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quarta-feira, 20 de julho de 2005
Ainda as Castas: um brâmane a pedir esmola?
O comentário do Prof. Massano a um post anterior sobre as castas, leva-me a contar a seguinte história, que ilustra como a ideia de casta ainda está arreigada na sociedade indiana.
Passeava, a pé, conversando com o guia, na cidade de Jaipur.
Ao virar de uma esquina, vejo um indiano, montado num enorme elefante, em atitude que me pareceu de pedir esmola aos turistas que passavam.
Parei um pouco, a apreciar a cena.
O guia também parara dois passos à frente.
Quando lhe ia perguntar se o sujeito estava mesmo a pedir esmola, ouvi o guia exclamar, de forma expontânea e em alta voz: um brâmane a pedir esmola?
Para mim, a curiosidade era alguém pedir esmola montado num elefante; para o meu guia indiano a estupefacção era ver um brâmane, membro da classe mais elevada, a pedir esmola!...
Este simples episódio do comentário do guia ilustra como, de facto, a ideia de casta ainda está presente nas mentalidades: um brâmane nunca poderia pedir esmola!..
Perguntei ao guia se já ia havendo casamentos entre brâmanes e párias, a classe mais baixa.
O guia explicou-me que um verdadeiro brâmane, mesmo muito, muito pobre, nunca daria o seu consentimento para um filho ou filha casar com um pária, mesmo muito, muito rico.
E sem consentimento dos pais, dificilmente há casamento entre os hindús.
Embora os membros das diversas castas já não sejam distinguíveis pelo aspecto exterior, todavia são perfeitamente distinguíveis pelo nome.
No entanto, mercê da quota de 30% para párias introduzidas no acesso às Universidades, tem havido progresso no que respeita à igualdade entre indianos e à ocupação de lugares públicos.
Por exemplo, o actual Presidente da República é um pária.
Uma curiosidade no que respeita às quotas dos párias para entrada nas Universidades: como tudo na Índia, também podem ser transaccionadas!... Basta acertar o preço!...
Freitas e o “plebiscito unanimista”
Nem dificuldades de comunicação nem críticas ao Governo. A entrevista de Freitas do Amaral só tem um propósito: o de reafirmar que também é “presidenciável”, evidência que tem barbas de muitos anos. A única crítica substancial é feita ao PS e a José Sócrates por tardarem em fazer opções e deixarem Cavaco Silva tornar-se uma “inevitabilidade”. A forma como Freitas pretende criticar “a direita” por apostar em Cavaco e as referências ao “cheque em branco” e ao “plebiscito unanimista”, soa a nervosismo e ansiedade. O recurso às analogias com o tempo do Estado Novo não se me afigura como bom caminho. Esquece-se Freitas que nessa altura também o candidato do regime a Presidente da República era escolha exclusiva do Presidente do Conselho.
Agora o problema de Sócrates está na opção entre “piscar o olho à esquerda” (Manuel Alegre) ou tentar conquistar o centro (Freitas), desguarnecendo sempre o flanco contrário.
O cobertor continua a ser curto. Só que ninguém o puxa!
“Pílula milagrosa”….
As doenças cardiovasculares são cada vez mais frequentes originando sofrimento e morte. As razões, de um modo geral, prendem-se com o facto de vivermos cada vez mais e com os nossos estilos de vida.
Como queremos viver mais tempo, o que é natural e desejável, devemos centrar os nossos esforços e atenção na modificação dos hábitos, dos maus hábitos, claro. Mas, não é nada fácil alterar os comportamentos de risco, porque envolvem muitos factores de natureza cultural, social e económica. São necessários muitos anos e até gerações para que possamos actuar, pelo que não é possível no curto espaço de tempo da existência de cada um observarmos os resultados.
Sendo assim, todo o esforço com o objectivo de prevenir muitas dessas doenças é bem-vindo. Como as doenças cardiovasculares ocupam o primeiro lugar, e muitos dos factores de risco são susceptíveis de controlo terapêutico, caso dos medicamentos para baixar a pressão arterial, reduzir o colesterol ou impedir a formação de “trombos”, foi proposto recentemente a produção de um comprimido com seis substâncias activas para ser ministrado, com objectivos profilácticos, a todos as pessoas com mais de 55 anos. De acordo com os proponentes, esta pílula poderia prevenir 80% dos ataques cardíacos naquele grupo etário.
A proposta tem sido alvo de discussão e de críticas por parte de alguns, como seria previsível. Os argumentos de que tal medida facilitaria a manutenção de estilos de vida prejudiciais não parecem ser suficientemente fortes, já que a tendência é para a melhoria.
Ainda vai demorar um pouco a entrada desta pílula nos nossos hábitos. De qualquer forma, é muito provável que a curto ou a médio prazo, lá tenhamos de a tomar ao pequeno-almoço… E, quem sabe, se às seis substâncias que protegem as nossas artérias, ainda não vão juntar uns pozinhos de um ansiolítico, de um antidepressivo, de produtos para impedir a queda de cabelo (existem mesmo!) ou combater a disfunção eréctil!
É a vida, como dizia o engenheiro! Mas se for para melhor, por que não?
terça-feira, 19 de julho de 2005
“Vida criada pelo homem”…
Quando o homem comeu o fruto da árvore da sabedoria teve consciência da sua existência e, consequentemente, da fragilidade e perenidade que o futuro lhe reservava de forma absoluta e angustiante. Começou o sofrimento. Ao longo da existência tentou tudo, e continua a tentar, para conseguir a eterna juventude. Anda com uma fome dos diabos para comer o fruto da árvore da vida. As últimas conquistas nas áreas da biologia são paradigmáticas da sua ânsia em conhecer os segredos da vida. Não contente com as suas descobertas, o que é perfeitamente compreensível para quem foi expulso do paraíso, procura criar vida. Novas formas de vida estão a ser equacionadas, desta feita, a criar pelo próprio homem. Sendo a criação uma emanação de Deus, poderíamos pensar que o homem estaria a substitui-lo. Claro que não. Mas pretende imitá-lo. Pergunta-se: - Afinal o que é que distingue a vida da não vida? Cientistas e filósofos têm discutido de forma aprofundada esta temática. Não é fácil. No entanto, não deixa de ser curioso que a explicação aceite para separar os dois estados seja, precisamente, a evolução darwiniana. Só os seres vivos são susceptíveis de evolução darwiniana, facto extraordinário que contraria a posição dos criacionistas. Mas para que serve criar novas formas de vida? Para gáudio do homem? Para demonstrar que pode imitar o Criador e ambicionar um estatuto semelhante? Não haverá perigo para o planeta com a libertação e ausência de controlo desses seres? São perguntas pertinentes. Com as novas formas de vida será possível resolver problemas diversos. A tecnologia viva possibilitaria produzir combustíveis não poluentes, eliminar resíduos perigosos, enviar seres vivos pelo corpo humano para fazer diagnósticos, corrigir e reparar lesões, trazer informações, ministrar medicamentos vivos que saberiam onde ir, resolvendo os problemas, fazer parte de máquinas capazes de auto-reparação, enfim um sem número de possibilidades que parecem mais fruto de ficção científica. Mas não, na próxima década irão surgir surpresas susceptíveis de atingir estes objectivos, já que várias equipas estão a trabalhar com determinação no sentido de criar vida diferente da existente. Andamos todos ansiosos por saber se existe vida extraterrestre em Marte ou em Europa, satélite de Júpiter, e, um dia destes, ainda corremos o risco de acordar com novos seres ao nosso lado. Claro que vai haver muita discussão no plano ético e religioso. Mas que vai haver mudanças nas formas de estar e de ser da sociedade, ai isso vai! Gostava tanto de ver…
O Nababo de Junadagh
Para os Ocidentais, um nababo é o sinónimo de homem muito rico, vivendo luxuosamente.
O termo foi “importado” da Índia muçulmana, em que os nababos ocupavam um dos lugares superiores da hierarquia.
Estavam para os Imperadores como, no Ocidente, os Marqueses para o Rei.
Já agora, e por curiosidade, na hierarquia dos antigos Estados Hindús da Índia, o Marajá equivalia ao Rei, enquanto os Rajás equivaliam ao Duque.
Os Nababos eram, de facto, muito ricos, possuindo palácios grandiosos e vastíssimas terras.
O Nababo de Junadagh, na Índia Ocidental, á altura da independência, não era excepção à regra.
Como muitos, não tinha especial carinho pelas pessoas, mas tinha uma predilecção especial por cães e possuía 800 destes animais.
Os 800 cães viviam num palácio, em luxuosos aposentos, com quartos e criados individuais.
O Nababo organizava banquetes para celebrar os respectivos “casamentos”.
Na altura da independência, queria que o seu território fosse integrado no Paquistão, o que não lhe foi permitido.
Como tal, resolveu abandonar Junadagh.
No momento de partir, embarcou no seu avião e alugou outros para os 800 cachorros.
Como já não cabiam, as concubinas ficaram todas no harém, entregues à sua sorte!...
Entre pessoas e os cães, escolheu estes últimos.
Não se trata de história de há séculos: é, mesmo, uma história recente.
Com efeito, este Nababo morreu em 1959.
E é capaz de explicar muito do que, ainda hoje, é a Índia!...E de nos fazer reflectir sobre o que é, de facto, o homem!...
Grão a grão...
As pessoas acorrem aos milhares a estas iniciativas, pagam o que for preciso pelo bilhete, sofrem muitas vezes o desconforto da viagem, do calor, da espera que comece, das horas em pé para ouvir e cantar em multidão por um mundo melhor.
E paravam na rua para perder dois minutos a ouvir uma pessoa a pedir ajuda? E faziam uma viagem para visitar um doente? E arriscavam dar um décimo do preço do bilhete a uma família do outro lado da rua? É claro que é pouco, é infinitamente menos, não se traduz no perdão da dívida de países nem nada que se pareça, mas talvez não se perdesse o esforço.
Uma vez encontrei um grupo de jovens que vinha muito entusiasmado de um encontro em que tinham decidido organizar uma série de iniciativas para angariar dinheiro para os idosos do bairro e arredores e discutiam animadamente sobre as hipóteses de sucesso do que estavam a planear. Aquilo ia dar-lhes trabalho, exigia inúmeras reuniões, telefonemas, procura de espaços, enfim, muito tempo e dedicação “aos idosos da nossa comunidade”. Quando lhes perguntei há quanto tempo é que não iam a casa dos avós ficaram a olhar para mim.
Às vezes o mais difícil é começar pelas coisas simples.
segunda-feira, 18 de julho de 2005
Os liberais e o poder
Um dos enigmas que alguns sectores liberais identificam de forma frequente resume-se na questão: porque é que os liberais, uma vez chegados ao poder, esquecem-se do liberalismo e adoptam políticas não liberais?
Três hipóteses de trabalho e reflexão:
1. Porque o país não é liberal e o liberalismo não se decreta.
2. Porque as elites e as classes médias em Portugal – de que uma parte tem a capacidade de decidir eleições, ao centro – cresceram e vivem à sombra do Estado, dele dependem e com ele se confundem.
3. Porque os partidos onde possam existir esses liberais, colocados face à alternativa de cumprir princípios ou ganhar eleições, optam invariavelmente pela segunda.
Desde os primeiros assomos liberais do século XIX que vivemos escravos desta incorrigível realidade.
As Castas- De Párias a Oprimidos
Os cinco níveis de castas, por ordem decrescente de importância social, são os brâmanes, os kshatriyas (proprietários, aristocratas), os vaishyas, os shudras e os párias ou intocáveis, designação esta devido à sua indignidade para serem tocados por membros de castas superiores.
Depois do que ouvi, continuei com muitas dúvidas, aliás perceptíveis na dupla apresentação do tempo dos verbos do 2º parágrafo deste texto.
Com efeito, se as castas foram constitucionalmente abolidas, permanecem ainda arreigadas no espírito colectivo.
Tanto assim que, se uma pessoa nasce na casta X, irá viver, casar e morrer nessa mesma casta.
A grande constatação da sua continuidade está mesmo no estabelecimento de quotas para os párias, por exemplo, para entrarem nas Universidades: 30% das vagas são destinadas aos membros desta casta.
Contudo, vem-se esbatendo a segregação devido ao nascimento.
Este caminho levou até à alteração do nome pelo qual são agora designados os membros da casta mais baixa: passaram a ser designados por uma expressão mais geral, os “dalit”, ou oprimidos, em vez de párias ou intocáveis.
Esta política, contudo, ainda precisa de ser muito aprofundada, tanto assim que, neste momento, os trabalhos mais sujos ou mais duros ainda estão reservados para os intocáveis, agora designados como oprimidos.
Carreira docente: entre conter a despesa e qualificar o ensino
Na última reunião do Conselho de Ministros foram aprovadas as alterações ao Estatuto da Carreira Docente do ensino não superior que haviam sido anunciadas pelo ME. Todas elas reflectem a preocupação meritória – e já aqui subscrita – de conter a despesa pública. Nenhuma delas contribui de forma evidente para a qualificação da actividade docente. Estaria à espera que se aproveitasse a oportunidade para alterar ou regulamentar aspectos decisivos do recrutamento e progressão na carreira docente, o que não aconteceu. Perdeu-se uma oportunidade única para se proceder de forma integrada a essa revisão.
Problemas como o do recrutamento (é urgente a despistagem vocacional e científica à entrada da carreira, bem como a regulamentação do período probatório ou de indução), da avaliação do desempenho como condição de progressão (introduzir a avaliação e discussão do “portfolio” do docente, substituindo o “documento de reflexão crítica” que ninguém avalia) e a criação da categoria de “professor coordenador”, a que se acede mediante provas públicas, ficaram para melhor oportunidade.
Só que, perdida que foi esta, duvido que surja uma melhor.
O que fica: algumas medidas de limitado impacto sobre a despesa pública, sem que a urgente qualificação e reconhecimento do mérito dos docentes se concretize.
domingo, 17 de julho de 2005
Riscos em denegrir a imagem de uma vila e de um país
A análise do comportamento de alguns canenses, no decurso de uma apresentação preliminar dos dados do estudo epidemiológico sobre os efeitos dos materiais radioactivos, merece algumas reflexões e até uma comparação com o comportamento de Jya Youling, director do Departamento de Veterinária, do Ministério da Agricultura da China.
Em primeiro lugar deve ser realçada a implementação do estudo por exigência da Assembleia da República. Os atentados ambientais são uma constante que urge eliminar. É curioso verificar que, só ao fim de muitos anos, se avalie o impacto ambiental e na saúde das pessoas, como se nada de anormal tivesse ocorrido nas barbas de técnicos altamente qualificados, para não falar dos sucessivos responsáveis ministeriais.
Os dados apontam para alterações hormonais, sobretudo, da tiróide e perturbações da capacidade reprodutiva, entre outros. A população suspirou de alívio, porque a situação, afinal, não era tão grave como alguns faziam crer. Esta posição foi secundada pelos peritos. Mas estavam à espera de quê? Que andassem a morrer pelas esquinas numa versão hodierna de qualquer peste pneumónica? Que os seus filhos nascessem uns atrás de outros com malformações a lembrar a malfadada talidomida? Se assim fosse já há muito que o problema tinha sido identificado sem a necessidade de recorrer a este tipo de estudos. O que se pretende é saber se uma determinada exposição ambiental de origem humana está ou não associada a problemas de saúde. O estudo revela que existe associação.
As múltiplas e crescentes agressões ambientais podem originar perturbações, as quais, mais cedo ou mais tarde, podem provocar doenças. Convém não esquecer que muitas dessas perturbações não se confinam aos alvos presentes, mas podem continuar a manifestarem-se em futuras gerações, mesmo que o problema de base tenha sido resolvido.
O compromisso das novas gerações é uma realidade. Um estudo, recente, demonstrou, por exemplo, a presença de mais de 200 substâncias estranhas no sangue do cordão umbilical de recém-nascidos. Ou seja, antes de entrarem em contacto directo com o meio ambiente já sofreram agressões através das mães.
A situação em Canas de Senhorim exige a tomada de medidas de requalificação ambiental, o mais breve possível, a fim de eliminar as agressões a que estão sujeitos os canenses, sobretudo os mais novos.
As atitudes tomadas pelos ambientalistas locais merecem o máximo respeito e deverão ser acarinhadas. É lamentável, de acordo com a informação da comunicação social, que tenha sido negada a entrada de um ambientalista, na altura da apresentação do estudo à população, sob o pretexto de que anda a denegrir a imagem de Canas de Senhorim!
Jya Youling rejeitou a investigação efectuada sobre a gripe das aves publicada, recentemente, na Nature. O artigo científico de Yi Guan demonstrou que a mortandade de aves ocorrida no Nordeste da China foi da responsabilidade de aves migratórias proveniente do Sul do país. As aves vieram de outro país, afirmou o alto responsável do ministério da agricultura! Coitado do cientista! Um chinês a denegrir a imagem da China? O melhor é preparar-se para as represálias habituais naquele quadrante do globo. Apesar de tudo, em Portugal, o máximo que lhe podia acontecer, era ficar à porta de uma reunião por vontade de meia dúzia de bairristas "preocupados" com a imagem da sua terra. Agora na China…
De Delhi a Agra
Delhi, 3 de Julho
A viagem por estrada de Delhi para Agra é, só por si, um espectáculo.
Passa-se de uma cidade super povoada, com 10 milhões de habitantes, para o Estado mais povoado da Índia, o Uttar Pradesh.
Por esta razão e também porque essa mesma via serve a cidade de Benares ou Veranassi, um dos Santuários da Índia, aonde as pessoas se deslocam para se purificarem no Ganges ou para morrer e onde as piras ardem continuamente para cremação dos corpos, o trânsito é intenso.
E é também a Agra que se deslocam muitos turistas, em busca do Taj Mahal.
Ao longo da estrada, filas intermináveis de aldeias cheias de movimento e cor, com os charcos e o lixo omnipresentes.
Nas povoações em que havia feira, o trânsito era naturalmente obrigado a parar, o que permitia dar uma olhada em volta.
Alinhados ao longo das bermas, por entre as bancas da fruta, dos legumes, das roupas, da electrónica e das quinquilharias várias, os encantadores de serpentes, sempre rodeados de gente e de vacas, que também encantam, os artistas de circo e faquires, apresentando as suas habilidades, e espectáculos de ursos polares, nascidos nos gelos dos pólos, exibindo-se, presos pelo nariz, a temperaturas de cerca de 40 graus centígrados, tudo e todos impassíveis perante o trânsito que passa a poucos centímetros...
Deste tumulto de imagens diversas de que a Índia é feita, e que retratam uma vida dura e difícil, passa-se à harmonia da Índia dos Imperadores.
O Taj Mahal, em Agra, é o símbolo maior desta harmonia.
Começou a ser construído em 1631 pelo Imperador Shah Jahan, por amor e em memória de sua mulher, que morreu durante um parto, terminando a construção 22 anos depois.
Deposto por um dos filhos, que também matou os irmãos, o Imperador foi preso no Forte de Agra, tendo-lhe sido concedida uma masmorra de onde podia avistar o Taj Mahal.
Portugueses de segunda
Nele se manifesta o recorrente e mórbido exercício auto-flagelatório e miserabilista de uma elite que gostava de ver o país à sua medida.
Ao desfiar a longa lista de "imoralidade" e de "irresponsabilidade" dos governantes (a que terá de acrescentar as causais inconsciência e boçalidade dos portugueses que os escolhem, como aliás ontem desabridamente opinava João Pereira Coutinho nas páginas do ´Expresso´), prova-se que há efectivamente portugueses de segunda. São aqueles que não gostam de se sentir portugueses, que prefeririam viver num país "exemplar" para usar a palavra do editorialista. Os que à mesa do café ou nas conversas onde pretendem patentear o brilho das suas análises oraculares - que sempre apontam para a mais absoluta desgraça nacional, presente e futura -, não se cansam de desejar, em voz alta, emigrar. Os que, enfim, parecem envergonhar-se do País onde vivem.
A verdade porém é que a maioria deles, ao contrário dos seus concidadãos incultos e irresponsáveis que por necessidade tiveram de emigrar, vivem bem, muito bem no País que a toda a hora menorizam e desprezam.
Esquecem que nos países "exemplares" já aconteceu, e continua a acontecer, tudo aquilo que verberam em Portugal. Todos os escândalos. Todos os erros de governação. E muito pior.
Reconheço, todavia, que existirá entre a maioria desses países e Portugal duas assinaláveis diferenças. A primeira é que entre as elites desses países é comum encontrar-se um salutar orgulho nacional, que é condição de otimismo na sociedade e crença nas qualidades e capacidades do seu Povo. Mesmo que aí também haja a noção que só o escândalo, a malidiscência o "quanto pior, melhor" vende jornais e atrai publicidade.
A segunda é que não será tão fácil como entre nós encontrar quem a toda a hora ache que o seu país é mau.
Não será por acaso que Eça de Queiroz, Raul Brandão, Oliveira Martins e outra figuras ilustres das nossas letras, são mais conhecidos e quase sempre citados pela circunstancial má relação que tiveram com o país do seu tempo, do que pelo que reconheceram nele de glorificante e motivo de orgulho de sermos quem somos e como somos.
Infelizmente o que escrevo a seguir não é um lugar comum (antes o fosse!): eu tenho muito orgulho em ser português. E julgo que só este orgulho pode mover-nos a lutar por uma sociedade melhor. Nunca o contrário.
sábado, 16 de julho de 2005
Chowk - Old Delhi
I have a hard life...
Delhi é o resultado de sete cidades formadas ao longo dos séculos, ao sabor das invasões e dos novos senhores, a que se juntou a última, a Nova Delhi, construída pelos ingleses, para acolher a nova capital, antes Calcutá.
A visita programada abrangeu, entre outros pontos, o Forte Vermelho, construído em 1638, a Jama Masjid, a maior mesquita da Índia e, dizem, a segunda maior do mundo e ainda a Rua Chowk, um espectáculo de cor e de movimento, um imenso bazar, onde tudo se troca, tudo se compra e tudo se vende…
Caótico é o adjectivo mais meigo para definir o trânsito: carros, bicicletas, riquexós, triciclos, camionetas, autocarros, carros de cavalos, peões e vacas disputam cada centímetro...é mesmo cada centímetro... de terreno e as “tangentes” são de arrepiar.
Os indianos devem ser os melhores condutores do mundo e também os que mais apitam!....
Nas bermas, proliferam todos os negócios imagináveis, no meio de toneladas de lixos acumulados, dos dejectos dos animais, da lama das chuvadas…
Para a deslocação do Forte Vermelho, património da humanidade, à mesquita, utilizei um riquexó, bicicleta com atrelado para duas pessoas, conduzida e puxada por um indiano a quem um braço tinha sido decepado pelo ombro.
Conduziu o riquexó com esforço e mestria pelo emaranhado das vielas cujo alcatrão esburacado exigia um esforço suplementar.
Dei-lhe uma boa gorgeta.
Mas não posso esquecer o traço do seu rosto, a pedir-me um pouco mais, com as seguintes palavras, textuais:” as you see, I have a hard life and you are a rich man, give me some rupias more…”.
Não acedi.
Mas quando me lembro do seu ar triste e, ao mesmo tempo, conformado, pela educação hinduísta, arrependo-me de não o ter feito.
Índia
Índia
Integrado numa excursão dos Lions, visitei a Índia.
Chegados a Nova Delhi, espera-nos o autocarro para o Hotel.
Calor. Ar húmido e peganhento. Trânsito caótico.
Estamos realmente num outro mundo: ao longo do percurso, gente deitada, estendida no chão ou em cima de qualquer muro ou suporte, por todo o lado.
Homens e mulheres conversam de cócoras ou dormem nas bermas da auto-estrada e, mesmo, no meio dos separadores centrais da via rápida, a escassos centímetros dos carros.
Vacas, de pé, olhando a paisagem ou dormindo como os humanos.
O ambiente e os odores da Índia começam a fazer-se sentir.
Em meia hora, o autocarro põe-nos no Hotel, na parte nova de Delhi.
Um hotel da cadeia Oberói, a mais luxuosa da Índia.
O Oberói Nova Delhi tem o aspecto exterior do Ritz de Lisboa, implantado num belo parque.
Primeiro contraste violento: a miséria extrema da rua e o luxo ostentatório do hotel.
sexta-feira, 15 de julho de 2005
"Oh! minha América, minha doce terra achada"
A publicação recente de um livro sobre o orgasmo feminino (The case of the female orgasm de Elisabeth A. Loyd) e a sua interpretação em termos evolutivos, aliado à compra, em Madrid, de mais uma obra do notável escritor argentino Federico Andahazi, obrigou-me a reflectir sobre um órgão que ainda encerra alguns segredos: o clítoris.
A lembrança de que é alvo de mutilação em certas culturas causa arrepios, não só pelo facto de constituir uma ofensa física, mas também por ser uma violação da dignidade feminina. Deste modo, recordei-me de alguns aspectos, uns de natureza histórica e outros de natureza literária. Aliás, é até possível fazer uma ponte entre os dois. Basta para o efeito ler a primeira grande obra do já citado escritor argentino, O Anatomista.
O "descobridor" deste órgão, inexistente em cerca de 140 milhões de mulheres, sobretudo africanas (pela extirpação mais ou menos completa), foi Mateus Reinaldo Colombo, professor de anatomia em Pádua. Na sua obra, De re anatomica, publicada em 1559, está descrita a pequena e preciosa protuberância. Como prova do entusiasmo da sua descoberta, destaca-se a célebre frase "Oh! minha América, minha doce terra achada", comparando-se deste modo ao outro Colombo que tinha descoberto o Novo Mundo. E por que não?
O Anatomista descreve a vida romanceada deste médico e a forma como descobriu a função de algo, a quem atribuiu a origem do amor feminino, ao rotulá-lo de Amor Veneris.
Se Inês de Torremolinos, a mulher que permitiu ao mestre a descoberta, acabou por prescindir do amor, ao excisar-se voluntariamente do seu Amor Veneris, vel Dulcedo Appeleteur, para ser senhora do seu próprio coração, nada justifica esta prática ancestral, praticada em tantos países. Nem os próprios motivos religiosos justificam, já que não ocorre, praticamente, na Arábia Saudita, coração do islamismo.
Mateus Colombo quis colocar neste órgão a sede do amor, e sabia quais os riscos de tanto atrevimento. No século XVI, a possibilidade de ser "churrascado" é do conhecimento geral. E o nosso "descobridor" tinha particular repulsa pelo cheiro de carne humana queimada. Mesmo assim, conseguiu transmitir aos vindouros a sua descoberta, contribuindo para a emancipação da mulher. Não podemos esquecer que este século foi designado pelo "século das mulheres".
Afinal, onde está localizada a sede do amor? Numa extensão que vai desde o Amor Veneris ao coração, ou do coração ao Amor Veneris…
Uma pequena história
Era a altura das provas de acesso ao ensino superior e o ambiente de críticas à "violência" dos exames e ao stress que causaria aos alunos estava no seu auge. Chegavam então ao Ministério (e ainda deve ser assim...) centenas de cartas de pais e filhos a queixarem-se das dificuldades que sentiam, uns para aturarem as crises dos jovens, outros dos tormentos que sofriam para estudar e passar.
Uma das cartas era de uma rapariga que se dirigia ao Ministro pedindo por tudo que acabasse com o exame de informática, porque era tema que ela, boa aluna a tudo o resto, nunca conseguiria aprender. Ora isso ia impedi-la de seguir o curso que queria o que, dizia ela, era uma grande injustiça, porque não ia poder realizar-se nunca na vida.
- A si não custa nada - dizia ela - é só fazer o despacho a acabar com este exame. Com esse gesto vai fazer com que um jovem possa seguir a sua vocação e ser um bom profissional... Não é isso que um Ministro deve querer?
Acontece que a carta teve resposta num cartão escrito pela mão do próprio responsável pela pasta e dizia que não era por lhe retirarem o obstáculo da frente que ela seria ajudada, porque certamente encontraria muitos outros perante os quais voltaria a sentir fraqueza. A ela caberia ajudar-se a si própria, trabalhando o dobro ou o que fosse necessário para conseguir alcançar o seu sonho e, com cada sucesso, ficava mais perto da vitória. E que sabia que ela iria conseguir superar essa insegurança.
Pouco tempo depois chegou um postal da rapariga, a contar com evidente orgulho a boa nota que tinha obtido em informática e a dizer que nunca mais se esqueceria da preciosa ajuda que tinha recebido.
E que tinha passado a gostar de informática.












