Número total de visualizações de página

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A ladaínha dos "balanços trágicos" ano após ano

Começamos este blogue em 2005 e, com mais ou menos intensidade e regularidade de uns e de outros, e com o beneplácito de alguns dos comentadores que sempre nos acompanharam, aqui estamos, em 2016, a comentar o que nos vai alertando ou emocionando ao longo dos dias. Este longo caminho tem a enorme vantagem de ser fácil consultar, por exemplo aqui  ou aqui ou aqui ou aqui, o muito que foi sendo registado e, de uma forma breve, ir revistar os temas que mais nos suscitaram o ímpeto de comentar, de protestar ou de nos indignar. Experimentem pesquisar "incêndios" e verão que, desde 2005, ano após ano, nunca falhou o espetáculo terrível das labaredas, da impotência, da perplexidade e, claro, da tragédia humana e ambiental e económica e estatística e psicológica que é a de ver o Pais a arder. Nunca, repito. Mais dimensão menos dimensão, pontualmente, haja seca ou inundações no Inverno, haja governos assim ou assado, haja crise financeira ou prosperidade aparente, lá está a fatal queimada estival a aterrorizar populações e a empobrecer o País. A ladainha dos "trágicos balanços", cada ano que passa e cada incêndio que volta.

5 comentários:

Rui Fonseca disse...


Fogos florestais são normais.

O que não devia ser normal é a enormíssima área atingida todos os anos.Anos há, em que a calamidade extravasa tudo o que seria esperável num país em que o verão é quente e seco e os ventos sopram com a intensidade que as amplitudes térmicas obrigam.

Quanto aos factores naturais não podemos fazer nada.

Podemos, mas não fazemos, reduzir a biomassa acumulada. Que se não arde este ano, arderá para o ano. Fatalmente.
Reduzir o combustível deveria ser o objectivo a atingir. Para isso, no entanto, seria necessário reformular a propriedade florestal.
Que está distribuída por cerca de 360 000 parcelas, mais ou menos tantas quantas existem em todos os EUA.

Mas nenhum partido quer meter-se nesse "fogo" ...
Falta competência, conhecimento e muita coragem.
Coisa que não abunda por cá, infelizmente.

Digo isto no meu bloco e notas há quase doze anos.

Gaudêncio Figueira disse...

Tendo começado em 2005 parece ser tempo suficiente para se aperceberem do sentir das pessoas que, relativamente aos partidos, pensam o mesmo que os seus pais e avós pensavam deles em 1925. Isto é: detestam tanta falta de ética encoberta e retórica oca

Bartolomeud'Asp disse...

Cara Dra. Suzana,ontem, conversando com o nosso amigo, Prof. Salvador acerca de lendas, mencione a do Cabeço da Moira em São Caetano, Cantanhede, Coimbra. Reza esta, que debaixo de uns penedos do referido cabeço,antigo abrigo de mouros, encontram-se 3 arcas. Uma contendo água, outra contendo fogo e a terceira contendo ouro. Reza ainda a Lenda que as arcas encerram o futuro do mundo. Por tudo a que estamos a assistir, parece-me que alguém abriu a arca que continha o fogo

Rui Fonseca disse...


Bartolomeu,

Arcas escondidas, há muitas.
António Macedo Papança (1º. Conde Monsaraz) versejou sobre o tema.

"Entre escombros, na rudeza
da vetusta fortaleza,
batidas do vento agreste,
empedernidas, cerradas,
há duas arcas pejadas
uma d’oiro, outra de peste.

Ninguém sabe ao certo qual
das duas arcas encerra
o fecundo manancial,
que fartará d’oiro a terra
mesquinha de Portugal,
ou qual, se mão imprudente
lhe erguer a tampa funérea,
vomitará de repente
a fome, a febre, a miséria,
que matarão toda a gente!

E nestas perplexidades
e eternas hesitações,
têm decorrido as idades,
têm passado as gerações;
nas guerras devastadoras,
nas lutas brutais e ardentes
entre as raças invasoras
e as povoações resistentes.

Nunca romanos nem godos,
nem árabes, nem cristãos,
duros na alma, e nos modos,
rudes no aspecto e no trato,
chegaram ao desacato
de lhe tocar com as mãos.

Sempre que o povo faminto,
maltrapilho ou miserando,
fosse ele cristão ou moiro
entrou no tosco recinto
para salvar-se, arrombando
a arca pejada de oiro,

Quedou-se, os braços erguidos,
a olhar atónito e errante,
sem atinar de que lado
vinha morrer-lhe aos ouvidos
uma voz de agonizante,
entre ameaças e gemidos:
- Ó Povo de Montemor,
se estás mal, se és desgraçado
suspende, toma cuidado,
que podes ficar pior!

E nestas perplexidades,
e eternas hesitações,
hão-de passar as idades,
suceder-se as gerações,
e continuar na rudeza
da vetusta fortaleza,
batidas de vento agreste,
empedernidas, cerradas,
as duas arcas pejadas,
uma d’oiro outra de peste."

Conde de Monsaraz


Ainda sobre arcas escondidas, recordo-me que Aquilino Ribeiro romanceou uma lenda que corria para as bandas do Pinhal de Leiria em "A Batalha Sem Fim".

Bartolomeu disse...

Caro Rui Fonseca,
aconselhava o Sr. conde muito bem...
Quedou-se, os braços erguidos,
a olhar atónito e errante,
sem atinar de que lado
vinha morrer-lhe aos ouvidos
uma voz de agonizante,
entre ameaças e gemidos:
- Ó Povo de Montemor,
se estás mal, se és desgraçado
suspende, toma cuidado,
que podes ficar pior!

Ficaria pior de certeza, tanto quebrando a arca que continha o ouro ou, a que continha a peste. A da peste, por razões óbvias; a do ouro, porque assim que todos se "apanhassem" ricos, já ninguém quereria trabalhar acabando por morrer todos á fome.
Entretanto, séculos passados, cá nos vamos mantendo fieis ao sonho de que um milagre sucederá, sem que para isso tenhamos de fazer seja o que for, bastando a uns saberem ser mais espertos que aqueles que conseguem enganar.
Estou a recordar-me de uma história que li num livro pertencente á estante da pousada de Monsaraz, uma altura que lá fiquei hospedado: Havia lá na terra um fulano que viva de expedientes. Um deles consistia em organizar um jogo de pontaria que funcionava deste modo: o "artista" abria um buraco no meio do largo da aldeia e enterrava um galo que tinha roubado durante a noite, deixando ficar somente a cabeça de fora. Depois, conforme íam chegando pessoas, ele "vendia" pedras por um determinado valor. Cada um atirava as pedras que comprasse e aquele que acertasse na cabeça do galo e o matasse, ficaria com ele. Assim que alguém matava o galo, o "artista" desandava de fininho, pois quando o desenterrassem o dono iria reconhece-lo.