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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Avisos (III)


A Propósito do OE’2009. in Jornal de Negócios, Outubro 21, 2008

“(…) Depois de ajustados os números de 2009 para uma base comparável,

  • a despesa pública atingirá (…) o valor mais elevado de sempre face ao PIB (47.8%), crescendo 7% face a 2008 (e num ano em que a inflação prevista será de 2.5%...);

  • a despesa corrente primária crescerá 5% (provando o total fracasso do PRACE); e

  • esta legislatura terá sido completamente perdida em termos de consolidação orçamental pelo lado da despesa (aquela que era essencial que tivesse sido prosseguida), com o défice a ser reduzido unicamente por via do aumento da receita, (…) cujos agregados, tal como os da despesa pública, se situam bem acima dos valores de 2004 – o último ano da anterior legislatura (…)”.

Execução orçamental: fundados motivos de dúvida...

1.Fomos ontem positivamente bombardeados pela notícia de que o défice da execução orçamental de 2010, até Novembro, tinha pela primeira vez no corrente ano ficado abaixo – 100 milhões Euros ou seja 0,59% do PIB – do registado em igual período de 2011...
2.No seu estilo inconfundível, o PM declarava que este dado iria transmitir confiança aos mercados...a reacção dos mercados, paradoxalmente e até agora, traduziu-se numa subida das taxas de juro da dívida portuguesa...
3.Os dados da execução orçamental ontem divulgados suscitam naturais reservas, por duas razões fundamentais: (i) o enorme volume de despesa cujo pagamento tem vindo a ser atrasado e que, como tal, não está contabilizada nos dados divulgados até Novembro e (ii) o crescimento da dívida pública directa até Novembro.
4.Quanto ao primeiro aspecto, sabe-se que os dados divulgados pela DGO na informação mensal são baseados nas regras da Contabilidade Pública, que no caso da despesa só registam a que é efectivamente paga, por conseguinte omitindo a que tenha sido realizada mas não paga.
5.Ora são do conhecimento público as gigantescas dívidas que, sobretudo na área da Saúde, têm vindo a ser acumuladas nos últimos meses, por insuficiência de verba para as pagar: são muitas centenas de milhões de Euros, talvez mesmo milhares de milhões – trata-se pois de despesa realizada mas não contabilizada ainda como tal e que por isso é omitida nesta informação mensal da DGO...
6.Por outro lado, a dívida pública directa cresceu até Novembro 13,5% em relação à dívida registada no final de 2009, o que permite, mesmo descontando o factor anterior, ter dúvidas quanto ao rigor dos números apresentados...se o défice orçamental só cresce, por hipótese 8% ou 9%, como explicar que a dívida tenha crescido 13,5%?
7.Quanto a esta evolução da dívida, fortemente divergente da evolução do défice, até pode ser que exista uma explicação ou várias explicações...mas se e enquanto tais explicações não forem divulgadas, a dúvida permanece...
8.Neste quadro de dúvidas e mais dúvidas, algumas do conhecimento público outras que poderão ainda vir a ser suscitadas, a ideia de cantar vitória com a redução do défice de € 100 milhões parece prematura ou mesmo extraordinariamente ousada.
9.Não nos esqueçamos que a U.E. está “escaldada” pelo lamentável exemplo do défice da Grécia em 2009 que, de um valor inicial da ordem de 7% salvo erro (preliminarmente certificado pelos serviços da Comissão), na última revisão ia já em 15,4%...
10. E, como se usa dizer, “gato escaldado, de água fria tem medo”...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Avisos (II)

A Propósito do OE’2008. in Jornal de Negócios, Outubro 16, 2007

"Há um ano, cataloguei o Orçamento do Estado para 2007 (OE’2007) como uma desilusão.

Um ano decorrido, ao analisar o OE’2008, o sentimento é, infelizmente, reforçado, porque nos encontramos perante um processo de consolidação orçamental absolutamente desadequado e fracassado.

Por duas razões principais. Porque é ilusório o combate à despesa; (…) porque carece de uma actuação acertada do lado dos impostos: a nossa falta de competitividade fiscal (…) em nada é invertida.

(…) Em 2008, a despesa pública total, corrente e corrente primária (…) sobem em valor absoluto (assumindo valores record); (…) sobem com (…) crescimentos próximos do dobro (!) dos de 2007, um cenário que considero verdadeiramente assustador; e (…) sobem em termos reais (mais do dobro do que se prevê para a inflação, 2.1%).

É transmitido um sinal de laxismo à sociedade, (…) um erro crasso, até pelos (…) tempos incertos da conjuntura internacional, com consequências sobre as já-de-si difíceis condições estruturais que, reconhecidamente, a economia portuguesa continua a atravessar. O que teria sido correcto, mesmo não conseguindo reduzir a despesa pública de facto, era, pelo menos, que todas estas componentes da despesa crescessem menos do que em 2007 e/ou não crescessem em termos reais. Assim, se alguma intenção houve de conter ou consolidar, ela resultou num rotundo falhanço.

Creio que o Ministro das Finanças tem perfeita consciência deste facto: a irritação que não escondeu na conferência de imprensa de apresentação do OE’2008, quando questionado pelos jornalistas quanto à falta de ambição deste Orçamento é disso reveladora (…)".

Os afectos é que contam...

Recentemente numa homenagem a um grupo de colaboradores que irão para a reforma, foi muito tocante ouvir as palavras de um deles sobre o misto de sentimentos, a gratidão pelo passado, o aconchego do presente ou o medo do futuro.
A passagem à reforma perspectiva-se para a maioria das pessoas como uma mudança radical nas suas vidas. Há como que um efeito de "guilhotina" que corta abruptamente um modo de vida do qual fazem parte todo um conjunto de hábitos e relacionamentos que desaparecem e deixam um vazio que é difícil preencher. E isto é tanto mais assim, quando as pessoas não desenvolvem ao longo da vida activa outras ocupações e interesses. Normalmente, não se reserva o tempo necessário para fazer ou planear uma transição que seja suave.
Talvez que o mais significativo seja a perda dos afectos que se constroem no trabalho ao longo de muitos anos, seja nos laços de companheirismo e de amizade que se estabelecem com os colegas, onde não falta a cumplicidade, a entrajuda ou a partilha de interesses e gostos comuns, seja nas relações de natureza hierárquica conduzidas pelo formalismo que enriquece a aprendizagem ou até nos “ódios de estimação” que muitas vezes servem para defender a auto-estima e ocupar um espaço de crítica e desvalorização suficientes para alimentar uma dose suplementar de adrenalina.
Tantas vezes ouvimos pessoas dizerem que estão cansadas de trabalhar, cansadas de ter que aturar este ou aquele chefe ou esta ou aquela prática ou exigência de trabalho, que tomara que chegue a hora da reforma para acabar com todos esses aborrecimentos. Mas quando se aproxima o momento, o receio da falta de todas essas “chatices” toma conta das pessoas. E, então, acabam a fazer um balanço positivo de um período mais ou menos longo da vida em que o trabalho desempenhou um lugar muito importante, desvalorizando as contrariedades e valorizando o que receberam da empresa, dos colegas, etc. A gratidão, a satisfação e a amizade tomam conta desses momentos, dos que partem para a reforma e dos que ainda têm de esperar.
É por isso que nem as organizações nem as pessoas devem cortar o “cordão umbilical”. No estado de reforma é desejável que os relacionamentos se mantenham, num formato naturalmente diferente, para aconchego de todos. Afinal as organizações são feitas de pessoas e a sua existência está intimamente ligada ao bem-estar de quem nelas trabalha. Os afectos verdadeiros nunca morrem e são o bem mais precioso da vida…

"Drogas eletrónicas"

Uma aluna minha, de um curso de pós graduação, não médica, escreveu um pequenino ensaio sobre um tema de saúde pública. Pedi aos alunos que, em vez de escreverem relatórios ou fazerem trabalhos, escolhessem à sua vontade um assunto relevante, debruçando-se sobre o mesmo de forma a transmitir novos conceitos ou perspectivas, mas sempre com um cunho muito pessoal. E é através desses textos que irei avaliá-los. Este escrito em concreto, “Drogas eletrónicas”, como outros que já comecei a receber, merece ser divulgado. Por este motivo aqui o deixo no Quarta República.

"Drogas electrónicas"

Já não conseguimos viver sem um computador, sem navegar na Internet, vivemos num mundo que já não funciona sem as famosas tecnologias. E como as novas tecnologias estão sempre a aparecer e evoluir, surgem agora as drogas electrónicas que não são mais do que sons e impulsos sensoriais que prometem efeitos físicos e mentais semelhantes aos da heroína, cocaína, ecstasy, LSD, álcool e até do viagra.
Esta nova droga consiste num software, I-doser, que emite doses de ondas sonoras que interferem nas ondas cerebrais do utilizador.
Este software pode ser descarregado no site oficial, onde são vendidas as doses de áudio. O seu uso é limitado, não sendo possível a reutilização depois de algumas doses mas, hoje em dia, existe sempre maneira de dar a volta “à questão” e retirar essa limitação.
A dose funciona de uma maneira muito simples, através do envio de sons que estimulam o cérebro, elevando ou baixando as ondas cerebrais até determinada frequência que gere o efeito desejado.
Desde o século XIX é conhecido que nosso cérebro emite determinadas ondas cerebrais, e, dependendo da frequência dessas ondas, o nosso comportamento e percepção do ambiente mudam por completo. Utilizando esse conhecimento, o software gera determinadas experiências aos seus utilizadores, de acordo com a função da dose utilizada por eles.
Cada dose de áudio dura entre quinze a sessenta minutos. Esta deve ser ouvida através de auscultadores, num local silencioso e com luz fraca. Caso se utilizem colunas, já não terá efeito, pois é emitido um som distinto em cada ouvido ao mesmo tempo. Diz o site do I-doser que quanto maior a qualidade dos auriculares, melhor será a experiencia. As doses estão agrupadas em categorias, como por exemplo: doses espirituais, sedativas, dieta ou sexuais.
As doses mais conhecidas são as Gate of Hates, que é suposto ser uma das drogas mais fortes e que irá assustar de morte, afirmando ter efeitos como "Pesadelos esperados, próximos de experiências de morte, e forte início de medo". A outra dose é Hand of God, a mais forte, que é como tocar o céu: “É como um santo que chega do céu, coloca-te de olhos fechados e mostra o universo, tudo, o infinito.”
Já tive curiosidade de ouvir um pouco da primeira, consegui obter o ficheiro áudio sem ter que pagar e sem qualquer limitação, logo consegui uma “droga” de forma gratuita. O que se ouvia eram uns ruídos muito baixos no início, saltei para o final e os ruídos já eram muito altos. Não consegui ouvir tudo, pois já estava a começar a ter dor de cabeça, de tanto ruído...
Li algumas experiências de utilizadores e uns dizem que não sentiram nada e outros que estavam realmente com medo e alguns tinham até alucinações. Há imensos vídeos das reacções no youtube e todos eles apresentam efeitos muito fortes.
Alguns especialistas dizem que os efeitos desta droga e dependência ainda não estão muito claros, apesar de serem perigosas pelo facto de “mexer” como o nosso cérebro. Alguns dizem que de certa forma é uma hipnose, já que a consciência dos utilizadores pode ser manipulada.
Por enquanto vamos ficar nas incertezas, porque ainda não existe nenhum estudo a provar os efeitos desta droga. Resta-nos esperar para ver o que vai surgir com as novas tecnologias.
(Diná Trindade)

Parabéns Diná.

Mulher empreendedora e solidária

Ontem vi num telejornal que o Prémio Empreendedor Imigrante do Ano foi entregue a uma iraniana de 29 anos, Leila Sadeghi, licenciada em literatura inglesa, que está em Portugal há 5 anos e que se distinguiu pelo trabalho inovador no campo da estética e das técnicas orientais que aplica no seu instituto de beleza em Coimbra. Além de tratar da maquilhagem e da beleza das suas clientes, esta mulher activa ainda dá umas horas do seu tempo a apoiar um centro de idosos e afectou 10% dos lucros da sua empresa a instituições de solidariedade. Numa pequena entrevista, falou português com muito acento mas com correcção e contou que a sua maior surpresa foi perceber a ideia que os portugueses têm das mulheres iranianas, que consideram oprimidas, quando afinal as portuguesas vivem muito mais sobrecarregadas de trabalho do que elas. E ria-se, divertida, a falar disso com uma grande admiração e a considerar que o governo iraniano é que tem culpa da imagem que se transmite para o exterior do seu país.
Há tempos fui ver um filme sobre as razões da crise actual e um dos entrevistados comentava que o mundo financeiro é um exclusivo dos homens, assim como quem diz que se houvesse mais mulheres as coisas não teriam descambado daquela maneira...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

"Boas agressões"

Já começo a ficar farto das explicações sobre o papel dos antioxidantes na preservação da saúde humana. Precisamos de oxigénio para viver e muitas das reações que ocorrem no nosso organismo libertam radicais livres, os quais têm, de facto, efeitos perniciosos, mas apenas em concentrações elevadas; e para evitar que tal aconteça possuímos mecanismos de proteção e de neutralização.
Os radicais livres têm sido responsabilizados em várias doenças, nomeadamente nas doenças cardiovasculares e no envelhecimento. Usar e aconselhar antioxidantes constitui uma moda, e quando se verificou que o vinho tinha essas substâncias, clamou-se alto e em bom som que o papel protetor do vinho era devido a elas. Logo, beber uns copitos passou a adquirir o estatuto de medicamento ou de vacina! Mas só o vinho? Não! Chocolate, chás, brócolos, cenouras, morangos, tomates, vegetais verdes, amêndoas, castanhas, frutas cítricas e silvestres, só para citar alguns, têm componentes dotados desta atividade. Tudo bem. Resta saber, caso do vinho tinto, se as quantidades ingeridas, bebendo moderadamente, serão suficientes para ter algum efeito.
Desconfio sempre do excesso de virtudes. Agora surgiu um trabalho a revelar que vermes produtores de mais radicais livres ou que tinham sido tratados com substâncias, herbicidas, dotados de atividade oxidante viviam mais do que os normais! E quando lhe foram administrados antioxidantes passaram a ter uma vida convencional. Sendo assim, é de pôr em causa a ideia de que ingerir antioxidantes prolonga a vida.
A produção de radicais livres é o resultado da resposta do organismo às agressões, o que é perfeitamente normal. Esta resposta, afinal, acompanhar-se-ia de efeitos benéficos a certos níveis. Se a produção dos radicais livres nas mitocôndrias aumenta com a idade será mais uma consequência do que a “causa” do envelhecimento. Envelhecer lesa o organismo, e este tenta contrariar a agressão produzindo radicais livres. O exercício físico tão propalado como fazendo bem à saúde, e faz, aumenta os radicais livres, e beber bebidas alcoólicas também aumenta os radicais livres. Estamos perante agressões, e, no caso do vinho, os antioxidantes que comporta não deverão ser suficientes para neutralizar os que produz no organismo. Estes achados enquadram-se perfeitamente dentro da perspectiva ecológica, segundo a qual, e desde que respeitados certos limites, as agressões são muito úteis para podermos beneficiar positivamente em termos de saúde. Faz todo o sentido.
Sendo assim, quando alguém beber um copo de tinto terá, futuramente, de alterar os seus argumentos, deixando de afirmar que bebe vinho porque faz bem à saúde. Em vez de dizer “estou a proteger o meu coração porque o vinho é rico em flavonoides”, deverá passar para “tenho de agredir o corpito para que não se esqueça de proteger o meu coração”. Mas cuidado, nada de beber em excesso, porque tudo tem limites. De qualquer modo, tudo aponta para que a teoria da hormesis também se aplica ao vinho. Nada melhor do que uma boa agressão, e se for do “bom”, então, melhor...

Avisos (I)

À beira de mudarmos de ano, e tendo em atenção a delicadeza da situação financeira, económica e social que Portugal enfrenta – para já não falar da falta de credibilidade internacional do nosso país em matéria de “contas” (satisfação de compromissos financeiros) –, pareceu-me ser esta uma altura apropriada para recordar alguns dos meus escritos nos últimos 5 anos, em que fui avisando para o perigo das opções de política económica desadequadas que iam sendo tomadas, em particular no que diz respeito às políticas orçamental e fiscal. A crise internacional, cujos primeiros sintomas foram sentidos na segunda metade de 2007, a consequente crise de endividamento de algumas das economias periféricas europeias (nomeadamente a Grécia) e o rápido contágio a Portugal, apenas vieram apressar a situação que hoje enfrentamos. Mas já para lá caminhávamos e (infelizmente…) a bom ritmo.

Assim, hoje, amanhã, e dias 22, 23, 27, 28 e 29 de Dezembro (com um interregno para os dias natalícios) recordo alguns desses meus “avisos” que, infelizmente para todos nós, se vieram a revelar... certeiros.

A Propósito do OE’2007. in Jornal de Negócios, Outubro 31, 2006

“Acho o Orçamento do Estado para 2007 (OE’2007) uma desilusão.

(…) Portugal tem, indiscutivelmente, um excesso de despesa pública, sobretudo de despesas correntes, de funcionamento – do aparelho do Estado. É aí que reside o famoso “monstro” (…) que precisa de ser combatido.

Ao mesmo tempo, Portugal tem um claro problema de falta de competitividade fiscal – uma das componentes da competitividade geral, nem mais nem menos importante que outras componentes, mas que não pode (nem deve, face às tendências internacionais) ser esquecida.

Ora, nenhum destes dois problemas é combatido eficazmente no OE’2007.

Nunca (…) se encontraram reunidas tantas condições como agora para cortar eficazmente na despesa pública (…) em termos absolutos. Sei que não é fácil. Mas nunca, como hoje, foi tão necessário. E isso, sim, a acontecer, seria inédito. (…) A despesa pública, a despesa pública corrente e a despesa corrente primária (…) descem em percentagem do PIB – e isso é, inegavelmente, positivo. Mas esse não é o único critério relevante para se avaliar o que acontece na área da despesa pública. O crescimento destes agregados face ao ano anterior é, igualmente, importante. E a verdade é que, em 2007, a despesa pública total, corrente e corrente primária (i) sobem todas em valor absoluto (assumindo valores record); (ii) sobem mais do que se admite virem a aumentar em 2006 (respectivamente 2.6%, 2.9% e 2.5%, contra 0.4%, 1.3% e 0.8%); e (iii) sobem em termos reais (isto é, acima da inflação).”

Uma só medida que valeria bem mais que as 50...

1.A história de uma lista de 50 medidas para “encher” a chamada “agenda do crescimento” pode ter algo que se lhe diga...
2.Em primeiro lugar, não resisto à tentação de pensar que esta iniciativa das 50 medidas e da “agenda do crescimento”, atentas as suas características mediáticas, possa ter sido obra de alguma agência de comunicação, uma dessas maternidades de ideias fantásticas, pagas a peso de ouro...
3.Confesso que essa possibilidade me assusta, pois se assim for não iremos muito longe com esta “agenda do crescimento”...mal vai um País quando a estratégia de política económica tem de se submeter aos ditames de um mediatismo exacerbado, sendo para tal modelada por quem não tem a mais pequena ideia dos reais problemas da economia e de como devem ser enfrentados...
4.Acresce que uma das medidas apresentadas como mais emblemáticas – o fundo para financiamento dos despedimentos – arrisca-se a ser um nado-morto, rejeitada por todos os interessados no assunto e classificada até por um dos principais especialistas na matéria como uma ideia “surrealista”...
5.Ora na pretérita semana foi divulgado – mas rapidamente apagado da comunicação social – um relatório de Bruxelas em que Portugal era apontado como o País da U.E. com maiores atrasos de pagamento entre agentes económicos...
6.Tal situação era explicada sobretudo pelos atrasos de pagamento do Estado – o Estado Central, o Regional e o Autárquico, com todas as suas adjacências empresariais (os hospitais em grande destaque, ao certo)...
7.Quem acompanhe regularmente a actividade económica e conhece os problemas com que as empresas se defrontam, percebe bem as tremendas dificuldades que estes absurdos atrasos de pagamento causam à sua gestão financeira...
8.Este problema tem vindo a agravar-se com a dificílima conjuntura creditícia que se está vivendo, a qual tem sido ampliada pela conhecida dificuldade dos Bancos em obter “funding” externo...
9.Com volumes enormes a receber dos clientes – Estado à cabeça – e sem possibilidade de acesso a crédito ou só o conseguindo a taxas de juro quase proibitivas, as empresas, duma forma geral, vêem-se em extremas dificuldades para cumprir os seus compromissos financeiros...
10.Está a criar-se assim o conhecido fenómeno endémico da “bola de neve” na acumulação de atrasos de pagamento...porque não recebo e não tenho crédito bancário, não pago ou atraso o pagamento...
11.Atrevo-me pois a sugerir que se substituam as 50 medidas por uma só, esta sim verdadeiramente revolucionária: o Estado (os vários Estados) anuncia que vai emitir dívida para pagar, no prazo máximo de 90 a 120 dias, todas as dívidas às empresas...
12.Que grande agenda para o crescimento, com incalculáveis efeitos benéficos sobre a actividade e o emprego...

domingo, 19 de dezembro de 2010

A primeira de Cavaco

Teve lugar na sexta-feira passada a primeira entrevista-debate de Cavaco, no caso com Fernando Nobre.
Contra um ardoroso e nobre candidato, todavia aqui e ali a cair nas margens do alarmismo, quando, por exemplo, falou de implosão social, Cavaco Silva não se desviou do seu perfil de rigor e de seriedade.
Explicou as funções e as suas limitações; e mostrou como se moveu e agiu e os objectivos que conseguiu no quadro constitucional vigente.
E se considerou que o Orçamento não era o desejável, nem traria a cura para os males do país, também deu a entender que sem ele o país entraria em rota mortal. Foi a medicina imediata possível, que desse tempo à administração de remédio mais consistente e duradouro.
Quanto às propaladas alterações à Lei do Trabalho, Cavaco considerou que não seria por medidas desse tipo que passava o aumento do dinamismo empresarial e a recuperação da economia. De facto, outros factores, como o investimento em inovação, o investimento tecnológico ou o investimento em organização são mais decisivos para a mudança do que alterações às leis laborais.
De facto, nos custos laborais, nunca poderemos competir com a China, ou a Índia, ou os países de leste. Mas, com os custos laborais que temos, mas com outra organização, com outra tecnologia e apostando na inovação, podemos competir com os países em que a mão-de-obra é significativamente mais cara.
Cavaco Silva sabe o que quer para o país. Afirma as suas ideias. Elas valem por si. Por isso, não precisa de atacar as ideias dos outros.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A rotina dos números...

As más estatísticas já, há muito, que fazem parte da nossa rotina. Já pouco ou nada reagimos, como se fosse uma fatalidade com a qual temos que viver. Parece até que temos já uma certa dificuldade em pensar que as estatísticas, sendo números, retratam a vida real de pessoas. A notícia passou quase despercebida. Não trabalham e não estudam. São 314 mil jovens. Uma realidade de vida esmagadora.
São muito jovens desaproveitados, a ganharem maus hábitos, a cargo das famílias, impedidos de construir uma vida normal e sem possibilidade de fazer projectos, muitos deles desorientados e desesperançados. Os que têm qualificações vão-se embora, os outros não têm grande futuro. É uma geração que se está a perder e que vai comprometer o futuro do País, mas é também uma pesada responsabilidade que recai sobre as gerações mais velhas incapazes de travar este rumo. O futuro de um país está nos jovens, porque são novos, têm a força própria da juventude. São criativos e inovadores. São empreendedores. E bem que precisamos de inovação para nos modernizarmos e sermos capazes de competir no mercado global.
Se pensarmos no esforço de investimento colocado na sua educação e formação, compreendemos as elevadas perdas que representa a incapacidade de o transformar em trabalho e geração de riqueza. Um custo gigantesco que vai muito além de uma mera conta aritmética, a que teremos que somar o custo da desilusão e frustração dos jovens.
O que é que temos feito para acabar com esta verdadeira sangria? Fosse uma situação conjuntural, facilmente reversível, e não teríamos que nos preocupar. Mas, para mal de todos, e em particular dos jovens, não é assim…

“Bom dia, tristeza”

Envelhecer é um privilégio, sobretudo se for acompanhado de um razoável estado de saúde. A perceção das alterações é mais ou menos evidente; umas vezes ocorrem abruptamente, outras insidiosamente dando tempo a que nos adaptemos sem angústia ou dor. A par das alterações fisiológicas, também a forma de ver o mundo e lidar com os acontecimentos sofrem modificações. São muito importantes, mas para darmos conta da sua existência é preciso que o tempo escorra demoradamente através da ampulheta da vida.
A inteligência emocional e as capacidades cognitivas modificam-se, de uma forma particular, à entrada do sexto decénio da existência, propiciando vantagens, quer no campo profissional, quer nas relações pessoais. Há quem afirme que a evolução otimizou o nosso sistema nervoso para intensificar os processos de relações interpessoais e de compaixão à medida que envelhecemos. Não sei se a evolução tem algum interesse em investir no estado de exceção que é o envelhecimento. Dou de barato esta observação e regresso, imediatamente, à questão inicial, porque é que a partir de certa idade os mais velhos são capazes de demonstrar capacidades interessantes e muito diferentes dos mais novos ante as mesmas situações? Os mais velhos conseguem ver ou extrair aspetos positivos de acontecimentos stressantes e dramáticos e simpatizam com os mais infortunados. Esta forma de reinterpretar cenas negativas em formas positivas é fruto de um mecanismo desencadeado pela experiência da vida e pelas lições aprendidas, dando algum significado à velha expressão de que “o diabo sabe muito, não por ser diabo, mas por ser velho”. 
Estas observações, simples, têm sido objeto de estudos muito interessantes, através dos quais grupos de pessoas pertencentes a diferentes grupos etários, vinte, quarenta e sessenta anos foram sujeitos às mesmas agressões e experiências. O comportamento de supressão, denotado pelos mais novos, não é muito saudável para controlar as emoções; os adultos mais velhos sabem resolver as situações extraindo tudo o que possa melhorar a qualidade de vida, embora, e aqui realço um aspeto importante, possam sentir mais tristeza, tristeza essa que leva a uma maior intimidade, intensificando as relações interpessoais. Poderão pensar, então, se ficam mais tristes correm mais risco de depressão! Não forçosamente, porque a tristeza constitui uma emoção muito útil na fase tardia da vida. Neste período, como todos sabem, os infortúnios têm tendência para se avolumarem devido à ordem natural das coisas, e, nestes casos, a tristeza permite compreender, dar e receber conforto, ajudando a criar uma atmosfera de intimidade nas relações interpessoais, indispensáveis para aguentar a última etapa.
É certo que a experiência acumulada é um fator importante, mas não chega para explicar todos os fenómenos. Afinal, também há uma base neurológica, o cérebro pré-frontal, responsável pelas “funções executivas”, memória, planeamento e controlador dos impulsos, diminui com a idade, levando-nos a ver e a sentir o mundo de uma forma diferente, mas bastante útil para conseguirmos adaptar às novas situações que o tempo inexoravelmente se encarrega de construir e de nos presentear. Há vantagens? Penso ter explicado que sim, ver algo de positivo em situações negativas, não as rejeitar ou fugir, como acontece em idades mais jovens, e não considerar a tristeza como algo negativo ou patológico, mas como uma emoção saudável para compreender e resolver os inúmeros problemas que as vidas longas propiciam, são uma forma equilibrada que a “evolução” terá desenvolvido para nos ajudar. No fundo, estes fenómenos materializam-se numa maior solidariedade, intimidade, compaixão, reforço das relações interpessoais, contribuindo para uma vida melhor, inclusive, dos mais novos.
Quando acabei de ler o estudo, pensei: - É capaz de ser mesmo verdade, porque começo a reagir desta maneira e, não tarda, vou entrar neste grupo etário...

Bom dia, tristeza 

Que tarde, tristeza 


Você veio hoje me ver 


Já estava ficando 


Até meio triste 

De estar tanto tempo 


Longe de você




Se chegue, tristeza


Se sente comigo


Aqui, nesta mesa de bar


Beba do meu copo


Me dê o seu ombro

Que é para eu chorar


Chorar de tristeza


Tristeza de amar
(Vinicius de Morais)

Sócrates não chegou a tempo...

Sócrates não foi a tempo de assinar a lista de Manuel Alegre entregue no Tribunal Constitucional, diz o Expresso de hoje.
Haverá várias explicações:
a) perdeu o autocarro
b) no momento, viu que não tinha trazido a caneta
c) achou que apoiar Manuel Alegre não era importante
d) pensou que a cerimónia não metia televisão
e) resolveu não gastar tinta, que a época está má.
f) preferiu meditar e descansar no Pulo do Lobo.

Pedrada

Não tenho qualquer problema em acordar cedo. O que me preocupa é dormir pouco com receio de, ao longo do dia, ficar curto de ideias. Ultimamente, tenho-me levantado não com as galinhas, mas antes de o galo começar a cantar.
O facto de chegar algum tempo antes da hora da responsabilidade permite-me ler um pouco, duas a três páginas de um bom livro, que me sabe a mel e, também, ver as pessoas a desembrulharem-se do casulo da noite, alguns com dificuldade visível, basta olhar para as suas faces, fácies da madrugada, inexpressivas, olhos embaciados, pensamentos opiáceos, marcha um pouco atáxica; deixa-me testemunhar a agonia do silêncio noturno e reparar em alguns efeitos dos filhos da noite. Foi o que aconteceu na manhã do dia das eleições para a Ordem dos Médicos. Atendendo às minhas responsabilidades tive de estar presente. Tudo em conformidade para mais uma manifestação cívica. As urnas vazias foram prontamente fechadas, deliciando-me com o crepitar e a liquefação do lacre a pingar sobre os respetivos atavios e a chancela a mergulhar no líquido vermelho, criando o selo da inviolabilidade, algo a fazer recordar histórias do antigamente, quando o lacre era usado tanto em documentos oficiais como em cartas de amor.
Antes de ter subido a escadaria, verifiquei que a paragem do autocarro em frente tinha o vidro lateral partido. No chão milhares de pedaços de vidro reluziam sob o efeito da luz do novo dia. Aproximei-me do montículo e, no meio, uma pedra era testemunha do ato selvagem. Ao lado, um pequeno ramo de uma planta com algumas folhas a coroá-lo, mais parecia uma flor lançada sobre uma campa. Dois momentos e dois significados na mesma madrugada.
O ato de vandalismo, um entre muitos que a cidade vem registando nos últimos tempos, constitui uma atitude lamentável de alguém incapaz de respeitar as regras de convívio social e o património coletivo. O que terá passado pela cabeça do energúmeno? Estaria sóbrio? Estaria bêbado? Fosse qual fosse o seu estado mental, ainda deveria ter alguma perceção do erro que estaria a cometer. É impossível não ter tido essa sensação. Às tantas não terá sido a primeira vez. Será que consegue aperceber-se do seu papel na sociedade? Será que tem emoções de amor, de caridade, de paixão, de ternura e não só de violência? Gostava de saber. Também gostava de saber como se comporta em caso de dor, de isolamento e de amor, entre outros.
Depois de ter dado início ao ato eleitoral, fui trabalhar todo o dia, sem conseguir esquecer os dois momentos que contrastavam em absoluto. Manifestação cívica de vários cidadãos que têm como objetivo dar o seu melhor para o desenvolvimento da sociedade a par da destruição selvática e gratuita de um representante de outra forma de ver e participar na sociedade. Ambos de origem humana. Sempre foi assim, poderão argumentar, talvez, mas não deixo de me questionar sobre o porquê de continuarmos a assistir a esta dicotomia.
Ao fim do dia, pelas vinte horas, e depois de um rápido cantar, “parabéns a você”, à neta mais nova, estava no meu posto de responsabilidade para o encerramento do ato. Tinha chegado o momento de colocar nas urnas os votos por correspondência. Tantos, meu Deus! Não me recordo a que horas foram todos colocados nas urnas. Finda esta tarefa, procedeu-se à contagem e depois à divulgação dos resultados. Meia dúzia de palavras finais para os vencedores e ala que se faz tarde, já passava da 1:30. Ao descer as escadas, cansado, calculei as horas que iria dormir, poucas. As noites curtas aborrecem-me, porque encurtam as ideias durante o dia. Noite fria, noite a despovoar-se, noite a convidar os amantes das pedradas, ainda olhei para o lado e reparei que o lugar do vidro estilhaçado já estava limpo, alguém terá cumprido com a sua missão, mas nada impede que, de manhã, noutro local, uma pedra seja novamente testemunha de um energúmeno, que se entreteve a desfazer o trabalho de outros.
O que sentirão os vândalos perante a destruição, a dor, o sofrimento e o amor?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Proporções e desproporções...

"Emirates Palace" em Abu Dhabi

Com 13 metros de altura, decorada com arcos de prata, 181 peças em diamantes, pérolas, safiras, esmeraldas e outras pedras preciosas, pela módica quantia de 8 milhões de euros. Não fiquei impressionada...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Então, ninguém nos compreende?!!

1.Na edição de ontem do Financial Times, com destaque de 1ª página (amigo Peter Wise...), o PM português era citado com garantindo que Portugal está a fazer tudo o que lhe compete no plano da consolidação orçamental e que até constitui um exemplo na adopção de reformas estruturais dirigidas à sustentabilidade das finanças públicas.
2.Escapou-lhe é certo a inspirada mensagem de que nos encontramos “na linha da frente da consolidação orçamental”, utilizada noutra declaração de ontem, esta voltada para o “mercado interno”...
3.Surpreendentemente, no leilão de dívida pública hoje realizado, último do corrente ano e no prazo mais curto – Bilhetes do Tesouro a 90 dias – a taxa de juro impressiona pela forte subida, quase duplicando em relação ao último leilão deste mesmo tipo de dívida efectuado em 3 de Novembro: nessa data a taxa de juro média foi de 1,818%, hoje atingiu 3,403%...
4.Ao mesmo tempo, a taxa de juro das obrigações do Tesouro a 10 anos está em subida há vários dias situando-se hoje em torno de 6,5% depois de na pretérita semana ter chegado a níveis inferiores a 6% na sequência de compras significativas pelo BCE - o que significa que basta o BCE afastar-se do mercado para que esta taxa de juro volte a subir...
5.Justifica-se assim perguntar: será que ninguém nos compreende nem acredita nas vigorosas promessas de consolidação orçamental que os dirigentes nacionais não se cansam de anunciar aos 4 ventos? Só o BCE nos compreende e acarinha os nossos esforços?
6.O que mais precisaremos de fazer para que os investidores/mercados acreditem finalmente em nós? Será mesmo necessária a ajuda de António Borges?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Se o optimismo fosse um bem transaccionável e exportável...

1.Terá sido divulgado hoje um estudo de economistas do FMI segundo o qual Portugal será um dos países/economias desenvolvidos que menor esforço de ajustamento orçamental terá de efectuar até 2020...caso consiga cumprir os objectivos de redução do défice até 2013!
2. O que o FMI diz, pois, é que se for feito o ajustamento orçamental até 2013, colocando o défice abaixo de 3% do PIB, não se tornará necessário esforço adicional significativo, sendo certo que outros países desenvolvidos carecerão de novos ajustes...
3. Mas nós bem sabemos que o mais difícil - tremendamente difícil, mesmo - será realizar o ajustamento orçamental até 2013 e que, caso esse pressuposto não possa ser cumprido, lá teremos de fazer ajustes adicionais tal como outros...
4.Em reacção a este estudo o PM, no seu estilo inconfundível – de superavitário optimismo – declarou, segundo reza a comunicação social on-line, que Portugal se encontra “na linha da frente da consolidação orçamental”.
5.Infelizmente, o optimismo (sobretudo o de tipo pacóvio) não é um bem transaccionável internacionalmente, não pode ser exportado – e parece que no mercado doméstico também é cada menos vendável, a procura tem vindo a diminuir assustadoramente - pois se fosse exportável os nossos desequilíbrios económicos teriam solução fácil...
6.Ao ler esta declaração, ilustrativa de um extraordinário grau de levitação política, ocorreu-me um velho ditado dos meus tempos de criança: “presunção e água benta, cada um toma a que quer”...

“DÃO-SE ABRAÇOS”

Num destes fins-de-semana fomos de visita ao Alentejo, que o gostamos de ver, assim, numa imensidão de verde. A manhã, muito fria, foi dedicada a revisitar Évora, cidade onde sempre nos sentimos bem e onde há sempre algo que surpreende por entre as vetustas vielas. À saída do parqueamento estava montada uma tenda de Natal que apelava ao apoio a uma instituição de jovens desprotegidos. Nada de mais atendendo à época propícia aos apelos à solidariedade. A não ser o frenesim de uma data de miúdas e miúdos entusiasmados com a iniciativa, acompanhados de pais e professores. Entrámos na tenda, e eis que se me atira literalmente para o colo um dos miúdos que de sorriso aberto me diz “Toma lá um abraço! É de graça!”. E vai de se unir num abraço muito apertado. Só então nos apercebemos que esse era o produto que ali mais se distribuía: abraços, apertados e de borla. Outros miúdos, cá fora, paravam o trânsito de peões e de alguns automobilistas numa enorme e alegre azáfama de abraços, exibindo cartazes onde se lia, letras gordas, “DÃO-SE ABRAÇOS”.

Aqueles miúdos aprenderam que Natal não é só comprar, é também e sobretudo partilhar o que temos de mais precioso e que muitas vezes nada custa. Alguns dos que receberam o calor do abraço tê-lo-ão sentido também.

Por aqui, neste Natal, a todos os que nos visitam, comentam e animam este espaço, um afectuoso abraço.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Bom Estado de Cavaco

O Estado de Cavaco aparece muito bem definido no seu Manifesto Eleitoral. Concorde-se ou não com o conteúdo, a definição está lá. E ainda bem que o Candidato não se eximiu a explicitar o que pensa sobre as funções do Estado. Para os portugueses saberem e os opositores não delirarem.
Para Cavaco, e além das três clássicas funções soberanas, defesa, segurança pública e justiça, compete desde logo ao Estado uma intervenção eficaz na redistribuição do rendimento, na atenuação das disparidades regionais e no desenvolvimento de políticas que evitem o despovoamento de largas parcelas do território nacional. Por uma questão de coesão e de justiça.
Na Economia, Cavaco rejeita a questão ideológica e a dicotomia Estado versus Mercado, como também rejeita atribuir ao mercado, enquanto tal, as responsabilidades pelas falhas e distorções verificadas. A culpa está na ineficiência dos sistemas de regulação e na acção dolosa de muitos operadores. Por isso, Cavaco atribui ao Estado uma função de regulação forte, com uma fiscalização e supervisão reforçada e eficaz.
Para Cavaco, o Estado tem ainda uma função essencial na preservação dos bens colectivos: ambiente, ordenamento do território, salvaguarda do património histórico e cultural.
No que respeita à Saúde, Cavaco nem compreende que o debate se coloque na existência do Serviço Nacional de Saúde, para si algo indiscutível. O que interessa discutir é as formas que o SNS pode tomar para ser sustentável e garantir o acesso de todos os portugueses.
Considerando também indiscutível o direito de protecção no desemprego ou na velhice, também o que, para Cavaco, interessa discutir são os mecanismos que o podem sustentar.
No Manifesto Cavaco explicita ainda o seu pensamento dobre o papel do Estado no ensino, na protecção à família, nas autonomias, no poder autárquico.
Os candidatos opositores a Cavaco actuam pela negativa: não confrontam Cavaco com o que ele diz e afirma, e criticam-no por aquilo que ele nunca afirmou e por intenções que nunca teve. O propalado objectivo que lhe atribuem de liquidar o Estado Social é um mero exemplo. Nesse tipo de argumentação, vão por mau caminho. E, por mau caminho, nunca chegarão longe.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sem título...

Não é um problema que se resolva com restos de restaurantes, essas são imagens que me chocaram, o problema da pobreza resolve-se resolvendo os problemas estruturais do país e esse é um problema que não é susceptível de poder ser aproveitado por um Presidente da República para fazer a sua campanha eleitoral”, acusou.
Pois é, mas enquanto os problemas estruturais não se resolvem, e tardam em ser resolvidos, a privação de bens essenciais está a aumentar. O Estado Social está, bem se vê, em crise. Não cumpre a sua função ao faltar quando é mais necessário a quem mais precisa. Há muitos portugueses sem dinheiro para satisfazerem necessidades básicas como é a alimentação. Deixamo-los com carências alimentares, enquanto continuamos à procura de uma solução estrutural? O problema destas pessoas é não terem com que se alimentar. Quem tem uma real possibilidade de ajudar não pode encolher os ombros e fingir que não vê, que não é nada consigo. Os "restos de restaurantes" podem fazer muita diferença a muitos. O momento é de emergência e urgência...