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terça-feira, 19 de julho de 2005

Grão a grão...

Eu sei que já passaram alguns dias sobre o Live8, o mega concerto contra a fome no mundo. Mas, passadas as notícias dos jornais, os clamores aos responsáveis políticos “do mundo” para decidirem pensando em partilhar com os mais pobres a riqueza de que usufruímos, podemos pensar num plano um pouco diferente, já não ao nível dos mega-qualquer-coisa (sem lhes diminuir o mérito) mas ao nível de cada um de nós e do que, individualmente, estaremos dispostos a fazer para reparar, de qualquer modo, nos que precisam de nós.
As pessoas acorrem aos milhares a estas iniciativas, pagam o que for preciso pelo bilhete, sofrem muitas vezes o desconforto da viagem, do calor, da espera que comece, das horas em pé para ouvir e cantar em multidão por um mundo melhor.
E paravam na rua para perder dois minutos a ouvir uma pessoa a pedir ajuda? E faziam uma viagem para visitar um doente? E arriscavam dar um décimo do preço do bilhete a uma família do outro lado da rua? É claro que é pouco, é infinitamente menos, não se traduz no perdão da dívida de países nem nada que se pareça, mas talvez não se perdesse o esforço.
Uma vez encontrei um grupo de jovens que vinha muito entusiasmado de um encontro em que tinham decidido organizar uma série de iniciativas para angariar dinheiro para os idosos do bairro e arredores e discutiam animadamente sobre as hipóteses de sucesso do que estavam a planear. Aquilo ia dar-lhes trabalho, exigia inúmeras reuniões, telefonemas, procura de espaços, enfim, muito tempo e dedicação “aos idosos da nossa comunidade”. Quando lhes perguntei há quanto tempo é que não iam a casa dos avós ficaram a olhar para mim.
Às vezes o mais difícil é começar pelas coisas simples.

8 comentários:

Virus disse...

Esse é um mal de que a grande maioria dos seres humanos padece...

Marga disse...

Gostei do seu texto. Eu penso assim. Primeiro há que começar pelas coisas simples, como diz. Se não temos disponibilidade para os nossos como nos podemos dar aos outros que não conhecemos?
No nosso mundo comandado pelos media,todos queremos aparecer e ser vistos. Estes movimentos de solidariedade à escala mundial, em forma de concerto, são a maneira mais fácil e cómoda de se contribuir sem se ter o incómodo do confronto com realidade.
Os videos que neles se projectam , são apenas flashes, que transmitem o horror instantaneamente, que impressionam mas que não transmitem o cheiro, o ambiente e o sofrimento dos seres humanos neles envolvidos. A realidade dos que sofrem está tão longe e vem tão empacotada que nós, os que tudo temos, ficamos com a sensação que não passa de um filme de horror, que logo esquecemos.
São poucas as pessoas que estão disposta a verdadeiramente encarar estas realidades e a ajudar a aliviar o sofrimento dos outros.
Somos todos egoístas.

Marga disse...

Gostei do seu texto. Eu penso assim. Primeiro há que começar pelas coisas simples, como diz. Se não temos disponibilidade para os nossos como nos podemos dar aos outros que não conhecemos?
No nosso mundo comandado pelos media,todos queremos aparecer e ser vistos. Estes movimentos de solidariedade à escala mundial, em forma de concerto, são a maneira mais fácil e cómoda de se contribuir sem se ter o incómodo do confronto com realidade.
Os videos que neles se projectam , são apenas flashes, que transmitem o horror instantaneamente, que impressionam mas que não transmitem o cheiro, o ambiente e o sofrimento dos seres humanos neles envolvidos. A realidade dos que sofrem está tão longe e vem tão empacotada que nós, os que tudo temos, ficamos com a sensação que não passa de um filme de horror, que logo esquecemos.
São poucas as pessoas que estão disposta a verdadeiramente encarar estas realidades e a ajudar a aliviar o sofrimento dos outros.
Somos todos egoístas.

Anónimo disse...

Um post que nos põe a pensar...

Massano Cardoso disse...

Sabe Suzana. Afinal, todos podem mudar o mundo, basta que actuem na sua esfera de acção. Umas vezes o círculo é pequenino, outras mais largo, mas a capacidaden de mudar é mesmo real...

Visitante disse...

Como dizia o ditado, quando deres com a mão direita, esconde a esquerda para esta não reclamar, (não sei se era assim, ou se foi uma história que ouvi à muito tempo).
Mas desde criança, e apesar das inumeras dificuldades familiares, que assistia e ajudava à organização de uma cesta de alimentos básicos e roupas que deixavam de servir, para ajudar uma familia de etnia cigana que nos batia à porta quase todos os meses. E o valor da mercearia aumentava, porque todos os meses, tinha que se arranjar alguma coisa para dar àqueles que a minha mãe dizia eram mais pobres que nós.
Ela dizia-nos que eles nem casa tinham, e então lá ia para aquela familia de muitos filhos, muitos mais do que nós, todas as ajudas que a minha mae podia dar.
Sempre me habituei a ver dar, por isso, não me custa ficar sem qualquer moeda no bolso e dar, dar tudo o que tenho para melhorar ou minorar o muito que falta aos outros, aos vizinhos, aos que conheço e aos que nao conheço.
A mim nunca me faltou, posso dar graças a Deus, porque sempre, apesar de pouco, vou tendo algumas das coisas com que sonhei quando era criança, ao ver a minha mãe dar algo que muitas vezes também faltava em casa.
Ajudo o quanto posso, mesmo que seja pouco.
Senti uma enorme pena, da mensagem que li do Prof. Pinho Cardão, que na India não deu mais e que se arrependeu, espero que nunca mais se arrependa, porque se alguém pede, é porque precisa. Provavelmente, aquele indiano, nunca virá a Portugal, ao contrário do Sr. que conseguiu ir visitar o país dele.

Pinho Cardão disse...

Bonito o texto e profunda a mensagem, Drª Suzana.
Afinal, o mundo poderia melhorar muito, se todos contribuíssemos, mesmo com muito pouco!...
Mas acontece que empurramos tudo para os outros...
Caro Visitante: Ao ler o seu texto, recordei tempos da minha infância, em que havia sempre uma esmola, um caldo, uma roupa para dar a quem, na minha terra, batesse à porta da casa dos meus pais, a pedir.
E confesso-lhe que tive um choque, quando vim para Lisboa, e ouvi,já na Universidade, a teoria "progressista" de que ajudar com uma esmola não resolvia qualquer problema, antes o agravava...porque era ao Estado que competia..., etc, etc...
Não é esta também uma forma de lavar as mãos, como Pilatos?

Visitante disse...

Claro que sim Prof. Pinho Cardão. Lavar as mãos como Pilatos só nos torna mais pobres, pobres de espirito e menos solidarios para com o próximo.
O facto, é que o Estado não pode tudo, e temos que ser todos, mas todos nós, os que vamos tendo algo a mais, a lutar para que o mundo seja melhor para todos os outros.
Eu sou de Lisboa, e à porta da minha casa, quem quer que bata, levará sempre algo, nem que seja a última moeda, o último grão ou o último pão, ou até mesmo um sorriso, tudo darei sempre com o maior desprendimento material.
Como diz alguém que me é muito querido.
Mãos que não dais, porque esperais.