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terça-feira, 12 de setembro de 2006

Municípios e Bancos:inovação financeira em causa

De há muito que os Municípios portugueses entraram no domínio da inovação financeira, de braço dado com os Bancos, para gerarem receitas que lhes permitam fazer face aos crescentes encargos resultantes, entre outras nobilitantes tarefas, de assegurarem emprego a um número crescente de portugueses.
O Governo até lhes devia estar grato - na perspectiva populista e propagandística, hoje dominante - pois sem essa ajuda dos municípios onde é que o desemprego iria.
Recordo-me por exemplo do “reverse-factoring” ou factoring ao contrário.
Apercebi-me pela primeira vez dessa inovação quando, há cerca de 4 anos, em conversa com um presidente de uma câmara de alguma importância, ele me ter dito que estavam a utilizar, com sucesso, o recurso ao factoring como forma de financiamento.
Mostrei-lhe alguma surpresa pois não percebia que tipo de serviços o Município em causa poderia prestar a terceiros para lhe permitir vender as facturas emitidas.
Duvida que o presidente rapidamente esclareceu, dizendo-me: “Não, nós não prestamos serviços, pelo contrário são os nossos fornecedores que nos prestam serviços e recorrem ao factoring. Nós assumimos com a banca o compromisso de pagar a factura, mais os encargos financeiros dessa operação”.
Fez-se luz. Estava em presença de uma nova forma de factoring em que o cedente do crédito (fornecedor da autarquia) sai do circuito após a venda da factura, tudo se passando daí em diante apenas entre a factoring/ banco e o município pagador.
Vim depois a saber que essa prática se tinha generalizado, sendo utilizada por muitos outros municípios.
Está agora instalada uma polémica entre o Secretario de Estado da Administração Interna e alguns municípios a propósito do recurso, por estes, a uma forma de financiamento que consiste em vender à banca uma determinada receita (por exemplo uma renda de casa ou a receita da venda da água), por um prazo longo, que pode chegar a 20 anos ou até mais.
O Sec. Estado terá alegado que o recurso recente por parte de alguns municípios a esta fonte de financiamento constituiria uma fraude à lei, referindo-se a um projecto de lei que o Governo tenciona apresentar na A.R., dentro de algum tempo, no qual se prevê a proibição do recurso a essa forma específica de financiamento.
Essa polémica parece-me um tanto ridícula.
Também haveria fraude à lei, nesta bizarra interpretação, quando os consumidores, sabendo que a taxa do IVA vai aumentar no mês seguinte, antecipam as suas compras.
Vou limitar-me a comentar que a proibição em causa à primeira vista corre o risco de ser ineficaz.
Julgo que são possíveis diversas alternativas para uma operação com efeitos idênticos ao desta venda de créditos.
É tudo uma questão de imaginação e de capacidade criativa.
Nesse campo, tanto Municípios como Bancos deram já sobejas provas.

Efeitos colaterais


São pelo menos 43 milhões as crianças que no planeta estão impedidas de frequentar a escola por causa de conflitos armados, de acordo com um relatório divulgado hoje pela ONG Save the Children.
Ou seja, garantida está a guerra nas próximas gerações em muitas partes do mundo.

A produção da ignorância

O Prof. Massano Cardoso, no seu sucinto, mas esclarecedor e oportuno texto Agnotologia- Cultura da ignorância, define aquele conceito, na linha de outros mestres, não só como “uma realidade fruto do desconhecimento”, mas também como uma “produção cultural”.
O texto fez-me pensar que, efectivamente, a ignorância vem-nos sendo servida, de forma pura e compacta, todos os dias e a todas as horas.
A propósito do início das aulas, os jornais traziam o testemunho de vários investigadores e pedagogos, que referiam unanimemente que “aprender a ler não é fácil” e, ao mesmo tempo, que “é extremamente difícil ensinar a ler”.
Como não achava que assim fosse, escrevi o texto Aprender a ler!... em que contava como tinha dado o passo decisivo nessa, pelos vistos, agora, difícil aprendizagem. Digo agora, porque nesse tempo, apesar das condições difíceis em que a maioria dos alunos da minha terra viviam, visível na forma com chegavam à escola, molhados e cheios de frio no Inverno e já com umas duas horas de trabalho no fim da primavera, com um bocado de broa e uma sardinha para o almoço, ninguém que a frequentasse deixou de aprender a ler. Só não aprendia quem lá não ia. E os Professores eram esforçados e ensinavam bem, apesar da enormidade do número de alunos das quatro classes. A minha mãe, que foi professora, chegou a ter mais de sessenta alunos nas sala de aulas.
De facto, será tarefa difícil quando o experimentalismo e a arrogância intelectual dos pedagogos do Ministério levam a abandonar métodos já mais que testados e com bons resultados e a impor outros, científicos e da moda, que não podem deixar de conduzir a resultados catastróficos.
Por exemplo, aprendi anteontem no Público que os métodos de ensino da leitura podem ser silábicos, globais, ou analítico-sintéticos, imagine-se!... Nos primeiros, parte-se das letras e dos sons e foi assim que eu e milhões aprendemos a ler; nos métodos globais, ” a leitura é vista como um acto global e visual, isto é, ensina-se a partir da visualização das palavras, do seu todo”. Pelos vistos, visualiza-se a palavra e “depreende-se” a leitura!...
Deve ser mesmo assim, porquanto o Ministro francês da Educação, ao rejeitar o método global, referiu mesmo que “a leitura não deve ser um exercício de adivinhação”!...
Há ainda os métodos analítico-sintéticos, que fazem uma “salganhada“ dos dois primeiros.
Na França e na Inglaterra tais métodos, globais ou mistos, já foram afastados, regressando-se ao método silábico. Esperam os Governos com a medida “ contrariar os maus resultados dos alunos a nível de literacia”.
Back to basics, isto é, voltar ao método silábico, é o lema dos Governos inglês e francês.
Em Portugal, continua a dizer-se aos pais dos meninos, com grande pompa, que o seu filho vai aprender a ler pelo método global ou, na melhor das hipóteses, pelo analítico-sintético!...
Muita parra para pouca uva e um exemplo acabado da disciplina agnotológica, de que falava o Professor Massano, com a agravante de ser o próprio Ministério da Educação a fomentar a produção da ignorância e a divulgá-la nas escolas.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Mais obra pública...

Hoje o Ministro da Economia já vem a afirmar, no DE, que se o crescimento das obras púlicas tivesse ( pelo menos ) sido de 0%, em vez dos -9%, o nosso crescimento do PIB teria sido o dobro!
Aposto que vem aí a Ota a caminho...
Deixo à consideração de quem sabe muito "desta poda", o que não é o meu caso!

Aprender a ler!...

Iniciam-se hoje as aulas e a grande expectativa dos miúdos que as irão frequentar pela primeira vez é aprender a ler.
A este propósito, não resisto, num primeiro texto, a contar a minha experiência pessoal de aprender a ler e de a ligar, num segundo, com o recente texto, neste blog, do Prof. Massano Cardoso, Agnotologia- Cultura da ignorância.
A minha mãe era professora e lembro-me que assinava três jornais de assuntos educativos, a Escola Portuguesa, a Educação Nacional e o Educador.
Bem miúdo, e antes de ir para a escola, conhecia as letras, mas não tinha ainda a chave de as conseguir juntar. De qualquer maneira, gostava de olhar para os jornais, para "ver" o que diziam.
Um daqueles jornais publicava regularmente listagens de professores. Fazia-me uma certa espécie ver uma ou várias páginas inteiras com todas as palavras a começar por letras em tudo iguaizinhas. Meti-me em brios e, numa bela tarde, decidi não parar, enquanto não conseguisse decifrar o enigma, munido com o parco instrumental técnico de já conseguir juntar algumas letras, por exemplo T e U, TU.
Era uma quente tarde de verão e, sem dormir a sesta, passei umas largas horas, sentado ao sol nas escadas da cozinha, que davam para o exterior da pequena quinta onde morava, onde podia ouvir a Deolinda, criada lá de casa (na altura chamava-se assim) a cantar, e que bem cantava, enquanto lavava a roupa no tanque, à sombra, debaixo da ramada. A Deolinda, sem o saber, era a minha música da altura!.
Olhando para o jornal, se ao fim de algum tempo conseguia juntar as duas primeira letras, um M e um A, dando MÁ, não atinava com as três seguintes, por serem logo três.
Depois de a Deolinda me ter dado vários ralhetes por estar ao sol sem chapéu, verifiquei que juntar as duas segundas letras, um R e um I, fazia sentido e dava RI. Tinha então MÁ e RI. Mas, se compreendia o que era MÁ e o que era RI, não via o sentido conjunto. Se lhe juntasse o A final dava-me uma coisa MÁ RI Á, a que também não descortinava qualquer significado. Interrompendo as canções, a Deolinda lá me ia atando mais umas quantas vezes o chapéu ao pescoço e ameaçava-me com grande constipação, injecções e uns dias na cama com febre, por estar ao sol, o tempo passava, mas o certo é que eu não saía do MÁ RI Á. Só depois, perdoe-se-me a imodéstia, num lampejo de génio, comecei a repetir alto e rapidamente MÁ RI Á, MÁ RI Á…e soou-me que não podia ser outra coisa que não Maria. Saí das escadas a correr e fui ter com a Deolinda, e também com a minha madrinha, que lhe fazia companhia, a dizer que já sabia ler. Levei o jornal e não parei enquanto não lhes li os cinquenta nomes Maria de uma lista de colocação de professoras que aparecia na página do jornal. No fim, a Deolinda e a minha madrinha deram-me um beijo, de que me lembro como se ainda fosse hoje. E ouvi a Deolinda a comentar: tão pequenino e já sabe ler!...
E logo interrompeu a lavagem da roupa, dizendo que me ia fazer uma gemada para a merenda ( era assim que no campo se chamava ao lanche), porque “ o menino devia estar muito cansado da cabeça!...”
Irei a seguir ao texto do Prof. Massano Cardoso.

domingo, 10 de setembro de 2006

Quem os conheceu...não mais os compra!...


Para o Partido Comunista é negativo, reaccionário, antidemocrático e prejudicial tudo aquilo que não promove ou em que não participa.
Ainda agora, e segundo o Público de hoje, Jerónimo de Sousa classificou de “cínico” o pacto para a Justiça e acusou Cavaco de “optar pelo prato dos poderosos”, em detrimento, segundo deduzi, do prato dos trabalhadores, prato da justiça, entenda-se.
Estive recentemente alguns dias em S.Petersburgo. Procurei saber a implantação do Partido Comunista na província, creio que é assim que se chama, que tem essa cidade como capital. Foi-me dito que era de 5%. Por extenso, para não haver dúvidas, de cinco por cento!...Duvidei de uma percentagem tão baixa, para mais numa cidade onde a revolução se iniciou. Foi-me confirmado. Perguntei depois no hotel e lá me falaram outra vez em cerca de 5%.
Fiquei a pensar como são também negativos, cínicos e reaccionários os habitantes e trabalhadores de S. Petersburgo que abandonaram assim um partido que tão generosamemente os protegia!...

“Próximo objectivo: indústria alimentar”…

A prevenção das doenças constitui uma prioridade na qual devem participar os cidadãos e o próprio estado. Os primeiros modificando os seus hábitos e adquirindo estilos de vida saudáveis e o segundo regulamentando no sentido de propiciar as modificações já referidas e impedir as agressões que, diga-se em abono da verdade, pululam como cogumelos. Este fenómeno é o reflexo da ineficácia de quem tem o dever de zelar pela nossa saúde, além de traduzir poderosos interesses de natureza económica sinónimo de “desprezo” pela saúde e bem-estar dos consumidores.
A área das doenças cardiovasculares tem sido uma das privilegiadas, devido ao facto de ser a principal causa de morte no mundo ocidental, e, a breve trecho, também, nos povos em vias de desenvolvimento. No entanto, ainda estamos muito longe de atingir os objectivos, apesar do controlo de muitos factores de risco e da luta contra o tabagismo. Não podemos esquecer que a obesidade e a diabetes têm vindo a crescer de forma muito preocupante, com todas as consequências previsíveis. Significa que, em termos de prevenção cardiovascular, há necessidade de regulamentar a indústria alimentar. No último congresso mundial de cardiologia, realizado em Barcelona, ficou bem patenteado a necessidade de assentar baterias na indústria alimentar, regulamentando certos produtos cujas consequências negativas são bem conhecidas.
A falta de exercício associada a mudanças de hábitos alimentares, caso do consumo de comidas “rápida” e pré cozinhada, ricas em gorduras saturadas, hidratos de carbono e sal deverão ser alvo de atenção por parte das autoridades.
Sabemos que os medicamentos são sujeitos a apertados controlos e exigências de modo a garantir a qualidade. No entanto, no caso de certos alimentos o seu controlo – se é que existe – deixa muito a desejar. Muitos produtos alimentares possuem teores elevados de substâncias que podem provocar alterações graves na nossa saúde. A própria confecção alimentar – indústria da restauração – ao utilizar óleos de forma reiterada, sem os renovar, contribuem para a produção de substâncias muito perigosas, nomeadamente, ácidos gordos trans e peróxidos. Quem os controla? Ninguém.
Mas não é só o controlo da qualidade dos alimentos que deve ser alvo de preocupação. É preciso proibir o acesso de muitos, sobretudo às crianças, mais vulneráveis às consequências de uma deficiente política alimentar. Proibição de determinados “alimentos” nos estabelecimentos escolares, proibição da sua publicitação, fomentar o pedido de responsabilidades legais, em caso de doença, às empresas e companhias que fomentem e publicitem “alimentos” perigosos para a saúde.
As medidas de carácter legal não são as únicas nem são suficientes para a almejada prevenção das doenças, quer sejam metabólicas, cardiovasculares ou neoplásicas, mas irão dar um contributo muito significativo a par da educação e promoção da saúde individual.

Agnotologia – Cultura da Ignorância


Presumo que não é difícil de concluir que a ignorância não é, apenas, uma realidade fruto do desconhecimento, mas também é uma “produção cultural”. Neste último caso, há uma intenção em fomentar e “divulgar” ignorância. Exemplos não faltam, caso da ignorância sobre as complicações do cancro, a não divulgação de achados sejam eles referentes ao controlo ambiental ou a “acontecimentos” políticos. O não desenvolvimento de certas tecnologias por desinteresse ou por implicar consequências de natureza económica de indústrias já estabelecidas a par de limitações da investigação (mesmo respeitando as regras mais exigentes da ética) ou tentativa de desacreditar descobertas científicas são algumas realidades que apontam para a emergência de uma nova disciplina denominada agnotologia. De acordo com Schiebinger, “Ignorance is often not merely the absence of knowledge,” “but an outcome of cultural and political struggle.”
Parece que não faltam “agnotologistas” por aí…

sábado, 9 de setembro de 2006

O Pacto

Sem surpresa verifico que muitas das apreciações que estão a ser feitas sobre o pacto celebrado entre PS e PSD para a área da justiça centram-se na questão de saber quem ganhou e quem ficou a perder. E do lado de quem ganhou, quem afinal ganhou mais.
Os outorgantes, eles mesmos, esforçam-se por dar a entender que o mérito do acordo, sendo obviamente dos partidos, que revelam aliás um elevado sentido de responsabilidade, é todavia mais de um do que do outro. O próprio Primeiro-Ministro, no discurso de hoje à tarde a pretexto das Novas Fronteiras, não se eximiu a passar a mensagem, com absoluta claridade e sem meias palavras, de que se regozijava com o pacto construído sobre as propostas do PS contidas no programa do Governo.
Duas notas para além do registo desta esperada reacção dos intervenientes e dos que ficaram de fora.
Primeira nota. Sobre o mérito das soluções acordadas, para além de umas mal engendradas declarações de um ou de outro representante dos agora chamados "operadores judiciários", nada! Admito que se saiba pouco sobre as medidas, mas também não estranharei que quando se souber tudo, a atitude seja o oco discurso habitual.
Segunda nota. Boa parte das reformas agora pactuadas entre PS e PSD foram ditadas, como se sabe, pelos processos judiciais mais mediatizados dos últimos anos. E no entanto, o problema dos excessos de prisão preventiva, da violação vergonhosa, impune e sistemática do segredo de justiça, da morosidade intolerável dos processos, do obscuro sistema de acesso ao patamar superior da judicatura, da inadequação do modelo de governação das magistraturas, do papel do ministério público, dos pruidos em definir prioridades da política criminal, da falta de coordenação dos meios de investigação, da competência e da eficácia desta, da protecção contra a agressão mediática quase diária de direitos fundamentais dos cidadãos a contas com a justiça, da discussão fora dos tribunais dos casos judiciais por advogados e magistrados que despem a toga ou a beca e vestem o fato de sindicalista ou de opinador acentuando a paranoia onde deveria haver ponderação e serenidade, não são problemas que nasceram com os casos Moderna, Casa Pia, Apito Dourado ou outros a que o País assiste com a mesma gula que acompanha a telenovela das 9.
Muito antes destes processos, centenas, milhares de portugueses foram vítimas de prisão injusta porque injustificada e sem formação de culpa. Antes deles ficou incontáveis vezes sem defesa e protecção o bom nome, a família, a fazenda ou a liberdade porque a demora da justiça se transformou em aviltante denegação de justiça. Antes deles, após a espera de muitos e muitos anos portugueses e portuguesas morreram sem verem a indemnização a que tinham direito sentenciada ou a pensão a que tinham direito ignorada ou a dignidade e o seu bom nome repostos após reiterados enxovalhos e vexames públicos.
O mal residiu então nas leis que ainda temos? Talvez residisse. Nas leis feitas precisamente pelos mesmos que agora as reformam numa retratação louvável...
Mas não pode deixar de sentir-se que o repentino despertar para essa realidade teve afinal como causa não o protesto dos milhares de portugueses a quem foi feita má justiça porque baseada em suposta má lei, mas o altíssimo som das parangonas sobre os casos mais mediáticos envolvendo mediáticas personagens!

Eu, que levo mais de 20 anos de trabalho como advogado, tenho o meu juizo feito sobre os males da justiça. Há já algum tempo que se me faleceram as ilusões sobre a eficácia destas reformas quando ditadas pelas conjunturas que revelam, afinal de contas, a fraqueza do Estado em aplicar a lei a todos. Mas estou pronto e interessado em tornar-me no mais entusiástico optimista se por efeito de algumas das leis cuja promessa de alteração agora se contratualizou, puder ver resolvidas definitivamente acções que propuz nos ínicios dos anos 90, julgadas no fim dessa década ou já neste século, a aguardar há 3 anos a redacção da sentença em 1ª instância!

Para que na mente de quem me lê não fique a dúvida acerca da razão para este cepticismo, direi que o mal não está, a meu ver, onde o querem surpreender.
O mal está antes na atitude da sociedade perante a justiça. Questão que daria para um livro gordo!
E está sobretudo na boa formação humana e cívica, na atitude e na competência de advogados, magistrados e funcionários. O problema está em que, faltando estas, a falta não se supre por decreto. Infelizmente...
Haverá hipóteses de se pactuar algo capaz de mudar a atitude das pessoas perante a justiça? E outro capaz de mudar as pessoas que fazem a justiça? Se houver, nesses depositarei esperança. E sentirei então vontade de, como nos ingénuos primeiros tempos, voltar a escrever justiça com maiuscula.

Isto de burocratas não é só no Estado!

O noticiário das 10 horas de hoje da SIC incluiu uma reportagem do jogo de ontem entre o Desportivo das Aves e o Braga.
Fiquei estupefacto ao ouvir o resumo. O “jornalista” de serviço não mencionou o nome de um só jogador. Limitava-se a dizer que o nº 2 tinha passado a bola para o nº 5, ou que o nº 9 falhara o remate ou que o nº 16 tinha feito uma falta….Os jogadores, pura e simplesmente, não tinham nome!...
Pareceu-me que o escriba pretendia assim protestar com as deficientes condições encontradas pela sua excelsa pessoa para fazer a reportagem e, porventura, por não lhe ter sido atempadamente entregue em bandeja de prata a lista dos jogadores.
Se não a tinha, o seu dever mínimo seria obtê-la ou perguntar aos colegas. Isto deixando passar a dúvida sobre se qualquer jornalista desportivo profissional, muito ou pouco distinto, não deve mesmo é conhecer todos os jogadores. Se não conhece, não é profissional nem competente.
Independentemente disso, o caso só prova a arrogância do senhor.
Na reportagem dirige-se aos telespectadores, que merecem respeito, assim como os jogadores que, como ele, têm nome.
E também prova o desleixo dos editores, directores e apresentadores que consentem tal atitude.
Com isto, a SIC não esteve ao serviço dos seus clientes, os telespectadores, mas apenas a servir a sua instalada burocracia jornalística. Que isto dos burocratas não é só no Estado!...

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

“Matter into Imagination”

“Cogito Ergo Sum”


Uma artista inglesa, Susan Aldworth, sofreu um acidente de viação. Fez exames, nomeadamente TACs (tomografias axiais computorizadas cerebrais), para detectar eventuais lesões. Não tinha nada, felizmente. Mas inspirou-se nas radiografias para produzir vários quadros numa exposição que ela designou por “Matter into Imagination”.
“Com estas pinturas quero mostrar o que se visualizaria nas imagens de uma tomografia se esta pudesse mostrar o que se passa na mente, e não só a estrutura física do cérebro”.

“Luso criacionismo”…

Na semana passada li uma notícia segundo a qual o papa ia reunir com os jovens para discutir o criacionismo. É de prever o que irá sair da dita.
Hoje, no Público, duas crónicas sobre o assunto. Vasco Pulido Valente com “Evolução e Criação”, interessante e lúcida análise sobre o tema, e Jónatas Machado com “O Papa e a evolução”. A última é um manifesto a favor do criacionismo. Outros mais irão surgir deitando por terra os argumentos de alguns que afirmavam que estas ideias nunca passariam o Atlântico. Qual quê!
As ministras da educação da Itália e da Sérvia, o próprio arcebispo de Viena, só para falar de alguns, contribuíram para despertar uma velha polémica na Europa.
As “coisas” não devem estar muito bem para os defensores de determinadas correntes religiosas ao tentarem por em causa a ciência.
Só espero não ser “obrigado” a abjurar a teoria da evolução!….

Agitação em Macau: curiosidades

Não, não se pense que com este título me estou a referir ao mesmo tipo de agitação que se tem verificado em Timor Leste nos últimos tempos.
Trata-se de uma agitação bem diferente pois respeita ao ambiente de frenética concorrência na exploração dos jogos de fortuna e azar que hoje se verifica naquele território que, desde 2002, deixou de estar sob administração portuguesa substituída pela administração chinesa.
A partir dessa data, a exploração da zona de jogo de Macau foi liberalizada e, passados menos de 4 anos, os principais empresários do jogo de Las Vegas decidiram investir fortemente em Macau, modificando radicalmente o cenário de monopólio que existiu até 2001 que, como se sabe, beneficiava o grupo de empresas do conhecido empresário euro-asiático Stanley Ho.
Vários aspectos curiosos ressaltam desta mudança radical.
Primeira curiosidade é mesmo esta, de após a mudança da administração portuguesa para a administração chinesa se ter verificado uma liberalização da principal actividade económica do território, que é o jogo-turismo.
Sim, foi a administração chinesa, de inspiração oficial comunista, que liberalizou um negócio que a administração portuguesa mantinha em regime de quase exclusivo, em monopólio legal.
Percebe-se que os “media” portugueses tratem o assunto com um certo alheamento, uma vez que esta alteração escapa (ou até ofende?) ao seu quadro de pensamento sócio-político, dominantemente de raiz socialista conservadora.
Segunda curiosidade: a concorrência dos empresários de Las Vegas, Sheldon Aelson e Steve Wynn, traduzida na abertura de duas novas unidades hotel/casino, o Sands Macau Casino (aberto em 2004) e o Wynn Macau (inaugurado esta semana), tem imprimido uma forte dinâmica à actividade económica do território, tendo dado um grande impulso à construção civil em especial.
Está prevista para o próximo ano a abertura de uma nova unidade do grupo Adelson, o Venetian Macau, um projecto de 2,3 mil milhões de USD, incluindo um hotel com 3.000 suites e 750 mesas de jogo – um mega “resort”, que ultrapassa muito a dimensão dos dois em actividade.
Terceira curiosidade: o facto de Macau, com o grande incremento da actividade de jogo estar muito próximo de atingir os índices de apostas de Las Vegas, devendo mesmo ultrapassar aquela famosa metrópole de jogo americana em 2007.
Com efeito, no 1º semestre deste ano, o volume de apostas foi em Macau de 3,1 mil milhões USD enquanto em Las Vegas atingiu 3,3 mil milhões. E a taxa de crescimento é bem maior em Macau.
Quarta curiosidade: a reacção um pouco controversa de Stanley Ho à nova concorrência, traduzida numa troca de piropos em especial com Sheldon Adelson, que a edição do Financial Times de 6 do corrente relata com muita graça.
Stanley Ho parece ter aceitado de forma pouco fleumática a redução significativa da sua quota de mercado no jogo de Macau, de mais de 85% para menos de 70% em apenas 2 anos.
Mas é bem possívell uma diminuição mais acentuada nos próximos dois anos.

Uma grande realização comunista!...


S. Petersburgo é uma cidade grandiosa.
Faz parte dos quatro ou cinco sítios em que a realidade superou bem o que deles havia imaginado, a partir das leituras, dos romances, da propaganda turística.
Fundada por Pedro o Grande em 1702, foi capital da Rússia de 1712 até 1918.
Em 1914, o nome, de origem alemã, foi "russificado" para Petrogrado.
Em 1924, o regime comunista russo, à falha de outras realizações, criou a cidade de Leninegrado, precisamente no sítio, com os mesmos edifícios, praças e ruas e com a precisa configuração geográfica de S. Petersburgo ou Petrogrado.
Na década de 90, por refendo levado a cabo já pelo regime democrático, a população optou por tornar a dar à cidade o primitivo nome de S.Petersburgo.
O que, aliás, confirma o "gosto" que as populações tiveram com o grande inspirador das heróicas e gloriosas conquistas da Revolução de Outubro!...
E nós, por cá, ainda temos quem glorifique tão excelsa "personagem"!...

"Toro de la Vega"



Os espanhóis têm uma estranha tradição – morte de touros – que incomoda, naturalmente, muitas pessoas. A par dos touros de morte, a sua capacidade atávica, e verdadeiramente troglodita, reveladora de um sadismo face ao não respeito dos direitos dos animais está bem patenteado no Toro de la Vega. Na mítica vila peninsular de Tordesilhas, todos os anos, numa quarta-feira de Setembro, um bando de selvagens persegue pelo campo um touro, picando-o, retalhando-o, com pavorosas lanças provocando um sofrimento estúpido ao pobre animal. Muitos cidadãos espanhóis, civilizados, e não portadores de taras, insurgem-se cada vez mais contra esta prática, e outras, incompatíveis com uma Espanha civilizada e em franca expansão. Os defensores da prática argumentam que tratam os animais com "muito carinho" (!) e com o máximo respeito pela tradição. O que é que poderia acontecer ao animal se não o tratassem com tanto desvelo? Quanto à tradição é um argumento falacioso. A frase segundo a qual "a tradição já não é o que era" é de levar em linha de conta, e ainda bem! As tradições nascem, envelhecem e morrem. Algumas demoram muito tempo a morrer, revelando uma decrepitude patética, exigindo uma boa e valente "eutanásia". Espero que ninguém se lembre de constituir alguma comissão de ética com o objectivo de impedir a eutanásia de tradições meio parvas e incompatíveis com os valores dos seres humanos e direitos dos animais!
Esta reflexão fez-me recordar a polémica de fim de Agosto que, entre nós, constituía uma "tradição": os touros de morte de Barrancos. Todos os anos era o motivo número um dos telejornais e periódicos, além dos inúmeros debates que suscitava. Eram entrevistas, eram debates, eram directos, era uma romaria que, freneticamente, levava as pessoas, umas a favor, outras contra, à vila meio perdida do Alentejo. Barrancos tinha os seus dias de glória no final de Agosto. De repente, a Assembleia da República decidiu produzir uma lei para que os cidadãos de Barrancos mantivessem a tradição sem sobressaltos legais. Desapareceram as notícias e o interesse pelos touros de morte barranquenhos. Não se diz nada, as pessoas deixaram de peregrinar para aquelas bandas e, de acordo com a informação prestada pelos autóctones, cada vez é mais difícil realizar as festas. As dificuldades são sentidas, o interesse da comunicação social desapareceu e, por este andar, a falta de interessados, aliada a uma maior consciencialização dos jovens irão ditar a morte de uma tradição "legitimada" por uma disposição da AR, na expectativa de acabar com as tremendas confusões criadas ao redor do assunto.
As tradições também se abatem...

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Equilíbrio de direitos

Um episódio durante a minha recente visita a S. Petersburgo levou-me a pensar mais uma vez no absurdo das propostas que visam forçar a integral e imediata realização de alguns direitos, nomeadamente económicos e sociais, como vem sendo proposto por muitos em Portugal.
Numa conversa, perguntava eu qual a situação da construção de casas para habitação em S. Petersburgo.
Foi-me respondido que agora se construíam cerca de metade das casas que eram construídas durante o regime comunista. Fiquei um pouco admirado e procurei saber a razão.
Durante o “comunismo”, o Estado era o único construtor. As casas eram pequeninas e de fraquíssima qualidade. Depois de inscritas, as pessoas lá iam recebendo a sua habitação, pagando ao Estado uma “renda” bastante simbólica. O regime ia formalmente assegurando o imperativo constitucional do direito à habitação, direito esse bem necessário num país com condições climáticas muito adversas durante longos meses do ano.
Mudado o regime, o Estado passou a construir menos, confiando que a iniciativa privada e o crédito à habitação fizessem o resto.
O entusiasmo inicial logo esmoreceu, porque de imediato se verificou a impossibilidade de a Banca receber as prestações devidas pelo crédito concedido e de fazer valer os direitos sobre as casas, pela razão do direito absoluto ao tecto estabelecido constitucionalmente levar as pessoas a não pagar as prestações, não podendo também ser “despejadas”.
Tal como entre nós no emprego, tende a defende-se quem tem, em detrimento de quem não tem.
Segundo me referiram, a situação estará prestes a ser resolvida, através de um mais cuidado equilíbrio de direitos, começando a notar-se já um incremento da construção, mercê das expectativas favoráveis geradas.
É mais um exemplo de como a tentativa de concretização forçada de generosos objectivos constitucionais pode resultar em efeitos absolutamente contrários.
Como aconteceria com as espalhafatosas propostas de Louçã e de todos aqueles que propõem a plena e imediata realização do direito ao trabalho e do emprego para todos, aliás bem acompanhados pela Constituição portuguesa, que estabelece no nº 2 a) do seu artigo 58º que incumbe ao Estado “ a execução de medidas de pleno emprego”…
Confesso que não gostaria de ver os resultados desta política!...

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Tudo igualzinho!...

Depois de dez dias em países de línguas bárbaras, incompreensíveis para um cidadão medianamente dotado, no regresso as notícias são exactamente as mesmas: a magna questão dos voos da CIA, as lesões de Rui Costa e de Simão, a eterna luta de Louçã pelo aumento do desemprego e do subdesenvolvimento, através das suas medidas proteccionistas, o relevante caso Mateus.
Minto, já que há uma novidade fundamental: Carlos Coelho recebeu do Ministério dos Negócios Estrangeiros uma carta diferente da de Ana Gomes, o que é grave e atentatório dos direitos fundamentais, já que em democracia o jogo deve ser limpo e as cartas totalmente iguais!...
Em grossas letras um jornal anunciava o regresso de Simão e Rui Costa no jogo com o Boavista, enquanto a rádio dizia que não!...
Louçã continua impante como um dos donos de referência dos noticiários televisivos!...
Como na altura da saída, a FIFA continua fula com Portugal e Madaíl um bem comportado funcionário da mesma.Também li que a Europa se espanta com estes acontecimentos.
Aqui confesso que também eu me espantei. É que fui sempre procurando a palavra Portugal nos periódicos dos diversos locais onde estive. Confesso que nunca encontrei tal conjunto de letrinhas.
Compreendi, no regresso, que este e os restantes assuntos portugueses relevantes são porventura demasiado complexos para mentes tão bárbaras e deseducadas.
Uma coisa no entanto me animou: é que vi, aqui no blog, num "post" do Ferreira de Almeida, que o Governo tinha tomado a decisão histórica de alterar o limite de velocidade de 120 para 118 quilómetros por hora nas auto-estradas.
Podemos pois viver o presente, que um futuro risonho se afigura cada vez mais lento!...
Nota relevante: E também vi que a Clara Carneiro já regressou aos seus passeios por Lisboa e ao blog, em excelente forma. Por aqui, as coisas vão certamente melhorar!...

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Lisboa é uma cidade bonita, mas...

Hoje tive de ir à Rua da Trindade.
Barafustei, resmunguei, mas lá acabei por fazer o favor que uma das minhas filhas me pediu!
Mãe é Mãe...
...e logo hoje neste dia tórrido, pensei para comigo. Tem mesmo de ser hoje?
Tinha!!!

Lá fui pensando, para me alegrar, como Lisboa é bonita, como a zona alta da Baixa se modernizou em comércio, se recuperou nos edifícios, se encheu de gente.
Sinceramente acabei por me achar a fazer turismo, há muito que não andava a pé por estes sítios e cruzei-me com mais turistas do que com concidadãos.
Passado o lindíssimo Chiado, cheio de gente, subida a R. da Misericórdia, prestes a acabar os restauros dos velhos edifícios, olhando para tràs de vez em quando porque aquele Tejo ao fundo encanta qualquer retina...cheguei à Trindade e não resistir a descer até às ruínas do Carmo.
Aí deparei-me com o largo repleto de gente, uma excursão de nórdicos extasiados com o Convento, a luz de Lisboa e, esfomeados como eu, sentaram-se numa pequena esplanada que está em frente às ruínas, um pouco sobre a direita da porta do Convento.
Eu olhei em volta, não vi nada onde pudesse comer ao balcão uma sanduiche e beber uma água, vi uma sala muito requintada chamada "chá do Carmo", logicamente para lanchar daí o estar fechada ( em Portugal somos muito esteriotipados com estes preciosos horários...) vi um restaurante indiano mto. invernoso e sem ninguém lá dentro e quando me questionei a quem pertenceria aquela pequena esplanada que os nórdicos tomaram de assalto ( alguns, porque a maioria ficou de pé...sem lugar ) vi um toldo mto. sujo com um nome impresso: "Leitaria do Carmo".
Entrei, a esplanada pertencia-lhes!
Lá dentro estava eu, um bêbado e um sem-abrigo que, percebi, ía ali comer um pão com queijo e beber uma cerveja com a frequência que a caridadedo dono da leitaria aceitasse!
A leitaria tem lá uma data dos princípios do séc.XIX, uns ajulejos alguns de época, outros de restauro, uns tectos de estuque trabalhado, um balcão inenarrável de sujo e uma casa de banho que me fez pedir aos santinhos que, por milagre, nenhum dos estrangeiros se lembrasse de lá ir. Claro que os santinhos não me ouviram...e eu senti vergonha!
Pedi uma tosta mista que o empregado aqueceu mum micoondas e que devia estar feita da véspera, claro que ficou duríssima...olhei em volta e a única coisa que consegui pedir foi um bolo de arroz.
Mas fiquei, estoicamente, a olhar cá para fora a ver o que iriam eles comer.
Pediram umas tradicionais omoletas com umas batatas fritas tudo bem azeitado e servido em travessas de alumínio, numas mesas desgraçadamente postas, por ums empregados que nunca devem ter ouvido pronunciar a palavra "hotelaria". Beberam que se fartaram e, presumo, devem ter saído todos contentes...eu vim embora!
Será que eles sairam todos contentes? Estão de férias, em grupo, acham piada.
Eu não achei piada nenhuma...já nem falo na parte higienico-alimentar, falo naquilo que os olhos veem.
A Câmara de Lisboa não poderá impor regras em sítios destes, de visita turística, não poderá "padronizar" o arranjo das mesas, o tipo de loiça, o pessoal, o arranjo dos lavabos...sei lá, há muito que não me sentia tão diminuída no meu ego português...
À tarde comprei "o Público" e vejo "PORTUGAL ACOLHE ANÚNCIO DAS NOVA SETE MARAVILHAS DO MUNDO".
É verdade, Lisboa será palco, no próximo ano, desta cerimónia que pretende ter a dimensão de uma abertura de Jogos Olímpicos, diz o jornal.
Dr. Carmona Rodrigues, venha a este blog...

"Quanto mais cedo melhor"...

Em Espanha, a entrada dos sistemas de pontos foi acompanhada de uma diminuição acentuada de acidentes rodoviários fatais. O receio em ser penalizado, com os consequentes amargos de boca, fez com que os automobilistas espanhóis passassem a ser mais cuidadosos. Perante esta situação, os cidadãos questionam por que motivo as autoridades não tomaram esta atitude mais cedo, já que podiam ter sido poupadas muitas vidas. Aqui está uma pergunta pertinente e que se prende com o papel dos governos que adiam ou demoram a tomada de iniciativas que visam a protecção, saúde e bem-estar das pessoas. Não há dúvida que a função regulamentadora da lei – que muitos consideram como uma intromissão na vida das pessoas e até como um "atentado" aos direitos de cada um – acaba por ter efeitos muito positivos na saúde e bem-estar. Vejam-se os exemplos da introdução dos cintos de segurança, o estabelecimento dos limites da alcoolemia, as inspecções periódicas obrigatórias dos veículos automóveis, o uso das cadeirinhas e os cuidados especiais no transporte de crianças, na redução dos acidentes e das suas consequências. Claro que o mais difícil, e mais complexo, está ainda por fazer, que é "educar" as pessoas.
A melhoria da educação cívica leva muito tempo a produzir efeitos, mas, de qualquer modo, as medidas legais que acabamos de descrever, além de terem um efeito directo, também exercem pressão na interiorização de uma melhor consciencialização cívica.
Outro aspecto de natureza regulamentar prende-se com a proibição de fumar. Alguns países já adoptaram medidas nesse sentido. Entre nós, aguarda-se com natural ansiedade a publicação da lei. Parece que começa a haver alguns recuos face à pressão dos interesses da indústria da hotelaria e da restauração. Se tal acontecer é muito mau sinal, porque os trabalhadores deverão ser protegidos das agressões dos clientes, assim como os não-fumadores. Começam a surgir evidências de que as medidas legais de restrição ao consumo de tabaco se acompanham de diminuição de mortalidade e morbilidade. Perante estes elementos, os cidadãos (conscientes) poderão perguntar: se o Estado sabia que estas medidas eram positivas para proteger a saúde, por que razão não as tomou há mais tempo?
Outro aspecto, importante em termos de saúde, diz respeito à alimentação. Más práticas aliadas a uma patética globalização estão a criar uma perturbadora epidemia de obesidade a que não escapam as crianças nem povos, tradicionalmente, "magros". Hoje, é possível ver chilenos, portugueses, chineses e outras comunidades a rebentarem pelas costuras, bamboleando bóias abdominais como se fosse a coisa mais natural do mundo! Come-se mal, e com tendência para uma uniformização, o que é um perfeito disparate. Comer o mesmo prato em Montevideu, Pequim, Maputo ou em Coimbra, com os mesmos ingredientes e idêntico sabor, é uma realidade que tende a generalizar-se em detrimento da alimentação tradicional, a qual devia ser incentivada. Não devemos esquecer que a alimentação tradicional respeita vários factores, nomeadamente a interacção entre o nosso património genético e as condições ambientais, próprias da região onde nascemos e vivemos.
Sabendo da impossibilidade em regulamentar a alimentação, em termos de hábitos, como é óbvio, mesmo assim os legisladores têm a obrigação de intervir no controlo da qualidade dos alimentos e na proibição de alguns produtos, por exemplo, a utilização de óleos e azeite ricos em ácidos gordos trans que abundam na restauração e cujos efeitos na saúde são muito perigosos. Podíamos focar outros aspectos, desde a utilização excessiva de sal a muitos aditivos artificiais, passando pelos contaminantes naturais e não naturais. Um dia, os cidadãos perguntarão, por que razão só "agora" é que o Estado tomou estas iniciativas? Em termos práticos, o Estado já deveria ter tomado medidas regulamentares, porque já sabia dos seus impactos na saúde. Mas, ao não fazer, como pedir responsabilidades aos seus actores?
Na política, vão saindo uns, outros vão entrando, a um ritmo tal, que cada um acaba por tirar a água do capote, com a maior naturalidade, sempre que se pensa em responsabilidade!
Responsáveis políticos que respeitem a saúde e bem-estar dos cidadãos são bem-vindos. Não os que adiam, mas também não os que querem vender gato por lebre, porque também os há, infelizmente...

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Gil Vicente

Não, não é esse.
Este sítio não fala de futebóis.
Este revela, de uma forma magnífica, o génio de Gil Vicente.
É o sítio do Teatro de Gil Vicente. Pode assistir a peças ou lê-las no original. Apreciar o making of das peças, consultar uma excelente rede de conceitos ou a cronologia dos principais factos históricos do tempo do autor.
Um luxo adicional: a conversão para português contemporâneo das expressões originais.

Este subiu à 1ª liga dos meus favoritos.