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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Fundamentalismo médico no Egipto

O problema da falta de órgãos para transplantes tem originado o aparecimento de situações eticamente reprováveis. A carência é de tal forma grave que está a fomentar o tráfico e a originar novas formas de comércio. Têm sido relatados inúmeros casos, por esse mundo fora, que vão desde o rapto e roubo de órgãos, à sua compra em países e comunidades miseráveis para não falar do lucrativo negócio das autoridades chinesas com os órgãos de criminosos executados com um tiro na nuca, forma muito interessante de liquidar uma pessoa, já que não “adultera” a qualidade dos “subprodutos”. Também começa a preocupar a corrente norte-americana para legalizar o comércio de órgãos, dando voz à dinâmica de um mercado em que a procura ultrapassa, e em muito, a oferta, argumentando os defensores ser uma forma de regulamentar a actividade, “evitando” abusos!
Importa realçar que a técnica de transplantes constitui, em muitas situações, a única forma de garantir a sobrevivência e a qualidade de vida de muitos doentes. Nesta perspectiva, doar órgãos não é só legítimo como eticamente desejável, não obstante as críticas por parte de correntes conservadoras que, no início, se opunham a esta prática contra natura! Critérios religiosos que julgava terem caído no esquecimento ou mesmo abandonadas. Mas não! Ontem, li uma notícia que me surpreendeu. O sindicato dos médicos do Egipto decidiu proibir os seus filiados de realizarem transplantes de órgãos entre cristãos e muçulmanos. Quem o fizer será interrogado e castigado! A razão invocada pelos médicos prende-se com a necessidade em proteger os muçulmanos pobres dos cristãos ricos que compram os seus órgãos.
Este sindicato de médicos egípcio é um ninho de mentecaptos! Querem-nos convencer de quê? Que os “impolutos” sultões e milionários muçulmanos não são, também, capazes de estiolar ou mandar estiolar corpos de cristãos para lhe ficarem com os órgãos! Julgam eles que o Profeta ou Alá se importam muito com a origem étnica ou religiosa dos órgãos ou o seu destino? Os próprios líderes religiosos cristãos e muçulmanos vieram a público manifestar indignação com esta tomada de posição, já que pode ser mais uma razão para aumentar a conflitualidade inter-religiosa.
A atitude dos responsáveis da classe médica do Egipto merece a mais profunda revolta, porque além de um fundamentalismo patológico viola os nobres princípios da medicina.
Há três anos, uma pequena notícia marcou-me de uma forma particular. Nunca mais a esqueci, porque é tão nobre que constitui uma da mais belas lições que podemos receber. Por estes motivos, devo partilhá-la.
Uma criança palestiniana foi morta por soldados israelitas. Tinha 13 anos. A família decidiu doar os órgãos a seis israelitas, com um propósito humanitário e em nome das crianças do Mundo, sem nunca olhar ao credo religioso dos necessitados.
Um gesto de altruísmo que não foi, ainda, captado para as bandas dos médicos do Egipto.
Como é possível?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Espírito olímpico I

Segundo noticiado, cada atleta português recebeu do Comité Olímpico um kit de sobrevivência, incluindo 6 preservativos, meia dúzia.
Não sendo oferta generosa para super atletas, que querem ir sempre mais além, sempre dá para duas boas corridas, dois bons lançamentos, dois bons saltos, simples ou triplos, ou dois bons combates por semana!...
Por isso, justificação perfeita teve Marco Fortes, o nosso atleta, naturalmente enfastiado por ter que prestar provas logo pela manhã, e ter sido rapidamente eliminado: " cheguei à conclusão de que, de manhã, só é bom na caminha. Pelo menos comigo..."!...
Tem toda a razão. De manhã, à tarde ou à noite!...Tem algum jeito praticar tal desporto no estádio?

“A vida é muito perigosa”...

Há alguns dias, andava por Castela, quando li num jornal uma notícia de agressão a um professor de cinquenta anos que, na companhia do seu filho, presenciou, numa estação de serviço, ao espancamento de uma senhora. Indignado perante a situação e a “mansidão” dos observadores dirigiu-se ao agressor manifestando o seu repúdio e condenação. Este último, interrompeu o acto de manifesta cobardia que estava a praticar, segui-o e, traiçoeiramente, espancou-o de forma selvática. No dia seguinte, sentiu-se mal, entrou em coma e, hoje, acabo por saber que se encontra ainda na mesma situação.
O seu nome: Jesus Neira. Cidadão solidário, corajoso e com forte sentido cívico, contrastando com a atitude de muitos que preferem ver em vez de se meterem nos problemas dos outros e que cada um resolva os seus, como se muitos deles não fossem, também, nossos.
No El País de hoje, Pedro Martinez deu conta da situação clínica de Jesus Neira e remata o seu pequenino artigo com uma frase de Einstein que me sensibilizou e que não resisto a transcrever: “A vida é muito perigosa. Não pelas pessoas que fazem mal, mas pelas que se sentam a ver o que se passa”!
O que vemos à nossa volta, face a muitas situações em que deveríamos intervir, é característico deste estado de coisas, ou seja, muitas pessoas acomodadas, que preferem ser simples espectadoras, evitando qualquer acto ou atitude que lhes possa causar desconforto ou mal-estar. Depois queixam-se, lamentam-se e indignam-se (à calada, claro está) como se a resolução dos conflitos e dos problemas não fossem também, por uma razão ou outra, nossos, ou que acabam mais cedo ou mais tarde por nos envolver.
Com esta notícia recordei uma frase de Goethe que eu, um dia, por acaso, encontrei manuscrita num velho livro de poemas de T.S. Elliot. Letra muito bem desenhada e num vermelho provocador: “Só merece a liberdade e a vida, aquele que tem de conquistá-la diariamente”.

Realismo preocupante

Na sequência de um pouco comum (entre nós) assalto a uma carrinha de transporte de valores em plena A2 e com recurso a explosivos plásticos, a TSF ouviu o responsável pelo Gabinete Coordenador de Segurança, General Leonel de Carvalho.
Reproduzo parte do diálogo entre a jornalista da TSF e o senhor general:
  • Jornalista - "Está a dizer-me então que facilmente entrará em Portugal explosivos para realizar um..."
  • General LC - "Facilmente entram explosivos como entram armas, como entram chocolates, como entram rebuçados"
Realismo no seu estado mais puro. Ou a verdade sem adornos nem as rebuscadas explicações e desculpas que estamos habituados a ouvir nos políticos responsáveis pela nossa segurança, em especial ao senhor ministro da administração interna. Como tem de ser.
E todavia um realismo muito, mas muito preocupante porque põe cruamente a nu a vulnerabilidade de uma União Europeia sem fronteiras internas e sem controlo.
Quanto tempo passará até que deixe de ser uma heresia colocar em causa esta política comunitária justificada pela liberdade de circulação de pessoas e bens mas que na opinião aberta dos responsáveis pela segurança põe em causa os valores da vida e da integridade dos cidadãos?

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A auto-ilusão de Sócrates!...

“A agenda económica do Governo tem como objectivo aumentar, de forma sustentada, o crescimento potencial da nossa economia para 3%, durante esta legislatura. Só com o crescimento da economia poderemos resolver o problema do desemprego e combater as desigualdades sociais. Portugal deve ter como objectivo recuperar, nos próximos quatro anos, os cerca de 150.000 postos de trabalho perdidos na última legislatura”.
Programa do XVII Governo Constitucional (2005 a 2009)- Capítulo I- Uma estratégia de crescimento para a próxima década, página 9.

Aqui, o Programa de Governo tinha coerência: condicionava a resolução do desemprego ao crescimento da economia, tinha como meta um crescimento de 3% e, nesse contexto de crescimento económico, tinha como objectivo a redução de 150.000 no número de desempregados. Sócrates por várias vezes repisou o assunto, referindo o objectivo de recuperar os postos de trabalho perdidos entre os primeiros trimestres de 2002 e de 2005, os tais “cerca de 150.000”, na realidade 173.000.
Embora as afirmações fossem não deixassem dúvidas quanto ao objectivo, perante as reticências colocadas, foi o próprio Vieira da Silva, na altura, a confirmar: “está-se a falar em recuperar postos de trabalho destruídos nos últimos três anos”.
Ora nos 1º trimestres de 2002 e de 2005, períodos de referência de Sócrates, a taxa de desemprego era, respectivamente, de 4,5% e de 7,5%. No 1º trimestre de 2008, era superior, 7,6%, tendo descido para 7,3% no 2º trimestre deste ano. Em termos absolutos, o número de desempregados era de 238.000 em Março de 2002, 413.000, em Março de 2005, e 427.000, em Março de 2008( 410.000, em Junho de 2008).
Onde estão, pois, os 130.000 postos de trabalho que Sócrates diz ter recuperado?
E como o poderia fazer, se a recuperação dos 150.000 anunciados só seria possível com um crescimento médio de 3%, valor, e Portugal tem vindo a crescer muito abaixo?
Sócrates embarcou definitivamente no mundo da ficção, para não dizer da mentira. Recorrendo a truques de prestidigitação tosca e primária, não engana a assistência, acabou por se iludir a si mesmo. Acontece que a realidade do país se vai afastando cada vez mais das ilusões de Sócrates. A avaliar pelo que diz, Sócrates governa um país que não existe!...

Bruxos

Há dias procurou-me uma senhora que já não via há algum tempo. Desde nova que tem os seus achaques do foro psíquico mas nada de grave que possa por em causa a sua vida familiar, apesar de ter já sofrido alguns revezes. As queixas eram as mesmas de sempre, mas agora vinha com uma preocupação adicional que eu não estava a compreender bem, até que rapa da sua carteira um conjunto de folhas A4 agrafadas e uma fotocópia meio sumida e disse: - O que é que o senhor Doutor acha disto? Olhei, em primeiro lugar para a fotocópia anúncio de uma técnica que desconhecia, "Electrossoma(!)", ou qualquer coisa que valha, capaz de "varrer todo o corpo", e, deste modo, ficarmos a saber tudo o que se passa no organismo. Além desta estranha técnica, anunciava outras, nada ortodoxas, capaz de resolver muitos males. Indicava o nome do técnico, licenciado em enfermagem e respectivos contactos. Passei, em seguida para o maço de folhas que traduziam os resultados do "varrimento intersticial"! Lia e lia, mas sem perceber bem o que é queria dizer. Muitos parâmetros tinham uma escala fixa, do género, superior a -10 a inferior a 10. Todos os dados apontavam para 0. Depois, apareciam listagens do que deveria comer, que não era mais do que o elencar de regras básicas da nutrição e também recomendações para fazer exames convencionais caso da glicemia e da colesterolemia, e até colonoscopia.
Disse-lhe: - Minha senhora! Não sei o que é isto. Nunca na minha vida vi algo semelhante. Confesso a minha ignorância. Mas olhe que eu sou de opinião que é ainda melhor ir à velha bruxa. Olhou para mim e afirmou: - O pior é esta artéria que está entupida e não deixa o sangue chegar ao cérebro. Enquanto falava apontava com a mão esquerda para o lado direito do pescoço. - Mas quem é que disse isso? Foi através desse exame. - Com este?! Para se chegar a esse diagnóstico teria de fazer um exame adequado. Não vejo como é possível terem chegado a esse diagnóstico! Diga-me como é que lhe fizeram o exame. – Colocaram-me dois fios na cabeça e outros dois nos pulsos ligando-os a um computador. Passado pouco tempo começaram a sair as folhas. Ando tão preocupada com a minha artéria entupida! É muito grave, não é? – Já lhe disse que teria feito muito melhor se tivesse ido a uma “bruxa”, mas das clássicas! – Mas a minha nora já lá foi e sente-se muito melhor! – Oh alminha de Deus! Neste mundo qualquer um e qualquer coisa pode curar, desde os bruxos, os pais, os amigos, os padres, a N. Senhora de Fátima, a cabeleireira, a mulher a dias e até os médicos, quem diria, não é verdade? Todos podem curar. São tantos os males que andam por aí! E quanto aos meios também: chazinhos, mezinhas, palavras de ternura, um pouco de atenção, um bom conselho, um cristal, um aroma, uma música, um poema, um riso de uma criança, um bocadinho de amor, uma pomadinha mágica, uma água santa, eu sei lá que mais. Todos curam e tudo cura. Até há os que não têm doenças que depois passam a ter e a seguir tiram-nas como coelhos das cartolas. Uns artistas! Este técnico deve pertencer à nova irmandade da charlatanice que já usa a electrónica. Mal por mal devia ter ido a uma bruxa mais clássica. São mais eficientes e não se metem a inventar obstruções das artérias!
Dois dias depois, uma notícia do DN dá conta de que o “bruxo de Fafe”, que já foi considerado pelo presidente da autarquia “como um ganho para o turismo da região, tal o número de pessoas que o procuram, vai abrir uma clínica com quartos para internamentos e sala de consultas para os “doentes” espirituais”. Ainda segundo o relato, “as novas instalações permitirão mais qualidade no atendimento aos doentes espirituais e vão acabar com a desumanidade de ter que curar pessoas em público e, às vezes, no chão”. Sim senhor! Isto é que é um bruxo! Mas não fica por aqui. Ciente do seu papel como cidadão paga os seus impostos como astrólogo, porque nas Finanças não existe no Código das Actividades Económicas o de bruxo. Acho que o senhor tem toda a razão. Vamos lá a contemplar no respectivo código a actividade da bruxaria e a seguir regulamentá-la. Deste modo, os falsos bruxos não seriam desleais para com os verdadeiros, os genuínos, porque, dêem a volta que quiserem, nunca vai haver falta de clientela para a bruxaria nacional.
Uma pergunta final. O que é acontece aos bruxos quando estão doentes? Vão ao médico! São bruxos, mas não são parvos... E eu que diga porque já tratei alguns, melhor, algumas!

Ou tudo ou nada, à portuguesa

Não partilho do trauma nacional de não termos medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos, acho que isso não quer dizer que os nossos atletas não tenham qualidade, apenas não são os melhores do mundo. Mas não estranho o sentimento de auto comiseração que a comunicação social tem largamente deixado transparecer, uma vez que o nosso país, em muitos e variados domínios, tem cultivado de modo evidente esta patologia grave de alternarmos entre nos olharmos como os mais míseros dos míseros, salvo quando nos distinguimos como os melhores entre os melhores.
Basta folhearmos os jornais abrangendo um considerável período de tempo para verificarmos a radicalidade destes movimentos entre extremos. Só assim os que me lembro de repente, passámos de país dependente das energias fósseis para campeões das renováveis, de ignorantes tecnológicos para exemplo de modernidade, de zero em apoios à investigação científica para galardoados e mundialmente reconhecidos, de débil tecido empresarial para os criadores do fato de banho que faz nadadores supersónicos, de país de maior pobreza para o que tem maior número de gordos, enfim, por aí fora, sempre nos extremos. Quando saímos da zona da lástima, é sempre para o estrelato.
Só os extremos é que nos comovem ou empolgam, o que significa que o caminho intermédio nunca vale a nossa preocupação, se for a perder, ou o nosso estímulo, se for no sentido ascendente. Alguém se regozijou com os progressos dos nossos atletas antes de chegarem às medalhas mais sonantes? Quantas reportagens, quantas entrevistas de vida, quantos obstáculos e quantas oportunidades recusadas aos que têm capacidade e vontade mas ainda não chegaram à glória? Nada, disso não se fala. Mesmo no futebol, a nossa menina dos olhos, desancamos árbitros, os treinadores caem fulminados a um ritmo estonteante, ouve-se uma gritaria sobre corrupção, suspeitas e ordenados astronómicos, e vivemos fixados no Ronaldo ou no Figo, os únicos que nos fazem estremecer o coração sem reservas, os melhores do mundo.
Da vida e das dificuldades dos outros, os que ainda não saltaram para o 1º lugar do pódio, nem queremos saber. Só nos interessam as vítimas ou os heróis, tudo o resto é como se não existisse, como se vivesse num limbo até que o seu destino se defina, sabe-se lá porquê, como desastrado ou glorioso. Talvez seja por isso que muitos nem chegam sequer a tentar, outros se considerem medíocres quando são medianos ou bons, outros ainda se habilitem a altos voos para que não têm asas e acabem queimados quando podiam muito bem ter uma carreira de sucesso. É que nós, os portugueses, não fazemos por menos. Ou tudo, ou nada. Ou já vimos o resultado estrondoso, ou não damos nada pelo candidato. Se conseguir, é um deus. Se falhar, é motivo de chacota e desprezo, sobretudo por se ter atrevido a tentar. Por isso vivemos da glória de poucos e justificamos a mediocridade de muitos.

Parabéns, Vanessa!...


Vanessa Fernandes, medalha de prata do triatlo nos Jogos Olímpicos de Pequim!...

Pela vitória, pela seriedade do que disse, e pelo esforço que fez, merece a consideração de todos. Independentemente da medalha!...

Parabéns, Vanessa!...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

No meio das trevas por vezes há luz?

"Apaixonadas por condenados", o nome de uma reportagem transmitida na SIC Notícias que revela histórias de criminosos e de mulheres livres que se envolvem amorosamente, em relações duradouras, por correspondência e na ausência de qualquer contacto físico.
A reportagem teve lugar nos Estados Unidos da América onde existem cerca de 3.400 homens no "corredor da morte".
Depois de ver a reportagem fiquei a pensar o que pode levar uma mulher a apaixonar-se por um criminoso condenado à morte ou a prisão perpétua? Tratando-se de homens perigosos que cometeram crimes hediondos - muitos deles envolvendo violações de crianças e raparigas jovens seguidas de requintes de malvadez até ao golpe final de morte - é difícil compreender que sejam procurados por mulheres, que até aí não os conheciam, que manifestam interesse por eles, sendo que algumas dessas relações amorosas acabam, não assim tão raras vezes, em casamento. Também fiquei a pensar o que pode levar uma mulher a ligar-se emocional e afectivamente com homens que estão condenados a passar o resto da sua vida na prisão - muitos deles sem saber até quando - totalmente impossibilitados de constituir uma família, de se olharem nos olhos ou de viver e partilhar em conjunto as coisas mais normais da vida.
Das várias histórias reveladas fixei-me no caso de uma mulher e de um condenado que não se conheciam, que depois de meses de cartas trocadas entre ambos, casaram pelo telefone, num acto que foi assistido pela entidade oficial responsável pelo registo de casamentos. Passados alguns meses o condenado recebeu autorização para se encontrar na prisão com a sua mulher. Nesse raro momento imagino que se tenham surpreendido, olhado, tocado e beijado, sem tempo para aproveitar os breves minutos que lhes foram concedidos.
Ambos, marido e mulher, não valorizaram a impossibilidade de não poderem estar um com outro. O importante para eles é saberem que se têm um ao outro.
Compreendi que são relações que se desenvolvem com um sentido muito forte de posse, quer de um lado quer do outro, em que a realização pessoal parece assumir, no entanto, tonalidades diferentes. Pareceu-me que do lado dos condenados há como que a satisfação de sentirem e saberem que, no mundo que desgraçaram e que deles não mais quer ouvir falar e ver, há um ser que não os despreza, que os compreende, que os valoriza, que neles encontrou algo de bom perdido mas que afinal existe. Do lado das mulheres fiquei com a impressão que o que as liga poderá ser algo que se prende com pena ou compaixão.
Pergunto-me o que leva uma mulher normal a renunciar a uma vida normal, a perder o que de bom a vida pode proporcionar, a aceitar uma espécie de “condenação”? Falta de esperança, desvios comportamentais, sentido de "missão"?
Que diferenças podem ser essas que as distingue das outras mulheres que procuram o bem-estar e a felicidade e a dos seus através da construção em liberdade de plenas relações de amor e de amizade?
A mente humana não pára de nos surpreender. É, realmente, uma caixa de surpresas!

Quando o vazio transborda

As críticas a que assistimos sobre a actual “ausência” do PSD mostram-nos uma situação muito interessante.
De um lado, temos os alinhados com a actual maioria socialista que aproveitam a oportunidade para clamar contra a ausência de propostas e de ideias do PSD.
Com eles, temos a oposição interna a Manuela Ferreira Leite que joga no desgaste da sua liderança.
Mas afinal, o que justifica tanto barulho em plena silly season?
A explicação é simples.
O caminho que Manuela Ferreira Leite decidiu percorrer até às legislativas de 2009, representa uma novidade na política em Portugal.
Para aqueles que agora têm que conviver com esta nova realidade, surgiram vários problemas.
Como é que se faz política nestas circunstâncias?
Como é que se combate num terreno que se desconhece? Que até nem existe?
Como é que se ataca um alvo que não se expõe?
A táctica do silêncio de Manuela Ferreira Leite está a colocar muita gente numa grande incomodidade.
E fazem tanto barulho que acabam a preencher o vazio que criticam.
Assim, o silêncio de Manuela Ferreira Leite vale cada vez mais.
E de cada vez que falar, passará a ser mais ouvida, porque as críticas valorizaram a sua presença.
Havia a ideia que para se fazer política com sucesso, era necessário estar sempre nas notícias, garantir uma presença mediática, falar de tudo e de nada, aparecer não importa como nem porquê.
Estes cânones foram postos em causa.
Nestas circunstâncias, o calendário político torna-se favorável a Manuela Ferreira Leite e ao PSD.
Agora, é necessário resistir à pressão para “aparecer”!

Palavras de Sócrates: brincadeira de mau gosto!...

Em 10 de Janeiro de 2005, José Sócrates prometeu recuperar 150.000 novos empregos em 4 anos. Transcrevo do DN do passado dia 15 de Agosto as palavras de Sócrates: “ são 150.000 empregos que perdemos em três anos e vamos recuperar em quatro”. Não sofre dúvida que o objectivo de Sócrates era a recuperação para o emprego de 150.000 dos cerca de 170.000 que ficaram desempregados no período de 2002 a 2005. Com efeito, os desempregados passaram de 239.000 no 1º Trimestre de 2002, para 412.000 no 1º Trimestre de 2005, mais 173.000.
Sócrates vira agora o bico ao prego, ao dizer que se referia à expansão da população empregada. Não está a ser verdadeiro. É que “os 150.000 empregos que perdemos em três anos e vamos recuperar em quatro” referidos por Sócrates não se podiam referir ao decréscimo na população empregada verificado nesse período, já que esta não sofreu alteração significativa, pois passou de 5,107 milhões, no 1º Trimestre de 2002, para 5,094 milhões no 1º Trimestre de 2005, uma diminuição de apenas 13.000 agentes. Sócrates referia-se, sem qualquer duvida, à recuperação do desemprego.
Hoje ouvi mais uma vez a voz grandiloquente de José Sócrates, apregoando que a meta dos 150.000 empregos prometidos estava praticamente atingida com a criação de mais 130.000 postos de trabalho, desde a sua tomada de posse.
Ora, a população desempregada era de 413 milhares, no 1º Trimestre de 2005, e de 410.000 no 2º Trimestre de 2008, o que significa apenas uma recuperação de 3.000 desempregados. De 3.000 para os 130.000 prometidos por Sócrates, a diferença é total.
Por isso, as palavras hoje proferidas por Sócrates, no seu regresso de férias, pela demagogia descarada que evidenciam, pela sem-vergonha que representam, pela nula consideração a que votam a inteligência dos portugueses não podem ser esquecidas. Tais palavras não são dignas de um político, muito menos de um Primeiro-Ministro. São mesmo uma brincadeira de mau gosto, quando o desemprego aflige um dos seus valores mais altos, 7,3% da população.

domingo, 17 de agosto de 2008

Jogos Olímpicos I

Situação em 16 de Agosto

Portugal
- 0 medalhas de ouro, 0 de prata e 0 de bronze
Togo-1 medalha de bronze
Tadjiquistão-1 medalha de bronze
Vietname- 1 medalha de prata
Etiópia- 1 medalha de ouro
Mongólia- 1 medalha de ouro e 1 de prata
Zimbabwe- 1 medalha de ouro e 3 de prata
Geórgia- 2 medalha de ouro e 1 de bronze
Coreia do Norte- 1 medalha de ouro, 1 de prata e 3 de bronze
Cuba- 1 medalha de ouro, 3 de prata e 4 de bronze

Combate à banalização da violência...

Pensei duas vezes sobre escrever uma vez mais sobre a violência. Porque é um assunto que tem associada uma carga negativa. E andamos todos muitos cansados de más notícias. Eu sei. Mas, na verdade, ao ritmo dos acontecimentos a violência corre o risco de ser um assunto banal. Ora não é, nem deve ser!
Já tinha pensado em fazê-lo porque achei que era importante questionar sobre as conclusões dos inquéritos que o MAI mandou abrir para apurar responsabilidades sobre o tiroteio que ocorreu entre grupos rivais há cerca de um mês em Sacavém, na Quinta da Fonte, e sobre outras conclusões importantes para compreendermos os problemas que estão na origem de lutas criminosas em bairros sociais considerados problemáticos, para já não falar de uma discussão séria que deveria ser feita em torno das questões da segurança. Ainda não vi anunciadas quaisquer conclusões!?
Entretanto, neste curto período de tempo o País foi contemplado com cenas de extrema violência, foi noticiado que nos primeiros seis meses deste ano foram assaltadas cem agências bancárias, o que dá uma média de quatro agências por semana, etc.
Hoje de madrugada o País acordou com o rescaldo de mais um tiroteio entre gangues rivais na Quinta do Mocho, no Concelho de Loures, com o brutal resultado de cinco feridos e um morto.
Será que esta cena criminosa é mais um acontecimento pontual? É compreensível que o governo e as autoridades policiais a tratem aos olhos da opinião pública dessa forma. É importante não alarmar as pessoas e transmitir-lhes confiança. Completamente de acordo. Mas...
Mas os problemas existem e devem ser tratados. Alguns deles discutimo-los aqui em Julho quando do episódio da Quinta da Fonte. O post então escrito e os comentários mantêm-se válidos:
"(…) Se é certo que temos sinais evidentes que a dimensão policial terá que ser repensada e reforçada ou que a venda de armas deverá ter um enquadramento legal bem mais apertado e uma fiscalização efectiva, não nos podemos esquecer que a complexa malha urbana e o deficiente ordenamento territorial, a inexistente ou reduzida função de acolhimento e apoio social de grupos sociais vulneráveis - seja porque pertencem a minorias, seja pela sua baixa condições económica – em nada ajudam a prevenir, antes promovem, comportamentos anti sociais geradores de ânsia e de insatisfação que culminam em comportamentos violentos. Muitos desses grupos sociais marginalizados são constituídos por imigrantes que foram entrando sem pedir licença, sem o necessário planeamento económico e social, designadamente sem as adequadas condições para proceder à sua correcta integração social e no mercado de trabalho. Sem, muitas das vezes, o tratamento humanitário que defendemos, mas do qual não cuidamos, e sem o qual não teremos condições para vivermos numa sociedade inclusiva. Onde não há inclusão, não haverá segurança…"

“Homens de saias”...

Certas notícias chamam-nos de imediato a atenção e fazem-nos reviver certas situações.
Não sabia que havia uma associação francesa, denominada “Hommes en Jupe”, que defende o direito dos homens a usarem saias. Os associados, no fundo, pretendem retomar uma velha tradição. É certo que hoje em dia, em muitos países, os homens usam saias, caso do Paquistão, Polinésia e certas regiões de África, para não falar do famoso kilt escocês ou até dos Pauliteiros de Miranda de Douro e os Sargaceiros da Apúlia, nestes últimos casos dizem que não são saias mas camisas, como se “tivessem esquecido de vestir as calças”!
De acordo com a associação, o objectivo é liberalizar o guarda-roupa masculino, tentando fazer o mesmo que as mulheres há alguns anos quando passaram a usar calças. Independentemente das opiniões sobre esta matéria, que parece estar a atrair a atenção de estilistas franceses, recordo-me que, em jovem, via com certa frequência um homem de semblante triste a conduzir uma carroça e que usava saia preta. Quando me cruzava com o senhor, que mais tarde vim a saber que pertencia a um concelho vizinho, questionava-me sempre porque razão usava saias. O senhor devia rondar pelos quarenta e poucos anos, seco de carnes e era detentor de um bigode farfalhudo. Só muitos anos depois é que vim a saber o motivo: sofria de incontinência urinária e, por este motivo, usava saias. Nunca me apercebi que alguém tenha feito qualquer comentário depreciativo, mesmo não sabendo as razões para tão estranho hábito.

Não te retires, Obikwelu!...


“A culpa é minha e só minha. Este é o meu trabalho, sou pago pelos portugueses e, por isso, não quero arranjar desculpas. Queria, pelo menos, ter dado a final. Deixei o meu país ficar mal e peço desculpa a todos.”
Francis Obikwelu, depois da eliminação na meia-final dos 100 metros.

Houve quem atribuísse a derrota ao facto de as provas serem de manhã e ter que se levantar cedo, e houve quem visse na desigualdade de patrocínios comerciais, em relação a colegas, a causa da eliminação. Para outros, menos sofisticados, a culpa foi dos árbitros.
Obikwelu não arranjou desculpas fáceis, assumiu sozinho a eliminação, não exigiu novos apoios e reconheceu que podia e devia ter feito mais.
Obikwelu confirmou que é um campeão.
Não te retires Obikwelu, como disseste que irias fazer!... Tens ainda muito a ganhar, e o país contigo. E, mais do que tudo, muitos atletas portugueses precisam do teu exemplo!...

Juízes e juízes...

Todas as profissões são honrosas mas há algumas que, devido às suas especificidades, merecem ser destacadas. Se me perguntarem qual é a que merece a mais elevada distinção, e apesar de ser médico, não hesitaria em responder: juiz. Julgar e aplicar a justiça é o acto mais nobre que conheço. Salvar uma vida e aliviar o sofrimento também é, sem sombra de dúvida. Mas a fome da justiça é um sentimento humano que se sobrepõe a qualquer outro. O que está em causa é a dignidade humana. Quando somos vítimas de injustiça, seja qual for a sua "dimensão" o sofrimento produzido corrói a alma, podendo, nalguns casos, matá-la. Para se ser juiz não basta aprender as técnicas e aplicá-las de acordo com os códigos em vigor. É preciso muito mais. Muito mais.
Algumas notícias que, nos últimos anos, nos têm chegado causam apreensão, porque denotam alguma forma de "injustiça", o que parece ser uma incongruência para quem tem a nobre tarefa de julgar. Dirão que não, porque a Lei é "cega" e "dura". Mas terá de ser mesmo assim?
A notícia, segundo a qual o presidente do Tribunal de Relação de Guimarães "revogou um despacho de uma juíza do Tribunal de Família e Menores de Braga que entregava a custódia de uma menina ao pai, ausente em parte incerta, em vez de a deixar à guarda da irmã, que já cuida da criança" merece um grande aplauso e dá-nos a sensação de segurança, ilustrando que há ainda juízes que sabem ocupar os seus lugares e ministrar adequadamente a justiça. Pena é que a senhora juíza, ainda por cima do Tribunal de Família e de Menores, não tenha tido o rasgo de clarividência perante a situação descrita. É juíza, estudou para tal, pode, inclusive, saber muito de códigos mas falta-lhe o essencial: defender os superiores interesses de um ser humano, neste caso de uma criança.
Questiono-me: como terá reagido a senhora doutora juíza à decisão do Tribunal de Relação de Guimarães?
Indiferença? Arrependimento? Gostava mesmo de saber...

sábado, 16 de agosto de 2008

De acordo

A propósito dos resultados dos atletas portugueses presentes nos jogos olímpicos, mas também das justificações dos próprios para a falta de sucesso, Francisco José Viegas escrevia ontem no CM que "a doença do demérito está a ameaçar a sociedade portuguesa, que gosta de festejar mas não preza o caminho até lá".
Não posso estar mais de acordo. Mas é algo que excede em muito o campo desportivo.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Lin e Yang


Tem dado que falar a história da “falsificação” da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, quando utilizou uma menina bonita para aparecer e outra, com os dentinhos tortos, atrás da cortina a cantar. De acordo com o coro de protestos indignados que ainda se fazem ouvir, isto foi uma “encenação”, uma inadmissível batota que ameça perpetuar uma mancha terrível sobre o grandioso espectáculo.
Percebo que o regime chinês não desperte simpatias dispostas a tolerar quaisquer fraquezas e que custe um bocado a engolir a dimensão e perfeição do espectáculo mas, francamente, não consigo perceber a ira que este episódio gerou, como se se tratasse da reedição, em formato séc. XXI, do drama de Cyrano de Bergerac. A imprensa, ávida de provar a impossibilidade da China nos impressionar, quis espicaçar-nos com a descoberta de “um drama humano”, ainda por cima de uma criança, a condenação à inexistência de quem é feio, a desumanidade da exigência da perfeição, enfim, a marginalização e a injustiça, associada ao torpe aproveitamento, à socapa, das qualidades aproveitáveis!
Ora, o que me parece é que estamos perante um exercício de pura hipocrisia e de arrogância moral que tanto irrita outras civilizações. O objectivo era apresentar um espectáculo irrepreensível, perfeito, de acordo com os padrões de beleza e perfeição que vigoram na organização. Um espectáculo colectivo, que envolveu milhares e milhares de figurantes e artistas, não era propriamente um desfile de estrelas ou um concurso de talentos. O número em que entraram as duas meninas – uma gravou a canção, outra deslizou nos ares como uma pequena fada - , não era diferente ou seja, não se destinava a dar oportunidade de glórias individuais, era parte do todo. E, como o todo, recolheu o contributo dos melhores para que parecesse uma peça única.Queriam uma imagem bela e uma voz celestial e, sendo certo que a natureza raramente junta todos os expoentes numa só criatura, juntaram duas, escolhendo o que cada uma podia dar: uma apareceu, a outra cantou, formando uma dupla que atingiu plenamente o objectivo, agradar sem reserva.
Não houve “encenação”, no sentido de burla que motiva a indignação, mas uma coreografia admitiu a ilusão de que quem dançava era quem cantava. Li algures que foi uma decisão de última hora, que a menina cantora já era crescida demais para fazer o número visual, seja como for não creio que se justifique tanta indignação nem tantos processos de intenção.
Podemos, claro, contestar o critério, dizer que é uma indecência não deixar a cantora dar a cara só porque é menos bonita, mas que grande injustiça. O que se quer fazer crer é que nós, no ocidente, nunca faríamos isso, se a menina tem a voz que queremos, pois bem, temos que a aceitar tal e qual, senão é injusto, nunca sacrificaríamos a glória e a felicidade pessoal aos objectivos da organização. Ora, não estou nada certa de que os nossos valores, neste aspecto, sejam assim tão irrepreensíveis, basta dar uma olhadela sobre as reportagens que alertam para a discriminação dos gordos e ao modo como são preteridos nos empregos, ainda que sejam melhores para as funções, para sermos mais prudentes a atirar pedradas. E não estamos só a falar de coreografias que são, em si mesmas, criadoras de ilusão. No Ocidente o aspecto conta, e muito, arranjamos é maneiras mais discretas de não sermos “apanhados”, geralmente desperdiçando as qualidades de quem não cumpre os requisitos da aparência e recusando-lhes sequer a oportunidade de contribuir para o êxito de uma iniciativa.
Questões políticas à parte, este episódio e o modo como tem sido tratado na imprensa ocidental, mostra a arrogância moral que nos impede que reconhecer o que vale a pena enaltecer e de guardar as críticas apenas para o que não pode ser tolerado. É por isso que muitas vezes as vozes que deviam ser ouvidas se perdem, pelo ruído estridente que fazem as outras.

Foguetes de que festa?


Segundo os números revelados pelo INE relativos ao 2º trimestre, a economia portuguesa cresceu 0,4 por cento neste período em comparação com o trimestre anterior. Os preços terão caído em Julho. A taxa de desemprego baixou 0,6 por cento.
O Ministro das Finanças apressou-se a dizer, com aquele ar grave e sério de quem sempre soube que assim iria ser, que estes números demonstram que Portugal resistiu à crise.
Fico estupefacto com estas reacções de júbilo do governo perante números que alguns explicarão por factores conjunturais. É sabido que os resultados das estatísticas deste período beneficiam quase sempre de circunstâncias como os saldos que influenciam o nível geral dos preços, ou o emprego estival, precário, que diminui a cifra do desemprego.
Conseguem ver aqui sinais de recuperação sustentável da economia? Sentem ou sentirão os portugueses no bolso e na qualidade da sua vida as melhorias que fazem rejubilar os governantes?
Sei bem que conceituados economistas vislumbram nos números divulgados o prenúncio de que o pior já passou e que daqui para a frente vai ser via verde, mesmo contra a corrente dominante das economias de que dependemos, em geral dos parceiros europeus e muito particularmente de Espanha onde se avoluma cada vez mais a preocupação sobre a evolução negativa da economia do país, designadamente em sectores próximos do governo do PSOE.
Não deixa, por isso mesmo, da perspectiva destes verdeiros oráculos ser de dificil entendimento, que não seja por razões de fé dos próprios.

Se não entendo o contentamento que os números de um trimestre provocam, devo dizer que ficarei muito satisfeito se os sacerdotes desta Igreja do Próximo Oásis estiverem certos nas suas optimistas prognoses. É que, com a desgraça e o empobrecimento do País ninguém ganha. Ou melhor, poucos ganham...

Senhor Primeiro-Ministro...

É natural que não tenha tempo para ler blogues e muito menos o da 4R-Quarta República. Mas tenho fé que algum assessor de um qualquer ministro ou mesmo um senhor deputado possa ler estas breves linhas.
Li hoje que um jovem senegalês, de sua graça Demba, está em Portugal para obter elementos para a sua tese de mestrado sobre Almeida Garrett. Para poder pagar as fotocópias e poder comer anda a vender bugigangas na praia. O estudioso tem objectivos na vida. “Quer ser embaixador da língua portuguesa e trabalhar até ao topo da carreira como professor” no seu país. O relato da jornalista é impressionante e toca qualquer português que ama a sua língua e pátria.
Senhor Primeiro-Ministro, eu sei que não tem tempo para ler blogues, mas, mesmo assim, vou-lhe fazer um pedido: forneça alguns meios ao jovem. Invista neste estudioso que um dia pode fazer no seu país e no mundo muito mais do que qualquer um de nós pela pátria de Camões, pela língua de Camões.
Miguel Torga dizia que “É nossa sina não caber no berço. Desde os primórdios que somos emigrantes. O português pré-histórico já era aventureiro, navegador, missionário, semeador de cultura.” Este jovem imigra à procura da nossa cultura, defendendo a nossa língua. É aventureiro, navegador, missionário e semeador da cultura. O grande escritor também dizia que “O difícil para cada português não é sê-lo: é compreender-se”.
Senhor Primeiro-Ministro, eu sei que não tem tempo para ler blogues, e muito menos o da 4R-Quarta República”, mas, ao auxiliar Demba, está a fazer algo que cada um de nós necessita: "compreender-se"...