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domingo, 15 de novembro de 2009

Corporativismo geracional

Segundo o Público, a Geração Social-Democrata de 70, um grupo de três dezenas de militantes do PSD entre os 30 e os 40 anos, reunida em Fátima, apresentou-se à Nação. Tem como lema a necessidade de fazer um "corte geracional com os rostos e as soluções já testadas do passado" e decidiu apoiar Pedro Passos Coelho.
Já um ou dois anos antes das últimas Eleições Presidenciais, um outro Grupo de uma outra geração sustentava a candidatura de Santana Lopes também na base da necessidade de um “corte geracional”.
Acontece que alguns, talvez muitos, dos rostos destas duas gerações já estão por demais gastos e conhecidos. Sempre militaram na política, sempre tiveram os mesmos gestos, os mesmos tiques, as mesmas palavras, os mesmos actos. Sempre tiveram os seus grupos e grupinhos, sempre apoiaram e desapoiaram líderes, conforme as conveniências e os interesses de momento. Sem qualquer desprimor para a palavra, são velhos na política, não constituem qualquer corte, são mera continuidade na continuidade.
Porque o “corte” não se faz assim de maneira tão simplex, mudando de uma geração para outra.
Ideias novas e arrojadas não dependem das gerações: há velhos com ideias muito novas e força para as concretizar e novos que já nasceram velhos.
E não vejo como um candidato, seja ele qual for, possa vislumbrar qualquer valor acrescentado em ser apoiado por uma geração. Isso só lhe retira valor.
A não ser que o corporativismo geracional já tivesse chegado à política e o candidato não o seja para todas as idades, mas apenas para servir a sua geração.

Divagações que a leitura estimula

Não é de hoje. Apesar de a teoria da separação de poderes aparecer desde o princípio do século XIX como um dogma, no final desse século já existia quem entendesse que os mecanismos de limitação interna do poder nos sistemas políticos se revelavam insuficientes para promover a igualdade relativa que a democracia pressupõe, para obstar à corrupção ou à asfixia de uma força política sobre todas as outras de modo a perpetuar o seu domínio.
As respostas encontradas pelos cientistas políticos no vasto doutrinário impresso no final do século passado, acentuam, todas quase sem excepção, a essencialidade de um controlo externo, protagonizado pela sociedade civil. No final do século passado variaram os modelos propostos - o neocorporativismo de Hirst, a democracia participativa de Bobbio, a democracia associativa de Cohen ou a democracia deliberativa de Habermas. Mas todos estes e outros grandes pensadores associam o combate ao abuso do poder, o reforço da democracia e a afirmação do Estado de Direito, à necessidade de uma maior participação dos cidadãos, não exclusivamente mediada pelos partidos políticos e pelos meios de comunicação social que são hoje, inequivocamente, centros de um poder que carece tanto de limitação e de controlo como o poder político tradicional.
Olhando para o que se passa actualmente, em especial no País e na Europa, e revisitando algumas das obras da ciência política do final do século XX, resulta mais clara e imperiosa a necessidade de um sistema político em que a sociedade civil seja forte e participativa, que contrabalance o asfixiante avanço do Estado e que recupere e reafirme alguns valores e princípios, designadamente, alguns direitos fundamentais dos indivíduos. Uma nova república, portanto.

As exibições serenas!...

Carlos Queirós está a ficar igual ao Artur Jorge dos seus últimos tempos de treinador.
No seu tempo de seleccionador, a selecção jogava mal e acabou por ser eliminada, mas Artur Jorge dizia que fazia coisas bonitas...
Hoje, como sempre nestes últimos tempos, a selecção nacional jogou mal, mas Queirós diz que fez uma exibição serena...
Com tanta serenidade, e agora na Bósnia, não auguro nada de bom!...

sábado, 14 de novembro de 2009

O "procedimento concursal"

Em tempos que já lá vão, as Repartições do Estado anunciavam a abertura de concurso para a admissão de funcionários e, com cunha ou sem cunha, que tráfico de influências na altura não havia, o pessoal lá era admitido na hora.
Mas isso era antes do Simplex. Porque, agora, um concurso fia mais fino. Como ontem casualmente pude ver nas páginas de um semanário, a respeito de admissão de um técnico superior.
Aliás, deixou mesmo de haver concurso de admissão. E, noblesse oblige, passou a haver, respirem fundo, procedimento concursal comum para constituição de relação jurídica de emprego público… por tempo indeterminado, tendo em vista o preenchimento de posto de trabalho de técnico superior na área X de técnico superior!…
E, no anúncio, mencionam-se regulamentos internos e despachos e anexos que descrevem as funções, e indicam-se desenvolvimentos aplicacionais e suporte a utilizadores, que procedimentos concursais não são, obviamente, matéria simples...
Claro que a página de um jornal que antes publicitava pelo menos uma dúzia de concursos passou a comportar apenas quatro, e porventura já com muito boa vontade do designer gráfico. Os "amigos Joaquins" claro que agradecem!...
Obviamente que o Organismo que admite funcionários mediante procedimento concursal comum para constituição de relação jurídica de emprego público por tempo indeterminado, tendo em vista o preenchimento de posto de trabalho de técnico superior na área tributária, económica, jurídica ou fiscal de técnico superior, para o qual o candidato teve que dominar os respectivos desenvolvimentos aplicacionais, é um Organismo que vive no exclusivo sistema da mais superior estratosfera burocrática.
Que subverte e assimila, ou então torna maluco, quem quer que se aproxime.
E para quem os cidadãos, ignorantes dos exigentes procedimentos de abordagem à repartição, que seguramente existem, são um estorvo que lhes aparece ao Balcão.
Nota: O anúncio do procedimento concursal é assinado por um Sub-Director Geral, Drª...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Petróleo à vista?

Ouvi há pouco Joe Berardo na Sic Notícias a falar da descoberta de petróleo em Portugal. Está convencido que temos tantas ou mais reservas que a Dinamarca, que as possibilidades são imensas.
Joe Berardo quer ajudar Portugal a ser "rico"e por isso mesmo decidiu investir no capital da empresa canadiana Mohave Oil & Gas que tem a concessão de quatro blocos de petróleo e gás natural em Portugal. As atenções, segundo notícias vindas a público, estão apontadas para Aljubarrota e Torres Vedras.
Joe Berardo deixou a convicção de que em breve vamos ter uma grande surpresa. No meio da grande desorientação em que este País se encontra, haja gente com esperança em Portugal, interessada em investir e correr riscos.
Pela minha parte não vou ficar a sonhar com o petróleo, uma espécie de euromilhões nacional, mas não deixo de pensar o que seria deste País se de repente ficasse rico?

Levar a carta a Garcia...

Há um mês atrás: duas pessoa das minhas relações queixaram-se de roubo de cheques enviados pelo correio
Há umas semanas atrás: ao pretender meter uma carta na Estação dos Correios de Telheiras, verifiquei que as entradas das caixas estavam tapadas com fita adesiva.
Há três dias, em Almada: esperava por uma pessoa, por acaso junto ao Tribunal, quando passam três rapazes adolescentes. Nada de especial. Uns segundos depois, um sujeito que vinha na rua pára e diz-me: Viu aqueles ali? São dos três tipos perigosíssimos, aqui em Almada: roubos e mais roubos, dia e noite, saem do Tribunal e vão roubar outra vez. Dizem que têm menos de dezoito anos…
Ontem, ao jantar: um amigo meu contava que, parado no carro num semáforo no Rato, de repente viu um “parceiro” sentado ao lado, “convidando-o” a ir ao Multibanco mais próximo.
Hoje, nos Correios de Colares: as aberturas das caixas de correio estavam também tapadas com fita adesiva.
Entrei.
-Há dias em Telheiras, as caixas estavam tapadas e hoje aqui em Colares também. Que se passa?
-Tivemos que as tapar, que já várias vezes as estragaram para roubar a correspondência…
Bom, nesta bagunça, desdramatizemos, que é politicamente correcto!...
Mas, começando a ser difícil meter as cartas no correio, ainda alguém se vai oferecer para levar a carta a Garcia. Nessa altura, porventura tarde, iremos dramatizar...

A praxe das reuniões

Um amigo meu, que viveu a maior parte da sua vida adulta fora de Portugal e regressou há pouco tempo, está a viver a heróica fase de tentar entender a nossa lógica e os nossos modos de viver.
Há dias queixou-se de ter tido uma reunião que começou muito depois da hora marcada, se prolongou durante o jantar e continuou, diz ele que não sabe até quando, porque veio embora quando achou que não tinha mais nada para contribuir. Estava perplexo com a inutilidade de ter insistido previamente sobre as regras de eficácia de uma reunião e de, apesar disso, tudo se ter resumido a uma grande perda de tempo.
Tive então que o esclarecer que isso de tentar que uma reunião aqui no burgo seja eficaz é a prova de que ainda não está devidamente aculturado, as reuniões fazem-se precisamente para distrair de qualquer tentação de eficácia, e para desmoralizar os ingénuos que julgam que mandam alguma coisa.
Nada como uma bela reunião interminável para os homens chegarem a casa fora de horas, mal humorados e a enxotar os miúdos com a desculpa “tive uma reunião dificílima, não quero que me macem mais hoje!” enquanto as mulheres, se apanhadas na mesma armadilha colectiva, chegam esbaforidas a casa, atiram com a mala e com os sapatos altos, gritam umas desculpas para a família que está a ver televisão na sala e vão directas à cozinha onde começam a fazer o jantar a toda a velocidade, antes que a tribo rosne com fome e com os horários todos atropelados para o dia seguinte.
É por isso que é absolutamente pacífico entre as mulheres modernas que, quando forem as mulheres a mandar nas empresas, essa balbúrdia das reuniões intermináveis e inconclusivas acaba no mesmo dia, o que obrigará os cavalheiros a procurar outras formas mais subtis de não por os pés em casa enquanto o jantar não estiver na mesa e os filhos a dormir…
Eu acho que ele não levou muito a sério este meu aviso e disse que a minha explicação daria um post engraçado. Por isso aqui o publico, na esperança de que me ajudem a integrar um cidadão regressado à Pátria explicando com o que pode de certeza contar, poupando-lhe algumas contrariedades!

Taxas moderadoras: jogo do "gato e do rato" e "beggar thy neighbour"?

1. Em clara jogada de antecipação a iniciativas legislativas anunciadas pelos partidos da oposição no Parlamento, o Governo decidiu ontem abolir as taxas moderadoras para internamentos e cirurgias em ambulatório, que tinham sido criadas pelo ex-Ministro Correia de Campos.
2. Trata-se de uma atitude táctica de esvaziar a iniciativa do Parlamento, que assim fica impossibilitado de impor ao Governo uma medida que, sendo discutível, tinha não obstante sido adoptada com aparente convicção pelo Governo anterior...digo aparente convicção porque agora se percebe que não havia convicção.
3. Esta curiosa esta forma de fazer política faz-nos lembrar o velho jogo do “gato e do rato”...se é a Assembleia que tem a maioria absoluta como há dias dizia em figura de retórica um deputado do PSD salvo erro, o Governo com esta atitude parece querer mostrar que não perdeu a maioria absoluta – o que até é verdade em certo sentido pois o partido vencedor das eleições mantém maioria absoluta...no Governo.
4. Julgo que ao longo da legislatura, qualquer que seja a sua duração – por mim aponto para 50 meses, apesar das muitas previsões em contrário - vamos ser defrontados com inúmeros episódios deste tipo, próprios do tal jogo do “gato e do rato”...tenho a noção de que o Governo irá evitar até onde for possível cair em situações em que possa ser desfeiteado no Parlamento, para manter viva a ilusão de que a maioria absoluta não acabou.
5. Mas não só por isso, poderá haver uma razão política mais pesada. Com efeito, se as situações de perda de votação na Assembleia começassem a tornar-se mais ou menos frequentes, o Governo e o partido que o apoia teriam muita dificuldade em dramatizar essas situações...e no limite utiliza-las como pretexto para provocar a antecipação de eleições.
6. Se pelo contrário as situações de perda de votação forem muito pouco frequentes, o Governo, com a poderosa máquina de propaganda de que dispõe, poderá dramatiza-las até à exaustão e, invocando o velho e decantado “interesse nacional”, aproveitar uma que se mostre mais propícia para por termo à legislatura partindo em busca de uma nova maioria absoluta.
7. É claro que existe ainda um outro ângulo de análise e esse é o da razoabilidade desta táctica e da sua conformidade com o tal velho “interesse nacional”...
8. Este primeiro episódio sugere que estas jogadas de antecipação Governo-Parlamento ou Parlamento-Governo (convém não esquecer que este jogo pode ser feito nas duas direcções) não auguram nada de bom...iremos ter o princípio do “beggar thy neighbour” aplicado em força à política portuguesa nesta prometedora legislatura?

A lei da paridade ou um caso do atávico paternalismo estadual sobre as mulheres

Na edição de hoje do JN, publica-se uma peça sobre a aplicação da lei da paridade nas últimas autárquicas. O título é sugestivo: "Lei da paridade furada pelas próprias mulheres".
Mais interessante do que o pormenor de saber quais os partidos que se aproximaram menos da "paridade", é a ideia prepassada pela peça jornalística de que são as mulheres que defraudam a nobre intenção do legislador. Como se faz essa leitura? Simples. Pega-se no exemplo de quatro câmaras municipais e verifica-se que nesses Executivos algumas das eleitas vereadoras suspenderam ou abdicaram do mandato. Conclusão: só se candidataram porque a lei impõe a presença nas listas de uma percentagem de mulheres.
Se esta conlusão já é de si muito significativa do que vale essa lei, o que mais me impressiona no artigo é a declaração de um sujeito, pelo que se percebe vereador eleito pelo PS em Famalicão, que se insurge contra a renúncia ao mandato de duas eleitas para o mesmo Executivo, repudiando a atitude destas e bradando que "a lei da paridade não pode ser tratada assim"!
Pois eu penso que é exactamente em nome do valor em que pretensamente assentou o gesto paternalista do legislador - a dignidade da mulher -, que aquelas vereadoras têm o indeclinável direito de não ser tratadas assim como as trata aquele vereador, intérprete de uma corrente do politicamente correcto em matéria de igualdade de género.
Desrespeito pela dignidade e pela igualdade é não reconhecer às mulheres a mesma liberdade de renunciar ao mandato - por razões que elas invocarão e pelas quais são responsáveis -, liberdade que a ninguém passa pela cabeça não reconhecer aos homens.
São estes episódios que põem a nu o carácter atávico do paternalismo estadual que longe de igualar, diminui.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O tráfico de influências

A serem verdadeiras as informações vindas a público, o Processo Face Oculta demonstra mais uma vez o triunfo do tráfico de influências e o desprezo pela honra, ética ou mesmo legalidade. Já se sabia, mas ficou mais explícito.
Mas, tão grave, ou mesmo pior, o processo Face Oculta está a dar golpes profundos no já também abalado prestígio nas mais altas autoridades que administram a Justiça, Procurador-Geral e Presidente do Supremo Tribunal.
Diariamente têm saído notícias sobre o desfecho das escutas em que o 1º Ministro foi parte indirecta e até sobre a entidade que dará o veredicto final.
E diariamente se assiste a jogo de empurra entre o Procurador-Geral e o Presidente do Supremo sobre a importância substancial ou a validade das mesmas. Ontem, foi o Procurador-Geral a referir que a decisão é do Presidente do Supremo. Hoje, é este que vem dizer que a informação lhe chega aos bochechos. E que não compreende como é que o Ministério Público não lha envia de uma só vez.
Entretanto, media e cidadãos formaram a sua opinião. Podem vir todos os Despachos do mundo, do Procurador ou do Supremo. Mas a opinião está formada: positiva ou negativa, a sentença que vier, validando ou não as escutas, ilibando ou não o 1º Ministro, será vista não como verdade em que se acredita, mas apenas como tráfico de influências.

Outra vez o fim do mundo, como sempre

Desde o tempo da Arca de Noé que vivemos o medo de que o mundo acabe, sucedendo-se os vaticínios mais ou menos científicos, as superstições ou, simplesmente, os palpites sobre as datas em que tal acontecerá. É sem dúvida matéria rica para a produção de filmes cheios de emoção, em que, tal como nos episódios bíblicos de Sodoma e Gomorra ou do Dilúvio, ou o “a 2000 chegarás e daí não passarás” sempre se salvarão alguns dos bons para garantir que o mundo afinal vai renascer, expurgado de todos os espíritos maléficos que teriam conduzido ao seu aniquilamento.
A última moda é o anúncio que terá vindo dos Maias, que aponta, após cálculos muito elaborados, para o fim do mundo, tal como o conhecemos, lá para 2012. Mas, a acreditar na explicação hoje publicada no jornal i, não será uma explosão cósmica, nem uma guerra atómica e fulminante, nem uma praga incontrolável, se calhar porque os Maias também já tinham previsto que estas ameaças, por esta altura, já não assustariam ninguém. E não assustariam porque precisamente já estaríamos tão evoluídos que seríamos capazes de arrefecer as temperaturas no espaço, ou combater o aquecimento global, que vai dar no mesmo, assim como teríamos a esperteza de fazer tantas armas nucleares que ninguém pudesse sair a ganhar com a guerra, ou ainda que inventássemos um sistema infalível de detecção precoce de todas as ameaças planetárias bacterianas ou virais, gerando uma cultura de medo controlado que tornaria fácil a execução de políticas globais de vacinação ou de isolamento dos contaminados.
Não, os Maias sabiam isso tudo e o que previram foi que o mundo, em 2012, deixaria de ser tal como o conhecemos porque as pessoas se vão tornar mais autónomas e adoptar novos valores ou seja, é uma versão muito mais simpática das anteriores porque haverá uma “conversão” de cada um dos indivíduos sem implicar que se destruam os recalcitrantes.
Eu acho que os Maias acertaram e que o mundo já começou a acabar, um bocadinho todos os dias, como acontece desde que o mundo é mundo, basta pegar num livrinho de História e ler ao calhas, uma época qualquer, para perceber que o mundo do século anterior, ou mesmo das décadas mais distantes, já tinha acabado tal e qual o tinham vivido os habitantes da época. Não acabou já o mundo que os nossos avós conheceram, ou mesmo o da nossa infância? Quantas coisas desistimos de entender no mundo que os nossos filhos já vivem em pleno?
Também acredito que se tem evoluído para melhor, na perspectiva da vida humana, embora o mundo tenha sempre que conter o bem e o mal, a esperança e o medo, a fé e a dúvida, o amor e o ódio, porque isso é da natureza.
É a procura dos equilíbrios permanentes que admite o progresso. Não é, a meu ver,” a autonomia de cada ser humano que iluminará o mundo”, de que fala o representante do calendário maia, mas será precisamente um reforço dos laços de interdependência e o retrocesso do egoísmo, pois o mundo não é feito para criaturas que não precisam umas das outras, antes obriga, para ser fruído por todos enquanto espaço e recursos, a um engenho permanente na luta pela sobrevivência, que terá tanto mais sucesso quanto for colectivo e organizado.
Aguardemos, pois, com muita ilusão, o admirável mundo que nasce todos os dias e que se revelerá, no seu esplendor, lá para 2012, ou 2020, ou num dia qualquer, porque isso depende da nossa capacidade de reconhecer esses sinais em vez de ficarmos apenas a tentar reter o que já passou.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Reviver tradições...

Hoje é dia de S. Martinho! Reviver as tradições, em particular, na cidade não é fácil. Mas vale a pena fazer o esforço, até porque, no fim, não custa nada. Depois fica a satisfação e uma colecção de recordações do S. Martinho. É bom lembrar as "raízes", é muito bom o convívio, acompanhado do sabor da água-pé e das castanhas.
Diz a lenda que Martinho nasceu em 316 na Sabária, actual Hungria. O seu pai era um soldado romano do exército e deu-lhe uma educação cristã. O seu nome foi-lhe dado em homenagem a Marte, o Deus da Guerra e protector dos soldados. Aos 15 anos vai para Pavia, em Itália, e alista-se no exército Romano, tornando-se um general rico e poderoso. Mais tarde decidiu dedicar-se à vida sacerdotal. Faleceu a 8 de Novembro de 397 em Tours.
Certo dia de Novembro, muito frio e chuvoso, estando em França ao serviço do Imperador, ia Martinho no seu cavalo a caminho da cidade de Amiens quando, de repente, começou uma terrível tempestade. A certa altura surgiu à beira da estrada um pobre homem, quase nu, a pedir esmola. Martinho, sem hesitar, pegou na espada e cortou a sua capa de soldado ao meio, dando uma das metades ao mendigo para o proteger do frio. Nesse mesmo momento a chuva parou e o Sol começou a brilhar, ficando, inexplicavelmente, um tempo quase de Verão.
Daí que esperemos, todos os anos, o Verão de S. Martinho. E a verdade é que S. Martinho raramente nos decepciona. Em sua homenagem, comemoramos o dia 11 Novembro com as primeiras castanhas do ano, acompanhadas de vinho novo. É o Magusto, que faz parte das tradições do nosso país.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ambição

Ambiciono por um país em que pelo menos 3/4 da sua população tenha possibilidade de transaccionar através deste site.

Tobin or not Tobin - that is the question...

1. Fez moda entre nós, há ½ dúzia de anos, lançada pelos porta-vozes do BE, com apoio em alguns sectores socialistas e de alguma comunicação social mais moderna, a ideia de tributar autonomamente as transacções financeiras, a começar pelo mercado de capitais (acções) mas abrangendo outras que fossem consideradas especulativas.
2. Tanto quanto me recordo, essa ideia nunca foi definida de uma forma precisa, nunca se percebeu muito bem (i) qual seria a incidência desse imposto, (ii) como se determinaria a sua matéria colectável, (iii) como seria liquidado e depois cobrado. Mas que foi muito discutida isso foi, até porque foi apresentada sob o título sugestivo de “taxa Tobin”.
3. Essa designação de “taxa Tobin” tem origem numa proposta apresentada no início dos anos 70 por James Tobin, famoso economista americano, prémio Nobel em 1981, keynesiano convicto, que sugeriu a aplicação de um imposto sobre as transacções em moeda estrangeira de natureza especulativa (seriam exceptuadas as transacções justificadas por operações comerciais/serviços ou de capitais/investimento), como forma de travar a incerteza nos mercados de câmbios que Tobin considerava prejudiciais da actividade económica.
4. Apesar da enorme capacidade teórica do seu autor e da turbulência que por essa época atravessava os mercados de câmbios com o fim da convertibilidade-ouro do USD e dos câmbios fixos, a “taxa Tobin” nunca foi adoptada.
5. Curiosamente, a ideia de uma “taxa Tobin” (ajustada) foi agora retomada por Gordon Brown, 1º Ministro Britânico e apresentada na cimeira deste fim-de-semana dos responsáveis pelas finanças do G20 reunidos na Escócia, sob a forma de tributação das operações financeiras de natureza especulativa realizadas por bancos.
6. A proposta de Brown seria justificada pela necessidade de obter mais contrapartidas pelos apoios que o sector financeiro recebeu do sector público (subjacente a um “contrato social” entre os bancos e a sociedade) – o produto desse imposto, segundo Brown, seria aplicado num fundo para apoiar futuras acções de reforma do sistema financeiro.
7. Brown tornou claro que a sua ideia só seria praticável se aplicada globalmente, por todos os países – pelo menos os do G20 – doutro modo assistir-se-ia a fenómenos de arbitragem entre mercados em prejuízo dos países que aplicassem o imposto.
8. A ideia de Brown soçobrou no fim-de-semana, perante a oposição clara da Administração Obama e do Governo do Canadá, apesar da simpatia que recebeu do Governo Francês.
9. E assim parece que a “taxa Tobin” vai mesmo ficar para a história das ideias que nunca chegam a conhecer a luz do dia, como “simples curiosidade da história económica” como refere a edição do Financial Times de ontem...
10. Mas ou me engano muito ou o assunto ainda vai dar que falar novamente, entre nós e provavelmente a breve prazo...ou não fossemos especialistas (também) no acolhimento de ideias requentadas...

O comércio de proximidade

Ontem fui a uma loja onde sou cliente há muitos anos e a dona da loja, que estava ao telefone, não desligou logo, como é habitual e fez-me sinal para esperar um pouco. Não pude evitar ouvir a conversa:
_ Venha, venha cá num saltinho, conversamos um bocadinho, vai ver que se anima…Traga as fotografias de que me falou para eu ver como ia bonita…
Mais um pouco e desligou.
- Coitada, disse-me ela, é minha cliente há mais de dez anos, morreu-lhe o marido de repente, está muito deprimida, mete-se em casa, os filhos já cá passaram a pedir-me para lhe dar algum ânimo.
Pouco depois entra outra senhora, muito apressada, vinha só agradecer-lhe o miminho da surpresa no dia de anos, nem ela sabia como lhe tinha feito bem aquele lanchinho improvisado na loja, uma vela em cima de um bolo pequeno, os parabéns, a ideia, enfim, foi a ideia que a emocionou.
Brinquei com a função de psicóloga que ela tinha desenvolvido na sua pequena loja de bairro, a vender roupas, e na amizade que ia tecendo com as clientes ao longo dos anos, numa relação pessoal que lhe exigia, a ela, que estivesse sempre disponível, atenta, sempre a receber com um sorriso quem lhe entra pela porta. E ela disse-me que às vezes é cansativo, as pessoas entram e ficam ali só para conversar, entram outras pessoas e elas esperam, sobretudo muitas que tiveram uma vida profissional e agora estão reformadas, gostam de ir ali ver as novas colecções, ou os restos, mas procuram sobretudo um momento de convívio cuja falta tanto sentem.
Depois fui a uma farmácia e demorei imenso porque à minha frente estava um senhor velhote a baralhar os remédios todos. O farmacêutico, dobrado sobre o balcão, explicava-lhe tudo uma e outra vez, com paciência de santo, viu as análises, ralhou com o desleixo de já ter passado tanto tempo, ai senhor António, então o senhor não controla isso? E a tensão, tome cuidado com o sal, veja lá se se alimenta como deve ser!
- Coitado – disse-me depois, à laia de desculpa pelo tempo de espera – morreu-lhe a mulher, vive sozinho, é raro o dia em que não passa por aqui para lhe orientar os remédios, ela é que sabia isso tudo e ele não atina, não estava habituado…
No talho, o Senhor Luís perguntou-me pelas minhas filhas, ah, ainda estão para fora?, felizmente o meu rapaz já está aqui a ajudar-me, a ver se encarreira, aqui também faz falta gente nova, ó João, anda cá, esta senhora já te conhece de pequeno…
O comércio de bairro, as lojas que resistem aos recibos verdes que não criam raízes nem cativam clientes, são um mundo em vias de extinção mas com eles desaparece muito mais do que a animação das ruas ou o pequeno negócio. É toda uma rede de sociabilidade, de calor humano e de tradição que se perde, substituída pelas mercadorias a granel nas hiperlojas impessoais onde os empregados olham com mal disfarçada impaciência a multidão monótona que desfila perante os seus olhos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O verbo "sucatar"...

A propósito dos processos “faces ocultas”, e falo deles no plural porque ao longo dos anos são vários os processos noticiados e mediatizados que somam e seguem com a marca identificativa da corrupção, dei comigo a prestar atenção, à hora do almoço, à conversa, em tom alto e algo exaltado, de um grupo de pessoas que estavam na mesa ao lado da minha, e que sentenciavam que vivemos num país de sucatas, que somos um bando de sucateiros e uma sucata de país. O verbo “sucatar” foi usado e abusado para classificar quem somos, esquecendo-se que com tais afirmações, elas próprias, ainda que não sendo, se auto-intitulavam acaloradamente de sucateiras.
Evidentemente que não posso concordar com a tentação de corrermos tudo e todos à "sucatada", não distinguindo que há muita gente de bem, que pauta a sua vida por comportamentos decentes, que se rege por um padrão de bons princípios e valores, que cumpre a lei e vive e trabalha longe dos corredores e das teias da corrupção.
Mas às vezes penso que a corrupção talvez não incomode ainda o suficiente, que as pessoas ainda não têm a percepção clara que a coisa está a fazer mal à nossa democracia, que atenta contra o interesse público, que prejudica o bem estar colectivo e de cada um de nós. Mas ao mesmo tempo está instalado um sentimento de descrédito no poder político e na justiça, o primeiro porque não dá ao combate e à prevenção da corrupção a atenção que exigem e a segunda porque não é consequente, um sentimento que revela um estado de indignação, é certo, mas que ao mesmo tempo não parece ser suficiente para quebrar um estado de inércia e conformismo que em nada ajudam a prevenir a coisa. Temos vindo a assistir, como é sabido, ao desenrolar de operações de investigação criminal e de processos judiciais que se arrastam por anos sem fim e se apagam da memória, sem os resultados práticos em termos de sentenças judiciais que se impõem.
Como muito bem lembra Germano Marques da Silva no artigo de opinião que hoje escreve no jornal i, intitulado “O combate à corrupção passa por todos e cada um de nós”, o combate à corrupção não é apenas uma função do legislador, das polícias e dos tribunais, é acima de tudo um dever cívico que deve interpelar cada cidadão.
No artigo, acrescenta que a corrupção “É facto de alguns, mas é culpa de muitos, de todos os que por qualquer forma a consentem, porque tolerá-la é uma forma de a incentivar ou de manter o estado de podridão. É facto típico criminal, político também, cultural, por isso, e, quando generalizado, é doença social de cuja gravidade a percepção comunitária tende a variar em razão do ambiente público e moral de cada tempo e cada espaço. (…) Como facto individual, a corrupção é crime, reprime-se com a lei penal; como facto cultural, previne-se e cura-se pela educação cívica. (…) O combate e a prevenção da corrupção compete às autoridades também, mas é sobretudo dever de todos os que querem viver numa sociedade sã, numa sociedade de iguais, numa sociedade livre, numa sociedade democrática. (…) Comecemos, pois, por fazer com que o nosso pequeno espaço seja livre de qualquer tipo de corrupção porque, se muitos o fizerem, as autoridades democráticas, as polícias, o Ministério Público e os tribunais chegam para o resto”.
A questão que se segue é a de saber porque não accionamos esse dever cívico? Porque é que não está a funcionar? O que é que verdadeiramente o entrava?

A cultura económica vigente: o nosso muro de Berlim

Previsões para Portugal da Comissão Europeia, em Novembro de 2009 :
Dívida Pública: de 64,7% do PIB em 2006, para 77,4% em 2009 e 91,1% em 2011.
Défice público: de -3,9% do PIB em 2006, para -8% em 2009 e -8,7% em 2011.
Défice da balança corrente: de -10,4% em 2006, para -10,2 em 2009, e -10,2% em 2011.
PIB: de 1,4% em 2006, para -2,9% em 2009 e 1% em 2011
Crescimento do emprego: de 0,5% em 2006, para -2,3% em 2009 e 0,1% em 2011
Taxa de desemprego: de 7,8% em 2006, para 9% em 2009 e 8,9% em 2011
Custo real de unidade de trabalho: de -1,5% em 2006, para 4,9% em 2009 e -0,6% em 2011
Despesa Pública: de 46,3% do PIB em 2006, para 51,6% em 2009, e 52% em 2011
Sempre e sempre o maior peso do Estado como o grande motor desta terrífica evolução.
Face à dimensão da catástrofe, a Comissão Europeia colocou Portugal no grupo de países que têm que iniciar o processo de consolidação orçamental já em 2010.
Todavia, e ao contrário, o nosso Governo insiste que vai apresentar um Orçamento que “ajude a economia a crescer”, o que significa mais despesa pública e vai trazer um peso acrescido do Estado, que há que pagar.
Porque mais despesa pública implica mais défice, que exige mais impostos e implica decréscimo do investimento e do consumo privado dirigidos aos bens transaccionáveis, com inerente perda de competitividade e consequente aumento do défice comercial, que aumenta o endividamento externo e os custos dos factores produtivos. E exige também mais dívida pública, que implica mais juros e mais défice, levando a um círculo vicioso interminável de acréscimos sucessivos de dívida e de impostos.
O muro de Berlim ainda aí está com toda a sua pujança. Na cabeça de muita gente e na cabeça do nosso Governo. A cultura económica vigente, que quase todos defendem, é o nosso trágico muro de Berlim. Onde a economia está acorrentada.

domingo, 8 de novembro de 2009

Uma reforma "virtuosa"...

“Votação histórica”, foi assim que Barack Obama classificou a aprovação pela Câmara dos Representantes dos Estados Unidos da sua proposta de reforma do sistema de saúde, que prevê o alargamento da cobertura médica a quase toda a população norte-americana.
Também me congratulo com a decisão, ao saber que 36 milhões de pessoas passarão a ter acesso a serviços de saúde, que o facto de os cidadãos serem pobres, de estarem desempregados e de não disporem de rendimento para pagar um seguro de saúde não mais os deixará desprotegidos, entregues à sua própria sorte.
É, com efeito, uma decisão política de grande alcance, que proporcionará uma vida melhor a muitos milhões de norte-americanos. Com esta decisão, que ainda precisa de ser confirmada no Senado, os EUA dão um passo importante no caminho do desenvolvimento humano.
Vale a pena ler o texto de Barack Obama “Porque precisamos de uma reforma da saúde”, publicado em 20 de Agosto de 2009, do qual reproduzo a parte explicativa do essencial dos problemas a resolver, que não são, alguns deles, um exclusivo do sistema de saúde norte-americano:
"(...) Há quatro maneiras principais de a reforma que propomos proporcionar mais estabilidade e segurança a todos.
Em primeiro lugar, se alguém não tiver seguro de saúde, terá a opção de uma cobertura de alta qualidade e financeiramente acessível para todo o agregado familiar, cobertura essa que continuará a ser válida mesmo se mudar de emprego ou ficar desempregada.
Em segundo lugar, a reforma irá finalmente permitir controlar e conter o aumento vertiginoso das despesas de saúde, o que representará uma verdadeira poupança para as famílias, para as empresas e para o governo. Vamos cortar centenas de milhares de milhões de dólares de desperdício e ineficácia de programas de saúde federais como o Medicare e o Medicaid e em subsídios não supervisionados às seguradoras que não fazem nada para melhorar os cuidados de saúde e fazem tudo para melhorar os seus lucros.
Em terceiro lugar, ao tornar o Medicare mais eficaz, poderemos garantir que mais dólares dos impostos irão directamente para idosos necessitados em vez de enriquecerem as seguradoras. Isso não só irá proporcionar aos idosos de hoje os benefícios que lhes foram prometidos, como irá garantir a solidez do Medicare a longo prazo, para os idosos de amanhã. E as nossas reformas irão também reduzir as comparticipações que os idosos pagam pelos medicamentos receitados.
Por último, a reforma irá proporcionar a cada pessoa certas protecções básicas ao consumo que irão, por fim, responsabilizar as companhias de seguro. Um estudo de 2007 a nível nacional mostra de facto que as companhias de seguros recusaram apólices a mais de 12 milhões de norte-americanos nos três anos anteriores porque tinham tido uma doença no passado. As seguradoras recusavam-se simplesmente a fazer seguros a pessoas ou a cobrir uma doença ou estado clínico específico - e, se o fizessem, cobravam prémios mais altos.
Vamos pôr cobro a essas práticas. A nossa reforma irá proibir as companhias de seguros de negarem cobertura com base no historial clínico. Também não poderão cancelar uma apólice em caso de doença do segurado. Não poderão anular a cobertura quando ela é mais necessária. Deixarão de poder atribuir limites arbitrários aos montantes a pagar em determinado ano ou durante a vida do segurado. E iremos também impor um limite ao montante que poderão cobrar por despesas burocráticas. Nenhum cidadão deve ficar arruinado por estar doente.
Mais importante ainda, iremos exigir que as companhias de seguros cubram exames de rotina, bem como análises e exames de despiste, como sejam mamografias e colonoscopias. Não há razão alguma para que não seja possível detectar à partida doenças como o cancro da mama ou da próstata. Faz sentido, poupa vidas e também pode poupar dinheiro. (...)"

20 anos sobre a queda do Muro de Berlim


O Muro da Vergonha caiu há 20 anos. Há 20 anos parece que foi ontem e, no entanto, já há uma geração que não se lembra da realidade que o muro simbolizava e que vivia paredes meias com uma Europa de progresso e de União.
O muro foi construído de um dia para o outro, em 1961, as pessoas acordaram de manhã e estavam separadas do outro lado da rua, das famílias, dos amigos, do seu espaço de todos os dias e não acreditavam que fosse possível. Foi, e assim ficaram 28 anos, com as vidas de uns e de outros não apenas separadas mas incomunicáveis, o peso do betão, das armas e da brutalidade de um regime a ditar as novas regras a cumprir.
Hoje, vê-se um repórter a perguntar a um cidadão de Berlim:
- Onde é que estava o muro? – e ele a apontar a linha agora invisível, apagada no chão, mas ainda bem viva na memória dos que esbarravam nela todos os dias e que agora se desdobram em testemunhos que parecem mentira aos ouvidos dos que querem acreditar que hoje isso não seria possível.
É preciso comemorar a queda do Muro de Berlim e ouvir, mil e uma vezes, as histórias da História, o fim da 2ª Guerra, os acordos políticos, a propriedade dos povos como se fossem coutadas, o terror que se impôs até ao absurdo, tão bem retratado no filme A Vida dos Outros, por exemplo, para que não se esqueça de que foi ontem, ali mesmo ao nosso lado.
Há tempos, quando falei para Londres, comemoravam a data do grande bombardeamento alemão sobre Londres, em Maio de 1940, e por toda a cidade simulavam as explosões das bombas, provocando aleatoriamente o ruído e os relâmpagos que apavoraram e mataram os londrinos de então. O efeito, relatado por uma jovem, era aterrorizador e, segundo ela, valia mais do que milhares de livros e dezenas de filmes porque os fez sentir na pele, mesmo sendo simulado, o terror do que se passou.
Li no Público de hoje que as comemorações da queda do Muro de Berlim incluem a “reconstrução" do muro em dominós gigantes, pintados por crianças, de modo a que todos possam ver, à frente dos seus olhos, o efeito tremendo de não conseguirem ver ou passar para o lado de lá. Com a vantagem de ter o simbolismo de ser algo que se pode construir mas também que será possível destruir, desde que se dê um abanão numa peça.
Este muro já caiu, há 20 anos. Mas quantos muros construímos depois desse, em betão ou em matérias invisíveis mas igualmente resistentes, igualmente brutais, simbolizando as dificuldades e os ódios que os determinam e para que ainda não encontrámos sabedoria e palavras para derrubar, antes que fosse tarde?

Horizonte vermelho


Nota-se uma ténue poeira vermelha algures no horizonte!...
Mas trata-se apenas do pôr-do-sol.
O nascer será certamente mais azul!...
Mas é tempo de alegria para os que gostam da cor. Vá lá, que também precisam!...