívidas da ordem dos 1.000 milhões de euros, como parceiro ideológico, o Partido Socialista, e comprar direitos televisivos sem estação que os transmita, é de facto obra de enorme ousadia.
No fim, uma coisa pitoresca. Segundo as últimas notícias, Emídio Rangel, um dos aludidos accionistas, pediu escusa de o ser, pretendendo manter-se “apenas” como dinamizador do processo!…
Ele há cada negocio!...Ele há cada negociante!...

Por momentos pensei que era notícia do 'Inimigo Público´...


Afinal enganei-me. O ´Publico´ antecipa os resultados do inquérito aos serviços do MAI para apurar eventuais responsabilidades sobre o que aconteceu no dia das eleições presidenciais. Conclusão: "SISTEMAS INFORMÁTICOS TAMBÉM TIVERAM CULPA PELA CONFUSÃO".
Tudo esclarecido. Espera-se agora que Rui Pereira aguente firme no lugar, recuse despedir os directores gerais demissionários e castigue severa e exemplarmente os sistemas informáticos, aliás, os habituais responsáveis pela incompetência, omissão de agir, ignorância, falta de respeito pelo cidadão.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Perplexidades...

"Estado obrigado a enviar número do eleitor para casa” é o que pretende o PCP ver aprovado no Parlamento.
Dei comigo a pensar no seguinte. Mas é preciso estar na lei aquilo que é tido como uma actuação necessária e responsável por parte de quem gere os processos eleitorais? Se não são capazes de tomar esta decisão e não o fazem porque não está na lei, então pergunto o que estão lá a fazer. Fica na lei, porque se podem esquecer e assim já não há desculpa? Mas o esquecimento de aspectos tão essenciais, não é sinal de incompetência e irresponsabilidade? Então, mantém-se a pergunta, o que é que estão lá a fazer?
Não seria mais simples acabar com o número do eleitor? Para quê mais leis, mais números, mais registos, mais controlos, mais sistemas de informação, mais máquinas burocráticas, mais dirigentes, mais “responsáveis”, mais despesas, mais problemas, enfim, mais complicações quando afinal há uma solução mais simples? Porque é que o cartão do cidadão não há-de servir para votar? Haverá algum inconveniente, que eu não esteja a ver? Julgo ter ouvido que esta solução esteve há uns anos no Parlamento para ser apreciada, quando se avançou com a criação do cartão do cidadão.
E já agora, não seria de aproveitar a boleia e decretar que fossem retiradas dos cadernos eleitorais as pessoas que já não estão entre nós? Porque razão, de acto eleitoral em acto eleitoral, o problema se vai avolumando, com palpites sobre a sua quantificação e os seus efeitos, ora mais para cima ora mais para baixo, e não se põe fim a esta aberração? Será assim tão difícil? Enfim, perplexidades a que nos habituámos e que agora são difíceis de remover...

Comércio externo: porquê olhar somente para um dos lados da balança?

1.Segundo os DADOS PRELIMINARES hoje divulgados pelo INE, a balança comercial registou em 2010 um défice superior em € 416 milhões ao de 2009 (+2,1%), resultado de um aumento de 15,7% das exportações e de 10,5% das importações.
2.Apesar do agravamento do défice, não deixa de se salientar o dinamismo das exportações as quais, caso a procura interna tivesse sido menos estimulada (por despesa pública, bem entendido), poderiam provavelmente ter crescido um pouco mais e até permitido apurar um défice comercial (bem) inferior ao registado em 2009.
3.Mas não deixa de ser curioso notar que na encenação preparada para o denominado “congresso das exportações” tenha sido totalmente omitida a evolução global da balança comercial, e mencionado, exclusivamente, o crescimento das exportações, mais de 15%...
4.Esta forma de abordagem de um tema sério como é o do papel das exportações na economia portuguesa é típica de uma propaganda assente em secções da realidade, em grandes slogans, traduzindo uma forma bizarra de fazer política - salientando os aspectos positivos e omitindo radicalmente os negativos.
5.Numa operação cujo objectivo se traduzia na montagem de um cenário cor-de-rosa sobre as exportações, era pois imperativo omitir as importações - como se exportações e importações fossem realidades que nada têm a ver uma com a outra...
6.Obviamente não convinha, ao celebrar as exportações como suposta panaceia da economia, reconhecer que, apesar do seu crescimento, o desequilíbrio comercial acabou por aumentar, o que inevitavelmente se reflecte em acumulação de endividamento ao exterior maior do que o verificado no ano transacto...
7.Concretamente, o défice comercial de 2010 (DADOS PRELIMINARES, repete-se) cifrou-se em € 20.014 mil milhões, cerca de 11,5% do PIB, contra € 19.600 milhões em 2009.
8.Com base nestes dados e considerando que as demais componentes da balança corrente – serviços (positivo), rendimentos (negativo) e transferências unilaterais (positivo) – deverão quase compensar-se, o défice da balança de pagamentos correntes em 2010 ficaria entre 10,5% e 11% do PIB e o défice das transacções correntes, beneficiando das transferências de capital da EU, em torno de 10% do PIB.
9.É esta a dura realidade com que nos defrontamos e que não deveria ser escamoteada num “congresso das exportações” em que houvesse a preocupação de fazer política de forma séria...
10.Haveria que reconhecer, em suma, que há um trabalho muito árduo a realizar ao longo de anos, seguindo uma estratégia de longo prazo para a correcção estrutural dos desequilíbrios da economia...na qual uma redução drástica do peso dos gastos do Estado, tendo em vista libertar recursos financeiros agora tão escassos, reduzir a tributação e reforçar as condições de competitividade das empresas, constituiria uma componente “sine qua non”.
11.Mas isso seria muito pouco apelativo para um cenário que tinha de ser cor-de-rosa - ou ainda pior, seria aceitar um PRECONCEITO IDEOLÓGICO - e, como tal, não podia senão ficar esquecido...

Soberania ao menos na protecção dos direitos fundamentais

Não conheço o acordo com os EUA de que hoje se fala, nem o teor do parecer da Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) que o reprovou. Sei que entre Portugal e os EUA foi celebrado um acordo bilateral nos termos do qual as autoridades portuguesas se obrigavam, penso que com base no princípio da reciprocidade, à transmissão de dados pessoais como instrumento de prevenção e combate ao crime. Com a entrada em vigor deste acordo acabariam, não sei se em absoluto, os vistos de portugueses de entrada nos EUA. Leio na imprensa que a CNPD considerou que o governo português não formulou reserva à possibilidade de esses dados serem utilizados para práticas que pusessem em causa direitos fundamentais como o direito à vida (artigo 24º da nossa Constituição).

Lembrei-me de casos antigos de pedidos de extradição em que exactamente este problema se colocou. Num deles fui participante activo, defendendo um extraditando acusado de crime a que cabia pena de morte num dos estados dos EUA, numa das raríssimas incursões pelo direito criminal que levou a defesa até ao Tribunal Constitucional. Por esse caso interessou-se aliás uma editora, que converteu em livro as principais peças do processo. Titula-se ´O Dever de Não Extraditar´ (Legis, Porto, 1996). Na sua apresentação encontra-se o registo de palavras que, todos estes anos passados, continuam a fazer sentido:

  • “No domínio do chamado «direito vivido» não há lugar à ponderação de interesses puramente conjunturais que tantas vezes preside à elaboração da lei, motivada como muitas vezes é, por factos estranhos à justiça e serva de conveniências. É neste preciso plano – o da vivência do direito – que se revela a diferença entre as proclamações da Constituição e a aplicação que das suas".
Ao que parece, contra a rendição à conveniência do tratado, a maioria da CNPD pensou assim. Que é indispensável que a lei não ceda à conveniência e aceite sacrificar direitos que lei maior considera fundamentais sem estar devidamente assegurado que isso se faz para a protecção de direitos tão essenciais como aqueles que a nossa lei fundamental garante. É bom sabê-lo, porque isso significa que ainda existem instituições que desempenham com independência o seu papel de garantes do sistema de valores.