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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

“Três de copas” …

 Os homens do mar têm comportamentos interessantes. São mais calmos, introspetivos, possuem olhos profundos, exprimem-se em curtas falas, exceto quando os convidamos a contar histórias, os quais são exímios, quer na forma quer no conteúdo, como se fossem elos de sagas remotas que, conhecedoras das suas fraquezas, se alimentam da sua cortesia para se manterem vivas. Os longos meses passados nas embarcações, trabalho duro, leva-os a adquirir este tipo de conduta, mas também revelam comportamentos nada saudáveis. Quando entram no consultório, logo pela manhã, muitos emitem um bom dia enevoado por uma rouquidão tabágica associada ao característico cheiro. Nem lhes pergunto se fumam, passo para as seguintes, há quanto tempo e quantos cigarros por dia. Outro aspeto muito comum são as tatuagens, de um modo geral são toscas, mal produzidas, com motivos vários, embora outros apresentem imagens bonitas. Presumo que deverão ser feitas nos curtos períodos de descanso entre o silêncio do mar e o ruído ensurdecedor das máquinas.  

Três marítimos, de chofre, o primeiro com a laringe enrugada, não pelo sol, mas pelo tabaco, apresentava um dragão na região do deltoide, um deltoide espesso, duro, a conferir ao animal imaginário uma força descomunal, à espera de um dia transformar-se num dragão decrépito. Nem foi preciso perguntar se era do Futebol Clube do Porto, porque por baixo do bicho lia-se bem, “FCP”. Sorri. Há indivíduos para tudo. Foi feita por um profissional, segundo me disse. Quanto ao tabaco, os conselhos que lhe dei para abandonar deverão ter o mesmo efeito do que pretender apagar a tatuagem com água e sabão. Outro, simpático, mais culto, ocupando um cargo superior, perguntou-me se estava tudo bem, se não havia problemas. Disse-lhe que sim. Olhou-me meio perplexo. - Mas o quê? O que é que se passa? – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? - É verdade, mas diga-me o que é que se passa! – O senhor teve um enfarte há quatro anos e fuma, não é verdade? Repeti. Sim! Via-se a impaciência a crescer, queria saber o que é que se passava. - É isso mesmo homem de Deus, o senhor fuma, e quem teve um enfarte não deve fumar. Incrédulo, ainda repetiu mais uma vez a pergunta não querendo acreditar que aquilo que eu considerava como grave era para ele uma coisa sem importância, mas, depois de algumas explicações, profusamente detalhadas, ficou convencido da importância do seu problema de saúde e agradeceu-me efusivamente. Nesse momento não consegui ver qual o grau de satisfação e o sorriso da sereia desenhada no seu peito, mas, pela forma como reagiu, adotando a posição de peito inchado, decerto que a sua imaginada amada também terá sorrido e ficado mais tranquila. O terceiro, o mais alto da escala hierárquica, revelou todas as interessantes caraterísticas deste tipo de pessoal. Culto, bom contador de histórias, calmo, como convém a quem tem de tomar decisões, e ainda por cima no mar, revelou-se um bom fornecedor de matéria-prima para quem gosta de conhecer a natureza humana. Não lhe vislumbrei, à primeira vista, nenhuma tatuagem, mas ao auscultá-lo fiquei surpreendido. No peitoral esquerdo também tinha uma! Afinal, este pessoal, mesmo os mais habilitados, também têm os mesmos comportamentos. Não resisti e perguntei-lhe o porquê do "três de copas". - São as minhas três mulheres. Olhei para ele e, atendendo a que era ainda novo, a filha mais nova tinha sete anos, pensei, como é que iria resolver o problema se tivesse ainda mais um amor. Não é que fosse difícil desenhar o "quatro de copas", mas o que é que iria fazer ao "três de copas"? Não lhe perguntei. 

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

"A Guerra do Roque"...

Li em tempos uma história interessante numa obra de John Steinbeck. O capítulo intitulava-se "A Grande Guerra do Roque". Acabei por saber que o "roque" é uma forma complicada do jogo de críquete, que para mim já é suficientemente esquisito. Steinbeck diz que este tipo de jogo desenvolve o carácter. Antecipei de imediato ironia que se veio a comprovar no final do capítulo. Tudo começou numa cidade com graves complicações. Quando foi fundada muitos velhos refugiaram-se ali, sem compreenderem do que é que fugiam. Tornou-se numa cidade "rabugenta" em que tudo corria mal. Foi então que um filantropo decidiu oferecer à cidade dois campos de "roque". Como qualquer desporto tem de haver adeptos, necessidade de competição, de luta, e atribuição de prémios para o vencedor. Os cidadãos tinham mais de setenta anos. Uns pertenciam aos Azuis e outros aos Verdes. A rivalidade começou a crescer de tal forma que deixaram de se falar e ser proibido casamentos entre Azuis e Verdes. Passou-se de imediato para a política, e na igreja os Azuis não se misturavam com os Verdes. Houve quem propusesse a criação de igrejas separadas. Tudo girava à volta da rivalidade clubística, que se transformou em rivalidade política e em segregação religiosa e, claro, com o tempo, os idosos chegaram a incendiar as casas de uns e de outros, a cometer atentados e a provocar mortes. O filantropo via tudo aquilo com muita tristeza. Um dia, encomendou um buldózer e mandou destruir os dois campos de "roque". Em seguida abandonou a cidade para sempre. Foi o que fez de melhor. Os Azuis e os Verdes, desde então, reúnem-se naquele dia e queimam uma esfinge do filantropo depois de o enforcar. Este comportamento fez-me lembrar a queima do Judas. Azuis e Verdes unem-se de forma a exteriorizar a sua violência e intolerância na figura e na lembrança de um filósofo que só queria o bem-estar dos seus concidadãos. Dizem os entendidos que a tal variante de críquete desenvolve o carácter. Pois! Nota-se. Há histórias que não sendo verdadeiras assentam como uma luva à realidade. Mesmo assim, prefiro, de longe, as figuras dos Judas que outrora queimavam na minha terra. Todos se uniam em torno da imagem, gostassem ou não da personagem, mas depressa esqueciam-se desta união. Voltavam aos copos, o que também era uma outra forma de união. Neste país, sem rei e sem roque, embora, aparentemente, nos queiram convencer do contrário, a radicalização começa a surgir com alguma veemência. Um problema dos diabos, ou melhor, um problema típico dos homens (neste conceito, gramaticalmente com tendência para o neutro, homens, estão também incluídas as mulheres) …

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Mondrongo

Gosto de navegar no tempo. Sou um marinheiro de mares da saudade. Adoro partilhar vivências, sentimentos, emoções e, sobretudo, saborear recordações. Navegar no tempo é esquecer as más memórias. Poderão dizer, mas não as esquecemos! Está bem, não faz mal, mas é sempre possível retocá-las com cores menos dolorosas, desenhando traços finos de saudade. Navegar no tempo é transformar a realidade do passado no encanto do mundo da fantasia. São momentos deliciosos quando conseguimos misturar tudo, imagens dinâmicas, coloridas e quentes, com desejos ardentes, sensações estranhas, cheiros deliciosos, emoções perdidas e vontades achadas. O tempo mistura tudo, sem respeito por ele próprio, criando novas realidades que só ele sabe. O tempo faz esquecer a realidade dos momentos do passado, confundindo-nos propositadamente para que a saudade tenha outro sabor e cheiro. O tempo consegue o impossível que é recriar situações temporais distintas como se tivessem ocorrido no mesmo momento. Vale a pena viver a fantasia da realidade, uma fonte de prazer a que não devemos fugir. 

- Então, ainda cá estamos?

- É por pouco tempo, senhor doutor. Deve ser a última vez que nos vimos.

- Ó homem não diga isso.

- Digo, digo, eu é que sei.

- Mas não está a dar a côdea, pois não? O miolo ainda funciona. Um sorriso alargado, com alguma baba a cair do canto da boca a testemunhar o ocorrido há cerca de trinta anos, fez-me recordar o passar do tempo.

- Afinal, envelhecemos juntos. Disse-lhe meio espantado.

- Pois é, mas ainda vai sentir saudades minhas. Vai ver que vai. E bate com o punho no peito, dando a entender a fragilidade crescente do corpo e da alma a querer libertar-se.

- Vá, deixe-se disso, vamos daí. Suba. Subiu com muita dificuldade.

- Estou um mondrongo.

- Qual quê! Vamos conversar um pouco. E assim foi, com alguma provocação à mistura, ou melhor, com muita, as lembranças iam-lhe saindo a uma velocidade razoável, tendo, por vezes, misturado momentos, prazeres e aventuras, algumas mesmo loucas, quase que diria irreais. Uma verdadeira caldeirada de sabores, experiências, vivências e sentimentos que rapidamente despertaram velhas emoções fazendo com que o tempo andasse num corrupio louco, saltando anos, não interessa quantos e nem como, o que interessa foi recordar o passado através de tempos diferentes que eram e são sempre seus, e alguns também meus. Uma alegria efusiva, acompanhada de sonoros risos, inundava-lhe a fácies conseguindo repuxar os beiços descaídos, num interessante rejuvenescer em que o futuro conseguia mergulhar no seu passado.

Uma delícia, um alívio, sentir a vontade louca de recordar o que aconteceu como se o presente necessitasse desse belo e estranho alimento. O tempo da conversa não passou, foi apenas saboreado como se tratasse de um delicado copo de vinho. Mais uma memória construída para ser recordada amanhã. Amanhã? Não, ainda hoje, enquanto é tempo. 

Não sou ainda um mondrongo, mas o meu amigo Pereira tinha razão, sim, tenho muitas saudades dele. Se tenho, meu Deus.

O Estado do Governo

Não é injusto dizer que o governo socialista tem pecado por acção e omissão, privilegiando uma política de um “dolce fare niente” que nem declarações espectaculares, promessa de aumento histórico das pensões, repto aos empresários para um aumento de 20% nos salários ou o aparatoso anúncio de recusar as restrições europeias do gás, indigna falta de solidariedade para países que mais nos têm apoiado, conseguem já disfarçar. Numa soberana indiferença, e quando esses países vão reabrindo as centrais a carvão, o governo português mantém as nossas encerradas, pressionando as importações, 1000 milhões de euros no primeiro semestre do ano, as mais elevadas de sempre. Oxalá o torpor governativo não leve a eventuais apagões no inverno, já que a importação de energia não ficará imune à pressão das necessidades dos países mais dependentes do gás russo. Um torpor tão enraizado que a primeira medida governamental de carácter estruturante, a localização do novo aeroporto, se despenhou logo no take-off, revertida em menos de 24 horas. Em doce sonolência, o Governo não mexeu uma palha quando há muito se anunciavam rupturas graves nas urgências hospitalares; instalada a crise, logo se apressou a anunciar oportunísticas medidas ad-hoc, planos de contingência, sinal de que não tinha nenhum, comissões de acompanhamento, sinal de que não acompanhava nada, abertura a negociações com o sector privado, contrariando a Lei de Bases de Saúde hostil a qualquer colaboração, ou novo Estatuto do SNS, como se um regulamento alterasse o absurdo da Lei que visa servir. O Governo criou o Banco Português de Fomento para promover a modernização das empresas, o apoio ao PRR e o desenvolvimento do país, mas só agora reparou que não encontrava Presidente com perfil adequado, à falta de um estatuto remuneratório similar ao dos bancos equiparáveis. Natural que o Banco não funcione em moldes aceitáveis, é a sua Comissão de Auditoria que o diz. E ao ritmo de cada protesto de degradação dos serviços públicos, aumenta as dotações, enquanto a produtividade baixa, sinal de um governo adormecido que dá dinheiro sem cuidar da gestão. Adormecido, e porventura já sonhando com o anúncio do ensaio da semana de 4 dias, girândola de fogo de vista tão de agrado nas festas de verão. Também lhe chamam fogo de lágrimas… https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/o-estado-do-governo--15059987.html

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Manhã de agosto…

Manhã de agosto. Há muito que não saboreava o prazer de não fazer nada. Sensação estranha e ao mesmo tempo voluptuosa. Alterei as rotinas e acabei por ir até à esplanada de um café de bairro. Café bom, sombra, vida simples, uma ou outra pessoa a entrar e a sair. Um senhor sentado, com um frenesim sem sentido, raspava um boletim à procura da sorte. Suspirou fundo, tinha acabado de ganhar cem euros. Entregou o papelucho. Em seguida, o dono do café enfiou-lhe nas mãos cinco notas de vinte euros. Colocou-as com muito cuidado na carteira, ao mesmo tempo que dizia, “Vou para casa, a sorte do meu dia acabou aqui”. Esfregou o punho direito, o que é perfeitamente natural neste tipo de jogadores, e foi à vida. Fiquei mais um pouco, com o meu cão, a pensar na sorte de poder ter um dia diferente, sem fazer nada de especial. 

Vou dar um passeio após o almoço  com os meus companheiros para saborear o prazer e a alegria do sol, beber a frescura da margem de um rio, inalar a brisa de uma paz desejada e embriagar-me com o aroma da vida espraiando-se sem esforço graças ao “punho do destino”...

 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Uma memória...

Li várias obras de Tomás da Fonseca. Recordo ter lido “Na Cova dos Leões - Fátima e Cartas ao Cardeal Cerejeira”. Foi há muitos anos. O meu pai viu o livro e pediu-me para o ler. Chegou a conhecê-lo pessoalmente. Tomás da Fonseca era uma conhecida personalidade antirregime salazarista. A partir daqui contou-me mais uma história. A sua memória era fabulosa, nunca se esquecia de nada, a ponto de a “utilizar” quando tinha necessidade de recordar algum nome ou acontecimento. O meu avô tinha convivido com tão importante figura republicana. Depois foi um salto para contar um episódio que sabia ter ocorrido, embora sem detalhes, porque ninguém na família queria falar sobre ele. Um dia, o meu avô, que tinha um café, foi detido durante mais de setenta e duas horas pela polícia política por causa de um exemplar do jornal Avante que tinha sido retirado de um lote de vinte e cinco deixado no seu estabelecimento. Temeroso das consequências apressou-se a destruir o lote lançando-o no fogo. Quem tirou o exemplar acabou por ser interrogado pela polícia por causa de um acontecimento relacionado com a ida de Salazar à missa na igreja de Santa Comba. À saída vociferou em voz alta, “Alguém sabe quem foi o maior ladrão que Portugal já teve?”. É fácil de ver que quem andava perto (e andavam muitos) acabaram por fazer uma visita à casa do tal senhor. Perguntaram-lhe o que é que ele queria dizer com a tal frase. Quem era o ladrão? - Então não sabem quem foi? Foi o João Brandão. Disse com ironia, como é óbvio. Entretanto, na busca, encontraram o tal exemplar do Avante. Obrigaram-no a dizer onde tinha adquirido. Aqui já não foi irónico, respondeu de imediato. - No café do Manel Cardoso. A seguir apanharam o meu avô e levaram-no, sujeitando-o a torturas durante setenta e duas horas, sempre em pé. O mais curioso é que o chefe da brigada era seu conhecido a quem tinha dado de comer, e à família, na Pampilhosa. Perguntou-lhe se não era o Carvalho. Como seria de esperar não lhe respondeu e de arma em punho foi interrogado. Como encontraram o jornal República, de que era assinante, o massacre continuou. A sua situação em termos profissionais foi por água abaixo. Graças à relação de amizade com o então ministro do interior, natural de Santa Comba, conseguiu evitar males maiores. Acabei por conhecer esta história sobre o meu avô devido à jocosidade de um cidadão que não se coibiu de o denunciar, sabendo que não tinha culpa nenhuma, à primeira investida da polícia política.

Gostava tanto que tivesse sido o meu avô a contar esta história, e logo ele que era um contador exímio. Sei que foi um episódio que o marcou muito. Nunca contou, mas eu conto.

domingo, 31 de julho de 2022

A serpente verde…

Tarde de verão. O sol abrasava a terra. As águas dos rios e lagos não conseguiam dormir. Os animais da terra e do ar escondiam-se à sombra do verde das árvores e da vegetação e até os peixes procuravam as profundezas para não sentirem o calor que ondulava à superfície. Era um momento estranho, em que o silêncio dominava o mundo iluminado e aquecido pelo sol. Nesse momento uma cobra, magra, esguia e muito comprida, de cor de esmeralda, começou a serpentear em campo aberto ciente de que a sua liberdade não estaria em perigo. Sempre soube que era desprezada e odiada por todos. Evitava qualquer tipo de contacto. Tinha emergido da sua caverna onde a escuridão era compensada pela sabedoria e segredos únicos que só ela dominava, mas precisava também de sentir o calor daquele astro mais estranho do que o silêncio e mais confuso do que a negritude da sua caverna. Eis que uma águia a viu. Em voo picado aproximou-se dela. Assustada, empertigou-se, e tentou defender-se. Mas a sua cor verde fez confusão à ave que vê todo o mundo do alto dos céus. Perguntou-lhe porque é que tinha aquela cor. A serpente respondeu-lhe que era a cor da terra onde tinha nascido. O céu debaixo da terra é verde. A águia não acreditou. Só havia um céu, que era o dela, azul mesmo nos dias em se vestia de nuvens. Ela sabia o que dizia porque era a rainha e senhora dos céus do mundo. A cobra, sempre em posição de defesa, explicou-lhe que há outros mundos, desconhecidos de reis e rainhas, sejam da terra, dos mares ou dos ares. São mundos desconhecidos e ricos, sem os quais não haveria ar, terra, céu, mar, florestas e até a própria vida. Ela pertencia a esse estranho mundo. De quando em vez saía da sua casa para poder ver o azul e calor do céu e tentar dizer que o que não se vê é muito importante. Chegou a dizer à águia que não conseguia ver tão bem como ela, porque não tinha os seus olhos, mas conseguia sentir mais do que qualquer outro animal. O que sabia e sentia nunca poderá ser conhecido pelos outros animais. A águia bem tentou que lhe explicasse como era o seu mundo e que segredos encerrava. - Para isso terias de voar até lá, mas nunca conseguirás, nem tu e nem os animais que voam ou nadam. Apenas alguns animais terrestres conseguem ir até à porta desse mundo, mas nós, as serpentes, conseguimos conhecer o que mais ninguém consegue. Somos donas de conhecimentos únicos, profundos. - Diz-me uma coisa, serpente verde. Porque é que as pessoas têm medo de vocês, fogem e querem matar-vos sempre que vos veem? Porque são consideradas como seres malditos? - Simples. Porque representamos o que as pessoas são, o que pensam, o que desejam e tudo o que de mais estranho a vida tem. Somos a imagem real dos medos dos outros seres vivos. Mas a minha cor verde é apenas para dizer que há um mundo desconhecido em que a esperança existe, mas que nunca será conhecido por mais ninguém. — Nem por Deus? Perguntou a águia. A serpente calou-se. Deitou-se e, lentamente, começou a serpentear aproveitando o momento de espera da águia desejosa de ouvir a reposta enquanto olhava para o belo céu azul. Subitamente, o céu mudou de cor. Foi então que a águia deu conta que a serpente tinha entrado numa profunda caverna, deixando no local uma bela esmeralda que brilhava intensamente, iluminando o mundo em redor de uma estranha e bela cor verde. A águia ficou confusa. A partir daí nunca mais se aproximou de nada que fosse verde.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

"Consciência é igual a trabalho" ...

Não sei o que pensar. Fazer, sei. Cumprir uma banal e ofensiva rotina. Ofensiva? Sim, porque se respeito o trabalho dos outros também quero que respeitem o meu. O pior é que este país joga o “faz de conta”. Eu “jogo” sempre a sério, mesmo com sacrifício. Respeito o trabalho, porque é a sublime expressão da dignidade humana. De todas as características humanas assinalo o trabalho como a mais sublime de todas.   

Um dia, há muitos anos, numa conferência, alguém fez uma pergunta divinal, “Quando é que o homem começou a trabalhar?”. Confesso que não estava à espera. Normalmente tenho quase sempre resposta para tudo. Não sou um ser inibido ou inibidor. Adoro os espaços coletivos, onde a palavra atinge a sua expressão mais elevada. E as perguntas? Adoro que me façam perguntas. Fiquei em silêncio durante algum tempo e fui sincero. “Olhe, não sei responder neste momento, mas vou pensar no assunto. Se encontrar uma resposta, a minha, naturalmente, terei muito gosto em lhe dizer”. E assim foi. A pergunta nunca mais me largou. Passou a ser uma espécie de sombra da minha alma. Atento a tudo o que lia ou pensava, queria satisfazer a angústia despertada por aquela pergunta, tanto mais devido às minhas responsabilidades em matéria de saúde ocupacional.  

Um dia, ao ler mais uma obra de Carl Sagan, presumo que deve ter sido os “Dragões do Éden”, este notável pensador e cientista fez uma interpretação, que considero uma das mais brilhantes, ao dizer que a expulsão de Adão e de Eva do paraíso foi o momento da tomada de consciência da nossa espécie. Pensei, se esse momento é o nascimento da nossa consciência, então, viver através do suor do rosto e da dor é o sinal inequívoco do começo do trabalho, logo, consciência é igual a trabalho. Se a consciência é o momento do nascimento da nossa espécie, trabalho passou a ser a nossa verdadeira e “divina” identidade. Por esta razão, considero o trabalho, seja ele qual for, como a expressão máxima do respeito e dignidade humana. 

Gostava tanto de encontrar o autor daquela pergunta e dizer-lhe qual foi o momento “em que o trabalho nasceu”; para mim foi no preciso momento em que tivemos consciência da nossa existência, quando fomos expulsos do paraíso…

Quatro anos depois…

 Faz hoje quatro anos que publiquei o meu último post no blog Quarta República, “Morte e anjos”, uma reflexão das minhas vivências com o denominador comum de qualquer espécie.

Tenho imensas saudades de escrever neste espaço e das amizades entretanto criadas. 

Não sou dado a grandes reflexões políticas, mas sou atraído pelas de natureza social, cultural, técnica, científica e, sobretudo, pelas histórias da vida que vou colecionando e fazendo parte de muitas delas.

Tantas saudades. Parte da minha vida andou por aqui, e ainda bem, porque aprendi, sonhei e escrevi…

segunda-feira, 29 de março de 2021

Embalados nas núvens

Estrepsíades, um ateniense abastado, proprietário de vinhas, rebanhos, colmeias e olivais, descurara a gestão da sua fortuna e estava crivado de dívidas. Atormentado com o assédio dos prestamistas, e perante a recusa das feiticeiras da Tessália, temerosas de castigo dos deuses, em alterarem as fases da lua que regulavam as datas dos pagamentos, recorreu aos serviços de uma escola de filósofos sofistas que, mediante pagamento, exerciam a arte da retórica como forma de vencer litígios ou ludibriar os credores. Assim principia Aristófanes a sua comédia, As Núvens. Para os sofistas era retórica que determinava a verdade e esta era a que melhor se prestava a ser manipulada, explorando ao limite a sua qualificação como “justa” ou “injusta” e manobrando artificiosamente os conceitos para tornar vencedoras as causas que defendiam. Esquecendo por momentos a sorte de Estrepsíades, e saltando 2500 anos, também por cá verdade e justiça são cada vez mais determinadas pelos sofistas que enxameiam os ministérios da nação. Injusta era a oposição ideológica do Governo em negociar com os privados o apoio contra o Covid, o que provocou considerável número de vítimas por falta de cuidados médicos; mas quando o avolumar da pandemia impôs a aceitação da oferta estrangeira, só entendível se esgotada a capacidade nacional, logo tal resistência se tornou num “justo processo de negociação que nunca trouxe qualquer problema”. Excepto, claro, para quem faleceu sem assistência, mas logo “justos” e convenientes estudos vão normalizando causas e número de falecimentos. “Injusto” foi o desconfinamento no Natal e Ano Novo; todavia, conhecidas as consequências, logo a verdade sofista tornou “justa” a decisão, culpando os cidadãos, suprema ironia, por terem desconfinado, e inocentando o governo cuja decisão radicou numa justa ignorância da perigosidade das novas estirpes covídicas, mesmo que toda a Europa já as conhecesse, uma “injustiça” que só calhou a Portugal. Também na falta de vacinas contra a gripe comum, a verdade sofista ilibou o governo por falhar o aprovisionamento, responsabilizando quem logrou vacinar-se pela “injustiça” sofrida por quem não o conseguiu. Já nos incêndios florestais de 2017 e 2018 que mostraram a “injustiça” de uma parte do país sem Estado que o protegesse, também os cidadãos foram os culpados. Os cidadãos que não limparam as matas, o SIRESP, a trovoada seca, o downburst, tudo serviu para a “verdade” sofista inocentar o falhanço governamental. Antes e agora, é a “justa causa” da neutralidade carbónica que esconde uma “injusta” política energética geradora dos custos mais elevados da Europa e esquece consequências económicas e sociais e milhares de desempregados, de Sines a Matosinhos. Como também os tão proclamados “justos” apoios à perda de rendimentos devida ao Covid, se transformaram na “injustiça” de não chegarem aos destinatários, bem confirmada nas quebras das execuções orçamentais. Foi graças à retórica sofista que Estrepsíades se livrou dos seus credores, por “injustos” serem os empréstimos que estimularem a sua má gestão. Mas também logo dela foi vítima quando o perdulário Fidípides, seu filho, considerou “justo” espancar o pai para obter parte da herança, pois “injusto” seria não a gozar de imediato. E de “justiça” em injustiça, foi em nome da “justiça” que, desesperado, Estrepsíades incendiou a escola sofista que lhe restituíra a fortuna. Para Aristófanes era nas núvens que se geravam as grandes trovoadas e tempestades, daí o nome da peça, grandiosa metáfora das consequências trágicas dos procedimentos astuciosos, inversores dos valores e da verdade. Coincidentemente, ainda Aristófanes vivia e Atenas perdia a guerra com Esparta. É que, lá como cá, sempre que tais condutas se expandem e o povo as consente, da comédia inicial podem resultar em tragédia. (meu artigo no i- edição de 5 Março de 2021) https://ionline.sapo.pt/artigo/726993/e-assim-vamos-embalados-nas-nuvens-?seccao=Opini%C3%A3o_i

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

“Para ali não mandaram senão empregados incapazes…”

Eu sou um dos que se tem conservado na ideia de que o Tribunal de Contas não tem cumprido o seu dever. Esta opinião é a geral, tenho-a ouvido constantemente, e a ninguém tenho ouvido uma palavra em defesa desse Tribunal… Sabemos hoje que o Tribunal de Contas foi organizado como se poderia organizar o Hospital de Runa: para ali não mandaram senão empregados incapazes e algum que escapou pela malha foi depois tirado para outras repartições…”. Era assim que, em 21 de Março de 1852, falava no Parlamento o Deputado por Arganil Vicente Ferrer Neto Paiva, comparando o Tribunal de Contas com o caótico Hospital da Runa, edificado uns anos antes para tratamento e asilo de inválidos militares. Receio bem que, passados 170 anos, o funcionamento do Tribunal de Contas tenha sido aferido pelo mesmo padrão… Sabendo-se que as “contas certas” se tornaram dogma incontestável da governação, só um Tribunal de Contas formado por empregados incapazes poderia cair na heresia de o contrariar. Mas foi isso mesmo que aconteceu, quando classificou a Conta Geral do Estado de 2018, a última analisada, como viciada por “erros materialmente relevantes “ e marcada por contínuas “situações de desrespeito de princípios orçamentais, incumprimento de disposições legais que regulam a execução orçamental e insuficiências dos sistemas de contabilização e controlo“. E, face ao incumprimento de princípios de “legalidade, correção financeira e controlo interno“, concluiu que a Conta é “um relatório “incompleto” e “com erros”. Conclusão esta só mesmo obra de empregados incapazes… Também em recente apreciação ao Código de Contratos Públicos, o Tribunal criticou as alterações preconizadas: passando a “a excepção a ser a regra”, aumentam as probabilidades de “conluio, distorção da concorrência, cartelização e corrupção na contratação pública”. Advertências só possíveis de entender num Tribunal organizado à imagem do velho Hospital da Runa… E se em 1852 esse inapto Tribunal acusava que as administrações passadas não têm dado os esclarecimentos pedidos…que faltam três mil e tal declarações para satisfazer…que não têm resolvido as consultas…nem as requisições que tem feito…”, também o actual incapaz Tribunal se queixa de falta de informação como, mero exemplo, a necessária para avaliar os impactos orçamentais das medidas de combate aos efeitos da pandemia. Persistindo maledicências de teor semelhante, claro que os poderes públicos teriam que intervir sobre quem, destituído do mais elementar sentido patriótico, produzia assim relatórios que tanto minavam o prestígio do governo e a sua credibilidade no plano interno e externo. Mas fazendo-o com sensibilidade e bom senso, excepcionando alguma rara nomeação que tivesse escapado pela malha dos incapazes e que era justo defender e tirar para outras repartições. E foi assim, sepando o trigo do joio e como forma de proteger a sua reputação, que o Presidente do T. Contas foi afastado das suas funções, também oportunidade única de, na cerimónia de despedida, o P.R. realçar publicamente a “gratidão nacional” que lhe era devida por “ter superado todas as muitas elevadas expectativas de há quatro anos”. O que obviamente nunca poderia acontecer se continuasse a presidir a uma Instituição de incapazes, organizada à moda do Hospital da Runa. Quanto aos incapazes que por lá ficam, certamente que uma acelerada formatação lhes vai conceder rapidamente o dom da sabedoria… PS: Gerido à moda do Hospital da Runa em 1852, está o Ministério da Saúde em 2020. Festa nas televisões, caos no SNS. Cidadãos a morrer por falta de consultas e cirurgias, quando, ali ao lado, a capacidade disponível no sector privado e social é rejeitada pela ideologia da saúde pública. O absurdo de uma saúde pública que renega a saúde individual. Mais provas de que para ali não mandaram senão dirigentes incapazes? https://ionline.sapo.pt/artigo/714276/para-ali-nao-mandaram-senao-empregados-incapazes-?seccao=Opini%C3%A3o

Tarde e a más horas

Tarde e a más horas é que o Governo se decidiu a articular o SNS com a capacidade disponível no sector privado, social e misericórdias para minimizar os efeitos directos e indirectos do COVID. O Governo resistiu até onde pôde, no espírito da Lei de Bases da Saúde, uma Lei incoerente, verdadeira manta de retalhos tecida de modo a que cada partido da geringonça se pudesse rever no seu pedaço. Pior, uma Lei cuja ideologia diculta, senão mesmo contraria, os próprios preceitos constitucionais de que “todos têm direito à protecção da saúde”, através do SNS ou da sua interligação com as “formas empresariais e privadas da medicina”. 

Mas, como a realidade se contrapõe à ideologia, não foi preciso mais que um ano desde a sua entrada em vigor para comprovar toda a incapacidade para defender a saúde dos portugueses.

Se em Março o SNS já mostrava as suas debilidades, com milhões de consultas e dezenas de milhares de cirurgias adiadas, o COVID veio a tornar ainda mais crítico o seu funcionamento, não só para os doentes da pandemia, mas para todos os que, sofrendo de outras doenças, se vêem impossibilitados de ser acolhidos nos hospitais. É por isso abominável que o Ministério da Saúde tenha vindo a rejeitar a disponibilização pelo sector privado de algumas centenas de camas, das quais dezenas em UCI, como a Associação dos Hospitais Privados vem lembrando, e que só agora, encostado à parede, por ser já impossível esconder o risco de ruptura do SNS, se veja forçado a dar passos para associar as unidades do sector privado e das misericórdias no apoio ao SNS. Uma ligação até agora considerada promíscua, a evitar a todo o custo.  

E, embora a gravidade da situação impusesse uma estratégia global, o facto de tais diligências se efectuarem a nível regional e não nacional mostra que o Ministério da Saúde evita o envolvimento directo nessas negociações, porventura como derradeira forma de afirmar a sua pureza ideológica. Preferiria seguramente a requisição de serviços que o Presidente da República desaconselhou.

Dizem as esquerdas que os gastos com os cuidados médicos privados oneram o SNS, uma falsidade. A prova é que o valor que o Estado paga por tratamentos nos hospitais privados consta de tabelas oficiais e é inferior ao seu custo na rede do SNS.  

Mas, mesmo que assim não fosse, seria sempre uma iniquidade imperdoável se, por razões ideológicas, se deixassem morrer pessoas ou agravar doenças pelo facto de o SNS não as encaminhar para onde pudessem ser tratadas. E isso acontece.  

(Meu artigo na edição de 20 de Novembro de 2020 nos jornais Diário de Coimbra, Diário de Viseu, Diário de Aveiro e Diário de Leiria)   

 

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Distribuir sem investir, o fado da perdição

Na parábola evangélica dos talentos, um rico senhor, antes de iniciar uma longa viagem, chamou três dos seus empregados e entregou 10 talentos ao primeiro, cinco ao segundo e um ao terceiro, prevenindo que no regresso lhe deveriam prestar contas. Quando voltou, o que tinha recebido os 10 talentos devolveu-os com um rendimento de outros dez, o que tinha recebido cinco apresentou um lucro de outros cinco e aquele que tinha recebido um restituíu-o a singelo, já que o enterrou para se livrar de trabalhos adicionais. Os dois primeiros foram recompensados, enquanto o último foi castigado.   

Também Portugal tem enterrado muito dos fundos europeus, não tirando deles a devida rentabilidade. O PIB só cresceu mais que os montantes recebidos nos primeiros 10 anos pós adesão, nos governos de Cavaco Silva, de 1986 a 1995. Ao contrário, de 1995 até hoje o crescimento do PIB apenas igualou os apoios europeus. E a paridade do PIB per capita foi regredindo em relação à média europeia, tendo Portugal sido ultrapassado por muitos países. A política prosseguida não só não rentabilizou esses fundos, como colocou Portugal na bancarrota em 2011, endividou o país como nunca e sujeitou os portugueses à maior carga fiscal de sempre.

Neste quadro, a União Europeia tem sido bem mais generosa para nós do que o proprietário da parábola. E é assim que Portugal irá receber da União Europeia mais 60 mil milhões de euros nos próximos 10 anos, uma média anual incomensuravelmente superior à de que Portugal beneficiou desde a adesão, faz 35 anos.

Apoiar e relançar a economia, tornar as empresas fortes e competitivas deveria ser o foco das políticas, mas a prioridade volta a ser mais e maior Estado.

Como anunciado, o grande beneficiário dos 13 mil milhões de euros do Plano de Recuperação serão o Estado e a Administração Pública, enquanto apenas cerca de 23% do total vão ser afectos ao potencial produtivo, forma vaga que abrangerá o apoio directo às empresas.     

E assim, não se alterando, e até se robustecendo as políticas que governaram Portugal durante 18 dos últimos 25 anos, o resultado só pode continuar a ser o da estagnação e retrocesso.    

Em detrimento de um suporte à modernização da estrutura produtiva, o governo optou por um acréscimo de gastos públicos, esquecendo que, terminado este excepcional apoio europeu, o seu financiamento não advirá da economia, mas de novos máximos do endividamento e da carga fiscal.

Distribuir antes de investir é o caminho da perdição. E é também o nosso fado. 

(Artigo publicado no Diário de Coimbra, Diário de Viseu, Diário de Aveiro e Diário de Leiria de 9 de Outubro de 2020) 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Uma Visão sem Plano e um Plano sem Visão

Nos próximos 10 anos Portugal poderá dispor de cerca de 60 mil milhões de euros de apoios europeus, dos quais 13 mil milhões de subsídios do Fundo de Recuperação e o restante advindo de empréstimos ligados a este Fundo, do orçamento comunitário e do que ainda falta do PT2020.   
Trata-se de uma média mensal de 500 milhões de euros, bem superior aos 331 milhões de que Portugal beneficiou desde a adesão à UE. 
E se de 1986 a 1995 esses apoios fizeram multiplicar a riqueza mercê de uma boa utilização em programas estratégicos como o PEDIP, já de 1995 até ao momento o PIB não cresceu mais do que os apoios recebidos e o PIB per capita em termos de paridade de poder de compra regrediu relativamente à média europeia, sinais de gestão incapaz e má aplicação. Poderia assim perguntar-se para onde afundaria o PIB se não fossem tais apoios. 
Porventura ciente deste quadro, António Costa já referiu que é uma responsabilidade para todos, incluindo administração pública, “gerir bem estes novos recursos e não desperdiçar esta oportunidade", e para o efeito encomendou um Plano de Reestruturação da Economia ao Professor Costa Silva. 
O documento apresentado como um verdadeiro Plano, não o é, de facto, aliás como o próprio nome, “Visão estratégica para o plano de recuperação económica”, logo o indicia. 
Tarefa da governação seria passar da Visão Estratégica, que elenca um catálogo de princípios e projectos, ao Plano, e fixar objectivos específicos, definidos no tempo, coerentes e hierarquizáveis. E enunciar as acções necessárias para os atingir, o custo de cada qual, comprovar a sua coerência mútua, determinar qual a hierarquização face à sua valia interna e aos recursos sempre escassos. E obter um consenso sobre eles. 
Pelo que até agora se conhece, não o fez, tão vago que é o Plano de Resiliência agora apresentado na AR, ademais com o vício fatal de atribuir ao Estado o grosso das verbas, deixando para a área empresarial produtiva e exportadora, que cria riqueza, a parte residual.    
E assim se persiste em ministrar à economia a cicuta que a definha, em vez de remédio que a erga e fortaleça.  
Em manifesta ironia, este Plano de mais Estado em vez de mais e melhor economia é o caminho certo para desperdiçar não só a tal oportunidade de que o 1º Ministro falou, mas a ocasião de salvar o país. 
(meu artigo no DN/JN/Dinheiro Vivo de 26 de Setembro de 2020)  
 https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/uma-visao-sem-plano-e-um-plano-sem-visao-12896646.html
 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Uma Pedra não faz um Santo, nem uma Visão um Plano

 Ainda não sei porquê, mas porventura por uma associação de contrários, ao ler a Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal de Costa Silva, lembrei-me do Padre António Vieira e do seu Sermão do Espírito Santo, uma peça notável da literatura portuguesa.   

«Arranca o estatuário uma pedra destas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem: primeiro, membro a membro e, depois, feição por feição, até à mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar…”.

É que aquele documento, que o Governo chama de Plano de Recuperação da Economia, tem tanta semelhança com um Plano como a pedra tosca, bruta, dura, informe com a estátua de um santo que se pode pôr no altar.

Um Plano define objectivos específicos, mensuráveis, definidos no tempo, coerentes e hierarquizáveis e indica os recursos necessários, sua origem e montante. E particulariza acções para os atingir e o custo de cada um, comprova a sua coerência interna, indica a sua execução no tempo, determina qual a hierarquização face à sua valia interna e aos recursos sempre escassos.

Um Plano, por mais flexível que seja, e deve sê-lo, longe de nós a desgraça dos rígidos Planos Quinquenais, deve atender a estes requisitos, o que a dita Visão, rapidamente transformada em Plano, manifestamente não faz, assemelhando-se mais a um catálogo de possíveis realizações.  

Seguindo Vieira, trata-se de uma pedra em bruto, e obrigatório seria que o Governo, em vez de insistir em colocá-la de imediato no altar dos seus troféus, tomasse de imediato o maço e o cinzel para lhe desbastar o grosso e modelá-la objectivo a objectivo, recurso a recurso, acção a acção, até ao pormenor, de forma a obter um Plano bem esculpido, aberto ao presente e ao futuro, atento aos interesses do povo e não dos lóbis institucionalizados, com cabeça, tronco e membros bem lançados para suportar reveses, sopesar equilíbrios e indicar firmemente o caminho.

Um Plano capaz de rentabilizar o enorme volume de cerca de 69 mil milhões de euros fundos europeus disponíveis até 2030, que quase dobra a média anual de que o país beneficiou desde a adesão, e assim potenciar o aumento da riqueza. Em contraste com o que aconteceu desde 1995, em que o acréscimo do PIB se limitou a igualar o valor recebido, não multiplicando o produto, e o PIB per capita em paridade de poder de compra veio sucessivamente a regredir.

Contudo, Governo e Ministros parecem apenas preocupados em gerir o dia-a-dia e a provar a sua existência nos telejornais, servindo-se de pretextos ou de decisões rotineiras que não trazem dignidade à função, antes diariamente a desprestigiam. Ou então proclamando projectos grandiosos, como o do hidrogénio, sem valia intrínseca demonstrada, um atentado à competitividade das empresas, ou políticas a que chamam de nova geração ou agendas para a inovação, muita pompa e circunstância, mas em que o aparato dos nomes não substitui a parca substância.  

É esta política ociosa, este engano de vida que conduz o Governo, que erigiu a Visão Estratégica a Plano de Reestruturação Económica e já o colocou, para veneração dos crentes, no altar das celebrações governamentais. Esquecendo que, parafraseando Vieira, só aplicando o cinzel, com esforço e perseverança, é possível transformar uma pedra bruta e informe santo que se pode pôr no altar.  É que, sem cinzel e trabalho, uma Pedra não faz um Santo, nem uma Visão faz um Plano…

(meu artigo na edição do i de 18 de Setembro de 2020) 
https://ionline.sapo.pt/artigo/709140/-uma-pedra-nao-faz-um-santo-nem-uma-visao-um-plano?seccao=Opiniao_i



terça-feira, 1 de setembro de 2020

Hidrogénio movido a impostos

Com muita graça, Miguel Beleza dizia que na economia há a micro e a má economia.
Significava ele que tal qualificação da macroeconomia se devia à perturbação na actividade económica por opções não racionais dos governos, políticas de incentivos sem criação de valor e alheias à escassez de recursos, motivadas por interesses políticos e eleitorais.
Exemplo de má economia é o projecto do hidrogénio, ao deixar sem resposta muitas interrogações. 
-Qual a justificação económica para um projecto cuja viabilidade exige incentivos em todas as suas fases, produção, transporte, armazenamento e utilização, tal o diz a Consulta Pública?  
- Qual o sentido de assim obrigar os portugueses a suportar os riscos e sobrecustos de uma tecnologia imatura que mais que duplica o preço de mercado da electricidade, massacrando famílias, empresas e competitividade e subsidiando os países concorrentes?
- Qual a razão de argumentar que o projecto visa cumprir as orientações de descarbonização da EU para 2030, quando o Governo pretende chegar a 80% de renováveis e o objectivo europeu é de 50%, e sabendo-se que Portugal nada polui à escala mundial?
- Qual o custo de oportunidade de um projecto gigantesco, que começa em 7 mil milhões de euros e consome grande parte dos fundos europeus, face a outros que promovam a modernização da estrutura produtiva do país, repartindo simultaneamente os riscos envolvidos?
- Se a Alemanha, com uma economia 16 vezes superior à nossa, irá investir o equivalente a 560 milhões à escala portuguesa, como explicar o vanguardismo português?
- Não é absurdo lançar concurso para mais potência solar, preço indirectamente garantido, que amplia a capacidade já excedentária de renováveis para a ponta de consumo ao fim de semana, para gastar na produção de hidrogénio para armazenar e voltar a produzir electricidade mais cara?
- Qual a valia do argumento do interesse do capital privado no projecto, se há uma garantia de preço ou subsídios em todas as suas fases e segmentos?
Respostas, vi uma, a do Ministro do Ambiente quando, em entrevista, aludiu ao “compromisso que os portugueses têm com os seus impostos para potenciar este tipo de projetos”.
Certo é que os portugueses não subscreveram tal compromisso de tão má e cara economia, como esta de ter hidrogénio movido a impostos.  
(Meu artigo no DN/JN/Dinheiro Vivo de 29 de Agosto de 2020)

domingo, 19 de julho de 2020

Ainda o Projecto do Hidrogénio

Pensa o Governo que o Projecto do Hidrogénio, um mega projecto cujo objectivo principal é a descarbonização da economia, a transição energética e a neutralidade carbónica, pode também servir como “ o caminho para a criação de novos modelos de negócio, abrindo novas oportunidades de desenvolvimento económico e industrial para o país”.
No entanto, estes benefícios para o relançamento da economia não aparecem demonstrados, avultando os riscos que são enormes e certos.
E desde logo devido à sua dimensão faraónica, que poderá ir de 7 mil milhões a 15 mil milhões de euros, mesmo 20 mil milhões em fase ulterior, em investimento na produção de hidrogénio, na fábrica de eletrolisadores, laboratórios e infraestruturas de armazenamento e distribuição. É pois um projecto que consome grande parte dos recursos europeus e assim impedirá a selecção de outros melhor dimensionados capazes de promover a modernização e dinamização da estrutura produtiva do país e nela facilmente se integrem, repartindo os riscos envolvidos na sua concretização.
Depois, é um Projecto que se baseia numa tecnologia não dominada, logo exigindo tremendos custos de desenvolvimento. E não parece que Portugal seja o país mais indicado para os suportar. Acresce que a valia interna do projecto não é justificada, aparecendo como meramente instrumental em relação aos objectivos da descarbonização, acentuados obsessivamente em todo o documento. Ora as energias renováveis já representam uma quota elevada e cara da oferta, Portugal não é um país poluidor e também aqui os fins não justificam os meios.
O projecto também não é viável de per si, necessitando de incentivos, públicos via OGE, ou privados, em sobrepreços no consumo, em todas os seus segmentos: na produção do hidrogénio, no seu armazenamento, distribuição e uso nos transportes e indústria, na produção de electricidade e nas várias acções transversais ao projecto. E também não dispensa incentivos à exportação, o que significa apoios nacionais a consumos externos.
Refere o Governo que uma parte do Projecto terá financiamento privado. Não custa a acreditar, tal o nível de incentivos e apoios previstos. Mas são custos que nós, consumidores ou contribuintes, teremos que pagar.
Aliás, é o Ministro do Ambiente que o confirma quando, em recente entrevista, aludiu ao “compromisso que os portugueses têm com os seus impostos para potenciar este tipo de projetos”. Não creio que os portugueses conheçam esse compromisso e, muito menos, que o tenham subscrito.
(meu artigo publicado nas edições de 17 de Julho dos Diário de Viseu, Diário de Coimbra, Diário de Aveiro e Diário de Leiria)

sábado, 27 de junho de 2020

Uma bomba de hidrogénio

O projecto do hidrogénio, visando a descarbonização e a dinamização da economia na próxima década e cuja estratégia o governo aprovou no mês de Maio, integrará certamente o Plano de Recuperação Económica em preparação.  
Trata-se do maior projecto alguma vez pensado em Portugal e que poderá ir, na formulação base, de valores de 5,6 mil milhões a 15 mil milhões de euros, ou mesmo 20 mil milhões em fase ulterior, em investimento na produção de hidrogénio, em infraestruturas de armazenamento e distribuição e ainda em fábrica de eletrolisadores, laboratórios e infraestruturas para a exportação.  
Tecnologia à parte, a defesa oficial do projecto suscita grandes dúvidas e interrogações.
A primeira é a compatibilidade de um empreendimento que vai consumir grande parte dos fundos europeus com a necessidade de atrair projectos bem dimensionados que promovam a modernização e dinamização da estrutura produtiva do país ou nela facilmente se integrem, repartindo simultaneamente os riscos envolvidos.        
A segunda é que a valia interna do projecto não é justificada, aparecendo como meramente instrumental em relação aos objectivos da descarbonização e da transição energética, acentuados de forma obsessiva em quase todos os parágrafos do documento. O projecto é de alto risco, as renováveis já representam uma quota elevada e cara e também aqui os fins não justificam os meios.
A terceira é que o projecto não é viável por si, necessitando de incentivos, públicos via OGE ou privados, em sobrepreços no consumo, em todas os seus segmentos: na produção do hidrogénio, no seu armazenamento, distribuição e uso nos transportes e indústria, ou na produção de electricidade e de combustíveis e nas várias acções transversais ao projecto. E também não dispensa incentivos à internacionalização e à exportação de hidrogénio, o que significa apoios nacionais a consumos externos.  
A quarta é que o projecto tem todos os sobrecustos e riscos de uma tecnologia nova e não dominada, para mais concentrados na fase virada para o mercado interno, obrigado a suportá-los por inteiro.
A transição energética tem que ser interpretada à luz da realidade nacional. De contrário, corremos o risco de desenvolver um projecto que se pode tornar uma autêntica bomba de hidrogénio a deflagrar sobre a economia do país.  
( meu artigo publicado em 27.06.2020 no DN/JN/Dinheiro Vivo