Em artigo publicado recentemente, o investigador Anders Aslund , do Peterson Institute (EUA), sumaria as principais conclusões do seu livro “The Last Shall Be the First: The East European Financial Crisis” onde descreve a queda e ascensão das economias bálticas na crise de 2007-2009. Rendido à eficácia do plano de superação da crise dos países bálticos, Aslund retira algumas lições da experiência do Báltico para os países da “periferia” da UEM. Pela relevância que o tema tem para Portugal, achei interessante sumariar o referido artigo.
Os países bálticos foram os mais afectados pela crise financeira, com quedas do PIB acumuladas de 25%, no caso da Letónia e de 17%, nos casos da Estónia e da Lituânia. Em 2010, os três países exibiram crescimento económico robusto, alicerçado nas exportações. Todos eles procederam a cortes salariais transversais à economia, que no caso da Lituânia, em 2009, ascenderam a 28%; todos eles aplicaram violentos cortes na despesa pública sem grande perda aparente na qualidade final dos serviços públicos. A sua estrutura fiscal sui generis - de impostos sobre o rendimento baixos e de taxa única - foi mantida. Nenhum deles efectuou qualquer desvalorização cambial, o que para pequenas economias abertas que são, implicaria um aumento intolerável dos custos de produção. A vital recuperação da competitividade foi garantida pela “depreciação interna” que resultou da redução dos salários, manutenção de impostos baixos e do aumento da produtividade promovido pelas reformas estruturais. Segundo Aslund, a instabilidade política (na acepção eleitoral e não social do termo) que abundou nos países bálticos no apogeu da crise, foi fundamental para encontrar e promover os executivos mais bem preparados para implementar a políticas necessárias – por mais “radicais” que estas fossem considerados pelo status quo. As tensões sociais foram mínimas, pelo que o autor conclui que os eleitores, uma vez convencidos da seriedade da situação, percebem a necessidade de mudança – por custosa que se venha a revelar – e que a “crise” política pode ser uma benção no sentido em que possibilita a mudança.
Admitindo como boas as “lições” dos países bálticos, como é que elas se aplicariam à realidade portuguesa?
i) Forte redução da despesa pública, com particular incidência sobre a massa salarial de todos os níveis do estado, incluindo o seu sector empresarial. Como a redução dos vencimentos já foi implementada, faltava “somente” proceder a uma racionalização rigorosa da máquina do estado, o que certamente libertaria muitos “postos de trabalho” - amiúde muito onerosos mas pouco úteis (a não ser aos seus detentores) -, para além de promover um aumento da eficiência da máquina do estado;
ii) Flexibilização do mercado de trabalho e do sistema fiscal por forma permitir fechar o hiato entre custos de trabalho e produtividade das empresas portuguesas; hiato que, variando imensamente de sector para sector, no agregado não deverá exceder os 10%;
iii) Last but not least, mudança de governo, de políticas, de estilo, reflectindo a incapacidade da equipa governativa que nos trouxe até esta situação, dela nos retirar. Neste ângulo, os desenvolvimentos mais recentes da vida política nacional são animadores.
Nota: A Estónia integrou o clube do euro, no princípio do ano e a Letónia, depois da intervenção do FMI, viu a notação da sua dívida pública ser, esta semana, melhorada por duas agências de ratings: S&P e Fitch.
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quarta-feira, 16 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
“Ora filho, voa!”
Depois do jantar devo, por motivos de saúde, dar uma pequena volta a fim de contrariar a maldita hiperglicemia filha de genes defeituosos que, em tempos, foram determinantes para a evolução humana, mas que atualmente só servem para chatear. É interessante analisar que aquilo que ontem foi útil hoje se transformou num grave problema de saúde pública. Antes permitiam que os portadores aguentassem as agruras da fome, sobrevivendo mais facilmente do que os não portadores, agora dão-lhes para matar. Sacanas! Mas, pensando bem, os meus malditos genes defeituosos, que me obrigam a fazer dieta, medicação e exercício, empurram-me para a tal voltita. E eu obedeço, com agrado, porque assim esbarro na livraria-café, precisamente a uma hora em que há pouca gente ou mesmo nenhuma, entre as 9 e as 10 horas. Foi o que aconteceu hoje. Como estava muito frio tive de puxar a gola do sobretudo. Questiono-me sobre a razão ou razões que me levam a gostar do frio. Arranjo facilmente uma desculpa, tranquiliza-me. Às tantas a razão da tranquilidade não é devida ao frio, talvez seja uma coincidência. De qualquer modo, senti que estava a saborear um raro momento em que deixei de vislumbrar a linha do horizonte dos problemas. Tenho de aproveitar, pensei. Vou comprar um livro, às tantas mais um para a montanha dos que esperam ser lidos, mas não faz mal, dá-me prazer, o que é suficiente. Romance, filosofia, crónica, história, ensaio, autor nacional, estrangeiro? Deixei-me ir. Já tinha passado por ele, no domingo. Tirei o livro do escaparate. Compra ultrarrápida, porque queria ainda tomar qualquer coisa e sentar-me numa das mesas antes que o estabelecimento encerrasse. O título foi o responsável pela rápida compra, “O lugar do morto”. Será que tudo o que diga morte ou coisa parecida me atrai? Já não digo nada! De qualquer modo, não me arrependo. Sentei-me. O jovem empregado, com tiques aristocráticos, vendo-me, trouxe um descafeinado com adoçante. Já sabe que àquela hora não tomo café. Retribui-lhe o gesto deferente com simpatia.
Aprecio a escrita de Agualusa. Uma escrita doce, suave, que me faz flutuar com prazer em ondas de frases simples, elegantes e ricas de sentimentos. Estava perante uma coletânea de crónicas “psicografadas” de muitas entidades. Todos mortos, logo, boas pessoas. Graças ao facto de habitarem no além, podem dizer o que lhes passa pelas etéreas cabeças sem ser importunados.
A primeira crónica, “Os portugueses não gostam de asas”, é de Eça de Queirós. Diz o espírito do escritor, que está no céu, pelo menos é íntimo de São Pedro e viu, de braço dado, Saramago e Miguel de Vasconcelos: - “Hoje debruço-me sobre Portugal de uma varanda mais vasta – a Eternidade – e de novo me aflige o desdouro. Não que Portugal esteja pior do que há cem anos; está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país – é um resumo”. Comenta que todos os países erram e nós não somos exceção, só que antigamente “errávamos com grandeza e originalidade”, “hoje erramos em ponto pequeno, e ainda por cima por imitação”.
Não se pode dar asas a um português como fez São Pedro, ao fim da tarde, quando viu entrar uma alma sem maldade. Era português, mas protestou quando o porteiro do céu lhas entregou, perguntando o que é que iria fazer com elas. A resposta não tardou: - “Ora filho, voa!” Aterrorizado, o português devolveu as asas, dizendo-lhe: - “Se eu vim para aqui foi para descansar”. Eça viu.
Pois! Soube-me bem descansar um pouco esta noite, mas amanhã tenho de por as asas, e não é para me armar em anjinho...
Aprecio a escrita de Agualusa. Uma escrita doce, suave, que me faz flutuar com prazer em ondas de frases simples, elegantes e ricas de sentimentos. Estava perante uma coletânea de crónicas “psicografadas” de muitas entidades. Todos mortos, logo, boas pessoas. Graças ao facto de habitarem no além, podem dizer o que lhes passa pelas etéreas cabeças sem ser importunados.
A primeira crónica, “Os portugueses não gostam de asas”, é de Eça de Queirós. Diz o espírito do escritor, que está no céu, pelo menos é íntimo de São Pedro e viu, de braço dado, Saramago e Miguel de Vasconcelos: - “Hoje debruço-me sobre Portugal de uma varanda mais vasta – a Eternidade – e de novo me aflige o desdouro. Não que Portugal esteja pior do que há cem anos; está todavia mais pequeno. Já nem é bem um país – é um resumo”. Comenta que todos os países erram e nós não somos exceção, só que antigamente “errávamos com grandeza e originalidade”, “hoje erramos em ponto pequeno, e ainda por cima por imitação”.
Não se pode dar asas a um português como fez São Pedro, ao fim da tarde, quando viu entrar uma alma sem maldade. Era português, mas protestou quando o porteiro do céu lhas entregou, perguntando o que é que iria fazer com elas. A resposta não tardou: - “Ora filho, voa!” Aterrorizado, o português devolveu as asas, dizendo-lhe: - “Se eu vim para aqui foi para descansar”. Eça viu.
Pois! Soube-me bem descansar um pouco esta noite, mas amanhã tenho de por as asas, e não é para me armar em anjinho...
Buracos e pensões, bolas e tacos...
De facto a notícia de que os campos de golfe vão ser tributados à taxa reduzida de IVA - 6% - em vez dos 23% que estão em vigor, não deixa de ser paradoxal quando acaba de ser anunciado no PEC IV o congelamento das pensões baixas durante três anos - 2011, 2012 e 2013.Mas que sentido faz exigir mais sacrifícios aos pensionistas com pensões baixas e dispensar os praticantes do golf de pagar a crise das finanças públicas? Às vezes parece que não vivemos no mesmo país...
Vê-se, ouve-se, e dificilmente se acredita...
A RTP, essa entidade que todos sustentamos com parte do nosso dinheiro para ter serviço público de televisão, achou que a manutenção da taxa de 6% de IVA sobre o golfe era notícia para ser destacada, opção editorial que não custa a compreender. Como se vê aqui, a interpretação do que os jornalistas leram nos jornais da manhã sobre isto resultou numa verdadeira anedota: o nosso serviço público televisivo entendeu que o governo estava a baixar o IVA do ... Volkswagen GOLF. Não acreditam? Eu também não acreditava. Até ver as imagens...
O fim do mundo como o conhecemos

Sei de saber empírico que o desejo de normalidade é uma das características humanas mais inatas. A normalidade – ou a sua busca – é central no conceito de beleza, de ordem social e até de progresso (ad contrarium). A inclinação para o normal é especialmente notória quando, precisamente, a realidade se afasta do normal; o retorno à normalidade é o paradigma que governa e dá coerência a cada paradigma cultural-científico.
Para quem olha para a realidade através da matemática, o conceito de “normalidade” exprime-se através da distribuição gaussiana – também conhecida por distribuição “Normal”. De acordo com a visão gaussiana do mundo, a ocorrência de eventos significativamente diferentes do “normal” são de muito baixa probabilidade, ou seja, raríssimos. Mais especificamente, a ocorrência de um evento que se afasta 3 desvios-padrão da média tem, segundo a distribuição “Normal”, uma probabilidade de ocorrência de 0,2%. Onde é que eu quero chegar; isto se ainda tiver algum leitor?
Desde a irrupção da crise financeira que a ocorrência de fenómenos que se afastam da média mais de 3 desvios-padrão (chamados eventos-sigma) – os tais extremamente raros – têm abundado. Por exemplo, quedas dos índices accionistas de magnitude que “supostamente” só ocorrem uma vez em 1 bilião de anos, repetiram-se amiúde no pináculo da crise, no final de 2008 e início de 2009; o mesmo se passou noutros segmento dos mercados financeiros e ao nível de outros fenómenos económicos. De forma análoga, nos últimos anos foi frequente a ocorrência de fenómenos naturais perfeitamente inconcebíveis à luz da visão gaussiana. Estou a pensar, na tempestade que assolou a Madeira, nos aluimentos de terras no Brasil, nas cheias da Austrália e, agora, no sismo+tsunami+acidente nuclear do Japão.
O que poderá significar a intensa recorrência de eventos que nunca eram supostos materializar-se?
A aproximação do fim do mundo?
Nããh...provavelmente traduz somente que a nossa realidade não é compatível com a simplicidade e conforto da concepção gaussiana da realidade; a tal que corporiza a ânsia humana pela “normalidade”.
Para quem olha para a realidade através da matemática, o conceito de “normalidade” exprime-se através da distribuição gaussiana – também conhecida por distribuição “Normal”. De acordo com a visão gaussiana do mundo, a ocorrência de eventos significativamente diferentes do “normal” são de muito baixa probabilidade, ou seja, raríssimos. Mais especificamente, a ocorrência de um evento que se afasta 3 desvios-padrão da média tem, segundo a distribuição “Normal”, uma probabilidade de ocorrência de 0,2%. Onde é que eu quero chegar; isto se ainda tiver algum leitor?
Desde a irrupção da crise financeira que a ocorrência de fenómenos que se afastam da média mais de 3 desvios-padrão (chamados eventos-sigma) – os tais extremamente raros – têm abundado. Por exemplo, quedas dos índices accionistas de magnitude que “supostamente” só ocorrem uma vez em 1 bilião de anos, repetiram-se amiúde no pináculo da crise, no final de 2008 e início de 2009; o mesmo se passou noutros segmento dos mercados financeiros e ao nível de outros fenómenos económicos. De forma análoga, nos últimos anos foi frequente a ocorrência de fenómenos naturais perfeitamente inconcebíveis à luz da visão gaussiana. Estou a pensar, na tempestade que assolou a Madeira, nos aluimentos de terras no Brasil, nas cheias da Austrália e, agora, no sismo+tsunami+acidente nuclear do Japão.
O que poderá significar a intensa recorrência de eventos que nunca eram supostos materializar-se?
A aproximação do fim do mundo?
Nããh...provavelmente traduz somente que a nossa realidade não é compatível com a simplicidade e conforto da concepção gaussiana da realidade; a tal que corporiza a ânsia humana pela “normalidade”.
Interesse nacional pelas "ruas da amargura"...
1.Continuo a ter extrema dificuldade em entender o cenário de crise que o Governo resolveu encomendar, apesar de nos encontrarmos em período Quaresmal...não tinha a noção, confesso, que os responsáveis governamentais em exercício fossem crentes tão fervorosos ao ponto de decidirem auto-flagelar-se e punir-nos a nós, cidadãos contribuintes e indefesos, de forma tão cruel...
2.Começo por não entender a súbita necessidade de medidas adicionais de contenção orçamental em 2011 (0,8% do PIB segundo li) quando nos tinha sido afirmado imediatamente antes, em tom intensamente festivo, que a execução orçamental de 2011 estava a correr muitíssimo bem nos dois primeiros meses...
3.Acontece que o compromisso do OE/2011 aponta para um défice de 4,6% do PIB e não de 3,8% - e se os dados disponíveis da execução, a merecerem crédito, sugerem com elevado grau de confiança que esse objectivo vai ser atingido, onde está a lógica das medidas adicionais já em 2011?
4.Se os dados da execução orçamental não merecem crédito, então precisamos, urgentemente, de conhecer a verdade, antes de avaliar qualquer outro PEC...
5.Mas também o anúncio de medidas de contenção adicionais para 2012 se afigura anormalmente prematuro.
6.Com efeito, a apresentação de medidas adicionais de contenção para 2012, caso sejam efectivamente necessárias – e o bom senso manda não excluir - fariam bem mais sentido algures em Outubro próximo, acompanhando a proposta de Orçamento para o próximo ano e tendo em conta os resultados já conhecidos de 9 meses de execução em 2011.
7.Apresentar medidas adicionais para 2012, não existindo nesta altura informação necessária e suficiente para avaliar a necessidade e justeza das medidas anunciadas, pode vir a revelar-se um erro crasso, por excesso ou por defeito (mais grave esta hipótese que obrigará a mais um PEC...).
8.E toda esta teoria de incongruências emerge inevitavelmente amarrada, ferozmente amarrada, a um decantado “interesse nacional”...mas que interesse nacional?
9. É caso para perguntar: é o mesmo “interesse nacional” que justifica a agonia interminável do BPN, a teimosia enigmática no TGV e que continuemos a financiar-nos a custos exorbitantes só para poder afirmar, enganando os cidadãos, que não precisamos de ajuda externa?...
10.Não precisamos de ajuda externa e estamos totalmente dependentes da ajuda do BCE sem cujo ventilador pereceremos asfixiados?...
11.Anda mesmo pelas “ruas da amargura”, este pobre interesse nacional!
2.Começo por não entender a súbita necessidade de medidas adicionais de contenção orçamental em 2011 (0,8% do PIB segundo li) quando nos tinha sido afirmado imediatamente antes, em tom intensamente festivo, que a execução orçamental de 2011 estava a correr muitíssimo bem nos dois primeiros meses...
3.Acontece que o compromisso do OE/2011 aponta para um défice de 4,6% do PIB e não de 3,8% - e se os dados disponíveis da execução, a merecerem crédito, sugerem com elevado grau de confiança que esse objectivo vai ser atingido, onde está a lógica das medidas adicionais já em 2011?
4.Se os dados da execução orçamental não merecem crédito, então precisamos, urgentemente, de conhecer a verdade, antes de avaliar qualquer outro PEC...
5.Mas também o anúncio de medidas de contenção adicionais para 2012 se afigura anormalmente prematuro.
6.Com efeito, a apresentação de medidas adicionais de contenção para 2012, caso sejam efectivamente necessárias – e o bom senso manda não excluir - fariam bem mais sentido algures em Outubro próximo, acompanhando a proposta de Orçamento para o próximo ano e tendo em conta os resultados já conhecidos de 9 meses de execução em 2011.
7.Apresentar medidas adicionais para 2012, não existindo nesta altura informação necessária e suficiente para avaliar a necessidade e justeza das medidas anunciadas, pode vir a revelar-se um erro crasso, por excesso ou por defeito (mais grave esta hipótese que obrigará a mais um PEC...).
8.E toda esta teoria de incongruências emerge inevitavelmente amarrada, ferozmente amarrada, a um decantado “interesse nacional”...mas que interesse nacional?
9. É caso para perguntar: é o mesmo “interesse nacional” que justifica a agonia interminável do BPN, a teimosia enigmática no TGV e que continuemos a financiar-nos a custos exorbitantes só para poder afirmar, enganando os cidadãos, que não precisamos de ajuda externa?...
10.Não precisamos de ajuda externa e estamos totalmente dependentes da ajuda do BCE sem cujo ventilador pereceremos asfixiados?...
11.Anda mesmo pelas “ruas da amargura”, este pobre interesse nacional!
segunda-feira, 14 de março de 2011
A crise política no prós e contras

De repente veio-me à memória uma fita da banda desenhada da Mafalda, ela sentada muito quieta a brincar com um ar inocente e o Gui, o irmão pequeno, aos gritos desesperados. Chega a mãe e pergunta, mas o que é que aconteceu, Mafalda, porque é que o teu irmão está aos gritos? E ela, muito sonsa, respondeu: “ foi culpa dele, mãe, tudo começou quando ele reagiu!”
domingo, 13 de março de 2011
Diploma em feitiçaria

Salagadula mexicabula bibidibóbidibu
Junte-se tudo e teremos então bibibidibó bibidibó bibidu!
(palavras mágicas da fada madrinha da Cinderala quando tranforma a abóbora numa linda carruagem)
Junte-se tudo e teremos então bibibidibó bibidibó bibidu!
(palavras mágicas da fada madrinha da Cinderala quando tranforma a abóbora numa linda carruagem)
Leio na revista Sábado (p. 30) que abriu na Califórnia uma escola de feitiçaria, a primeira a obter reconhecimento de escola oficial. O curso dura sete anos e inclui no seu currículo de 16 disciplinas alquimia, cosmologia e artes de combater as forças do mal, matérias suficientemente atrativas para já se terem inscrito 735 alunos, entre adultos e menores de 18 anos. A isto se chama ter sentido de oportunidade, numa altura em que o mundo parece ter enlouquecido e não há ciência nem filosofia que atine com o rumo que deve tomar, a feitiçaria pode de facto ter uma palavra a dizer, diz o ditado que quando não há cão se caça com gato, o povo lá sabe que não se pode cruzar os braços. Admito que o sucesso imediato da proposta académica tenha beneficiado do êxito do Harry Potter mas ainda assim temos que lhes dar o benefício da dúvida e afinal seja apenas a resposta a uma lacuna do ensino formal, gravemente sentida. Talvez venham mesmo a ser as escolas do futuro, onde se aprende a ler nas estrelas, fazer contas ao contrário e apresentar resultados firmes, recorrer ao sentido oculto das palavras, e até, quem sabe, conseguir demonstrar que os elefantes que nos pareceu vermos a voar, são mesmo elefantes a voar… Sábios destas artes há muitos, com um saber de experiência feito que em breve poderá ter direito a diploma de reconhecimento de habilitações. Bibidibóbibidu!!
Incompetência e mentira
Perante o descalabro das contas de 2009 e do maior défice “democrático” de sempre, por razões eleitorais e que o Governo negou até ao fim, aconteceu o seguinte:
21 de Março de 2010: PEC 1. Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam não serem necessárias mais medidas restritivas e mais impostos.
16 de Junho de 2010: PEC 2. Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam não serem necessárias mais medidas restritivas e mais impostos.
10 de Outubro de 2010: PEC 3. Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam não serem necessárias mais medidas restritivas e mais impostos.
Dezembro de 2010: Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam a integração na Segurança Social do Fundo de Pensões da PT. Para disfarçar um défice descontrolado
Fevereiro de 2011: Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam que as contas públicas de Janeiro são um êxito total.
Março de 2011: Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam que as contas públicas de Fevereiro confirmam o êxito de Janeiro.
11 de Março de 2011: PEC IV. Sócrates e Teixeira dos Santos dizem que é para prevenir eventuais dificuldades orçamentais, negando os êxitos de Janeiro e Fevereiro.
Anúncio agora à socapa, em Bruxelas, sem dizer nada ao Parlamento, aos Partidos, excepto um telefonema apressado ao PSD e ao próprio Presidente da República.
21 de Março de 2010: PEC 1. Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam não serem necessárias mais medidas restritivas e mais impostos.
16 de Junho de 2010: PEC 2. Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam não serem necessárias mais medidas restritivas e mais impostos.
10 de Outubro de 2010: PEC 3. Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam não serem necessárias mais medidas restritivas e mais impostos.
Dezembro de 2010: Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam a integração na Segurança Social do Fundo de Pensões da PT. Para disfarçar um défice descontrolado
Fevereiro de 2011: Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam que as contas públicas de Janeiro são um êxito total.
Março de 2011: Sócrates e Teixeira dos Santos anunciam que as contas públicas de Fevereiro confirmam o êxito de Janeiro.
11 de Março de 2011: PEC IV. Sócrates e Teixeira dos Santos dizem que é para prevenir eventuais dificuldades orçamentais, negando os êxitos de Janeiro e Fevereiro.
Anúncio agora à socapa, em Bruxelas, sem dizer nada ao Parlamento, aos Partidos, excepto um telefonema apressado ao PSD e ao próprio Presidente da República.
Congelando pensões, mesmo dos mais humildes, mas mantendo despesas surpéfluas e inúteis. Aumentando o IVA, mesmo dos bens de 1ª necessidade, mas mantendo TGVs e similares.
Não acertam uma única previsão. Não falam verdade. Brincam connosco. Deixaram, há muito, de ser dignos de qualquer confiança.
Tinta mágica
Olho para a folha amarela do meu bloco de notas. Olho e vejo que esconde pensamentos fugidios. Tento agarrá-los mas não consigo, talvez porque não têm forma ou por não serem suficientes claros para que as palavras os possam registar.
Os pensamentos são como as pessoas, enfermam e gozam dos mesmos atributos, vícios e virtudes. Ultimamente, sinto a latejar na cabeça o conceito poder, o que me provoca dores de cabeça e mal-estar. O poder é algo intrínseco a muitas espécies, condicionando as relações e hierarquias entre animais tão díspares como os seres humanos. A par do “poder biológico”, tão bem visível nas lutas para que um elemento se torne no alfa, o homem adaptou-o, transformando-o no “poder cultural”. Hoje, em princípio, excetuando, eventualmente, uma ou outra comunidade primitiva que possa andar “perdida”, ninguém anda à cabeçada ou à pedrada para ser primum inter pares. Não. Hoje, o poder é uma manifestação eminentemente cultural, não obstante o uso de maquinaria de guerra, a opressão física e os atentados às liberdades individuais, comuns em muitas comunidades. Estas, afinal, revelam enorme capacidade de absorção do primitivismo biológico nas esferas política, social, religiosa e organizativa. Mesmo nas sociedades democráticas notam-se jogos e atitudes que pretendem condicionar os comportamentos dos outros. Não os matam, não os mandam para o exílio, não os encarceram, mas ameaçam-nos de várias maneiras, umas vezes dissimuladamente, outras não.
Os que desejam pugnar pelo desenvolvimento social, através da intervenção cívica, veem-se às vezes preteridos ou condicionados. Os resultados são visíveis, estagnação, falta de iniciativas, insucesso das medidas e ausência de progresso. Não quer dizer que o progresso, passe a redundância, não “progrida”! Claro que avança, mas muito lentamente, tão lentamente que demora anos para que possamos ver os resultados. Entretanto, as gerações ficam privadas do prazer e do direito de as usufruir. A única forma de acelerar o progresso e o desenvolvimento é através da participação cívica dos mais capazes. Mas é também necessário saber ver quais os benefícios e as vantagens das iniciativas e pugnar por elas e não andar a reboque da inércia política, muitas vezes atacada de mesquinhez, filha de um “poder” que, apesar de vestir da capa da cultura, não consegue esconder a sua origem biológica e irracional. Esta forma de manifestação do poder é uma triste realidade que acaba por prejudicar terceiros. Esquecem-se que o que está em primeiro lugar é o bem-estar dos outros, dos mais necessitados, dos que apostam nas suas capacidades, outorgando-lhes autoridade para responderem aos seus anseios mais do que legítimos. Mas não, muitos não fazem mais do que qualquer animal que, para obter a posição dominante, não têm qualquer rebuço em utilizar todas os estratagemas para derrotar os concorrentes, estratagemas que não obedecem a princípios éticos e à lealdade.
Animais que lutam pelo domínio da alcateia, da manada ou do bando são compreensíveis e revelam uma natureza própria. Nos humanos, esta força latente continua a manifestar-se, por vezes, com demasiado violência, através do poder politico. É mau, porque mesmo que ganhem, é um ganho transitório, cujo prazer se esvai em pouco tempo como a água entre os dedos. Ainda poderão ficar com alguma humidade residual, que depressa secará, assim como o próprio que, com o devido tempo, ficará seco de ideias e de vida sem ter contribuído para o bem-estar dos seus concidadãos.
O poder não deve ser autolátrico nem ser utilizado para satisfazer interesses individuais, mas sim para servir os que depositaram tão honrosa distinção. São poucos, pelos vistos, aqueles capazes de compreenderem o verdadeiro significado do poder.
E assim, a folha amarela do meu bloco de notas, subitamente, ficou recheada de algumas reflexões. Afinal, alguém teria utilizado tinta mágica, que, com o calor da alma, mostrou o que andava escondido...
Os pensamentos são como as pessoas, enfermam e gozam dos mesmos atributos, vícios e virtudes. Ultimamente, sinto a latejar na cabeça o conceito poder, o que me provoca dores de cabeça e mal-estar. O poder é algo intrínseco a muitas espécies, condicionando as relações e hierarquias entre animais tão díspares como os seres humanos. A par do “poder biológico”, tão bem visível nas lutas para que um elemento se torne no alfa, o homem adaptou-o, transformando-o no “poder cultural”. Hoje, em princípio, excetuando, eventualmente, uma ou outra comunidade primitiva que possa andar “perdida”, ninguém anda à cabeçada ou à pedrada para ser primum inter pares. Não. Hoje, o poder é uma manifestação eminentemente cultural, não obstante o uso de maquinaria de guerra, a opressão física e os atentados às liberdades individuais, comuns em muitas comunidades. Estas, afinal, revelam enorme capacidade de absorção do primitivismo biológico nas esferas política, social, religiosa e organizativa. Mesmo nas sociedades democráticas notam-se jogos e atitudes que pretendem condicionar os comportamentos dos outros. Não os matam, não os mandam para o exílio, não os encarceram, mas ameaçam-nos de várias maneiras, umas vezes dissimuladamente, outras não.
Os que desejam pugnar pelo desenvolvimento social, através da intervenção cívica, veem-se às vezes preteridos ou condicionados. Os resultados são visíveis, estagnação, falta de iniciativas, insucesso das medidas e ausência de progresso. Não quer dizer que o progresso, passe a redundância, não “progrida”! Claro que avança, mas muito lentamente, tão lentamente que demora anos para que possamos ver os resultados. Entretanto, as gerações ficam privadas do prazer e do direito de as usufruir. A única forma de acelerar o progresso e o desenvolvimento é através da participação cívica dos mais capazes. Mas é também necessário saber ver quais os benefícios e as vantagens das iniciativas e pugnar por elas e não andar a reboque da inércia política, muitas vezes atacada de mesquinhez, filha de um “poder” que, apesar de vestir da capa da cultura, não consegue esconder a sua origem biológica e irracional. Esta forma de manifestação do poder é uma triste realidade que acaba por prejudicar terceiros. Esquecem-se que o que está em primeiro lugar é o bem-estar dos outros, dos mais necessitados, dos que apostam nas suas capacidades, outorgando-lhes autoridade para responderem aos seus anseios mais do que legítimos. Mas não, muitos não fazem mais do que qualquer animal que, para obter a posição dominante, não têm qualquer rebuço em utilizar todas os estratagemas para derrotar os concorrentes, estratagemas que não obedecem a princípios éticos e à lealdade.
Animais que lutam pelo domínio da alcateia, da manada ou do bando são compreensíveis e revelam uma natureza própria. Nos humanos, esta força latente continua a manifestar-se, por vezes, com demasiado violência, através do poder politico. É mau, porque mesmo que ganhem, é um ganho transitório, cujo prazer se esvai em pouco tempo como a água entre os dedos. Ainda poderão ficar com alguma humidade residual, que depressa secará, assim como o próprio que, com o devido tempo, ficará seco de ideias e de vida sem ter contribuído para o bem-estar dos seus concidadãos.
O poder não deve ser autolátrico nem ser utilizado para satisfazer interesses individuais, mas sim para servir os que depositaram tão honrosa distinção. São poucos, pelos vistos, aqueles capazes de compreenderem o verdadeiro significado do poder.
E assim, a folha amarela do meu bloco de notas, subitamente, ficou recheada de algumas reflexões. Afinal, alguém teria utilizado tinta mágica, que, com o calor da alma, mostrou o que andava escondido...
Exemplos de uma crise europeia que é também uma crise de competência
O prolongamento deste ciclo de crise na Europa fica também a dever-se ao acumular de políticas erradas da UE, algumas verdadeiras aberrações cujo preço é agora pago com juro alto . Nunca entendi as medidas comunitárias que obrigavam à calibragem de produtos agrícolas, estimulando práticas anti-ambientais e de chocante desperdício de alimentos sadios, rejeitados por força da lei. As tensões inflacionistas que já se fazem sentir, em parte derivadas da escassez de produção de bens alimentares, começam agora a obrigar a inverter o absurdo.
Uma das mais medidas absurdas resulta da Política Comum das Pescas em vigor, que faz com que sejam devolvidas ao mar grandes quantidades do peixe capturado por se terem excedido as quotas, por os exemplares capturados não terem a dimensão mínima, mas também por se tratar de espécies de baixo consumo. Note-se que boa parte deste peixe é devolvido ao mar já morto. Só no Mar do Norte é rejeitado um milhão de toneladas de peixe em cada ano.
Ao que parece a UE irá revogar estas medidas na próxima 3ª feira. Vale mais tarde que nunca, é verdade. Mas exemplos destes depõem com um tremenda clareza sobre as causas de uma crise que sendo económica e financeira, também tem tudo a ver com a incompetência das lideranças políticas e técnicas europeias.
Há limites...
Das medidas de mais este pacote de austeridade consta o alargamento do congelamento das pensões a 2012 e 2013. Mais uma vez a austeridade vai atingir as classes mais desfavorecidas, já sacrificadas com os PEC anteriores.
A que título se pode aceitar que pensões baixas, nas quais se incluem as pensões de sobrevivência, não sejam actualizadas durante três anos, quando a inflação está a subir, o preço dos bens alimentares e o preço dos combustíveis estão a crescer?
O argumento de que todos têm que fazer sacrifícios não é aceitável. Há limites. Os sacrifícios devem ser repartidos por todos na proporção dos seus rendimentos e patrimónios e o Estado não se pode excluir deste processo porque são elevados os custos dos seus desperdícios.
Com que direito se socializam os custos das perdas da desalavancagem financeira em curso por aqueles que passam graves dificuldades e vivem da caridade alheia? Com efeito, é a mesma população que foi excluída da socialização dos benefícios da alavancagem financeira que nos conduziu à insolvência em que nos encontramos e que foi remetida à sua condição de pobreza e privação de bens essenciais da qual nunca saiu. Não haverá por aí uns “TGVs” que se pudessem adiar para evitar mais fome?
É por esta e por outras que teremos dificuldades acrescidas em vencermos a crise em que estamos mergulhados, porque antes da crise financeira o que temos é uma crise de princípios e valores.
O argumento de que todos têm que fazer sacrifícios não é aceitável. Há limites. Os sacrifícios devem ser repartidos por todos na proporção dos seus rendimentos e patrimónios e o Estado não se pode excluir deste processo porque são elevados os custos dos seus desperdícios.
Com que direito se socializam os custos das perdas da desalavancagem financeira em curso por aqueles que passam graves dificuldades e vivem da caridade alheia? Com efeito, é a mesma população que foi excluída da socialização dos benefícios da alavancagem financeira que nos conduziu à insolvência em que nos encontramos e que foi remetida à sua condição de pobreza e privação de bens essenciais da qual nunca saiu. Não haverá por aí uns “TGVs” que se pudessem adiar para evitar mais fome?
É por esta e por outras que teremos dificuldades acrescidas em vencermos a crise em que estamos mergulhados, porque antes da crise financeira o que temos é uma crise de princípios e valores.
sábado, 12 de março de 2011
O "pertuguês" dos Directores do Diário de Notícias
A Direcção do DN lança hoje dois ataques ao Presidente da República, através de artigos de opinião do seu Director, João Marcelino, e do seu Subdirector, Nuno Saraiva. Seriam terríficos, se alguém levasse em conta tal opinião. Mas não é essa opinião do DN que, por hoje, me interessa. O que eu quero é salientar os erros primários da prosa em que tal opinião se expressa. É que, se as opiniões podem ser diversas, as palavras que as traduzem têm uma única grafia. Atentar contra ela é um erro de português que, em tempos que já lá vão, era normalmente premiado com uma boa palmatoada.
João Marcelino, Director do DN, termina triunfantemente o seu artigo, Cavaco, Eanes e a Boa Fé, dizendo : “se ( referindo-se ao Presidente da República) pensa tudo aquilo que disse, e que o leva até a correr atrás das manifestações de jovens programadas para hoje, porque não demite o Governo?
João Marcelino confunde a conjunção causal porque com a preposição por e o pronome que. Por que não demite o Governo? Custa assim tanto a escrever?
E Nuno Saraiva, o Subdirector, em solidariedade com o chefe, cai no mesmo erro, pelo menos três vezes, no artigo Inconsequente que sou.
Porque incentivou e impôs um acordo entre o PS e o PSD… que, ele próprio, não hesitou em promulgar?
Porque... promulgou, por exemplo, em Abril de 2010, o decreto-lei do Governo que aprovou as bases de concessão do troço de TGV entre Caia e o Poceirão?
E porque não falou Cavaco Silva deste quadro negro em que estamos na campanha presidencial …?
O DN notabilizou-se por ter uma redacção que era um modelo de exigência e de escrita escorreita. E por nela terem feito carreira ilustres e prestigiados jornalistas, verdadeiros mestres da língua portuguesa. Alguns ainda pertencendo à redacção do DN.
João Marcelino, Director do DN, termina triunfantemente o seu artigo, Cavaco, Eanes e a Boa Fé, dizendo : “se ( referindo-se ao Presidente da República) pensa tudo aquilo que disse, e que o leva até a correr atrás das manifestações de jovens programadas para hoje, porque não demite o Governo?
João Marcelino confunde a conjunção causal porque com a preposição por e o pronome que. Por que não demite o Governo? Custa assim tanto a escrever?
E Nuno Saraiva, o Subdirector, em solidariedade com o chefe, cai no mesmo erro, pelo menos três vezes, no artigo Inconsequente que sou.
Porque incentivou e impôs um acordo entre o PS e o PSD… que, ele próprio, não hesitou em promulgar?
Porque... promulgou, por exemplo, em Abril de 2010, o decreto-lei do Governo que aprovou as bases de concessão do troço de TGV entre Caia e o Poceirão?
E porque não falou Cavaco Silva deste quadro negro em que estamos na campanha presidencial …?
O DN notabilizou-se por ter uma redacção que era um modelo de exigência e de escrita escorreita. E por nela terem feito carreira ilustres e prestigiados jornalistas, verdadeiros mestres da língua portuguesa. Alguns ainda pertencendo à redacção do DN.
Por certo que se sentiram hoje envergonhados, ao lerem a prosa dos Directores do órgão em que trabalharam ou ainda trabalham.
Portugal precário...
Foi uma adesão impressionante em todo o País. Mobilizou muita gente, associou pessoas de todas as gerações e de várias classes económicas e sociais.É o espelho de um Portugal à "rasca" e de um Portugal precário. À geração dos jovens temos que juntar outros grupos da população, designadamente os pensionistas, os desempregados, as pessoas e as famílias pobres, os trabalhadores precários ou as crianças carenciadas. Todos a braços com dificuldades económicas e privações, com problemas específicos, muitos sem esperança e ausência de perspectivas de mobilidade. E a estes grupos que representam uma parte muito significativa da população, há que juntar um País suspenso do futuro devido à gravidade das contas públicas e ao definhamento da actividade económica.
Mas a mobilização da “Geração à rasca” sendo uma expressão séria de insatisfação e intranquilidade, não deixa de ser, também, uma fonte de esperança e desejo de mudança. Mas depositar essa esperança no Estado - ouvi um manifestante afirmar - como a entidade que deve resolver todos os problemas não é o caminho. Com certeza que há políticas públicas erradas e que precisam de ser corrigidas. Mas ao Estado o que devemos exigir é que se redimensione e deixe de asfixiar a economia e a iniciativa privada e social e tenha condições para apoiar as pessoas que as circunstâncias da vida ditam necessidades que por si próprias não estão em condições de resolver. Sem crescimento económico e com um nível de endividamento nacional insustentável vamos continuar a empobrecer e ficaremos cada vez mais à "rasca". Depois do dia de hoje, fica a pergunta sobre como poderá/deverá ser aproveitada tanta energia para melhorar o futuro de Portugal?
Lê-se e dificilmente se acredita...
A apresentação do novo programa de austeridade a que teimam chamar de estabilidade e crescimento (o paradoxo não tem limites!), é o retrato do estado a que chegou o governo: estafado e disparatado. Vale a pena ler o que vem publicado oficialmente pelo ministério das finanças para perceber o grau do dislate. Nesse documento as trivialidades são o pecado menor. Tudo o resto, mais do que para pensar, só dá para chorar baixinho...
Uma amostra:
sexta-feira, 11 de março de 2011
FMI pela "porta do cavalo"
A única forma de evitar a "entrada" do FMI em Portugal é fazê-lo pela "porta do cavalo". Só dessa maneira conseguirá o estado português negociar condições de financiamento favoráveis com os seus parceiros europeus. Ora, introduzir o FMI dissimuladamente foi o que o ministro das finanças fez hoje de manhã, com a apresentação de um pacote de medidas quase decalcado daquele que apresentou a Grécia no ano passado, precisamente, como contrapartida do plano de financiamento "oferecido" pela UE e o FMI.
Para o governo, este foi um exercício de puro apego ao poder, porque este executivo já perdeu toda a credibilidade em matéria financeira, nos mercados financeiros e, parece-me, cada vez mais, junto da opinião pública portuguesa. Isto, independentemente do mérito das iniciativas anunciadas.
Para o governo, este foi um exercício de puro apego ao poder, porque este executivo já perdeu toda a credibilidade em matéria financeira, nos mercados financeiros e, parece-me, cada vez mais, junto da opinião pública portuguesa. Isto, independentemente do mérito das iniciativas anunciadas.
Questão técnica
A esta precisa hora as taxas de juro das OTs a 5 anos excedem em 0,5% as dos 10 anos (8,00% contra 7,60%). Ou seja, a taxa de juro exigida pelos investidores para deter dívida do estado português é superior para os prazos mais curtos do que para os mais longos. Parece uma contradição. Será?
O mundo em que vivemos...
Só podemos estar chocados, tristes e desejar que o Japão consiga superar esta grande tragédia.Por melhores que sejam as tecnologias, os meios de prevenção e a capacidade de resposta para resgatar vítimas e apoiar sobreviventes, a devastação provocada por um terramoto de grande amplitude como agora aconteceu, seguido de um tsunami de grandes proporções, é brutal.
O medo e o sofrimento merecem-nos todo o respeito e solidariedade. Não conseguimos verdadeiramente avaliar, mas percebemos a gravidade. As imagens transmitidas pelas televisões são terríveis. Oxalá que as consequências em termos humanos sejam menores.
Contas públicas: como entender este sobressalto?...
1.Depois do anúncio (precipitado?) de excelentes resultados com a execução orçamental dos 2 primeiros meses do ano, a prometer uma desejada bonança orçamental para 2011, eis que a “terra volta a tremer”...
2.Com efeito, fomos hoje brutalmente surpreendidos com o anúncio/promessa de nova vaga de medidas de austeridade:
- Novo corte em benefícios fiscais;
- Pensões de reforma acima de € 1.500 ficarão sujeitas a uma contribuição adicional (leia-se agravamento de IRS);
- Subsídio de desemprego terá de ser repensado;
- Despesas com medicamentos terão de ser reduzidas,
Etc, etc, etc
3.Lê-se, pasma-se, quase não se acredita: mas esta gente estará no seu perfeito juízo?
4.Mal começamos o ano e quando nos diziam que tudo estava a correr dentro das melhores previsões para a receita e a despesa orçamentais, vêm anunciar nova vaga de medidas de austeridade?
5.A que propósito? Será que as medidas em vigor afinal não são suficientes quando nos diziam que eram perfeitamente adequadas e até estavam a produzir resultados acima do previsto?
6.O que se passa afinal? Será que a notícia hoje publicada na edição alemão do Financial Times tem fundamento e criou uma situação de pânico?
7.Como entender esta confusão e este sobressalto súbito? E quando é que tudo isto acaba, antes de acabar connosco?
8.Por mim, confesso, tenho extraordinária dificuldade em entender esta súbita aflição!
2.Com efeito, fomos hoje brutalmente surpreendidos com o anúncio/promessa de nova vaga de medidas de austeridade:
- Novo corte em benefícios fiscais;
- Pensões de reforma acima de € 1.500 ficarão sujeitas a uma contribuição adicional (leia-se agravamento de IRS);
- Subsídio de desemprego terá de ser repensado;
- Despesas com medicamentos terão de ser reduzidas,
Etc, etc, etc
3.Lê-se, pasma-se, quase não se acredita: mas esta gente estará no seu perfeito juízo?
4.Mal começamos o ano e quando nos diziam que tudo estava a correr dentro das melhores previsões para a receita e a despesa orçamentais, vêm anunciar nova vaga de medidas de austeridade?
5.A que propósito? Será que as medidas em vigor afinal não são suficientes quando nos diziam que eram perfeitamente adequadas e até estavam a produzir resultados acima do previsto?
6.O que se passa afinal? Será que a notícia hoje publicada na edição alemão do Financial Times tem fundamento e criou uma situação de pânico?
7.Como entender esta confusão e este sobressalto súbito? E quando é que tudo isto acaba, antes de acabar connosco?
8.Por mim, confesso, tenho extraordinária dificuldade em entender esta súbita aflição!
quinta-feira, 10 de março de 2011
2.000.000
Dois milhões de acessos ao 4R.
Por aqui continuaremos enquanto nos quiserem acompanhar.
Aos meus colegas de aventura, responsáveis pelo interesse que este espaço tem suscitado, parabéns pelo êxito.
Aos comentadores e leitores o agradecimento pelo constante estímulo.
Porque são tão poucas?
Tenho a maior das dificuldades em aceitar que as mulheres ascendam administrativamente – através da imposição de um sistema de quotas - a lugares de topo, na política ou nas empresas, relegando para segundo plano o critério do mérito. É por assim dizer uma desqualificação para as mulheres ascenderem a cargos de topo por imposição da lei. Nestas circunstâncias a escolha das mulheres brindadas com este acesso só poderá obedecer a definições arbitrárias que não as dignificam.
Na Europa temos países a diversas velocidades nesta matéria. Enquanto na Noruega mais de 35% dos cargos de topo de empresas são ocupados por mulheres, em Portugal este indicador resume-se a 4%. O que estes números mostram é um contraste grande não apenas de mentalidade, mas também na abordagem que é feita ao valor da diversidade do género, por quanto sabemos que sendo os homens e as mulheres diferentes todos perdemos se não formos capazes de uma representação equilibrada que favoreça a complementaridade.
Na Europa temos países a diversas velocidades nesta matéria. Enquanto na Noruega mais de 35% dos cargos de topo de empresas são ocupados por mulheres, em Portugal este indicador resume-se a 4%. O que estes números mostram é um contraste grande não apenas de mentalidade, mas também na abordagem que é feita ao valor da diversidade do género, por quanto sabemos que sendo os homens e as mulheres diferentes todos perdemos se não formos capazes de uma representação equilibrada que favoreça a complementaridade.
Nunca ouve tantas mulheres, como agora, com qualificações superiores. Hoje estão em maioria nas universidades e começam a ter um grande peso em determinadas profissões, como por exemplo na magistratura, na docência, na investigação, em certas especialidades médicas ou em actividades de apoio social.
Porque é que as mulheres não chegam aos lugares de topo? Poderá em parte ser explicado pela mentalidade machista, mas terá também que ver com a cultura instalada que não é favorável a que as mulheres lutem por essas posições. Será que estes problemas se resolvem com quotas?
Concordo com a comissária europeia quando diz que em tempos de dificuldades económicas faz todo o sentido ir buscar mulheres para ocuparem lugares de topo porque não estamos em época de desperdiçar o capital humano disponível.
A ascensão das mulheres a estes cargos será, tudo indica, um processo lento, mas imparável. Será que se justifica, pelos benefícios que advêm da diversidade, que este processo seja acelerado com a introdução obrigatória de quotas? Porque não, uma via intermédia em que fossem estabelecidas recomendações para uma maior representatividade das mulheres, que seriam seguidas ou não pelas empresas e entidades públicas, sujeitando-se posteriormente, com a necessária publicitação, ao reconhecimento ou sanção sociais?
Qualquer que seja a via, o importante é que os lugares sejam desempenhados pelos melhores, homens e mulheres, pelas qualificações e capacidades que detêm para desempenharem bem as funções.
O tema parece estar, também, na agenda política nacional. Se está, que haja prudência nas decisões, porque igualdades artificiais não muito obrigada...
Qualquer que seja a via, o importante é que os lugares sejam desempenhados pelos melhores, homens e mulheres, pelas qualificações e capacidades que detêm para desempenharem bem as funções.
O tema parece estar, também, na agenda política nacional. Se está, que haja prudência nas decisões, porque igualdades artificiais não muito obrigada...
Discurso presidencial - masoquismo governamental?
1.Entre as reacções governamentais e de opinadores afins, de cavada insatisfação, ao já ultra-comentado discurso de posse do Presidente da República, merece realce a queixa pelo facto de o Presidente não se ter referido à “situação internacional” – pretendendo com isto significar que essa referência teria amenizado a dureza das críticas ínsitas no discurso.
2.Parece-me que está aqui uma prova – mais uma prova aliás – da falta de realismo que os responsáveis governamentais têm exibido com crescente intensidade à medida que o tempo vai passando e os cenários-rosa que se habituaram a alimentar vão caindo, uns atrás dos outros, sob a influência nefasta dos ventos gelados que sopram dos mercados financeiros...
3.Com efeito, a referência à situação internacional, nesta altura dos acontecimentos, só poderia agravar, em vez de amenizar, a dimensão da crítica, ao contrário do que pretendem os responsáveis governamentais...
4.Não nos podemos esquecer do facto de, em 2010 em especial, o desempenho da economia portuguesa ter beneficiado significativamente do crescimento dos principais mercados de destino das nossas exportações: Alemanha (+16,4%), Espanha (+13,1%), França (+9,9%), Reino Unido (+10,7%), Holanda (+22,1%), Itália (+15,9%), EUA (+31,7%).
5.Os números indicados entre () referem-se ao crescimento das exportações de mercadorias portuguesas, em 2010, para cada um daqueles mercados, as quais contribuiram, de forma decisiva, para manter o PIB a flutuar...
6.E o próprio Governo ainda recentemente se ufanou, até à saciedade como é sabido, deste crescimento das exportações - como se lhe devesse o mérito desse desempenho, quando na verdade esse desempenho se ficou a dever (i) à recuperação das economias externas que são nossas parceiras comerciais e (ii) ao esforço das empresas nacionais para se manterem competitivas.
7.Será que o Governo já se esqueceu desse sucesso com as exportações, de forma tão entusiástica celebrado por exemplo no Congresso das Exportações há pouco mais de 15 dias? E terá o Governo a ousadia de admitir que tal sucesso teria sido possível sem a ajuda da “situação internacional”?
8. É curioso como se vão alterando as opiniões (não digo convicções pois convicções parece só existir a de fugir à realidade...) tal como o camaleão muda de cor à medida que vai mudando a sua base de apoio...
9.Neste caso, ao lamentar que o Presidente tivesse esquecido a situação internacional, o Governo evidencia até uma ponta de masoquismo, pois o Presidente poderia ter concluído o seu discurso nos seguintes termos: “E tudo isto apesar da ajuda que recebemos da situação internacional em 2010 e que continuamos a receber ...bem pior seria a nossa situação sem essa ajuda...”.
2.Parece-me que está aqui uma prova – mais uma prova aliás – da falta de realismo que os responsáveis governamentais têm exibido com crescente intensidade à medida que o tempo vai passando e os cenários-rosa que se habituaram a alimentar vão caindo, uns atrás dos outros, sob a influência nefasta dos ventos gelados que sopram dos mercados financeiros...
3.Com efeito, a referência à situação internacional, nesta altura dos acontecimentos, só poderia agravar, em vez de amenizar, a dimensão da crítica, ao contrário do que pretendem os responsáveis governamentais...
4.Não nos podemos esquecer do facto de, em 2010 em especial, o desempenho da economia portuguesa ter beneficiado significativamente do crescimento dos principais mercados de destino das nossas exportações: Alemanha (+16,4%), Espanha (+13,1%), França (+9,9%), Reino Unido (+10,7%), Holanda (+22,1%), Itália (+15,9%), EUA (+31,7%).
5.Os números indicados entre () referem-se ao crescimento das exportações de mercadorias portuguesas, em 2010, para cada um daqueles mercados, as quais contribuiram, de forma decisiva, para manter o PIB a flutuar...
6.E o próprio Governo ainda recentemente se ufanou, até à saciedade como é sabido, deste crescimento das exportações - como se lhe devesse o mérito desse desempenho, quando na verdade esse desempenho se ficou a dever (i) à recuperação das economias externas que são nossas parceiras comerciais e (ii) ao esforço das empresas nacionais para se manterem competitivas.
7.Será que o Governo já se esqueceu desse sucesso com as exportações, de forma tão entusiástica celebrado por exemplo no Congresso das Exportações há pouco mais de 15 dias? E terá o Governo a ousadia de admitir que tal sucesso teria sido possível sem a ajuda da “situação internacional”?
8. É curioso como se vão alterando as opiniões (não digo convicções pois convicções parece só existir a de fugir à realidade...) tal como o camaleão muda de cor à medida que vai mudando a sua base de apoio...
9.Neste caso, ao lamentar que o Presidente tivesse esquecido a situação internacional, o Governo evidencia até uma ponta de masoquismo, pois o Presidente poderia ter concluído o seu discurso nos seguintes termos: “E tudo isto apesar da ajuda que recebemos da situação internacional em 2010 e que continuamos a receber ...bem pior seria a nossa situação sem essa ajuda...”.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Cego, desgraçadamente cego, é aquele que não quer ver
«Julgo que não foi um discurso próprio de um Presidente de todos os portugueses, foi mais um discurso de facção, um discurso sectário». Esta foi a reacção do PS pela voz do líder do seu grupo parlamentar. Confesso que me surpreendeu. Esperava do PS uma reacção diplomática, ensaiada, nunca este libelo acusatório particularmente grave porque lançado num momento em que acabou de tomar posse o presidente que a maioria dos portugueses escolheu.
As palavras de Francisco Assis, normalmente contidas, dão ideia do estado de absoluta cegueira do actual PS. O discurso do PR fez um diagnóstico que ninguém se atreverá a desmentir e apelou ao despertar da sociedade civil como compete ao chefe do Estado. Cruel para o Governo? Sim, mas só na medida em que a realidade a que fomos conduzidos é ela própria cruel.
Posso, porém, admitir que as palavras de Assis tenham sido premeditadas. Prenunciam, então, o que aí virá. Se foi assim, então o PS escolheu a via da dramatização. Não querendo o PS admitir que é vítima de si próprio e não podendo fazer-se vítima do PSD que lhe deu a mão nos momentos decisivos, está à vista que a confrontação será com o PR numa perspectiva de inevitáveis eleições a prazo.
Reacção a quente ou premeditada, fica claro que o PS não entendeu a mensagem no contexto da gravíssima situação em que se encontra o País.
Falta perceber se o PSD entendeu.
Foi um discurso verdadeiro...
O Presidente da República fez um discurso claro, duro e inconformado com a situação muito difícil em que o País se encontra. Foi um discurso que falou verdade, que introduziu o tema da crise de valores, que colocou as pessoas no centro das atenções, apelando a um sobressalto de intervenção da sociedade civil e à mobilização dos jovens como protagonistas da mudança. Foi um discurso corajoso e esperançoso.
“ (...) A nossa sociedade não pode continuar adormecida perante os desafios que o futuro lhe coloca. É necessário que um sobressalto cívico faça despertar os Portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos.
O País terá muito a ganhar se os Portugueses, associados das mais diversas formas, participarem mais activamente na vida colectiva, afirmando os seus direitos e deveres de cidadania e fazendo chegar a sua voz aos decisores políticos. Este novo civismo da exigência deve construir-se, acima de tudo, como um civismo de independência face ao Estado.
Em vários sectores da vida nacional, com destaque para o mundo das empresas, emergiram nos últimos anos sinais de uma cultura altamente nociva, assente na criação de laços pouco transparentes de dependência com os poderes públicos, fruto, em parte, das formas de influência e de domínio que o crescimento desmesurado do peso do Estado propicia.
É uma cultura que tem de acabar. Deve ser clara a separação entre a esfera pública das decisões colectivas e a esfera privada dos interesses particulares.
Os cidadãos devem ter a consciência de que é preciso mudar, pondo termo à cultura dominante nas mais diversas áreas. Eles próprios têm de mudar a sua atitude, assumindo de forma activa e determinada um compromisso de futuro que traga de novo a esperança às gerações mais novas.
É altura dos Portugueses despertarem da letargia em que têm vivido e perceberem claramente que só uma grande mobilização da sociedade civil permitirá garantir um rumo de futuro para a legítima ambição de nos aproximarmos do nível de desenvolvimento dos países mais avançados da União Europeia.
Esta é uma tarefa de todos, cada um tem de assumir as suas próprias responsabilidades. É essencial que exista uma união de esforços, em que cada português se sinta parte de um todo mais vasto e realize o quinhão que lhe cabe.
Necessitamos de recentrar a nossa agenda de prioridades, colocando de novo as pessoas no fulcro das preocupações colectivas. Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático. Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI. Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo. Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.
A pessoa humana tem de estar no centro da acção política. Os Portugueses não são uma estatística abstracta. Os Portugueses são pessoas que querem trabalhar, que aspiram a uma vida melhor para si e para os seus filhos. Numa República social e inclusiva, há que dar voz aos que não têm voz.
No momento que atravessamos, em que à crise económica e social se associa uma profunda crise de valores, há que salientar o papel absolutamente nuclear da família. A família é um espaço essencial de realização da pessoa humana e, em tempos difíceis, constitui o último refúgio e amparo com que muitos cidadãos podem contar. A família é o elemento agregador fundamental da sociedade portuguesa e, como tal, deve existir uma política activa de família que apoie a natalidade, que proteja as crianças e garanta o seu desenvolvimento, que combata a discriminação dos idosos, que aprofunde os elos entre gerações.
O exercício de funções públicas deve ser prestigiado pelos melhores, o que exige que as nomeações para os cargos dirigentes da Administração sejam pautadas exclusivamente por critérios de mérito e não pela filiação partidária dos nomeados ou pelas suas simpatias políticas.
A coesão entre as gerações representa um importante activo de que Portugal ainda dispõe. Os jovens não podem ver o seu futuro adiado devido a opções erradas tomadas no presente. É nosso dever impedir que aos jovens seja deixada uma pesada herança, feita de dívidas, de encargos futuros, de desemprego ou de investimento improdutivo.
O exemplo que temos de dar às gerações mais novas é o exemplo de uma cultura onde o mérito, a competência, o trabalho e a ética de serviço público sejam valorizados. Entre as novas gerações, Portugal dispõe de recursos humanos altamente qualificados. Se nada fizermos, os nossos melhores jovens irão fixar-se no estrangeiro, processo que, aliás, já começa a tornar-se visível.
É fundamental que a sociedade portuguesa seja despertada para a necessidade de um novo modo de acção política que consiga atrair os jovens e os cidadãos mais qualificados. O afastamento dos jovens em relação à actividade política não significa desinteresse pelos destinos do País; o que acontece, isso sim, é que muitos jovens não se revêem na actual forma de fazer política nem confiam que, a manter-se o actual estado de coisas, Portugal seja um espaço capaz de realizar as suas legítimas ambições. Precisamos de gestos fortes que permitam recuperar a confiança dos jovens nos governantes e nas instituições.
Seria extremamente positivo que os jovens se assumissem como protagonistas da mudança, participando de forma construtiva, e que as instituições da nossa democracia manifestassem abertura para receber o seu contributo. A geração mais jovem deve ser vista como parte da solução dos nossos problemas.
Numa sociedade que valoriza o mérito, a educação é o elemento-chave da mobilidade social. Aqueles que dispõem de menores recursos, mas que revelem méritos e capacidades, têm de ser apoiados, para que não se aprofundem situações intoleráveis de desigualdade entre os Portugueses.
Temos de despertar toda a sociedade para a importância do investimento na excelência da nossa educação. Todos os estabelecimentos de ensino que se destaquem pelos seus resultados têm de merecer o reconhecimento da sociedade e do Estado. Só assim se cumprirá o ideal de premiar o mérito que norteou a nossa República centenária. (...)"
Portugal, 2011
Em Portugal, 2011, as autoridades permitem que processos judiciais sirvam de material para fazer fogueiras. O ministério da justiça, como sempre, descarta responsabilidades. Aliás, não há, não haverá quem as assuma. Denunciado o caso nos media, certamente teremos mais um inquérito, cujo processo a que dará origem terá o mesmo destino de muitos: a fogueira da indiferença de um Estado que antes de perder o crédito lá fora, há muito o perdeu cá dentro perante os seus cidadãos.
Face a isto, é de levar a sério quem, do alto da sua ciência, insiste na treta de que os problemas da justiça residem na lei?
terça-feira, 8 de março de 2011
Vida extraterrestre
Houve tempo em que olhar para o céu, à noite, era sinónimo de um dos espetáculos mais magnificentes a que se pode assistir, o lucilar de milhares de estrelas. Na altura, de joelhos na cama, cotovelos no parapeito da janela de guilhotina, e com as mãos a segurar a cabeça, perdia o meu olhar de águia naquela imensidão. Ensinaram-me que as estrelas não se mexiam, apenas tremeluziam, enquanto os planetas corriam o céu sempre com o mesmo aspeto. – Olha para ali, está a ver? Parece também uma estrela, grande, mas não é. Daqui a pouco já está noutro sítio. É um planeta. Não me disseram como é que se chamava, mas também não me importei. Pus-me a olhar. Demorou muito a mudar de posição. A noção que tinha do tempo em miúdo era muito diferente. Durante as noites de verão, gostava de o procurar. Como nós vivíamos num planeta, não me foi difícil concluir que, também, deveria ser habitado por pessoas. Imaginava meninos às janelas dos seus quartos a espiolharem o céu, tal como eu fazia. Também a Lua me seduzia. Diziam-me que era habitada, e eu acreditava, mas nunca me disseram qual o aspeto dos seus habitantes. Depois cresci, e aprendi que muito dificilmente poderia haver vida igual à que existia no nosso planeta. Mas sempre acreditei que teria de haver vida “lá fora”. Não tinha ainda entrado na adolescência quando comecei a ouvir rádio na expectativa de escutar sinais enviados para o nosso planeta por civilizações extraterrestres, recomendação feita na época! Eu ouvia ruídos, de facto, mas eram os próprios das ondas média e curta, uma espécie de SETI radiofónico!
A procura de vida noutros planetas é uma velha aspiração humana. Há quem não acredite ou não a queira aceitar, porque isso poderia ter um efeito devastador na ordem “humana” de ver as coisas. Ao longo da existência já ocorreram situações que acabaram por demolir conceitos e certezas absolutas, bases de estruturas e de domínios sociais, políticos e religiosos que não deixaram saudades. Se fosse possível demonstrar a existência de vida fora deste planeta, e se parte dela correspondesse a vida “inteligente”, talvez pudéssemos rever muito das nossas características e comportamentos. Teríamos assim o grato prazer de sermos relegados para posições mais secundárias, mais humildes, perdendo muito da arrogância que alardeamos constantemente.
A notícia da publicação de um artigo de um eminente astrobiólogo sobre a existência de fósseis extraterrestres em meteoritos veio, mais uma vez, despertar a atenção para estes problemas. Há poucos anos, um outro estudo pretendeu demonstrar a existência de fósseis de bactérias numa rocha vinda de Marte. O presente artigo está em discussão e apreciação pela comunidade científica internacional. Já começaram a chover as contestações, como seria de esperar. Muitos dos que contestam, não põem em causa a hipótese de que as moléculas de vida possam ter chegado à Terra à boleia, mas sim as evidências científicas do autor do artigo.
A ideia de mundos infinitos em que existiria vida inteligente, como na Terra, não é de agora, Giordano Bruno já a tinha defendido com base nos trabalhos de vários pensadores. Até o próprio Vaticano, ou melhor, o diretor do Observatório Astronómico da cidade estado já afirmou, e mais do que uma vez, estar convencido da existência de vida extraterrestre e que não há qualquer problema de incompatibilidade com a visão terrena da criação do universo. Pelo menos é uma boa notícia, não há riscos de serem acionados quaisquer mecanismos inquisitoriais. Giordano teria agradecido, como é óbvio. O pior é se os tais seres têm visões cosmogónicas diferentes das nossas. Sim, eu sei, estamos muito longe desse momento o que permite folgar as costas de muitos responsáveis, mas que eu gostava de ver, ai isso gostava...
A procura de vida noutros planetas é uma velha aspiração humana. Há quem não acredite ou não a queira aceitar, porque isso poderia ter um efeito devastador na ordem “humana” de ver as coisas. Ao longo da existência já ocorreram situações que acabaram por demolir conceitos e certezas absolutas, bases de estruturas e de domínios sociais, políticos e religiosos que não deixaram saudades. Se fosse possível demonstrar a existência de vida fora deste planeta, e se parte dela correspondesse a vida “inteligente”, talvez pudéssemos rever muito das nossas características e comportamentos. Teríamos assim o grato prazer de sermos relegados para posições mais secundárias, mais humildes, perdendo muito da arrogância que alardeamos constantemente.
A notícia da publicação de um artigo de um eminente astrobiólogo sobre a existência de fósseis extraterrestres em meteoritos veio, mais uma vez, despertar a atenção para estes problemas. Há poucos anos, um outro estudo pretendeu demonstrar a existência de fósseis de bactérias numa rocha vinda de Marte. O presente artigo está em discussão e apreciação pela comunidade científica internacional. Já começaram a chover as contestações, como seria de esperar. Muitos dos que contestam, não põem em causa a hipótese de que as moléculas de vida possam ter chegado à Terra à boleia, mas sim as evidências científicas do autor do artigo.
A ideia de mundos infinitos em que existiria vida inteligente, como na Terra, não é de agora, Giordano Bruno já a tinha defendido com base nos trabalhos de vários pensadores. Até o próprio Vaticano, ou melhor, o diretor do Observatório Astronómico da cidade estado já afirmou, e mais do que uma vez, estar convencido da existência de vida extraterrestre e que não há qualquer problema de incompatibilidade com a visão terrena da criação do universo. Pelo menos é uma boa notícia, não há riscos de serem acionados quaisquer mecanismos inquisitoriais. Giordano teria agradecido, como é óbvio. O pior é se os tais seres têm visões cosmogónicas diferentes das nossas. Sim, eu sei, estamos muito longe desse momento o que permite folgar as costas de muitos responsáveis, mas que eu gostava de ver, ai isso gostava...
A recompensa

Aqui vos deixo, muito orgulhosa, o pequeno êxito que consegui este ano no meu jardim, umas lindas túlipas que comprei em Amsterdão, teimando em que, desta vez, haviam de dar resultado. Cuidar de um jardim é uma aprendizagem permanente, exige uma disciplina e uma persistência que tantas vezes nos falta quando temos que realizar um trabalho em que a nossa capacidade é posta à prova.
Em primeiro lugar é preciso planear a tempo, não serve de nada trazer as plantas e pô-las na terra quando já passou a época em que elas podem ganhar força para crescer, a decisão a tempo é fundamental.
Depois, não serve de nada ir enterrar os bolbos ou plantar as estacas onde nós achamos que eles ficariam mais bonitos à nossa vista, cada planta tem as suas potencialidades e elas só se manifestam se foram postas no ambiente que lhes convém, com sol, com sombra, ao abrigo do vento e da chuva, com terra boa ou menos adubada, enfim, há que avaliar bem se lhes estamos a dar as condições de que elas precisam para florir.
Além disso dá um trabalhão preparar o local, no caso destas lindas (e poucas) túlipas gastei uma bela tarde a cavar o canteiro, a tirar pedras e ervas daninhas, depois comprei terra adequada para encher o espaço, medi as distâncias e por fim enterrei-as como manda a lei, dimensão e profundidade.
Faltava depois cobrir a terra com aquelas cascas de pinheiro para que se conservasse o frio o tempo suficiente para elas se habituarem, ficaram ali ao abrigo por causa de um muro e com a sombra nas horas mais quentes porque há uma árvora grande que as protege do sol mais forte.
Esperar que apareçam também tem os seus quês, não basta ficar descansado, é preciso ampará-las, chegar a terra ao caule para não vergarem com os primeiros ventos. Só depois de todo um trabalho de selecção, de preparação, de coaching e de estímulo com umas gotas de adubo, é que temos o direito de esperar que elas floresçam em cumprimento da promessa que encerravam.
E é um prazer incomparável vê-las um dia a desabrochar, a pintar o canteiro com as suas cores únicas e, finalmente, a recompensar-nos largamente das horas e horas de dedicação que nos mereceram.
Tenho que confessar que tudo isto é comprovado com outros tantos falhanços, como aconteceu com outros bolbos que também trouxe e que fui tratar quando já era quase noite, na pressa de acabar tudo naquele dia, e a minhas mãos já não estavam para mais esforços. Fui mais preguiçosa e facilitei em vários dos passos que eram precisos, o resultado é que os bolbos eram tão lindos como estes mas as flores ficaram pequenas, muito franzinas e, quando as fui recriminar por não terem ficado tão elegantes como as suas conterrâneas, deitaram-me um ar amuado e inclinaram-se para o canteiro, não tive outro remédio senão seguir o gesto e reparar na terra dura a apertá-los, nas folhas tenras roídas pelos bicharocos rasteiros e nas ervas daninhas a fazer-lhes ameaças.
As plantas são como as pessoas, 10% de inspiração e 90% de transpiração, bem orientadas e acarinhadas, com atenção ao que precisam em vez de submetidas ao que apenas nos interessa, florescem que é um regalo!
Em primeiro lugar é preciso planear a tempo, não serve de nada trazer as plantas e pô-las na terra quando já passou a época em que elas podem ganhar força para crescer, a decisão a tempo é fundamental.
Depois, não serve de nada ir enterrar os bolbos ou plantar as estacas onde nós achamos que eles ficariam mais bonitos à nossa vista, cada planta tem as suas potencialidades e elas só se manifestam se foram postas no ambiente que lhes convém, com sol, com sombra, ao abrigo do vento e da chuva, com terra boa ou menos adubada, enfim, há que avaliar bem se lhes estamos a dar as condições de que elas precisam para florir.
Além disso dá um trabalhão preparar o local, no caso destas lindas (e poucas) túlipas gastei uma bela tarde a cavar o canteiro, a tirar pedras e ervas daninhas, depois comprei terra adequada para encher o espaço, medi as distâncias e por fim enterrei-as como manda a lei, dimensão e profundidade.
Faltava depois cobrir a terra com aquelas cascas de pinheiro para que se conservasse o frio o tempo suficiente para elas se habituarem, ficaram ali ao abrigo por causa de um muro e com a sombra nas horas mais quentes porque há uma árvora grande que as protege do sol mais forte.
Esperar que apareçam também tem os seus quês, não basta ficar descansado, é preciso ampará-las, chegar a terra ao caule para não vergarem com os primeiros ventos. Só depois de todo um trabalho de selecção, de preparação, de coaching e de estímulo com umas gotas de adubo, é que temos o direito de esperar que elas floresçam em cumprimento da promessa que encerravam.
E é um prazer incomparável vê-las um dia a desabrochar, a pintar o canteiro com as suas cores únicas e, finalmente, a recompensar-nos largamente das horas e horas de dedicação que nos mereceram.
Tenho que confessar que tudo isto é comprovado com outros tantos falhanços, como aconteceu com outros bolbos que também trouxe e que fui tratar quando já era quase noite, na pressa de acabar tudo naquele dia, e a minhas mãos já não estavam para mais esforços. Fui mais preguiçosa e facilitei em vários dos passos que eram precisos, o resultado é que os bolbos eram tão lindos como estes mas as flores ficaram pequenas, muito franzinas e, quando as fui recriminar por não terem ficado tão elegantes como as suas conterrâneas, deitaram-me um ar amuado e inclinaram-se para o canteiro, não tive outro remédio senão seguir o gesto e reparar na terra dura a apertá-los, nas folhas tenras roídas pelos bicharocos rasteiros e nas ervas daninhas a fazer-lhes ameaças.
As plantas são como as pessoas, 10% de inspiração e 90% de transpiração, bem orientadas e acarinhadas, com atenção ao que precisam em vez de submetidas ao que apenas nos interessa, florescem que é um regalo!
Antes de ir às compras...
Ouvi há dias, numa das quotidianos reportagens sobre a crise, um cidadão declarar tristemente que já não vai aos centros comerciais porque como não pode comprar não suporta a infelicidade que lhe dá ver tantas coisas que gostaria de ter e já não estão ao seu alcance.
Lemos alternadamente que a única saída para a crise é o crescimento das economias, mais produção, mais exportação, mais consumo e que é impossível continuarmos a crescer a este ritmo, o que seria se os chineses, os africanos, os indianos e todos os países e classes sociais que ainda não conheceram as delícias do bem estar material europeu pudessem produzir e aumentar os seus PIBs e indicadores de riqueza? O impacto humano seria catastrófico, os recursos naturais estão em delapidação selvagem, os terrenos aráveis não chegam para produzir os alimentos de que necessitam 7 biliões de pessoas...As revoluções sociais já visíveis a olho nu reclamam isso mesmo, mais riqueza, mais bem estar, o direito ao acesso a tudo aquilo que é ainda o modelo das sociedades da felicidade individual e da liberdade, e a resposta é a medição rigorosa da riqueza que cada um produz e o preço a que vendem os que têm as matérias primas necessárias a essa produção. Durante quanto tempo conseguiremos aumentar a produção desta “riqueza” que levou à loucura das bolhas imobiliárias, das fortunas assombrosas, dos defices monumentais que mostraram que o dinheiro não é, em si mesmo, um bem transacionável? Nunca se ouviu tanto a palavra sustentabilidade e nunca se viu a sustentabilidade ser tão frágil, sustentada apenas no aumento dos índices que se sabe não serem capacidade para progredir indefinidamente, o índice das necessidades materiais satisfeitas que criam insatisfações crescentes. Será que, como se dizia no filme “Inside job”, é da natureza das coisas continuar enquanto estão a dar rendimento, até que estoirem, ou seremos capazes de ter imaginação para encontrar uma nova forma de viver?
Serge Latouche, professor de economia e autor do livro “O desafio do decrescimento”, acredita que “a sociedade do crescimento provoca uma escalada de desigualdades e de injustiças, cria um bem estar ilusório e que não suscita uma sociedade convivial mas sim uma “antisociedade” doente da sua riqueza” (p. 13, ed. Pluriel). A sobriedade deve ser, segundo o autor, uma via individual para aumentar a felicidade, mas o projecto político para o desenvolver já é mais difícil de o descrever aqui. Vou continuar a ler o livro. Logo agora que me apetecia tanto ir às compras...
Serge Latouche, professor de economia e autor do livro “O desafio do decrescimento”, acredita que “a sociedade do crescimento provoca uma escalada de desigualdades e de injustiças, cria um bem estar ilusório e que não suscita uma sociedade convivial mas sim uma “antisociedade” doente da sua riqueza” (p. 13, ed. Pluriel). A sobriedade deve ser, segundo o autor, uma via individual para aumentar a felicidade, mas o projecto político para o desenvolver já é mais difícil de o descrever aqui. Vou continuar a ler o livro. Logo agora que me apetecia tanto ir às compras...
segunda-feira, 7 de março de 2011
grupo de "Trabalho para o Património Imaterial"...
1.Notícia quase delirante, hoje divulgada, serve bem para ilustrar o rigor com que os escassíssimos recursos financeiros são geridos oficialmente em Portugal: um fantástico Grupo de “Trabalho” para o Património Imaterial, criado por despacho governamental há cerca de um ano, não produziu qualquer trabalho, terá reunido 1 vez apenas, mas custou € 209.000...
2.Paradoxalmente, alguns dos seus membros queixam-se amargamente de falta de apoios, o que dá que pensar no orçamento que teriam em mente quando se constata que 1 reunião apenas "custou" aquela módica quantia...que mais apoios seriam necessários para que o trabalho de levantamento do Imaterial atingisse alguma “corporalidade”?
3.Ocorre pensar em quantas dezenas, centenas (quiçá milhares) de decisões deste tipo, dispersas e escondidas pelos incontáveis gabinetes ministeriais e de outras instâncias públicas (centrais, regionais, locais e empresariais) - criando grupos ou postos de trabalho/descanso a esmo, sem qq controlo dos resultados - não terão contribuído para o descalabro das contas públicas e o estado financeiro degradante em que o País se encontra, impondo agora custos enormes às empresas e às famílias...
4.Neste caso, tangente ao delírio, tivemos 1 Imaterialidade com consequências materiais...em muitos outros casos, quem sabe, não haverá N Insanidades igualmente com consequências materiais?...Quem controla?
5.Uma pergunta que inevitavelmente ocorre quando nos deparamos com a inconcebível superfluidade destes gastos e os sacrifícios que estão sendo exigidos a famílias e empresas: será que os aumentos de impostos, que acabam por ser necessários para financiar tais desvarios, têm ainda alguma legitimidade?
2.Paradoxalmente, alguns dos seus membros queixam-se amargamente de falta de apoios, o que dá que pensar no orçamento que teriam em mente quando se constata que 1 reunião apenas "custou" aquela módica quantia...que mais apoios seriam necessários para que o trabalho de levantamento do Imaterial atingisse alguma “corporalidade”?
3.Ocorre pensar em quantas dezenas, centenas (quiçá milhares) de decisões deste tipo, dispersas e escondidas pelos incontáveis gabinetes ministeriais e de outras instâncias públicas (centrais, regionais, locais e empresariais) - criando grupos ou postos de trabalho/descanso a esmo, sem qq controlo dos resultados - não terão contribuído para o descalabro das contas públicas e o estado financeiro degradante em que o País se encontra, impondo agora custos enormes às empresas e às famílias...
4.Neste caso, tangente ao delírio, tivemos 1 Imaterialidade com consequências materiais...em muitos outros casos, quem sabe, não haverá N Insanidades igualmente com consequências materiais?...Quem controla?
5.Uma pergunta que inevitavelmente ocorre quando nos deparamos com a inconcebível superfluidade destes gastos e os sacrifícios que estão sendo exigidos a famílias e empresas: será que os aumentos de impostos, que acabam por ser necessários para financiar tais desvarios, têm ainda alguma legitimidade?
A cobra morreu!
Incrível! A cobra mordeu a senhora e acabou por morrer envenenada...por causa do silicone!
A "arte" da escolha
Para quem queira libertar-se por algum tempo da espuma do momento, vale a pena assistir a esta palestra da Doutora Sheena Iyengar, psicoeconomista e professora na Columbia Business School.Concorde-se ou não com as ideias que expõe, a verdade é que se trata de uma notável palestra que estimula a reflexão sobre a importância da liberdade de decisão. Transportada para o campo da política, a questão tem um relevo enorme porque convoca a questão essencial com que as democracias estão e estarão confrontadas: existe verdadeira liberdade de escolha para o cidadão?
Cai o pano e surgem os telhados de vidro
O director da prestigiada London School of Economics (LSE), Howard Davies, que dirigia a instituição desde 2003, demitiu-se na sequência da “revelação” dos financiamentos vultuosos que a escola vinha recebendo do governo líbio, tudo apimentado com o conhecimento público de que um dos filhos de Khadafi teria aí obtido um conveniente doutoramento sobre “O Papel da Sociedade Civil na democratização das Instituições Globais de Governação”. Segundo a notícia do Público, durante dois anos – o título académico foi obtido em 2008 – ninguém duvidou da capacidade intelectual e de investigação do aluno, bem como do seu genuíno interesse científico pelo tema, e certamente o orientador da tese e o júri que o aprovou também não tiveram quaisquer indícios de plágio, de que agora se suspeita. A LSE tinha também celebrado um contrato de 2,2 milhões de libras para formação de funcionários líbios, além de receber 1,5 milhões como donativo da, imagine-se, Fundação Khadafi para a Caridade e o Desenvolvimento, com o objectivo altruísta de se fazer um programa específico para os alunos do Norte de África.
Tudo isto nos parece hoje absurdo, como é possível que um cidadão respeitável, que foi vice-governador do Banco de Inglaterra e presidente da entidade reguladora do sector financeiro, não tenha defendido a escola de grande prestígio internacional destes financiamentos mais que duvidosos, não se tenha oposto, indignado, às contrapartidas que certamente teriam que ter? Como é que ele, e todos os que ponderaram a proposta, não viram o “erro tremendo” de que agora se punem? Pois é caso para todos reflectirmos muito bem, não basta apontar o dedo e ficar a ver rolar cabeças, quantas e quantas instituições entregues ao “mecenato”, à necessidade de procurar financiamentos para manterem o seu corpo docente e o seu prestígio, quantas tiveram que aceitar o dinheiro de onde ele podia vir sem demoras? Será que a LSI poderia, na altura, ter recusado soberbamente os milhões de um politico “regenerado” e recebido como soberano em todos os palcos da política internacional? E, se o fizesse, não teria visto florescer outras instituições menos relutantes a renunciar aos seus pergaminhos, enquanto ela definharia no meio dos seus valores ignorados por uma sociedade que só fala do sucesso sem ver a que preço ele chega? Quem financia procura rendimento, o problema é que nem sempre as insituições podem dar-se ao luxo de negociar e limitam-se a aceitar disfarces piedosos do que não é mais do que uma vergonhosa alienação do que deviam defender. Pois é. Receio que muitas outras supresas nos venham ainda confrontar com muitos outros casos que floresceram nesta selva em que fomos vivendo, alienando valores a troco de um prato de lentilhas, afinal o preço da sobrevivência do que se queria preservar, e que assim se desbaratou. A terrível dúvida é: quantos dos que recusaram, estes e outros mecenas, sobreviveram? Ai, ai, vamos ver muitos telhados de vidro...
Tudo isto nos parece hoje absurdo, como é possível que um cidadão respeitável, que foi vice-governador do Banco de Inglaterra e presidente da entidade reguladora do sector financeiro, não tenha defendido a escola de grande prestígio internacional destes financiamentos mais que duvidosos, não se tenha oposto, indignado, às contrapartidas que certamente teriam que ter? Como é que ele, e todos os que ponderaram a proposta, não viram o “erro tremendo” de que agora se punem? Pois é caso para todos reflectirmos muito bem, não basta apontar o dedo e ficar a ver rolar cabeças, quantas e quantas instituições entregues ao “mecenato”, à necessidade de procurar financiamentos para manterem o seu corpo docente e o seu prestígio, quantas tiveram que aceitar o dinheiro de onde ele podia vir sem demoras? Será que a LSI poderia, na altura, ter recusado soberbamente os milhões de um politico “regenerado” e recebido como soberano em todos os palcos da política internacional? E, se o fizesse, não teria visto florescer outras instituições menos relutantes a renunciar aos seus pergaminhos, enquanto ela definharia no meio dos seus valores ignorados por uma sociedade que só fala do sucesso sem ver a que preço ele chega? Quem financia procura rendimento, o problema é que nem sempre as insituições podem dar-se ao luxo de negociar e limitam-se a aceitar disfarces piedosos do que não é mais do que uma vergonhosa alienação do que deviam defender. Pois é. Receio que muitas outras supresas nos venham ainda confrontar com muitos outros casos que floresceram nesta selva em que fomos vivendo, alienando valores a troco de um prato de lentilhas, afinal o preço da sobrevivência do que se queria preservar, e que assim se desbaratou. A terrível dúvida é: quantos dos que recusaram, estes e outros mecenas, sobreviveram? Ai, ai, vamos ver muitos telhados de vidro...
domingo, 6 de março de 2011
Barrabás

Criei-me aprendendo e ouvindo de tudo, inclusive as diferentes formas de ofender. Os meus amigos quando se chateavam diziam: - És um judeu! Outras: - És pior do que Judas. Os mais velhos advertiam-me de que iriam fazer queixas aos meus pais se continuasse a fazer judiarias. Outros chamavam-me: - És um safardana! Às vezes diziam: - Safardana de uma figa! Comecei a aprender que chamar safardana tinha a ver com os judeus da Península Ibérica, os sefarditas, mas nunca percebi o reforço “de uma figa”. É fácil de concluir que, na altura, os miúdos eram educados a “odiar” os judeus, porque, segundo a tradição católica, eles tinham sido os responsáveis pela morte de Cristo. E eu, claro, não gostava de judeus. Um dia ouvi uma conversa que me perturbou muito. Fiquei a saber que um bisavô meu, da parte da minha mãe, era descendente de judeus. Fiquei assustado. Lembro-me de ter estado sentado no muro do cais da estação, a olhar para o Correio, do outro lado da rua, a meditar no assunto. E agora? Se os meus amigos souberem que sou descendente de judeus estou tramado. Ao fim de algum tempo, dirigi-me ao gabinete do meu pai e perguntei-lhe se eu também fazia parte do povo que tinha morto Cristo. Olhou-me e perguntou a razão da pergunta. Expliquei-lhe. Sorriu e disse-me que os judeus não mataram Cristo. Fiquei mais tranquilo. Com o tempo acabei por saber muitas coisas que os cristãos fizeram aos judeus. Não gostei. Também aprendi, rapidamente, o que sofreram ao longo dos séculos, mesmo nos anos mais recentes.
Passado tanto tempo, o papa vem dizer que os judeus não mataram Cristo. Só agora? Tantos séculos e muitos mais papas para chegar a esta conclusão? Estranho! Não consigo compreender. Diz o papa que os responsáveis foram o “grupo dos acusadores dos círculos contemporâneos do templo e a massa que apoiava Barrabás". Barrabás? Agora o culpado é ele? É fácil atribuir culpas a outros.
Recordo que no início dos anos sessenta vi o filme Barrabás. Deveria ter onze anos. De vez em quando ia passar uns dias de férias a casa de um tio em Lisboa. Como na minha terra não havia cinema, assim que chegava à grande cidade não fazia outra coisa. Tirava a barriga de misérias. Numa tarde fui ao Coliseu. Gostei imenso do filme, sobretudo da interpretação de Anthony Quinn, cujo nome nunca mais esqueci. Simpatizei com o personagem, mas fiquei triste por o terem escolhido em vez de Cristo naquela cena liderada por Pôncio Pilatos. Apesar das atribulações, Barrabás acabou por evidenciar comportamento cristão, mas não conseguiu evitar ser crucificado. Estava destinado a sofrer a mesma punição. Acaba, mais de dois mil anos depois, por ser “responsabilizado” pela morte de Cristo. Tal “culpabilização” leva-me a perguntar: - Se Cristo não tivesse sido crucificado o que é que lhe teria acontecido? Viveria mais, e acabaria por morrer de morte natural ou violenta, nunca se sabe, mas, provavelmente, não teria o mesmo impacto e, às tantas, não originaria o aparecimento da nova religião com o formato que todos conhecemos e nem haveria papas. Barrabás contribuiu para a emergência de uma nova religião, mas não terá tido a intuição de que deveria fazer parte de um qualquer “desígnio”. Terá sido por isso que, no filme, lhe tivessem posto na boca, no último momento, a frase: “escuridão, entrego-te à tua guarda”?
sábado, 5 de março de 2011
“Fuzilamento cultural”
No dia marcado, e à hora inicialmente prevista, uma hora antes do estabelecido posteriormente, já estava à porta da escola. Cheguei adiantado e bem adiantado. O que fazer? O habitual. Rapo um livro, de uma micro biblioteca itinerante, que me acompanha nas múltiplas andanças a que sou obrigado, e aproveitei para ler algumas páginas e escrevinhar apontamentos para deleite da minha memória, que com a idade se torna mais gulosa.
A data, combinada há algum tempo, tornou-se sagrada. De facto, entrementes, fui solicitado para várias iniciativas, todas rejeitadas. A expectativa de falar para jovens atraiu-me, embora não soubesse o que é que iria dizer ou fazer. Só sabia que se integrava em atividades escolares culturais. Estava sentado no carro, a ler o livro, quando comecei a sentir ansiedade. Mas afinal o que é que vou dizer? Não é que tenha dificuldade em improvisar, mas prefiro coisas bem estruturadas, planeadas e amadurecidas. Parecia uma tela em branco à espera da primeira pincelada ou borrada!
Um ambiente agradável. Jovens caracterizados a rigor, prontos a entrarem em palco para a representação de uma peça de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno. O anjo (neste caso uma “anja”) convidou-me a sentar entre ela e ele, o diabo. Há muito que não via um diabo tão jovem e tão simpático. Fizeram a minha apresentação e, em seguida, na primeira fila da biblioteca, cada um dos personagens fez a sua apresentação: o fidalgo, o onzeneiro, o sapateiro, o parvo, o frade com a sua Florença e a Brísida Vaz, a alcoviteira. Na segunda fila estavam os restantes personagens.
E agora? Pensei. Como vou começar? Pode ser que alguma alma curiosa faça alguma introdução e dê o mote para uma hora e meia de conversa. Salvou-me o anjo! Olho para o meu lado esquerdo e “vejo-a” a ler uma folha com perguntas. Olho para a direita, e reparo que o diabo tem outra, e todas as personagens das duas primeiras filas também tinham. Que alívio, vão-me fazer perguntas.
Fizeram-me muitas perguntas, cuidadas, algumas provocadoras, enquanto outras permitiram-me viajar no passado a relembrar acontecimentos marcantes da minha vida. Uma sensação estranha, mas agradável, quando começamos a esvaziar a alma e sentir que podemos encher a de outros. E dizer tudo em voz alta! Libertação e sentimento de criatividade dominaram-me por completo. “Obrigaram-me” a contar histórias que nunca tinha contado, e eu gostei. Perguntaram-me muitas coisas, algumas difíceis de responder: como é que lido com a morte, como é que me sinto com a vida, se acreditava em Deus, por que é que critico tanto a sociedade, qual a razão da ironia nos meus escritos, por que é que escrevo, quais os livros que me marcaram mais, qual o tipo social que mais atacava. Nunca na minha vida me fizeram tantas perguntas e nunca senti tanto prazer em responder, além de dar algumas respostas que nunca tinha dado. Eu próprio me ouvi, nalguns assuntos, pela primeira vez, naquele momento com jovens do 9º ano. Perguntaram-me, no decurso do fuzilamento, se iria escrever algo sobre o evento. Disse que, muito provavelmente, iria, embora não soubesse quando. Afinal, já estou a escrever, antes do previsto, porque gostei de estar na peça, acabando, como não poderia deixar de ser, por embarcar na “barca do inferno”. Não foi difícil constatar que as perguntas formuladas foram construídas de acordo com as personagens de Gil Vicente ao meu trajeto e personalidade. Uma adaptação inteligente e hodierna da alegoria na qual acabei por me expor abertamente. Jovens de quinze anos conseguiram propiciar uma oportunidade para me conhecer melhor, ao fim de um moio de vida. Estou-lhes grato, porque passei uma tarde inesquecível e deram-me alento para acreditar no talento e criatividade dos mais jovens.
Os adultos deviam ser, periodicamente, fuzilados culturalmente pelos mais jovens. Aprendíamos.
A data, combinada há algum tempo, tornou-se sagrada. De facto, entrementes, fui solicitado para várias iniciativas, todas rejeitadas. A expectativa de falar para jovens atraiu-me, embora não soubesse o que é que iria dizer ou fazer. Só sabia que se integrava em atividades escolares culturais. Estava sentado no carro, a ler o livro, quando comecei a sentir ansiedade. Mas afinal o que é que vou dizer? Não é que tenha dificuldade em improvisar, mas prefiro coisas bem estruturadas, planeadas e amadurecidas. Parecia uma tela em branco à espera da primeira pincelada ou borrada!
Um ambiente agradável. Jovens caracterizados a rigor, prontos a entrarem em palco para a representação de uma peça de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno. O anjo (neste caso uma “anja”) convidou-me a sentar entre ela e ele, o diabo. Há muito que não via um diabo tão jovem e tão simpático. Fizeram a minha apresentação e, em seguida, na primeira fila da biblioteca, cada um dos personagens fez a sua apresentação: o fidalgo, o onzeneiro, o sapateiro, o parvo, o frade com a sua Florença e a Brísida Vaz, a alcoviteira. Na segunda fila estavam os restantes personagens.
E agora? Pensei. Como vou começar? Pode ser que alguma alma curiosa faça alguma introdução e dê o mote para uma hora e meia de conversa. Salvou-me o anjo! Olho para o meu lado esquerdo e “vejo-a” a ler uma folha com perguntas. Olho para a direita, e reparo que o diabo tem outra, e todas as personagens das duas primeiras filas também tinham. Que alívio, vão-me fazer perguntas.
Fizeram-me muitas perguntas, cuidadas, algumas provocadoras, enquanto outras permitiram-me viajar no passado a relembrar acontecimentos marcantes da minha vida. Uma sensação estranha, mas agradável, quando começamos a esvaziar a alma e sentir que podemos encher a de outros. E dizer tudo em voz alta! Libertação e sentimento de criatividade dominaram-me por completo. “Obrigaram-me” a contar histórias que nunca tinha contado, e eu gostei. Perguntaram-me muitas coisas, algumas difíceis de responder: como é que lido com a morte, como é que me sinto com a vida, se acreditava em Deus, por que é que critico tanto a sociedade, qual a razão da ironia nos meus escritos, por que é que escrevo, quais os livros que me marcaram mais, qual o tipo social que mais atacava. Nunca na minha vida me fizeram tantas perguntas e nunca senti tanto prazer em responder, além de dar algumas respostas que nunca tinha dado. Eu próprio me ouvi, nalguns assuntos, pela primeira vez, naquele momento com jovens do 9º ano. Perguntaram-me, no decurso do fuzilamento, se iria escrever algo sobre o evento. Disse que, muito provavelmente, iria, embora não soubesse quando. Afinal, já estou a escrever, antes do previsto, porque gostei de estar na peça, acabando, como não poderia deixar de ser, por embarcar na “barca do inferno”. Não foi difícil constatar que as perguntas formuladas foram construídas de acordo com as personagens de Gil Vicente ao meu trajeto e personalidade. Uma adaptação inteligente e hodierna da alegoria na qual acabei por me expor abertamente. Jovens de quinze anos conseguiram propiciar uma oportunidade para me conhecer melhor, ao fim de um moio de vida. Estou-lhes grato, porque passei uma tarde inesquecível e deram-me alento para acreditar no talento e criatividade dos mais jovens.
Os adultos deviam ser, periodicamente, fuzilados culturalmente pelos mais jovens. Aprendíamos.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Paradoxal...
Castelo de Paiva, Ponte Entre-os-Rios. Este é um caso muito triste. Não conheço os problemas e as potencialidades da região. Mas não é com políticas de promessas circunstanciais e não cumpridas e com falta de estratégia de desenvolvimento que vamos tirar o País das dificuldades em que estamos. É, sobretudo, na vida das pessoas, que devemos pensar. As pessoas deveriam ser, porque são, a prioridade.Acredito no desenvolvimento das regiões porque acredito que são mais as desvantagens da crescente concentração da população e da economia, a pouca que temos, na faixa litoral do que as vantagens que teríamos com o povoamento do interior do País, aproveitando as suas potencialidades e, particularmente, os investimentos em grandes infra-estruturas rodoviárias que foram sendo realizados. Mal ou bem, já existem. Estas estradas estão a funcionar sobretudo num sentido, do interior para o litoral. São uma "via verde" para a desertificação do interior. É isto que realmente queremos?
A falácia da ajuda externa e suas insondáveis razões...
1.O discurso oficial enveredou, “ad nauseam”, pela repetição da garantia de que Portugal não precisa de ajuda externa, usada esta expressão no sentido que não carece da ajuda do Fundo Europeu de Estabilização e/ou do FMI...
2.Este discurso está em aberta contradição com outro discurso anterior, de há poucos meses e da mesma fonte oficial, em que se proclamava que Portugal não iria recorrer à ajuda externa a menos que as taxas de juro da dívida de longo prazo viessem a exceder o nível de 7%...
3.Pois bem, estamos há quase um mês com taxas de juro da dívida de longo prazo ( e agora tb de médio prazo) acima de 7% e os governantes resolveram esquecer completamente essa primeira posição, recusando a ideia da tal ajuda externa, a qualquer preço...
4.Tudo indica pois que esta “recusa” obstinada de ajuda externa se irá manter mesmo que as taxas de juro da dívida permaneçam por tempo indefinido acima de 7% ou mesmo de 8% ou, quem sabe, acima de...
5.Mas esta “recusa” de ajuda externa é “prima facie” uma falsa questão, uma redonda falácia, pois o País tem vindo desde há meses a beneficiar de uma enorme ajuda externa, concretamente do Banco Central Europeu (BCE)...
6.E a ajuda do BCE até é dupla:
(i)Financiando os bancos portugueses em escala muito significativa (qq coisa como 25% do PIB), AJUDANDO-OS a manter a “torneira” do crédito com um pequeno fio de água;
(ii)Adquirindo volumosos montantes de dívida pública portuguesa (muitos milhares de milhões de Euros) no mercado secundário, AJUDANDO a manter as respectivas taxas de juro a níveis que, apesar de elevados, são bem inferiores aos que o mercado exigiria sem intervenção...
7.Sem a preciosa AJUDA do BCE, aonde estaríamos nesta altura? Financeiramente asfixiados e economicamente estatelados, é óbvio, não teríamos resistido à pressão, prenhe de maldade, dos mercados...
8.Por consequência, dizer que não carecemos de ajuda externa é uma falácia por demais evidente, evidência não resiste a qualquer observador minimamente atento (com a "honrosa" excepção dos media de serviço)...
9.Mas, sendo certo que não poderemos viver nos próximos anos sem alguma forma de ajuda externa em grande escala, terá de haver outras razões por detrás desta recusa obstinada em relação a uma específica AJUDA externa – a do FEEF/FMI: será o sindroma das contas públicas da República Helénica?...Ou ainda outras, porventura mais insondáveis?...
2.Este discurso está em aberta contradição com outro discurso anterior, de há poucos meses e da mesma fonte oficial, em que se proclamava que Portugal não iria recorrer à ajuda externa a menos que as taxas de juro da dívida de longo prazo viessem a exceder o nível de 7%...
3.Pois bem, estamos há quase um mês com taxas de juro da dívida de longo prazo ( e agora tb de médio prazo) acima de 7% e os governantes resolveram esquecer completamente essa primeira posição, recusando a ideia da tal ajuda externa, a qualquer preço...
4.Tudo indica pois que esta “recusa” obstinada de ajuda externa se irá manter mesmo que as taxas de juro da dívida permaneçam por tempo indefinido acima de 7% ou mesmo de 8% ou, quem sabe, acima de...
5.Mas esta “recusa” de ajuda externa é “prima facie” uma falsa questão, uma redonda falácia, pois o País tem vindo desde há meses a beneficiar de uma enorme ajuda externa, concretamente do Banco Central Europeu (BCE)...
6.E a ajuda do BCE até é dupla:
(i)Financiando os bancos portugueses em escala muito significativa (qq coisa como 25% do PIB), AJUDANDO-OS a manter a “torneira” do crédito com um pequeno fio de água;
(ii)Adquirindo volumosos montantes de dívida pública portuguesa (muitos milhares de milhões de Euros) no mercado secundário, AJUDANDO a manter as respectivas taxas de juro a níveis que, apesar de elevados, são bem inferiores aos que o mercado exigiria sem intervenção...
7.Sem a preciosa AJUDA do BCE, aonde estaríamos nesta altura? Financeiramente asfixiados e economicamente estatelados, é óbvio, não teríamos resistido à pressão, prenhe de maldade, dos mercados...
8.Por consequência, dizer que não carecemos de ajuda externa é uma falácia por demais evidente, evidência não resiste a qualquer observador minimamente atento (com a "honrosa" excepção dos media de serviço)...
9.Mas, sendo certo que não poderemos viver nos próximos anos sem alguma forma de ajuda externa em grande escala, terá de haver outras razões por detrás desta recusa obstinada em relação a uma específica AJUDA externa – a do FEEF/FMI: será o sindroma das contas públicas da República Helénica?...Ou ainda outras, porventura mais insondáveis?...
Na cama com Kadhafi
A caricatura pode ser um meio genial de chamar a atenção para quão nú vai o rei. É o caso desta, retirada daqui.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Aos ziguezagues...
Passamos a vida a anunciar reformas, depois tomam-se medidas, mas ainda as mesmas não foram totalmente implementadas e muito menos estabilizadas, e logo mais reformas são anunciadas, pondo em causa as medidas anteriores, somando outras tantas. Assim vamos andando, sem a estabilidade e a previsibilidade que se espera das políticas públicas e sem que decorra o tempo necessário que permita fazer uma avaliação e medição de resultados. A bem dizer, não está instituída a prática generalizada de avaliar nem antes nem depois as medidas que se tomam.Quando a este panorama juntamos coclicamente a necessidade de contenção orçamental ou obejctivos economicistas, então dispensam-se medidas que ao tempo do seu anúncio, num passado recente, eram consideradas muito importantes, fundamentais, imprescindíveis e inadiáveis. Não adianta fazer estudos para justificar a mudança, assim como, com grande probabilidade, estudos não foram feitos para sustentar a decisão de implementar as ditas medidas.
Vem a isto a propósito de mais este episódio passado com a reorganização curricular do ensino básico aprovada pelo governo que agora os partidos da oposição querem fazer cessar a sua vigência. Decidiu o Governo extinguir a Área de Projecto e o par pedagógico em Educação Visual e Tecnológica e limitar o Estudo Acompanhado a alunos com dificuldades, com a justificação de que com estas alterações “beneficiam-se os currículos, os alunos e consegue-se contenção orçamental”. A oposição, por sua vez, fala em "cortes cegos" e diz que o governo se recusou a apresentar qualquer estudo, parecer ou informação que justifique pedagogicamente as soluções defendidas.
A banalização destas práticas de actuação só pode trazer maus resultados. Não vale a pena dizer mais nada…
Cisne Negro

O Cisne Negro é um daqueles filmes de que não me vou esquecer, uma extraordinária metáfora sobre a luta e o sofrimento que exigem todos os processos de crescimento e de afirmação bem como os obstáculos, tantas vezes ditados pelo egoísmo disfarçado de desejo de protecção, que se arriscam a destrui-los. É um hino à coragem dos que se atrevem a entrar na idade adulta e ao respeito e compreensão que essa fase da vida deve merecer.
Nina é uma jovem bailarina da Companhia de Bailado de Nova Iorque e quer absolutamente ser perfeita na sua técnica e na sua arte. Mas, para afirmar as suas capacidades e fazer brilhar o seu talento, ela vai ter que conseguir interpretar dois papéis no bailado O Lago dos Cisnes, o do suave e romântico Cisne Branco e o do terrível sedutor Cisne Negro. O Cisne Branco tem a inocência de uma criança e a fragilidade própria de quem acredita que um príncipe apaixonado a virá salvar do feitiço e lhe restitua a forma humana. Nesse papel ela era perfeita. Mas, para conseguir brilhar e interpretar plenamente o papel do Cisne Negro, ela tem que transmitir a força e a emoção de uma sedutora determinada e transformar-se, de frágil criança que quer ser resgatada, na adulta que sabe conquistar e impor a sua vontade. E essa é uma metamorfose dolorosa, é um processo de destruição e reconstrução, de rebeldia, solidão e desespero, é recusa de protecção e coragem para enfrentar perigos, matar os terrores da insegurança e por à prova a capacidade de sofrer para conseguir alcançar os seus sonhos. O inimigo da mulher em que ela precisa de se transformar está dentro dela, é o casulo da infância que ainda habita que não a deixa livre para conquistar o príncipe dos seus sonhos, que não a deixa ser forte e pisar o palco com a segurança de um Cisne negro, orgulhoso do seu poder e da sua sedução.
O filme devolve-nos, de uma forma extraordinária, à consciência de como são violentos e perturbadores os processos de autonomia, de afirmação de personalidade e de luta pela realização plena. Afinal, trata-se de uma versão belíssima do dramático momento em que se decide partir à conquista da própria vida, quebrando o feitiço protector da infância.
Nina é uma jovem bailarina da Companhia de Bailado de Nova Iorque e quer absolutamente ser perfeita na sua técnica e na sua arte. Mas, para afirmar as suas capacidades e fazer brilhar o seu talento, ela vai ter que conseguir interpretar dois papéis no bailado O Lago dos Cisnes, o do suave e romântico Cisne Branco e o do terrível sedutor Cisne Negro. O Cisne Branco tem a inocência de uma criança e a fragilidade própria de quem acredita que um príncipe apaixonado a virá salvar do feitiço e lhe restitua a forma humana. Nesse papel ela era perfeita. Mas, para conseguir brilhar e interpretar plenamente o papel do Cisne Negro, ela tem que transmitir a força e a emoção de uma sedutora determinada e transformar-se, de frágil criança que quer ser resgatada, na adulta que sabe conquistar e impor a sua vontade. E essa é uma metamorfose dolorosa, é um processo de destruição e reconstrução, de rebeldia, solidão e desespero, é recusa de protecção e coragem para enfrentar perigos, matar os terrores da insegurança e por à prova a capacidade de sofrer para conseguir alcançar os seus sonhos. O inimigo da mulher em que ela precisa de se transformar está dentro dela, é o casulo da infância que ainda habita que não a deixa livre para conquistar o príncipe dos seus sonhos, que não a deixa ser forte e pisar o palco com a segurança de um Cisne negro, orgulhoso do seu poder e da sua sedução.
O filme devolve-nos, de uma forma extraordinária, à consciência de como são violentos e perturbadores os processos de autonomia, de afirmação de personalidade e de luta pela realização plena. Afinal, trata-se de uma versão belíssima do dramático momento em que se decide partir à conquista da própria vida, quebrando o feitiço protector da infância.
O insustentável valor das notas governativas
Depois do Expresso do dia 19 de Fevereiro, foi agora o DN o jornal utilizado pelo Governo para dar conta do enorme "êxito" da execução orçamental do mês de Fevereiro. E se em Janeiro o “êxito” tinha sido a “diminuição” do défice, escondendo-se o aumento da Despesa Pública, que só depois veio a lume, hoje é a diminuição da Despesa o facto saliente.
O “êxito” de 19 de Fevereiro foi tão ilusório que ontem Sócrates e Teixeira dos Santos, a uma só voz, vieram anunciar a possibilidade de mais medidas restritivas. O que desmente que eles próprios alguma vez tivessem acreditado no "êxito" de Janeiro. Acreditaram apenas na propaganda.
Tal como no dia 19, hoje também não foi explicado onde e como a despesa diminuiu. Nem podia, porquanto a Direcção Geral do Orçamento só depois do dia 20 de cada mês é que tem compilada execução do mês anterior e nem sempre os valores são os definitivos.
E se o “êxito” de Janeiro é uma ilusão, pois a diminuição do défice se ficou a dever ao aumento dos impostos e aos dividendos antecipados contra os quais, aliás, o Governo se insurgiu, logo veremos o real conteúdo do “êxito” de Fevereiro.
Até lá, tem o mesmo valor do de Janeiro. Zero. Só ilusão.
E oxalá me engane.
O “êxito” de 19 de Fevereiro foi tão ilusório que ontem Sócrates e Teixeira dos Santos, a uma só voz, vieram anunciar a possibilidade de mais medidas restritivas. O que desmente que eles próprios alguma vez tivessem acreditado no "êxito" de Janeiro. Acreditaram apenas na propaganda.
Tal como no dia 19, hoje também não foi explicado onde e como a despesa diminuiu. Nem podia, porquanto a Direcção Geral do Orçamento só depois do dia 20 de cada mês é que tem compilada execução do mês anterior e nem sempre os valores são os definitivos.
E se o “êxito” de Janeiro é uma ilusão, pois a diminuição do défice se ficou a dever ao aumento dos impostos e aos dividendos antecipados contra os quais, aliás, o Governo se insurgiu, logo veremos o real conteúdo do “êxito” de Fevereiro.
Até lá, tem o mesmo valor do de Janeiro. Zero. Só ilusão.
E oxalá me engane.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Teletransporte

- Professor? Viva! Sou eu. Pela voz vi logo quem era, uma doutoranda. – Não percebi nada do artigo que me enviou! – Não! Porquê? Era muito técnico? – Nada disso, eu é que não consigo perceber aquela coisa do teletransporte do ADN! Como é possível uma coisa destas?
Estávamos a falar de um artigo, ainda não publicado, de Luc Montagnier, prémio Nobel da Medicina pela descoberta do VIH, que tenta demonstrar que uma molécula de ADN pode transmitir informações para células distantes e até para água. As enzimas “captam” o ADN como se fosse real e põem-se a trabalhar, uma espécie de teletransporte! Até ao momento ainda foi publicado em nenhuma revista. Deve estar a ser sujeito a apreciação por parte de árbitros. Estou com uma curiosidade dos diabos para ver o que vai acontecer. De qualquer modo, esta incursão, de um prémio Nobel, nesta área fez-me recordar Jacques Benveniste e a “memória da água”, trabalho que foi publicado na Nature, há alguns anos, mas que foi denunciado como sendo uma fraude, por um “caçador” especializado em truques. A experiência relatada por Benveniste só ocorria quando estava presente uma colaboradora.
Há quem afirme que Montagnier ensandeceu, o que não é de por de parte, porque nem os prémios Nobel estão livres de tamanho destino.
Tudo isto por causa das diferentes artes de curar e do cientificismo subjacente às mesmas. Já tivemos muitas conversas a este propósito. Considero que é muito difícil não encontrar alguém que não tenha poder de curar. Até os médicos são capazes de “curar”. Mas estes têm a obrigação científica de provar o que fazem e o que deixam de fazer. Os outros praticantes da arte de curar estão numa melhor posição; não têm necessidade de provar o que quer seja sob o ponto de vista científico. E quando as suas práticas são sujeitas às regras da ciência já se sabe o que acontece. Mas, muitos perguntam: - Eles, também, não curam? – Claro que curam. Olhar para uma paisagem, ler um belo poema, ir a um santuário, ouvir uma palavra de um amigo, dar atenção a um conselho do padre (por algum motivo também são conhecidos por “curas”, do tempo em que tratavam fisicamente as pessoas, depois foram proibidos e passaram a conselheiros espirituais), ir à bruxa ou usar as disponibilidades de um carteiro – Lembrei-me desta profissão, por causa de um doente que tem o sorriso mais malandro do mundo e que, quando era novo, "consolava" muitas senhoras, quem o diz é a mulher que vem com ele à consulta! Sorri, sorriso alargado, encolhe os ombros, diz muito pouco, mas os olhos confirmam, e de que maneira! -, são, entre outros, verdadeiros curandeiros. Não vejo mal nenhum nisso. O que me admira é a necessidade de muitas práticas tentarem esconder-se atrás da medicina e quererem ombrear com ela, talvez para justificar e alargar a área de atuação. O caso da homeopatia é paradigmático.
A primeira vez que ouvi esta palavra andava no sétimo ano. Recordo de ter lido, num fascículo de uma enciclopédia que andava a colecionar, algo sobre esta matéria que me deixou perplexo. Ainda discuti com os meus colegas à hora do almoço, quando jogávamos ao póquer de dados nos bombeiros do Carregal do Sal. Saíamos ao meio-dia do colégio, comíamos em cinco minutos, outros cinco para fazer corta-mato por um atalho e conseguíamos arranjar quarenta e cinco minutos para nos divertirmos. Quando faltava cinco minutos para a uma, abalávamos à pressa, entrando na sala no preciso momento em que a campainha deixava de tocar. Dominadores do tempo. No decurso de uma partida disse à rapaziada que não entendia como era possível tratar doenças com medicamentos que produziam os mesmos efeitos, diarreia com um diarreico, febre com um produto que aumentava a temperatura e ia debitando o assunto, perguntando aos outros se conseguiam entender aquilo. Claro que não me deram troco e nem me deixaram que perguntasse à professora de Ciências como era possível tal coisa. – Deixa-te disso, não a chateies e a nós também não, joga como deve ser. Foi a primeira vez que ouvi falar de Hanneman e das célebres e esquisitas diluições a ponto de não haver uma única molécula na solução. Dizem que é a “memória da água” que faz o efeito! Irra, se a água tivesse mesmo memória, e se lembrasse de tudo por onde já passou e do que levou em cima... Até tremo com os seus efeitos. Agora, esta do teletransporte do ADN também está a causar algum estremeção. Ponho-me a pensar o que fará o meu ADN quando estiver próximo de uma cachopa jeitosa. Já estou a vê-lo a teletransportar-se e a fazer não sei o quê, mas, desde já, declaro que não me responsabilizo por quaisquer consequências...
Estávamos a falar de um artigo, ainda não publicado, de Luc Montagnier, prémio Nobel da Medicina pela descoberta do VIH, que tenta demonstrar que uma molécula de ADN pode transmitir informações para células distantes e até para água. As enzimas “captam” o ADN como se fosse real e põem-se a trabalhar, uma espécie de teletransporte! Até ao momento ainda foi publicado em nenhuma revista. Deve estar a ser sujeito a apreciação por parte de árbitros. Estou com uma curiosidade dos diabos para ver o que vai acontecer. De qualquer modo, esta incursão, de um prémio Nobel, nesta área fez-me recordar Jacques Benveniste e a “memória da água”, trabalho que foi publicado na Nature, há alguns anos, mas que foi denunciado como sendo uma fraude, por um “caçador” especializado em truques. A experiência relatada por Benveniste só ocorria quando estava presente uma colaboradora.
Há quem afirme que Montagnier ensandeceu, o que não é de por de parte, porque nem os prémios Nobel estão livres de tamanho destino.
Tudo isto por causa das diferentes artes de curar e do cientificismo subjacente às mesmas. Já tivemos muitas conversas a este propósito. Considero que é muito difícil não encontrar alguém que não tenha poder de curar. Até os médicos são capazes de “curar”. Mas estes têm a obrigação científica de provar o que fazem e o que deixam de fazer. Os outros praticantes da arte de curar estão numa melhor posição; não têm necessidade de provar o que quer seja sob o ponto de vista científico. E quando as suas práticas são sujeitas às regras da ciência já se sabe o que acontece. Mas, muitos perguntam: - Eles, também, não curam? – Claro que curam. Olhar para uma paisagem, ler um belo poema, ir a um santuário, ouvir uma palavra de um amigo, dar atenção a um conselho do padre (por algum motivo também são conhecidos por “curas”, do tempo em que tratavam fisicamente as pessoas, depois foram proibidos e passaram a conselheiros espirituais), ir à bruxa ou usar as disponibilidades de um carteiro – Lembrei-me desta profissão, por causa de um doente que tem o sorriso mais malandro do mundo e que, quando era novo, "consolava" muitas senhoras, quem o diz é a mulher que vem com ele à consulta! Sorri, sorriso alargado, encolhe os ombros, diz muito pouco, mas os olhos confirmam, e de que maneira! -, são, entre outros, verdadeiros curandeiros. Não vejo mal nenhum nisso. O que me admira é a necessidade de muitas práticas tentarem esconder-se atrás da medicina e quererem ombrear com ela, talvez para justificar e alargar a área de atuação. O caso da homeopatia é paradigmático.
A primeira vez que ouvi esta palavra andava no sétimo ano. Recordo de ter lido, num fascículo de uma enciclopédia que andava a colecionar, algo sobre esta matéria que me deixou perplexo. Ainda discuti com os meus colegas à hora do almoço, quando jogávamos ao póquer de dados nos bombeiros do Carregal do Sal. Saíamos ao meio-dia do colégio, comíamos em cinco minutos, outros cinco para fazer corta-mato por um atalho e conseguíamos arranjar quarenta e cinco minutos para nos divertirmos. Quando faltava cinco minutos para a uma, abalávamos à pressa, entrando na sala no preciso momento em que a campainha deixava de tocar. Dominadores do tempo. No decurso de uma partida disse à rapaziada que não entendia como era possível tratar doenças com medicamentos que produziam os mesmos efeitos, diarreia com um diarreico, febre com um produto que aumentava a temperatura e ia debitando o assunto, perguntando aos outros se conseguiam entender aquilo. Claro que não me deram troco e nem me deixaram que perguntasse à professora de Ciências como era possível tal coisa. – Deixa-te disso, não a chateies e a nós também não, joga como deve ser. Foi a primeira vez que ouvi falar de Hanneman e das célebres e esquisitas diluições a ponto de não haver uma única molécula na solução. Dizem que é a “memória da água” que faz o efeito! Irra, se a água tivesse mesmo memória, e se lembrasse de tudo por onde já passou e do que levou em cima... Até tremo com os seus efeitos. Agora, esta do teletransporte do ADN também está a causar algum estremeção. Ponho-me a pensar o que fará o meu ADN quando estiver próximo de uma cachopa jeitosa. Já estou a vê-lo a teletransportar-se e a fazer não sei o quê, mas, desde já, declaro que não me responsabilizo por quaisquer consequências...
terça-feira, 1 de março de 2011
A tragédia da "Estabilidade"...
1.Dos tempos já longínquos em que estudei Direito das Obrigações, seguindo os manuais do espantoso jurista que foi Manuel de Andrade – por muitos ainda hoje considerado o maior juris-civilista português de sempre - ficou-me na memória a original teoria de um autor italiano Oppo acerca das obrigações naturais (dívidas de jogo e dívidas prescritas, por exemplo).
2.Oppo referia-se à “tragédia” das obrigações naturais que, segundo ele (e com razão) só tinham verdadeira existência, como se de obrigações civis se tratasse, no momento em que...morriam!
3.O fundamento para esta curiosa teoria está no facto de as obrigações naturais terem, como elemento principal, o seu cumprimento não ser exigível pelo credor...mas se o devedor pagar, paga bem, não podendo exigir a restituição do que tiver pago!
4.Percebe-se assim que estas obrigações naturais só adquiram característica de verdadeiras obrigações quando o devedor, a seu livre arbítrio, resolve pagar, “matando” a obrigação...aí sim, transformam-se em obrigações civis pois o devedor não pode dizer que pagou mal, que a obrigação era apenas natural...pagou, está pago e bem pago, como se a obrigação fosse de outro tipo!
5.Parece-me que esta teoria de Oppo pode ser-nos útil para a análise da decantada teoria da Estabilidade, hoje “grande” (e provavelmente derradeiro) argumento dos Incumbentes governamentais para justificar a sua permanência no poder...
6.Tal como Kadafi diz que o Povo líbio o ama, também os Incumbentes dizem que o Povo português deseja Estabilidade...foi muito curiosa por exemplo a forma como tentaram contornar a derrota na noite das eleições presidenciais de 23 de Janeiro, explicando que o Povo deseja estabilidade...ou seja(nessa interpretação) o Povo deseja que quem está no poder lá permaneça, eles incluídos...
7.Afigura-se-me, no entanto, que existe aqui um lapso de raciocínio, pois o Povo parece estar desiludido com a dita Estabilidade se ela significar a manutenção dos Incumbentes...
8.A Estabilidade em questão identifica-se hoje inapelavelmente (bem ou mal, provavelmente mais bem que mal) com a continuação de um projecto que se traduz (i) no empobrecimento progressivo dos cidadãos, (ii) no endividamento galopante do País, conduzindo a um garrote financeiro dos particulares e das empresas, (iii) no crescimento imparável do desemprego, (iv) na excessiva e mesmo sufocante intervenção do Estado em muitas áreas da actividade económica e social para as quais não está preparado, (v) no consequente desperdício de recursos escassos que atinge níveis sem precedente, (vi) em apostas falhadas em projectos que comprometem o futuro das novas gerações, (vii) em regalias injustificadas distribuídas a esmo aos apaniguados do regime sem curar de distinguir em função das competências ou das qualificações, etc, etc..
9.Uma Estabilidade destas só por graça (de muito mau gosto) pode ser usada, nas actuais circunstâncias do País, como argumento fundamental de acção ou de escolha política...
10.O melhor que se lhe pode desejar é que essa Estabilidade tenha a mesma sorte trágica das obrigações naturais segundo Oppo – ou seja, que só exista como real Estabilidade no momento de morrer...porque só aí estaremos verdadeiramente em condições de colher os seus benefícios...
2.Oppo referia-se à “tragédia” das obrigações naturais que, segundo ele (e com razão) só tinham verdadeira existência, como se de obrigações civis se tratasse, no momento em que...morriam!
3.O fundamento para esta curiosa teoria está no facto de as obrigações naturais terem, como elemento principal, o seu cumprimento não ser exigível pelo credor...mas se o devedor pagar, paga bem, não podendo exigir a restituição do que tiver pago!
4.Percebe-se assim que estas obrigações naturais só adquiram característica de verdadeiras obrigações quando o devedor, a seu livre arbítrio, resolve pagar, “matando” a obrigação...aí sim, transformam-se em obrigações civis pois o devedor não pode dizer que pagou mal, que a obrigação era apenas natural...pagou, está pago e bem pago, como se a obrigação fosse de outro tipo!
5.Parece-me que esta teoria de Oppo pode ser-nos útil para a análise da decantada teoria da Estabilidade, hoje “grande” (e provavelmente derradeiro) argumento dos Incumbentes governamentais para justificar a sua permanência no poder...
6.Tal como Kadafi diz que o Povo líbio o ama, também os Incumbentes dizem que o Povo português deseja Estabilidade...foi muito curiosa por exemplo a forma como tentaram contornar a derrota na noite das eleições presidenciais de 23 de Janeiro, explicando que o Povo deseja estabilidade...ou seja(nessa interpretação) o Povo deseja que quem está no poder lá permaneça, eles incluídos...
7.Afigura-se-me, no entanto, que existe aqui um lapso de raciocínio, pois o Povo parece estar desiludido com a dita Estabilidade se ela significar a manutenção dos Incumbentes...
8.A Estabilidade em questão identifica-se hoje inapelavelmente (bem ou mal, provavelmente mais bem que mal) com a continuação de um projecto que se traduz (i) no empobrecimento progressivo dos cidadãos, (ii) no endividamento galopante do País, conduzindo a um garrote financeiro dos particulares e das empresas, (iii) no crescimento imparável do desemprego, (iv) na excessiva e mesmo sufocante intervenção do Estado em muitas áreas da actividade económica e social para as quais não está preparado, (v) no consequente desperdício de recursos escassos que atinge níveis sem precedente, (vi) em apostas falhadas em projectos que comprometem o futuro das novas gerações, (vii) em regalias injustificadas distribuídas a esmo aos apaniguados do regime sem curar de distinguir em função das competências ou das qualificações, etc, etc..
9.Uma Estabilidade destas só por graça (de muito mau gosto) pode ser usada, nas actuais circunstâncias do País, como argumento fundamental de acção ou de escolha política...
10.O melhor que se lhe pode desejar é que essa Estabilidade tenha a mesma sorte trágica das obrigações naturais segundo Oppo – ou seja, que só exista como real Estabilidade no momento de morrer...porque só aí estaremos verdadeiramente em condições de colher os seus benefícios...
A nossa dívida, que já foi soberana!...
Teixeira dos Santos referiu ontem, na Conferência da Reuters, que serão implementadas medidas de austeridade adicionais, se necessário, para baixar o défice.
A seguir, Sócrates garantiu que o seu Governo faria tudo o que lhe fosse possível para atingir o objectivo orçamental.
Perante tais dúvidas e afirmações, comprova-se que nem o próprio Governo acreditou no festival que deu para celebrar o mito da execução orçamental de Janeiro. Basta, aliás, olhar para os números oficiais. A Despesa Pública continuou a aumentar, em termos nominais e reais. O défice só diminuiu em relação a Janeiro de 2010 devido ao aumento de impostos e das receitas extraordinárias de antecipação de dividendos, medida, aliás, que o governo tanto criticou. Até as Despesas com Pessoal aumentaram, mesmo após os cortes salariais.
Assim, perfeitamente natural novas medidas de austeridade. O governo deitou foguetes e nós continuamos a pagar a festa. Por inteiro. Que os alemães, parece, já não vão nisso. Embora Sócrates continue a afirmar que é a eles, e à Europa, que compete resolver as dificuldades da nossa dívida, que já foi soberana.
Acção do governo, só para aumentar a Despesa, dizendo que a reduz. Até na mistificação, a incompetência é grosseira.
A seguir, Sócrates garantiu que o seu Governo faria tudo o que lhe fosse possível para atingir o objectivo orçamental.
Perante tais dúvidas e afirmações, comprova-se que nem o próprio Governo acreditou no festival que deu para celebrar o mito da execução orçamental de Janeiro. Basta, aliás, olhar para os números oficiais. A Despesa Pública continuou a aumentar, em termos nominais e reais. O défice só diminuiu em relação a Janeiro de 2010 devido ao aumento de impostos e das receitas extraordinárias de antecipação de dividendos, medida, aliás, que o governo tanto criticou. Até as Despesas com Pessoal aumentaram, mesmo após os cortes salariais.
Assim, perfeitamente natural novas medidas de austeridade. O governo deitou foguetes e nós continuamos a pagar a festa. Por inteiro. Que os alemães, parece, já não vão nisso. Embora Sócrates continue a afirmar que é a eles, e à Europa, que compete resolver as dificuldades da nossa dívida, que já foi soberana.
Acção do governo, só para aumentar a Despesa, dizendo que a reduz. Até na mistificação, a incompetência é grosseira.
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