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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Vacinas e autismo

Uma das maiores conquistas da humanidade prende-se com a descoberta e a utilização das vacinas. Centenas de milhões de pessoas devem a vida a esta prática que se tornou rotineira e abrangente face ao complexo mundo de inúmeros “microagressores”. Apesar de todas as conquistas e aperfeiçoamento tecnológicos associados às maravilhosas evidências científicas neste setor, mesmo assim existem detratores que põem em causa as suas vantagens. Todos têm direito à sua opinião, mesmo que não seja racional e inteligente. Neste caso não há muito a fazer. Se forem adultos, então que se amanhem. Não querem ser vacinados? Bom, podem não querer, mas para algumas são obrigados por imposição da legislação. E ainda bem. As medidas legislativas que impõem a obrigatoriedade de vacinação contra certas doenças é uma forma de proteger a saúde de cidadãos. Na prática, o não respeito não se faz acompanhar de medidas sancionatórias. Certo é que pode ter algumas consequências, como não permitir a matrícula nalgum estabelecimento de ensino e, até, dificultar ou impedir o acesso à atividade profissional. Situações limite que, na prática, não são atingidas, porque as pessoas acabam por as acatar. O pior são alguns grupos que recusam sistematicamente a vacinação por motivos “ecológicos” ou doutrinários. Nestes casos, as crianças poderão ser as principais vítimas dos preconceitos paternais que podem por em causa a saúde dos filhos, levando-os à morte. É compreensível que, caso surjam evidências de perigo para a saúde das crianças, provenientes da vacinação, os opositores se sintam “legitimados” nas suas condutas. Foi o que aconteceu quando a partir de um estudo publicado em 1998, numa revista médica altamente prestigiada, The Lancet, se estabeleceu uma relação entre o autismo e a composição de algumas vacinas que continham uma substância denominada timerosal, um derivado do mercúrio.
O autismo é uma situação problemática em que as crianças ficam afetadas na comunicação e no relacionamento, podendo ser altamente disfuncional em termos comportamentais. Existem estudos de que este problema está em crescendo. As causas não são bem conhecidas e além dos fatores genéticos são apontadas outras, externas, resultantes de exposição a toxinas e infeções. O estudo em causa veio reforçar a opinião de alguns pais que viam naquela prática a causa dos males dos seus filhos. Durante todo este tempo, acompanhei com algum interesse o debate e a investigação a propósito desta associação que levou a reformular a composição de algumas vacinas e ao crescente medo em vacinar a pequenada, sobretudo com a vacina tríplice, que na Inglaterra chegou a atingir foros de recusa altamente preocupantes ao ponto de causar apreensão face a novas epidemias do sarampo, com todas as terríveis consequências que esta doença pode provocar. No meio disto tudo, os pedidos de indemnização devidos à utilização do timerosal não se fizeram esperar. Entretanto, os vários estudos epidemiológicos começaram a não conseguirem evidenciar a tal associação e muito menos estabelecer os nexos de causalidade. Mas a situação começou a impregnar as sociedades ao mais alto nível e com intensidade muito forte nos restantes, pelo que foi quase impossível desfazer a ideia inicial.
Pois bem, agora, ao fim de 12 anos, a revisa médica britânica acaba de retirar do seu arquivo o polémico artigo. Esta retratação surge na sequência de um pedido formal nesse sentido efetuado noutra publicação científica, The British Medical Journal. Afinal, o autor do artigo, Andrew Wakefield, é acusado de má conduta científica. Trabalhava para os advogados de pais que achavam que os filhos tinham sido vítimas das vacinas. Todo o processo de investigação foi posto em causa, em termos de metodologia científica e ética com desprezo total pelos interesses e direitos das crianças. Wakefield e os restantes coautores correm riscos de virem a ser penalizados.
A má conduta e a fraude científica constituem realidades que não devemos escamotear e que podem perigar a segurança e o bem-estar de outros, alimentando, muitas vezes, certas pessoas que aguardam ansiosamente por factos ou informações suscetíveis de legitimar as suas condutas ou doutrinas, mais do que discutíveis, a raiarem mesmo o crime.
E agora? Agora, não vai ser nada fácil descontaminar a poluição mental provocada.

O terrorismo intelectual

Ofereceram-me o livro “Le terrorisme intellectuel”, de Jean Sévillia, jornalista e director de redacção no Figaro Magazine, conhecido por denunciar a censura moral e os preconceitos históricos alimentados pelas várias tendências políticas e intelectuais em França. Segundo o autor, a liberdade tem sido sucessivamente apropriada por grupos de intelectuais que se arrogam detentores da verdade em cada época, dominando a cena política, cultural e mediática sem deixar espaço nem oportunidade a que correntes de pensamento divergentes entrem no debate. A título de exemplo, essas elites “em 1950 exaltavam Estaline, em 1960 garantiam que a descolonização traria a felicidade aos povos além mar, em 1965 inflamavam-se por Mao ou Fidel, em 1968 queriam abolir todos os constrangimentos sociais, em 1975 saudavam a vitória do comunismo na Indochina (…)nos anos 90 afirmavam que o tempo das nações, da família e das religiões tinha terminado”.
O livro contém um levantamento noticioso em cada época em torno dos diferentes acontecimentos, com declarações e reacções dessas elites e dos seus protagonistas, numa retrospectiva impressionante, como se pudéssemos ver um filme a andar para trás.
“Durante cinquenta anos, os espíritos refractários a estes discursos foram desacreditados e os seus argumentos votados ao silêncio.É isto o terrorismo intelectual. Recorrendo à amálgama, ao processo de intenções e à caça às bruxas, este mecanismo totalitário impede qualquer debate sobre as questões que comprometem o futuro”.
Não sei o que diria o autor sobre os actuais fenómenos do politicamente correcto, dos seus processos, da sua sucessão permanente, da sua imposição e ainda do facto de muito desse pensamento dominante nem chegar muitas vezes a resultar da reflexão entre intelectuais…

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poupança ou desperdício?

Os jornais dos últimos dias(quase todos) trazem-nos várias notícias que, a confirmar-se, merecem alguma reflexão para além dos habituais parâmetros das leituras orçamentais. O combate ao défice inclui, como sempre, a decisão de uma nova redução de pessoal, depois da afirmada redução de 65 000 nos últimos anos. Devo dizer que esta métrica me faz alguma confusão, uma vez que não percebo como é que se contabiliza essa poupança como virtuosa sem esclarecer que tipo de funcionários é que saíram (em geral para a reforma) e vão continuar a sair.
Uma nova alteração no regime de reforma e pensões irá provocar uma verdadeira corrida à reforma antecipada, o que constituirá certamente uma preciosa ajuda a que se alcance a tal meta da nova redução. Com esta alteração anuncia-se que “o Governo quer poupar 28 milhões de euros nas pensões”, reduzindo a média anual nas pensões futuras em 1244 € (Correio da Manhã de ontem).
Não tenho dúvidas de que, em termos contabilísticos, se gastará talvez menos dinheiro na respectiva classificação orçamental com o peso dos salários, o que eu pergunto é se o que se vai poupar compensa, mesmo em termos financeiros, o que se vai perder. Por outras palavras, não entendo como é que o que se paga em salário, por exemplo, a um médico no auge da sua carreira, ou a um professor com larga experiência, ou a um técnico qualificado num ministério, é inscrito apenas na coluna da despesa e não se atribui nenhum valor à contraprestação do seu trabalho. Se sair poupa-se porque o que produz parece não ter nenhum valor económico?…Gostaria de saber qual é a empresa privada onde este discurso fosse o eleito para estimular a produtividade e a competitividade, primeiro investe-se na formação, dá-se experiência, deixa-se criar nome e competências e depois anuncia-se que e que o que se espera é que se vão embora quanto antes. E, de seguida, apresenta-se aos accionistas um enorme êxito na redução de despesas, sem referir a consequência e dimensão da consistente redução da capacidade operacional da empresa no seu “core business…”
Curiosamente, os mesmos jornais dão notícia de ruptura em vários serviços do Sistema Nacional de Saúde, por falta de médicos qualificados ou simplesmente de médicos, havendo no entanto verbas para contratar empresas que por sua vez contrataram médicos que por esta via vão “prestar serviços” aos hospitais e centros de saúde. Calculo que estas despesas não sejam contadas como despesa de pessoal, mantendo-se assim os níveis de aplauso quanto à poupança na respectiva rubrica. Mas também dizem que há uma total incapacidade de o sector público de saúde concorrer com a contratação de médicos pelo sector privado, que está a absorver quer os que se reformaram antes de tempo para fugir “à poupança” com as novas regras, quer os que optam por carreiras e salários mais atractivos neste sector. É certo que continuamos a manter a rubrica “investimentos” em bom ritmo, pelo menos é o que dizem, e que vamos construir mais uns 5 ou 6 hospitais, todos muito bem equipados. O problema é que não há quem fique lá a trabalhar… Poupança ou desperdício?

Quem se lixa é o... caribú...

1. Os alunos do ensino secundário estão em luta e não foram hoje às aulas, “porque querem ver resolvidos três problemas: educação sexual, estatuto do aluno e falta de liberdade nas escolas. Já… “ - Uma aluna do Secundário, no Público.
2. O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, designou o comportamento dos investidores como «animal spirit», declarando ainda que estiveram muito focados numa presa, a Grécia, e agora viraram-se para outra, para nós, mas sem razão».
3. Os mercados não se preocupam com a realidade da situação económica, baseando-se apenas em juízos à priori e de impressões para fundamentar as avaliações- José Sócrates ao Libération.
4. Três Vice-Presidentes do Grupo Parlamentar do PS anunciaram um projecto que visava tornar públicos os rendimentos brutos declarados dos Contribuintes-Público.
5. Um lince ibérico macho com cinco anos seguido por telemetria entrou em Portugal pela zona de Moura-Barrancos, vindo de Huelva, na última semana de Janeiro e por cá ficou durante três dias. Acreditamos que os animais usam este corredor entrando em território português. Desta vez a novidade é que conseguimos confirmá-lo, referiu Sandra Moutinho, assessora do ICNB. Mais contou que as autoridades espanholas pediram autorização a Portugal para capturarem o Caribu.
Então, mas só o Caribu é que tem que ser capturado?

Sem palavras


Espírito animalesco dos mercados? Só nos faltava mais esta!

1. Um alto responsável do Governo terá afirmado hoje que “Portugal é agora o alvo do espírito animalesco dos mercados". Depois de zurzirem as agências de “rating”, com os brilhantes resultados de que vamos tendo conhecimento, a vociferação volta-se agora contra os mercados...
2. Cabe perguntar se esse “espírito animalesco dos mercados” será o mesmo que levou muitos milhares de portugueses a desfazer-se dos certificados de aforro de que eram titulares, ao longo do último ano, apesar da “generosidade” extraordinária da política do Governo no que se refere à remuneração deste instrumento de poupança?
3. Direi que tudo indica que sim, embora o mesmo responsável não o tenha explicitado (admito que não se tenha recordado desse outro fenómeno de comportamento animalesco, neste caso dos aforradores portugueses)...
4. Com efeito, a mensagem sub-liminar destas declarações que se vão sucedendo em catadupa, para denunciar a conspiração financeira mundial em curso contra o nosso País, é a de quando os mercados não adquirem os instrumentos de dívida emitidos pela República lusa ao preço pretendido pelo Governo, então estão a comportar-se de modo animalesco.
5. Por outras palavras, os mercados têm de entender que a verba de € 5,5 mil milhões inscrita no OE/2010 para Juros e outros Encargos da Dívida não dá para pagar taxas de juro mais elevadas do que as que estiveram subjacentes a esse cálculo orçamental...qualquer proposta de aquisição de dívida da República que implique o risco de furar essa verba é rotulada de comportamento animalesco...
6. O Governo parece esquecer 2 pormenores da sua (ir)responsabilidade que contribuíram para este comportamento animalesco:
- A decisão “esperta” de agravar o défice de 2009 à última hora...ao que parece, segundo diversos comentadores, para ganhar folga (?) em 2010...lançando uma enorme dúvida no animalesco mercado quanto à real situação nas finanças públicas...
- A decisão, desta semana, de não colocar na íntegra uma emissão de Bilhetes do Tesouro, anunciada para € 500 milhões e encurtada para € 300 milhões não por falta de procura mas por não gostar das taxas oferecidas...criando no animalesco mercado um sentimento de reserva em relação ao futuro financiamento do défice + outras necessidades não incluídas no défice.
7. Só nos faltava mesmo mais este episódio na gloriosa cruzada contra os inimigos externos e neste caso, não esqueçamos, contra os pobres investidores em Certificados de Aforro...

Enquanto o País político se entretem com controvérsias inúteis...

"Os mercados continuam a dar sinais claros de preocupação para com Portugal. O preço dos CDS sobre Obrigações do Tesouro a cinco anos superou hoje os 200 pontos, um novo recorde"

"Trichet foge a pergunta directa sobre Portugal"


"O PSI 20 regista esta manhã um dos piores desempenhos do mundo, com a queda próxima de 3,5 por cento a significar uma perda de 820,3 milhões de euros, praticamente o preço da terceira travessia sobre o rio Tejo".

"Lisboa apresenta o desempenho mais negativo no mundo e saltou para as manchetes dos 'sites' internacionais dos principais media financeiros".

Não é hora de ganharem juizo?

Em 6 anos de Sócrates, a dívida pública sobe exponencialmente!...

Mas, francamente, o que podem os credores internacionais fazer quando, nestes anos de Sócrates, a dívida pública quase duplica em termos de PIB, em 2009 necessitámos de empréstimos superiores a 14 mil milhões de euros, em 2010 está previsto igual montante, e em 2011 dificilmente será menos? Que podem fazer as agências de rating quando olham para o volume e a evolução dívida pública portuguesa, senão constatar o descalabro em que estamos metidos? Os números oficiais do Instituto da Gestão da Dívida Pública aí estão para evidenciar esse enorme buraco, cada vez mais descontrolado.
Nos anos da governação de Sócrates, o aumento da dívida pública foi o seguinte:
2005- 11,1 mil milhões de euros
2006- 6,8 mil milhões de euros
2007- 4,2 mil milhões de euros
2008- 5,7 mil milhões de euros
2009- 14,3 mil milhões de euros
2010- 14 mil milhões de euros.
Nos 6 anos de 2005 a 2010, a dívida aumentou 56,1 mil milhões de euros, passando de 90,7 mil milhões para 146,8 mil milhões de euros. E se, em 2004, significava 60% do PIB, em 2009 representa 79,4% e em 2010 vai aproximar-se dos 90%.
Se a estes valores da dívida directa juntarmos cerca de 30 mil milhões de euros de dívida indirecta das empresas públicas deficitárias e que o Estado terá que honrar e ainda o valor actual dos compromissos com as PPPs no montante de cerca de 26 mil milhões de euros, teremos um valor global de 203 mil milhões de euros, equivalente a 122% do PIB. Em apenas 6 anos, a dívida pública sobe exponencialmente.
O risco de crédito é, de facto, enorme. Os credores e agências de rating apenas vêem o óbvio.
Por cá, o pensamento oficial insiste em negar a evidência. Para continuar na senda do despesismo de que é exemplo o aumento da despesa corrente previsto para 2010.
Mas querem o Governo e os "pensadores" a soldo fazer de nós parvos ou quê?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Os Deuses Devem Estar Loucos...


A iniciativa da divulgação na Internet do rendimento de todos os cidadãos trouxe-me à memória o filme “Os Deuses Devem Estar Loucos”…
Foi realmente um momento de excesso de criatividade. Qual terá sido a fonte de inspiração?
Não é com certeza com este tipo de medidas que se combate a corrupção, que bem precisa de ser reforçado e de mostrar resultados. Uma iniciativa que morreu à nascença, com uma actuação pronta do presidente do grupo parlamentar do PS, que ainda assim não evitou a critica generalizada de tão desconcertante iniciativa.

Zurzir as agências de "rating" parece dar óptimos resultados...

1. Bem avisava ontem Vítor Bento: não vale a pena atacar as agências de “rating”. Com os erros que lhes possam ser assacados a verdade é que os mercados lhes dão atenção. Atacá-las pode ter efeitos contraproducentes...
2. Notícias de hoje: risco da dívida pública portuguesa é o que mais sobe no mundo. O preço de um seguro para cobrir o risco de incumprimento de Portugal atingiu hoje um novo máximo histórico. Os CDS (credit default swaps) sobre OT’s a 5 anos são os que mais sobem em todo o mundo...
3. Também de hoje: "spread" das obrigações do Tesouro a 10 anos sobe para 144 pontos base, o mais elevado desde Abril de 2009 (zénite da crise financeira)...
4. Ainda de hoje: IGCP coloca apenas € 300 milhões de bilhetes do Tesouro a 1 ano, de uma anunciada oferta de € 500 milhões, por não querer aceitar propostas com taxas consideradas demasiadamente elevadas...
5. Conclusão (eventualmente chocante): as declarações de políticos e de outras altas individualidades repudiando os avisos das agências de “rating” estão efectivamente produzindo um óptimo resultado; a República agradece o serviço e pede que façam o favor de continuar, não desarmem perante estes inimigos externos...

Os "tansos" fiscais!... II

(Continuação)
O Governo enfrenta a necessidade de novo aumento do IVA e de impostos indirectos...Vítor Constâncio, na Conferência da Antena 1.
Portugal tem, actualmente, um nível de esforço fiscal relativo que é, em 2009, 24,3% superior à média europeia...(Reflexões sobre Política Económica-Instituto Sá Carneiro)
Chegado ao fim da tarde, o “tanso” pensará que já pagou os todos os impostos do dia.
Mete-se na viatura para voltar para casa e lembra-se que terá pagar o selo do carro e que também já está atrasado no pagamento da taxa de licenciamento e da taxa sobre o valor de adjudicação de obras públicas, e até dos juros compensatórios.
Não irá ainda escapar às taxas de portagem, ou a uma qualquer taxa florestal, ou às taxas de fiscalização de actividades comerciais e industriais, e, em muitos casos, aos emolumentos consulares e a outras taxas que, à falta de objecto, o Estado chama Taxas diversas. Ao chegar a casa, sobre a qual teve que pagar ou Sisa, se a casa tem já uns anos, ou o IMIT, se a casa é mais nova, ou Imposto de Selo, se se tratou de uma doação, espera, enfim, descansar. Mas cai na tentação de ver o correio.
Encontra quatro cartas das Finanças: a primeira do IRS, com um adicional a pagar, a segunda do IRC, com um pagamento por conta, a terceira do IMI, referente à casa que possui, e ainda a última, a quarta, que lhe manda pagar uma tarifa de conservação de saneamento!...Encontra e abre mais duas cartas, uma da EDP e outra, da PT.
Na factura da EDP, vê que sobre o preço da electricidade tem que pagar a Taxa de Exploração DGGE e ainda a Contribuição audiovisual, para ver televisão e ouvir rádio, tudo adicionado com um inevitável IVA. E na factura da PT verifica que tem que pagar a Taxa Municipal dos Direitos de Passagem que o operador repercute sobre o cliente!...
Janta a pensar nisto tudo e ainda se lembra de algumas multas ou de algumas coimas por pagar ou outras penalidades por atraso na entrega de uma qualquer declaração obrigatória.
Vai para cama dormir. Toma um Valium para repousar e, com ele, não escapa a mais um imposto, o IVA de 5% sobre os medicamentos. Mais relaxado, adormece e começa a sonhar. Sonha com a compra de uma espingarda para, em legítima defesa, se defender de quem assim, de toda a forma e feitio, lhe vai ao bolso. E quando, meticulosamente, começa a colocar os destinatários por ordem de prioridades, acorda estremunhado, ao lembrar-se que, ao adquirir a espingarda, para além da licença de caça, ainda terá que pagar o imposto de uso e porte de arma!...
Perdido o sono, abre a televisão e vê os habituais economistas professores, os clássicos comentaristas doutores e os clássicos pensadores, mas todos professores doutores, a dizer que os impostos têm que subir e que assim é que os portugueses ficarão bem!...
Nota:"Tanso fiscal" foi uma expressão criada pelo saudoso Dr. Leonardo Ferraz de Carvalho.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Agora sou eu quem tem uma dúvida...

"Acontece que, no domingo à noite, o director do JN o contactou dando-lhe conta das dúvidas que lhe causava o texto que Mário Crespo enviara para publicação no dia seguinte" - Nota da Direcção do Jornal de Notícias sobre o artigo de opinião de Mário Crespo.

Pergunta a minha inocente curiosidade: quem terá ajudado o director do Jornal de Notícias a superar a dúvida?

A bola de neve

Era previsível. A um governo que perdeu a oportunidade de fazer a verdadeira reforma do Estado, sucedeu um governo que enfraquece cada dia que passa.
A celebrada inversão de marcha nas políticas de gestão de recursos humanos na Educação está já a dar os seus resultados. O sindicato independente dos médicos veio avisar: "se o governo abrir excepções para outros grupos profissionais, como os professores, na alteração das quotas previstas para progressão nas carreiras da função pública, então os médicos exigirão o mesmo".

Quantos mais "corpos especiais" da Administração Pública se apresentarão com o mesmo discurso?

Os "tansos" fiscais!...

O Governo enfrenta a necessidade de novo aumento do IVA e de impostos indirectos...Vítor Constâncio, na Conferência da Antena 1.
Portugal tem, actualmente, um nível de esforço fiscal relativo que é, em 2009, 24,3% superior à média europeia...(Reflexões sobre Política Económica-Instituto Sá Carneiro)
Logo de manhã, ao tomar banho, para além da a água, o tanso está a pagar uma quota de serviço, uma tarifa de tratamento, duas taxas de saneamento, uma fixa, outra variável e o IVA a 5%. As taxas significam 2/3 e a água 1/3 da factura.
Entra no carro, dá à chave e logo paga um imposto sobre os combustíveis e ainda o IVA por cima da gasolina e do imposto. E já nem lhe vem à cabeça os impostos sobre impostos que pagou aquando da compra da viatura. Pára para tomar o pequeno-almoço e paga IVA sobre o bolo e o café com leite, compra um maço de tabaco e é esportulado do imposto sobre o tabaco.
Fumando ou não fumando, a malha fiscal persegue-o em toda a manhã: se levanta cinco cheques no Multibanco paga imposto de selo, se tem que se sujeitar a qualquer acto burocrático paga imposto de selo, paga imposto de selo na ida ao notário, numa escritura pública, num processo de habilitações de herdeiros, numa procuração, numa renda, numa qualquer operação bancária!...
Se compra uma raspadinha, paga imposto de selo sobre jogos, se compra um bilhete de lotaria, paga imposto de selo sobre lotarias, se mete o totoloto ou o totobola, paga o imposto de selo sobre as apostas mútuas.
Se compra o jornal para ler ao almoço, paga IVA, e se pretende espairecer com um digestivo, suporta o IABA, bonito nome para denominar o Imposto sobre o álcool e bebidas alcoólicas.
Da parte da tarde, continua a labuta e a luta. Se tem um assunto em tribunal, paga taxa de justiça, se precisa de registar um filho, paga a taxa do registo civil, se precisa de registar um prédio, paga a taxa de registo predial e se precisa de registar um acto da sociedade, paga uma taxa de registo comercial, se precisa de ir ao hospital, paga taxa moderadora, se vai ao talho, paga a taxa de comercialização e abate de gados, se compra umas acções na bolsa, paga a taxa sobre operações de bolsa, se tem filhos na Universidade, paga as propinas.
Lá mais para o fim do dia, e numa qualquer aquisição, poderá acontecer estar a pagar uma qualquer taxa vinícola, ou uma taxa de portos, um qualquer emolumento sobre qualquer situação desconhecida ou uma taxa sobre o controlo metrológico e de qualidade, obviamente para ser bem servido…
A continuar, que a procissão vai no adro...

Sonata de Outono ou o eterno ajuste de contas


Sonata de Outono é um daqueles filmes que doem de cada vez que se vê.
No confronto cruel entre uma mãe e uma filha colocamo-nos na posição de uma e de outra, ora acusando ora sendo acusadas, ora sentindo a dor da criança que queria um amor exclusivo e absoluto a que se acha com direito, ora captando a perplexidade da mulher adulta que não quis renunciar à glória de um talento reconhecido.
O filme trata de um ajuste de contas que sempre chega à vida de qualquer mulher, com mais ou menos violência. Se escolheu ser o centro afectivo da família, o seu suporte incondicional e exclusivo, mais tarde será ela a cobrar aos filhos, incrédulos, o preço do vazio que resta depois de eles saírem de casa. Quantas vezes é esse diálogo ao contrário, as mães a fazer a pergunta afiada, “porque é que nunca repararam que eu existia? Devem-me isso, essa dedicação e essa renúncia”. Se arriscou ter êxito e não apenas ajudar ao sustento da família, esse tempo é sempre visto como “roubado” à família, é um abuso apenas tolerado e aberta ou insidiosamente apontado como “a culpa” de tudo o que possa correr mal na vida familiar. Como se uma mulher tivesse obrigação de se realizar na maternidade e tudo o resto fossem divagações apenas permitidas com transitória condescendência. É dessa culpa terrível que nos fala Bergman, pela voz da filha, culpa agravada pela "inconsciência" demonstrada pela mãe ao invocar em sua defesa os seus feitos como pianista. A filha não a ouve, critica-lhe os êxitos como se cada um fosse o símbolo da privação suportada pelas filhas, um egoísmo intolerável que tinha agora o dever de expiar, não podia partir sem carregar esse peso com ela. No filme é muito interessante reparar que a grande vingança da filha foi que assumiu ela o que pensou ser o fardo da mãe, a irmã doente, a casa, o isolamento e a solidão, tornando-se a prova viva do sofrimento que a outra não aceitou. Estou aqui, não vês, onde tu devias estar, não tinhas o direito de viver uma vida diferente desta, deves-me isso, roubaste-me a minha vida, fiquei no teu lugar, a cuidar da menina doente. Massacra-a com a memória das suas ausências, nem por um momento mostra interesse ou orgulho no êxito da pianista, nem por um momento se compadece do seu esforço, da sua luta, dos obstáculos que encontrou e venceu. Nem por um momento lhe ocorreu retribuir o amor que exigia.
Bergman expõe um conflito em que os homens são ausentes e que, apesar de todos os progressos, não é hoje menos actual, apenas o descreve com uma terrível análise de sentimentos a que nos desabituámos.
A baixa de natalidade aí está a demonstrá-lo, a dissolução das famílias também, o adiamento da maternidade ou o fracos índices de lugares de topo ocupados pelas mulheres são sinais evidentes de que há conciliações bem difíceis e que a culpa continua a ser um sentimento insuportável que poucas ousam arriscar.

Contradições do "espírito positivo"

Uma das grandes contradições da nossa época é o diktat do espírito positivo, a negação do sofrimento e a fuga permanente a tudo o que possa causar flutuações de humor ou simples desconforto afectivo, porque se criou uma baixa tolerância às contrariedades. Poderíamos chamar-lhe a época do hino à felicidade individual se isso não fosse contrariado a cada momento por medos sucessivos lançados sobre o colectivo, medo do terrorismo, medo das doenças, medo das falências, medo dos despedimentos, medo do fracasso, medo, enfim, de perder num ápice tudo aquilo em que se baseia afinal a tão legítima felicidade individual.
Este exercício de resistência à infelicidade dá lugar a uma atitude artificial que leva à solidão e ao desespero.
A verdade é que as angústias pessoais, as incertezas ou os desgostos não doem menos do que antes, só que agora não lhes damos tempo a escoar-se, escondemo-los, disfarçamos, e são vividos com uma impaciência e uma ansiedade de corpos estranhos que devem ser segregados e expulsos antes que alguém repare que se fraquejou no espírito positivo.
O resultado disto é muito enganoso para quem vive as situações, sobretudo os jovens, porque se sentem perdidos e não encontram forma de explicar os sentimentos dolorosos que persistem ou as angústias que nascem lá bem fundo e que deveriam ceder às primeiras varridelas, mas afinal agarram-se e ficam ali, a moer, sem conseguirem exprimir-se. De certa forma, banimos o direito ao luto, quando morre algum ente querido, ficamos constrangidos perante o choro e a dor, incitamos a vencê-la ignorando-a, quando afinal ela precisa de tempo para ser sentida, para dominar primeiro até dar espaço ao consolo e, por fim, à habituação. A ausência, ou a mudança, precisam de tempo para adaptação, se saltarmos as etapas dessa transformação ficam recalcadas em revolta ou em frustração, encruam em vez de amadurecer.
Mas não são só os desgostos que sofrem este recalcamento. Também as coisas boas da vida, como é o caso da maternidade, que é hoje exaltada como um estado de felicidade absoluta, uma alegria que explode no exacto momento em que se sabe a notícia e a jovem mãe deve a partir daí mostrar um sorriso lindo e tranquilo. Ora, o que acontece na maior parte dos casos é que o primeiro impacto é de uma enorme angústia perante uma revolução próxima que não deixará nada como dantes e que ocupará a vida daí em diante. O peso da responsabilidade, o medo de não ser capaz, quantas vezes o desejo de voltar à liberdade que se está a ponto de perder, tudo acrescido das mil e uma teorias que ensinam que um filho merece tudo, que esses seres encantadores contam simplesmente connosco para todo o sempre é um choque terrível para quem vivia uma juventude serena, protegida e despreocupada. Passar de filha a mãe é um salto brutal, e esconder isso com teorias suaves não ajuda nada porque cria sentimentos de culpa, as pessoas julgam que são anormais, que têm reacções malévolas que os outros não podem suspeitar e vivem sozinhas numa angústia injusta e cruel que lhes traz um sofrimento inútil.
Esta época de espírito positivo tem este lado muito negativo, é que só se fala das vantagens e está-se cada vez menos preparado e atento para as dificuldades, tornando as pessoas muito vulneráveis ao medo e às incertezas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

100 dias de governo

Cumprem-se 100 dias de governo e tornou-se hábito fazer um balanço do arranque do novo executivo após este tempo. O que melhor caracteriza estes 100 dias? Por um lado a oposição a algumas políticas do governo anterior. Por outro, uma preocupante continuidade no que é essencial para o País.
O caso mais evidente de oposição ao governo anterior é o da educação. Com uma nova ministra, e apesar do primeiro-ministro ser o mesmo (numa versão todavia mais soft) que meses antes jurava firmeza nas medidas aprovadas em conselho de ministros e nos múltiplos e quilométricos despachos da anterior equipa ministerial, em menos de um fósforo lá se foi a convicção sobre a justeza da alteração das carreiras ou sobre o modelo de avaliação dos professores.
Na justiça afinal a questão das férias judiciais - que a par da venda de medicamentos fora das farmácias constituiram as medidas com que o governo anterior anunciou a sua vontade reformista inabalável - cedeu lugar à compreensão pelo desgosto de alguns actores judiciários e, mais semana menos semana, lá se verá o regresso ao passado, com o mapa judiciário (essa anunciada mãe das reformas judiciárias) esquecido.
Na agricultura o esforço é agora desfazer o desastre que foi a passagem pela pasta do anterior titular, ensaindo-se com charme uma aproximação aos agricultores que contrasta com a postura do anterior ministro que parecia admitir a existência de agricultura sem agricultores.
Nas finanças o ministro assume que afinal o déficite é um problema e a dimensão da dívida soberana uma dor de cabeça.
Nas obras públicas o ministro manda parar (ou sujeita-se à ordem para parar) a hemorrogia do betão e para o TGV Porto-Vigo e - suprema condenação do discurso anterior - julga insustentável o nível de endividamento de algumas empresas públicas do sector.
Depois, existem as marcas impressas ao longo de 5 anos de governação PS, que se mantêm, e essas são essenciais. Hoje o governo quis dar um sinal de que na essência é coerente. Esse sinal foi a pompa e circunstância com que anunciou o lançamento da primeira pedra do novo museu dos coches, obra que custará uns largos milhões num contexto em que já ninguém duvida que o empobrecimento do País se acentua a um ritmo que as políticas de novo-riquismo dos últimos tempos iludiram. Haverá simbolo mais acabado da tendência para o sumptuário do que esta obra que só pode ser entendida como a celebração do despautério das finanças públicas que caracterizou uma das piores fases da I república?

Agências de "rating": faz sentido "colar" Portugal à Grécia?

1. Um conhecido Banqueiro, em entrevista hoje conhecida a um também bem conhecido diário, usa, a propósito deste tema, uma expressão curiosa, que diz mais ou menos isto: “Porque raio as agências de “rating” ligam Portugal à Grécia?”.
2. Em discurso ontem proferido, o quase-candidato à Presidência Manuel Alegre desferiu fortes críticas às agências de “rating, dizendo que, para além de muito desacreditadas, terão querido fazer uma pressão intolerável sobre o OE para 2010...
3. Quanto às declarações de Alegre, parece que poderemos limitar-nos a perguntar o seguinte: se as agências de “rating” estão assim tão desacreditadas, qual o motivo da nossa preocupação com os comentários e avisos das mesmas?
Para quê perdermos tempo ou, pior ainda, afligirmo-nos com o que dizem de nós?
4. Quanto à interrogação do Banqueiro, o assunto pode merecer um pouco mais de reflexão – haverá porventura algum motivo sério para que alguém, agências de “rating” ou qualquer outra entidade, faça uma colagem entre a nossa situação e a da Grécia?
5. Uma interessante resposta é dada por um muito reputado economista, Daniel Gros, Director do “Centre for European Policy Studies” (Bruxelas), em artigo publicado na edição da última 6.ª Feira do F. Times. Nesse artigo, intitulado “Greek burdens ensure some Pigs won’t fly”, Gros estabelece uma estreita relação entre as situações da Grécia e de Portugal, separando-as dos casos de Espanha e da Irlanda por aquelas serem, na sua análise, bem mais graves.
6. Gros põe em evidência a baixíssima taxa de poupança bruta da Grécia (7,2% do PIB) e de Portugal (10,2%), muito inferiores à média da zona Euro (20%) e também muito inferiores às da Espanha (19%) e da Irlanda (17%).
7. A situação da taxa de poupança em Portugal e na Grécia significa que não podemos financiar por essa via o investimento (público e privado) e o consumo de capital.
Com taxas de poupança tão baixas, tanto a Grécia como Portugal não têm conseguido financiar nem um nível mínimo do investimento líquido com recursos gerados internamente – e daí a necessidade de se endividarem pesadamente no exterior, ano após ano, situação que, pelos vistos, pelo menos pela nossa parte vai continuar...
8. O caso da Grécia é especialmente grave segundo Gros pois, praticamente desde a criação da zona Euro, tem gerado uma poupança líquida negativa - insuficiente mesmo para cobrir o consumo de capital, atingindo essa deficiência 5,1% do PIB em 2008.
9. Mas acontece que em 2008 só Portugal teve um resultado pior que o da Grécia...
10. Gros observa que mesmo os estados do Báltico, apesar de terem tido de financiar uma euforia na construção, se encontram numa posição bem melhor do que a Grécia e Portugal, apresentando uma poupança líquida positiva confortável...
11. Esta grave insuficiência de poupança, combinada com uma elevada dívida externa, torna a solução dos desequilíbrios de Portugal e da Grécia extraordinariamente penosos: “salvar um país que está consumindo excessivamente faz sentido se e só se a comunidade política desse país aceitar que aquilo que se requer é mais do que um ajustamento orçamental...” (para conhecer recomendações concretas de Gros, sugiro a leitura do artigo em causa).
12. Será que as situações de Portugal e da Grécia são então muito similares como argumenta, com aparente solidez, Daniel Gros?
Se assim for, justificar-se-á fustigar as agências de “rating”?
Não seria melhor dedicarmo-nos, sem mais demora, a fazer o trabalho de casa?

Cinco anos de má política I

Cinco anos do 1º Governo de Sócrates (2005 a 2009) permitem fazer o balanço da política orçamental e verificar quanto ela foi incorrecta, por isso, dinamizadora da crise e incapaz de provocar a viragem económica.
De 2005 a 2008, a política fiscal do Governo teve como reflexo a subida do montante arrecadado pelos impostos, a uma taxa média anual de 5,7%, enquanto o crescimento do PIB foi de 0,9% em média anual.
Este exagero de apropriação pelo Estado da riqueza gerada pela economia é a principal causa interna que explica o insignificante crescimento.
A poupança dos particulares e empresas foi drasticamente sugada, o investimento diminuiu 0,6% em média anual. Com a diminuição do investimento, o desemprego naturalmente cresceu e a galinha dos ovos de ouro dos impostos definhou.
Pior ainda, as consequências reflectiram-se em 2009, com o Governo sem meios, mesmo numa perspectiva keynesiana, de intervenção real para alterar a situação. A quebra da receita fiscal foi superior a 12% em 2009 e o PIB diminuiu 2,6%, traduzindo praticamente uma estagnação da economia no quinquénio(crescimento médio anual de 0,2% de 2005 a 2009).
Dir-se-á que o Governo prejudicou a economia para salvar as Finanças Públicas. Mesmo que alguém pudesse reconhecer mérito nesse propósito, nem isso, lamentavelmente, é verdade.
(Continua)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Congelamento? Não, obrigado!

Véspera de Natal. Informaram-me para ir no dia seguinte a casa de uns parentes, porque tinham uma prenda para mim, um livro de Emílio Salgari. Fiquei muito contente, porque adorava ler as histórias aos quadradinhos de Sandokan. Disseram-me que era um livro sobre o futuro escrito há muitos anos. Depois do almoço de Natal fui ter com os meus primos. Deram-me o livro e a primeira coisa que fiz foi ver onde estavam as figuras. Não tinha. Só palavras. Fiquei dececionado. Como é que vou ler tantas páginas sem as imagens? Que chatice. Rapidamente esqueci o livro e fui brincar com os comboios elétricos dos primos, enriquecidos com novas máquinas e carruagens ao redor da gigantesca árvore. Quando a noite começou a invadir o dia agarrei no livro e ala que se faz tarde.
Em casa comecei a folhear “As maravilhas do ano 2000” e, rapidamente, fiquei preso quando soube que dois cientistas foram congelados, despertando no ano 2000, que na altura estava ainda muito longe, maravilhados com as conquistas entretanto produzidas. Comecei a imaginar ser congelado e despertar séculos depois. Deveria ser muito interessante. Ao fim de alguns dias consegui acabar de ler o meu primeiro livro sem figuras. Mas fiquei aborrecido, porque os cientistas enlouqueceram quando chegaram a Lisboa devido aos efeitos da eletricidade. Mas a eletricidade não faz mal às pessoas! Pensei. - Bah! Não gosto. Prefiro o Sandokan. Eletricidade a provocar loucura nas pessoas e logo em Lisboa!
Recordei esta passagem quando li um interessante artigo sobre preservação criónica, em que Robert Ettinger descreve a sua filosofia sobre a conservação dos corpos através do frio, tendo criado para o efeito o Instituto de Criónica que, a par de outras instituições, já têm corpos e cabeças ultracongelados, na expectativa de no futuro poderem retomar a existência, tratando dos problemas de saúde e beneficiando do rejuvenescimento.
O autor do “Prospeto da Imortalidade” abriu uma nova brecha na forma de ver a morte. Diz o longevo cientista que após a morte há três soluções para fazer desaparecer o corpo: enterrar, cremar e congelar. Esta última é para aqueles que não acreditam na vida depois da morte e que querem ter a “certeza” de que podem ressuscitar caso Deus não exista. Independentemente de no futuro conseguirem ou não descongelar os corpos, o que é certo é que se contam por centenas e centenas os que já estão mergulhados num profundo “sono” gelado. No caso de Ettinger, a mãe e as suas duas mulheres já lá estão há alguns anos. Face às inúmeras questões éticas, o “crioterapêuta” responde afoita e atrevidamente a todas sem exceção. Quando confrontado com o facto de esta técnica ser incompatível com o excesso de população, responde que não. Deixaria de haver procriação e umas vezes congelavam-se uns para dar lugar a outros que seriam descongelados e, desta forma, alternadamente, iriam revezar-se. Mas esta é apenas uma das múltiplas facetas ligadas a esta forma de transhumanismo. Por acaso não lhe perguntaram o que é que iria fazer com as suas duas mulheres crioconservadas. Se as descongelava ao mesmo tempo, ou uma depois da outra, qual é que escolheria em primeiro lugar. Enfim, perguntas simples. Não tenho conhecimento da criopreservação das suas sogras. Ter-se-á esquecido? Ou estas não estariam com paciência para o aturar daqui a 100 ou 500 anos?
Eu sei que Ettinger leu tudo, ciência e ficção, sobre congelamento, mas não abordou “As maravilhas do ano 2000” de Salgari. Pode acontecer que enlouqueça com aquilo que irá “ver” e “ouvir” um dia. É o mais certo. Entretanto, pensando bem, não estou muito pelos ajustes em embarcar num negócio destes. Prefiro o calor e as cinzas. Sempre evito qualquer forma de ressurreição. Até para Deus deve ser muito complicado, e trabalhoso, juntar as cinzas e elementos dispersos por tudo quanto é sítio. E também não acredito que esteja muito interessado. Faz muito bem!